30 junho 2011
as más idéias
Tem horas que me vem uma frase na cabeça e eu penso: "genial, vou escrever sobre isso." No caminho até o computador a frase se vai, o pensamento também, fica só aquela vontade, aquela sensação de que alguma coisa eu pensei em dizer. Ainda bem que eu não me importo com as boas idéias...já com as más...
28 junho 2011
às duas
Uma sensação intraduzível, e não uso a palavra sentimento porque os sentimentos são falhos, frouxos, se esticam para lá e para cá sem qualquer razão, é a sensação das duas da manhã. Se eu pudesse dar um conselho à qualquer pessoa não seria ver o nascer ou o pôr-do-sol, dado o fato de que a natureza nos engana o pensamento, mas sim, deixar-se em casa sem pronunciar qualquer palavra a ver a noite chegar e depois a madrugada, até às duas da manhã. Se ao ponto nada acontecer, duvide de sua humanidade.
Às duas chega uma sensação que diria eu ser de mundo. Deixar-se ao tempo, à noite, mas não muito como às 4 da manhã, quase ao amanhecer, nem tão cedo à meia noite quando a maioria ainda descansa do cansativo dia.
Duas da manhã está entre lá e cá e forma uma espécie de zona de fronteira da madrugada. Tudo faz sofrer e nada é sofrimento. Tornamo-nos distantes das coisas, da realidade e vem-nos uma pulsão de vida. Nada quente, uma pulsão de vida como tomar um copo d´água ou ouvir uma história dos avós.
Todo os dias, às duas da manhã, tenho vontade de olhar para o céu e perguntar: "amigo, há quanto tempo estás por aí?"
Às duas chega uma sensação que diria eu ser de mundo. Deixar-se ao tempo, à noite, mas não muito como às 4 da manhã, quase ao amanhecer, nem tão cedo à meia noite quando a maioria ainda descansa do cansativo dia.
Duas da manhã está entre lá e cá e forma uma espécie de zona de fronteira da madrugada. Tudo faz sofrer e nada é sofrimento. Tornamo-nos distantes das coisas, da realidade e vem-nos uma pulsão de vida. Nada quente, uma pulsão de vida como tomar um copo d´água ou ouvir uma história dos avós.
Todo os dias, às duas da manhã, tenho vontade de olhar para o céu e perguntar: "amigo, há quanto tempo estás por aí?"
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25 junho 2011
Ponto Fraco
Texto do programa de Ponto Fraco, prática de montagem da UNIRIO, com direção de Leandro Romano e dramaturgia de Luiz Antonio Ribeiro:
Há um ponto. Todo mundo sabe disso. Sem o ponto não há nada a fazer, não há onde ir e é até impossível se mexer. O ponto serve, no mínimo, pra que a gente se equilibre sobre ele. Sem o ponto a folha está em branco, completamente vazia. A cena, sem o ponto, fica muda. O ônibus sem o ponto vai errar como nômade pelos espaços da cidade. O ponto existe e a gente sabe como é ativado. Sabe como ele é frágil, tímido e se nega a aparecer. O ponto é esquivo, arisco, é quase que uma entidade espiritual que só aparece quando quer ou então quando se chafurda, se lança e se humilha perante ele.
No entanto nosso objetivo não é esse. É que as atrizes, o diretor, o dramaturgo, o cenógrafo, o iluminador e o figurinista sabem do esforço que é lidar com o ponto. Há uma tendência a, antes de tudo, encontrar o ponto. E, escolhido aleatoriamente, o ponto vira quase uma estrela, o ponto é como um guia para cegos e nós, cegos, nos atiramos ao ponto.
Nós, no entanto, somos cegos sem guia. Estamos largados e nada sabemos do ponto. É claro que ele é importante, ele dita os caminhos, mas se o ponto não está lá, estará o caminho?
A partir dessas narrativas pontuais, mas também, sem pontos é que lidamos com a cena. Estamos no caminho certo, à procura do ponto perfeito, porque sabemos que ele está bem na nossa cara, se esfregando, na ponta da língua. O ponto, em fila pequena, é reticência. Em fila grande é pontilhado. O ponto é tudo que se fala dele, é tudo que se escreve no pontilhado e tem reticências no fim.
É o ponto...que é fraco.
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17 junho 2011
solidão
Faz muito tempo que aprendi a solidão. Acho que todos aprendemos mais ou menos na mesma época, ali por volta de seis, sete anos, quando nossa mãe nos esquece por um momento ou a professora da escola diz que você está errado. É uma sensação tão forte que marca e qualquer outra solidão, depois dessa, parece que repete-a.
Depois resolvi aprende sobre a solidão. Sabe quando dizem: “você tem que estar preparado para o que vem.”? Geralmente dizem isso pra coisas simples, tipo levar um guarda-chuva e casaco pra não pegar gripe, comer verduras pra estar com o organismo forte, arrumar as malas porque a carona pode chegar antes, no entanto, essa questão, pelo menos em mim, vai além. Estar preparado para o que vem é apontar do momento em que se está até o dia da nossa morte tudo aquilo que é passível de acontecer e, aos poucos, preparar-se para todas as ocasiões.
A primeira delas é simples, a morte de nossos avós. A ordem natural é que eles morram primeiro que a gente, então é preciso o mais cedo possível se preparar para esse acontecimento. Isso quer dizer, fazer todos os carinhos que estamos devendo, comprar um presente pra eles e perguntar toda a história de suas vidas e de nossa família, pra que no futuro possamos contar pros que vem aquilo que ouvimos. Isso também inclui comer muito feijão, bolinho de batata sem salsinha, sentir o cheiro da vó que faz crochê como ninguém apesar de não saber contar. Estar pronto é um pouco de sentir saudades antecipadamente e, justamente por isso e um pouco trágico, é preciso também um pouquinho de distância deles. Não é frieza, nunca. É distância, é preciso que não dependamos deles pra nada, que toda nossa relação seja simplesmente afetiva, sem qualquer dependência sua pra eles.
A segunda é, óbvio, se preparar pra morte de nossos pais. É a ordem natural e talvez a coisa mais difícil de se fazer. A lógica é complicada e até hoje tenho dificuldade de equilibrar, porque, em via de regra, é fazer o mesmo que fazemos com os avós, só que com muitas mais dificuldades, porque os pais são os seres do amor, da gênesis. Não somos igual deus que abandona Adão e Eva com facilidade, nós amamos. É até complicado tratar disso em um texto, acho que não tenho essa força ainda. Pulo.
Por fim, é estar pronto pra todas as vicitudes do mundo. Todas as porradas que você vai levar, todos os desagradados que vai ter de passar, todos as ofensas, falta de respeito, puxada de tapete, soco na cara, ressaca. É preciso estar preparado pra tudo isso.
Aliás, a ressaca é um belo exemplo. Preparar-se pra ressaca é preparar-se pra vida. Sabe-se que ela vem no dia seguinte, então o dia de beber é escolhido a dedo, todo o ritual pra amenizar é seguido e um certo controle mental antes e depois que permita o descontrole do momento. O fato é: o mundo é perigoso, vai ofender e é preciso estar pronto.
Depois vem a saúde. Ela é a primeira a cobrar. É engraçado ver como as nutricionistas falam em evitar gordura, hormônios, carboidratos, açúcar. O dia que uma não morrer e viver saudável pra sempre, eu juro que sigo as instruções, mas enquanto elas se forem com a mesma idade que minha vó da roça que comia fritura na banha de porco, nada feito. Preparar-se pra ter problemas de saúde é saber quais seus pontos fracos, onde que rebate os problemas no nosso organismo e, tudo que vier dali, não ser surpresa.
Acho que agora é o mais importante. A solidão pela solidão. Estar preparado para a solidão é aprender a estar sozinho. Dizia Baudelaire: Quem não aguenta a solidão do seu quarto, nunca vai aguentar uma grande cidade. A solidão é aprender a ler trechos de livros enquanto caminha pela casa, é não esperar que a TV complete o vazio dentro de você, é saber que por mais que você estude, trabalhe, é absolutamente inútil e serve apenas pra dar dinheiro pra você gastar com coisas que você não vai querer pra sempre. Aprender a ser solitário é se olhar nu, mas uma nudez suja, daquela que não toma banho ou que não arruma a casa. Uma nudez que você só permite a você mesmo e mesmo assim se envergonha. Quem fica sozinho em casa e toma banho, usa maquiagem e troca de roupa, nunca vai entender de solidão. Essa solidão nua é a mais difícil e muita gente tenta completar com amigos, amores, festas, mas eu prefiro não. Prefiro encarar a solidão de minha casa comigo mesmo e cada vez mais aperfeiçoar esse talento de não estar, de não ser presente. A saída é aprender a não-ser. A necessidade de ser o tempo todo, de estar limpo, inteligente, sagaz, engraçado, perspicaz e disponível acaba com qualquer individualidade e inteligência. O que é preciso é não-ser, deixar a ignorância passar, perceber as redes sociais como o lugar onde os outros caçam...peixes. Os amigos, em alguns momentos, completam esse buraco do não-ser, mas eles, e isso é um desejo meu, também vão conseguir não ser, justamente por isso, não posso depender deles, seria cruel demais.
A solidão nua, a solidão suja, a solidão da louça não lavada e da roupa jogada é o desafio. Essa solidão de que se abre mão de quase tudo que existe pra ficar ali, no cantinho da cama, pequeno, quase não existindo, controlando até a respiração e o movimento das pernas. É ouvir música em fone de ouvido mesmo estando sozinho. É pegar um papel pra escrever uma carta e deixar ali, na mesa, com o lápis do lado por horas e horas. É preparar um prato de comida sem esquenta-la, deixar esperando no micro-ondas, é abrir uma caixão de bombom e não comer. É olhar pra isso tudo com a maior complacência e sentir no fundo, não dizendo: “fica pra depois.”
A solidão não corta e não mata. Não existe nenhum sofrimento que vem da solidão. O maior sofrimento vem do outro lado, vem da porta pra fora. Aqui dentro, enquanto houver eu-não-sendo, vai ser o melhor lugar do mundo e o único que eu posso estar.
Depois resolvi aprende sobre a solidão. Sabe quando dizem: “você tem que estar preparado para o que vem.”? Geralmente dizem isso pra coisas simples, tipo levar um guarda-chuva e casaco pra não pegar gripe, comer verduras pra estar com o organismo forte, arrumar as malas porque a carona pode chegar antes, no entanto, essa questão, pelo menos em mim, vai além. Estar preparado para o que vem é apontar do momento em que se está até o dia da nossa morte tudo aquilo que é passível de acontecer e, aos poucos, preparar-se para todas as ocasiões.
A primeira delas é simples, a morte de nossos avós. A ordem natural é que eles morram primeiro que a gente, então é preciso o mais cedo possível se preparar para esse acontecimento. Isso quer dizer, fazer todos os carinhos que estamos devendo, comprar um presente pra eles e perguntar toda a história de suas vidas e de nossa família, pra que no futuro possamos contar pros que vem aquilo que ouvimos. Isso também inclui comer muito feijão, bolinho de batata sem salsinha, sentir o cheiro da vó que faz crochê como ninguém apesar de não saber contar. Estar pronto é um pouco de sentir saudades antecipadamente e, justamente por isso e um pouco trágico, é preciso também um pouquinho de distância deles. Não é frieza, nunca. É distância, é preciso que não dependamos deles pra nada, que toda nossa relação seja simplesmente afetiva, sem qualquer dependência sua pra eles.
A segunda é, óbvio, se preparar pra morte de nossos pais. É a ordem natural e talvez a coisa mais difícil de se fazer. A lógica é complicada e até hoje tenho dificuldade de equilibrar, porque, em via de regra, é fazer o mesmo que fazemos com os avós, só que com muitas mais dificuldades, porque os pais são os seres do amor, da gênesis. Não somos igual deus que abandona Adão e Eva com facilidade, nós amamos. É até complicado tratar disso em um texto, acho que não tenho essa força ainda. Pulo.
Por fim, é estar pronto pra todas as vicitudes do mundo. Todas as porradas que você vai levar, todos os desagradados que vai ter de passar, todos as ofensas, falta de respeito, puxada de tapete, soco na cara, ressaca. É preciso estar preparado pra tudo isso.
Aliás, a ressaca é um belo exemplo. Preparar-se pra ressaca é preparar-se pra vida. Sabe-se que ela vem no dia seguinte, então o dia de beber é escolhido a dedo, todo o ritual pra amenizar é seguido e um certo controle mental antes e depois que permita o descontrole do momento. O fato é: o mundo é perigoso, vai ofender e é preciso estar pronto.
Depois vem a saúde. Ela é a primeira a cobrar. É engraçado ver como as nutricionistas falam em evitar gordura, hormônios, carboidratos, açúcar. O dia que uma não morrer e viver saudável pra sempre, eu juro que sigo as instruções, mas enquanto elas se forem com a mesma idade que minha vó da roça que comia fritura na banha de porco, nada feito. Preparar-se pra ter problemas de saúde é saber quais seus pontos fracos, onde que rebate os problemas no nosso organismo e, tudo que vier dali, não ser surpresa.
Acho que agora é o mais importante. A solidão pela solidão. Estar preparado para a solidão é aprender a estar sozinho. Dizia Baudelaire: Quem não aguenta a solidão do seu quarto, nunca vai aguentar uma grande cidade. A solidão é aprender a ler trechos de livros enquanto caminha pela casa, é não esperar que a TV complete o vazio dentro de você, é saber que por mais que você estude, trabalhe, é absolutamente inútil e serve apenas pra dar dinheiro pra você gastar com coisas que você não vai querer pra sempre. Aprender a ser solitário é se olhar nu, mas uma nudez suja, daquela que não toma banho ou que não arruma a casa. Uma nudez que você só permite a você mesmo e mesmo assim se envergonha. Quem fica sozinho em casa e toma banho, usa maquiagem e troca de roupa, nunca vai entender de solidão. Essa solidão nua é a mais difícil e muita gente tenta completar com amigos, amores, festas, mas eu prefiro não. Prefiro encarar a solidão de minha casa comigo mesmo e cada vez mais aperfeiçoar esse talento de não estar, de não ser presente. A saída é aprender a não-ser. A necessidade de ser o tempo todo, de estar limpo, inteligente, sagaz, engraçado, perspicaz e disponível acaba com qualquer individualidade e inteligência. O que é preciso é não-ser, deixar a ignorância passar, perceber as redes sociais como o lugar onde os outros caçam...peixes. Os amigos, em alguns momentos, completam esse buraco do não-ser, mas eles, e isso é um desejo meu, também vão conseguir não ser, justamente por isso, não posso depender deles, seria cruel demais.
A solidão nua, a solidão suja, a solidão da louça não lavada e da roupa jogada é o desafio. Essa solidão de que se abre mão de quase tudo que existe pra ficar ali, no cantinho da cama, pequeno, quase não existindo, controlando até a respiração e o movimento das pernas. É ouvir música em fone de ouvido mesmo estando sozinho. É pegar um papel pra escrever uma carta e deixar ali, na mesa, com o lápis do lado por horas e horas. É preparar um prato de comida sem esquenta-la, deixar esperando no micro-ondas, é abrir uma caixão de bombom e não comer. É olhar pra isso tudo com a maior complacência e sentir no fundo, não dizendo: “fica pra depois.”
A solidão não corta e não mata. Não existe nenhum sofrimento que vem da solidão. O maior sofrimento vem do outro lado, vem da porta pra fora. Aqui dentro, enquanto houver eu-não-sendo, vai ser o melhor lugar do mundo e o único que eu posso estar.
16 junho 2011
formigas 2
14 junho 2011
formigas
12 junho 2011
doze
Há de ser muito filósofo pra se falar do sublime. E o amor, o sentimento mais sublime de tudo que há, está no oposto da filosofia. O amor é a anti-filosofia, como verruga em morto, é anti-natural e por conta disso, aquilo que há de mais forte. Por isso que, digo hoje, meu amor é maior até que a natureza, que o cosmos, porque eu sou a redução de tudo que existe. Amor hoje, doze de junho, sou eu.
08 junho 2011
rebelde
Quando ouvia ainda criança a palavra "rebelde" me vinha uma estranha sensação. Tinha uma breve repulsa por aquele que era rebelde, porque era alguém que a família não gostava, que os amigos tinham medo, que não conseguia se misturar e era sempre mal visto. Ao mesmo tempo via o rebelde como alguém duro, que precisava mais que de ordem, de atenção. O rebelde era, na minha visão, um ser que ainda não foi domado e que por isso fazia o que fazia.
De qualquer maneira e isso é o que importa, o rebelde era alguém que impunha respeito. Rebelde era, pra mim, alguém que podia fazer alguma coisa inesperada, completamente fora da regra e isso era assustador.
Hoje em dia vejo a rebeldia como a única saída do mundo.
dicas:
1 - É preciso não fazer o que esperam de você.
2- É preciso que, ao romper os padrões, faça com sutileza mesmo que se arrombe a porta, porque o gesto já é claro por si só, não precisa de pomba nem de avisos.
3- É preciso inverter a lógica: o que é bom necessariamente precisa ser ruim e o que é ruim torna-se prioridade.
4- A tradição nada mais é que objeto de apropriação e escárnio. O que vem do passado serve apenas como ponto de partida de referências do que é velho. O rebelde precisa ser novo.
5- É preciso ser chato. É impossível ser rebelde e ao mesmo tempo agradar. Na vontade de ultrapassar as barreiras, o contentamento seu ou do outro é ponto cômodo que leva ao sucesso, e um rebelde nunca sucederá.
6- A família para o rebelde é cobaia. Não que ele não ame, mas antes de amar, ele precisa fazer que o amor seja livre, nunca parte do protocolo existencial genético social.
7 - O rebelde não pode ser dialético porque ele não faz síntese. Ele não trabalha em opostos nem com oposições. Ele ri das duas, ultrapassa-as com uma ironia ou um golpe de humor inteligente e as dissolve em instantes. Um rebelde, por exemplo, nunca pode ser um comunista.
8 - Não é possível ser culto na rebeldia. O excesso de cultura é tradicional em demasia e, por conta disso, é conservador. A inteligência dele está em reverenciar os mestres sem seguir seus exemplos, porque, na verdade, os mestres são homens que se deve admirar, nunca seguir.
9- É preciso não ter religião. Só.
10 - É preciso nunca saber/pensar/usar a palavra produto. Nada é produto porque nada é apropriável, nada tem duração, nada tem tempo de maturação. Tudo é instantâneo, urgente e grave.
O rebelde é esse e mais não falo.
De qualquer maneira e isso é o que importa, o rebelde era alguém que impunha respeito. Rebelde era, pra mim, alguém que podia fazer alguma coisa inesperada, completamente fora da regra e isso era assustador.
Hoje em dia vejo a rebeldia como a única saída do mundo.
dicas:
1 - É preciso não fazer o que esperam de você.
2- É preciso que, ao romper os padrões, faça com sutileza mesmo que se arrombe a porta, porque o gesto já é claro por si só, não precisa de pomba nem de avisos.
3- É preciso inverter a lógica: o que é bom necessariamente precisa ser ruim e o que é ruim torna-se prioridade.
4- A tradição nada mais é que objeto de apropriação e escárnio. O que vem do passado serve apenas como ponto de partida de referências do que é velho. O rebelde precisa ser novo.
5- É preciso ser chato. É impossível ser rebelde e ao mesmo tempo agradar. Na vontade de ultrapassar as barreiras, o contentamento seu ou do outro é ponto cômodo que leva ao sucesso, e um rebelde nunca sucederá.
6- A família para o rebelde é cobaia. Não que ele não ame, mas antes de amar, ele precisa fazer que o amor seja livre, nunca parte do protocolo existencial genético social.
7 - O rebelde não pode ser dialético porque ele não faz síntese. Ele não trabalha em opostos nem com oposições. Ele ri das duas, ultrapassa-as com uma ironia ou um golpe de humor inteligente e as dissolve em instantes. Um rebelde, por exemplo, nunca pode ser um comunista.
8 - Não é possível ser culto na rebeldia. O excesso de cultura é tradicional em demasia e, por conta disso, é conservador. A inteligência dele está em reverenciar os mestres sem seguir seus exemplos, porque, na verdade, os mestres são homens que se deve admirar, nunca seguir.
9- É preciso não ter religião. Só.
10 - É preciso nunca saber/pensar/usar a palavra produto. Nada é produto porque nada é apropriável, nada tem duração, nada tem tempo de maturação. Tudo é instantâneo, urgente e grave.
O rebelde é esse e mais não falo.
23 maio 2011
poemeto das 5:55
quero escrever um poema de amor
mas tenho sono
mas tenho amor
mas tenho sono
mas tenho amor
e não quero que meu poema seja de sono
só de amor.
no fim,
escrevo um poema
(com sono)
de amor
pra dizer que vou dormir
e em sonho pretendo encontrar meu amor
e acordar bem
sem sono
(e com amor)
mas tenho sono
mas tenho amor
mas tenho sono
mas tenho amor
e não quero que meu poema seja de sono
só de amor.
no fim,
escrevo um poema
(com sono)
de amor
pra dizer que vou dormir
e em sonho pretendo encontrar meu amor
e acordar bem
sem sono
(e com amor)
18 maio 2011
dezenove de abril
No dia da Bandeira
a homenagem devia ser pra outro
o menor de tamanho
de tempo, de vida
e até de conhecimento
No dia da Bandeira
o que importa é o outro
que de menos faz mais
que retângulo, losango e círculo
Imagino o outro Bandeira
pendurado no mastro
doce, sorridente, singelo
lá de cima dizendo:
"Vamos descer,
interromper o cortejo
e tomar um café?"
o telefone
meu telefone toca antes de eu entrar em casa.
é um sinal,
um toque,
um aviso de que eu chego agora?
ou um aviso de que devo entrar,
mas não esquecer lá de fora?
é um sinal,
um toque,
um aviso de que eu chego agora?
ou um aviso de que devo entrar,
mas não esquecer lá de fora?
04 maio 2011
se um dia
se um dia eu escrever uma poesia
triste, poesia de despedida
sei do que ela vai precisar:
um final pequeno, curto
triunfante como um exército,
e pequeno.
seria assim, já sei:
"faltou amar como eu te amo"
triste, poesia de despedida
sei do que ela vai precisar:
um final pequeno, curto
triunfante como um exército,
e pequeno.
seria assim, já sei:
"faltou amar como eu te amo"
03 maio 2011
pra ela dois
O amor é uma questão de visão. Acontece que às vezes nosso olhar está fraco, turvo, como se estívessemos em uma intensa neblina ou, de repente, ficamos míopes. Só que o amor, maior em todas as dimensões que qualquer tempestade, vai sempre além. Ele vaga por cima das nuvens, sonha com outras tempestades - uma chuva de verão, por exemplo, - pois ele está armado para viver etéreo, em um espaço vivo da eternidade. O amor é como um zumbi, morto-vivo; viverá eternamente em uma semi-vida, e semi-vida porque semi-consciente, semi-racional.
Vou tentando atabalhoadamente dizer as coisas e elas vão saindo, palavra por palavra, até que eu entenda bem o que tento dizer até pra mim mesmo. É isso:
Antes de amar a gente ama, porque ele é a força inicial da natureza. E é nessas horas que não consigo deixar de pensar como você está agora. Se deitada, se dormindo, se pensando, se falando ou sorrindo. É, não importa a imagem que tenha de ti. É ela, só ela e mais nada que hoje vai me fazer dormir feliz.
Sou eu e sou tu. Eu é tu.
Vou tentando atabalhoadamente dizer as coisas e elas vão saindo, palavra por palavra, até que eu entenda bem o que tento dizer até pra mim mesmo. É isso:
Antes de amar a gente ama, porque ele é a força inicial da natureza. E é nessas horas que não consigo deixar de pensar como você está agora. Se deitada, se dormindo, se pensando, se falando ou sorrindo. É, não importa a imagem que tenha de ti. É ela, só ela e mais nada que hoje vai me fazer dormir feliz.
Sou eu e sou tu. Eu é tu.
26 abril 2011
atravessar a rua
Por medo, atravessei a rua. Que fique claro que não atravessei a rua com medo. Estava austero, empinado, tal qual galo de briga, com o famoso peito de pombo ereto, mas atravessei...por medo.
Não si se faz diferença o “por medo” ou “com medo”, mas internamente, amigo, faz. Por exemplo, há um mendigo na esquina vindo em sua direção. Você não sente medo algum, mas atravessa a rua por medo. É quase como se o medo fosse conceitual, ao contrário do medo físico, iminente. O medo desvia da morte, mas também celebra a vida.
Atravessei a rua, então, por medo. Nesse momento havia somente eu, a rua e o medo, junto com minha ação de atravessar. Eu precisava acrescentar alguma coisa para fugir desse sentimento, então resolvi parar no meio da rua. Inteferir na vida, interromper o mundo. Não quis nem avisar aos outros o que faria. Odeio suicidas que escrevem cartas. O sujeito se mata e ainda deixa rabo, deixa rastro. Se mata e ainda chateia os outros, mais que o protocolo de enterros, velórios, funerais, missas, lágrimas. Se eu morresse agora, pensei, seria uma chateação, mas já não posso voltar atrás para a calçada por conta do medo e não posso ficar na rua para não ser chato. Resta-me o outro lado, então vou.
Agora que saí do trânsito, percebi que a rua estava deserta e interrompi apenas um carro que acabara de sair da garagem. O carro abre o vidro: “Tudo bem, vizinho?” “Tô bem, tô bem.”, e ele vai. A garagem ainda permanece aberta. Entrei.
Não si se faz diferença o “por medo” ou “com medo”, mas internamente, amigo, faz. Por exemplo, há um mendigo na esquina vindo em sua direção. Você não sente medo algum, mas atravessa a rua por medo. É quase como se o medo fosse conceitual, ao contrário do medo físico, iminente. O medo desvia da morte, mas também celebra a vida.
Atravessei a rua, então, por medo. Nesse momento havia somente eu, a rua e o medo, junto com minha ação de atravessar. Eu precisava acrescentar alguma coisa para fugir desse sentimento, então resolvi parar no meio da rua. Inteferir na vida, interromper o mundo. Não quis nem avisar aos outros o que faria. Odeio suicidas que escrevem cartas. O sujeito se mata e ainda deixa rabo, deixa rastro. Se mata e ainda chateia os outros, mais que o protocolo de enterros, velórios, funerais, missas, lágrimas. Se eu morresse agora, pensei, seria uma chateação, mas já não posso voltar atrás para a calçada por conta do medo e não posso ficar na rua para não ser chato. Resta-me o outro lado, então vou.
Agora que saí do trânsito, percebi que a rua estava deserta e interrompi apenas um carro que acabara de sair da garagem. O carro abre o vidro: “Tudo bem, vizinho?” “Tô bem, tô bem.”, e ele vai. A garagem ainda permanece aberta. Entrei.
21 abril 2011
17 abril 2011
Não-Ágape

Encontrei o livro Ágape do Padre Marcelo Rossi na estante e resolvi dar uma folheada. Li um capítulo do livro apenas e foi suficiente para que muitas ideias saltassem do livro e, na vã tentativa de organizá-las, escrevo agora.
Ágape significa “amor incondicional”. Isso está na orelha do livro, na última página, na primeira linha do prefácio e em todo o capítulo que li. No caso é o amor que Jesus tem pelos homens. Incondicional. IN-CON-DI-CIO-NAL. Isso quer dizer que não há um instante, uma lugar, uma situação em que Jesus não esteja ao nosso lado nos amando. É como se tivéssemos um peixinho e passássemos o dia inteiro ao lado do aquário observando cada gesto, cada passo, dando comida, afastando os males, trocando a água e, amando. Seríamos um ser feito de amor e que nunca se fartaria de amar. Por um lado, isso é extremamente bonito e poético. A ideia de que um ser afasta sua individualidade e entrega sua vida para cuidar das outras é o exemplo máximo de altruísmo e bondade. Por outro lado, há uma falta de respeito com o seu próprio ser. Se cada vida é feita para ser vivida e aproveitada, não é justo que se abra mão da sua que é única em prol dos outros. Ainda mais que, se somos imagem e semelhança de Deus, abrir mão de nossas vidas, é também abrir mão da nossa semelhança com Deus, e por conseguinte, dele próprio.
Um último ponto e talvez seja o mais importante. Estar todo o tempo amando incondicionalmente outro ser, ou no nosso caso, o peixinho, é dizer que esse peixe precisa ser cuidado. É dizer que nós somos muito importantes e que, sem mim, o pobre peixe vai para a ruína, para a morte e para o sofrimento. Nesse caso, amar é precisar e a incondicionalidade é uma violência. Amar incondicionalmente dessa forma, definitivamente não é um belo amor.
O segundo ponto do livro que se destacou pra mim é a completa falta de respeito de Marcelo Rossi. O livro foi escrito com absoluta displicência, preguiça, falta de cuidado. Escrito sem pensar hora nenhuma na melhoria do rebanho. Ele somente repete qualquer sermão, qualquer opinião óbvia, sem nenhum trato especial, sem nenhum ponto. Comenta os evangelhos como quem fala de notícias de jornal e trata com falta de respeito a instituição da igreja e seus fiéis. Incrível é ainda ninguém ter percebido isso, parece que algumas coisas todo mundo sabe, mas pouca gente tem coragem de dizer.
Eu deixaria meu texto assim, como foi escrito, mas ao contrário do Pr. Rossi, eu pretendo ter cuidado de quem lê comigo, portanto vamos às correções.
06 abril 2011
os ossos por dentro
Entro no ônibus. Venho da academia, acho que ganhei 3, 4 centímetros de bíceps só hoje. Eu tô feliz, meu corpo desenvolve bem, tá relaxado, acho que meu trabalho todo tá fazendo efeito. Entro e vejo uma menino franzino, pequeno, cabelo enrolado, barbado e com cara de quem tá se achando. Sinto vontade de dar um soco na cara dele. Enfiar a porrada sem deixar uma gota de sangue cair. Quebrar os ossos dele por dentro, estraçalhar o nariz, o maxilar e quantos mais ossos estão naquela cara frágil. Isso tudo sem sangrar e, se possível, sem deixar hematoma e se for pra deixar que ele no máximo fique só com uma vermelhidão. Nada de roxo, uma leve vermelhidão como se ele tivesse se maquiado ou como se eu tivesse roçado minha barba na cara dele. É um viadinho.
Pena que não posso socar aquela cara agora. Pena que não posso. Tô cheio de energia acumulada nos braços pra soltar em cima de alguém. Olha a veia, cara, tá até saltando do braço. Agora eu já to sentado e ele abre um livro. Não lê, fica só folheando pra aparecer. Quer humilhar todo mundo que não gosta de livro, tipo aquela empregada ali que nem tempo pra isso tem. Ele levanta, puxa a cordinha, vai saltar agora. O filho da puta mora bem, filhinho de papai. Se bem que, po...tá indo de ônibus, não deve ter tanta grana assim.
Eu tô perto da porta e ele tá vindo na minha direção. Ele é pequeno, mas cresceu muito agora que tá perto de mim. Ele tem todo um estilo e tal. Sem querer ele pisa no meu pé. Vira pra mim, sorri e pede desculpas. Não faço nada, nem respondo. Pronto, desceu.
Pena que não posso socar aquela cara agora. Pena que não posso. Tô cheio de energia acumulada nos braços pra soltar em cima de alguém. Olha a veia, cara, tá até saltando do braço. Agora eu já to sentado e ele abre um livro. Não lê, fica só folheando pra aparecer. Quer humilhar todo mundo que não gosta de livro, tipo aquela empregada ali que nem tempo pra isso tem. Ele levanta, puxa a cordinha, vai saltar agora. O filho da puta mora bem, filhinho de papai. Se bem que, po...tá indo de ônibus, não deve ter tanta grana assim.
Eu tô perto da porta e ele tá vindo na minha direção. Ele é pequeno, mas cresceu muito agora que tá perto de mim. Ele tem todo um estilo e tal. Sem querer ele pisa no meu pé. Vira pra mim, sorri e pede desculpas. Não faço nada, nem respondo. Pronto, desceu.
28 março 2011
o deserto

A cidade é aquela coisa que a gente construiu por sobre a terra enchendo-a de cimento, muro, parede e asfalto. Não me espanta nem me fascina isso. Não me espanta ver que o homem tem uma tendência a descobrir coisas e depois querer usar as coisas que descobriu pra fazer tudo que quer na vida, então, como ainda não foi inventado nada mais simples e menos feio que o cimento, o muro a parede e o asfalto, vamos convivendo. Também não me fascina porque já estou acostumado a ver esses imensos retângulos por todo lado, sem perceber os contornos da natureza, que por sinal são bem mais fracos que de qualquer construção.
O deserto. Fico pensando no deserto. O deserto é uma área, um território arenoso que o ser humano foge. Não há amizade entre homem e deserto, pelo contrário, os que ali habitam são forçados a isso e sofrem brutalmente a violência dele que oscilando entre calor e frio não permite que ninguém ali se sinta em casa.
As florestas. As florestas são aquilo que o ser humano mais preza. Ganha-se dinheiro pra passar dias numa casa de campo, convivendo com a natureza, o ar puro e com construções menos retangulares e preocupadas com cimento, muro, parede e asfalto.
Por que, então, penso eu, a gente não construiu a cidade sobre o deserto? Podia ter enchido de asfalto por cima do deserto, ter ido morar lá e feito nossas casas e nossas habitações horrorosas como em um acampamento. Até penso na especulação imobiliária: quem mora no morro paga um pouco mais barato, quem mora em vales paga mais caro. E pra ter um oásis, amigo, é...aí você vai ter que ser milionário.
Com isso toda natureza estaria intacta, bela, fulgurante, como nos hinos, nas canções, como nos sonhos. Ainda viveriam muitas espécies extintas, árvores que não acabam nunca e uma qualidade de vida muito melhor. A parte feia e ruim do mundo teria virado a cidade, também feia e ruim. Quem sabe até a gente não adoraria nossas cidades, e até se ouviria de um sujeito: “Olha como é linda...lembra quando do deserto que horror que era?”
Fica a impressão apenas de que a gente abandonou o deserto, fez vista grossa, fingiu que ele não existia, assim como abandonou o sertão e que a cidade cresceu sem se dar conta disso. Assim ela vai crescer, crescer, crescer, até que, se aquele mesmo sujeito, apenas um, em um dia qualquer resolver olhar pro horizonte não vai ter nada pra ver além de areia. É um fato: o deserto vai virar nosso vizinho.
13 março 2011
chute no saco
Todo mundo fala que a pior dor é de crise nos rins. Outros falam que é chute no saco. Nunca levei nenhum dos dois. No máximo uma bolada numa partida do futebol, e porra, é a pior dor. É algo incontrolável, começa nas pernas, chega no saco, óbvio, e vai subindo até doer no suvaco, tipo íngua, sabe?
Quem olha acha graça de ver aquele homem grande, suado, forte, que há pouco gritava palavrões e ameaçava dribles usando da força física, caído no chão, acuado, posição fetal, meio rindo meio chorando por uma bola ter tocado suas partes.
O homem caído percebe sua fragilidade, tanto que não consegue nem pensar em vingança, no máximo quer dar uma olhada pra ver se num vai ficar brocha ou se uma bola sumiu. No mais, ele tenta se recompor e falar: "tudo bem, gente, esquece...acontece." E vamos pro jogo. Claro que ele vai tentar dar uma porradinha no sujeito que chotou a bola, mas sabe que a culpa mesmo é da bola, ou do acaso, ou de deus.
Porque se o destino existe e estava escrito que ele ia ter saco e que uma bola ia bater no saco dele aquele dia, nada melhor que achar deus um vacilão. Se foi por acaso é foda, quer dizer que ele poderia ter ganhado na loteria, mas não, ficou caído 5 minutos com uma dor intensa.
É estranho. Só falta agora ter uma crise no rim.
Quem olha acha graça de ver aquele homem grande, suado, forte, que há pouco gritava palavrões e ameaçava dribles usando da força física, caído no chão, acuado, posição fetal, meio rindo meio chorando por uma bola ter tocado suas partes.
O homem caído percebe sua fragilidade, tanto que não consegue nem pensar em vingança, no máximo quer dar uma olhada pra ver se num vai ficar brocha ou se uma bola sumiu. No mais, ele tenta se recompor e falar: "tudo bem, gente, esquece...acontece." E vamos pro jogo. Claro que ele vai tentar dar uma porradinha no sujeito que chotou a bola, mas sabe que a culpa mesmo é da bola, ou do acaso, ou de deus.
Porque se o destino existe e estava escrito que ele ia ter saco e que uma bola ia bater no saco dele aquele dia, nada melhor que achar deus um vacilão. Se foi por acaso é foda, quer dizer que ele poderia ter ganhado na loteria, mas não, ficou caído 5 minutos com uma dor intensa.
É estranho. Só falta agora ter uma crise no rim.
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