Ser homem é muito pesado: ainda mais pequeno, fraco, troncho.
E vejo tantos homens por aí tentando muito ser aquilo que não são e num esforço de tentar ser , se tornam mais pequenos, fracos e tronchos do que ainda sou.
A verdade é que pra ser homem, às vezes, a melhor maneira é se travestir.
Mostrando postagens com marcador homem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homem. Mostrar todas as postagens
26 fevereiro 2013
23 outubro 2012
barquímetro
Um
homem anda pela orla da Urca, olhando da mureta a paisagem do
Flamengo e de Niterói lá do outro lado da Baía de Guanabara.
Observa os barcos, todos pequenos, com aquele colorido descolorindo.
Os grandes dos ricos não lhe interessam, parecem artificiais em seu
branco hospitalar.
Quem
passa por ali e observa aquela cena quase consegue ouvir uma
bossa-nova. O homem desce por uns degraus e entra em um barco
qualquer. Senta-se, olha para o rapaz do barco, um marinheiro
semi-rude, tatuado, camisa suja.
Niterói,
por favor!
Oi?
Quero
ir pra Niterói. Vamos!
Meu
senhor, acho que está havendo algum engano.
Engano
nenhum. Está vendo ali ó, lá no fundo, depois da ponte? Vamos!
Eu já
terminei meus serviços por hoje.
Vamos
lá, só essa, só mais essa, liga aí o barquímetro.
Barquímetro?
Olha, meu senhor, acho que você está com problemas. Aqui não é um
taxi, é um barco. Vou ser obrigado a pedir para o senhor se retirar.
Mas...quanta
grosseria...só queria ir alí, até Niterói.
Senhor,
sai do meu barco ou vou retira-lo a força.
Tudo
bem, tudo bem, eu saio.
O
homem levanta e se retira, cabisbaixo, triste. Some na rua, andando
pelo asfalto sem nem mais olhar para a orla. O marinheiro ajeita
algumas coisas no barco, está pronto. Retira um pano de um canto e
se pode ver algo como um taxímetro. Aciona o motor que ruge
atrapalhando o silêncio da tarde da Urca. Desestaciona o veículo e
pelo mar vai sumindo no horizonte. Suspira, sussura, se houvesse
alguém por perto quase não poderia ouvir: vamos lá, Niterói!
Marcadores:
baía de guanabara,
barco,
barquímetro,
flamengo,
homem,
niterói,
taxi,
urca
04 setembro 2012
Entrevista Shuffle
Entrevista na íntegra de Letícia Knibel comigo que resultou na matéria da Revista On.
![]() |
| foto divulgação |
Em que você se inspirou para escrever
o conto Shuffle? E como surgia a ideia da peça?
Junto disso, achei interessante pensar sobre um Ipod Shuffle: um aparelho eletrônico e, por isso, semi-artificial, que tem como função escolher aleatoriamanente a ordem das músicas que o sujeito vai ouvir. Maior simbiose entre homem e máquina impossível.
Escrevi o conto e mostrei pro Leandro
Romano, membro do grupo e um dos diretores da peça que pensou na
transposição da lógica shuffle para o teatro.
Qual o diferencial dessa peça e o que o público pode esperar da mesma?
Não sei se falaria em diferencial
porque praticamente tudo já foi feito em termos de arte. Mas o
bacana da peça é que o ator em cena atua de acordo com as música
que o Ipod Shuffle tocar. Ele opera o Ipod que escolhe músicas e
cada música representa uma cena. Assim, a peça se constrói e se
desconstrói a cada dia, uma vez que ela não possui uma ordem
definida previamente. Deixar a cargo do Ipod essa escolha submete o
ator e a plateia à uma ordem superior de comando, ao mesmo tempo que
passa uma ideia de impotência frente ao poder desse pequeno
aparelho.
De que maneira a peça pretende abordar a problemática do distanciamento causado pela 'excessiva' virtualização, onde o real se afasta cada vez mais ou é substituído pelos novos meios de comunicação?
Nesse caso respondo apenas por mim e
não pelo grupo. Acho que cada um deve ter uma visão diferente do
caso.
A verdade é que nessa pergunta fica no
ar um aspecto de demonização da tecnologia em prol de um “real”
e “verdadeiro”. Em Shuffle, o que se pretende não é criticar
nem elogiar a tecnologia, mas mostrar como ela é um meio que está
simbioticamente ligado ao homem. Não sei até que ponto a
virtualização é excessiva e também não sei se, caso seja, isso é
ruim. A forma como construímos nossa subjetividade é completamente
ligada à tecnologia, negar isso é ingenuidade e tentar se afastar
para um contato mais pretensamente verdadeiro também é uma fuga que
leva, novamente, a um caminho de virtualização de uma imagem que
fazemos do natural.
Shuffle mostra como um Ipod pode
manipular um homem que manipula um Ipod. Não se sabe quem manipula
quem e no fundo os dois são submetidos um ao outro, como se em algum
momento não houvesse qualquer diferença entre eles. Se isso é bom
ou ruim, não sei.
Até que ponto as tecnologias podem
influenciar ou modificar o comportamento das pessoas?
A tecnologia deve obrigatoriamente
influenciar e modificar a vida das pessoas. Tudo que existe modifica
e influência nossa subjetividade. De novo: se isso é bom ou ruim,
não sei. Cabe a pergunta.
Marcadores:
catarse,
homem,
letícia knibel,
luiz antonio ribeiro,
máquina,
shuffle,
teatro,
teatro voador não identificado
Assinar:
Postagens (Atom)
