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03 agosto 2012

sutileza

Estava no ônibus e por mais uma dessas coincidências da vida a bateria do meu celular acabou e não pude ouvir música. Ouvi então os sons do motor, do vento lá fora e de alguns diálogos sussurrados por perto. Ao meu lado, haviam dois portugueses. Um casal de sessenta e poucos anos passeando, olhando a vista como se estivesse a reconhecer neles alguma coisa que havia do lado de fora.
A beleza que eles viam é a beleza que já não vejo, mas decidi ver com eles, junto deles, à partir deles e foi aí que tive uma pequena sensação, frágil, bela. Olhavam à mata, quando o homem disse: "não há nada, mas é lindíssimo."
Essa frase que pode significar tanto me fez automaticamente entender um milhão de coisas sobre a vida e, naquele instante, me dei o direito de sonhar.
Às vezes, precisamos dos outros pra reencantar o mundo pra gente.

23 novembro 2011

ela e o ônibus

Entro no ônibus e sento ao lado de uma moça.
Eu: bermuda caqui, camisa preta, tênis sem amarrar, meia preta, rosto oleoso de suor seco, despenteado, com olheiras e sono.
Ela: pequena, linda, loira, roupinha de executiva, nariz fino dos mais lindos, olhos claros como tinta de aquarela, com os cílios bem pretos, a pele lisa e seca que nem de maquiagem precisa.
Choro. O olho enche de lágrimas que rolam. Poucas, secam antes de pingarem ao chão. Ela:
Porque chora?
A sua beleza.
O que tem?
Machuca, oprime, humilha.
Desculpe - ela faz uma pausa - mas por quê?
Essa sensação de que nada que eu faça - estude, brilhe, enriqueça - me torne um homem mais interessante. Nada disso pode fazer jus a você e sua beleza.
Entendo - diz ela.
Ela abaixa a cabeça e não fala mais. Nem eu. Entendemos. Três pontos depois ela pede licença para descer. Abro espaço, ela passa e, não sem esforço, me lança seu melhor sorriso. O último. E desce.

20 outubro 2011

Menina bonita

Menina bonita fake,
aproveita a beleza que os outros vêem
e que tanto você trabalha na academia.

Aproveita e tenta calar o sofrimento
do teu coração de feia.