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07 agosto 2012

simplesmente

as pessoas jogam futebol por aí
eu leio Fausto trancado em casa
outros vibram com os carros barulhentos
eu choro só porque uma pessoa chorou.

aí eu acho que sou tão diferente
e me encanto com a cor do sol do céu
e percebo como sou óbvio e careta:
o que vejo todo dia não deveria me surpreender.

aí eu falo de poesia, penso em poesia
atravesso a rua em poesia
e desencontro o que mais quero em poesia.

é que não faz sentido que o mundo concorde
ou que os outros concordem
ou que faça sentido o que nem sei se é caminho

sei que atravesso a noite
raras vezes o dia
nunca a manhã
e tenho vergonha de tudo que faço

não quero ganhar nada,
não joguei
não faz diferença se sou feliz
porque a vida é boa
ou simplesmente porque não sei.



02 agosto 2012

o sonho e a noite

às vezes eu sonho com a noite
em que os sonhos e as noites
sejam vezes demais
pra serem só noites e sonhos

às vezes eu fuço fundo
e falo de cada instante
às vezes fixo um ponto
e fabrico um outro distante

às vezes os fatores da vida
os factoides dos outros
as falácias dos tontos
viram vezes demais

é quando fuço fundo
fico fora, fixo, falante
e facilmente me entorto

é que nunca
nem um pouquinho
um bocadinho de carinho
me tira do caminho
de te fazer sorrir.

11 maio 2012

pós-crise estomacal

Quando a gente fica um tempo sem um abraço, sem uma palavra mais doce, sem uma gentileza, sem um gesto carinhoso, fica na pele aquela coisa, aquele ranço, como se, aos poucos, os braços fossem enferrujando e perdendo a elasticidade, assim como se as palavras, sufocadas, ficassem mais duras e densas, e como se os gestos se tornassem mais pesados e frios.
É que o corpo se desacostuma ao outro, ou melhor se acostuma ao não-outro. Se perde em si mesmo, por dentro de si e tudo que se percebe ou se sente é aquilo que ele mesmo, amputado, não faz. A impossibilidade de nosso corpo em ser livre em relação ao outro faz dele um aleijado, um doente, um menino carente à espera da mãe. E a gente, dono do nosso corpo, vira orfão junto com ele.
Quando se deita, o corpo encontra o colchão. Vê nele uma companhia e um afago que essa noite, mais uma vez, não tem e não vem.