- Me agrada muito? me deixa feliz?
- Como?
- Obrigada. Sabia que vc ia entender...
24 outubro 2010
23 outubro 2010
a invenção da fotografia
Jesus está na cruz. Está todo ensangüentado, uma parte por sangue novo que escorria e outra por sangue seco, coagulado das muitas horas que já estava lá. Ao contrário do que a Bíblia nos disse, ele não estava consciente. Depois de um tempo seus membros que doíam de uma forma nunca antes experimentada, que espetavam pelos pregos mal limpos cravados, começaram a formigar e ele, começou a ter a mente nebulosa.
Primeiro era só algo turvo, mas depois começou a ter visões, como se estivesse na experiência de alguma droga que muda sua percepção do espaço, do tempo, das pessoas e do mundo. Mais algum tempo depois, o formigamento chegou até as pernas, foi quando todo seu corpo parecia ter sido imerso numa banheira cheia de gelo. A partir desse momento, pouco ele sabia do que ali se passava, estava quase desmaiado, balbuciava palavras incongruentes e adentrara num estado de quase morte, meio desmaiado com uma respiração silenciosa.
Muitas pessoas assistiam. Maria e Madalena choravam, seus discípulos entristecidos oravam ao senhor na busca de alguma solução. Sentiam que seguiram seu rei por nada, que ele ali morreria e o mundo se mostraria outra vez injusto, matando os bons. Jesus havia dito que ele faria isso para salvar a todos na outra vida, mas alguns deles discordaram, disseram que vivo Jesus poderia salvar mais gente naquela vida também, porque quanto a outra tanto ele quanto Deus já estavam trabalhando. Judas não, este concordou com Jesus.
Acontece que dessa vez todos que assistiam, aproximadamente 2 mil pessoas, resolveram não ficar paradas olhando Jesus e os assaltantes morrerem para depois tira-los da cruz. Algum deles, talvez um verdadeiro Jesus, levantou e voz:
- Que tipo de gente somos nós que vemos nosso rei ser assassinado na cruz, julgado por nada e ficamos só olhando? Qual o direito que temos, depois de tudo que eles nos ensinou, de somente chorar? Qual o dever que temos por ele e por todos que ele pode salvar enquanto vivo? O livre arbítrio que ele mesmo nos deu deveria servir para que fizéssemos mudar os planos de Deus, porque ele não tem essa escolha: Deus segue os planos apenas dele mesmo sem poder mudar de idéia.
Assim convenceu duas ou três pessoas da sua idéia, mas que não se manifestaram de cara. Então ele correu até a cruz, postou-se de baixo dela e dizendo: “Viva, senhor, Viva!” começou a receber pingos de sangue em sua cara, enquanto tentava retirar algum dos pregos do pé de Jesus, depois achou que salvando os pés Jesus ficaria pendurado, então escalou a cruz abraçando ao Senhor para tentar livrar algum dos braços. O homem chorava, lá de cima bradou: “Como pode um homem fazer isso com outro?” Jesus balbuciou: “Madalena, você veio?”, mas nem o homem escutou, pois já ficava de pé por cima da cruz e fazia um discurso que pouca gente escutou, já que nesse momento o exército romano se aproximava para averiguar o rumor de levante popular. O homem já ia tirando algum dos pregos do braço direito de Jesus quando uma lança atingiu seu peito. Caiu morto em segundos, seu corpo ainda se prendeu junto ao de Jesus, mas foi retirado e jogado logo atrás dele, como exemplo para outro que tentasse a sorte.
Assim se deu. Um dos homens que assistia empolgado com o discurso daquele primeiro resolveu atacar um homem do exército, quando chegou próximo, o soldado tentou afasta-lo, mas ele correu e tocou o pé do Senhor, foi quando uma espada cortava sua cabeça que rolou morro abaixo. O corpo sem cabeça foi jogado junto ao do primeiro homem. Do povo, então, outro homem veio correndo e foi rapidamente abatido, e assim vieram em duplas, trios, até que um grupo de dez homens tentou salvar Jesus, que com a vista turva confundiu todo o movimento com uma alucinação. Atrás de Jesus havia uma pilha de corpos já. Não se podia mais aceitar aquilo e sucedeu que em meia hora uma pilha de corpos mutilados e ensangüentados acompanhava a crucificação de Jesus. Nem Maria nem Madalena se mexerem, permaneceram chorando e rezando, olhando para o céu e para Jesus, como vítimas de uma grande injustiça. Os discípulos haviam saído para almoçar e quando voltaram julgaram tarde demais para alguma coisa ser feita.
Passou o tempo e os guardas já se cansavam de matar homens que tentavam salvar o Senhor. Dois deles foram abatidos e seus corpos jogados junto da pilha. Jesus era acompanhado por mortos até sua canela e essa proporção só crescia. Assim que a rebelião acabou e quase mil e quinhentas pessoas havia sido morta pelo exército romano e jogada por detrás da cruz e depois que as outras quinhentas resolveu fugir, o exército se foi. Junto da cruz havia a mãe, a amiga de Jesus, dois soldados e cerca de cinco discípulos.
Jesus morreu sem silêncio. Julgaram ouvir alguma coisa, mas talvez fosse um lamento de algo dos corpos que talvez estivesse com vida. Era mais fácil que numa pilha de mil e quinhentos um houvesse sobrevivido do que imaginar que um homem por dias na cruz falasse.
As mulheres tiraram o Senhor da cruz e o limparam. Choraram por horas e o enterraram. Um dos soldados, que não era um muito feliz com essa profissão, lamentou não ter um aparelho que pudesse registrar a imagem de Jesus com a pilha de corpos no fundo. “Aposto que vão contar essa história diferente, aposto”, pensou. E foi assim que pela primeira vez alguém teve a idéia de inventar uma máquina fotográfica.
20 outubro 2010
os olhares da política
Estava pensando no olhar dos políticos em público. No que eles nos dizem, tentam dizer, no que eles passam ou precisam passar. É como se, mais do que ter um olhar próprio, eles tivessem que possuir um olhar neutro, mas um neutro engajado, um neutro cheio de energia, que seja capaz de sorrir, ficar sério, triste, indignado.
Penso que todo político precisa aprender isso muito rápido. Aquele olhar que ao encontrar seu rival deve sorrir, mas não muito, se sentir a vontade sem deixar de mostrar sua óbvia superioridade. Um olhar que é para o mundo, que solta flechas, que dá presentes e resolve vidas. Um olhar apaixonado pela sua terra e pela sua gente, um olhar que consiga representar o hino nacional ou um gol de nossa seleção. Um olhar que atinja crentes e ateus, que acabe com as drogas e os problemas de educação. Um olhar maior que seu próprio interior, um olhar que reflete um sintoma cujo remédio é ele próprio.
Depois pensei nos assessores desses políticos. Estão sempre atrás deles, prestando atenção em tudo, medindo as palavras do seu líder e prontos a dar um beliscão na bunda deles, ou intervir dizendo que nada mais se falará. É o olhar atento que o político não pode demonstrar que tem. Enquanto que o político tem esse olhar centrífugo, o assessor tem um olhar centrípeto. Por isso aquela cara carrancuda de quem não gosta de nada e de ninguém, de quem é capaz de matar pelo seu assessorado. Um olhar mortal. Seco, duro, sem nenhum tipo de sensibilidade. Um olhar que representa toda a jogada que é estar ali naquele momento, um olhar que representa a outra parte da política, representa a guerra, a força, o rancor e a desconfiança, mais que isso, é o olhar da disputa.
Esse olhar combinado com o dos políticos é que são a síntese da nossa política atual. Essa mistura de creme de leite com chocolate meio amargo, de banana com canela. Olhe para os dois ao mesmo tempo e complete a moeda. Não se vota pelas palavras, não se vota por um olhar. Se vota pela subjetividade como objetivo, pelo horizonte que essa síntese de olhares faz. Se vota pela capacidade de interpretar o futuro através dos olhares, tal como uma cartomante, que precisa ler seu cliente só de repara-lo. É preciso votar sabendo mais do que fatores práticos, votar em cima de uma balança que vai sempre estar em desequilíbrio.
A política é feita de tanta coisa, tantas palavras e vozes, mas nunca se esqueça das características dos olhares que vagam por ela...
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08 outubro 2010
Terra Sonâmbula
(Terra Sonâmbula, 2007)
• Título em inglês: sleepwalking land
• Direção: Teresa Prata
• Roteiro: Mia Couto (romance), Teresa Prata (adaptação e roteiro)
• Gênero: Drama
• Origem: Moçambique/Portugal
• Duração: 95 minutos
• Tipo: Longa-metragem
sinopse:
Muidinga é um menino sonhador e seu maior desejo é encontrar a família, de quem se perdeu no meio da guerra civil em seu país, Moçambique. O menino lê num diário, achado ao lado de um cadáver, a história de uma mulher que está num navio à procura do filho. Muidinga se convence de que ele é o menino procurado. Parte atrás dela, contando com a ajuda de Tuahir, um velho cheio de sabedoria. A estrada por onde viajam é mágica: entende os seus desejos e os move de um lugar para o outro, sem deixar que morram antes de alcançar o sonhado mar.
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30 setembro 2010
festival de cinema ou Rio de areia

O festival de cinema da cidade do Rio está acontecendo e por toda a cidade fica aquele clima. Pessoas de calça xadrez e óculos grossos andando por aí, comprando entradas antecipadamente e citando a última moda em quadrinhos, o diretor que foi sucesso no festival do Irã e por aí vai. A cidade também se enfeita para o evento: quase em todo poste tem um banner assim como nos pontos de ônibus. É quando me deparo com o cartaz de divulgação.
Trata-se de uma imagem do Pão-de-Açúcar, da Lapa, do Maracanã e de outros monumentos feitos de areia. Mas por quê? O festival não é feito para gringos, não é feito para divulgar a cidade, pra ganhar votos. O festival é para organizar e divulgar uma mídia específica: o cinema. O cinema como forma de integração de várias nações de transações culturais para um público que, pelo menos pretensamente, se propõe a olhar as obras a partir de um ponto de vista menos simplificador. Junto com o cartaz uma inscrição: "Rio: inspiração natural". Inspiração pra quem, meu deus?! Generaliza-se e se perde o que se tem de bom.
Fico chocado com essa constante classificação do Brasil, e por consequência do Rio de Janeiro, como o lugar da natureza, da praia, do futebol e da noite. Fico preocupado de a gente ainda se ver assim, ainda comprar essa ideia que é mais que cristalizada, constantemente reafirmada e habita nosso imaginário em todos os aspectos. O Brasil não é isso, pelo contrário, o Brasil e o Rio vivem em constante tensão com essa imagem. Afirmam a cada momento que não é parecido com ela e que ela é apenas uma visão ingênua, pobre, velha, antiga e dominadora sobre o que somos.
O festival de cinema é o contrário do seu cartaz: um instrumento de derrubar esses castelos de areia, derrubar essa concepção nativista, de que somos um povo areia que vaga pelos ventos. O festival derrubar os castelos e apresenta um novo Brasil: um país que para e por algumas semanas olha o mundo.
29 setembro 2010
diomedes e o fragmento amoroso

28 setembro 2010
não votar em...
Tipos de político para NÃO se votar:

1- parente de político.
Há uma tendência no Brasil a uma idéia da política como paternalista e que o governante é um cara que recebe os direitos de decidir por nós e que aquele direito é, de certa forma, totalmente legítimo, quase numa instância divina. Espécie de monarquia, uma hierarquia muito antiga e que não podemos mudar. Nesse estilo, uma idéia de que se o pai tal foi bom, o filho será e assim a gente mantém sempre as mesmas famílias no poder. Isso estabelece um tipo de política que cristaliza estruturas. Então, para o bem votar é preciso ignorar essa idéia de parentesco por mais afinidade possível que se tenha pela pessoa.
2 - Militares.
Os militares governam a partir de leis muito antigas e totalmente ultrapassadas. Acham que um controle ou intervenção ostensiva é capaz de melhorar a situação, como se cada um de nós tivesse que ser constantemente fiscalizado e investigado por tudo que fez/faz/fará. Depois de idéias como de biopolítica do Foucault qualquer tipo de governo desse fica insustentável. Além disso eles geralmente usam demais o termo "tradição, família e ordem".
3- Paternalistas.
Nunca vote em políticos que comparam o governo com uma família. Que tratam o estado como o pai de todos que deve por um lado dar o que ele precisa e por outro controlar e punir quando não forem atendidos.
4- religiosos.
O estado é laico e portanto não deve se prender a qualquer tipo de político com um dogma religioso estabelecido. Quem governar deve ser capaz de ser dialético, de permitir que se veja todas as questões de muitos aspectos e perceber que um estado é plural e que todos estão nele, até quem não pensa como ele.
5- populistas.
Governantes que falam demais a palavra "Povo, a gente, saúde-educação-segurança". Usam de necessidades básicas da população e geralmente se compara a eles dizendo que "os outros querem tirar o que é nosso, mas ele não vai deixar"
6 - oradores
Nunca vote em políticos que tem um discurso absolutamente perfeito. Que consegue te cativar, te emocionar, que consegue ter o dom de dizer o que você pensava e o que pretende que um político faça. O verdadeiro político nunca vai organizar tão perfeitamente um discurso, pois a verdade é que a sociedade é rachada e vive em constante tensão, embate, então se algum consegue organizar tão bem as idéias provavelmente vai ser só falatório.
7- desenvolvimentistas
Políticos que falam excessivamente em desenvolvimento, em crescimento, expansão do capital. É fato que eles vão leiloar nosso país, abrir muitas fábricas poluentes e até desnecessárias. Por um lado vão gerar emprego, por outro vão criar diversos problemas. O político bacana percebe que estamos numa nova fase em que é preciso pensar em crescer com sustentabilidade, pois essa é a tônica desse novo mundo, e qualquer outro crescimento será improfícuo.
8 - carecas gordos.
Temos uma tradição de carecas gordos com cara de ou coronéis do interior de estados nordestinos ou de ex-nerds que estudaram na usp, enriqueceram, casaram com uma loira e mudaram de lado. É o pior tipo de político.
1- parente de político.
Há uma tendência no Brasil a uma idéia da política como paternalista e que o governante é um cara que recebe os direitos de decidir por nós e que aquele direito é, de certa forma, totalmente legítimo, quase numa instância divina. Espécie de monarquia, uma hierarquia muito antiga e que não podemos mudar. Nesse estilo, uma idéia de que se o pai tal foi bom, o filho será e assim a gente mantém sempre as mesmas famílias no poder. Isso estabelece um tipo de política que cristaliza estruturas. Então, para o bem votar é preciso ignorar essa idéia de parentesco por mais afinidade possível que se tenha pela pessoa.
2 - Militares.
Os militares governam a partir de leis muito antigas e totalmente ultrapassadas. Acham que um controle ou intervenção ostensiva é capaz de melhorar a situação, como se cada um de nós tivesse que ser constantemente fiscalizado e investigado por tudo que fez/faz/fará. Depois de idéias como de biopolítica do Foucault qualquer tipo de governo desse fica insustentável. Além disso eles geralmente usam demais o termo "tradição, família e ordem".
3- Paternalistas.
Nunca vote em políticos que comparam o governo com uma família. Que tratam o estado como o pai de todos que deve por um lado dar o que ele precisa e por outro controlar e punir quando não forem atendidos.
4- religiosos.
O estado é laico e portanto não deve se prender a qualquer tipo de político com um dogma religioso estabelecido. Quem governar deve ser capaz de ser dialético, de permitir que se veja todas as questões de muitos aspectos e perceber que um estado é plural e que todos estão nele, até quem não pensa como ele.
5- populistas.
Governantes que falam demais a palavra "Povo, a gente, saúde-educação-segurança". Usam de necessidades básicas da população e geralmente se compara a eles dizendo que "os outros querem tirar o que é nosso, mas ele não vai deixar"
6 - oradores
Nunca vote em políticos que tem um discurso absolutamente perfeito. Que consegue te cativar, te emocionar, que consegue ter o dom de dizer o que você pensava e o que pretende que um político faça. O verdadeiro político nunca vai organizar tão perfeitamente um discurso, pois a verdade é que a sociedade é rachada e vive em constante tensão, embate, então se algum consegue organizar tão bem as idéias provavelmente vai ser só falatório.
7- desenvolvimentistas
Políticos que falam excessivamente em desenvolvimento, em crescimento, expansão do capital. É fato que eles vão leiloar nosso país, abrir muitas fábricas poluentes e até desnecessárias. Por um lado vão gerar emprego, por outro vão criar diversos problemas. O político bacana percebe que estamos numa nova fase em que é preciso pensar em crescer com sustentabilidade, pois essa é a tônica desse novo mundo, e qualquer outro crescimento será improfícuo.
8 - carecas gordos.
Temos uma tradição de carecas gordos com cara de ou coronéis do interior de estados nordestinos ou de ex-nerds que estudaram na usp, enriqueceram, casaram com uma loira e mudaram de lado. É o pior tipo de político.
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18 setembro 2010
16 setembro 2010
O castelo - Kafka - Noelte
Achei esse filme raríssimo baseado na obra "O castelo" do Kafka para baixar e resolvi postar aqui. A produção alemã de 1968 conseguiu traduzir o universo kafkiano com grande habilidade. Uma das melhores adaptações de Kafka que já vi!
"O castelo (1968) - "Das Schloß"
País: Alemanha
Direção: Rudolf Noelte
Roteiro:
Franz Kafka (romance)
Rudolf Noelte
Maximilian Schell
Elenco:
Maximilian Schell ... 'K'
Cordula Trantow ... Frieda
Trudik Daniel ... Innkeeper's Wife
Friedrich Maurer ... Mayor
Helmut Qualtinger ... Burgel

Link do rapidshare:
http://rapidshare.com/files/285913694/Castillodel68.part1.rar
http://rapidshare.com/files/285938199/Castillodel68.part2.rar
http://rapidshare.com/files/285957801/Castillodel68.part3.rar
http://rapidshare.com/files/285975491/Castillodel68.part4.rar
http://rapidshare.com/files/286251617/Castillodel68.part5.rar
http://rapidshare.com/files/286276391/Castillodel68.part6.rar
http://rapidshare.com/files/286292467/Castillodel68.part7.rar
http://rapidshare.com/files/286297383/Castillodel68.part8.rar
Link com legendas em espanhol e inglês.
"O castelo (1968) - "Das Schloß"
País: Alemanha
Direção: Rudolf Noelte
Roteiro:
Franz Kafka (romance)
Rudolf Noelte
Maximilian Schell
Elenco:
Maximilian Schell ... 'K'
Cordula Trantow ... Frieda
Trudik Daniel ... Innkeeper's Wife
Friedrich Maurer ... Mayor
Helmut Qualtinger ... Burgel
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15 setembro 2010
mina de carvão
Tá tudo preto. Em cima, embaixo e dos lados. A coisa tá preta. Não dá pra medir a negritude de tudo, a profundidade da negrura que cobre meus olhos. Quando tem alguma luz, de lamparina ou de vela, parece um escárnio, parece que elas existem pra realçar a escuridão.
Sou um chileno e estou na mina de carvão, preso, e só vou sair em meses. Provavelmente no Natal pra ver Jesus nascer. Não saí, no entanto, hoje pra ver minha filha nascer. Cara, como é aqui? Me pergunto todo dia e não posso escrever. Na verdade não estou escrevendo agora: isso é só um pensamento e por isso sai tudo desorganizado. Estar preso pode dar uma sensação de claustrofobia, mas não, a fobia só existe quando a prisão é passageira, ou de espaço curto, quando é tão longa quanto a nossa, fica tudo bem. A gente sabe se planejar.
A verdade é que eu queria escrever um texto sobre essa sensação, mas não posso. Eu sou um mineiro de carvão e não tenho essa capacidade toda. Estou preso, magro e com fome, penso em processar a empresa. Não dá pra fazer uma grande análise ou qualquer poesia. Se eu fizesse exporia o meu narrador e isso não se faz, não quero que outro fale pela minha boca. Parece que estou no mito da caverna; droga o narrador escapou. Esse texto é complicado mesmo, eu aceito isso.
Ninguém toma banho dinheiro. E o humor é bom. Piada inevitável: pelo menos vou ficar três meses junto com uma mina...e no escurinho.
Sou um chileno e estou na mina de carvão, preso, e só vou sair em meses. Provavelmente no Natal pra ver Jesus nascer. Não saí, no entanto, hoje pra ver minha filha nascer. Cara, como é aqui? Me pergunto todo dia e não posso escrever. Na verdade não estou escrevendo agora: isso é só um pensamento e por isso sai tudo desorganizado. Estar preso pode dar uma sensação de claustrofobia, mas não, a fobia só existe quando a prisão é passageira, ou de espaço curto, quando é tão longa quanto a nossa, fica tudo bem. A gente sabe se planejar.
A verdade é que eu queria escrever um texto sobre essa sensação, mas não posso. Eu sou um mineiro de carvão e não tenho essa capacidade toda. Estou preso, magro e com fome, penso em processar a empresa. Não dá pra fazer uma grande análise ou qualquer poesia. Se eu fizesse exporia o meu narrador e isso não se faz, não quero que outro fale pela minha boca. Parece que estou no mito da caverna; droga o narrador escapou. Esse texto é complicado mesmo, eu aceito isso.
Ninguém toma banho dinheiro. E o humor é bom. Piada inevitável: pelo menos vou ficar três meses junto com uma mina...e no escurinho.
09 setembro 2010
metamorfoses
A releitura de “A metamorfose” que acabei de fazer me pediu que pensasse algumas coisas sobre o tema. Sofrer metamorfose é mudar fisicamente, ou de alguma maneira tornar-se outro. É possível que se pense em duas possibilidades: Ao sofrer metamorfose a gente se torna outro, ou melhor, mudando a forma muda alguma outra coisa? Não há, nesse caso, essa dialética entre forma e conteúdo, teoricamente nada muda internamente, somente algumas funções que se readaptam.
O primeiro que se torna o segundo, ao mesmo tempo que deixa de ser um tem a marca dele. Algo como um carimbo de alteridade, ele se relaciona e é analisado também a partir disso. É uma espécie de memória antiga, que quanto mais antiga se torna mais se distancia. Chega um ponto em que o primeiro se torna uma breve lembrança apenas e o segundo passa a ser e viver aquilo que é agora. No entanto, restos ficam, sequelas, marcas, rastros.
O próprio espaço se modifica. Uma vez acontecendo a metamorfose do corpo, todo o espaço também precisa se redefinir. Isso se dá gradativamente, a partir do ponto em que o outro começa a ser realmente o outro, quando a mudança física começa a se instalar em outras instâncias internas, até na constituição global, porque evito e não gostaria de dizer “na mente”, no psicológico desse segundo, mas é algo do tipo: assim que o outro se reconhece como tal, e assim que todo o resto também o reconhece, esse seu espaço também começa a se redefinir, a criar outras referências que outra vez deixam seus rastros e destroços.

Em “A metamorfose” há tudo isso. Gregor, no entanto, já era um distante da família, o único que trabalhava, que estava muito tempo fora, que sustentava todos e até acomodava uma rotina que dependia dele, mas que ele não compartilhava. A própria profissão de caixeiro-viajante exprime esse fato, ou seja, um homem que vai a lugarejos, cidades distantes levando produtos da cidade grande que lá não chegariam. Faz uma espécie de ligação de lugares díspares, coabitando os dois, vendo suas diferenças e, em algum nível, sem habitar nenhum daqueles mundos. Benjamin diz em “O narrador” (pg. 198) que narrador é alguém que vem de longe, alguém que transita pelos espaços e Gregor se torna esse homem em casa: ele traz o mundo externo, o dinheiro, as promessas de futuro, os trabalhos, para dentro da residência onde o pai já não trabalha, a irmã cultiva sonhos e a mãe mantém aquela falsa harmonia. Gregor já é um estranho nessa família e se tornar inseto é levar esse fato às últimas consequências. Ele conta o tempo, o avanço e a modernidade daquela casa. De certa forma, ele se torna aquela casa e o que ela é, fato que começa a mudar com a metamorfose, gerando uma espécie de caos íntimo e mais radicalmente após sua morte quando todos saem para um passeio, único momento externo do livro, única luz em uma obra soturna. Luz que repensa uma vida e depois de uma tragédia quase aponta uma esperança.
A metamorfose tem algo de material, externo, coletivo, social. Ela dramatiza, ou melhor, reencena de outro ponto as características quase estáticas de um mundo apocalíptico.
O primeiro que se torna o segundo, ao mesmo tempo que deixa de ser um tem a marca dele. Algo como um carimbo de alteridade, ele se relaciona e é analisado também a partir disso. É uma espécie de memória antiga, que quanto mais antiga se torna mais se distancia. Chega um ponto em que o primeiro se torna uma breve lembrança apenas e o segundo passa a ser e viver aquilo que é agora. No entanto, restos ficam, sequelas, marcas, rastros.
O próprio espaço se modifica. Uma vez acontecendo a metamorfose do corpo, todo o espaço também precisa se redefinir. Isso se dá gradativamente, a partir do ponto em que o outro começa a ser realmente o outro, quando a mudança física começa a se instalar em outras instâncias internas, até na constituição global, porque evito e não gostaria de dizer “na mente”, no psicológico desse segundo, mas é algo do tipo: assim que o outro se reconhece como tal, e assim que todo o resto também o reconhece, esse seu espaço também começa a se redefinir, a criar outras referências que outra vez deixam seus rastros e destroços.
Em “A metamorfose” há tudo isso. Gregor, no entanto, já era um distante da família, o único que trabalhava, que estava muito tempo fora, que sustentava todos e até acomodava uma rotina que dependia dele, mas que ele não compartilhava. A própria profissão de caixeiro-viajante exprime esse fato, ou seja, um homem que vai a lugarejos, cidades distantes levando produtos da cidade grande que lá não chegariam. Faz uma espécie de ligação de lugares díspares, coabitando os dois, vendo suas diferenças e, em algum nível, sem habitar nenhum daqueles mundos. Benjamin diz em “O narrador” (pg. 198) que narrador é alguém que vem de longe, alguém que transita pelos espaços e Gregor se torna esse homem em casa: ele traz o mundo externo, o dinheiro, as promessas de futuro, os trabalhos, para dentro da residência onde o pai já não trabalha, a irmã cultiva sonhos e a mãe mantém aquela falsa harmonia. Gregor já é um estranho nessa família e se tornar inseto é levar esse fato às últimas consequências. Ele conta o tempo, o avanço e a modernidade daquela casa. De certa forma, ele se torna aquela casa e o que ela é, fato que começa a mudar com a metamorfose, gerando uma espécie de caos íntimo e mais radicalmente após sua morte quando todos saem para um passeio, único momento externo do livro, única luz em uma obra soturna. Luz que repensa uma vida e depois de uma tragédia quase aponta uma esperança.
A metamorfose tem algo de material, externo, coletivo, social. Ela dramatiza, ou melhor, reencena de outro ponto as características quase estáticas de um mundo apocalíptico.
04 setembro 2010
minha cabeça
Minha monografia sobre o Lourenço Mutarelli tem mexido muito com minha cabeça. Ele fala da infância dele como "medonha" e descreve seus pais e seus irmãos de uma maneira quase cortante, nada afetiva. Diz ele que quando criança sempre viu o mundo de forma negra, nunca conseguiu ser uma criança feliz que se misturava. Comecei a pensar em mim. Eu me misturava, conseguia com algum esforço, mas conseguia. Só que vejo que só o esforço que tinha pra isso já me cansava, lembro que tinha que me controlar, saber o máximo de coisas erradas possíveis, aprender cada vez mais a jogar bola e ser um tanto quanto cruel quando jogasse. Humilhar alguém sempre foi bom, mas eu não conseguia: tinha pena de dar um drible mais bonito, fazia o gol logo.
Não esqueço uma vez que chamei um menino de "Junior Baiano" e ele veio pra me bater. Me empurrou no chão, veio pra cima de mim e ficou me sacudindo. Não tive reação, tinha feito só uma brincadeira. O professor separou, claro, mas me senti muito ofendido. Alguma coisa ali mudou em mim. Foi quando percebi que as pessoas podiam machucar as outras, se quisessem. Tive uma sensação real de morte, de fraqueza, de impossibilidade. E isso vai se arrastando comigo até hoje.
É...minha monografia sobre Lourenço Mutarelli tem mexido muito com minha cabeça.
Não esqueço uma vez que chamei um menino de "Junior Baiano" e ele veio pra me bater. Me empurrou no chão, veio pra cima de mim e ficou me sacudindo. Não tive reação, tinha feito só uma brincadeira. O professor separou, claro, mas me senti muito ofendido. Alguma coisa ali mudou em mim. Foi quando percebi que as pessoas podiam machucar as outras, se quisessem. Tive uma sensação real de morte, de fraqueza, de impossibilidade. E isso vai se arrastando comigo até hoje.
É...minha monografia sobre Lourenço Mutarelli tem mexido muito com minha cabeça.
24 agosto 2010
texto doce (candy text)
De uma doçura sem fim, de um sorriso inimitável, leva a vida nos ombros como se fossem plumas. Sabe viver, sabe entender as regras do jogo e jogar com elas. Tem todos os sonhos do mundo e vai realizar todos porque antes de tudo sabe sonhar, sabe medir a vida em sonhos e os sonhos em vida, como conta gotas que cabem no menor dos frascos ou como o fino líquido que sai de uma espessa seringa. Deixa coisas pra depois, porque sabe que os problemas e as soluções tem data marcada e nisso nada podemos fazer, em outros momentos troca as mãos pelos pés e resolve atacar tudo e todos, olhar sério, focado e raivoso, e nesse caso é melhor sair de perto. Mas sabe e eu sei que isso é cena, porque no coração é só gentileza, alegria, ginga, dança, sorrisos, e paixões imensas. Nunca vai ser capaz de amar por amar. Ama antes de tudo o amor e quer ser estimulada a isso, não intimada ou julgada. Quer espaço pra si, mas quando for chegar que chegue arrombando a porta. Sabe ignorar agrados bobos e falsos e medir nossos pensamentos. Com o rosto forte me ensina a doçura, o peito aberto, o sono tranquilo, o abraço perfeito, o beijo escondido e o carinho cheio de ternura. Sabe que meu coração é dela e faz dele um cartaz, exibe pelos quatros cantos e eu orgulhoso faço cópias e espalho por aí. Sem ela a vida seria muito mais sem cor, mas não só: sem cor, sem sorrisos, sem sonhos, sem abraços, filmes não vistos, quase dormidas, praças, fotos, teatros, brigas, carinhos, piadas, imitações, risadas. Sem generosidade, sem alegria, sem justiça e sem paixão. Sem aquilo que faz da gente a melhor coisa desse mundo, e quem sabe, a mais feliz.
20 agosto 2010
Tarantino
Tarantino é tudo que já sabemos: o diretor hollywoodiano da ação, do sangue, do exagero e dos roteiros irônicos. Roteirista e diretor de filmes como Pulp Fiction, Kill Bill, Cães de aluguel, entre outros, a tônica de seus filmes está na concentração da ação num ultrarealismo, que chega a extrapolar as barreiras do real, dando um toque de quadrinhos ou de animação às seqüências. A concentração da ação é tão intensa, a suspensão da tensão, num acúmulo que se dissolve só através da violência, como se não houvesse outra saída, até que outra cena apareça e o ciclo se comece novamente.
Nesse movimento tudo pode caber na ação: desde um ator que sangra o filme inteiro, no caso de Cães de Aluguel, até os diálogos de um nazista atrás de judeus em Bastardos Inglórios. Tarantino consegue usar a fórmula de Hollywood de produzir filme, ou seja: um espetáculo de ação, com imagens tremidas, tiros, perseguições, drogas, violência, suspense, tensão, adrenalina, etc. Todas essas palavras que ouvimos serem repetidas à exaustão e não sabemos muito bem o porquê. A graça é que Tarantino consegue fazer isso CONTRA o cinema de Hollywood, ele se usa da fórmula para critica-la, para ironiza-la e é uma ironia tão intensa que causa um incômodo até patético na platéia, como nos sangues espirrando em Kill Bill, ou a aposta em que alguém perderá a mão na cena de “Four Rooms”.
E esse uso dele é interessantíssimo porque apresenta alguma resistência intelectual à forma de Hollywood. A platéia que identifica o filme como um filme de seu horizonte de expectativas, ao mesmo tempo, não consegue aderir por completo, e é comum o comentário de que: “é meio sem noção”, “ele exagera”. É que na verdade, não percebem o que Tarantino fez: explorou o mercado e o consumo contra si próprio, criando um estilo de filme popular de qualidade. Soube estar no mercado e entender sua própria mídia. Soube fazer arte e reinventar o cinema, justamente onde achávamos que nada de bom tinha mais para acontecer.
19 agosto 2010
a merda e eu
Não me lembro do primeiro cheiro que senti, mas não deve ter sido bom. Cheiro de merda provavelmente. Nada mais anti-humano que esse cheiro: seja na privada, no chão ou em imagens sempre o sentimos, está na memória mais que lembranças ou histórias. Nasci ao lado de um chiqueiro, via sempre os porcos chafurdando na lama, rodando pra lá e pra cá e aquela imagem sempre me lembrou merda, como se eu fosse também criado por ela. Depois fiquei sabendo que os avós do Saramago criavam porcos e de dentro da merda foi que ele se fez. Pouco mudou, ainda assim havia crescido na merda.
Eu era fresco pra comer e minha mãe dizia que comida era questão de costume, que comendo três ou quatro vezes a gente acostumava com o cheiro, com o gosto, com tudo. Nunca me acostumei com merda nenhuma na vida. Nunca quis chafurdar, apesar de muitos me recomendarem desde políticos, médicos, nutricionistas e até padres. São os genocidas da merda.
Tenho muitos vizinhos e meus vizinhos têm muitos cachorros. Todos cagam muito e o cheiro se espalha. Cada latido deles me traz o cheiro de merda. Passo quase de olhos fechados, por não poder fechar as narinas. Prendo a respiração, mas aí me forço a olhar. Tem algum imã na merda que chama mais atenção que qualquer outra coisa. É tão repugnante a visão que não consigo me afastar. Às vezes passo e tem três cocos, às vezes quatro. O máximo que contei foram nove, o que me fez pensar que meus vizinhos colecionam merda, juntam e as exibem como troféu, enquanto outros resolvem esconder e fingir que elas não existem. A merda é o preço da vida.
É esquisito, mas em alguns casos assim como no sucesso, a merda também sobe à cabeça.
Eu era fresco pra comer e minha mãe dizia que comida era questão de costume, que comendo três ou quatro vezes a gente acostumava com o cheiro, com o gosto, com tudo. Nunca me acostumei com merda nenhuma na vida. Nunca quis chafurdar, apesar de muitos me recomendarem desde políticos, médicos, nutricionistas e até padres. São os genocidas da merda.
Tenho muitos vizinhos e meus vizinhos têm muitos cachorros. Todos cagam muito e o cheiro se espalha. Cada latido deles me traz o cheiro de merda. Passo quase de olhos fechados, por não poder fechar as narinas. Prendo a respiração, mas aí me forço a olhar. Tem algum imã na merda que chama mais atenção que qualquer outra coisa. É tão repugnante a visão que não consigo me afastar. Às vezes passo e tem três cocos, às vezes quatro. O máximo que contei foram nove, o que me fez pensar que meus vizinhos colecionam merda, juntam e as exibem como troféu, enquanto outros resolvem esconder e fingir que elas não existem. A merda é o preço da vida.
É esquisito, mas em alguns casos assim como no sucesso, a merda também sobe à cabeça.
15 agosto 2010
juízo II ou o conhecimento
- você sabe o que significa a palavra "prolixo"?
- não.
- você é prolixo?
- não sei.
Esse é um ponto meu: uma pessoa não pode ser aquilo que não conhece. É incapaz de inventar uma maneira de ser sem nome, pelo contrário ela se reinventa a partir do que sabe e conhece. Então, uma pessoa com pouco vocabulário, há de ser uma pessoa mais simples, rústica e óbvia, enquanto que uma pessoa com vasto conhecimento pode ser mais complexa, cheia de nuances e subterfúgios. Claro, tanto pro bem e pro mal. Quem sabe mais, sabe também mentir mais, inventar mais, se aproveitar mais dos outros, quem sabe menos faz isso na medida em que é capaz, na medida exata de suas necessidades sem nome.
Vidas Secas do Graciliano Ramos tem isso. A personagem é descrita como pessoa de poucas palavras, que emite grande parte de seus sons em ruídos, e portanto, aprendeu a pensar assim. É simples como seu cão baleia.
Digo isso para completar o comentário sobre o filme "Juízo". Julgam crianças e adolescentes por roubo, furto, homicídio qualificado. E elas não são nada disso, elas sabem que roubaram ou mataram e isso é feio, mas não têm e não podem ter a mínima noção do impacto disso, portanto têm menos responsabilidade. Quando elas dizem: "meu amigo me chamou pra roubar uma bicicleta e eu fui", dizem a verdade. É o tipo de pensamento simples de quem quer uma bicicleta e só. Não há esse problema da cadeia, da prisão de estar erado, da religião. A vida dela, em geral, já é uma merda mesmo, com uma bicicleta fica um pouco melhor, na cadeia um pouco pior.
Só há consciência quando pode ter consequência. Li num conto do Rubem Fonseca que a maioria das menores estupradas gostaram do ato sexual e quiseram repetir por vontade própria, e só se deram conta do horror e do absurdo quando foram pegas em flagrante, ou quando descobriram o que significava aquele ato. Pode ser verdade, não sei, mas fica o registro.
Não defendo ninguém, só tento ampliar os pontos de vista a partir dos elementos que tenho. Só quem sabe um pouco de lei pode escapar delas. Acho que é isso: quando a gente não conhece, só nos resta arriscar.
- não.
- você é prolixo?
- não sei.
Vidas Secas do Graciliano Ramos tem isso. A personagem é descrita como pessoa de poucas palavras, que emite grande parte de seus sons em ruídos, e portanto, aprendeu a pensar assim. É simples como seu cão baleia.
Digo isso para completar o comentário sobre o filme "Juízo". Julgam crianças e adolescentes por roubo, furto, homicídio qualificado. E elas não são nada disso, elas sabem que roubaram ou mataram e isso é feio, mas não têm e não podem ter a mínima noção do impacto disso, portanto têm menos responsabilidade. Quando elas dizem: "meu amigo me chamou pra roubar uma bicicleta e eu fui", dizem a verdade. É o tipo de pensamento simples de quem quer uma bicicleta e só. Não há esse problema da cadeia, da prisão de estar erado, da religião. A vida dela, em geral, já é uma merda mesmo, com uma bicicleta fica um pouco melhor, na cadeia um pouco pior.
Só há consciência quando pode ter consequência. Li num conto do Rubem Fonseca que a maioria das menores estupradas gostaram do ato sexual e quiseram repetir por vontade própria, e só se deram conta do horror e do absurdo quando foram pegas em flagrante, ou quando descobriram o que significava aquele ato. Pode ser verdade, não sei, mas fica o registro.
Não defendo ninguém, só tento ampliar os pontos de vista a partir dos elementos que tenho. Só quem sabe um pouco de lei pode escapar delas. Acho que é isso: quando a gente não conhece, só nos resta arriscar.
12 agosto 2010
Juízo
Destaco do filme o papel da juíza que funcionava como uma espécie de advogado do diabo, ou seja, apontava o lado bom das coisas, não para que tudo melhorasse, mas principalmente para humilhar o coitado do delinqüente. A perspectiva dela, de quem teve uma boa família, condições de estudar em lugares bacanas e pintar o cabelo de loiro em salões caros, dando a ela um aspecto de advogada de filme pornô, não permite perceber que aquele sujeito de 16 anos não tem nada na vida dele pra prezar. A relação dele com a família, com Deus, com a escola, com os amigos não é por afeto, é uma relação de dependência, de submissão e lutas de poder. Ele só conhece o mundo por micro-lutas de poder, e assim, num determinado momento usa isso contra aqueles que sempre lhe massacraram, claro, de maneira errada que merece punição. É ruim ver que um rapaz que nunca teve seus direitos preservados tenha que pagar pelos erros que cometeu: quem não conhece os direitos, não pode valorizar os deveres.
O documentário acaba por ser um “mais do mesmo”. Tudo que já se viu sendo repetido, torcendo para que na reiteração se veja o absurdo e assim sendo, alguma coisa possa acontecer. Ok, não acredito nisso, pouca gente ali na exibição estava com vontade de debater o assunto: a maioria estava atrás de horas complementares, outras, sei lá porquê. A verdade é que hoje em dia não há nada que nos motive realmente.
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09 agosto 2010
antenor em 1 minuto
O conto "o homem de cabeça de papelão" de João do Rio em 1 minuto:
Essa história é uma palhaçada: Antenor é um menino mimadinho, riquinho e chatinho que acha que fala o que quer, quando quer. Inconveniente, sabe? A mãe estranha, mas diz que ele é bom, passa a mão na cabeça, então dá nisso: fica sem limites achando que pode tudo, que é diferente. Quando fica jovem não quer ser malandrão, pelo contrário, resolve trabalhar, e muito até. Daí dizem pro melhor dele que ele devia ser bacharel e fazer um concurso, mas ele não! Quer ser pedreiro, metalúrgico, ou seja, é um comunista daqueles. Deve até usar umas drogas, aah deve. Daí ele se apaixona pela filha da lavadeira que ÓBVIO não quer nada com ele: um cara que não tem amigos, que só fala coisa que ninguém entende, é comunista! Daí ele fica na bad do coração e vai andar pela rua, quando acha uma loja de um cara que conserta cabeça e relógio. Bom, na verdade, o cara é o capeta procurando adeptos pra sua trupe. Antenor entra, deixa a cabeça dele lá pra ele consertar e ganha uma de papelão! Ufa! Daí sim ele se ajusta: fica rico, reconhecido, vira ministro, poderoso e dá um pé na bunda da filha da lavadeira que agora quis ele, obviamente. Esse capeta é até gente boa! Até que um dia ele passa pela loja do capeta que tenta devolver a cabeça dele, dizendo que é perfeita, cabeça de fodão. Ele nega, claro, a vida toda boa do jeito que ta. Pelo menos agora ele foi esperto. É...essa história é bacana. Eu gosto desse final. Obrigado.
Essa história é uma palhaçada: Antenor é um menino mimadinho, riquinho e chatinho que acha que fala o que quer, quando quer. Inconveniente, sabe? A mãe estranha, mas diz que ele é bom, passa a mão na cabeça, então dá nisso: fica sem limites achando que pode tudo, que é diferente. Quando fica jovem não quer ser malandrão, pelo contrário, resolve trabalhar, e muito até. Daí dizem pro melhor dele que ele devia ser bacharel e fazer um concurso, mas ele não! Quer ser pedreiro, metalúrgico, ou seja, é um comunista daqueles. Deve até usar umas drogas, aah deve. Daí ele se apaixona pela filha da lavadeira que ÓBVIO não quer nada com ele: um cara que não tem amigos, que só fala coisa que ninguém entende, é comunista! Daí ele fica na bad do coração e vai andar pela rua, quando acha uma loja de um cara que conserta cabeça e relógio. Bom, na verdade, o cara é o capeta procurando adeptos pra sua trupe. Antenor entra, deixa a cabeça dele lá pra ele consertar e ganha uma de papelão! Ufa! Daí sim ele se ajusta: fica rico, reconhecido, vira ministro, poderoso e dá um pé na bunda da filha da lavadeira que agora quis ele, obviamente. Esse capeta é até gente boa! Até que um dia ele passa pela loja do capeta que tenta devolver a cabeça dele, dizendo que é perfeita, cabeça de fodão. Ele nega, claro, a vida toda boa do jeito que ta. Pelo menos agora ele foi esperto. É...essa história é bacana. Eu gosto desse final. Obrigado.
06 agosto 2010
bentinho II - ficções de amor
Acho que entendi o que estava tentando dizer no post anterior, vamos lá. Quando estamos apaixonados, ou melhor, na situação da paixão (ou amor, enfim, a denominação pode ser qualquer uma apesar das diferenças)todos nós fomos impelidos pela tradição, pela igreja, pelos meios de comunicação, pela arte e até pela nossa natureza, a criar uma espécie de "ficção de amor", ou seja, criamos em nossa cabeça uma história verossímil onde em algum momento o mocinho encontra a mocinha, eles se conhecem, se gostam, tem um primeiro contato, repetem isso, o caso permanece, e isso se prolonga. Essa ficção de amor nada mais é que a construção de um sentido para o sentimento, ou seja, uma tentativa desesperada de classificar o que se sente dentro de uma ordem numérico-afetiva. Nesse sentido, vestimos a carapuça e cumprimos todos os protocolos que nossa cabeça nos faz imaginar como deve ser uma "bela ficção de amor". O caso é que: toda história de amor deve ter o antagonista. É aí que entra a situação do Bentinho, ele precisava completar o ciclo, chegar ao fim da sua ficção. Esse antagonista pode ser um fraco, um idiota, o que for, quanto pior melhor, na verdade. O resto é conhecido por todos nós. No entanto, na prática toda essa ficção é a coisa mais bonita de nossa vida e em pouco tempo ela toma tudo, como toma a mim, a você, como tomou Bentinho. Bom, de novo, eu só acho que entendi, então pode haver uma parte 3, quem sabe?!
02 agosto 2010
bentinho
Volta e meia aparece na minha cabeça a figura do Bentinho. Dom Casmurro é um livro que muito me fascina e me deixa assustado quanto aos fatos da vida. Essa questão de se Capitu traiu ou não tem muito pouco a acrescentar a discussão ou análise da obra, mas a figura do Bentinho tem muito! A verdade é que não importa o que Capitu fez, ela pode ter traído como pode não ter traído e a diferença é nenhuma. Bentinho tinha motivos para acreditar no que "via" assim como Capitu tinha motivos para dizer que aquilo era maluquice. O que importa é a subjetividade do Bentinho e ele tem uma profundidade tão grande que todas as questões são resolvidas, dissolvidas e vivem na cabeça dele. Parei de pensar aqui (começou o top five do cqc), qualquer coisa volto e escrevo mais.
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