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19 fevereiro 2014

Dona Meiga

A Dona Meiga
negra
velha
pobre
dorme no ônibus -
duas horas pra ir
duas horas pra voltar
do trabalho.

Como privilégio neste mundo
só uma coisa
- força de lei -
ter um acento preferencial
que é onde ficam os velhos
os inválidos
as sobras
que de tão sobras
ganham um acento especial
para sentar e
- duas horas pra lá
duas horas pra cá -
esperar.

11 novembro 2013

Chiclete

Joguei meu chiclete da janela do ônibus:
ele grudou no retrovisor de um carro.

O motorista, puto, quebrou seu vidro
Atirando com sua arma em minha direção.

Meus miolos no asfalto são atropelados
pelos demais motoristas que circulam na noite.

13 junho 2013

Polícia de Sâo Paulo chama Mc Anitta para ajudar na contenção de manifestantes



A polícia militar de São Paulo afirma em nota que convidou Mc Anitta para participar da contenção dos protestos que ocorrem sucessivamente na cidade pela baixa dos preços das passagens de ônibus. De acordo com o comandante da operação, faz-se mister chamar a artista por conta de sua experiência na área. Um policial que não quis se identificar explicou a decisão:

- É como diz a canção dela: "Meu exército é pesado, a gente tem poder". Não poderíamos desperdiçar uma ajuda dessa, ainda mais que com toda composição física, creio que qualquer disputa por preço de ônibus fica em segundo plano.

24 outubro 2012

a moça mordi

a moça do meu lado
de lado
de braço farto
gordinho, pesado

me encontrava
entre manter-me em pé
nos postes do ônibus
e me jogar naquele braço
sem olhos, sem face, sem jeito.

não tive saída
fui
mordi.

03 agosto 2012

sutileza

Estava no ônibus e por mais uma dessas coincidências da vida a bateria do meu celular acabou e não pude ouvir música. Ouvi então os sons do motor, do vento lá fora e de alguns diálogos sussurrados por perto. Ao meu lado, haviam dois portugueses. Um casal de sessenta e poucos anos passeando, olhando a vista como se estivesse a reconhecer neles alguma coisa que havia do lado de fora.
A beleza que eles viam é a beleza que já não vejo, mas decidi ver com eles, junto deles, à partir deles e foi aí que tive uma pequena sensação, frágil, bela. Olhavam à mata, quando o homem disse: "não há nada, mas é lindíssimo."
Essa frase que pode significar tanto me fez automaticamente entender um milhão de coisas sobre a vida e, naquele instante, me dei o direito de sonhar.
Às vezes, precisamos dos outros pra reencantar o mundo pra gente.

13 março 2012

feio

vi a menina pelo reflexo do vidro do ônibus. Tinha dois olhos claros que quando se mexia viravam quatro, dois narizes e o cabelo preso. Eu suava do seu lado, de calor, e a olhava. Vez em quando ela me olhava e com o tempo passou a me olhar mais.
Vagou uma cadeira no fundo do ônibus e eu, com vergonha de lhe oferecer, sentei. Ela se decepcionou.
Ainda não havia conseguido ver sua cara quando o ônibus parou. Ela virou e de trás vi seu rabo de cavalo. Desceu e foi na direção contrária.
Entrei na sala e lá estava ela.
Vi: era feia.
Me olhou: me achou feio.

23 novembro 2011

ela e o ônibus

Entro no ônibus e sento ao lado de uma moça.
Eu: bermuda caqui, camisa preta, tênis sem amarrar, meia preta, rosto oleoso de suor seco, despenteado, com olheiras e sono.
Ela: pequena, linda, loira, roupinha de executiva, nariz fino dos mais lindos, olhos claros como tinta de aquarela, com os cílios bem pretos, a pele lisa e seca que nem de maquiagem precisa.
Choro. O olho enche de lágrimas que rolam. Poucas, secam antes de pingarem ao chão. Ela:
Porque chora?
A sua beleza.
O que tem?
Machuca, oprime, humilha.
Desculpe - ela faz uma pausa - mas por quê?
Essa sensação de que nada que eu faça - estude, brilhe, enriqueça - me torne um homem mais interessante. Nada disso pode fazer jus a você e sua beleza.
Entendo - diz ela.
Ela abaixa a cabeça e não fala mais. Nem eu. Entendemos. Três pontos depois ela pede licença para descer. Abro espaço, ela passa e, não sem esforço, me lança seu melhor sorriso. O último. E desce.

02 agosto 2011

anti-sabedoria popular

Algumas vezes me espanta a sabedoria popular, como o conselho esperto de uma senhora pra uma moça aflita com seus relacionamentos ou a opinião crua de um pedreiro que já viu tanta coisa que nada pode lhe surpreender. Do outro lado, há uma completa estupidez popular que faz parte de um pensamento rápido, em síntese, não dialético, que reage a tudo e transforma a mais intensa descrição da sociedade em algo corriqueiro e feio.
Matou a mãe porque ela não fez batata-frita.
Um motorista de ônibus insiste em correr, insiste. Parou pra mim, mas antes de eu subir já arrancava, um senhor quase caiu ao fundo e pediu atenção. Um grupo xingou o moço que não parou no ponto. O ônibus teve de fazer uma parada brusca, violenta, por conta de um carro que atravessou a pista. Um motorista de ônibus insiste em correr, insiste.
Eu, do meu canto, fico tentando entender como isso pode se dar. Eu, do meu canto, fico tentando entender como isso pode não mudar.
Adolescente está grávida do monstro da Paraíba.
E o mundo continua...