Dei a volta em meu conjugado como quem mergulha no abismo do mundo
E esperei
Como quem espera que as paredes se abram como as latas, as gueixas e sésamo
E percebe que tudo podia ser tal qual num baile infestado de baratas
Em que as pernas mal tocam o chão
E se enfurnam em outras pernas que sobem até os ventres
E se misturam com seios e braços chegando até o nível de uma cabeça ausente
Espero nessa ausência do conjugado mergulhado no abismo do mundo
Que a espera não seja mais do que isso:
Sentar, e nada tocando o nada até que ele seja o mais importante
O nada que sobra e salva
Por isso, sempre que possível, olhar para o conjugado
Não como um lugar pequeno de falta
Mas como excesso, e concentração, e síntese
Como as pinceladas grossas de van gogh ou as estocadas certeiras de um ator pornô.
Plano:
Encontrar em um filme do cine íris luis capucho cantando aids
E ver nas portas das igrejas mais umbrais que santos, mais velhas que velas, mais shorts que shots
Encontrar nos bancos dos largos do machado não aqueles que te assaltam porque eles se escondem pelas avenidas imensas e você sequer sabe se eles existem
Fazer amizade com a moça da barraca de cachorro quente sem sequer ter comido um cachorro quente lá
E estar mais próximo dela porque é a única que vende cerveja na porra das duas da manhã durante a semana
E quando o flamengo ganha é preciso uma cerveja sentado naqueles bancos
Conversando com algum paraíba e alguma gringa (porque todo cachorro quente tem um paraíba e uma gringa, ambos igualmente sedutores)
Por fim na espera e na volta do conjugado
Que me leva ao passeio pelo meu bairro – o único que existe – porque ainda conjugado
Encontrar a espera de repetir tudo isso num loop infinito de coisas que ninguém nunca entende quem sou o que faço
Nossa, aquele baixinho legal engraçado bêbado que faz teatro todo mundo conhece parece legal sei lá
Deixar que a cerveja defina enquanto não encontro nada melhor
A poesia quase sempre me cansa a cabeça
E o mundo não é encantado
Hamlet estava errado
O jogo é meu
E Conjugado.
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05 setembro 2014
conjugado
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23 outubro 2012
barquímetro
Um
homem anda pela orla da Urca, olhando da mureta a paisagem do
Flamengo e de Niterói lá do outro lado da Baía de Guanabara.
Observa os barcos, todos pequenos, com aquele colorido descolorindo.
Os grandes dos ricos não lhe interessam, parecem artificiais em seu
branco hospitalar.
Quem
passa por ali e observa aquela cena quase consegue ouvir uma
bossa-nova. O homem desce por uns degraus e entra em um barco
qualquer. Senta-se, olha para o rapaz do barco, um marinheiro
semi-rude, tatuado, camisa suja.
Niterói,
por favor!
Oi?
Quero
ir pra Niterói. Vamos!
Meu
senhor, acho que está havendo algum engano.
Engano
nenhum. Está vendo ali ó, lá no fundo, depois da ponte? Vamos!
Eu já
terminei meus serviços por hoje.
Vamos
lá, só essa, só mais essa, liga aí o barquímetro.
Barquímetro?
Olha, meu senhor, acho que você está com problemas. Aqui não é um
taxi, é um barco. Vou ser obrigado a pedir para o senhor se retirar.
Mas...quanta
grosseria...só queria ir alí, até Niterói.
Senhor,
sai do meu barco ou vou retira-lo a força.
Tudo
bem, tudo bem, eu saio.
O
homem levanta e se retira, cabisbaixo, triste. Some na rua, andando
pelo asfalto sem nem mais olhar para a orla. O marinheiro ajeita
algumas coisas no barco, está pronto. Retira um pano de um canto e
se pode ver algo como um taxímetro. Aciona o motor que ruge
atrapalhando o silêncio da tarde da Urca. Desestaciona o veículo e
pelo mar vai sumindo no horizonte. Suspira, sussura, se houvesse
alguém por perto quase não poderia ouvir: vamos lá, Niterói!
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28 julho 2011
O flamengo, o futebol.
No decorrer da minha breve-longa vida já fiz muitas homenagens ao Flamengo. Parece-me, no entanto, que é sempre pouco, sempre menos do que ele me dá. Talvez porque paixão não se explica e não se homenageia, talvez porque eu nada pedi dele e porque ele nunca me pediu pra ser gostado. Acontece o que acontece e nossa parceria é eterna e eu preciso falar disso.
Quando meu time entra em canto parece que estou numa batalha e os jogadores são gladiadores que entram em canto pra defender a honra de um país. Parece que ouço trombetas soar e escuto a marcha da companhia e eu, do meu lado, mesmo que longe, preciso apoiar, preciso apontar meu coração pra eles, a fim de que tudo corra bem e que saiamos vitoriosos.
Aí acontece às vezes, bem às vezes, do Flamengo tomar um gol. Olha, minha cara vai lá embaixo, quase me sinto derrotado. Tento não ver o gol, tento não falar. Parece que resumo minhas necessidades físicas ao básico pra que aquele sentimento passe rápido e volte a ser aquele anterior, da luta, da batalha, da raça...
Mas quando meu time faz um gol...aah, quando ele faz um gol é a maior alegria do mundo. Salto da cadeira, pulo grito, soco parede, abraço quem estiver por perto e grito gol como se fosse meu e louvo o artilheiro como se fosse um rei. Aquele momento pequeno, fugidio, etéreo fez as maiores alegrias da minha vida. Ouso dizer que o Flamengo nunca me abandonou, nunca me decepcionou. Uma vez, em um título, liguei pra casa chorando, falei com minha mãe e ela: “calma, meu filho, calma.” Ela entendeu, ela entendeu o que quase ninguém entende. O futebol é irracional, por isso, belo. O futebol é um espetáculo teatral, é o melhor teatro do mundo. É o que o teatro, o cinema e a literatura tentaram ser e não conseguiram e o Flamengo...o Flamengo é o maior gênio, o ídolo, a estrela dessa grande arte. A primeira no meu coração, a primeira no meu país Brasil. Alienante? Alienante é parar de falar e pensar, enquanto houver gente falando, gente pensando, o futebol vai ser uma paixão. E quem vai dizer que paixão acaba rápido?
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