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11 setembro 2012
shuffle
Shuffle não é um sistema, não é uma ideia, mas uma lógica. Uma lógica que vê o mundo através daquilo que é convulso, desencaixado, desorganizado, epilético. Shuffle não é contra a ordem, é conta a mistificação da ordem. Shuffle não é contra o padrão, ele desacerta o padrão para que ele reinstaure algo de revolucionário.
Shuffle não se interessa pelo novo, mas pela novidade do velho, pela nova composição daquilo que já existe. O novo para o Shuffle é da ordem do consumo. O velho é seu ponto de partida, seu universo de criação e nele é capaz de criar um mundo com tudo que já existe. Shuffle é também reciclagem, é atentar para os restos, para os escombros. Shuffle já existia antes e vai voltar no fim da lista.
04 setembro 2012
Entrevista Shuffle
Entrevista na íntegra de Letícia Knibel comigo que resultou na matéria da Revista On.
![]() |
| foto divulgação |
Em que você se inspirou para escrever
o conto Shuffle? E como surgia a ideia da peça?
Junto disso, achei interessante pensar sobre um Ipod Shuffle: um aparelho eletrônico e, por isso, semi-artificial, que tem como função escolher aleatoriamanente a ordem das músicas que o sujeito vai ouvir. Maior simbiose entre homem e máquina impossível.
Escrevi o conto e mostrei pro Leandro
Romano, membro do grupo e um dos diretores da peça que pensou na
transposição da lógica shuffle para o teatro.
Qual o diferencial dessa peça e o que o público pode esperar da mesma?
Não sei se falaria em diferencial
porque praticamente tudo já foi feito em termos de arte. Mas o
bacana da peça é que o ator em cena atua de acordo com as música
que o Ipod Shuffle tocar. Ele opera o Ipod que escolhe músicas e
cada música representa uma cena. Assim, a peça se constrói e se
desconstrói a cada dia, uma vez que ela não possui uma ordem
definida previamente. Deixar a cargo do Ipod essa escolha submete o
ator e a plateia à uma ordem superior de comando, ao mesmo tempo que
passa uma ideia de impotência frente ao poder desse pequeno
aparelho.
De que maneira a peça pretende abordar a problemática do distanciamento causado pela 'excessiva' virtualização, onde o real se afasta cada vez mais ou é substituído pelos novos meios de comunicação?
Nesse caso respondo apenas por mim e
não pelo grupo. Acho que cada um deve ter uma visão diferente do
caso.
A verdade é que nessa pergunta fica no
ar um aspecto de demonização da tecnologia em prol de um “real”
e “verdadeiro”. Em Shuffle, o que se pretende não é criticar
nem elogiar a tecnologia, mas mostrar como ela é um meio que está
simbioticamente ligado ao homem. Não sei até que ponto a
virtualização é excessiva e também não sei se, caso seja, isso é
ruim. A forma como construímos nossa subjetividade é completamente
ligada à tecnologia, negar isso é ingenuidade e tentar se afastar
para um contato mais pretensamente verdadeiro também é uma fuga que
leva, novamente, a um caminho de virtualização de uma imagem que
fazemos do natural.
Shuffle mostra como um Ipod pode
manipular um homem que manipula um Ipod. Não se sabe quem manipula
quem e no fundo os dois são submetidos um ao outro, como se em algum
momento não houvesse qualquer diferença entre eles. Se isso é bom
ou ruim, não sei.
Até que ponto as tecnologias podem
influenciar ou modificar o comportamento das pessoas?
A tecnologia deve obrigatoriamente
influenciar e modificar a vida das pessoas. Tudo que existe modifica
e influência nossa subjetividade. De novo: se isso é bom ou ruim,
não sei. Cabe a pergunta.
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22 agosto 2012
Shuffle
Para o público do meu blog (se é que alguém lê isso aqui), divulgo o vídeo de minha nova peça, Shuffle.
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16 julho 2012
sob escombros
Uma pessoa está sob escombros. Desabou tudo que havia e, parece, até algumas coisas que não havia antes. Está tudo empoeirado e a pessoa não sabe onde está, mas sabe que está embaixo embaixo embaixo e mais embaixo. Na verdade está mais embaixo do que pode imaginar.
Ela é importante?
É.
Por que?
Porque está sob escombros.
Imagina ela do lado de fora, bonita e penteada, faceira e divertida.
Assim ela vale?
Pouco.
Pouco?
Quase nada.
Ela só vale porque está sob escombros, porque naquele momento ela é a coisa mais importante que existe e retira-la de lá é a obrigação máxima de todos nós.
Ela grita?
Grita.
O que?
Palavras.
Que palavras?
Não dá pra ouvir.
Não adianta, não adianta, é impossível mostrar essa pessoa sem mostrar os escombros. Ela só existe do jeito que existe e eu só falo dela porque está sob escombros.
Ela é importante?
É.
Por que?
Porque está sob escombros.
Imagina ela do lado de fora, bonita e penteada, faceira e divertida.
Assim ela vale?
Pouco.
Pouco?
Quase nada.
Ela só vale porque está sob escombros, porque naquele momento ela é a coisa mais importante que existe e retira-la de lá é a obrigação máxima de todos nós.
Ela grita?
Grita.
O que?
Palavras.
Que palavras?
Não dá pra ouvir.
Não adianta, não adianta, é impossível mostrar essa pessoa sem mostrar os escombros. Ela só existe do jeito que existe e eu só falo dela porque está sob escombros.
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05 junho 2012
shuffle
Fala um número, sei lá, duzentos. Entre zero e duzentos há cento e noventa e nove outros números. Ser duzentos é contar com toda a fila de que lentamente de um a um se compõe o que é duzentos. Supõe-se então que você escreva no google: “sorteador”, aí ele abre uma página pra você ali, bonita, e você pode sortear o número que quiser. Aí você escreve duzentos e faz o sorteiro pra ver qual número sai. O resultado é trinta e oito. Entre zero e duzentos do dia cinco de junho de 2012, às 2:43 da manhã o site sorteador.com.br entre números de zero a duzentos escolheu o número oito. E aí você resolve ir clicando. 33, 36, 104, 180, 186, 141. Aí você pensa: ah, não, duzentos é um número alto, de um a vinte em quantas chances um número vai se repetir? E você vai lá onde está duzentos e tira um zero. E bing: 18, 10, 13, 18! Na quarta, na quarta chance o 18 se repetiu. Faz isso de novo, faz, faz isso pra sempre. Shuffle.
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