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05 setembro 2014

conjugado

Dei a volta em meu conjugado como quem mergulha no abismo do mundo
E esperei 
Como quem espera que as paredes se abram como as latas, as gueixas e sésamo 
E percebe que tudo podia ser tal qual num baile infestado de baratas
Em que as pernas mal tocam o chão
E se enfurnam em outras pernas que sobem até os ventres
E se misturam com seios e braços chegando até o nível de uma cabeça ausente

Espero nessa ausência do conjugado mergulhado no abismo do mundo
Que a espera não seja mais do que isso:
Sentar, e nada tocando o nada até que ele seja o mais importante
O nada que sobra e salva
Por isso, sempre que possível, olhar para o conjugado
Não como um lugar pequeno de falta
Mas como excesso, e concentração, e síntese
Como as pinceladas grossas de van gogh ou as estocadas certeiras de um ator pornô.

Plano:
Encontrar em um filme do cine íris luis capucho cantando aids
E ver nas portas das igrejas mais umbrais que santos, mais velhas que velas, mais shorts que shots
Encontrar nos bancos dos largos do machado não aqueles que te assaltam porque eles se escondem pelas avenidas imensas e você sequer sabe se eles existem
Fazer amizade com a moça da barraca de cachorro quente sem sequer ter comido um cachorro quente lá
E estar mais próximo dela porque é a única que vende cerveja na porra das duas da manhã durante a semana
E quando o flamengo ganha é preciso uma cerveja sentado naqueles bancos
Conversando com algum paraíba e alguma gringa (porque todo cachorro quente tem um paraíba e uma gringa, ambos igualmente sedutores)

Por fim na espera e na volta do conjugado
Que me leva ao passeio pelo meu bairro – o único que existe – porque ainda conjugado
Encontrar a espera de repetir tudo isso num loop infinito de coisas que ninguém nunca entende quem sou o que faço
Nossa, aquele baixinho legal engraçado bêbado que faz teatro todo mundo conhece parece legal sei lá
Deixar que a cerveja defina enquanto não encontro nada melhor
A poesia quase sempre me cansa a cabeça
E o mundo não é encantado
Hamlet estava errado
O jogo é meu
E Conjugado.

04 abril 2012

sobre eu não existir (em grande parte do dia)

Entro no meu prédio e dou boa noite ao porteiro. Entro no elevador e vejo a câmera me vendo. Saio e no corredor tem outra câmera. Viro a chave, a fechadura range e eu entro em casa. Acabou.
A verdade é que dentro de casa eu não existo. Enquanto estou dentro de casa, no meu conjugado minúsculo, eu não existo para o mundo e ninguém simplesmente é capaz de lembrar de mim. Os que gostam de mim, nem sequer pensam; quem me ama, sente o amor como uma vertigem; meus pais me acham uma espécie de cazuza, um filho que morreu e vai longe longe; até meu gato esquece meu cheiro e só vai relembrar quando, em alguns dias, faze-lo me sentir de novo.
É que essa espécie de solidão é um portal para a dissolução da existência. É que nesse meu cantinho é assim que as coisas devem ser, fechadas, trancadas e inacessíveis. Se por um momento, apenas um, eu souber que pessoas pensam em mim enquanto eu estou aqui, esse aqui que me é tão caro vai se tornar insuportável. Tenho a impressão que é assim sempre e que é preciso se abandonar com frequência. Dormir seja talvez o momento em que até você mesmo resolve parar de pensar em si e os outros só acordam quando você dorme e viaja no etéreo do sonho.
Aqui eu não existo, não. E quando saio às vezes até demoro a voltar a existir. É que pesa existir o tempo todo. Por isso que decidi entrar aqui e desvanecer. Tchau mundo, entrei e fui embora. Inclusive, enquanto você lê isso, eu estou não existindo. Talvez nem respire.