06 abril 2014

traição

Se você faz poesias sobre relacionamentos
por favor
para.

escrever sobre outro
no fim das contas
é trair a palavra.

13 março 2014

matos

quero passear no abismo do meu umbigo
até o limite máximo
do poço fundo de mim.

o que me dói
- sem dor e sem doer -
é que a pureza é imbecil
a virilidade é agressiva
a energia é entrópica
e o jardim
é sempre um amontado de matos
de cor.

19 fevereiro 2014

o justo

o cara era justo -
tão justo -
que como calça justa
não entrava mais
em lugar nenhum.

o jeito foi ser justo de fora.

Dona Meiga

A Dona Meiga
negra
velha
pobre
dorme no ônibus -
duas horas pra ir
duas horas pra voltar
do trabalho.

Como privilégio neste mundo
só uma coisa
- força de lei -
ter um acento preferencial
que é onde ficam os velhos
os inválidos
as sobras
que de tão sobras
ganham um acento especial
para sentar e
- duas horas pra lá
duas horas pra cá -
esperar.

05 fevereiro 2014

a bola

uma bola eufórica rola sobre os paralelepípedos gramados da rua
enquanto um cachorro geme uma fome desconhecida
de uma prisão que entorpece não seu instintos,
mas sua sede.

a vida corre como a bola
e late.


26 dezembro 2013

pôr-do-sol

Não gosto de pôr-do-sol:
o céu está lá,
o sol também,
mas não há nada mais pra preencher aquele belo vazio
que cai.

16 dezembro 2013

o abraço

o som da televisão me abraça
como nenhum outro abraço:
o toque, o cheiro, o corpo
tudo se vai.
e fica eu
com meu eu
meu jeito eu
mania eu

tudo é demasiadamente eu
e vive só com o abraço
que só o som da tv
que tremula
pode me dar.

25 novembro 2013

os corais

Nunca tive coragem de abrir os olhos debaixo d'água:
sempre que tentava
doía,
ardia,
coçava.

No dia do meu suicídio,
por cima do mar,
sentia tanto medo
e tanto susto

que sem mim
meus olhos se abriram

foi aí,
pela primeira vez,
que vi os corais.

11 novembro 2013

chicote

Não gosto de chiclete
e chicote
um gruda
o outro bate.

Chiclete

Joguei meu chiclete da janela do ônibus:
ele grudou no retrovisor de um carro.

O motorista, puto, quebrou seu vidro
Atirando com sua arma em minha direção.

Meus miolos no asfalto são atropelados
pelos demais motoristas que circulam na noite.

12 outubro 2013

felicidade de fotografia 2

se é pra ser longe que seja longe 
se é pra ser perto que seja perto 
nada substitui a presença 
nem a ausência que sorri 
numa felicidade de fotografia

04 outubro 2013

rubro

de agosto a outubro
não escrevi nada
as vezes pelo gosto
as vezes pelo cobre
as vezes pelo rubro.

haikai

meu haikai
entre aiai e uiui
me fala vai e eu fui

02 agosto 2013

incitar

um cita um
outro cita outro
e o um cita o outro
e o outro cita o um
e todo mundo cita
e todo mundo é citado

e eu que nem escrevo
e não faça nada
viro pra dentro
no cio
e simplesmente
incito o fim.


("o bem" ficaria melhor no lugar de "o fim", mas me sentiria ridículo incitando "o bem")

29 julho 2013

Fotógrafa mostra série de fotos iguais que representam momentos diferentes de um ser durante a vida

A fotógrafa Luisa Bertrami D'Angelo compôs um ensaio chamado "Séries iguais de tempos diferentes" em que ela trabalha as diversas formas de se lidar com as imagens em meio ao mundo contemporâneo disperso pelas tecnologias da humanidade. A artista ressalta que foi um trabalho pesquisado durante anos onde ela pode observar o mundo de fora e reencontrar aquilo de mais profundo que havia em si, uma espécie de uma natureza inata misturada com uma racionalidade pagã. Eis o resultado da pesquisa, em uma análise feita por mim.





1- 17 anos de idade, ainda uma menina, mas quase uma mulher. Essa foto foi retirada em um momento de rara felicidade, nos fins da adolescência, em que os desejos e impulsos do florescer de um jovem corpo encontra a maturidade de um grande amor. Essa mistura de cores com o frescor da natureza dão o tom dessa época da vida.






2- Já nesse momento, está exposta toda a fúria da fotógrafa com relação a maldade humana e o descaso das autoridades. Veja as cores fortes e tonalidades destacadas se misturam com esse pequeno ser, invasor perdido, meio vítima meio algoz que representa esse interior insuflado pela injustiça que se observa rodeando nossa terra.






3- Perto da maturidade, observe como o amor materno transparece por sobre a calma natureza de uma translúcida tarde que abre os braços para receber essa nova vida que chega na terra. O amor materno, como o maior do mundo, está contido nessa foto através desse breve tracinho de sol, mas não apenas nele: extravasa de fora para dentro de todos nós!





4-Observe como essa foto é estranha: as cores não se ajustam, não se misturam, estão destacadas e esse ângulo, assim de lado, meio apressado representam a menopausa da mulher. A fertilidade que vai embora, mas traz os calores, as irritações e uma sensação estranha de que os hormônios dão uma cambalhota nos corpos, e reflete nessa cena, assim, perdida no meio do nada.


5- Por fim, o momento da despedida da vida. A fotografa consegue captar esse fino momento em que o inseto está prestes a cair de todo o verde que lhe segura e adentrar outro mundo. É o adeus desse plano para um outro, para uma outra vida, onde as coisas realmente possam dar certo e durar. No entanto, essa foto fica como marca do eterno que existe em cada um de nós.

24 julho 2013

porreta

por aí é um lugar
por onde eu vejo
que tem muito poeta na vida
pra pouco porreta na terra.

28 junho 2013

o jejum

Não gosto de jejum. Sinto uma dor que não é minha e não vem do meu corpo sempre que alguém jejua (e com isso amplio o jejum para toda proibição alimentar, incluindo os vegetarianos). Jejuar, no fundo, é rir da cara de quem não tem o que comer. É cuspir na cara do alimento, é mostrar que existe algo além daquele corpo e...aaha...

aaahhh

se e...

se aaah...


não há.

Deixa teu jejum do lado e come. Manda pra dentro, se estufa e explode, se transforme em mil mega-tons de força se espalhando mundo e viva como se a comida fosse sua religião. Come tudo e se der, jogue o garfo fora e coma a mão.

26 junho 2013

prova dos 9

a menina fez tanta tatuagem
pra aparentar alguém
pra parecer alguém
pra se tornar alguém
pra ser alguém

que perdida
no banho
resolveu procurar por baixo de si
os resquícios de quem era antes de tudo

só achou rabiscos
rascunhos
exemplos

pra tirar a prova dos 9
fez uma última tatuagem
agora final:
NDA

nenhuma
das
anteriores.