Após assistir todos os filmes candidatos ao Oscar, pelo menos os candidatos a Melhor Filme, resolvi fazer um Top com eles:
1- Indomável Sonhadora
O melhor filme. Sensível, belo e forte, mostra uma menina de 6 anos em um universo absolutamente hostil, intercalando seu imaginário com a conturbada relação com seu pai. Merecia o Oscar e poderia facilmente ganhar uma vez que se mantém nos moldes que a academia adora.
2 - Amor
Haneke faz uma bela obra poética sobre o amor e o envelhecimento. Ao mostrar-se mais humano, mais esperançoso e menos violento conseguiu um equilíbrio que lhe levou direto ao Oscar. Sinto-me mal ao falar desse filme porque creio que tudo que fez "Amor" ser candidato é devido a um enfraquecimento da força do diretor. Fora isso, está longe de ganhar como Melhor Filme. Deve ficar com a estatueta de Filme Estrangeiro.
3- Django Livre
Tarantino completa sua trilogia da vingança agora dando voz aos negros. Irreverente e debochado, o diretor tem mostrado cada vez mais um lado político em suas obras e por isso vem crescendo como candidato a prêmios, apesar disso o Oscar ainda está longe: a academia quer alguém que celebre seu cinema, a ironia de Tarantino que volta para si e para o cinema americano gera um abismo entre ele e as estatuetas. Deve ganhar como Roteiro Original.
4- As Aventuras de Pi
Lee faz um filme exemplar. A trama fabular e parabólica é tão poetica, simples e potente que não se sabe se está em um filme mesmo ou se retornou a infância para ouvir as histórias de Crusoé. Pi e seu Tigre formam uma das mais interessantes duplas do cinema, lutando pela sobrevivência à partir da convivência. No fim, uma despedida da fábula, a dúvida, o fim da obra. Merece e pode ganhar o Oscar, mas dificilmente será lembrado.
5- O Lado Bom da Vida
Drama com formato de comédia ou comédia em forma de drama, a obra consegue mesclar a loucura de um ser em recuperação com sua família desajustada, indo de encontro a um novo amor, também pautado por uma espécie de loucura. A empatia, a complascência, a vontade de ajuda-los em meio à risadas é inevitável. Talvez seja o filme que mais recomendaria para um público comum: mantém as fórmulas tradicionais, mas escapa delas por pouco, gerando tensão.
6- Os Miseráveis
Musical no sentido clássico: caro, pomposo, gritado com emoções exageradas e excesso de cores para contar a bela história do poeta romântico Victor Hugo. Baseado no musical homônimo da Broadway, não consegue em tela o mesmo impacto que deve haver no teatro. Fica parado, dá preguiça. Dará o Oscar de Atriz Coadjuvante para Hathaway.
7- Argo
Aflleck avança, mas ainda faz um filme fraco. Uma mistura de gêneros que não se concretiza, como se várias flechas apontassem para vários lados, mas na prática quase não se sai do centro. Vale por cinco minutos de tensão finais quando todas as energias se concentram na fuga dos refugiados. Apesar de nada ter a dizer sobre o filme, que achei "comum", é o favorito ao Oscar de melhor filme. Lamento por isso.
8- A Hora Mais Escura
Depois de Guerra ao Terror, Bigelow se manteve igual: faz filmes sobre guerras, frios, pautados nas estratégias de guerra e mais nada. É americano e acredita no poder bélico de seu país. Tenta trazer algum grau de crítica à ação, mas a obra cinza, poeirada, se torna praticamente um fardo para quem tenta assistir. Não via a hora de Bin Laden morrer pra seguir minha vida.
9 - Lincoln
O bonequinho não sai, mas eu saio. Spielberg podia parar pra sempre e vender quibes em domicílio.
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20 fevereiro 2013
Oscar 2013 - Os melhores
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22 janeiro 2013
A Hora Mais Escura (2012)
Caetano Veloso no
álbum “Circulador de Fulô” de 92 canta ao lado de "Black or
White" de Michael Jackson um poema-rap entitulado “Americanos” que
em determinado momento diz:
Americanos são
muito estatísticos / Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos /
Olhos de brilho penetrante que vão fundo / No que olham, mas não no
próprio fundo. E destacando
essa situação do brilho no olhar americano destaca também que essa
felicidade sem fundo está em decadência: “Americanos
sentem que algo se perdeu / Algo se quebrou, está se quebrando.”
Depois
dessa introdução, que deixo como epílogo sem muitos comentários,
começo a falar de “A Hora Mais Escura” (2012) de Kathryn
Bigelow, vencedora do Oscar 2009 com “Guerra ao Terror” que
disputava na época com o caríssimo e feliz pra foto “Avatar”.
“Guerra ao Terror”, filme de um tédio sem fim - que vale apenas
pelos minutos finais - é sobre desarmadores de bombas em plena
guerra no Oriente Médio. Em “A Hora Mais Escura”, Bigelow se
esforçou para tentar encontrar um buraco mais embaixo, uma
densidade, um sentimento, alguma coisa, qualquer uma, mas novamente a
experiência fracassa.
O
filme que promete retratar a captura de Osama Bin Laden não consegue
escapar daqueles pequenos conflitos de estado entre “uma grande
funcionária (Jessica Chastain) da CIA diz descobrir algo que até
então ninguém descobriu, mas é atrapalhada pelo sistema e pelo governo
que não lhe dá credibilidade.” Aí o filme fica nesse chove não
molha, até que o governo resolve aceitar o plano dela e todos vão
atrás do Bin Laden. “A Hora Mais Escura”, de belo título, é só
sobre isso: uma caçada quase no escuro, e nada mais.
A grande questão, no entanto, me parece
estar naquilo que fala Caetano. O americano olha fundo no que olha, mas não
no próprio fundo e aquilo que não tem fundo, não consegue perceber
o outro. A noção de indivíduo americano, ou seja, quando tudo se
foca em um ser, na preservação desse ser e de como ele é
importante e genial, “uma vida abençoada por deus”, não cabe na
questão Islâmica. Lá não há indivíduo nesse nível, não há
esse conceito, essa noção, então os ataques americanos que para
eles são o auge da vingança, para os muçulmanos são quase
irrelevantes na perda de vidas, mas se configuram como um ato
profundamente ofensivo perante sua crença. E, sem fundo, os
americanos não entendem, ficam perdidos e na tentativa de contar sua
própria história contra os árabes, se mostram tontos, bobos,
infantis, com uma excelente máquina de guerra, mas um
desenvolvimento intelectual, social e político de um nematelminto.
“A
Hora Mais Escura” só serve para os americanos e para o Oscar.
Qualquer outro olho em qualquer lugar do mundo vai ver aquilo tudo
com suspeita, sem empolgação. Com preguiça de reinventar a si
próprio, o filme e os americanos transformam aquilo que era pra ser
heróico em algo particular, quase supérfluo.
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