um poema como um segredo:
um enigma a mostra
ou um espelho meio tampado
num desejo desperto de dar sentido em palavras
àquilo que se viveu na vida
o largo do machado nunca foi tão feliz
e nunca falou tanto, de mãos dadas,
pelas caminhadas nos caminhos da cidade
onde chamar de namorada é uma bobagem pra gente
mas dizer pros outros me faz encher a boca
que saliva seu nome com as mesmas letras que o meu.
as vistas, os videos e as músicas
como pano de fundo para algo urgente
não souberam, também,
o que se passava conosco:
dois corpos, frente a frente,
pernas cruzadas, olho no olho
um mão que encosta no braço
uma outra pendurada no queixo
ou arrumando o cabelo atrás da orelha
um comentário qualquer:
seu olho é bonito
você é linda
posso te esconder no armário?
e a cidade inteira em volta sumindo
o largo do machado vazio
podia tudo explodir
ou congelar
que aqueles corpos,
frente a frente,
sequer se dariam conta
pois de tudo que se passava
só percebiam o tempo que não volta
e a ida
inevitável
esse poema
claro enigma de amor
segredo escondido para todos lerem
está posto no mundo
não como um presente
mas como uma benção
uma lembrança
algo que sei e sabe
que podemos recorrer sempre que quisermos lembrar de uma coisa qualquer
esse poema agora é também seu
e reflete nas minhas palavras
seus olhos
e os olhos de todos que lerem
a pergunta, única,
é apenas uma:
quando você vai ler isso?
e quando você ler, o que você vai fazer?
a história toda é sua...e com você.
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16 setembro 2014
Quando ela vai ler isso?
31 março 2013
amor de livraria e amor de sebo
Costumo
dizer que há dois tipos de amores no mundo: amores de livraria e amores
de sebo. Os amores de livraria tem um cheiro de novo, um aspecto belo,
higiênico, que leva em conta o estilo e a capa, a novidade e o avanço. O
dinheiro está no caminho e avança pelo gosto e pela cultura, tomando o
espaço pelas cores que tomam nossos olhos.
Já o amor de sebo é
menor, mais baratinho, de fundo de galeria, amor dos amantes, dos
especialistas, dos despojados e dos silenciosos, dos garimpeiros e dos
alérgicos. Amor desbotado pelo tempo, com alguma traça, com gatos que
espantam ratos e um amarelo que dissolve em meio à poeira. Amor estranho
esse de sebo, amor que tem história, viaja e já foi da mão de outros: é
livre e por isso mais intenso. É um amor raro e que precisa passar por
todos esses testes pra ser amor.
Eu, claro, sou adepto ao
segundo e comecei a pegar alguns livros velhos aqui de casa para
revender afim de comprar outros pra mim. De repente, me deparo com uma dedicatória em um deles, de não sei quem e de não sei de onde e que tem apenas uma data: 1980. Eis:
"A friend is someone you love,
someone you cannot do without,
someone you long to be close to.
a friend is love, tenderness, security
a friend is everything.
to lucy babe
with all my love
chris"
Queria tanto saber a dona desse livro ou saber quem é Lucy ou Chris. Mas não, vou revender e repassar esse amor pra frente.
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21 março 2013
parece que sou
e eis que tudo desaba
e o mundo que não tem canto -
que não tem aba -
inventa metáfora pra explicar o inexplicável.
eu pulei o muro, saí de casa, sorri e me matei.
que explicação tem?
que dizer pros meus pais,
pros meus amigos
e pra quem diz me amar?
nada
e nem graça tem.
e tudo desaba em água
e só o que a gente pensa é nos outros
e na gente que é os outros
e nos outros que são a gente.
e puta, que merda
que fedor que é viver.
parece que voltei pro caixão
parece que sou micróbio
parece que larva
parece que lava
parece que sou terra
parece que souterrado.
e o mundo que não tem canto -
que não tem aba -
inventa metáfora pra explicar o inexplicável.
eu pulei o muro, saí de casa, sorri e me matei.
que explicação tem?
que dizer pros meus pais,
pros meus amigos
e pra quem diz me amar?
nada
e nem graça tem.
e tudo desaba em água
e só o que a gente pensa é nos outros
e na gente que é os outros
e nos outros que são a gente.
e puta, que merda
que fedor que é viver.
parece que voltei pro caixão
parece que sou micróbio
parece que larva
parece que lava
parece que sou terra
parece que souterrado.
20 fevereiro 2013
Oscar 2013 - Os melhores
Após assistir todos os filmes candidatos ao Oscar, pelo menos os candidatos a Melhor Filme, resolvi fazer um Top com eles:
1- Indomável Sonhadora
O melhor filme. Sensível, belo e forte, mostra uma menina de 6 anos em um universo absolutamente hostil, intercalando seu imaginário com a conturbada relação com seu pai. Merecia o Oscar e poderia facilmente ganhar uma vez que se mantém nos moldes que a academia adora.
2 - Amor
Haneke faz uma bela obra poética sobre o amor e o envelhecimento. Ao mostrar-se mais humano, mais esperançoso e menos violento conseguiu um equilíbrio que lhe levou direto ao Oscar. Sinto-me mal ao falar desse filme porque creio que tudo que fez "Amor" ser candidato é devido a um enfraquecimento da força do diretor. Fora isso, está longe de ganhar como Melhor Filme. Deve ficar com a estatueta de Filme Estrangeiro.
3- Django Livre
Tarantino completa sua trilogia da vingança agora dando voz aos negros. Irreverente e debochado, o diretor tem mostrado cada vez mais um lado político em suas obras e por isso vem crescendo como candidato a prêmios, apesar disso o Oscar ainda está longe: a academia quer alguém que celebre seu cinema, a ironia de Tarantino que volta para si e para o cinema americano gera um abismo entre ele e as estatuetas. Deve ganhar como Roteiro Original.
4- As Aventuras de Pi
Lee faz um filme exemplar. A trama fabular e parabólica é tão poetica, simples e potente que não se sabe se está em um filme mesmo ou se retornou a infância para ouvir as histórias de Crusoé. Pi e seu Tigre formam uma das mais interessantes duplas do cinema, lutando pela sobrevivência à partir da convivência. No fim, uma despedida da fábula, a dúvida, o fim da obra. Merece e pode ganhar o Oscar, mas dificilmente será lembrado.
5- O Lado Bom da Vida
Drama com formato de comédia ou comédia em forma de drama, a obra consegue mesclar a loucura de um ser em recuperação com sua família desajustada, indo de encontro a um novo amor, também pautado por uma espécie de loucura. A empatia, a complascência, a vontade de ajuda-los em meio à risadas é inevitável. Talvez seja o filme que mais recomendaria para um público comum: mantém as fórmulas tradicionais, mas escapa delas por pouco, gerando tensão.
6- Os Miseráveis
Musical no sentido clássico: caro, pomposo, gritado com emoções exageradas e excesso de cores para contar a bela história do poeta romântico Victor Hugo. Baseado no musical homônimo da Broadway, não consegue em tela o mesmo impacto que deve haver no teatro. Fica parado, dá preguiça. Dará o Oscar de Atriz Coadjuvante para Hathaway.
7- Argo
Aflleck avança, mas ainda faz um filme fraco. Uma mistura de gêneros que não se concretiza, como se várias flechas apontassem para vários lados, mas na prática quase não se sai do centro. Vale por cinco minutos de tensão finais quando todas as energias se concentram na fuga dos refugiados. Apesar de nada ter a dizer sobre o filme, que achei "comum", é o favorito ao Oscar de melhor filme. Lamento por isso.
8- A Hora Mais Escura
Depois de Guerra ao Terror, Bigelow se manteve igual: faz filmes sobre guerras, frios, pautados nas estratégias de guerra e mais nada. É americano e acredita no poder bélico de seu país. Tenta trazer algum grau de crítica à ação, mas a obra cinza, poeirada, se torna praticamente um fardo para quem tenta assistir. Não via a hora de Bin Laden morrer pra seguir minha vida.
9 - Lincoln
O bonequinho não sai, mas eu saio. Spielberg podia parar pra sempre e vender quibes em domicílio.
1- Indomável Sonhadora
O melhor filme. Sensível, belo e forte, mostra uma menina de 6 anos em um universo absolutamente hostil, intercalando seu imaginário com a conturbada relação com seu pai. Merecia o Oscar e poderia facilmente ganhar uma vez que se mantém nos moldes que a academia adora.
2 - Amor
Haneke faz uma bela obra poética sobre o amor e o envelhecimento. Ao mostrar-se mais humano, mais esperançoso e menos violento conseguiu um equilíbrio que lhe levou direto ao Oscar. Sinto-me mal ao falar desse filme porque creio que tudo que fez "Amor" ser candidato é devido a um enfraquecimento da força do diretor. Fora isso, está longe de ganhar como Melhor Filme. Deve ficar com a estatueta de Filme Estrangeiro.
3- Django Livre
Tarantino completa sua trilogia da vingança agora dando voz aos negros. Irreverente e debochado, o diretor tem mostrado cada vez mais um lado político em suas obras e por isso vem crescendo como candidato a prêmios, apesar disso o Oscar ainda está longe: a academia quer alguém que celebre seu cinema, a ironia de Tarantino que volta para si e para o cinema americano gera um abismo entre ele e as estatuetas. Deve ganhar como Roteiro Original.
4- As Aventuras de Pi
Lee faz um filme exemplar. A trama fabular e parabólica é tão poetica, simples e potente que não se sabe se está em um filme mesmo ou se retornou a infância para ouvir as histórias de Crusoé. Pi e seu Tigre formam uma das mais interessantes duplas do cinema, lutando pela sobrevivência à partir da convivência. No fim, uma despedida da fábula, a dúvida, o fim da obra. Merece e pode ganhar o Oscar, mas dificilmente será lembrado.
5- O Lado Bom da Vida
Drama com formato de comédia ou comédia em forma de drama, a obra consegue mesclar a loucura de um ser em recuperação com sua família desajustada, indo de encontro a um novo amor, também pautado por uma espécie de loucura. A empatia, a complascência, a vontade de ajuda-los em meio à risadas é inevitável. Talvez seja o filme que mais recomendaria para um público comum: mantém as fórmulas tradicionais, mas escapa delas por pouco, gerando tensão.
6- Os Miseráveis
Musical no sentido clássico: caro, pomposo, gritado com emoções exageradas e excesso de cores para contar a bela história do poeta romântico Victor Hugo. Baseado no musical homônimo da Broadway, não consegue em tela o mesmo impacto que deve haver no teatro. Fica parado, dá preguiça. Dará o Oscar de Atriz Coadjuvante para Hathaway.
7- Argo
Aflleck avança, mas ainda faz um filme fraco. Uma mistura de gêneros que não se concretiza, como se várias flechas apontassem para vários lados, mas na prática quase não se sai do centro. Vale por cinco minutos de tensão finais quando todas as energias se concentram na fuga dos refugiados. Apesar de nada ter a dizer sobre o filme, que achei "comum", é o favorito ao Oscar de melhor filme. Lamento por isso.
8- A Hora Mais Escura
Depois de Guerra ao Terror, Bigelow se manteve igual: faz filmes sobre guerras, frios, pautados nas estratégias de guerra e mais nada. É americano e acredita no poder bélico de seu país. Tenta trazer algum grau de crítica à ação, mas a obra cinza, poeirada, se torna praticamente um fardo para quem tenta assistir. Não via a hora de Bin Laden morrer pra seguir minha vida.
9 - Lincoln
O bonequinho não sai, mas eu saio. Spielberg podia parar pra sempre e vender quibes em domicílio.
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oscar 2013
20 janeiro 2013
Amor (2012)
Michael Haneke é, sem sombra de dúvida, um dos principais
cineastas da atualidade. Seu cinema frio, silencioso, sobre um mundo quase
sempre esbranquiçado e hostil aos sentimentos, mas, no entanto, profundamente
afetivo, principalmente na relação entre os corpos, traz-nos sempre uma
experiência estética que ultrapassa o limite da arte e entra no campo da
sociedade e da existência humana.
Só pra dar alguns exemplos para quem não o conhece, o filme “O
Castelo” (1997), baseado na obra homônima de Kafka e “O Tempo do Lobo” (2003)
fazem parte desse cinema que chamo atenção:
o primeiro branco e frio, o segundo violento e hostil, sem no entanto o
primeiro deixar de ser hostil e o segundo deixar de ser branco. Gostaria de
ressaltar isso que configurei chamar de afetividade dos corpos. Dou esse nome
pelo fato das personagens não estarem muito ligadas à historicidade da outra,
ao seu passado, nem tampouco com a situação atual da trama narrativa, mas sim
uma ligação que se dá entre corpos, com suas vicitudes e prazeres, necessidades
do instinto e do fisiológico. Esse tipo de afeto desloca a noção das relações
humanas para um campo interessante de se pesquisar e que, me parece, se reflete
também um bocado em “Amor” (2012) que concorre ao Oscar de melhor filme em
2013. Destaque também para a excelente interpretação também candidata ao Oscar de Emanuelle Riva.
“Amor” é a história de um casal de idosos apaixonados por
músicas e pela presença um do outro quando, um dia, um lapso de tempo da mulher
se releva em uma sequência de doenças que degeneram seu corpo, enquanto que o
marido, frágil, faz de tudo para a manutenção da vida e da dignidade da esposa.
Até certo ponto ou...até o limite.
De alguma forma, dentre os filmes que falei, esse talvez
seja o menos radical de todos (e talvez por isso é que esteja entre os
indicados ao Oscar), mas mesmo assim acaba sendo uma excelente forma de conhecer um
pouco do que seria o trabalho de Haneke. “Amor“ mexe com nosso horizonte de
expectativa, na medida em que monta um amor que não se firma, que parece ser
mais moral e ético que afetivo, mas nem por isso menos profundo, e que só
consegue afetar-se nos cuidados do corpo e na relação que se dá pelo encontro
com a música: as canções, o piano, os cds.
Espantou-me a indicação de Haneke ao Oscar, mas também me
deixou contente. Entretanto, creio que “Amor” não tem força suficiente para
combater todo o aparato hollywoodiano de promover comoções. As sutilezas do filme,
os silêncios, a brancura e as câmeras estáticas, resultado de um diretor que
sabe exatamente o que quer e o que não precisa fazer, resulta em uma belíssima
obra, mas que perde em energia frente a infinita felicidade de energético dos
estado-unidenses.
13 agosto 2012
é um
aí você olha e vê que o mundo inteiro está explodindo lá fora. Pensa: E eu, por que eu estou aqui? Porque talvez seja preciso estar onde se está e fazer o que se faz para que o que é pensamento e desejo ganhe forma pra adentrar o mundo da vida sensível. Tudo que é sem plano (porque a palavra já diz) não tem chão, escorrega por entre as frestas irregulares do universo e tende a vagar por um caos de indefinição.
Ora, que se saiba que toda minha poesia é verdadeira, apesar de eu mentir às vezes, e toda minha verdade fui eu que inventei mais cedo. E as duas, mentira e verdade são faces não do meu pensamento, mas da minha composição, do meu organismo, daquilo que faz de mim uma coisa que quase nunca sei que sou.
e o amor? quando eu raramente falo de amor, falo pra lembrar que ele existe, pelo menos em palavras espalhadas pelo mundo e pelos gestos mais sutis que faço em direção ao fora. Porque amor de verdade mesmo, amor amor, só dentro do próprio vocábulo. amor é amor. é átomo. é um.
Ora, que se saiba que toda minha poesia é verdadeira, apesar de eu mentir às vezes, e toda minha verdade fui eu que inventei mais cedo. E as duas, mentira e verdade são faces não do meu pensamento, mas da minha composição, do meu organismo, daquilo que faz de mim uma coisa que quase nunca sei que sou.
e o amor? quando eu raramente falo de amor, falo pra lembrar que ele existe, pelo menos em palavras espalhadas pelo mundo e pelos gestos mais sutis que faço em direção ao fora. Porque amor de verdade mesmo, amor amor, só dentro do próprio vocábulo. amor é amor. é átomo. é um.
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