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23 outubro 2011

pássaros amarelos



Algumas imagens me livram de viver. Essa frase pretende sintetizar muita coisa e espero que ela o faça. Primeiro foi o texto da Clarice, depois a imagem do Klee, depois a aparência dos pássaros amarelos. Como é difícil viver depois que se sabe que existem pássaros amarelos. Às vezes a gente tem tanto medo de ser, de virar as coisas, que uma paisagem, uma canção ou um amor parecem um esporro, uma ode à liberdade. Mas é que é preciso se livrar de muita coisa pra ser livre, inclusive da ideia de liberdade, essa grande prisioneira de vidas.
É por isso que os pássaros amarelos são o que são e é preciso sentir o mundo de forma bastante sublime para entende-los. Eu gostaria de um dia poder ter a capacidade de transfundir minha existência em seres da vida. Gostaria de realmente tocar uma criança, de sentir um gatinho ronronar, de pular numa piscina e sentir a água na pele, de sentir o vento estragar o cabelo com um sorriso, de andar de mãos dadas sem que pareça que, no caso, um ser prenda o outro. Eu gostaria, enfim, de conseguir ser menos eu, quase nada eu, um não-eu, pra chegar até o outro e lhe tocar com uma beleza que não tem no mundo, assim como fazem os pássaros amarelos do Klee. Eles não existem e justamente por isso fazem os maiores vôos em mim.
E no começo de um dia, gostaria de ver esses pássaros cantar (rouxinol ou cotovia, Julieta?) chamando o sol que vem. Como anotou Buarque: “e o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz...”

30 julho 2011

meu problema com clarice



Não posso dizer que não gosto de Clarice Lispector, mesmo porque “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” é uma das obras mais sublimes que já li. Posso, entretanto, dizer que tenho um problema com ela, algo ideológico, filosófico, estrutural.
Primeiro de tudo, acho que o autor deve, ao escrever, tomar todo o cuidado para não ser mal lido. É preciso mão firme na escrita afim de que o leitor desavisado, romântico de final de semana, não apreenda sua obra para fins duvidáveis como afogar uma mágoa, dar recados semi-amorosos ou qualquer sentimentalismo do tipo.
Segundo, meu lado materialista me leva a pensar na relevância dessa viagem interior. Até que ponto ela gera independência ou até que ponto ela é alienante? De cara, uma viagem para o auto-conhecimento me parece apenas alienante e, por conta disso, não leva a nenhum tipo de consciência social, política, ou algo que contribua aos outros. Por outro, é possível que na mudança de um em efeito dominó mude-se todo.
Enfim, me debato. Por via das duas implico com a pobre Lispector, que pouco tem a ver com minhas elocubrações a seu respeito. A verdade é que o consumo transformou Clarice em uma conselheira amorosa, assim como transformou a frustração em motivo para se gastar dinheiro. É assim que funciona: enquanto houver consumo, haverá felicidade. E o que há além? O amor, ou ele é mais uma parte dessa ordem do consumo?
Sinto-me velho ainda com essas discussões, mas me reservo o direito de não recomentar Clarice Lispector a qualquer um...pode ser prejudicial.