28 julho 2010
27 julho 2010
Antenor - parte 1 - o projeto e as caixas
Um projeto teatral, ou mais que isso, um projeto também teatral. Antenor é o personagem principal do conto "o homem da cabeça de papelão" de João do Rio. O conto que flerta com o fantástico está sendo adaptado para os palcos por mim e por Leandro Romano e para os vídeos pro Francisco Ferraz, que filma ensaios e discussões. No fim, uma obra que abrangirá cena e tela, palco e internet, cinema e presença.
22 julho 2010
meios de transporte
- o que leva uma pessoa a...
- ÔNIBUS?
- nãão, po! Aaaa...
- TREM?
- não, espera. Eu queria saber mesmo, assim, tô só pensando, o que leva uma pessoa a...
- MOTO, CLARO!
- NÃO. Deixa eu falar! To querendo saber o que leva uma pessoa a...a...se matar...
- Aaaah sim, mas isso é óbvio: uma arma!
- ÔNIBUS?
- nãão, po! Aaaa...
- TREM?
- não, espera. Eu queria saber mesmo, assim, tô só pensando, o que leva uma pessoa a...
- MOTO, CLARO!
- NÃO. Deixa eu falar! To querendo saber o que leva uma pessoa a...a...se matar...
- Aaaah sim, mas isso é óbvio: uma arma!
21 julho 2010
isso.
Não me sinto diferente de ninguém. Nem igual. Não há tal coisa no mundo, cada um é e não entendo absolutamente nada disso. Há no latim o gênero neutro e isso sempre me fascinou, fazemos dualidades o tempo todo e o gênero neutro burla isso, é a ironia, uma negativa afirmativa, a andogrenia, a indistinção. Escolhe o que tu quer aí, camarada, escolhe. Vai querer um, dois ou ambos? She, he ou it? Vai querer um saco ou uma saca? Uma girafa ou uama girafa? É macho ou fêmea? Decide o que tu quer, maluco chato. Esse ou essa?
- Isso.
- Isso.
18 julho 2010
justiça
às vezes penso na justiça penso em ser justo mas acho injusto que justo eu tão pequeno e incapaz tão pouco tão em paz saia do meu canto e sozinho passe dias pensando e pensando na justiça que devia ser justa não pra mim que aceito sua ausência mas justa com outros carentes de justiça sofridos demais
17 julho 2010
kubrick e a guerra
Semana passada resolvei baixar alguns filmes do Kubrick. Assisti, então, essa semana dois filmes dele de guerra, os dois me impressionaram bastante, então resolvi falar um pouco de cada um deles.
O primeiro foi "Nascido para matar", filme de 1987.
O filme começa num treinamento de fuzileiros que vão para a guerra do Vietnã. Vendo eu aquele cenário típico de Kubrick, mas com aqueles espaços conhecidos de filme de guerra, comecei por esperar o que tem, em geral, em todos eles. Me enganei. Kubrick usa de um ultrarrealismo, um exagero quase mórbido das ações e dos tipos de personalidades que devem ser neutralizadas, que nos leva a perceber o absurdo que é um treinamento de guerra. Nos leva a perceber todos os erros que vimos no Vietnã. Consegui perceber claramente o que é tratar o homem como estatística, mas não só o inimigo que "comunista" deve ser liquidado, mas também os seus. Não existem homens, não existe humanidade e sociedade, somente uma nação que deve ser honrada até o fim, até a morte. Essa lógica que me parece totalmente tresloucada é a lógica deles. Será ainda a lógica vigente? Aos poucos as personagens vão enlouquecendo de um modo típico, completamente diferente, mas enlouquecendo, perdendo a capacidade de perceber as coisas e, cada vez mais pragmaticamente levados a analisar os fatos. No fim...bom, parece que não tem fim.
O segundo foi "Glória feita de sangue", filme anterior ao primeiro que citei, de 1957:

Nesse filme a questão é do poder. Uma idéia, um desafio, uma oferta de posto é o mote para que um General resolva que os soldados de uma trincheira francesa invadam o chamado "formigueiro alemão". E um exército cansado e abatido depois de 2 anos naquela situação que não sai do lugar não acredita que é possível, nem seus sargentos ou coronéis, somente o General, que passa as ordens e todos acatam. Enfim, a morte de muitos e o recuo de alguns que são julgados por covardia e escolhidos aleatoriamente para o fuzilamento por não honrar a pátria.
Num determinado momento do fracassado ataque o Genaral manda que a artilharia mate seus próprios soldados que recuavam, como se a derrota deles, A MORTE DELES fosse a derrota do general. Conto a sinopse porque só isso já me parece absurdo, todo esse jogo de poder, essa impossibilidade de contestação de explicação, essa completa ausência de liberdade, impedindo que cada um seja capaz de analisar e julgar, faz com que ninguém, nem os poderosos sejam capazes de analisar e julgar. E no fim...mesmo que algumas coisas mudem, o fim é sempre fim. Fim após mais muitas mortes.
Era só isso mesmo que eu queria dizer.
O primeiro foi "Nascido para matar", filme de 1987.
O segundo foi "Glória feita de sangue", filme anterior ao primeiro que citei, de 1957:
Nesse filme a questão é do poder. Uma idéia, um desafio, uma oferta de posto é o mote para que um General resolva que os soldados de uma trincheira francesa invadam o chamado "formigueiro alemão". E um exército cansado e abatido depois de 2 anos naquela situação que não sai do lugar não acredita que é possível, nem seus sargentos ou coronéis, somente o General, que passa as ordens e todos acatam. Enfim, a morte de muitos e o recuo de alguns que são julgados por covardia e escolhidos aleatoriamente para o fuzilamento por não honrar a pátria.
Num determinado momento do fracassado ataque o Genaral manda que a artilharia mate seus próprios soldados que recuavam, como se a derrota deles, A MORTE DELES fosse a derrota do general. Conto a sinopse porque só isso já me parece absurdo, todo esse jogo de poder, essa impossibilidade de contestação de explicação, essa completa ausência de liberdade, impedindo que cada um seja capaz de analisar e julgar, faz com que ninguém, nem os poderosos sejam capazes de analisar e julgar. E no fim...mesmo que algumas coisas mudem, o fim é sempre fim. Fim após mais muitas mortes.
Era só isso mesmo que eu queria dizer.
16 julho 2010
2:52
Quando ela entristece o mundo parece de seda, parece ruir. Quando eu penso nela triste pareço pálido, me sinto daltônico e antigo, como se um sentimento de outra vida antiga me tomasse. É que as palavras são como lágrimas: escorrem pelo corpo e gotejam do ar pro chão, como se fosse trágica a viagem de toda palavra, como se só alguns silêncios soubessem dizer. Porque é num abraço que a vida se completa, que a vida começa, que as coisas parecem fazer sentido e é longe, em um medo, numa vergonha ou numa tradição qualquer, que as distâncias aumentam, então é a regra: quanto mais perto, mais perto. Porque gostar, talvez, seja entender que a saudade e a distância, se medem pelo pensamento...pensamento de quem se deixar levar.
14 julho 2010
morremos porque esquecemos que vamos morrer
Algumas coisas na vida eu não consigo aceitar. (e ninguém deveria, na verdade, a não ser por essa enorme quantidade de igrejas e livros de auto-ajuda que fazem você aceitar quase qualquer coisa e principalmente, ficam incentivando esperanças inúteis para que tudo se mantenha como está.) A gente passa quase a vida toda tentando, se esforçando de coração, pra esquecer que vamos morrer, pra esquecer que o tempo passa e vai nos corroendo e mais dia ou menos dia toda nossa dignidade será reduzida à pouca coisa, porque a hora da morte é hora que mais vamos nos expor e mais sermos nós mesmos. Me irrita saber que, apesar de tudo isso, de toda tentativa de esquecer que vamos morrer, às vezes acabamos morrendo por distração: porque esquecemos de botar o cinto de segurança, esquecemos de tomar um remédio, de olhar pros lados antes de atravessar a rua, de ir ao médico naquele dia marcado, de se proteger na hora do sexo, de não mexer com objetos pontudos, de beber menos quando vamos dirigir. Morremos porque esquecemos que vamos morrer e isso eu não consigo aceitar. Repito: não consigo aceitar que às vezes morremos porque esquecemos que vamos morrer...E esse texto fica assim, porque algumas perplexidades não tem explicação e não merecem mais que algumas linhas.
13 julho 2010
unha encravada
Unha encravada é uma excelente metáfora pra vida. Pra quem não tem, explico: é quando a unha nos cantos do dedo cresce pra dentro da carne e vai cada vez mais forçando, mesmo que não haja espaço. E a carne, um tanto quanto sólida mas frágil tenta a todo custo impedir que aquele ser estranho entre. Então o dedo começa a ficar vermelho, inflamar, doer, latejar e a gente que, numa vida corrida às vezes esquece de cortar as unhas, tende a futucar com a mão para dar uma leve sensação de descanso, o que acaba por ser, literalmente, um tiro no pé porque começa a inflamar mais ainda e sangrar. Por fim, com uma dor absurda, a gente resolve cortar aquela unha, trabalho que deve ser feito por profissionais que precisam cortar com cuidado, numa forma de quadrado para que a unha cresça de maneira igual. Caso seja em curva uma parte vai ficar pontuda, entrar antes na carne e vai causar mais danos, problemas, sofrimentos.
Acha que acabou? Que nada, quando a unha for retirada, vai ficar um buraco, uma vala, um poço e todo aquele espaço que a unha tinha ganhado da carne vai ficar à mostra e a carne ainda vermelha vai tentar permitir que o sangue circule e começar a relaxar, não sem antes ficar por dias e dias latejando. O buraco lateja, a ausência lateja e demora bastante a curar. Quando cura é por pouco tempo, pois a unha já está a crescer novamente.
Pensem e me digam num corresponde disso nos sentimentos. Eu tenho um escolhido...
09 julho 2010
Eliminando a seleção
Tive vontade de comentar da eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Resolvi faze-lo algum tempo depois da derrota para que as paixões ou as subjetividades não interfiram no que eu escreve, muito embora tudo que eu vá escrever será dito pela paixão e principalmente pela subjetividade, porque só isso que o futebol é.
Tá ok, talvez não, existem fatores objetivos no futebol e vamos a eles: A seleção era limitada tecnicamente, o técnico era mais teimoso burro empacado, a CBF como um todo não se importa muito com futebol, tipo igrejas com nossa alma, o Lúcio é um baita líder, mas forjado, um líder meio sem identidade com o país, um bom líder para qualquer seleção, o que não faz dele um líder pra seleção brasileira.
E dizem os otimistas: "mas os resultados eram excelentes". Quais?, pergunto eu. O bom nível dos jogadores brasileiros faz com que eles estejam "acima da média" de muitas outras seleções, então não importa em que torneio estejam, serão favoritos e chegarão perto do título, o que não significa que seja um bom time, não significa nada. Esse "acima da média" acaba por mascarar um fato: ano a ano a seleção brasileira se enfraquece! E de 90 pra cá vem numa decadência sem fim, principalmente depois do filme da era dos craques da linha Careca-Romário-Ronaldo...
No entanto, a seleção atual enquanto sabia que não jogava bem, enquanto se percebeu limitada, conseguiu resultados. Os cabeças-de-área ficavam ali na deles, dando toques pro lado e pro meia (sempre dependendo do Kaká) que puxava um contra-ataque. A partir do momento, e na Copa isso se deu contra o Chile, que eles perceberem que, sim, eram candidatos ao título, tudo foi pelo buraco. O primeiro tempo com a Holanda foi a gota d´água. YES, WE CAN, pensaram no melhor estilo Joel Santana, e foi o fim do Brasil na Copa do Mundo.
A próxima é no Brasil e 4 anos antes já me cheira a fracasso, mas por favor, outra Maracanazzo vai ser dose...
08 julho 2010
bruno
Abraçado com os amigos fazia uma oração. Pedia proteção, pedia conforto, pedia que não importa onde fosse, pudesse sentir a Sua presença agindo na sua vida. Pedia que premiasse seus esforços e de seus colegas. Agradecia pela chance que teve na vida, pelos amigos, pela carreira que até agora tinha sido de sucesso, agradecia a família que tinha e agradecia por tudo que tinha, apesar de não saber nomear. Olhou para o túnel e viu uma luz ao longe, era para lá que iria, milhares de pessoas o esperariam, ali foram para ve-lo, sentir sua força, seus saltos, piruetas.
Terminada a oração, soltou-se do abraço, se abaixou e ajeitou as meias, a chuteira; de pé deu alguns saltos para se manter aquecido, vestiu as luvas, fez o sinal da cruz e num sinal do capitão correu na direção da luz. Viu um mar preto e vermelho gritando seu nome, fez cara de mau, depois sorriu, agradeceu, pensou que hoje era seu dia, que tudo correria bem. Colocou-se debaixo das traves, ajoelhou uma última vez e parou de pensar. O resto era com seu corpo, o resto era com todos, o resto era show, era espetáculo.
Tudo correu bem até o apito final. Foi a última vez que foi feliz, a partir dali nada mais aconteceria, a partir dali a vida era lá fora, e ali sua vida acabou. Seu último momento de vida foi quando olhou pela última vez aquela multidão rubro-negra. O fim da vida chegou, mas a vida ainda durará muitos anos. Porque não é pela oração, pelo que se diz, pelo que se faz: é por tudo que a gente sempre foi e nunca poderá deixar de ser que se paga.
05 julho 2010
segunda
Se é verdade, como eu disse antes, que só se escreve no sofrimento, então hoje nada que eu diga pode ser poesia, nada pode fazer sentido, nada poderá ser feito. Se é verdade que só se escreve no sofrimento, então hoje tudo que eu escrever será poesia de segunda. Segunda-feira...
03 julho 2010
Auschwitz
como fazer o poesia depois de Auschwitz?, disse Adorno
como fazer poesia sem ser corno?, digo eu!
como falar sem dor
como falar sem a ingratidão, a traição
o sofrimento, o corte, a ferida, a morte?
Como fazer poesia sem Adorno,
como fazer poesia sem a dor no coração?
como as crianças que não fazem poesia
e nuas, sem adornos, passeiam pelo mundo
a viver e quando desenham ou escrevem
é tal qual aquarela, exercício do imaginário
porque a poesia não é inocente
nem ingênua
nem pode ser
depois de Auschwitz.
como fazer poesia sem ser corno?, digo eu!
como falar sem dor
como falar sem a ingratidão, a traição
o sofrimento, o corte, a ferida, a morte?
Como fazer poesia sem Adorno,
como fazer poesia sem a dor no coração?
como as crianças que não fazem poesia
e nuas, sem adornos, passeiam pelo mundo
a viver e quando desenham ou escrevem
é tal qual aquarela, exercício do imaginário
porque a poesia não é inocente
nem ingênua
nem pode ser
depois de Auschwitz.
30 junho 2010
herói
Quero escrever um conto sobre um rapaz chamado herói. Ele é um cara comum. Ele não é um herói, não quero que ele seja herói. Fica na dele e vive sua vida, querendo um emprego, uma mulher, filhos e, se der, viajar pra praia no fim do ano. Herói não é um herói. É que nosso nome nada tem a ver com a gente, embora muitas histórias tentem dizer o contrário. Principalmente as histórias de herói...
24 junho 2010
2:13
Leio um conto do Tchekov agora. Pela maneira que é escrito tenho a sensação de que nunca ninguém leu esse conto na vida: são muitas palavras, descrições e pensamentos. Parece literatura velha, cansada, mas não é. É só impressão.
Não tenho idéia do que quero escrever e não tenho idéia do que estou escrevendo. Às vezes algo me diz que preciso vir aqui e botar algumas palavras em sequência. Sigo a ordem sem refugar e vou deixando que tudo se faça. Como o mundo foi feito: primeiro a luz, o resto é mole. Porque era a luz que faltava, debaixo da luz somos capazes de ver e fazer tudo, enquanto que a escuridão nos oprime e nos mostra nossos erros.
Tenho vontade de ensinar as pessoas e me odeio por isso. Me sinto presunçoso, como se eu tal como sou, tivesse algo para ensinar a alguém. Eu que devia aprender, me digo, mas vejo que tanta gente precisa ouvir o que já aprendi. Por exemplo sobre Tchekov: seu realismo se rasgando, ele ultrapassando uma barreira que seria tão comum nno futuro, mas ver essa gênesis gera tanto prazer, alguma felicidade. Penso que sei o que estou lendo e sei porque estou lendo. É porque quem se enxega inteiro, não se enxerga. Quem sabe o que está fazendo é estúpido. O ideal é se deixar vagar pelo mundo, com o pensamento discordando de tudo que puder e depois criando outros castelos intransponíveis.
Queria tanto que alguém entendesse, mas a maioria das pessoas que lêem isso aqui esperam poesia, ninguém espera nada. Ninguém acha que um texto pode mudar sua vida, ou melhor, ninguém se deixa mudar por um texto, embora é óbvio que vão dizer que sim, que mudam. Talvez haja alguém sim, tenho essa esperança. Como se cada sessão de cinema servisse apenas pra uma pessoa. É meio solitário tudo isso, são 2:13 da manhã, escovei os dentes e interrompi Tchekov no meio.
O conto é sobre um seminarista que provavelmente se está enamorando, ainda não sei o resto. Tchekov talvez saiba. É tão difícil tentar dizer quando não se tem nada, porém acho que já disse alguma coisa, é que se fez a luz, por algum motivo creio que se fez. Acho que até pude ve-la. Será?
Não tenho idéia do que quero escrever e não tenho idéia do que estou escrevendo. Às vezes algo me diz que preciso vir aqui e botar algumas palavras em sequência. Sigo a ordem sem refugar e vou deixando que tudo se faça. Como o mundo foi feito: primeiro a luz, o resto é mole. Porque era a luz que faltava, debaixo da luz somos capazes de ver e fazer tudo, enquanto que a escuridão nos oprime e nos mostra nossos erros.
Tenho vontade de ensinar as pessoas e me odeio por isso. Me sinto presunçoso, como se eu tal como sou, tivesse algo para ensinar a alguém. Eu que devia aprender, me digo, mas vejo que tanta gente precisa ouvir o que já aprendi. Por exemplo sobre Tchekov: seu realismo se rasgando, ele ultrapassando uma barreira que seria tão comum nno futuro, mas ver essa gênesis gera tanto prazer, alguma felicidade. Penso que sei o que estou lendo e sei porque estou lendo. É porque quem se enxega inteiro, não se enxerga. Quem sabe o que está fazendo é estúpido. O ideal é se deixar vagar pelo mundo, com o pensamento discordando de tudo que puder e depois criando outros castelos intransponíveis.
Queria tanto que alguém entendesse, mas a maioria das pessoas que lêem isso aqui esperam poesia, ninguém espera nada. Ninguém acha que um texto pode mudar sua vida, ou melhor, ninguém se deixa mudar por um texto, embora é óbvio que vão dizer que sim, que mudam. Talvez haja alguém sim, tenho essa esperança. Como se cada sessão de cinema servisse apenas pra uma pessoa. É meio solitário tudo isso, são 2:13 da manhã, escovei os dentes e interrompi Tchekov no meio.
O conto é sobre um seminarista que provavelmente se está enamorando, ainda não sei o resto. Tchekov talvez saiba. É tão difícil tentar dizer quando não se tem nada, porém acho que já disse alguma coisa, é que se fez a luz, por algum motivo creio que se fez. Acho que até pude ve-la. Será?
19 junho 2010
os velhos
- Esses velhos não são apenas pessoas.
-São o quê, então?
- São guardiões de um tempo. É todo esse mundo que está sendo morto. - Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um simples polícia.
- O verdadeiro crime que está a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, snehor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
A varanda do Frangipani - Mia couto
Era disso que eu falava ontem e não sabia como dizer. Quando lamentava a morte do Saramago, um antigo-novo, lamentava a morte de alguém que era um contador de história. Alguem que sabia olhar o passado e o presente e conta-lo, não apenas cita-lo, porque quem conta está presente, quem cita se faz ausência. Abandonando o tema de ontem e continuando a falar do assunto, acabo por lamentar que cada vez menos exista quem queira contar histórias. O que mais vejo são pessoas que vestem máscaras de escritores e começam a falar como se assim já o fossem, sem nenhuma centelha do que é ter uma vida.
As histórias para os velhos tem dois movimentos: o primeiro é de vida, contam porque muito já viram, viveram e pensaram da vida. Muito se cansam dela e alguns acham beleza, outros esperam a morte, mas todos sabem do quanto é interessante viver apesar de todo esforço que é conviver anos e anos a fio com o tempo. O segundo é de morte, contam suas histórias por medo de serem esquecidos, de que todo aquele esforço tenha sido em vão, contam e inventam, transformam sua vida em ilusões de vida, em pequenas noveletas para serem contadas. É por isso que há nos velhos uma fascinação quase mítica, os ouvimos como ouvimos um pajé, um padre, talvez nos aproximemos de deus, talvez, bem talvez.
Dizem que a distância aumenta a inverossimilhança dos fatos, então os velhos são os verdadeiros narradores de nós. Enquanto que os jovens vivem e os adultos se imitam a si mesmos e a imagem que têm de si, os velhos nos contam, nos guardam e com distância sabem nos ver.
É dessa sabedoria que sinto falta. E está de novo Saramago em minha vida.
ps: Mia Couto é um escritor moçambicano, todos deviam ler, principalmente "Terra Sonâmbula". Talvez em breve eu poste uma análise que fiz do livro, mas só talvez.
As histórias para os velhos tem dois movimentos: o primeiro é de vida, contam porque muito já viram, viveram e pensaram da vida. Muito se cansam dela e alguns acham beleza, outros esperam a morte, mas todos sabem do quanto é interessante viver apesar de todo esforço que é conviver anos e anos a fio com o tempo. O segundo é de morte, contam suas histórias por medo de serem esquecidos, de que todo aquele esforço tenha sido em vão, contam e inventam, transformam sua vida em ilusões de vida, em pequenas noveletas para serem contadas. É por isso que há nos velhos uma fascinação quase mítica, os ouvimos como ouvimos um pajé, um padre, talvez nos aproximemos de deus, talvez, bem talvez.
Dizem que a distância aumenta a inverossimilhança dos fatos, então os velhos são os verdadeiros narradores de nós. Enquanto que os jovens vivem e os adultos se imitam a si mesmos e a imagem que têm de si, os velhos nos contam, nos guardam e com distância sabem nos ver.
É dessa sabedoria que sinto falta. E está de novo Saramago em minha vida.
ps: Mia Couto é um escritor moçambicano, todos deviam ler, principalmente "Terra Sonâmbula". Talvez em breve eu poste uma análise que fiz do livro, mas só talvez.
18 junho 2010
último dia de José
Despertou mais cedo que o normal e tentou com algum esforço levantar a cabeça para ver o tempo que fazia em Lanzarotte. Sorriu por dentro por ainda se preocupar com essas bobagens como o tempo ou o estado das coisas, enfim, das coisas mais fugidias. O tempo, o clima, pensou, serve mesmo para as plantas, as estações do ano, as marés e os animais, para os homens só lhes dão um empecilho aqui e outro ali. Nada de importante deixaria de ser feito porque chove. Estava debilitado e queria ir ao banheiro, no entanto Pilar não estava no quarto, por isso fechou os olhos por mais algum tempo para que quando ela chegasse não se chateasse, não gostaria que ela pensasse que o havia deixado esperar tempo demasiado. Cochilou e num sono breve viu um elefante a atravessar o deserto. Havia lido em algum canto e reescrito aquela história e até agora não se dava conta da dificuldade que havia de ter sido esse trajeto. Escreve-la não fora e jamais chegaria perto do esforço que aquele gigante deve ter feito pelas trilhas turvas desse gigante maior, sem trilhas, que era um deserto. Viu o Sr. José na Conservatória Geral do Registro Civil, na última mesa a bater uma máquina, ou computador, sua memória de si e de seus outros já começavam a rarear. Acordou pouco depois com Pilar que lhe trazia o café. Sentou-se com algum esforço, o travesseiro colocado nas finas costas, já emagrecidas, e comeu. Disse a Pilar em bom espanhol, Essas bolachas estão deliciosas, Foi seu Marco da padaria que as trouxe, Agora é ele quem as traz, já não as busca mais, Ele achou que assim seria melhor, para que eu pudesse cuidar melhor de si, Estou bem aqui, estou fraco e adoecido, mas sei que estou sempre bem e há também as enfermeiras que não se cansam nunca de me cansar, José, entenda, disse ela tentando ser compreensiva, você merece e requer cuidados e não seria eu, e parou vacilante sem saber mais o que dizer. Então ele a interrompeu, Dediquei-te um livro uma vez com essas palavras “A Pilar, como se dissesse água” e as repito agora. Ficaram em silêncio por instantes e como se fossem água num rio se deixaram passar. Pilar levantou para levar o café e José se sentiu extremamente cansado, um cansaço feliz, era um sentimento que ele tentava descrever em sua cabeça, porém era incapaz, doía e era bom, enfraquecia a cabeça, mas enrijecia os braços e pernas, foi quando viu a si aos 62 anos sentado na cadeira da frente com uma camisa vermelha, calça jeans um pouco velha e um blazer do tipo que os jornalistas usam. Não se conteve, O que fazes aí, José, Estou aqui porque comecei a escrever agora, E eu, paro de escrever agora, Sempre vais escrever José, estás a escrever nesse instante, Eu sim, mas não minha mão, como vão me ler assim, Sempre preocupado em dizer coisas as pessoas, elas sabem se virar sozinhas, Não é o que parece, Talvez sim, mas bem ou mal elas vão aprender a viver sem ti, Espero que sim, não gostava de ser tão importante, Isso já o é, Isso já o sei. E lamentou com profunda tristeza. Quando num outro canto Ricardo Reis apareceu ao lado de Fernando Pessoa, ambos muito parecidos, com roupas parecidas, só Reis que parecia um tanto mais jovem. E tu Reis, vais fazer o que com tua Lídia, O de sempre José, lê-la, E tu Pessoa, também aqui estás, Não podia deixar de vir, ainda mais que Reis fez tanta questão principalmente depois do tanto que ele me disse de si. Obrigado, amigos, não sabia que tinha tantos assim. Não pode dizer mais, se emocionava. Aos poucos apareceram mais pessoas: Camões, Eça, Garret, Quental. Todos olhavam José com tamanha singeleza que um profundo e segundo silêncio se fez, foi quando Pilar entrou no quarto e se espantou com o tamanho rebuliço de pessoas no quarto. O que se passa, José, perguntou, São meus amigos da vida, vieram atrás de mim, Estás a ir, Não, ficarei por aqui mesmo, mas de outra maneira. De repente, o José mais moço se sentou ao seu lado e perguntou, E agora José, como é, É tal qual sempre imaginei, dói e é bom, bate um cansaço e descansa, fere, arranha, mas acalma, a morte é bastante dialética. E sorriu. O mais moço segurou sua mão, José se levantou, vestiu uma roupa apropriada e junto com os outros saiu porta afora. Saíram rindo e conversando, e ainda da cama Pilar pode ouvir José dizer, cala-te Camões, és um chato.
Saramago - 18 de Junho
"Então vamos, disse, Para onde é que vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera da Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se." O ano da morte de Ricardo Reis - José Saramago

Não sou uma pessoa que lida bem com as coisas. Não tenho grandes lembranças dos meus avós, nada que me marcasse a ponto de ter aquilo como parte integrante de mim. Lembro no máximo de um cheiro, de uma comida, de umas palavras, mas nada que me faça ser o que sou hoje. Entretanto, esse velhinho, audaz e frágil, irônico e engraçado, forte e sútil, também sou eu. Foi ele que me ensinou a escrever, me ensinou a pensar e me levou às melhores viagens que tive na vida. Lembro que o Sr. José acompanhou minha vida por muitos meses, numa batalha ferrenha entre texto e eu, que no fim perdi e vi o Sr. José, um outro já, emergir na escuridão. Lembro também de Pedro Orce, com o cão sempre ao lado, morrendo ao mesmo tempo que aquela imensa jangada ibérica parava no meio do oceano e lembro também de ali ter nascido uma árvore. Lembro das viagens de Ricardo Reis por Lisboa e das imensas conversas dele com Fernando Pessoa, ou seus passeios por entre os eventos urbanos. Lembro também do pobre Caim, do cão das lágrimas, da mulher de óculos, de Joana Carda, de jesus e até do senhor deus e de todas as pessoas que passaram na obra dele, pois Saramago também era todos eles.
Enfim, Saramago é tão próximo de mim que é um parente, meu avô, minha maior referência, a única pessoa que quando dizia algo eu parava pra escutar, com a admiração de um aluno e o respeito de uma criança. Ele fazia um obra contemporânea parecer clássica e isso me fazia tira-lo do tempo, ve-lo quase como alguém que de outro mundo vem para escrever sobre esse, quase profético.
E agora que ele sumiu, pois um ateu nunca se rende e não seria agora que ele se renderia, vai existir comigo, pra onde eu for e sempre que eu escrever vou tentar fazer jus à ele. Agora que ele sumiu é obrigação minha lembrar também dele e dizer a todos que um homem escreveu, que seu avô era criador de porcos e analfabeto e que ele um dia com as palavras tentou mudar o mundo. E mudou o meu.
Não sou uma pessoa que lida bem com as coisas. Não tenho grandes lembranças dos meus avós, nada que me marcasse a ponto de ter aquilo como parte integrante de mim. Lembro no máximo de um cheiro, de uma comida, de umas palavras, mas nada que me faça ser o que sou hoje. Entretanto, esse velhinho, audaz e frágil, irônico e engraçado, forte e sútil, também sou eu. Foi ele que me ensinou a escrever, me ensinou a pensar e me levou às melhores viagens que tive na vida. Lembro que o Sr. José acompanhou minha vida por muitos meses, numa batalha ferrenha entre texto e eu, que no fim perdi e vi o Sr. José, um outro já, emergir na escuridão. Lembro também de Pedro Orce, com o cão sempre ao lado, morrendo ao mesmo tempo que aquela imensa jangada ibérica parava no meio do oceano e lembro também de ali ter nascido uma árvore. Lembro das viagens de Ricardo Reis por Lisboa e das imensas conversas dele com Fernando Pessoa, ou seus passeios por entre os eventos urbanos. Lembro também do pobre Caim, do cão das lágrimas, da mulher de óculos, de Joana Carda, de jesus e até do senhor deus e de todas as pessoas que passaram na obra dele, pois Saramago também era todos eles.
Enfim, Saramago é tão próximo de mim que é um parente, meu avô, minha maior referência, a única pessoa que quando dizia algo eu parava pra escutar, com a admiração de um aluno e o respeito de uma criança. Ele fazia um obra contemporânea parecer clássica e isso me fazia tira-lo do tempo, ve-lo quase como alguém que de outro mundo vem para escrever sobre esse, quase profético.
E agora que ele sumiu, pois um ateu nunca se rende e não seria agora que ele se renderia, vai existir comigo, pra onde eu for e sempre que eu escrever vou tentar fazer jus à ele. Agora que ele sumiu é obrigação minha lembrar também dele e dizer a todos que um homem escreveu, que seu avô era criador de porcos e analfabeto e que ele um dia com as palavras tentou mudar o mundo. E mudou o meu.
14 junho 2010
o tempossentimento
Não sei porque tanto se fala sobre o tempo. Pode ser porque no fundo intuímos que ele é o único assunto verdadeiro, relevante de nossa vida, apesar de quase sempre passar despercebido. Não me vejo envelhecer, por exemplo, a não ser quando minha barba grande e expessa me torna mais velho, carrega meu olhar e meu rosto de traços que não se identificam com aquele eu que sinto por dentro.
Digo tudo isso porque percebo o que um sentimento faz. Gostar de alguém é como abrir uma fenda no tempo, parece que ele não mais existe de uma maneira objetiva, mas apenas da maneira como o encaramos, seja na saudade - eterno -, seja na presença - veloz. E é essa subjetividade que confunde tudo, nunca sei quando é cedo ou tarde, nunca sei quando é muito ou pouco, vou agindo assim de improviso assim como meu sentimento manda, mas a impressão é de que o tempo é meio que sempre um vilão eterno. Acontece que vem um dia, como o dia dos namorados e põe tudo em ordem, faz o tempo ser amigo um dia e me faz feliz como não era faz tempo. Por isso eu quero agradecer a cronos, que tem sido um bom companheiro ultimamente.
Digo tudo isso porque percebo o que um sentimento faz. Gostar de alguém é como abrir uma fenda no tempo, parece que ele não mais existe de uma maneira objetiva, mas apenas da maneira como o encaramos, seja na saudade - eterno -, seja na presença - veloz. E é essa subjetividade que confunde tudo, nunca sei quando é cedo ou tarde, nunca sei quando é muito ou pouco, vou agindo assim de improviso assim como meu sentimento manda, mas a impressão é de que o tempo é meio que sempre um vilão eterno. Acontece que vem um dia, como o dia dos namorados e põe tudo em ordem, faz o tempo ser amigo um dia e me faz feliz como não era faz tempo. Por isso eu quero agradecer a cronos, que tem sido um bom companheiro ultimamente.
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