27 setembro 2012
26 setembro 2012
a poesia
quando o verso acabou
a poesia,
logo ela,
virou con-versa.
a poesia,
logo ela,
virou con-versa.
25 setembro 2012
aqui
tanta gente precisando viajar
pra ser feliz e pra sorrir.
a fronteira, o outro lado
outro país, outra cultura
e qualquer outro sonho:
tudo isso é desimportante
e sem sentido pra mim.
sorte minha
que minha felicidade
é aqui.
pra ser feliz e pra sorrir.
a fronteira, o outro lado
outro país, outra cultura
e qualquer outro sonho:
tudo isso é desimportante
e sem sentido pra mim.
sorte minha
que minha felicidade
é aqui.
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20 setembro 2012
Coisas que me incomodam
De vez em quando
resolvo fazer esses posts que considero 1 – uma tentativa de
descobrir coisas que pra mim parecem apenas intuições; 2- tentar
atravessar uma barreira do óbvio nas opiniões e apresentar uma
forma de ver o mundo que seja similar a dos outros, mas que
ultrapasse aquilo que parece ser estabelecido.
Algo que já disse é
da infantilização das pessoas e de como, cada vez mais, elas estão
incapazes de aguentar e superar frustrações. A famosa ideia do carpe
diem obrigou todos a se esforçarem violentamente pra serem felizes o
tempo todo e assim fica impossível, ninguém aguenta mais nada e
haja música de fossa, haja novos parceiros amorosos pra aguentar
isso e haja velhos parceiros antigos sempre voltando pra tentar
reescrever histórias que já deviam ter terminado. A literatura se
tornou simplesmente um parceiro que dá conselho amoroso, a vida
profissional se tornou um meio de realização social e nunca
pessoal, a boa forma física vem cobrir buracos na personalidade,
estudar se tornou secundário ao menos que ela se torne também forma
de sedução.
Essa infantilização
é muito clara na micareta. Pessoas transformaram a sexualidade que é
algo sagrado em um mero jogo quase homoafetivo de relação da troca
de salivas em série. O que é pra ser um objeto de que nos
apoderamos pra nosso próprio prazer se torna um aprisionamento
olímpico da realização sexual perfeita, da piroca mais eficaz do
bairro em que, se possível, deveria haver um prêmio por um sexo tão
bem feito.
E aí todo mundo é
depressivo, todo dia serve pra reclamar. E o tempo? O tempo é sempre
o maior inimigo que não dá pra fazer nada e o clima parece ser um
vilão. As pessoas passam a se surpreender com o óbvio tal é a
falta de capacidade de encarar a realidade como algo repetitivo e,
justamente por isso, um arcabouço daquilo que temos que empreender
engajadamente nossos desejos.
Mas minha maior
reclamação de todas é sobre o paladar infantil. NADA pior que a
moda dos Cupcakes. Nada mais Xuxa Meneghel que cupkcake. Cupcake é
uma mistura de tivoli park com beto carreiro world com confete e
brigadeiro de aniversário. É a completa realização do nada pra
dentro de si mesmo. É o elefante que enfia a tromba no próprio cu e assopra.
Enquanto antes as pessoas comiam chocolate quando sofriam por amor, o amor
foi diluído em doses semanais de cupcake, uma espécie de barbie
bailarina bezuntada no rio do Willie Wonka.
Enquanto não
tomarmos consciência de porquê fazemos as coisas, vamos ficar por
aí, fazendo qualquer coisa.
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18 setembro 2012
a menina
não sei de que fórmula química as coisas se fazem,
nem ao mesmo sei o que se faz e o que é feito.
não entendo a criação.
não entendo o coração.
não entendo a menina que chora,
a menina que sofre,
a menina que pede desculpas.
não entendo
a menina que resolve,
todas as vezes que ama,
bater com a cabeça na parede
por escolher dentre as opções a pior.
todos vencem,
menos a menina.
e ela acha que é estilo.
nem ao mesmo sei o que se faz e o que é feito.
não entendo a criação.
não entendo o coração.
não entendo a menina que chora,
a menina que sofre,
a menina que pede desculpas.
não entendo
a menina que resolve,
todas as vezes que ama,
bater com a cabeça na parede
por escolher dentre as opções a pior.
todos vencem,
menos a menina.
e ela acha que é estilo.
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12 setembro 2012
o cheiro
poderia ter um cheiro no seu rosto, na sua pele,
ou por trás do fio dos seus cabelos que fosse seu,
que ultrapassasse a barreiras dos cosméticos
e morasse na minha roupa
depois que você dorme no meu ombro.
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11 setembro 2012
shuffle
Shuffle não é um sistema, não é uma ideia, mas uma lógica. Uma lógica que vê o mundo através daquilo que é convulso, desencaixado, desorganizado, epilético. Shuffle não é contra a ordem, é conta a mistificação da ordem. Shuffle não é contra o padrão, ele desacerta o padrão para que ele reinstaure algo de revolucionário.
Shuffle não se interessa pelo novo, mas pela novidade do velho, pela nova composição daquilo que já existe. O novo para o Shuffle é da ordem do consumo. O velho é seu ponto de partida, seu universo de criação e nele é capaz de criar um mundo com tudo que já existe. Shuffle é também reciclagem, é atentar para os restos, para os escombros. Shuffle já existia antes e vai voltar no fim da lista.
10 setembro 2012
porta-bandeira
Não é fevereiro, mas a porta-bandeira veste sua fantasia,
seu uniforme e se arruma da melhor maneira possível pra encantar os olhos dos
outros. Carrega-se com cuidado e esmero da mais humilde simpatia e simplória
humildade para nos olhos deles ser a fonte da futura felicidade.
Mal sabe a porta-bandeira que sua data passou, sua vida
passou, sua alegria e todo aquele samba que encantava a si primeiro e depois os
outros passou como uma torrente que primeiro trouxe a tempestade e depois a
bonança que não se quis e não se esperava.
A pobre moça, feia, pobre, preta, pele ruim corpo grande
demais pra ter gestos gentis, belos e ordenados, com uma completa abundância de
vida que transborda e transcende a lógica racional de qualquer um que a olhe,
ela, isso tudo, agora está na esquina, vestida com uma roupa tamanho padrão,
também feia, mas muito colorida, está com um adesivo no peito mal colado, um
olhar cabisbaixo e doído de humilhação, do papel ridiculamente necessário pra
sua sobrevivência.
Ela agora segura a bandeira de um candidato a prefeito: um
homem sorridente, branco, pele boa, gesto europeu, irritantemente feliz. Ela odeia
aquele sujeito, mas o ama. Ela segura
sua bandeira com um olhar pra lá, pro outro mundo, como se estivesse morta
naquele instante.
Ela e candidato formam uma simbiose do que impossível. Uma mistura
daquilo que há de mais violento na humanidade, naquilo que reatualiza a
escravidão, a servidão e tudo aquilo que a gente tenta vencer e se vê quase
sempre repetindo. O candidato se acha bom pra ela, se acha capaz. Ela sabe que
ele é um idiota, mas ela também sabe que o mundo é governado por idiotas e
aceita isso com complacência e um sorridente olhar triste de porta-bandeira.
A porta-bandeira continua sendo porta-bandeira. Mas seu
carnaval nunca mais vai voltar.
09 setembro 2012
o feriado
Uma vez você me pediu que escrevesse pra você. Eu disse que não tinha muitas coisas ainda pra dizer e quando tivesse faria com todo carinho. Agora, depois de tanta coisa, digo que não sei nem por onde começar. Talvez pela sua cara ao ver o balde do kfc com a cartinha, ou então da gente tomando um chopp e rindo de coisas idiotas como seu amor mal resolvido com calabresas, ou então da tarde completamente disperdiçada entre carinhos, cafunés e sonecas, ou os passeios por livrarias, restaurante e parques e praças em que casais não podem ficar no colo um do outro (mas a gente ficou), ou até então a gente bêbado conversando com o taxista gordo parecido com o cara do exaltasamba.
Não sei, sinceramente não sei o que dizer ou por onde começar. Talvez seja uma imagem que queira guardar de você: seu sorriso vendo friends, primeiro quando eu tava no banho e ouvia as gargalhadas e depois você no meu ombro rindo de novo de tudo que já havia rido.
Acho que eu havia dito pra você que "deixa ser como será". Depois de um feriado desse, flor, tenho que dizer, mudando um pouco: "deixa ser, um pouco, porque ser será e acho que é."
um beijo pra tu, manolo
Não sei, sinceramente não sei o que dizer ou por onde começar. Talvez seja uma imagem que queira guardar de você: seu sorriso vendo friends, primeiro quando eu tava no banho e ouvia as gargalhadas e depois você no meu ombro rindo de novo de tudo que já havia rido.
Acho que eu havia dito pra você que "deixa ser como será". Depois de um feriado desse, flor, tenho que dizer, mudando um pouco: "deixa ser, um pouco, porque ser será e acho que é."
um beijo pra tu, manolo
05 setembro 2012
as mãos
Desde a primeira vez que minha mão me masturbou
pedi-a em casamento.
ofereci-a a outra, a esquerda,
que, tímida, logo se encantou com os charmes da primeira.
e aos poucos as duas começaram uma espécie de dança:
se na rua, envergonhadas, andavam longe, desencontradas,
bastava um tédio, um espera, uma missa, uma tristeza,
pras duas convulsivamente se encontrarem e se entrelaçarem
num baile erótico que as conduzia as mais belas carícias.
eu, testemunha, do furtivo amor
acompanhava essa dança
como quem acompanha a si próprio
e dançava com elas
como se fossem minhas.
aos poucos,
com a chegada da aliança -
que só a esquerda usou -
fez-se uma tristeza,
deu-se um abandono:
a direita, livre e limpa
mantinha-se perfeita,
e dependente do contato
dos apertos de outras mãos.
já a esquerda,
amarrada ao anel,
sofria.
então as duas se separaram,
soferam.
e agora sem aliança
continuam ocasionalmente os bailes,
as danças e os encontros furtivos.
Agora mais velhas,
já não tem o mesmo talento
e desenvoltura de outros tempos.
Ainda sozinhas,
sofrem
e pra sempre sofrerão.
mas vez ou outra ainda me masturbam,
alternadamente,
com saudade de outros tempos.
pedi-a em casamento.
ofereci-a a outra, a esquerda,
que, tímida, logo se encantou com os charmes da primeira.
e aos poucos as duas começaram uma espécie de dança:
se na rua, envergonhadas, andavam longe, desencontradas,
bastava um tédio, um espera, uma missa, uma tristeza,
pras duas convulsivamente se encontrarem e se entrelaçarem
num baile erótico que as conduzia as mais belas carícias.
eu, testemunha, do furtivo amor
acompanhava essa dança
como quem acompanha a si próprio
e dançava com elas
como se fossem minhas.
aos poucos,
com a chegada da aliança -
que só a esquerda usou -
fez-se uma tristeza,
deu-se um abandono:
a direita, livre e limpa
mantinha-se perfeita,
e dependente do contato
dos apertos de outras mãos.
já a esquerda,
amarrada ao anel,
sofria.
então as duas se separaram,
soferam.
e agora sem aliança
continuam ocasionalmente os bailes,
as danças e os encontros furtivos.
Agora mais velhas,
já não tem o mesmo talento
e desenvoltura de outros tempos.
Ainda sozinhas,
sofrem
e pra sempre sofrerão.
mas vez ou outra ainda me masturbam,
alternadamente,
com saudade de outros tempos.
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04 setembro 2012
Entrevista Shuffle
Entrevista na íntegra de Letícia Knibel comigo que resultou na matéria da Revista On.
![]() |
| foto divulgação |
Em que você se inspirou para escrever
o conto Shuffle? E como surgia a ideia da peça?
Junto disso, achei interessante pensar sobre um Ipod Shuffle: um aparelho eletrônico e, por isso, semi-artificial, que tem como função escolher aleatoriamanente a ordem das músicas que o sujeito vai ouvir. Maior simbiose entre homem e máquina impossível.
Escrevi o conto e mostrei pro Leandro
Romano, membro do grupo e um dos diretores da peça que pensou na
transposição da lógica shuffle para o teatro.
Qual o diferencial dessa peça e o que o público pode esperar da mesma?
Não sei se falaria em diferencial
porque praticamente tudo já foi feito em termos de arte. Mas o
bacana da peça é que o ator em cena atua de acordo com as música
que o Ipod Shuffle tocar. Ele opera o Ipod que escolhe músicas e
cada música representa uma cena. Assim, a peça se constrói e se
desconstrói a cada dia, uma vez que ela não possui uma ordem
definida previamente. Deixar a cargo do Ipod essa escolha submete o
ator e a plateia à uma ordem superior de comando, ao mesmo tempo que
passa uma ideia de impotência frente ao poder desse pequeno
aparelho.
De que maneira a peça pretende abordar a problemática do distanciamento causado pela 'excessiva' virtualização, onde o real se afasta cada vez mais ou é substituído pelos novos meios de comunicação?
Nesse caso respondo apenas por mim e
não pelo grupo. Acho que cada um deve ter uma visão diferente do
caso.
A verdade é que nessa pergunta fica no
ar um aspecto de demonização da tecnologia em prol de um “real”
e “verdadeiro”. Em Shuffle, o que se pretende não é criticar
nem elogiar a tecnologia, mas mostrar como ela é um meio que está
simbioticamente ligado ao homem. Não sei até que ponto a
virtualização é excessiva e também não sei se, caso seja, isso é
ruim. A forma como construímos nossa subjetividade é completamente
ligada à tecnologia, negar isso é ingenuidade e tentar se afastar
para um contato mais pretensamente verdadeiro também é uma fuga que
leva, novamente, a um caminho de virtualização de uma imagem que
fazemos do natural.
Shuffle mostra como um Ipod pode
manipular um homem que manipula um Ipod. Não se sabe quem manipula
quem e no fundo os dois são submetidos um ao outro, como se em algum
momento não houvesse qualquer diferença entre eles. Se isso é bom
ou ruim, não sei.
Até que ponto as tecnologias podem
influenciar ou modificar o comportamento das pessoas?
A tecnologia deve obrigatoriamente
influenciar e modificar a vida das pessoas. Tudo que existe modifica
e influência nossa subjetividade. De novo: se isso é bom ou ruim,
não sei. Cabe a pergunta.
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02 setembro 2012
em demasia
Em demasia. Essa expressão não saía da minha cabeça enquanto eu tentava ultrapassar o limite lógico entre ser interessante e ser o interesse de todos. Nunca me preocupei com o que pensam, mas sempre pensei sobre as preocupações, talvez não por uma vontade interior de expor alguma coisa minha, mas somente por uma necessidade básica de me comunicar, nem que fosse através dos problemas e preocupações em comum das pessoas.
Acontece que ser interessante era um afrodisíaco e isso me motivava a ir além de mim próprio. Não fazendo propaganda enganosa com estilos, olhares, citações, mas como motor de meu aperfeiçoamento num mundo em que a maioria parece preferir ser idiota. Ser interessante foi meu meio de sobrevivência durante muito tempo e hoje ainda o é, embora eu ache que já não o seja de maneira eloquente. Uma vida em excesso se desgasta sob os olhos dos outros e só volta a ter valor na distância.
Até que eu percebo que deixei de ser interessante e passei a ser o interesse dos outros. Que a demanda que eles tem sobre mim criou uma certa dependência, um vício e que não posso mais deixar de corresponder à essas mini expectativas. E aí a pessoa feliz e completa acha que eu posso ser um cadinho mais e a pessoa triste acha que devo ser seu pilar. E a família acha que devo ser fonte de entretenimento e os amigos fonte de energia sem fim para cervejas, piadas e sorrisos. Deixei de ser interessante e virei interesse.
Deixei de ter valor pra virar moeda de troca. Quando percebi isso com tanta força como agora me veio a expressão. Em demasia. E em demasia sigo, tentando completar os outros e me esconder.
Acontece que ser interessante era um afrodisíaco e isso me motivava a ir além de mim próprio. Não fazendo propaganda enganosa com estilos, olhares, citações, mas como motor de meu aperfeiçoamento num mundo em que a maioria parece preferir ser idiota. Ser interessante foi meu meio de sobrevivência durante muito tempo e hoje ainda o é, embora eu ache que já não o seja de maneira eloquente. Uma vida em excesso se desgasta sob os olhos dos outros e só volta a ter valor na distância.
Até que eu percebo que deixei de ser interessante e passei a ser o interesse dos outros. Que a demanda que eles tem sobre mim criou uma certa dependência, um vício e que não posso mais deixar de corresponder à essas mini expectativas. E aí a pessoa feliz e completa acha que eu posso ser um cadinho mais e a pessoa triste acha que devo ser seu pilar. E a família acha que devo ser fonte de entretenimento e os amigos fonte de energia sem fim para cervejas, piadas e sorrisos. Deixei de ser interessante e virei interesse.
Deixei de ter valor pra virar moeda de troca. Quando percebi isso com tanta força como agora me veio a expressão. Em demasia. E em demasia sigo, tentando completar os outros e me esconder.
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29 agosto 2012
pesadelo
Eu tive um pesadelo essa noite. Estou em um churrasco ou evento de família quando chega minha mãe e começa a fazer um relato. É minha mãe, mas era também outras mães, as mães de amigos que eu conheci e algumas mulheres mais velhas. Ela começa:
Aconteceu algo que eu preciso contar. Como todos vocês sabem eu e meu marido vamos fazer 50 anos de casados, então fui até à igreja em que casamos nesse tempo longo com a intenção de marcar essa celebração com o mesmo padre, que é conhecido de todos nós. Ele conhece meu filho, viu meu filho nascer, deu primeiro comunhão ao meu filho. É um homem faz parte da minha história também.
Chego na igreja e chamo por ele. Ele está nos fundos, colocando algumas meias no varal, coisas pequenas. Ele me olha, me ignora e volta a olhar as meias. Eu me aproximo, chamo por ele, coloco a mão no seu ombro e ele vira com um tapa no meu rosto. Eu caio, já não sou tão nova quanto parece e, apesar dele ser ainda mais velho que eu ainda tem mais força. Eu levanto e, sem saber o que fazer, pergunto porque ele fez isso. Ele me bate novamente, agora com um soco na cara. Grita: “Vocês mulheres o tempo inteiro, vocês mulheres resolvendo os problemas dos homens. Vocês insistindo em amar e querendo salvar a vida de todos. Você acha que você vai salvar seu casamento e seu homem fazendo isso? Você acha que depois de tanto tempo com aquelas pequenas brigas tudo vai ser diferente só porque uma igrejinha e um padre te abençoou? Eu tento argumentar que são 50 anos e que gostaria de agradecer a Deus e a todos por isso. Lembro de meu filho que se diz ateu. O padre, nesse momento, parece bastante religioso e o ateísmo do meu filho sempre parece mais gentil. Então resolvo fugir dali, mas ele me espanca mesmo. Fico completamente ensanguentada no rosto, inchada, doída.
Isso serve para todas as mulheres.
Aí ela acaba o discurso e eu me guardo de uma raiva que não lembro de ter sentido. Quero acabar com esse homem, mas penso que esse é o momento político mais importante da minha vida. Penso no amor dos meus pais e na violência de tudo que não é esse amor, penso em toda violência que já fizeram comigo e que continuam fazendo, principalmente aqueles que gostam de mim. Penso nisso e reúno mulheres pra contar essa história. Meu sonho continua, mas o que eu queria dizer dele, acaba.
Aconteceu algo que eu preciso contar. Como todos vocês sabem eu e meu marido vamos fazer 50 anos de casados, então fui até à igreja em que casamos nesse tempo longo com a intenção de marcar essa celebração com o mesmo padre, que é conhecido de todos nós. Ele conhece meu filho, viu meu filho nascer, deu primeiro comunhão ao meu filho. É um homem faz parte da minha história também.
Chego na igreja e chamo por ele. Ele está nos fundos, colocando algumas meias no varal, coisas pequenas. Ele me olha, me ignora e volta a olhar as meias. Eu me aproximo, chamo por ele, coloco a mão no seu ombro e ele vira com um tapa no meu rosto. Eu caio, já não sou tão nova quanto parece e, apesar dele ser ainda mais velho que eu ainda tem mais força. Eu levanto e, sem saber o que fazer, pergunto porque ele fez isso. Ele me bate novamente, agora com um soco na cara. Grita: “Vocês mulheres o tempo inteiro, vocês mulheres resolvendo os problemas dos homens. Vocês insistindo em amar e querendo salvar a vida de todos. Você acha que você vai salvar seu casamento e seu homem fazendo isso? Você acha que depois de tanto tempo com aquelas pequenas brigas tudo vai ser diferente só porque uma igrejinha e um padre te abençoou? Eu tento argumentar que são 50 anos e que gostaria de agradecer a Deus e a todos por isso. Lembro de meu filho que se diz ateu. O padre, nesse momento, parece bastante religioso e o ateísmo do meu filho sempre parece mais gentil. Então resolvo fugir dali, mas ele me espanca mesmo. Fico completamente ensanguentada no rosto, inchada, doída.
Isso serve para todas as mulheres.
Aí ela acaba o discurso e eu me guardo de uma raiva que não lembro de ter sentido. Quero acabar com esse homem, mas penso que esse é o momento político mais importante da minha vida. Penso no amor dos meus pais e na violência de tudo que não é esse amor, penso em toda violência que já fizeram comigo e que continuam fazendo, principalmente aqueles que gostam de mim. Penso nisso e reúno mulheres pra contar essa história. Meu sonho continua, mas o que eu queria dizer dele, acaba.
22 agosto 2012
Shuffle
Para o público do meu blog (se é que alguém lê isso aqui), divulgo o vídeo de minha nova peça, Shuffle.
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20 agosto 2012
667
Não tira da cabeça
a lembrança dos olhos dela, mas até quando? Não repara, e acha até
que já falou com ela na profundidade desse olhar. Não acha que olhares devem ser fundos e te buscarem pra dentro, prefere que o olhar seja exatamente como o dela: profundo, mas que
pulsa pro lado de fora, cheio de vida, graça e encanto. Aos poucos,
no entanto, a lembrança do olhar vai se esvaindo e ficando apenas
aquilo que lembra de ter visto e na semi-vontade de reve-lo mesmo que
agora já sem tantos motivos.
Não tem interesse
por encontros furtivos ou desencontros espetaculares porque baseou
toda sua vida na ideia da preguiça, da sinceridade, da paz e da
cumplicidade. O jogo do time num domingo a tarde é um dos anseios
mais altos, assim como as tardes dedilhando músicas repetidas, ou
lendo livros, brincando com o gato ou simplesmente vendo a vida
passar. As coisas que escreve nunca as faz pra conquistar ou comover
ninguém: usar um talento pra qualquer tipo de conquista é um ato
covarde de vandalismo com a possibilidade de sentimento do outro. A
arte deve ser a manifestação mais profunda (e cheia de vida, de
graça e encanto como o olhar dela, mas acho que isso já ficou
claro) de uma retidão de caráter, de uma gentileza para si e para o
outro e uma forma de reencantar mundo.
O mundo que parece
tão frágil e seco deve ser reencantado por aqueles que tenham
talento e possibilidade para tal. Quando vê alguém que usa da arte
para seduzir, como em uma banda, numa canção ou arte, uma
pose ou poesia percebe na hora a violência do gesto. Entristece e
quase desiste de escrever novamente. Não o faz.
Acontece que aos
poucos a lembrança do olhar dela vai de desfazendo como uma chuva de
verão, um pombo atropelado no asfalto quente, uma foto que amarela
na estante. Não lamenta. A vida é assim, a vida é doce e está
tudo bem. Seu time melhora, sua cerveja continua quietinha, a
preguiça lhe faz companhia e os livros ainda lhe fazem viajar.
Quando a vida expõe suas pequenas tragédias, dá um sorriso e
entende que é assim que tem que ser. O gosto de experimentar as
nuances da vida é sempre bom. Ele não pode fazer nada em relação
à nada e, no fundo, ele sabe...nem ela.
pequeno brasil
Estavam a direita e
a esquerda conversando em um bar. Ambos reconheciam que tais termos
eram por demais exagerados para os dias de hoje, mas evitavam falar
disso para não cair em conceitualismos abstratos. Comentavam juntos
sobre a participação do Brasil no encerramento das Olimpíadas, mas
o assunto podia ser qualquer outro.
- Não é possível,
cara! Não é possível que o Brasil se veja com olhos que são tão
estrangeiros a si próprios. Que ele não consiga fazer uma tradução
daquilo que lhe é mais importante, tanto economicamente, tanto
politicamente. O Brasil precisa parar de se ver como um estado que
concentra o pensamento de si baseado naquilo que o outro viu, vê e
verá. Ele não pode se pensar pelo olho do outro.
- E mais do que isso!
O Brasil não pode eternamente repetir a carta de Pero Vaz de Caminha
em que a terra é boa e “onde tudo que planta dá” e o povo é
dócil e as matas são infinitas e os rios mais limpos e mais
coloridos e o céu é mais azul. Não dá pra gente ser o paraíso
que os outros dizem que somos porque o paraíso é um lugar estático,
que não pode se transformar, ele precisa ser eternamente estável
para que seja paraíso. O paraíso que muda é o paraíso caído. E
essa ideia de que o Brasil não pode mudar é exatamente a ideia de
alguém que quer explorar o Brasil, mudando-o pra ser sempre o mesmo.
- Sempre o mesmo, mas
nunca o mesmo. O dinheiro entra, o Brasil cresce, se desenvolve, se
educa, se industrializa, mas o que se vê ainda é bunda,
teta...quando se quer amenizar, se mostra bunda e teta em mulheres
vestidas de índio e homens descamisados como se estivessem indo para
a caça, mas a imagem a sempre é a mesma: pornografia disfarçada em
alegria e gentileza. O Brasil não fica vendo bunda, fica vendendo
bunda.
- Por fim, colocam a
Marisa Monte. O ícone cool da zona sul carioca pra cantar
Vila-Lobos, vestida de Iemanjá pra tentar dizer que tudo aquilo faz
parte de nossa cultura, de nossa africanização simbiótica com o
aportuguesamento. Nada disso é verdade. A Marisa Monte é branca e
representa só a elite branca, assim como Vila-Lobos, e a imagem de
Iemanjá, absolutamente esterilizada, serve apenas de contexto, de
pano de fundo pra expor um exotismo que quer ser vendido.
- A Marisa Monte ali
representou tudo que poderia haver de pior.
- E no Brasil, quem
deveria tocar? Michel Teló.
- Talvez seja melhor
do que repetir eternamente “Ela é carioca...ela é carioca...”
- Talvez.
- O Brasil é uma
armadilha. É impossível pensar nele sem automaticamente cair em uma
de suas armadilhas. O que há de melhor é instável e o que é
estável nos parece tão europeu.
- A antropofogia é
uma saída?
- Não sei. Acho que
precisamos supera-la.
Aí, como em todo
bar o assunto se desvia para alguma coisa mais banal. E o Brasil
ainda continua tentando e não conseguindo ser pensado de maneira
apropriada. Mas algo avança...é o que parece.
19 agosto 2012
boa solidão
Ontem tive um dos melhores dias de solidão.
Fui dirigindo pela Lagoa, olhando aquela bela vista, seguindo os carros, no rádio canções aleatórias da mpb. Todas aquelas pessoas passeando e os barcos navegando e as luzes da cidade circulando naquele lugar tão belo.
Depois, no caminho de subida da serra, também ouvindo música, fui olhando os prédios, as casas, os letreiros dos motéis e as luzes do polopetroquímico, aeroporto e postos de gasolina. A vida fazendo sentido, pouquinho, mas fazendo.
Mais tarde, em Petrópolis, sentar num bar, pedir uma coca-cola e um pastel e olhar atentamente a cada pessoa fazendo de tudo pra se divertir com seus copos de cervejas. Olhar o mundo com uma distância complascente e consciente. E olha, como era belo.
Depois encontrar uns poucos amigos e tomar umas duas ou três cervejas, pensando na gente, na nossa amizade, na nossa cultura, nosso país.
Por fim, ouvir levemente o som de uma banda que me inspira uns sentimentos muito bonitos que costumo guardar. Quantas belas canções, quantos bons amigos e quanto carinho por aí.
Vou pra casa a pé, sozinho, vendo uma semi-neblina às 3 da manhã e estou feliz. Completamente feliz.
Como pode? Ás vezes, de vez em quando, pode sim.
Fui dirigindo pela Lagoa, olhando aquela bela vista, seguindo os carros, no rádio canções aleatórias da mpb. Todas aquelas pessoas passeando e os barcos navegando e as luzes da cidade circulando naquele lugar tão belo.
Depois, no caminho de subida da serra, também ouvindo música, fui olhando os prédios, as casas, os letreiros dos motéis e as luzes do polopetroquímico, aeroporto e postos de gasolina. A vida fazendo sentido, pouquinho, mas fazendo.
Mais tarde, em Petrópolis, sentar num bar, pedir uma coca-cola e um pastel e olhar atentamente a cada pessoa fazendo de tudo pra se divertir com seus copos de cervejas. Olhar o mundo com uma distância complascente e consciente. E olha, como era belo.
Depois encontrar uns poucos amigos e tomar umas duas ou três cervejas, pensando na gente, na nossa amizade, na nossa cultura, nosso país.
Por fim, ouvir levemente o som de uma banda que me inspira uns sentimentos muito bonitos que costumo guardar. Quantas belas canções, quantos bons amigos e quanto carinho por aí.
Vou pra casa a pé, sozinho, vendo uma semi-neblina às 3 da manhã e estou feliz. Completamente feliz.
Como pode? Ás vezes, de vez em quando, pode sim.
17 agosto 2012
questão de ordem
não existe nenhuma dilema
tampouco qualquer ética
se por aí está a desordem
aqui está minha calma.
falo, mas como na política:
como questão de ordem.
tampouco qualquer ética
se por aí está a desordem
aqui está minha calma.
falo, mas como na política:
como questão de ordem.
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14 agosto 2012
ronrona
o som da minha cama é quieto
quase mudo
ronrona
o som dos nossos pedidos
e dos nossos sonhos perdidos.
quase mudo
ronrona
o som dos nossos pedidos
e dos nossos sonhos perdidos.
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