28 novembro 2009
25 novembro 2009
a paixão
Acho que é mais subjetivo ainda. A paixão é latente quando a gente percebe que não vai conseguir largar a pessoa, por mais que se tente; é quando a gente começa a imaginar o que a pessoa pensa enquanto a gente pensa nela; é quando noves fora, a gente percebe que a nossa vida é por algum momento da pessoa e que tanto nossa felicidade quanto nosso fracasso depende dela.
Por isso a paixão é tão arriscada, mas tão singela, porque tem o tamanho de um elefante com a leveza de um pássaro. É cor, mas também é forma. A paixão é um eterno sonho dentro do acordar. Então a paixão não é aquilo que é percebido quando se acorda e pensa na pessoa, a paixão é aquela que dorme junto e vela pela gente até o amanhecer.
21 novembro 2009
sábado
Era sábado e eu jantava antes de sair. Na mesa estavam meus pais comentando da vida, o que se limitava a discorrer sobre uma série de tragédias sobre a morte, que eu não ouvia primeiro porque era sábado e segundo porque não consigo fazer das desgraças um assunto.
Me tornei inerte e aos poucos me vi como uma figura de Goya, sombria e disforme, um tanto quanto assustada, remissa, como se a todo momento pedisse absolvição. Isso porque sabia que devia comer para evitar um pileque e isso porque já me perdoava intimamente do que eu talvez viesse a fazer quando de mim se apossasse o descontrole que eu tanto busco.
Meus pais preocupados em falar da vida e da morte achavam que assim me assustariam, me dariam uma espécie de má consciência que me fizesse aproveitar menos e me cuidar mais. Acham que histórias dos outros são exemplos diretos para mim e não apenas histórias dos outros. No fundo, eles me abraçavam, enquanto em diminuíam.
Então eu saí um pouco menor do que eu sou. Não procurava conforto, mas justamente o contrário, por esse motivo cheguei antes e curti uns vinte minutos sozinho no bar, sem beber, ainda numa tentativa desesperada de me preparar. Até que aos poucos as mesas começam a encher de pessoas e garrafas, os cigarros proibidos fazem uma certa falta, porque a ausência de fumaça releva mais do que gostaria que revelasse.
Chega a pequena. Parece desestabilizar e mais que isso, busca desestabilizar, mas o que ela tem de mim não é bom e o que eu tenho para ela também não, então essa impossibilidade cria uma distância entre o que já existe entre a gente, mesmo que num outro lugar, e o que jamais vai existir. Esse desconforto chega a doer, porque já não sou, nem poderia ser aquele outro e ela ainda é e nem por um momento será aquela outra. A dificuldade é perceber que entre eu, a cerveja, ela e o bar há muitas coisas, mas a maioria delas são só histórias. Assim como as tragédias que contam meus pais.
17 novembro 2009
o matadouro
infinita também é sua pobreza.
Não foi a maldade dos pobres que você me mostrou,
foi a pobreza dos pobres.”
Bertold Brecht
De braços abertos e grito abafado pelo som das máquinas, Adão despencou lá de cima. Foram alguns segundos apenas, olhar para um lado, tropeçar e puft, ou qualquer som desses, se bem que o primeiro barulho foi seco, da queda e depois o da trituração, mas nada diferente do som que já se fazia. Caso se tivesse olhado momentos antes, se veria que não foi erro dele, que fazia tudo corretamente e que era mesmo perigoso o tal serviço que em algum momento qualquer, oxalá fique para amanhã, traria essa má sorte para alguns deles funcionários. Com Adão veio a acontecer justamente hoje ao fim do expediente, já na última meia hora, quando talvez o corpo já não correspondesse propriamente às vontades e a cabeça já estivesse voltada para outro lado do mundo, quem sabe o de fora, mas que agora já não era nada de importante.
A má ou boa sorte de se trabalhar em matadouros é essa. Já se vive e é carne, mesmo que não sei queira, mesmo que se evite, mesmo que se mude de mundo e de corpo, mesmo que se abandone o trabalho, mesmo assim sempre saberá que é carne, e sentirá ela muito mais intensamente, no cheiro, nos poros, até no apelo dramática que é um arranhão, uma cicatriz, mesmo quando tapados por um curativo, um simples band-aid qualquer. Assim, para Adão, do grito que não se ouviu à queda para dentro da máquina de toucinho tudo fora uma viagem esperada, a realização de algo que já se sabia mais do que aguardado por alguma intuição, ou quem sabe, talvez até já houvesse desejado essa queda, de tanto que se olhava os bois ali caírem, já em pedaços. E depois da queda foi exatamente isso que aconteceu, como todo animal ali foi triturado, amassado, misturado às outras carnes, virava um coletivo, um coro, uma nova sociedade.
Acontece que Agildo, chefe da sessão não pode e não tem vontade de deixar vir a tona a morte de Adão, que segundo ele, era morte normal, já que sempre lhe achara uma rapaz desequilibrado e obviamente aguardava o dia em que viria a se matar, infelizmente escolhera aquela tarde, no fim do expediente, justamente no dia que Agildo ficava sozinho, como sempre se sentia. Agildo, então, achou melhor que ninguém morresse, porque morrer era ruim e trazia péssimas recordações aos outros, então foi até a máquina de trituração e resgatou o macacão azul do funcionário morto colocando-o no cabide, onde os funcionários se vestiam. O macacão, bordado à mão pela sua própria esposa que fazia a confecção das roupas da fábrica, agora já um pouco rasgado, ficou apenas poucas horas ali no cabideiro da empresa juntos a uns armários, que mais pareciam gavetas, se bem que aqueles funcionários carregavam pouca coisa, inclusive nas cabeças e nas marmitas. Assim de macacão velho posto como novo, Agildo dissimulou e assim que pode foi perguntar aos demais funcionários onde estaria Adão, aquele excelente funcionário, tão prestativo e cumpridor de seu serviço. Como ninguém sabia a resposta ficou claro para todos, inclusive para nós que sabemos como as coisas são, que Adão fora embora, desistira, deveria ter passado mal ou tido problemas de família. Assim, pois as coisas são rápidas nesse mundo de empresas, Agildo tinha um álibi para ligar para casa da família de Adão, para a esposa quarentona que engordava, para a mãe que morava junto e meio empregada retribuindo o favor de ali poder morar, e perguntar por Adão, novamente o excelente e motivado funcionário que nunca havia deixado a empresa na mão, coisa que causava espanto pois não era de seu feitio desvanecer assim pelo vento de uma hora para outra.
Uma família desesperada foi o que se viu. Era ligar para IML, hospital, procurar em botequim, valas, farmácias, puteiros, ruas e avenidas, bancos, praças públicas, oficinas, padarias, saía-se perguntando por todos os cantos onde estaria aquele homem, pai de família, 'o seu Adão, é aquele flamenguista que vem sempre aqui ver os jogos, que gosta de sinuca', dizia a esposa para o dono do bar, que lembrava, claro, mas preferia fingir não saber de coisa alguma, pois não tinha nada a ver com isso e não ia se comprometer. 'É seu Torres, meu filho teve aqui?', dizia a senhora para o dono da banca de jornal, mas logo depois mudava de assunto, falando de coisas do dia, da novela, por fim, lembrando do filho e dizendo que lhe daria boas surras, porque 'sabe como é seu Torres, num é porque é criado que pode fazer dessas coisas'.
Agildo no mesmo dia procurou por uma ficha no departamento pessoal: buscava um novo funcionáro. Era negro, assim como Adão, do mesmo tamanho e porte físico, para a empresa e para o chefe, ainda era Adão, para os funcionários não, ainda sentiriam por um tempo a falta do amigo, mas alguns, em contato com esse novo empregado que começara no dia seguinte da morte de Adão, já se tornara tudo confuso, alguns em poucos tempo já esqueciam de Adão, faziam-no sumir de suas memórias, um deles até ao chamar o novato, que se chamava Pedro, trocou os nomes e falou Adão, que misturado, se pode ouvir algo como Pedradão, outros chegavam atá a dizer que Pedro era muito melhor que Adão, mais simpático e que entendia muito mais das coisas. E Pedro, que usava a roupa de Adão, e para falar a verdade, Agildo dera um jeito de que Pedro fosse Adão, tal qual outro, que recebesse o salário pela conta de Adão, que passasse o cartão de Adão, que cumprisse metas assim como Adão, e assim, fosse carne e máquina, e ali estivesse como estava Adão. Os superiores jamais saberiam a diferença, e Pedro sabia, que tinha um emprego que era de outro e não entendia como poderia ser outro, mas percebia cada vez mais que não tinha tanta diferença e que não valia tanto a pena querer ser ele mesmo, pois sendo outro, seria cobrado como outro e poderia um dia ir embora, é que não queria viver ali para sempre, queria viajar com a família, poderia também ir embora como outro, sem morrer. Aliás, Pedro demorara para descobrir que assumira a vida de um morto, mas quando descobriu achou a melhor coisa que podia lhe acontecer, servia no mínimo para dar risadas. Não é porque as pessoas são outras que quer dizer que elas mudaram.
A família que no início estava desesperada decidiu ir até à fábrica reclamar, lá chegaram com advogados da defensoria pública e sentaram na mesa do chefe. Era a esposa e a mãe, as duas lado a lado, tal qual Maria e Madalena, cada qual com sua função e com a mesma dor, a mesma busca, porque sempre há alguém para morrer na cruz e não estar mais nem aí para nada, e sempre há alguém que chorará pelo que foi. O chefe, um homem grande atrás de uma mesa lhes disse: 'Adão está trabalhando', e estas frases ditas assim de trás da mesa parece que ganham outra forma, outro peso, como se houvesse uma blindagem ali entre o lado de cá e o lado de lá, tanto que as duas não foram capazes de responder, apenas capazes de não compreender e saírem dali para ir até o setor onde Adão trabalhava. Assim foram até a máquina onde agora estava Pedro, viram um e não viram outro, mas não viram um com o macacão do outro, então, voltaram até o chefe que ao saber da ausência de Adão, chamara Pedro para uma conversa, que como sendo Adão tornou a situação demasiada complexa, e nestes casos fica tudo para depois, pois aquele que foi chamado lá estava, nada foi feito tendo sido liberada a família, outro modo de falar que fora enxotada dali. A verdade é que assim que a família saiu, o chefe foi até Agildo, descobriu o acontecido e se consultou com os advogados que lhe disseram: 'está tudo como está, não há porque mudar', cuja rima fez rir ao chefe.
Na saída do expediente, saíam Pedro e Agildo, quando a família de Adão estava toda à espera do lado de fora, para interpelar o novo funcionário, ou o velho-novo, ou o que quer que seja. Adão fez olhares repreensivos para Pedro que entendeu o recado, mas não pode negar o pedido da esposa para que converssassem, chamando-o para um café, ao qual a mãe não foi convidada. Então os dois foram até um botequim da esquina, onde havia duas mesas, uma com um velho senhor com cara de intelectual a beber cerveja e cachaça, pois ao lado do copo de uma estava a outra, e a mesa que agoram sentavam Pedro e a mulher. O chão era molhado e grudento, o que se misturava com o suor do funcionário negro e novo que ali pingava e se misturava à poeira que o ventilador velho lhe dispensava.
E foi então que tudo começou. Pedro não poderia dizer quem era ele na empresa, nem ela poderia imaginar, entretanto ele poderia, em nome do emprego, da estabilidade e da possibilidade de ascensão profissional arrumar outra maneira de se iniciar essa conversa, foi aí que decidiu que ele e a esposa deveriam ficar juntos, tornarem-se marido e mulher. Assim foi, houve alguma demora entre os flertes, as cervejas, os primeiros beijos, os sexos e enfim o compromisso, mas tudo voltou a ordem inicial. Ela já não se lembrava mais de, como era o nome dele mesmo? A mãe não saiu de casa, mas passou a receber pelos serviços que ali fazia, então ninguém da história foi prejudicado. A vida só piora para que tem privilégios, e a fome e as necessidades as fazem quase mudas para os problemas da vida. Adão se tornou o ingrato que fugiu de casa. A esposa tinha um marido, Pedro um emprego, a mãe um salário, Agildo um aumento e o chefe paz. Pelo menos até o próximo caso. Aliás, houve um prejudicado: o nome dele é Fernando Mendes e ele fez uma macarronada para os amigos e o molho à bolonhesa dele tinha algo mais além de tomate e carne de vaca. “Fernando”, dizia a loira à mesa, “essa macarronada está uma delícia”.
apagão
O som do ar, o som do céu, o som do carro, o som de um barco à 20 km daqui. Alguém já havia dito que ninguém escuta o barulho do mundo porque é incapaz de fazer silêncio, então as pessoas começaram a ir pra janela querendo saber o que havia acontecido. Sem a visão elas ficavam mais soltas e falavam com os vizinhos que não falavam, e até tentavam reconhece-los pela voz. O fim do som do ventilador trazia agora o tato molhado de suor que se misturava ao silêncio, quase que punitivo. Um silêncio de purgatório. Depois as conversam começaram a rarear, apesar de um grupo de jovens rindo e cantando em algum canto do prédio funcionarem de trilha sonora de tudo. Até que foram todos se deitando na cama e se acostumando com aquela paz. Os fogos queimavam nos apartamentos, lanternas, geradores, celulares, velas... Todos quase vendo o que o silêncio já dizia pelas sombras. Até que... Tudo bem.
12 novembro 2009
rosencrantz e guildenstern estão mortos (1990)
Ele conta a saga dos personagens secundários da tragédia Hamlet de Shakespeare na forma de uma comédia maravilhosa, cheia das citações, de referências e de diálogos pseudo-vazios. As personagens que não se individualizam, ou seja, ambos são Rozencrantz e Guildenstern fazem uma dupla um tanto quanto disforme, enquanto que um toma a liderança e as idéias, o outro que durante a obra descobre o avião, os sons numa madeira, não consegue se sobressair.
Juntos eles fazem a viagem até a Dinamarca e observam toda a história de Hamlet ser contada de forma entrecortada e de maneiras diversas.
O humor refinado e profundo de Gary Oldman e Tim Roth me faz lembrar as personagens de Beckett em Esperando Godot, pois são construídos em seus diálogos pela superfície, pela sua materialidade, entretanto vivem numa situação e num mundo absolutamente trágico.
Enfim, esse post foi só pra recomendar, vejam!
Link para mais informações aqui.
09 novembro 2009
sobre do que se faz uma canção
Era um tipo de contato, mas um contato abençoado pela divindade da canção, como se uma força dissesse que o corpo também serve pra bençãos, também serve para paz, também serve pra nós. As palavras eram poucas, um pouco ofegantes pelo calor do bailado e pelo suor do espírito. O cansaço era questão de relógio, nada tinha a ver com corpo. Assim como as horas, assim como o tempo e assim como o coração. Porque tudo que existe é questão de tempo, de momento e assim como na poesia, no amor e na vida, é sempre um girar de corpos que faz uma canção.
31 outubro 2009
voltando
26 outubro 2009
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Até estragar o fígado.
22 outubro 2009
tempo
Hoje só apontei na rua por 5 minutos no máximo, fiquei trancado aqui. Nesse instante, a primeira coisa que vi foi um rapaz, cabelo tipo meu, morador de rua com uma garrafa de cola na mão falando sozinho, viajando, em outro mundo, outro tempo. Essas coisas doem, esse tipo de tempo também.
21 outubro 2009
se ferir
o dinheiro
No entanto, escrevo para falar de um dos grande problemas do capitalismo: achar que tudo gira em torno do dinheiro. Quando alguém tem um problema de saúde - dinheiro; quando a religião está em baixa - dineiro; a violência está grande demais - dinheiro. Qualquer situação que haja no mundo é solucionada pelo capitalismo através de um investimento de enorme quantidade de milhões de imensidades incontáveis de dinheiro. E esse número não corresponde a um plano, a um projeto que combata o problema, pelo contrário, divulga-se o dinheiro como se ele fosse solucionar por si só.
Falo isso por conta dos problemas de violência no Rio de Janeiro, a polícia invade, sai matando, cerca tudo, daí se diz: "mas isso é paleativo, não resolve o problema" e o governo federal vai e libera cento e tantos milhões de reais para investimento. Em que? Pra que? Qual o objetivo? Se essa grana não se perder no caminho provavelmente vai servir pra matar. Não entendo.
18 outubro 2009
dias
12 outubro 2009
carinhoso
08 outubro 2009
cinema: Cristophe Horoné
Não foi com surpresa que me encantei com o excelente "A bela Junie" (La belle personne - 2008) de Cristophe Horoné: o diretor frânces de 39 anos que tem se mostrado uns dos mais hábeis e encantadores cineastas da atualidade. Ele tem como maior caraterística a capacidade incrível de tratar sentimentos com uma percepção estética precisa, ou seja, nem cair para dramalhões ou lamentações exageradas, muito menos praquela contenção chorosa super comum nos cinemas. Muito pelo contrário, ele foge dos constante sussuros do cinema frânces e coloca em cena, quase sempre napeloe do ator Louis Garrel, uma forma contemporânea de se lidar com o sofrimento, ou seja, com um isolamento franco, seco, mas não menos dolorido, numa espécie de hibernação do sentimento, como se tudo que aparecesse fosse apenas um rastro do real.
Meu filme preferido é "Em Paris" (Dans paris- 2006) com Romain Duris, onde o protagonista, após terminar um relacionamento se isola dentro da casa de seu pai que vive com seu irmão e passa por um longo processo de enclausuramento, tanto físico quanto mental, enquanto seu irmão num mesmo dia se envolve com três mulheres. Essa discrepância deflagra não só uma desvalorização de ambas as atitudes, mas como também as reafirma como verdadeiras. A grande cena do filme é quando Romain liga para sua ex-esposa interpretada por Joana Preiss e ambos, através de uma canção, falam de sua situação num verdadeiro tratado sobre o amor.
Em "A bela Junie" é a beleza enclausurada dela que faz todos os sentidos se deflagravam entre as personagens de uma escola, enquanto que a própria moça, refém da própria beleza, se torna esquiva, amedrontada, acorrentada.
Destaque também para outros filmes do mesmo diretor como o chocante "Minha mãe" (Ma mere - 2004), no qual o protagonista se inicia sexualmente através dos ensinamentos da própria mãe e o cantado "canções de amor" (Les chansons d'amour - 2007) que revela uma liberdade sexual representada por um relacionamento triplo.
É preciso assitir Horoné, para o aperfeiçoamento de uma sensibilidade contemporânea. Uma visão nem idealizada, nem em ruínas, uma visão que ao mesmo tempo é simples, mas que revela, como numa profecia, um caminho que seguimos.
05 outubro 2009
pathos
30 setembro 2009
dia de semana
24 setembro 2009
A decadência
Se cada um de nós é o que aparece e, como diria Wilde “só um tolo não julga pela aparência”, diria que a decadência é tudo aquilo que se vê como um eco do passado. É como se tudo que não se é mais, fosse...
21 setembro 2009
sem mim
Não sabia muito bem por quanto tempo havia ficado ali parado olhando pra luz, mas sabia que era tempo o suficiente pra que um mundo inteiro se construísse e se desabasse. Foi quando de súbito me veio a frase: “estou escrevendo um conto.” Foi assustador, percebi que no meu silêncio havia criado, elaborado, formulado e editado uma história inteira com detalhes, tramas, ápices, clímax, clima, personagens e vidas completas, ou fragmentos de vidas, ou então o suficiente para que um conto fosse criado. A partir de então, comecei a relembrar e reescrever o conto, como se aperfeiçoasse o rascunho que havia criado sem perceber.
O meu conto era o melhor conto do mundo naquele momento, porque ele não tinha tempo. Trechos chatos eram interrompidos com reticências e lá se dava um salto temporal de um ano, dois, até mais, para mais um trechinho da história aparecer e quando ela se completava, aparecia como mágica o fim daquele trecho chato, e aparecia um flashblack a cores e corrigia a chatisse anterior. Uma personagem que havia morrido deixou o conto muito pra baixo e me revoltei contra o autor, mudei tudo de novo e fiz renascer aquela moça linda e loura que passara na vida do nosso herói, e ela voltou numa cena linda: chorava numa praça, sentada ao chão com os braços junto ao corpo e o herói que ia para o enterro de seu pai, vira ela ali daquele jeito e gritara o seu nome alto, ela interrompia o choro e sorria também, e levantando-se,
davam-se as mãos, olhavam para o lado e se abraçavam. A próxima cena era deles num restaurante. O pai dele não precisava mais morrer.
Foi assim, que entre a insônia e a memória, criei uma história. Ela era grande demais pra mim, tinha tantos detalhes que minha própria mente não podia comportar, não assim, do jeito que eu estava, na cama, preso, porque deitar e não dormir é uma prisão, ao menos que se consiga abdicar da noite, o que é improvável. Por isso que essa minha história ficou sem fim, porque ela entrou nos sonhos e me acompanhou ao dormir. Minha história ficou sem mim.