31 maio 2010

purgatório

Apontei o lápis, mas não escrevi nada. Aquele buraco me incomodou. Meus olhos querem se fechar, pedem que eu durma um pouco, tire um chocilo, coisa de meia hora digo pra mim, mas resisto. A cabeça começa a trabalhar novamente, primeiro me diz que não são os olhos que fecham, mas as pálpebras, depois me faz perceber que dá até pra sentir, ao se fechar bem, o toque dos cílios superiores com os inferiores. Essa é a cabeça que não para nunca, como se meu presente fosse asburdamente distentido, como se meu dia fosse sempre durar uns três, como se, ao estar doente, eu vivesse algumas vidas, com alguns amores e muitas decepções. É como se eu fosse católico e não importa o que quer que acontecesse, acabaríamos no juízo final, tendo que prestar contas, e quiçá um purgatório me apareceria, ou ainda, poderíamos chegar todos juntos no apocalipse. Seria um presente público, não só esse interno, meu.
Acontece é que, muito feliz, não consigo deixar de pensar que haverá uma lei da compensação. Acontece que quem muito quer nada tem, quem é vivo sempre aparece, quem avisa amigo é, quem tem boca vai a roma, ou seja, quem faz tudo, quem está em todo lugar, a vida é toda de quem, e quem com ferro fere com ferro será ferido. No entanto, no final sempre fica tudo pra depois, pego meu violão, sento na cama, deixo os olhos (ou as pálpebras?) se fecharem e canto bem devagar a canção: quem tem medo do lobo mau...lobo mau?”

24 maio 2010

a urca

Estive no lugar mais lindo essa semana. A Urca me renovou, fez renascer em mim uma coisa boa, guardada, tão pouco cuidada. É tão bom quando a natureza toma a gente e não a gente toma ela, é tão bom poder se entregar a essa força maior que eu. No fundo, odeio quando chamam de deus, porque sendo natureza é tão mais lindo, mais poético e tão mais divino do que se ele existir mesmo. Como diria o velho Quintana: "tão bom morrer de amor...e continuar vivendo". É disso que falo, de uma poesia que esse lugar me fez desfrutar. Tentei descrever a prainha, com as casas, com a mureta, as pedras e a vista, desisti. Agora falo só das sensações. No fundo a urca pra mim é uma imensa metáfora.

20 maio 2010

decifrar

Ela anda, ela dança, ela fala do presente, do passado, ela conta segredos, ela dissimula, diz coisas que me fazem pensar em um, mas devem querer dizer outro. Ela faz planos e eu penso que gostaria de decifra-la. Imaginem que ela está sentada num banco de praça com as mãos pousadas no joelho, o cabelo longo solto, o olhar expressivo inerte, e o sorriso fechado, trincado. Ela é de uma simplicidade que não consigo acompanhar, é factual, é quase jornalística, pragmática, prática, objetiva, parece quase mediana, mas pelo contrário, sou eu que de uma profundidade cambiante, de uma dialética opressora e fragmentada não consigo pensar em nada que faça sentido. Quando eu penso em decifra-la, penso numa batalha entre esparta e os nazistas, penso em mil metáforas uma depois da outra numa sequência infinita. É como se ela, ao ser quem é, revelasse a mim quem eu sou na maior profundade, ela revela a essência de mim, algo doído que só se dá nessa dialética. E ela continua sendo linda: anda dança, fala do presente, do passado, conta segredos, dissimula dizendo uma coisa que me faz pensar em um mas é outro. Ela planos e eu penso que gostaria de decifra-la. É uma fraqueza, mas é a maior delas...

12 maio 2010

um livro

uma vez esqueci um livro com uma amiga,
ela nunca devolveu e eu comprei outro igual.
a ausência daquele livro vive em mim
será que ela leu o livro?
será que ela leu o livro igual a mim?
ou será que ela leu um outro?
será que aquele era diferente do meu?

nunca vou saber.

é engraçado

É engraçado. Meu amigo Saulo que sempre diz que adora começar um texto com "é engraçado", mas é tão bom. Esse "é engraçado" é como se a gente tivesse uma profundidade de coisas ilimitadas a dizer, mas no fundo são apenas bobagens que a gente vai pedir perdão depois, ou então vai se arrepender, ou então algo que a gente quer escrever e logo depois esquecer.
Acontece é que está passando um futebol aqui na televisão, eu estou sozinho, vi dois filmes hoje, fiz um trabalho e estou bastante cansado de pensar e mesmo assim ainda não fiz nada. Eu gosto de tudo que eu fiz e estou feliz, mas esse "não fazer nada"- porque não há reconhecimento de ninguém - me incomoda, daí eu fico com raiva e digo que odeio todos numa espécie de misantropia. Às vezes as coisas são assim. E já estou profundamente arrependido de ter escrito isso, gostaria que fosse um texto leve, mas saiu isso e está muito chato. Parei, mas que é engraçado, é!

Mil e uma noites

Toda narrativa que tem a oralidade como marca de criação possui suas histórias baseadas num viés duplo: são ao mesmo tempo anônimas e coletivas, sem autor e autoria, representam um povo, um espaço ou um tempo. É interessante reparar, então, que essas narrativas são pautadas basicamente em uma base: a história do próprio passado de um determinado povo mais o imaginário que funciona como espécie de memória - marca de passado – e variação (marca de presente e futuro). É como se esse imaginário moldasse a narrativa a partir dele próprio e assim, elas vão se tornando histórias coletivas, que representam aquele povo através de seu próprio tempo.

Borges começa sua fala ressaltando o fascínio do Ocidente pelo Oriente que representa o estranho, o escuro, o outro, o inexplicável. Destaca que o Oriente não tem uma noção de história como temos, para eles a história é fluída, cíclica, não existe uma “sucessão de fatos”, por isso que os egípcios eram vistos pelos gregos como povos “de outro tempo”, o que novamente destaca uma espécie de temporalidade, um fato determinante para o interesse na história das “Mil e Uma Noites”, uma vez que esse “mil e uma” não representa exatamente esse número, mas sim, um infinito número, um incontável número de contos que cabem dentro daquela mesma narração de Sherazade. Aliás, essa forma precisa e exata de se manter sempre uma obra aberta e que permite não só a adaptação, mudança e criação de novos contos, como também essa participação plural de vozes que permeiam e adentram a obra, num profundo exercício de lapidação. É nessa obra “aberta” de “mil e uma noites” que torna possível imaginar que seja uma obra infinita, o que virtualmente ela é, pois cabem mais mil e uma noites dentro dessas, como diz Borges: “os arábes dizem que ninguém pode ler as mil e uma noites até o fim”, mas não porque não conseguem, porque ela dá a sensação de infinitude.

Borges (pg. 78/79) explica que esses contos perpassaram por vários povos, o que de certa forma torna mais complexo esse movimento de oralidade, trazendo mais elementos que são conflitantes e tornando essa “lapidação” ainda mais rica em pluralidades, temas e composições. Em determinado momento diz: “Esses contos devem ter sido fábulas. Suspeito, aliás, que o encanto das fábulas não esteja na moral”. É importante esse destaque para as fábulas pois elas são pequenas histórias, também em algum nível, abertas, que permitem emendas, cortes, que trazem em si também elementos mágicos ou fantásticos como a possibilidade de animais falarem entre si ou com humanos, de animais serem antropomorfizados, entre outras fatos. E o que se vê nas “mil e uma noites” é isso: uma história que permite entradas do mundo fantástico, seja com lâmpadas mágicas, anéis, ou com poderes de gênios ou de deuses. E o que seria essa magia? Um tipo de causalidade diferente, uma relação causal até então estranha, típica dessa concepção do mundo do oriente. A diferença entre a fábula e as “Mil e uma Noites”é que a fábula ganhou um tom moralizante, principalmente ao serem traduzidas pela idade média nos mosteiros (onde até acrescentaram uma frase contando a moral da história), enquanto que as “mil e uma noites”, reunidas no séc. XV e traduzidas pela europa na auge do neo-classicismo, mas que quase cita o romantismo, foram interessantes pela estranheza, pela diferença das obras da época, ela era livre e permitia ao imaginário viagens, ao contrário das fórmulas até então vigente de Boileau, baseadas na Arte Poética de Aristóteles da “grande arte”.
Nesse sentido, podemos destacar os povos como uma “escritora” dessa obra, ainda que não configure uma “escritura” da maneira que conhecemos hpje. Essa escrita de efeito curioso, em uma espécie de infinitude, onde cabem contos dentro de contos (o que acaba por se aproximar do gênero “novela”) nos traz uma espécie de vertigem, de sombra, de breu, onde as coisas não são reconhecíveis e portanto se permitem à metamorfoses. Assim, as histórias das “mil e uma noites” também são as histórias de Ulisses, no caso do Polifemo, ou seja, são traços de narrativas que permitem a entrada de outras. Quem sabe todas histórias sejam das mil e uma noites? Quem são nós não fazemos partes dessas noites intermináveis?

A oralidade permite, então, que o imaginável e o imaginário estejam presentes como marca de espaço, tempo, ação e temas. Tudo está dentro de sua estrutura, nada é permeado por regras, dogmas, estruturas fixas, pelo contrário, a oralidade permite que tudo que a mente conseguir conceber esteja envolvido em todos os processos dessa história. A mil e uma noites não são apenas histórias transmita oralmente e depois transcrita, ela faz parte da história do que somos enquanto pessoas, nossas crenças, nossos mitos e nossas profundezas inexploradas. É o registro do que foi nosso pensamento e da base de um pensamento atual que ainda nos permeia, por isso é tão contemporânea e tão presente, por isso que é fascinante, porque as “Mil e uma Noites” ainda não chegaram ao fim.

referência - Palestra de Jorge Luis Borges, "As mil e uma noites"

03 maio 2010

prolegômeno

Rio de Janeiro, 3 de maio de 2010.
Pode parecer uma carta ou um diário, mas não é. Se fosse chamar de algum nome esse texto seria "ode", não uma ode pra engrandecer, apenas uma pra destacar, dizer que fez parte de mim isso em algum momento.
A cidade do Rio está iluminada, os letreiros coloridos de propagandas estão refletidos no negro do poluído mar de botafogo. Eu passo de ônibus e contemplo isso, contemplo a vista para niterói, o pão de açúcar e um pedaço da lua. Olho a temperatura como se fosse fazer alguma diferença. Não faz. É uma cidade que sempre me encantou e ainda continua encantando, é o lugar onde mais estou exposto a mim mesmo, a uma solidão estética que não consigo descrever. As luzes dos prédios, excesso de luzes - crença dos engenheiros e arquitetos da década de 50 em 60 no concreto e na luz elétrica - não permitem nem uma pequena fuga desse fogo urbano. Salto do ônibus, cruzo por grupo de amigos vestidos pruma partida de futebol, entro num supermercado, a voz que a muito não sai da minha boca quase se embarga na hora de um boa noite ou obrigado.
Começo a pensar nesse texto, ele me aparece já pronto, colorido e pede um nome, que em minha cabeça aparece como "introdução", "prolegômeno", "prefácio" ou "prólogo". Palavras que bem ou mal significam "aquilo que é dito antes". Não entendo muito bem, mas sento aqui e escrevo. O que é pra ser escrito depois?

26 abril 2010

deve ser um curta - um exercício

(Está deitado no sofá da sala. Imagens se alternam mostrando o ambiente: uma mesa de centro, alguns outros sofás, jornais, flores num jarro, uma pilha de cds, dvds e livros, fotos e por fim o sofá e ele. A câmera começa a se aproximar dele, que vira de lado, ficando sem encarar a câmera. Fala para alguém.)

Oi. To aqui de novo, meu estômago ainda dói, minha carteira de motorista venceu e acho que nada vai mudar, não vou ter aquele medo de novo, você não vai querer mais uma vez. Às vezes eu penso em você, às vezes não. O cachorro mordeu a minha prima, ela chorou mas já está bem. Como se fala das coisas hoje em dia? O flamengo venceu, sabia? Diz alguma coisa mesmo sem dizer nada. Existe alguém que não gosta de ninguém ou sempre tem alguém gostando de alguém que não gosta dele e só umas poucas que gostam e são gostadas? Se alguém perguntar se você gosta de alguém você vai falar talvez, falar que não sabe? A gente força. É que às vezes parece que...às vezes as coisas são diferentes e ficam estranhas. É que tudo vai mudar.

(Vira-se, fica de barriga pra cima, uma longa pausa.)
Oi. To aqui de novo, meu estômago ainda dói, minha carteira de motorista venceu e acho que nada vai mudar, não vou ter aquele medo de novo...

(uma grande mistura de imagens de carros na rua, ônibus passando, pessoas conversando na mesa de bar, o barulho de um liquidificador, o choro de uma criança, um casal que passa de mãos dadas ao som de uma música eletrônica bem intensa, tudo num rebuliço que não nos permite entender as sequências. De repente, tudo fica em silêncio por um tempo, as imagens continuam, ouve-se um barulho de coração bater bem ao fundo. As imagens vão ficando mais lentas, uma escada, uma porta, um bicho de estimação e novamente o sofá com o rapaz. Ele levanta, fica um tempo sentado, ajeita o cabelo, pega um casaco que estava ali do lado, um livro, um óculos e sai.)

25 abril 2010

a dança

Foram em uns passos de dança que a gente transpirou, se inspirou e se encantou e enquanto a vida tarde e a noite não acaba a gente vai ser mais um bocado feliz.

16 abril 2010

coleção

eu coleciono livros; nomes de escritores ao lado de nomes de romances quem vendem ilusões de romances; coleciono textos de autores da moda pra tentar ficar mais inteligente ou interessante; coleciono all stars, porque desde o primeiro que tive e lhe vi também usando nunca mais quis e conseguir parar; coleciono remédios de nariz, neosoros, tenho um montante aqui vazio e mais um tanto com reserva; coleciono camisas do flamengo que me aguentam nas horas de mais tristeza ou de mais solidão, me fazendo ser parte de alguma coisa; coleciono piadas e dvds, bebedeiras e ressacas; coleciono muitas coisas, mas não tenho fotos e não tenho lembranças, apesar de que tenho a sensação de que coleciono vocês.

15 abril 2010

nomenclatura

Se nesse dia, numa altura errei teu nome
não faça caso, não me destrua
é que diante do teu traço
no viés do teu abraço
diante de tal escultura
falhou-me o passo,
abalou-se a estrutura.
No fundo, no fundo...
ô...
...ô
ô...
querida...
foi erro de nomenclatura.

06 abril 2010

ela sorria (com a palavra)

chovia no rio
cata gota refletia um vazio
a tarde rasgada de fio a pavio
entremeava a fortuita lacuna
entre a primavera do sol
e a decadência do som

a voz não é mais dita
o que se ouve são repetições
ecos antigos, oblíquos, densos
extensos como megafones
que atravessam poucas pontes
que rumam para o oposto

assim me soam as histórias
as paixões, as comoções
os pedidos, as reclamações
tudo como palavra velha
desbotada pela insistência
de apenas uma pessoa que as recebe
mas não mais me escuta
porque a palavra que agora é vácuo
ela antes ouvia como poesia

(e sorria.)

05 abril 2010

uma (quase) história de amor

entrei na rodoviária e o casal estava lá. Ela sentada no colo dele. Ela pequena, magra, cabelo curto e olhos muito escuros, ele boa praça, cara de moço de família, não malhava e cultivava um pouco a barba. Algumas malas perto deles, umas quatro, contando com uma bolsa térmica. Quem olhasse não saberia dizer quem viajaria, se ele ou ela, mas de ninguém escapava de que ali havia uma paixão. Ela sorria com o que ele dizia e ele tímido se arrependia de tudo ter dito. Ele fazia um silêncio e ela silênciava quase triste por ter achado que não agradava. Meu ônibus chega e entro: é também o ônibus dela. Eles dão um beijo e se despedem, ele olha por ela da grade, uma espécie de limite, separação imaginária. Ela guarda as malas no bagageiro sempre aos olhos dele e sempre retribuindo com um olhar também. Eu, do ônibus quase não via isso tudo, sentia que perdia alguma coisa. Ela se sente perto de mim, dois bancos a frente. Ele, que ainda a olha, pega o celular e liga, eles conversam por instantes, sorridentes cá e lá. O ônibus parte, um último adeus e por alguns segundos um silêncio se faz, um corte. Duas curvas depois ela senta na cadeira ao lado da minha e aperta minha mão me entrelaçando os dedos. Diz: "que bom.", eu pergunto: "o que?", ela: "que seja assim, agora." Abaixei a cabeça silenciando, ela baixou a cabeça triste por ter achado que não agradava. Pouco depois me deu um beijo no canto da boca, eu sorri e meu sorriso sorriu nela uma pequena covinha. Viemos em silêncio e não nos largamos até aqui.

entre

Não tenho vontade, não tenho. Não me apetece falar de amor, nem da aurora, me aborrece. A gente se esquece mais rápido do que consegue gostar. Que cesse. Que essa pulsão de agora consiga transparecer num texto dialético, que eu consiga passar esse paradoxo. Talvez haja um amor que se sente e é dele que se quererá dizer, mas dele será a última coisa que se irá dizer, porque nele há uma ilegalidade, um desperdício, uma sobra, um excedente desnecessário.
Vou tentar de novo: As coisas são como são e têm a medida exata do seu tamanho, então é preciso se pensar a partir disso, mas uma coisa que permanece é aquilo que a gente consegue fixar num significado. Tudo que entra no passado automaticamente se torna incerta hipótese daquilo que não é, ganha um tom de dúvida, inexatidão, como uma folha de papel que se dobra errado e não se pode consertar. Mesmo que não se faça nada com a folha, mesmo que vá se fazer tudo, há nela algo de incerto. Existem vozes que dizem e redizem, existem palavras que dizem por nós sem nós. E não existe nós, existe um eu e um você em palavras. Só. E é bom.
juro que acaba aqui, de verdade.

01 abril 2010

prisão

Tá aqui preso. A estratégia suspensa. O cabelo mal penteado e a barba mal feita. Tá tudo guardado, hibernando pra depois, sentimnento de futuro, sofrimento do passado, indecisão do presente, como se a divisão do tempo fosse espacial, como se cada indicativo de tempo demarcasse um lugar, uma situação e essas situações são exatamente o que nos fazem ter algum sentimento. Ou seja, é tudo confuso. Então a gente projeta essas coisas pro futuro, pra algum lugar no futuro, nada no tempo, o tempo se esvairá, pra se criar outra situação e outro tudo, desde o começo, mas enquanto isso vai o cabelo mal penteado e a barba mal feita.

29 março 2010

a rima entrega

e a gente vai sempre vivendo e sentindo até onde aguenta, até onde a vista alcança, e sem tem alguma coisa que a gente guarda e não diz, alguma coisa que ainda não fiz, riscada a giz é porque não teve ainda um fim. Fim sem começo.

22 março 2010

Pra quando chover

Essa é a nova música da banda petropolitana "tribo de gonzaga" em parceria comigo.

19 março 2010

tudo bem...

Começa com um incômodo, um desconforto. Depois lateja, chacoalha, chama toda atenção pra si. Primeiro é um encanto, depois uma cegueira. A primeira mão quem dá é quem esbofeteia. Cão que ladra, sei deixar, arranca pedaço. Não há nenhum tipo de conforto, só aparências. Quem blefa ganha o pote, a melhor mão, direita ou esquerda, é sempre arrancada uma ou outra. Seu bicho de estimação vai morrer, e vai morrer feio, sofrendo, mas é sorte se morrer por si, talvez você possa ter que escolher mata-lo. A menina que você gosta, camarada, só acha que gosta de você e se gosta é por enquanto, se prepara que está chegando o pior. Não levou guarda-chuva, se fudeu, quem mandou não ouvir sua mãe, saca aquela nuvem? Pois é. Apostou, né? Agora vai ter que aguentar tirar foto com a camisa do botafogo, quem manda ser otário. Quis dar uma de espertão, a mulher te largou, achou que estava dominando a situação, mas que nada, era ela. Seus pais não entendem nada do que você diz não é porque você é intelectual, é porque eles tão cansados e porque você é burro e não sabe falar nada direito. Dormiu demais, agora aguenta, tá ficando velho e a vida tá passando. Bebeu demais, tá de ressaca, bem feito, ninguém manda encher a porra dos córneos, otário. Isso, perde metade do dia vendo futebol mermo, vai adiantar de nada, teu time tem chance pequena de ser campeão e se for você não ganha nada, vai zoar alguns caras chatos e depois vai continuar aí, parado. Acha que é muito, que eu devo parar?
É porque no fundo, não faz diferença falar bem ou falar mal. Esse texto, no fundo, é de uma grande esperança, de que tudo seja realmente assim como disse. Se for, podemos fazer o que quisermos e, por fim, sermos livres. Fazer certo, tentarmos ser felizes e se realizar são coisas difíceis demais. Só lembrar que a liberdade está em aceitarmos perder de vez em quando e que até aí tudo bem...

filmes

às vezes eu esqueço dos filmes que vi e não, então fiz uma lista da maioria dos assistidos em 2009. Vou postar aqui só pra não perder, ignorem esse post.
Grato!

linha de passe
valsa com bashir
os delírios de consumo de becky bloom
o visitante
che
gran torino
hiroshima, meu amor
saneamento básico, o filme
katyn
ps I love you
click
marat-sade
território restrito
o céu de suely
um ato de liberdade
x-men origens: wolverine
tony manero
a garota ideal
entre os muros da escola
budapeste
sociedade do espetáculo
sinedoque, nova iorque
um estranho no ninho
os falsários
muito gelo e dois dedos d'água
era uma vez
forrest gump
oito e meio
nina
repulsa ao sexo
os indomáveis
cães de aluguel
I clown
poderoso chefão
sindicato dos ladrões
zelig
vertigo - um corpo q cai
butch cassidy and the sundance kid
os bons companheiros
mensageiro do diabo
querô
viridiana
scarface
veludo azul
sunset boulevard
trama internacional
anti-héroi americano
tinha que ser você
gata em teto de zinco quente
se beber, não case
se eu fosse você 2
veronika decide morrer
nome próprio
os normais 2
a onda
anticristo
os sete samurais
juízo final
amantes
boulevard do crime
a garota de mônaco
batman - o cavaleiro das trevas
reine sobre mim
touro indomável
outubro
a bela junie
o mágico de oz
em paris
o assassinato de trotsky
annie hall
a última tentação de cristo
o sequestro do metrô
um bonde chamado desejo
a mulher invisível
bastardos inglórios
robin hood - príncipe dos ladrões
rosa púrpura do cairo
diário proibido
rosencrantz e guildenstern estão mortos
a primeira noite de um homem

16 março 2010

o grito

O dia começou com um grito. Havia acabado de amanhecer, embora os primeiros passos ainda não tivessem sido dados e os galos hoje ainda não tivessem cantado, embora o céu ainda não fosse vermelho nem amarelado, mas entre azul e cinza, mesmo que já possuindo algumas luzes. As pessoas em seus quartos eram entre seis ou sete pessoas distribuídas em quatro quartos não emitiam sons, dormiam pesado, talvez sonhassem pesado, pois sonho, mesmo quando bom, nunca é leve. Algumas tinham ressaca da noite anterior e pouco se moviam, outras já mais inquietas e diurnas, estavam prestes a acordar, como se o mundo tivesse um dispositivo de lhes avisar e trazer-lhes junto para o sol.

A cozinha estava vazia sem gotas a cair pela torneira, e todas as baratas ao preverem o dia já haviam voltado para seus esconderijos. Na sala, na mesa e no chão, umas latas de cerveja da noite anterior, uns copos e cinzeiros sujos espalhados, no parapeito da janela, em cima da televisão, mais nada, a não ser uma mancha vermelha, talvez de vinho, no chão. Mancha que vem do latim e tem a mesma origem das palavras mácula e malha. Então era no chão a mancha vermelha, na parede uma imagem de santa: maria imaculada; e lá fora, no quintal a dormir estariam os animais: as galinhas, os porcos e as vacas. Todas malhadas.

E aí o grito veio. Rompeu as barreiras de espaço, as paredes, os corredores, ecoou no banheiro e mexeu com o dia. Até o sol, depois dele mandou pra cá um forte raio de calor e luz. Os galos começaram a cantar, os cavalos a relinchar e os porcos eufóricos acabaram por chamar a atenção dos cachorros que resolveram latir pra cima deles. Depois, então , bem depois, as pessoas começaram a sair dos quartos, umas ajeitando um roupão, outras sem conseguir abrir direito os olhos, saíam coçando-os mais que conseguindo olhar, outras iam batendo de porta em porta querendo saber o que havia acontecido, se todos estavam bem. Do último quarto, saiu uma moça loira mancando e vestindo um chinelo azul, todos a olharam, mas ela estava com a mesma cara de todos e perguntando o que havia acontecido. Assim, todos levantaram e foram para a sala: um casal de namorados, dois amigos, a moça, e um casal de adultos, donos da casa. Por alguns minutos falaram do que ouviram, no entanto, com o tempo começaram a duvidar daquele grito que acordara a casa, o dia, os animais, todos, mas não existia, não havia ninguém que pudesse ou fizesse o grito ter saído, não havia sequer um eco, um resquício e agora até as testemunhas já estavam a vacilar, a duvidar de que tivessem realmente ouvido aquele som.

Então, aos poucos, quase como se não tivesse vindo, o grito se foi. Silencioso e plácido, acalentador e pacífico, se retirou da vida das pessoas que agora juntas tomavam o café da manhã, enquanto viam juntas o sol nascer e o dia clarear. Depois arrumaram as coisas da noite anterior e segundo a segundo foram retomando a vida novamente, seus hábitos, suas práticas, mas agora era diferente, havia tido um grito que se não veio do céu, ninguém mais pode dizer de onde veio. E a mancha ficou.