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12 novembro 2012
o que eu nem sei
parece que não sei escrever mais coisas novas ou as antigas ficaram pesadas demais só resta então uma frase assim sem ponto nem beira nem encanto pra tentar dizer o que eu nem sei
20 agosto 2012
667
Não tira da cabeça
a lembrança dos olhos dela, mas até quando? Não repara, e acha até
que já falou com ela na profundidade desse olhar. Não acha que olhares devem ser fundos e te buscarem pra dentro, prefere que o olhar seja exatamente como o dela: profundo, mas que
pulsa pro lado de fora, cheio de vida, graça e encanto. Aos poucos,
no entanto, a lembrança do olhar vai se esvaindo e ficando apenas
aquilo que lembra de ter visto e na semi-vontade de reve-lo mesmo que
agora já sem tantos motivos.
Não tem interesse
por encontros furtivos ou desencontros espetaculares porque baseou
toda sua vida na ideia da preguiça, da sinceridade, da paz e da
cumplicidade. O jogo do time num domingo a tarde é um dos anseios
mais altos, assim como as tardes dedilhando músicas repetidas, ou
lendo livros, brincando com o gato ou simplesmente vendo a vida
passar. As coisas que escreve nunca as faz pra conquistar ou comover
ninguém: usar um talento pra qualquer tipo de conquista é um ato
covarde de vandalismo com a possibilidade de sentimento do outro. A
arte deve ser a manifestação mais profunda (e cheia de vida, de
graça e encanto como o olhar dela, mas acho que isso já ficou
claro) de uma retidão de caráter, de uma gentileza para si e para o
outro e uma forma de reencantar mundo.
O mundo que parece
tão frágil e seco deve ser reencantado por aqueles que tenham
talento e possibilidade para tal. Quando vê alguém que usa da arte
para seduzir, como em uma banda, numa canção ou arte, uma
pose ou poesia percebe na hora a violência do gesto. Entristece e
quase desiste de escrever novamente. Não o faz.
Acontece que aos
poucos a lembrança do olhar dela vai de desfazendo como uma chuva de
verão, um pombo atropelado no asfalto quente, uma foto que amarela
na estante. Não lamenta. A vida é assim, a vida é doce e está
tudo bem. Seu time melhora, sua cerveja continua quietinha, a
preguiça lhe faz companhia e os livros ainda lhe fazem viajar.
Quando a vida expõe suas pequenas tragédias, dá um sorriso e
entende que é assim que tem que ser. O gosto de experimentar as
nuances da vida é sempre bom. Ele não pode fazer nada em relação
à nada e, no fundo, ele sabe...nem ela.
24 maio 2012
taco
Dois
caras em um foco no canto da cena.
1 –
Eu não vou falar isso!
2 –
E por que não?
1 –
Porque não. Porque só querem que eu fale o que a tradição manda,
mas sabe em que a tradição manda? Em quem deixa que a tradição
mande e eu não quero deixar que a tradição me mande, então não
vou falar o que a tradição manda.
1 –
Você anda com uns modos muito esquisitos de falar.
2 –
É o que estava escrito!
1 –
Então você assume que você fala o que está escrito.
2 –
Sim.
1 –
Tudo?
2 –
Tudo.
1 –
E isso agora estava escrito?
2 –
Estava sim.
1 –
Não estava não.
2 –
Estava sim.
1 –
Como você tem tanta certeza?
2 –
Porque eu só falo o que estava escrito. Você sim?
1 –
Eu também, falo exatamente o que estava escrito.
2 –
E se a gente...é...tentasse, uma só vez não falar o que estava
escrito?
1 –
Será que a gente consegue?
2 –
Não sei.
O
1 se afasta. Vai até a outra ponta do palco.
1 –
Sabe como poderíamos fazer?
2 –
Como?
1 –
Falar algo assim, repentino que vem a cabeça.
2 –
CHOQUE!
1 –
O que?
2 –
É o que me veio à cabeça: choque.
1 –
Estava no texto?
2 –
Não sei, acho que sim.
1 –
Precisamos enfrentar isso.
Agora
o 2 troca com o 1 e vai até a ponta do palco.
2 – Tenta você.
1 – O que?
2 – Falar a primeira coisa que...
1 – MOSTARDA.
2 – Oi?
1 – Falei.
2 – O que?
1 – A primeira coisa que vem a cabeça.
2 – E é mostarda?
1 – É.
2 – Por que?
1 – Não sei. Não posso dizer. Estava no texto?
2 – Acho que sim. Pelo que me lembro sim.
Os
dois caminham. Pensam.
1 –
Acho que sei o que a gente precisa.
2 –
O que?
1 –
Esquecer o texto decorado.
2 –
Mas como?
1 –
Sei lá. Perder a memória. Um bate na cabeça do outro e puf,
esquece.
2 –
Será que funciona?
1 –
Podemos tentar.
2 –
Mas calma...será que isso estava no texto?
1 –
Acho que sim, mas talvez dê certo.
Os
dois saem, cada um para um lado. Voltam cada um com um taco de
baseball. Batem um na cabeça do outro, ao mesmo tempo. Os dois caem.
Levantam. Se olham, estão zonzos, tentam falar alguma coisa. Não se
lembram. Escuridão.
05 setembro 2011
vazio
Faz quase um mês que não posto no blog. Entrar nele hoje e olhar me deu uma sensação de vazio, senti vontade de escrever, filosofar sobre qualquer coisa ou simplesmente preencher aquele vazio. Depois pensei que não, que era ruim preencher o vazio, que estamos acostumados demais a não aceitar pequenas partes incompletas em nós e nunca aceitamos fracassos ou perdas e enchemos alguém de palavras, insultos, ou simplesmente, barulhos.
Pensei no valor de não escrever hoje.
Mas escrevi.
Pensei no valor de não escrever hoje.
Mas escrevi.
03 agosto 2011
poucas palavras
eu queria escrever com poucas palavras
mas só consigo escrever pouco
com muitas palavras.
mas só consigo escrever pouco
com muitas palavras.
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