22 janeiro 2008

heath ledger


E quando ele morre tanta gente morre com ele, tanta gente deixa de existir, é um genocídio sua morte, uma coisa meio estranha pra mim não acostumado a ver a morte de alguém que só conheci sendo o outro. E em quantos outros dele estaria ele, ou por quantas vezes teria eu o prazer de ver seus outros sem vê-lo, eis os mistérios das artes da vida e da gente: sempre alguma coisa fica irrealizada e tudo que já (se) foi se torna mágico, etéreo e sempre nos escapa ficando na gente pra sempre, mesmo escapado.

Platão

para Platão era "ver além"

15 janeiro 2008

fato

E quando me acabam as palavras e os argumentos o que me resta? Apenas um infinito silêncio e uma paciência que caso acabe me levará junto com ela para o fim de mim.

14 janeiro 2008

pois

Como se fosse possível pelo menos uma vez na vida dizer aquilo que não se pensou mais ousou sentir sem mesmo conseguir entender sem palavras, o menino tentou poder dizer para elas o que queria. Não disse, ou ao tentar dizer, sabia que não estava conseguindo e mesmo não olhando pra elas, sabia, e percebeu que sempre saberia, que a qualquer momento que tivesse palavras assim gentis e sinceras pra elas, elas agradeceriam e sorririam, uma vez que elas tinham a certeza de que poucas vezes na vida tal tipo de encontro aconteceria. E ele, acanhado por estar dizendo assim, tão rápido e tão verdadeiro, resolveu por pensar que nelas estava muito do que ele queria, não para si, mas para a vida dele, que na presença delas poderia se concretizar. E nesse vai e vem de pensamentos e nervosismos, ele percebeu que pouco precisaria dizer, ou mais nada, porque se elas gostassem não precisariam nem ler tudo, que na primeira linha estaria dito, não por mim nas palavras, mas no sorriso delas que infelizmente não chegarei a ver.

12 janeiro 2008

classificar

E toda vez que ouço – não te classifico – tomo isso como boa coisa, como aquele que sabe que o essencial é aquilo que não aparece ou aquilo que vaza e que no fundo sentimento é isso mesmo, mas depois acabo por perceber que não. – não te classifico – é só a forma de ser um asterisco, um aparte, um post scriptum, um epitáfio e minha inclassificabilidade acaba por ser aquilo que me classifica, a regra do que eu sempre fui e que hoje com toda força me reafirma, tanto que me faz já nem ousar reclamar outra coisa pra mim.

07 janeiro 2008

suspira. Depois

De pileque, trôpego pelas escadas numa dissimulação imperfeita ajudada pela escuridão da noite, ele chega em casa. Troca algumas palavras com quem ainda não dorme, ou com quem nunca dorme, ou com quem sempre espera. Tira o tênis sujo, para as meias precisa de apoio da estante e em segundos tira a calça e a blusa e fica de cueca, escolhendo qualquer bermuda e qualquer camisa, principalmente aquelas que não escolheria para vesti-lo naquela noite de sono. Senta-se a cama, olha para frente, num ponto da janela com alguns adesivos e respira. Depois suspira. Depois de um silêncio, volta a respirar com a força de um suspiro. Tenta pensar e não pensa, apenas aguarda que todos se deitem, o que demora apenas alguns minutos. Levanta-se, dirige-se ao banheiro e se percebe no espelho com a pupila dilatada a escovar os dentes sem respiração e com sono. Volta-se ao quarto, se senta na cama e olha novamente o adesivo e respira. Depois suspira. Depois de um silêncio, volta a respirar com a força de um suspiro. Deita-se, mas ainda muito demoraria a dormir.

28 dezembro 2007

ano novo

Quando virar a meia noite do novo ano, quando virar 2008, quando virar o tempo fatiado, quando virar, se virar lento ou virar bêbado, ou virar triste, ou virar azul, não importa, quando virar que eu vire estrela, vire amigo, vire troféu ou vire mendigo, não vire gay nem vire as costas pra não..., vire mais padre, mais santo, menos pouco, mais muito, menos isso ou aquilo outro e mais esse, virar mais calmo e mais na paz, virar um pouco papa, já que de branco, na verdade virar religioso, chegar em 2008 sentindo coisas espirituais quaisquer daquelas que não se sabe definir, quero sentir algum infinito na virada, sentir um sublime, com todos os sublimes que me fazem entender. Virar o ano mais puro, acordar e tomar leite, preciso tomar mais leite, eu gosto. Virar o ano entendendo menos das coisas, e refletindo cada vez mais sobre o menos delas e ir cada vez mais fundo naquilo que eu sei que me mata, mas que nunca me deixa ficar longe de mim e comigo, virar o ano e se possível lembrar dela, e depois dela, e depois outra ela, e sorrir, se assim puder e der, lembrar que lembrei, lembrar que estou lembrando e ainda não esqueci, lembrar e pensar e querer estar. Passar a virada fazendo muito e esperando o ano novo que vem, virando, virado, mas vem, e que comece leve, e só pese mais pro final.

22 dezembro 2007

Eram azuis.

Aquilo tudo acontecera algum tempo atrás, mas ela já vivia hoje. Acontecera ou começará a acontecer, não está bem certo se aquilo ainda acontece ou se fora somente uma bandeira uma vez hasteada que deixou rastros por todos os cantos onde e por onde o vento perdeu velocidade, sem nunca perder intensidade. Estava úmida e estava pesada. Sentia um peso enorme das cortinas ao lado em seu peito. Eram azuis. Não estava deitada nem sentada, recostava-se de um jeito displicente que causava algum desconforto. Vez por outra parecia emitir um gemido, que no quarto vazio da cortina azul pesada se propagava e se perdia em meio aos móveis e ao edredom. Ali sabia o que esperava ela sem saber o que chegaria pela porta, mas sabia o que esperava. Esse saber vinha muito mais de uma força e de uma confiança no acaso do que de qualquer certeza que tinha. Se ali deitasse dormiria como ninguém, então se abaixou, e vazia, como ninguém, dormiu.

21 dezembro 2007

ônibus

Todas vezes poucas que tive senti um risco físico real ou que eu aparentava ser real jamais senti tristeza, ou medo, ou alguma coisa que me afastasse da vontade de morrer na verdade desde sempre gostei disso que sentia e já percebi algumas vezes que foi isso que salvou alguns dos meus dias do marasmo e do mais do mesmo ontem no ônibus não sei porquê raios ou porquê motivo ou por quê eu senti de repente uma imensa força em mim dizendo vai acabar e eu olhei pra janela e vi as luzes das casas pobres e sorri sentindo uma felicidade imensa de poder ter compartilhado de todas essas coisas naquele momento daí olhei as outras pessoas no ônibus nenhuma delas compartilhava daquilo comigo e finalmente percebi que aquele ônibus não ia bater e nada iria acontecer mas ontem percebi que o dia da minha morte não vai nem um pouco doer.

10 dezembro 2007

talvez pela ficção

Essa história fictícia de amor, talvez pela ficção do amor, talvez pela ficção da história, começa quando ela resolve nunca mais querer voltar para ele, não querer ser mais dele, a partir de então, ela vai ser mais bonita, mais sorridente e mais engraçada, todos gostarão mais dela, e talvez ela até seja mais feliz. Nos caminhos, ela terá muitos, bastantes, e trocará deles sem intervalos, não conseguirá nunca mais não tê-los e não seduzi-los. Essa história fictícia de amor, talvez pela ficção do amor, talvez pela ficção da história, termina quando ela resolve nunca mais querer voltar para ele, não querer ser mais dele e apesar dela agora já não ter tanta certeza disso, jamais voltará atrás.

09 dezembro 2007

aquela vez

havia a poeira e nenhum ruído somente o que foi que ela lhe disse veio partiu foi isso assim veio partiu veio partiu ninguém veio ninguém partiu apenas veio partiu apenas veio partiu



beckett

05 dezembro 2007

não fosse trabalho seria poema

Os espaços não são negados, nem as presenças, nem as torrentes, nem os pensamentos, nem as repetições, nem os hábitos, nem os vícios, nem as mesmas palavras, sendo ditas insistentemente, e se retomando e se repetindo formando novos horizontes e novas expectativas, mantendo tudo incerto e inexato, mas absolutamente coeso, numa coesão tão absoluta que apesar de tudo ainda se diz haver uma unidade. E apesar de tudo isso, ainda se nega uma coisa: o “eu”, essa instância discursiva vazia, só elucidativa quando enunciada. E negar o “eu” e não negar todo o resto é algo determinante.

30 novembro 2007

acho que

assim como falhar
é preciso amar mais
amar muito
amar melhor
pra quando falhar,
falhar melhor

28 novembro 2007

materno

tocar nas contradições, fragilizar as fragilidades, conter um anacronismo, estar dentro estando fora,cezzane, ibsen, virar do avesso, abalo muito forte, obrigado, ir com a pá procurar no solo o objeto, não é um broche, não adere em qualquer coisa, comparar chuchu com janela, tem ou não tem receita de bolo, ficção do eu - processo de conhecimento.

19 novembro 2007

ziul diz:
eu to querendo tirar minha graça
francisco... diz:
pra q?
ziul diz:
sei lá
cansei dela
francisco... diz:
mas e ai vc vai fazer oq?
arrumar outra?
ziul diz:
nem
ficar assim sem

16 novembro 2007

vaitchau?

As vezes vem assim na minha cabeça que se um dia eu resolver pedir ajuda para qualquer coisa, haverá muita gente para ajudar, mas ninguém para ouvir. Tenho aprendido muito sobre a escuta, e tenho concluído que até hoje ainda não tive um ouvinte, tive momentos, raros, que fui ouvido, mas pouco, bem pouco mesmo. Tenho percebido também que ninguém me lê, e os que lêem não percebem que muitas vezes estou e prefiro que essa frase fique pelo meio. Vou dormir, e um dia eu paro de escrever.

14 novembro 2007

buraco

Tinha um buraco. No dia anterior não tinha, no dia anterior estava inteiro, mas agora tinha um buraco. Não que estivesse furado, transbordando ou sobrando alguma coisa, nem que estivesse vazando e desperdiçando, simplesmente acordou assim com um orifício. Daí a saber que se tem um buraco é uma coisa, saber o que fazer com o buraco é outra, e o que se pode fazer com um buraco? E sobre isso jamais foi pensado e portanto nada jamais concluído, mas a certeza a partir daquele dia passou a existir: tinha-se um buraco, e nada mudaria a não ser uma pontinha que dizia que tudo aquilo começara no dia anterior.

11 novembro 2007

dissedele

Os sentimentos não têm tamanho, nem formas, mas esse de agora é diferente. Ele não cabe numa música nem numa poesia, entretanto continua sem forma. E em outra adversativa digo que apesar de sem forma ele pede uma prosa, mas uma que não muito vai longe. E dialogicamente vou dizendo e opondo e dizendo cheio de oposições que quero desfazer. Só quero dizer desse sentimento que não sei o que é e nem de onde é, e é? Não quero tentar explica-lo, nem falar sobre ele, só dele, assim, e nessa prosa frouxa, nessa prouxa, desse sentimento falei. Não me sinto mais leve, mas sinto que alguém um dia vai ler isso aqui e lembrar que hoje eu tive um sentimento e disse dele. E isso você faz?

05 novembro 2007

ar mulé

ziul diz:
cara...eu tava lendo um texto do jabor mt foda
ele falando q tá cansado dessas mulheres de bunda de fora, q agora a mídia controla a hora q vc tem q ter tesão
e q no carnaval tem tanta bunda de fora q não dá tempo de sentir tesão direito por nenhuma delas
Pedro diz:
daqui a pouco a gente vai sentir tesão em mulher de roupa
ziul diz:
é...
"caraca, aquela tá de calça larga, q tesao"
Pedro diz:
bom devia ser antigamente
tu tinha que usar a imaginação
hoje não
é tudo mais fácil..
ziul diz:
uhauhauhauhauha
é verdade
eu tava falando com a minha mae q assim, hj em dia ser "pelada" é um modo de vida
a mulher passa a vida inteira pelada
passa de ano pq ficou pelada pro nerd, fica pelada na praia pra arrumar homens, depois fica pelada pra arrumar emprego
e trabalha pelada
passa a vida assim
Pedro diz:
é verdade
depois mulher reclama dos direitos no trabalho
que mulher tem que ganhar a mesma coisa que o homem
pff
mulher ganha dinheiro mtu mais fácil
ziul diz:
uhahuauhauhauhuha
fato!
e assim, elas reclamam q sao assediadas...mas porra...elas passam a vida peladas
depois q ficam ricas querem parar??
nao tem como.
Pedro diz:
auhduahduahduahda
eu nunca queria ter nascido em outro planeta cara
o nosso é mtu manero

02 novembro 2007

senão transborda

Eu não sou um revolucionário. Muito menos um desbravador livre e moderno, um cara atual, antenado nas novidades do mundo e da sociedade. Pelo contrário, acho que apesar de toda minha atitude, até certo ponto anárquica, sou bastante conservador. Toda minha pulsão e revolução é retórica, na busca de um fio tênue de algo que imagino eu, deve ser conservado.
Em relação a mulheres então, sou uma múmia. No meu tempo, e não é que eu queira dizer que eu seja velho e as coisas mudaram, pelo contrário, quando digo no meu tempo, é na minha idéia de tempo, de passagem, de multiplicidade rítmica, enfim, no meu tempo mulheres eram ganhas com discursos, palavras e atitudes se não nobres, que forjavam nobreza. O Arnaldo Jabor disse numa das crônicas que para conseguir alguma coisa com elas chegou a apelar para Marx, Deus, e chegar a citar o ato como uma “luta contra o imperialismo”. Hoje, ou ontem, eu vejo muito que não. Não deixo de olhar os movimentos noturnos e as paqueras por status com um certo tédio, e percebo que os valores, até nos que tem valores, é que os que têm mais amigos são mais “aptos”, são alvos. E isso me dá preguiça, porque eu não mais sei interagir assim com muito esforço e pouca sinceridade. No fundo, até gosto da minha imagem, do tímido que pouco fala, mas quando fala sempre alguém ouve, aquele que perto de pouca gente, consegue se divertir com o mínimo e vê toda a atividade obrigatório com preguiça, essa é a palavra, tive de repetir.


A grande verdade, que na verdade é pequena, mas que eu sinto grande é essa enorme massa de solidão eu vivo. Acho que em alguns anos vou enlouquecer, já que hoje não consigo me fazer entender. Essa semana na faculdade ao estudar A gaivota do Tchecov, a professora dizia que apesar de ser levado como um cara dramático, ele estava longe disso, e que quando a personagem Macha começa a peça de preto e diz: “sou infeliz”, isso de nada lhe faz ser triste, ou pra baixo, pelo contrário, a infeliz é a q mais vive naquela peça, e é como se fosse “sou infeliz, fato, agora vou viver minha vida como puder”. É isso, e mais não se diz!

28 outubro 2007

“Mas não,

nenhum amor é incondicional. Então, acreditar na incondicionalidade é decididamente precipitar o fim do amor, porque você acredita que esse amor agüenta tudo, que de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo.”
Michel Melamed

25 outubro 2007

fica

Quase que perdi a cena enquanto a pequena
Pintava seu quadro de nossa história
Que ela moldava do jeito dela e não pedia ajuda
Imensa astúcia a da pequena que não sabe o que quer

De blusa listrada e de sandália não sabia
Que era muito o que sentia e que pedia
E não era culpa minha se não tinha
Tanta vida e tanta glória e tanta coisa boa pra dizer

E eu em meio a tudo isso
Ou até apesar disso
Só sabia de uma coisa e repetia
A mesma frase num cartaz assim escrita
“vai..vai...vai...mas fica”


Luiz Antonio Ribeiro
26/10/07 - 1:30

23 outubro 2007

anotação de aula

o encatamento pelo objeto se dá no depois, através da memória, pois enquanto está presente ele está preso, faz parte do hábito. (existe o mundo do hábito com seus objetos de entretenimento, e um mundo mais abaixo da superficialidade do cotidiano, um mundo dito da "realidade", que só é percebido quando os hábitos deixam de entreter.)

20 outubro 2007

deixo-os

As vezes percebo de um jeito bastante forte, ainda que pueril, que tudo que fiz na vida até hoje foi gastar-me. Gastei meu corpo e minha saúde com comidas extravagantes, com bebidas altamente calóricas ou alcoólicas, com corridas desnecessárias, com excesso de sol, as vezes de chuva, com uma inércia absoluta daquelas de dar dó. O meu tempo gastei com esperas em dentistas, filas, cinemas, ou com conversas demais, ou aulas demais, ou sono demais, e fui gastando aceleradamente, com muito esforço de gasta-lo pela vida a fora e com eficiência, até que algumas vezes percebi que ele não é gastado, mas ele próprio se gasta na gente e continua a gastar-se. Percebo que gastei meus sentimentos, jogando-os nas horas erradas, nos dias errados, nos amores errados, gastei-os com tanto prazer e felicidade num momento que me parecia tão válido e propício, mas que hoje ao me mover a gasta-los percebo que eles já estão gastos, como se feridos houvessem cicatrizado, deixando marcas. Percebo que meus sentimentos estão gastos porque neles já não posso mais confiar, percebo que eles não são vivos, ele sse força a viver e eu o forço a viver, enquanto que ele mesmo não se faz de vivo, e talvez nem mesmo exista, entretanto penso que devo agradecer por assim ser, pois pelo menos penso sobre eles e sou sincero com eles. Deixo-os sempre em jogo, abertos, como chuteiras velhas à espera do camisa onze que chega, deixo-os em mim, onde sempre os levei. Deixo-os para sempre poder usa-los, deixo-os como quem deixa uma casa, ou uma esposa, deixo-os podendo sempre voltar. Mas deixo-os.

03 outubro 2007

de ir me

Não creio em nada, nem na escrita, não creio. E é essa descrença que me faz falar de coisas que não tenho parte nem domínio nem entendo. Na verdade, não falo sobre nada porque em mim não há voz, há em mim somente um eu que não consigo identificar, logo não consigo pensar, logo não consigo enunciar, não existe o meu enunciado, só minha enunciação. Repetir sempre é necessário. E falo porque a voz é aquilo que mais contém o meu silêncio e sempre que eu silencio eu falo tanto que acabam por pedir que realmente fale, então vivo nesse paradoxo: dizer para não dizer e não dizer dizendo, e assim, tenho de ir me confortando em não fazer ninguém ouvir, porque é necessária uma outra escuta que não a de ouvir. Acho que estou estudando isso demais, estou entendendo isso demais, estou me aprofundando e me silenciando demais, chegarei ao tempo que direi com um olhar mil palavras e minhas profecias de dimensões bíblicas estarão num mover das mãos, aí chegarei lá, e poderei perceber que na vida alguma vez fiz teatro. Acabo por, sempre, crente que consegui, a formatar níveis daquilo que eu deveria ou poderia, ou conceberia ter dito, se a minha vida fosse essa, pois se fosse, estaria eu limitado a muito pouco. Ainda bem que até agora ainda não fui eu.

23 setembro 2007

gosto

eu gosto da minha condição e de todas as minhas condições, gosto do jeito como sou chato e intenso, gosto do jeito como eu sorrio as vezes sem graça, gosto do jeito como encaro as pessoas, com muita sinceridade, mas com candura e gentileza, gosto de ser terno, de ser fiel, de ser direito e de fazer as coisas com tanta simplicidade, gosto de qd eu falo mal dos outros, porque sempre me saem as palavras de boca pra fora, pq só mal do que não vejo em mim, gosto de me chamar luiz e gosto qd me chamam de luiz, ou luizinho, me sinto em casa, gosto de ter feito tudo que fiz ate hoje, e gosto intensamente de ter minhas saudades, gosto de as vezes ter um pouco de nojo das pessoas assim como gosto de ser muito limpo comigo e com minha consciencia, gosto de estar sempre comigo e gosto de estar sozinho, gosto da maneira como as vezes acho q não consigo dizer nada a ninguem, gosto por saber que sei muita gente gosta de mim de graça, gosto de saber q eu sou um carinha legal q as pessoas tem prazer de estar perto, gosto porque sei que não sou perfeito, nem que sou bom, nem que sou agradável, mas porque sei que não mexo com sentimentos dos outros, nem deixo os meus pra trás, levo-os comigo de peito aberto, gosto de saber que passo por tudo que passo e aqui estou dizendo, nem medo de estar dizendo e sem medo de ficar triste dizendo. gosto porque digo que gosto de mim.

26 julho 2007

duas vezes

na vida,
só disse a duas pessoas "eu te amo",
todas de verdade, e de coração
e com um profundo sentimento de eternidade.
Tanto que hoje não retiraria essas palavras,
e até ousaria dize-las novamente
mesmo que para o vento.

Se você já ousou dizer, e hoje consegue retirar
Você não sabe verdadeiramente o que é amar.

19 julho 2007

mas do amor...

Tudo o que no mundo ocorre parece ocorrer sempre depois de um grande aviso. Tudo parece que vem como prenúncio ou prelúdio ou prefácio, tudo vem com uma exposição, tudo é empreendedorismo. É mister apenas estar atento aos avisos, não com os olhos, mas com a gente, com o corpo, com sabedoria, que aos poucos diluída nas pessoas, e nas coisas de nossa vida, vão tomando nossa forma e sem deixar de nos surpreender, tornam-se nossas. Há fatos, no entanto, que se anunciam a si mesmos, principalmente quando todos dizem q eles irão acontecer, mesmo que você negue e lute contra eles, as pessoas às vezes tornam-se esses anúncios e o mundo inteiro sabe o que vai acontecer com você. Nesse sentido, a gente não pode dizer que está abandonado, ou que está lançado à sorte, a gente tem um mundo compartilhando tudo com a gente, e desfilando e perfilando tudo, cabe-nos simplesmente, saber o q é do mundo, o que é da gente e o que é de fora da gente. Porque no fim, por mais que a gente brigue, tente, grite e esperneie a gente é o mundo e o que vem de fora a gente não reconhece, a gente se apropria para sorrir, mas depois a gente exclui, porque o que vem de fora é alienígena, e alienígena todo mundo sabe que não existe, mas do amor que duvida?

23 junho 2007

piscar do traço

Eu não escrevo nada além das palavras que correm ao piscar do traço da tela do computador. Assim e por isso, não posso jamais ser melhor que qualquer alguém que não escreva, que não entenda e que não pense. Jamais posso me pôr à frente só porque digo ter o dom da palavra, da cena, do ritmo e dos sons. Posso ser apenas um moço, pequeno e humilde que não sabe, que não tem dons nem instrumentos para nada, posso ser apenas o moço que escreve porque sente vontade e que entende profundamente que isso de nada adianta. E ao correr do piscar do traço da tela do computador frases são feitas e desfeitas, e acima de tudo esquecidas, para talvez um dia serem lembradas num momento qualquer.

17 junho 2007

hoje

Não posso fazer que seja perfeito, nem ao menos que seja feliz, porque perfeição e felicidade não são passíveis de fabricação, muito pelo contrário, a capacidade de percepção é inversamente proporcional à felicidade e a perfeição nada mais é do que o objetivo inatingível das noites mal dormidas e das pessoas mal crescidas.

O sonho dura mais que uma aventura e permanece até depois do fracasso, da tristeza e da inevitabilidade da queda. O sonho é a ponte do que nunca vai ser com o que não é, mas poderia ser, caso fosse perfeito. O sonho é o perfeito real, o que pode existir de mais perfeito na gente.

A vida é apenas a fração de todas essas coisas. É escorregadia e fugidia. A vida é a seqüência de segundos encadeados com pausas, voltas e quebras. A vida é a porta de saída das coisas, é a falha no dispositivo. A vida é a tristeza, a imperfeição, é enfim, o lugar do fim do sonho.

07 junho 2007

zé



O Daniel é Placido
Placido é Daniel
se eu falar que ele é Tabuada
ele briga, pois Taboada ele é
e se mais uma vez ele briga
decido chama-lo de Zé.

Luiz Antonio Ribeiro
7/6/7

01 junho 2007

Assalto

A gente não sabe o que está acontecendo até acontecer, a gente age sem agir e saber que está agindo como se tudo parasse para ouvir a gente sendo, ou então, como se a gente parasse para tudo e fosse um ser em estado, ou em processo, ou em exercício. A gente sente medo e dores, se é que é dor esse estado completo de anestesia, ou então é até um paradoxo, sim e não, hoje e sempre, nunca mais. Não há sentimento nem metáfora que descreva, não há pensamentos, filosofias ou idéias que entendam, não há sistema quando tal ação acontece, mas acontece e o mundo pára, muito e tanto que nem parece existir. Nesse sentido, como um assalto parece amor.

30 março 2007

o cego

O cego sem sabedoria pedia ajuda sempre que podia, mas nem sempre era ouvido, pois não falava com os olhos que perdidos passeavam de lá para cá, sem irem a lugar algum. O cego tinha a dádiva de ser cego e não morrer anônimo e ser vez ou outra notado na vida, que para cego dura um pouco mais que para gente que enxerga. O cego também passeava no parque, ouvia músicas e assistia filmes, o cego também falava ao telefone, mas não sempre, não desperdiçava o contato humano que achava importante. O cego era burro e deu um esmurro e um esporro no menino que gritava com o avô. O cego era sábio e subia no parapeito da ponte do parque do pároco.

Passei esses dias no botequim do mané e estava lá o cego enxergando tudo e enchendo a cara com o povo do morro do gambá. Perdi o interesse dele, que agora até virou vascaíno.

06 fevereiro 2007

Virgínia

Existe um abismo em mim daqueles que jamais posso contar, pois corro o risco de ser chamado de prepotente, ou metido, ou egoísta, ou qualquer desses termos que costuma se usar para tornar uma pessoa mais despresível que você, por mais que ela demonstre mais recursos e habilidades. Quando disse recurso, acabei de me pegar dizendo exatamente o que devia ser dito: algumas pessoas possuem mais recursos que outras, o que não quer dizer absolutamente nada, na medida em que resultados nada tem a ver com sujeito, objeto, ou forma, mas talvez por uma inexplicável capacidade de agregar coisas, ou melhor, dispositivos.

Voltamos, no entanto, para meu abismo. Sinto, ou melhor, percebo, mesmo porque há algo de racional nessa percepção, que o mundo apesar de ser ridiculamente óbvio e repetitivo e pronto e estável, me torna totalmente inseguro, ou desprotegido, ou desguarnecido, ou uma outra palavra melhor que ainda não encontrei, ao mesmo tempo em que o mundo dos livros me traz resposta, segurança e me deixa a clara impressão de que sou o grande desbravador da vida e entendedor dos mistérios, ou ainda, que esse mundo dos livros me faz gênio e admirável, enquanto que ou outro, me faz criança perdida.

Ó culpa minha, e só minha desse desespero. Como é doloroso fechar uma página do Saramago e ouvir um vizinho ouvir Latino, ou ver minha mãe ouvindo notícias de futebol, ou ver meu pai, numa atividade de grande intelectualidade pra ele, lendo Danielle Steel. Ó como isso me enfraquece e me faz tão despreparado para tais ações. Serei eu o desajustado, ou será que meu desajuste não existe, é forjado, e simplesmente deixo o Saramago sair do livro, quando ele deveria adormecer em mim, ou somente ser estravazado aqui? Quanta falta de resposta, quanta falta de solução, quanta falta de felicidade...

E tudo isso porque estou lendo Virgínia Woolf, não deveria ter aberto esse livro.

05 fevereiro 2007

essa amiga


Tenho uma amiga que muito me interessa e muito me dá medo. Fico meses sem a ver, tendo as vezes impulsos de saudade, chegando até a achar de que ele não vive e não sai à rua, mas quando a encontro na rua descubro que ela vive muito mais do que eu.


- Você está morando ainda ali no Valparaíso?
- Que nada, vendi aquela casa faz cinco anos, fui morar no Quitandinha, depois fui pro centro e agora eu morando ali ó...perto daquela farmácia.

Engulo saliva e seco e penso: “caramba.”


E assim vai, ela conta da vida toda dela, dos namorados que arrumou e terminou, um maconheiro, outro publicitário e outro ex seminarista: “todos iguais.” ela diz, e eu vou ficando surpreso de ver como tem gente que parece que vive num tempo que é muito maior que o meu. As vezes acho que estou indo super bem, aproveitando os momentos e fazendo minha vida rodar, ou girar, porque rodar remete a um círculo e girar...putz, também. É nesses momentos que vejo que não encontro a palavra que eu quero, ou melhor não encontro a vida ou as atitudes na vida que eu quero.


Ao invés de tentar fazer minha vida rodar, ou girar, deveria ter feito a minha vida “espiralizar”, ou então simplesmente imitar minha amiga.

03 fevereiro 2007

Zuzu Angel, o filme

Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2006. Ainda estou vivo, digo ainda vivo porque ainda quer viver. Não escrevo em/por urgência, pois minha vida ainda tem muito para ser, porém apresso-me com medo de, num encanto ou outro, num instante ou outro, ou um piscar de olhos, perder parte desse sentido, quase absolutamente abstrato que é viver.


Temo não chegar a dizer aquilo que exatamente quis, mas não temo a escrever e não entender. O fato é: estou vivo e a expectativa é que viva um pouco mais, ou muito mais. No entanto, como manterei viva aquela vontade que dizem nossa de perpetuação? De que maneira, eficaz ou não, justa ou não, meu corpo vai trabalhar para que eu fique no mundo?








Acabei de ver Zuzu Angel, por isso escrevo. A morte do filho Stuart é averiguada até o fim da/pela mãe. Ela de maneira alguma enxerga política ou relação de conduta na história, ela não devia nem saber que lado torcia, mas sabia exatamente o que o filho era para ela: A parcela de perpetuação da vida dela. Os vestidos iam ficar velhos, rasgar, serem usados por pessoas que nem os merecia, mas seu filho não, era ela, parte dela, que de tão não-ela, pensava e agia de forma tão confusa, o que na concepção dela, não parecia estar esclarecido, mas era o lado do filho, logo era o lado dela. E assim foi. Egoísta, narcisista, ela foi mãe. Culpada e infantil, ela foi mãe. Por isso, mais que absolvida, ela está perdoada. A catarse está feia. Feita até o fim, at[e a epifania, a ordem está reestabelecida. E mais uma vez a mãe está certa, não de acordo com a justiça, não de acordo com o mundo, mas de acordo comigo. Eu amo Zuzu Angel e sempre perdôo as mães.


Luiz Antonio Ribeiro
15/08/06

27 janeiro 2007

quem sou eu

O que eu quero escrever eu ainda não sei, por isso achei por bem me criar em um personagem, um assim tipo eu, mas que, também como eu, tem todas as possibilidades de ser qualquer coisa que queira, inclusive o oposto de mim. O que eu quero falar tem a ver com amor e com amizade, ou alguma coisa que flutue entre essas duas coisas, ou então pretendo falar sobre esses sentimentos como coisas ultimamente forjadas para preencher lacunas em nossas vidas. Não, não é isso que eu pretendia dizer, é mais sutil, tem mais a ver com meu olhar para o desespero das pessoas em sustentar estruturas, relacionamentos e sentimentos que por muito já vão ruindo, mas que parecem ser a única alternativa, principalmente em vidas que eu vejo que possuem mais alternativas. Por que raios essa dificuldade da gente em se livrar das coisas, de mudar, de chegar um móvel mais para cá e abrir espaço para um novo? “não pode, não pode”, o que pode, quem pode, se é que pode? Os tempos passam e os espaços também, e porque insistimos em pensar num sentimento, que ao ser projetado no passado vira poesia, e sai doe espaço e desse tempo, e assim, torna-se tão mais perfeito? É evidente que as férias passadas são melhores, ou que com aquele amigo a gente era mais feliz, isso é sair do gráfico.

É muito fácil responder a pergunta de “quem sou eu” dizendo seu próprio nome, ou apontando coisas como características e medos, ou fatos, descrever-se é apontar fatos, mas fatos são passados, assim como fotos. Entendo eu que pensar em quem se é, é pensar primeiro de tudo em um ser que é solitário, não sofrido ou sem amigos, longe disso, mas como alguém que nasceu sozinho, e vai morrer sozinho, alguém que vai passar essa existência sozinho, apesar de que algumas e muitas pessoas passarão pelo caminho. E depois de ser sozinho, pensar no que sempre fez parte de você, não pessoas, mas fatos ou impressões. Eu diria, por exemplo, que lembro de uma vez muito pequeno, na casa de minha madrinha ter descido correndo uma rampinha e ver umas quatro ou cinco pessoas a me olhar e me aparar para q eu não caísse, isso é algo que sempre esteve comigo, e deve portanto, fazer parte de mim, ou do que sou.

O que estou tentando dizer acho que é que as pessoas geram dependência na gente. Acomodamo-nos com certas presenças, com certas atitudes e com certas tendências a fazer o mais do mesmo, e nesse caso, não adianta repetir até ficar diferente, repetir é ver a variação do que já deu o que tinha que dar, mas como enfim superar essa premissa de solidão vivendo em grupo e tendo amigos e pessoas que tanto nos amam? Pessoas não nos amam, acostumaram-se tanto a gente que não conseguem viver sem, e ai de nós se nos afastarmos, é capaz delas fazerem pirraça,porém daqui a pouco se acostumam. A grande questão da vida é respeitar essas grandes questões da vida, é saber que as pessoas contribuem com a gente na medida em que elas aderem coisas ao que somos, não fincando na gente e grudando, pedindo sempre que a gente esteja “sendo elas”, ou “vivendo elas”, ou “amando elas”, quanto mais errado se dizer melhor, mais desesperadora fica a frase.

O que eu queria dizer, não está nessa conclusão, está no meio desse tempo ai, não sei onde, mas sei que de alguma forma disse alguma parte do que queria, a conclusão é só formalidade aristotélica textual.

18 janeiro 2007

filme

Fosse cena de filme, teria começado com um close no rosto apavorado e assustado da cigana para logo depois abrir a imagem e mostrando uma cena em que uma mulher de cabelos negros e vestido branco está sentada de costas para a cigana, que desfazendo-se da cara de susto, mantém um olhar de descontentamento. “É...o que vejo não é nada bom...nada bom...”, nesse mesmo instante começaria um trilha sonora das minhas fúnebres, e mais uma vez teríamos um close, só que agora da outra mulher, que usava óculos escuros e pulseiras. “Não me assuste, senhora...não tem graça”. “E eu lá faço piada, dona?”

Depois entraria a abertura do filme que seria alguma coisa para mostrar a última tecnologia da empresa que produziu, entrariam marcas de patrocinadores e muitas legendas, daí recomeçaria o filme cheio de histórias e pormenores. Imaginei tudo, mas imaginei chato. Bom mesmo é esse começo.

24 dezembro 2006

natal

Existe na vida alguma coisa ligada aos cheiros. Mais do que os outros sentidos, sinto que as vezes a vida é muito mais ligada a eles. Essa constatação me veio e logo depois algo me iluminou dizendo que o olfato é o sentido mais próximo do sentimento. Ele é quase alguma coisa, é incerto. Ele não atesta nem confirma nada, mas faz julgamentos que nos acompanham por todo o resto da vida.

Hoje é véspera de natal, e é dia de cheiros. Dia de sentimentos. A rabanada que vai se fazendo, a canela e o açúcar, algumas frutas estranhas que só vejo no natal e tenho nojo de me aproximar, as castanhas, os panetones. Conforme anoitece o cheio de peru, chester, tender. Parece-me que isolados, esses cheiros não seriam sentimentos, mas juntos me fazem lembrar que é natal.

Jesus está nascendo para fazer um monte de coisas e morrer na cruz. Sinceramente, eu não acho nada de interessante na vida dele, prendo-me mais as sutilezas. A primeira coisa que acho que não devia ser ignorada sobre Jesus são suas palavras: tudo que ele diz nos deveria movimentar, nos fomentar, não levando a idolatria mas a reflexão. E depois, o que mais me leva a ele são as coisas que permeiam seu nascimento. Tantas coisas, tantos detalhes que levaram a ele ter o seu nascimento, que isso me movimenta a uma coisa chamada luz. A vida é uma luz, e uma vida nascente é a própria luz. Por isso, Jesus nasce, porque ele é luz. Por fim, diria eu que a vida deveria ser de luz, não de Jesus, ou qualquer outra luz, mas A LUZ.

Ou uma luz que dure muito, ou um cheiro que passe logo.

05 dezembro 2006

O meu show de Truman




Não quero demorar a escrever. Quero deixar o meu pensamento livre para ser poético e me abster da racionalidade que tanto vem me tomando nos últimos tempos. Acabei de ver “O show de Truman”, estrelado por Jim Carey. Sim, eu ainda não tinha assistido ao filme, e quando resolvo assistir saio assim: outro.


A força que me impulsiona agora é a de ser meu personagem principal. Será que eu sou? A vida vai te levando de ação em ação, de cena em cena e de capítulo em capítulo, tanto que se você resolver transformar tudo em filme, você perde a vida, se você transformar tudo em vida, perde a poesia, e como viver? Acredito no nosso impulso criador de todos os dias, acredita nessa divindade interna, como se assim como Truman, tivéssemos um diretor/deus, só que dentro de nós, e que não escutamos muito ele, queremos contraria-lo. O diretor sabe da cena, nós não, daí num certo capítulo 10.909 resolvemos por um simples traço de motivo que nossa vida não é a nossa vida, daí pegamos o guidom e achamos que já sabe tudo do mundo e vai navegar por aí. O mundo nos empurra de volta e fazemos força e vamos e vamos, até que chegamos na verdade.


Nós não somos felizes. Truman era, mas não seu pai, não sua mãe, não sua esposa, muito menos Sylvia, seu amor desaparecido. Todos temos um amor fracassado, porquê raios chorar pelo de Truman? Ele era feliz nesse admirável mundo novo, as câmeras sabiam muito bem dirigir a cena, porém ele resolve atravessar o muro. Dá-nos um bom dia, boa tarde e boa noite, vira-nos as costas e atravessa a porta de saída. Boa sorte, Truman. Alguns segundos depois, mudamos de canal.


Luiz Antonio Ribeiro
06/12/06

01 dezembro 2006

outro

"Brigar é estar junto ao contrário.
Já separar-se é mais sério:
é tentar tirar a parte do outro que mora na gente."

Luiz Antonio Ribeiro
29/11/04

16 novembro 2006

Otelo - Shakespeare




ziul diz:
otelo matou a desdêmona, mor

ana diz:
vc tá lendo otelo já?


ziul diz:
ele estrangula ela.

ana diz:
O.O pq?

ziul diz:
pq ele acha q ela está traindo ele com o Cássio, o tenente dele, mas é tudo intriga do Iago.




ana diz:
que novela mexicana, hein?

ziul diz:
mas ai, o Iago é desmascarado pela própria mulher, e sabe o q Otelo faz?

ana diz:
o q??

ziul diz:
nao aguenta o q fez, e se apunhala com uma espada, e se deita na cama, onde jaz desdêmona morta. os dois morrem abraçados, com o enxoval da sua primeira noite de núpcias

ana diz:
ai que lindo, mor vamos morrer assim??
então vc já acabou de ler, é?

ziul diz:
e sabe o q acontece com o Iago?

ana diz:
o q?

ziul diz:
NADA. ele só é ferido e vai preso.está hora está vivo, numa prisão do Chipre

ana diz:
hauhauahaoo mundo é o lugar mais injusto

ziul diz:
tambem acho...difícil viver assim.

15 novembro 2006

Por que eu escolhi a profissão de artista?

Curso: Teoria do Teatro
Matéria: Psicologia – PSI
Aluno: Luiz Antonio Ribeiro



Acredito que a escolha dessa profissão é motivada ou impulsionada por um desejo de sucesso exterior, ou por uma necessidade de arranjo interior. Em ambos os casos a solução está no sucesso estético, ou seja, existe algum tipo de desarranjo ou desarmonia na forma de viver, e a gente resolve isso através da forma, da expressão, da estética. É a idéia platônica de atingir o belo, e uma vez imerso nesse mundo a conclusão pode ser variada, chegando-se até ao polo oposto do que se propõe.

O meu caso é parecido: sou o filho único da irmã mais velha que ficou 13 anos casada sem engravidar e no parto perdeu o útero. Sempre fui o menor, o mais baixo, talvez o mais fraco, pois nunca ousei brigar. Tive uma carreira infantil no futebol interrompida por desgaste de tendão e musculatura (o mais baixo tem de fazer um esforço excessivo). O que me achou então? A arte.

Para mim, foi o natural caminho de entrar para o coral, para a gincana da rádio na escola, para o grupo de teatro. Depois foram as aulas de teclado e violão, o programa de entrevista feito com os amigos da escola. A resposta dos outros era sempre a mesma: “Você tem muito talento, devia seguir carreira.” E com a bola levantada pelos outros e o arranjo interior acertado, eu podia e tinha a liberdade de tentar outras coisas como escrever, dançar, etc.

Como problema, a primeira coisa que encontrei foi a instabilidade, pois na arte o material sou eu mesmo, logo não adiantava tentar escrever sobre amor, sem viver amor, ou saber sobre o amor.
Ou então, interpretar uma personagem que eu não conheço tão bem, ou que, seja o oposto de mim. Nesse momento, me veio duas necessidades, a de aprofundamento técnico da área e da aquisição de experiência de vida.

Daí, resolvi por fazer um curso teórico enquanto eu não passava para teatro. Caí então, meio que por sorte no curso de letras que fiz por três anos. Eis um outro problema: letras é mais profissão que teatro e ao passar para teatro houve a crise familiar e interna pessoal.

No entanto, a escolha estava feita, a vontade e a satisfação se sobrepõem ao resto, assim, aqui estou.

Luiz Antonio Ribeiro
15/11/06

05 novembro 2006

Van Gogh - trechos



“Sinto em mim um fogo que não posso deixar extinguir, que ao contrário, devo atiçar, ainda que não saiba a que espécie de saída vai me conduzir. Não me espantaria que essa saída fosse sombria. Mas em certas situações vale mais ser vencido que vencedor.”

- VIDA

No mês de maio, deixou a clínica e voltou a morar em Paris, próximo de seu irmão e do doutor Paul Gachet, que iria lhe tratar. Este doutor foi retratado num de seus trabalhos: Retrato do Doutor Gachet. Porém a situação depressiva não regrediu. No dia 27 de julho de 1890, atirou em seu próprio peito. Foi levado para um hospital, mas não resistiu, morrendo três dias depois. Suas últimas palavras foram:
“A tristeza durará para sempre.”


- OBRA


Esse é o trágico: ver a realidade e ver-se na realidade com uma evidência tão clara e peremptória. A arte para ele se tornou o ofício de viver, no entanto, uma vida onde toda a percepção que lhe apresenta só lhe torna mais só, e sua solidão já não é mais suportada. Está tendo constantes alucinações.

“Não sei bem quem definiu este estado: ser atingido pela morte e pela imortalidade. A carga que nós arrastamos deve ser útil a alguém que não conhecemos. É assim, se acreditamos na arte nova, nos artistas do futuro, o nosso pressentimento não nos engana”

Ele já se despedia da vida, apostando na imortalidade na arte. Entre um milharal, enquanto caçava gralhas, aponta a arma ao peito e atira, se arrasta até em casa onde encontra o irmão com quem conversa, num último instante diz:

“A tristeza durará para sempre.”

Pretende-se, no entanto, guarda dele está afirmação:

“No futuro há uma arte, e deve ser tão bela e tão jovem quanto verdadeira e, e atualmente nós lhes deixamos nossa juventude, não podemos senão ganhar em serenidade.”

Cézanne - trechos.

“Eu tinha decidido trabalhar em silêncio até o dia em que seria capaz de sustentar teoricamente minhas tentativas.”
Paul Cézzane



VIDA.


É recusado, em 1866, 1869, 1870 e 1871 no Salão, envia, por sua vez uma carta de protesto ao diretor das Belas-Artes, aproximadamente a época em que conhece Manet que elogia suas naturezas mortas. Em 1872, instala-se com a família em Auvers-sur-Oise, onde pinta quadros com Pissarro. Logo, em 1873 pinta na casa do doutor Gachet. Trava conhecimento com o negociante de tintas Julien Tanguy que troca material de pintura pelos seus quadros. Encontra Van Gogh na casa Tanguy. Tem sua primeira exposição coletiva, em 1874, dos impressionistas, na já citada do fotógrafo Nadar. Os quadros de Cézanne fazem escândalo (A Casa do Enforcado em Auvers, Uma Olímpio Moderna). Participa, em 1877, na terceira exposição impressionista com 16 quadros e suscita ainda uma vez mais violentas críticas.

Em 1885 é outra vez recusado no Salão e decide não enviar mais obras para lá. Ruptura com Zola após a publicação do romance L’Oeuvre que descreve a vida de um artista falhado. A National galerie de Berlim compra um quadro de Cézanne. É a sua primeira tela num museu.

OBRA.


Ora, os expressionistas buscavam representar o mundo de forma pessoal, ou expressavam o pessoal amparando-a numa representação do mundo, porém não seria essa busca de comunicação por meio da pintura uma característica do mundo? Do outro lado, os impressionistas, por mais sensíveis que fossem nas suas impressões, não elaborariam na imagem conteúdos pessoais? Ou seja, não seria o “ver” também uma “maneira de ver”?


Cézanne é o centro dessa questão. Ele não aceita essa pintura puramente visual de seus amigos impressionistas, quer ser um mais um literato, porém quer literar na pintura, não levando o tema à pintura, mas construindo essa imagem com os pesados materiais da pintura. Está no meio dessa impressão e dessa expressão. Nessa pintura nada é invenção, tudo é pesquisa.

26 outubro 2006

metáfora

Estava tudo alagado, mas a tempestade já havia passado. O caminho pelo qual eu sempre passava, agora era de barro molhado, mas ainda era caminho e ainda se via alguns vestígios de asfalto lá embaixo. Por ser estrada tão conhecida por mim, não chegava a me causar espanto vê-la nesse estado, que por vezes, eu já havia previsto poder se tornar assim.

Havia o caminho, havia a lama. Havia a trilha, como se alguém tivesse passado por lá antes de mim e tivesse estipulado uma linha, não muito reta, por onde todos deveriam passar. A trilha não era atalho nem era mais fácil, era, no entanto, uma segurança se descobrir compartilhando as coisas. Uma vez Clarisse me disse, apesar de não a ter conhecido, que o que nos protege da solidão é a solidão de todos nós. Era isso o q sentia ao atravessar a estrada: sentia-me sozinho, mas não o único sozinho por ali.

Havia o caminho, a lama, a trilha. Havia também o outro lado. Esse eu não conhecia, presumia. Poderia dizer que era minha casa, já que pouco antes disse ser uma caminho conhecido. Poderia dizer que era a casa de um amigo, um parente, poderia ser um bar, poderia ser uma infinidade de coisas que o andar era ocupado pelas especulações. Hoje, vejo que não importa esse destino, importa ir para lá e que chegar foi apenas meu ponto de partida.

Havia o caminho, a lama a trilha e o outro lado. Havia as palavras e as metáforas, que encarnavam coisas que eu, ainda hoje em dia, não sei.

Luiz Antonio Ribeiro
27/10/06

02 outubro 2006

sofista

Por alguns minutos fiquei com a tela em branco e o traço piscando à espera do primeiro comando meu. Eu, olhando a tela em branco e o traço piscando, tentava descobrir e depois entender aquilo que eu já sabia que eu queria escrever, mas ainda não havia organizado em linguagem, e esse é meu medo: que haja um abismo entre o que penso e o que eu digo. Eis que a idéia aos poucos toma forma e já me aparece com um sintagma: Vejo...

Vejo no mundo um equilíbrio de idéias. Nada mais prevalece como verdade ou como mentira, ou como certo ou errado. Adolescentes em plena crise andam sofrendo bastante com isso, quando tudo parece tão certo, as certezas são tantas e os rumos parecem tão marcados, num segundo lá vai a vida levando tudo embora para que seja tudo reescrito com outras perguntas.

Não que isso seja um problema, ou uma crise, na verdade, é resultado de uma democracia levada a sério demais. O ponto que eu quero vou descobrindo aos poucos, e chegando ao que eu quero dizer é: isso é um sintoma. Sabe sintoma? Não é a doença propriamente dita, mas anuncia doença, precede a ela, encaminha à ela. Muitos irão dizer dos prazeres da democracia e dos problemas de um autoritarismo e eu concordarei. A democracia é um presente, mas a liberdade e a potencialidade assustam.

O mundo contemporâneo é marca de efemeridade. Nada positivo pode durar para sempre, a não ser a promessa de um amor, pois nem o amor está sendo eterno, uma vez que nos últimos anos eles andam "sendo eternos enquanto duram". Acontece que o efêmero deixou no ar uma idéia de que toda idéia é válida, uma vez que ela será rapidamente trocada por outra, então o que for mais eficiente em suprir uma necessidade urgente vira escolha de uma eterno "carpe diem" subvertido.

Esse relativismo absoluto abriu uma gama de possibilidades mercadológicas, pois o fugaz é publicitariamente mais rentoso, pois gera divisas em curto espaço de tempo e constante propaganda barata de curta duração. Assim, o mercado de certa forma adotou os filhos do carpe diem, mas não é disso que eu quero dizer. O que eu quero dizer é desse relativismo democrático efêmero sintomático. Aliás, nem sei se quero exatamente dizer isso.

O mundo de hoje é sofista. Isso que eu queria dizer. Tudo se equivale e se transfere. Não existe essências, mas aparências móveis. Não existe modelo, existe diversidade. E nisso o mundo se perde em teoria, em fugacidade e em..distrações. O mundo de hoje é distraído e desfocado. É desencaixado e frouxo.

E o povo não sabe votar.

23 setembro 2006

SÁBADO

Ela sussurra ao meu lado. Não sei se de dor ou de amor. Está doente. Porém, muito mais frágil que doente. Ela precisa que agora eu a olhe, sorria e lhe diga que tudo ficará bem. Ela vira para o canto como quem vai dormir, como quem quer sonhar comigo. Suas últimas palavras foram: “Me dá um beijo.” Eu dei. Sinto por ela o que nunca senti. Mesmo sabendo que nunca experimentamos um mesmo sentimento duas vezes na vida, sinto o dela pródigo, daquele que vivemos sem, mas que sempre recebemos fartamente de volta na gente.

O silêncio é o melhor amigo da noite. Às vezes, carros passam e furam o silêncio. Hoje não tem lua, não tem estrelas, o céu está quase nublado. A igreja ao lado toca o sino e as luzes lá fora começam a se apagar. Enquanto ela, ao meu lado sussurra. Não sei se dor ou de amor.

Luiz Antonio Ribeiro
24/09/06

05 setembro 2006

o Chocolate


O chocolate era muito triste
Porque não queria ser marrom
Então, ele teve uma idéia genial!
Resolveu se olhar no espelho
E se pintou de vermelho.

Mas ele não gostou do vermelho
Porque ninguém queria comê-lo
Então ele se pintou de azul
E fugiu para o sul.

No sul todo mundo
tinha frio
Então ele voltou para o rio.


Luiz Antonio Ribeiro
livro de poesias da 4ª série

10 agosto 2006

tapete vermelho


Triste. Acabei de constatar que não sei mais escrever. O pobre traço da tela do programa de texto do computador fica piscando e piscando e nada das frases chegarem. Outrora era batata, bastava escrever uma frase ou duas e já tinha toda uma sentença pronta, e outras mais, e a idéia do texto se formava, as vezes sem nexo algum, mas sempre chegando ao "belo" grego, ou grego "belo", viu?, já não sei.

A idéia era escrever sobre o filme "Tapete vermelho" de Luiz Alberto Pereira que assisti a poucos dias atrás e tanto me marcou, no entanto, parecem me fugir os argumentos, ou os tenho de forma caótica e inapresentável. O fato é: O Mazzaropi foi/é um grande gênio do cinema nacional, possuia um sistema de criação único e que se tivesse sido mantido, poderíamos ter um "centro do cinema nacional", a lá hollywood. Gosto dele por isso, e por causa do grande ator e roteirista, mas principalmente, gosto afetivamente: Meu pai gosta, porque meu avô gostava, minha avó gostava, meus tios gostam. Quando pequeno via e me divertia, hoje vejo e me divirto. E "Tapete Vermelho", a história do pai que leva o filho para ver o filme do Mazzaropi, é totalmente "mazzaropiana", assim como o texto, o cenário, a interpretação, o figurino. Matheus Nachtergaele foi meu Mazzaropi por uma hora e meia, e a todo momento eu pensava: "preciso alugar esse filme para meu pai".

O enredo é simples, mas interessante é a forma de utilizadas para sub-temas. Eles tratam de lendas e manifestações populares rurais que mesmo quando inverossómeis a nossos olhos, são completamente pactuadas por todas as persoagens. Como exemplo, temos a cena do violeiro que vendera a alma para o Diabo ou a aparição do Anjo Gabriel.
De qualquer forma, não é de forma teórica específica que conseguirei falar do filme, mas sim, como comecei: afetivamente. E digo que veria de novo se fosse possivel, e assim que sair em vídeo, alugarei para meu pai.
Foi díficil, mas escrevi. Temo ter ficado ruim. E ficou.

03 agosto 2006

Manutenção.

Eis que o mundo continua girando enquanto eu vivo.
Eis que o mundo gira enquanto eu amo.
Estou prestes a voltar a ver que o mundo gira e a girar junto com ele.
Não quero.

29 julho 2006

xerox


Se descarto a idéia minha, tão saudável
É que encaro o mundo só nessa visão
Se copio a coisa e faço duas coisas
A segunda sempre é repetição

23 julho 2006

linguagem

desculpa avisar, mas no fundo tudo no mundo é linguagem. E tentar definir é uma questão de nomenclatura e ponto de vista.

18 julho 2006

brain strom

Quanta coisa a gente perder por não estar pronto. Não estar na hora certa, não no sentido de tempo, mas no sentido de vida. Quanta coisa a gente perde por não estar a gente o suficiente pra perceber tudo que a gente pode ser e receber do mundo. A idéia desse post é escrever tudo o q vem a cabeça em exatos dois minutos, sei que a tarefa é difícil e que chega a assustar, mas vou tentar. Eu estava pensando que as cores das coisas são sempre bem menos coloridas do que a gente as vê, porque quando a gente olha, a gente põe o nosso sentido humano nelas, por exemplo, seria o mundo tão verde, se os seres humanos não estivessem aqui para olha-lo?? talvez sim, porque não existiríamos para destruir todo o verde, ou talvez não, porque o verde, de certo modo, só é verde porque está nos nossos olhos. Fim do tempo, fim do post.

04 julho 2006

desencaixe

Pedro tinha feito uma longa viagem até o paraíso. Assim que morreu, pegou uma imensa tempestade que o impedira de subir, além de Ter sido atrapalhado por alguns espíritos que vagueavam e pediam informações sobre o caminho do céu. O menino limitava-se a responder sempre a mesma coisa:

-Não sei dizer. Não sou daqui.

Chegando lá em cima, descobriu que o céu não era de nuvens, mas era todo azul-piscina, menos o portal de entrada que era rosa, o que lhe fez dar risadas. Foi recebido por São Pedro.

-Ué, São Pedro, você não tomava conta do tempo?

-Não, meu filho. Alias, sim, ainda cuido. Mas com o decrescente número de santos que vem aqui para cima estamos tendo que nos dividir.

- E eu vou poder entrar no céu?

São Pedro não respondeu, mas o portal logo se abriu, e Pedro pôde perceber que sim. Ficou feliz por ver que era um bom menino, ao contrário do que dizia sua mãe, mandando-lhe sempre comer. Lá dentro foi guiado por São Jorge que mostrou-lhe tudo, apesar de estar sempre preocupado, olhando o relógio e ajeitando sua espada. Finalmente foi deixado em seu aposento, que era um quarto simples, parecido com o seu, e o mais legal era: o céu não tinha cantos, mas tinha parede. Eram finas e serviam apenas para as pessoas se sentirem um pouco vivas, e agüentarem a eternidade. Numa oração perguntou se não veria Deus e no próximo sonho obteve a resposta: "você viu todos os dias de sua vida", desde então resolveu não mais rezar no céu.

Em pouco tempo, estava familiarizado com todos por ali, inclusive com Santo Antônio que tinha sempre uma criança ao colo e tinha cara de pedófilo, mas no fundo, era boa pessoa. Foi encarregado de ser anjinho e tocar harpas para receber os visitantes. Ah, as pessoas que iam para o inferno, visitavam mensalmente o céu, para ver o que perderem sendo maus. Pedro aprendeu no curso de anjo que reencarnação existe só para os que vão para o inferno, eles ficam lá um tempo, pagando os pecados, depois voltam para a terra. "Por isso tem tanta gente ruim por lá", pensou o menino.

Sua sala de aula era uma bagunça, porém a bagunça mais organizada, todos brincavam e conversavam, mas aprendiam. Tudo corria bem, até que entra na turma uma menina: pequena, magra, cabelos encaracolados e ruivos. Pedro não percebeu seus olhos brilhar, mas sentiu o coração palpitar. Tão bela e tão frágil era a menina, que todos a admiravam, Pedro muito mais. Amava-a já e em uma semana não se aguentou e foi falar-lhe:

26 junho 2006

saco preto

A quase dois dias e meio, um saco preto voando no chão
A quase dois dias e meio, um saco preto voando no chão
A quase dois dias e meio, um saco preto voando no chão
A quase dois dias e meio, um saco preto voando no chão
A quase dois dias e meio, um saco preto voando no chão

A dona preguiça jogou
Menino travesso chutou
Lixeiro rico não é

preto voando no chão
saco preto voando no chão
um saco preto voando no chão

O carro voado passou
Porteiro pro canto empurrou
Menina amada não tá

Voando no chão
Saco voando no chão
um saco preto voando no chão

a dona jogou, menino chutou, carro passou, porteiro empurrou

e a quase dois dias e meio, um saco preto voando no chão

Luiz Antonio Ribeiro
26/06/06

18 junho 2006

sobre "o varal"

ziul diz:
eu to numa fase muito cecília meirelles..
ziul diz:
ontem fiz uma poesia pra um varal.

tatty ... diz:
pra um varal?
tatty ... diz:
eu quero ler o que voce escrteve

*** *** ***

ziul diz:
VARAL

Pendura-se tudo:
A calça, a blusa, a toalha molhada.
O tapete, o lençol, o cobertor
Até a cueca que tanto se esconde na roupa

ziul diz:
isso é um trecho.

tatty ... diz:
a ideia tá boa. eu queria saber fazer poesia

*** *** ***

tatty ... diz:
caraca, fiz uma viagem aqui surreal.
tatty ... diz:
tipo, varal é onde a roupa suja é colocada depois de lavada. pensei em algo tipo boteco, que você acaba lavando riupa suja de vez em quando e acaba tudo entre amigos depois.

ziul diz:
bom...a idéia era q nao fosse só varal..pq ia ser mongol ser só varal.
ziul diz:
mas nao pensei em boteco nao.

tatty ... diz:
o boteco na verdade foi a parte mais dispensavel de tudo.
tatty ... diz:
foi só pra colocar um lugar fisico

ziul diz:
entao me responde:
ziul diz:
Sendo varal pra secar,
quando chove e tudo molha
ele deixa de ser varal?

tatty ... diz:
não deixa de ser varal. mas ele vai ter caracteristicas novas.

ziul diz:
a minha viagem é: ele é varal só pela utilidade ou por algo mais.
ziul diz:
pq se for pela utilidade, qd a perder deixa de ser

tatty ... diz:
eu não tô pensando em varal como coisa fisica. to viajando em metaforas
tatty ... diz:
as vezes o fato de molhar, não quer dizer que vai estragar. só quer dizer que ele se alterou um pouco.
tatty ... diz:
a função dele não necessariamente foi desfeita

ziul diz:
eu agora to com mania disso qd escrevo...de pensar numa frase q a própria linguagem nao responda.
ziul diz:
dai a gente tem q ficar viajando nela.

tatty ... diz:
mas viajar é a melhor parte

*** *** ***

ziul diz:
mas tipo, eu achei bonito o varal ser arte enquanto o menino suja e a moça lava
ziul diz:
é como se fosse arte de vanguarda...ou arte de transicao.
ziul diz:
tipo, as pessoas crescem, e a arte do varal muda no decorrer de sua vida, entende?

tatty ... diz:
a relação menino suja e moça lava é tipica de que homem pe burro e mulher sempre tem que solucionar tudo.
tatty ... diz:
tipo, mulher gosta de discutir relação, essas coisas

ziul diz:
caraca...melhor intepretacao a sua.
ziul diz:
uhauhahuahuuhaa
ziul diz:
vc tá toda fatalista lendo uma poesia tao simples.
ziul diz:
eu ia dizer q a arte do varal muda, qd criança é fralda, babador, depois vira macacao, camiseta, depois calça jeans, blusas estampadas, depois vira camisa social, terno, e por fim, coletes, boinas.

tatty ... diz:
tipo, o varal é o retrato da vida.

varal


Pendura-se tudo:
A calça, a blusa, a toalha molhada.
O tapete, o lençol, o cobertor
Até a cueca que tanto se esconde na roupa

Aceita tudo:
A blusa gasta da vó, a saia rendada da mãe
O terno preto do pai, e calça curta do irmão
Menos roupa suja que nunca vi por lá

Se for colorido de verde, azul, amarelo
Mesmo sem dourado, mais rico fica o varal?


Sem preconceito, o varal está lá
Obra de arte da dona de casa
Tão obra, e tão arte, que se renova
Enquanto o menino suja e a moça lava

Sendo varal pra secar,
quando chove e tudo molha
ele deixa de ser varal?

Vejo-o todos os dias quando vou ao quintal
E lá está, tão diferente, tão igual
Tão belo, tão morto, tão desigual

Não sei
Talvez nem seja verdade, mas prefiro achar assim:
Que um varal só existe pra brilhar os olhos pra mim


Luiz Antonio Ribeiro
18/06/06

03 junho 2006

justificando o injustificável

sobre o caso Suzane Hitchkoffen

Atire a primeira pedra quem nunca sentiu ódio. Não falo do ódio dissolvido pelo tempo, daqueles que duram meses, mas sim daquele que vem e dura momentos, segundos talvez, mas são tão fortes, tão profundos que rompem qualquer barreira da nossa racionalidade. Quem nunca bateu uma porta de raiva? Quem nunca quis socar a parede? Quem nunca arremessou um objeto qualquer? Não ouso dizer qualquer coisa sobre agressões físicas, mas nesse instante talvez você esteja pensando: "sim, eu já quis agredir alguém."

Existe uma idéia social, parte do senso comum, de que é ruim sentir raiva. Pior ainda, é inaceitável pensar em descarregar essa raiva, então o que fazemos é guardar, engavetar, fingir que não existem tais sentimentos dentro da gente. Gritar é barraco, chorar é fraqueza, fugir é covardia. Eis a virtude: fingir que não somos. Aí está o problema, temos uma sociedade de ovelhas sem sentimentos, que quase sempre são descarregados em formas singulares de prazer: festas, drogas, jogos, esportes. E assim, a sociedade vai bem, a máquina do mundo gira em perfeita harmonia.

Eis que um dia, uma menina mimada, criada para ser uma mistura de Barbie e Cinderela, cansa-se de todas as outras formas de extravasar, rompe com tudo que existe dentro dela, vê que não é de cera, não é bonita e não sabe sorrir de verdade, descobre que as drogas fazem ela não ser ela, e não ser dói. E no meio de tantos pensamentos descobre: "a culpa é dos meus pais".
Não sei se conheces o conflito da tragédia grega, mas ai está ele: homem x ordem. Não existe felicidade para a menina, enquanto seus algozes, travestidos de protetores continuarem sorrindo, a ordem foi comprometida, o prazer ou descanso familiar virou motivo de raiva. O mundo interno dela entra em rebuliço, pulsa, foge do equilíbrio, e as coisa começam a rumar para caminhos absolutamente desconhecidos. Totalmente fora de controle está a situação, não existe mais razão, o universo parece conspirar contra, a fim de se chegar a um equilíbrio. Enquanto isso, um amor recente, e forte, também domina a mente dela, que talvez, em certo momento, tenha dito a ele: "por favor, assuma para mim, decida para mim, salve-me." Ai, ela não é mais dona de si. A decisão de matar não é simplória, é uma mistura de pós-drogas, com amor, com noites mal dormidas, com ódio. Um ódio pulsando ao mesmo tempo em que a ordem precisava ser restabelecida. Nesse caso ou era a menina, ou eram os pais: a menina escolheu viver, na lei da sobrevivência.

E a imprensa cai em cima, crucifica ela, diz que o pai era bom porque fazia de tudo e que a mãe havia perdido noites de sono por ela. Dizem que ela é ingrata porque "tinha tudo que queria". Encaram o problema dela como loucura, como insanidade, vêem-na como bicho, como se seus instintos mais primitivos tivessem controle, e no caso, isso não é bom. Assim, ela passa de mão em mão, de boca em boca, e de notícia a notícia ela vai perdendo a vida, vai perdendo os impulsos, vai se tornando um objeto de exemplo, onde pensar é muito perigoso. Expo-la em praça pública talvez seja um bom negócio.

Se olharmos hoje em dia, não veremos mais uma pessoa, veremos apenas um instrumento da mídia de controle popular, com seus direitos confiscados, e que não paga apenas pelo seu erro, mas paga por Ter resolvido ir além e questionar o inquestionável, mudar o imutável, enquanto eu aqui, a muito custo, tento justificar o injustificável. Se não consigo, deixo assim, talvez seja mesmo melhor deixar incompleto.
Luiz Antonio Ribeiro
03/06/06

09 maio 2006

Amor s

Amor s. m.,

viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos;
inclinação da alma e do coração;
objeto da nossa afeição;
paixão;
afeto;
inclinação exclusiva;

Não, o dicionário não entende de amor. A denotação não tem a menor capacidade de formatar tal sentimento, e mesmo que tenha, ou que a tente, como aí em cima, a gente lê e na hora pensa: "não...isso não é amor." É porque amor é isso, mas também é muito mais. Ficar meia hora em silêncio, tocando de leve o queixo da pessoa amada, isso é amor e não está no dicionário. Ir dormir duas horas mais cedo que o normal, só para amanhã chegar mais rápido, sonhar com a pessoa, acordar uma hora mais cedo do que devia para o encontro e reclamar que ainda falta muito: isso é amor. Amor é aquela coisa que está entre o que a gente conhece e o que a gente não entende. Sabe quando a gente sabe exatamente aquilo que é, e aquilo que sente e aquilo que dói, daí vem alguém e pergunta: "que foi?" e faltam palavras? O amor está aí também. Porque palavra é linguagem, e linguagem é código, como código não comporta tudo que a gente tem dentro. Deus e toda definição dele é uma inutilidade, é uma inverdade máxima e o completo e total afastamento de deus. Falso sim, assim como o amor, mas muitas vezes vivo, forte e presente, porque no fundo, tudo se resume em a gente ser a gente mesmo. Amando ou não, com deus ou não.

Inclinação da alma e do coração; Minha alma se inclina por alguém? E meu coração? As formas são temporais, físicas, e a inclinação da alma e do coração requer viver em estado de paraíso, em estado de céu, para que assim, não se tenha o temor do tempo e do vento e da maré. O amor requer isso: uma certa quantidade de paz, para não cair em outros sentimentos que, de menos importantes, gritam muito mais dentro da gente. Inclinação de alma e coração é um pouco amor sim, mas é tão pouco amor. O amor está na sutileza dessa inclinação, está na sutileza da alma e na entrega do coração. Está no afeto, na gentileza e no carinho, nunca na pergunta vazia, nem na pergunta maldosa, mas na pergunta curiosa, daquele que quer virar ela, estar ela, ser ela. Virar um, o famoso clichê de "transformar-se na coisa amada, por virtude do muito imaginar".

A dúvida talvez seja, e o complexo, e o medo, e o a dor no rim esquerdo e a dor no pescoço de um beijo mal dado que a gente não consegue largar, que o amor não está nem perto de chegar a ser um pontinha de verdade. Ele não está em nenhuma dessas linhas, e depois de aprender a escrever, e de pensar tanto, e acima de tudo, amar tanto, para o bem e a para o mal, chegar a conclusão de que se está longe, bem longe do amor. Mesmo amando tanto e tão bem.

10/05/06
Luiz Antonio Ribeiro

27 abril 2006

vinte e quatro horas

"Não há porque voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez..."
Renato Russo

...aos poucos, junto com os primeiros raios de sol, ela foi se libertando do casulo. Aos poucos, a lagarta, que já era borboleta, ia se desfazendo de todo seu passado para um novo e breve futuro que se apresentava. Devagar, as asas foram se desprendendo do casulo, depois foi todo o pequeno e frágil corpo. Agora ela já era borboleta, mas não se movia, pois ser borboleta bastava. Agora ela era. O sonho de toda lagarta chegara.

Num silêncio da natureza, quase que mortal de tão nada silencioso, ela pela primeira vez mexe as asas. Foi um movimento de autoconhecimento. Apenas um chacoalhar. Porém, já mostrava suas cores: era linda, amarela, vermelha, com tons de marrom, mas não se podia precisar qualquer dominância entre as cores.

Depois de alguns minutos de sentir-se borboleta, ela movimenta-se de novo. Faz de uma maneira desajeitada, atabalhoada, mas segura. E quando menos se espera levanta vôo. Começa a conhecer tudo aquilo que sua intuição dizia existir, ou que então, algum descendente havia passado. Passeia por bosques, florestas, jardins, parques e folhagens. Passa por lindos lugares, experimentando essa sensação de voar, de observar o mundo e pela primeira vez, não ser observado. Sentia-se só, porém. Vivera sua vida só e agora que era linda, voava e tinha nela toda a maravilha da natureza, não podia permanecer assim. Alimenta-se e descansa em alguns lírios de um parque a hora do sol mais forte, e pouco depois sai em busca de companhia.

Nos bosques, encontra muitas borboletas, porém todas pareciam auto-suficientes e ignoravam seus apelos. Uma delas foge só de ouvi-la dizer: "você..." Descobre então, que não podia competir com aquele bosque, e vai-se para um parque. Lá encontra muita gente, correndo, andando de bicicleta, falando, gastando e comendo. Assusta-se com o tamanho da pessoa. Num canto, perto de um banco, vê um menino de calças curtas e camisa vermelha, sentado num banco com cara de choro. Aproxima-se, o posta-se ao lado dele. O menino olha, estica o dedo e a borboleta sobe em seu dedo. Ele olha para ela por alguns instantes e sorri, ela devolve-lhe o sorriso que ele não entende. Em instantes, ele tira o dedo e sai correndo em direção de alguns meninos. E a borboleta alça vôo de novo.

Num jardim, ela encontra apenas um beija-flor, que parece mal humorado e toma conta do local, ela tenta lhe dizer algumas palavras, mas ele parece nada sociável. Ela afasta-se e encosta próximo a alguns outros insetos. Todos excluídos. Havia ali, mosquitos, moscas e algumas mariposas, e ela a única borboleta, linda, sentindo-se só. Porém, os insetos incomodam-se com sua presença, e um a um voam para outro lugar e ela, tentando segui-los desiste e não vê para onde eles dirigem-se.

Anoitece, e a borboleta não está feliz. Nem triste. Está cansada. Sente um peso de uma vida que se tem e reclama de ter ganhado a vida que ganhou. Pois no fundo, ainda era lagarta, ainda era um ser como outro, ainda estava confusa. Não podia compreender essa metamorfose de nada a tudo, de feio a belo, não entendia ter que mudar por fora, quando a essência permanecia a mesma. Sem poder entender como era a vida de borboleta, ela enche-se de esperanças de poder descobrir isso nos próximos dias, já que estava borboleta a apenas algumas horas. Resolve então voltar para o casulo de onde saíra e lá, descansa. Dorme profundamente e ali fica para sempre. Mal sabia ela que borboletas só vivem vinte e quatro horas.

Luiz Antonio Ribeiro
01/07/05

07 abril 2006



Ela era a mais bonita da família. "Levem ela pra ser modelo", dizia uma tia velha insistente. Nada causava efeito até que a menina ganha o concurso de "Garota primavera" na escola. Disseram que ela possui talento, e a mãe resolveu, então, leva-la numa agência. "Claro." disse um olheiro olhudo, com as pupilas dilatadas, vendo dinheiro em seu futuro. A menina fez logo um book, e em pouco tempo já trabalhava para as principais empresas, ganhava um tanto de dinheiro que o olheiro deixava sobrar para ela, era cobiçava por muitos velhos tarados e invejada por alguns estilistas gays.

Fama, dinheiro, sucesso, beleza. Opa! O que todo mundo quer. Mas a menina não pediu nada, não perguntou nada e ninguém nunca chegou a se importar com o que ela pensava.

No entanto, ela continua andando e seguindo. Para onde? Para lá.

01 abril 2006



Não é por minhas mãos sujas de cansaço que me sinto abandonado. Não é por causa de minhas unhas sujas e roídas seguidamente, após crescerem insistentemente marcando o tempo que se esvai, que as vezes tenho impulsos de rebeldia. Não é por essas roupas velhas e por esse capacete que me esconde a cabeça e a inteligência que me sinto impelido a largar tudo e abraçar o inimigo. Nem é a saudade que quase sempre a noite me acorda do meu meio sono confuso que me faz pensar em desistir de tudo. Muito menos é por esse rifle, que em minhas mãos já causaram dor, mas que em minha companhia, já se fundiu em mim, criando um laço quase afetivo, que me lanço assim ao destino. De todas as dores, insistências, cansaços, sujeiras, descasos, mortes, infelicidades e saudades, o que mais me faz chegar no real sentido de onde eu posso estar é esse meu olhar.

Olhar que há muito já se foi, já não está em mim, já não reflete aquilo que sou, nem mesmo a radiante alegria de viver que tinha ao chegar aqui. "Defender a pátria" pensava eu. Um dia, talvez ele tenha visto que eu não defendo nada, apenas mato minha própria raça, a parte do mundo que é igual a mim. A gente não sabe construir uma coisa que está fora da gente.
Meu olhar, ou meu ex-olhar, perdeu o horizonte. Ele agora, vai solto, além dele mesmo, talvez viajando por campos, ranchos, bosques, parques, noites e dias. Não de paz, na minha utopia de vida, mas numa tranqüilidade serena de quem sabe que está vivo. Traze-lo de volta, talvez seja faze-lo sofrer um bocado mais, por isso ele se foi, e por isso eu deixei que ele se fosse. Ele já não dói.

À frente dele, uma trincheira que ele próprio não vê. Mas sei que ela existe, porque tenho a meu lado meus amigos. E por eles, meu pobre olhar enxerga. Meus companheiros de trabalho, de luta, ou cúmplices de nossos assassinatos contínuos em nome de alguma desconhecida paz. Ah, aventurado olhar que por perdido, ainda me mantém vivo.

Toca-se a trombeta, avisos de atenção. E em dois segundos estou a postos. Alinhamo-nos todos em fila, preparamos o ataque em alguém que em momento algum vai nos atacar. Sabedoria ou covardia? Já nem sei. Não fui trazido aqui para questionar. Corpo rígido, em forma. No lugar de um terço, aperto um pouco mais meu rifle, que torna-se quase sagrado, e sigo marchando. Entro num carro, me levam para outro lugar, onde em dois segundos começo a atirar. Levei um tiro? Isso é sangue? Caído estou, não tenho a noção exata, o barulho é alto e a correria também. Existe algum choro de criança por aqui talvez.

Não posso precisar nada, porque embora aqui esteja, meu olhar, que talvez seja minha alma, minha consciência, ou simplesmente uma parte minha perdida, já não está aqui. Sozinho, vaga por algum lugar bem melhor do que esse.

16 janeiro 2006

Ar-te

Genial por acaso
O feitor é reconhecido pelo que ele já não é
Tamanha é a ventura de uma primeira linha
Que o já sabido é desvio de sub-
consciência. Arte de quem não sabe
se é artista, o que é artista, e porque artista
Fazer por eletricidade e depois
Só poder reconhecer o fim da manifestação
Por vezes estética, outras tantas tecituras de idéias
O artista não faz arte, não tem nome
Quem o faz só o faz, sem saber
Há os que vivem, sem fazer e o são
Há os que não vivem porque o são
Há os que são sem ser.
No fim da linha do trem metafórico
somente há
E os artistas hão.

Luiz Antonio Ribeiro
16/01/06

12 dezembro 2005

joão

Era noite, joão andava pela rua sorrindo e assobiando uma canção, até que distraído, repara numa linda menina que cruza o seu caminho. Observando-a passar, repara nos detalhes de cada movimento dela, procurando por ali qualquer espaço para poder entrar. Nesse tempo que perdeu olhando sem parar de andar, acabou caindo em uma ruela escura, suja e abandonada. Tinha muita umidade, ratos passando e sussurros de dor. Não tinha saída, apenas uma linha amarelo florescente no meu do caminho. joão se aproxima da linha, quando uma voz, vinda do alto, com um som rouco de megafone diz:

-ao cruzar essa linha, você chega ao intangível, você chega ao impossível, você descobre a verdade, a inteligência e as cores do mundo.

Assustado, joão chega mais perto da linha, coloca seu pé próximo a ela e pergunta:

-É só cruzar a linha para chegar a tudo isso?

A voz forte, grossa e segura diz que sim. João, sem titubear cruza a linha. Aparece numa praça. Linda, gramada, com pessoas correndo e sorrindo. Ele está de mãos dadas com a moça que passara na rua. Estava apaixonado.

João nunca mais foi feliz.

Luiz Antonio Ribeiro
13/12/05

Esse texto tem uma sutil referência a um outro texto...descubram.

17 novembro 2005

Um capítulo de meu livro

XXI

Francisco entra no quarto e encontra somente a luz do abajur acesa. Regina está abaixada procurando alguma coisa em uma das gavetas. Ele se aproxima e se agacha pousando aos mãos na cintura dela. Ela sorri, sussurrando baixinho "o que você está querendo?". Ele fingi não ouvir, levanta-se e estende as mãos na direção da mulher. Ela agradece levantando-se. Lentamente, com as mãos dela pousada nas suas, ele as escorrega por suas costas, deixando as suas soltas para imitar o movimento, ela fecha os olhos por um segundo, como agradecimento à carícia. Ele aproxima-se beijando-a calorosamente. Ela sente os primeiros sinais corpóreos da excitação e interrompe o beijo, deitando sua cabeça no ombro dele que por sua vez começa a roças seus lábios na nuca dela. Com ela entregue, ele a leva na beira da cama e olhando-a percebe um gosto e um cheio agridoce no ar. A pele parecia pulsar, bolir, mover os corpos, expelindo hormônios.

Todo o ambiente parecia compor esse sonho, os tabus começavam a ruir. Os sentidos afloravam cheiros, sons, toques e fluidos. Ele passa suas mãos nas costas dela, primeiro por cima da blusa, depois em forma de carícia e mais lentamente, acha sua pele. Ela pousa a mão na parte interna da coxa dele. Ouvem-se sons, talvez música, talvez celeste. Novamente, os lábios se encontram num pedido. Outra vez, eles se distanciam num lamento. Olham-se, amam-se no olhar. O movimento das mãos dela revela, exprime a ação que ele aguardava, para suavemente, deita-la a cama. De baixo, ela clama que os sublimes e etéreos momentos universais venham e incorporem-se a esse amor que ela batalha todos os dias. Ele, pedia a Baco, que todos os amores dele se concentrassem somente nesse instante. Despem-se, acariciam-se, tornam-se um e de toda a ação em seu leito nupcial a vista é de apenas uma das mãos, que ela ergue, com os punhos cerrados, contraídos. Os movimentos ganham ritmo e assim como as peles, começam a pulsar, a bolir e a reclamarem-se cada vez mais. De olhos fechados, ou abertos, eles de longe vislumbram a perfeição. Encontram-se num campo azul e vermelho, quente, cheio de gente, suado, ventante.
Vêem flores cor de laranja, amareladas. Nuvens, amendoins, vozes. Pedidos, chamados, clamores. O ritmo acelera-se, cada vez mais e mais rápido, as pessoas encontram-se, falam-se e saem, o tempo esquenta, vão ficando os dois, sozinhos, despidos, vislumbrando todo a ação do mundo. Sentindo os prazeres fugazes, que todos os poetas sempre disseram existir. O êxtase está próximo, os movimentos da pélvis dele, esquenta os dela. Estão no fim, no começo do mundo, a pele já não basta, o corpo já não pensa, a mente, que mente?. Tudo é movimento, tudo é corpo, tudo é calor, é suor, é despudor, é amor, é pele. Um grito:

Mãe...vem cá.

Interrompem. Olham-se. Um beijo. Mas já é tarde. Ele penetra-a de novo e depois de alguns instantes, eles encontram Deus. O momento sublime do sexo. Orgasmo ou gozo. Juntos. Eles tinham razão, o céu é o limite.

Ele a beija, vira-se. Ela vai Ter com o menino no quarto ao lado.

Queria água, só. E o dia dormiu.

03 novembro 2005

Acho que sou eu

Minha mãe Édipiana
Achou um pai Vitoriano
E o casou catolicamente
Amaram-se a lá Baco
Esperaram como Penélope
E encontraram como Alice

E eu nasci como Clarice
Com uma festa de Dionísio
Que eu dormi à Cinderela
Onde sobrei como Estorvo

Assim, o pé de feijão cresceu
Porém, sem galinhas de ouro
No entanto, com muito de Eisntein
Nieztsche, Marx, Sartre
Agia como Dom Pedro, o primeiro
Ou como Cazuza, ou como Rimbaud
Fôra maldito um tempo...

Ora, a vida é juntar Josés
Um Silva daqui, ou Souza de lá
E aos poucos foi se formando um ser
Que com tudo isso, mais eu sozinho
Carente, sem Deus, com alma
Tornou-se um alguém
Um Luiz

Luiz Antonio Ribeiro
4/11/05

30 outubro 2005

O amor é camaleão

Cazuza diz: "O mundo é azul..qual é a cor do amor??"


Ziul_ disse:
qual a cor do amor?
1963 what's that sound? disse:
uhn?
Ziul_ disse:
qual a cor do amor?
Ziul_ disse:
vc sabe?
1963 what's that sound? diz:
verde

*** *** ***

Ziul_ diz:
qual a cor do amor?
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
tosa
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
rosa*
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
entao respondi errado
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
pq segundo o esoterismo
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
a cor do amor seria rosa
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
segunda as minha
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
crenças
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
o amor nao tem cor
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
ele eh colorido ao msm tempo por todas as cores
Morena { Juju Diesel } [Popu] ----- diz:
e todas despertam o msm desejo de amar

*** *** ***

Ziul_ diz:
qual a cor do amor?? responda-me
bitch diz:
azul
bitch diz:
;}

*** *** ***

Ziul_ diz:
qual a cor do amor??
Mari Mascheroni diz:
Rosa
Mari Mascheroni diz:
porque?
Ziul_ diz:
soh uma pergunta
Ziul_ diz:
isso eh o q vc acha?
Mari Mascheroni diz:
É o que é..vermelho é SAUDE
Mari Mascheroni diz:
pra mim tenho certeza q é rosa

*** *** ***

Ziul_ diz:
qual a cor do amor??
Lívia~.Amo. diz:
sei lá.
Lívia~.Amo. diz:
pqw?
Ziul_ diz:
qual a cor do amor?
Lívia~.Amo. diz:
=/
Lívia~.Amo. diz:
pqw karamba?
Ziul_ diz:
responde..pergunta simples
Lívia~.Amo. diz:
não tem cor

*** *** ***

Ziul_ diz:
qual a cor do amor??
Hibou Blanc diz:
cinza
Ziul_ diz:
obrigado

*** *** ***

Ziul_ diz:
qual a cor do amor??
......Dinhu...... diz:
a cor q vc quiser o amor e seu e a cor tb

11 outubro 2005

Eu não dou nome à minha vida...

Entre bandido. Não tenho armas aqui. Eu votei sim. Leve tudo, fique com tudo. Não preciso de nada disso para viver. Não tenho o seu desespero pelas coisas materiais.

Eu voto sim e essa discussão leva dias. Sinceramente, não vale a pena me defender. Não possuo nada que me seja indispensável. Minha vida, são cartas, que pouco a pouco, de risco em risco, sorriso em sorriso e dia a dia, vou perdendo. Não preciso dormir com medo de bandidos, porque tenho o coração de quem vive por amor a vida, não por medo da morte. Sobreviver não é necessário, viver sim. Se quiser vir aqui, me roubar e me matar, eu morro. Um dia o mundo há de parar de se matar.

Eu voto sim, porque na pior das hipóteses, o país entrara em caos. Bandidos invadirão casas, roubarão tudo, sairão matando e destruindo. O tráfico vai assumir o governo. O sistema se corromperá de vez e os valores se inverterão. O domínio do país, será de quem tem mais capital e de quem tem as melhores influências. Na escola, crianças cantarão: "Atirei o pau no gato to to...mas o gato to não morreu reu reu.. então peguei ei ei, meu três oitão ão ão...e dei um tiro, outro tiro, na cabeça do bichão. MORREU!" A rede globo apresentará Willian Boner com o discurso: "Felizmente, morre hoje o ídolo Chico Buarque, vítima de tiro, ao tentar ajudar uma criança." Enfim, esse caos em que o Brasil se transformará, talvez crie no povo finalmente, um sentimento ufanista. Nós nos juntaremos, todos, e juntos pegaremos pedras, pedaços de paus e iremos para as ruas, gritar, pedir, quebrar. Faremos a nossa revolução de paz, lutaremos pelo nosso sistema. Porque é no limite extremo de tensão é que se faz a transformação. Das duas uma, ou morreremos todos e não existirá povo para ser governado, ou nós mesmos assumiremos o poder, reconstruiremos nossa terra da forma que quisermos, com o sistema que nos parecer ideal, e assim, estaremos aptos a eliminar qualquer dos aproveitadores que venham a aparecer. Porém, toda essa hipótese não parece muito real, não é?

Eu voto sim, pelo sim. Tenho asco a arma. Sim, eu defendo a vida. Eu morro covarde, mas não morro empunhando uma arma na mão. Mesmo que eu fique vivo e mate o bandido, em que construo um mundo melhor?

Será que eu preciso tanto da minha TV, do meu computador, do meu dinheiro guardado, deus sabe para que?, será que o microondas, o forno, o ferro, a casa, o carro valem tanto assim? Será que minha vida é mesmo a coisa mais importante que eu tenho, a ponto de me fazer matar outro, que com certeza, ao contrário de mim, não nasceu com dinheiro, teve fome e passou por dificuldades que não justificam o seu ato, mas sim, são causas dessa conseqüência?

Talvez um dia a gente aprenda que o mundo não é a gente, mas sim, todo o resto menos a gente. Temos de pensar nesse todo, porque a gente não mata, mas o mundo sim. Sabedoria, nessa caso, é separar de si e ver o que é melhor para o país num futuro distante de 100 anos. O que será melhor? Que incentivemos a manutenção de mortes, ou que pouco a pouco, morrendo, salvemos a vida? Sim, porque as vezes, salvar a vida, também significa morrer.

19 setembro 2005

Amor em prosa moderna

"Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção.
Aonde está você agora
Além de aqui, dentro de mim?"
Vento no Litoral – Renato Russo



Ele gostou dela desde que passou a gostar. Ela gostou dele desde quando passou a ser gostada. Assim, foram se gostando como se gosta quando criança: correndo juntos no parque, escrevendo nomes ainda tortos em árvores, contando segredos aos amigos mais velhos e ao vendedor de pipoca, ajudando nas provas bimestrais, dando cola quando necessário, ficando junto sempre que possível. E desse modo, ele foi gostando e sendo gostado por toda a infância e pré-adolescencia.

O tempo que passa fez ele repetir de ano e mudar de colégio. O tempo que passa fez os telefonemas rarearem. O tempo que passa fez os encontros extinguirem-se. O tempo que passa fez as árvores com nomes serem cortadas e virarem mesas de bilhar. O tempo que passa fez ela mudar de cidade e não deixar contato. O tempo que passa fez ela deixar de gostar dele. O tempo que passa fez ele também esquecer dela.

Ficaram as referências. Ele para sempre teve como referência de mulher bonita todas as baixinhas branquelas de cabelos pretos e com algumas sardas, se possível. Tímidas, silenciosas, sarcásticas, de uma sabedoria calma. Mulheres que rissem, muito, mas nunca escandalosamente.

Pouco mais velho, chegando no Ensino Médio, ele gosta sem ser gostado de uma roqueira inteligente, rebelde, engraçada, tímida, maluca, quase sem rumo na vida, ou um rumo ainda desses que a gente se perde. Uma menina sem regras e com muito sono. Uma menina fraca e frágil. Ele gosta até o limite de poder gostar sem gostado e a mulher que nunca ia lhe amar era insistentemente seduzida.

O tempo que passa fez ela sair da vida dele. O tempo que passa fez ela voltar. O tempo que passa fez ele fugir dela. O tempo que passa fez ela mandar cartas ignoradas. O tempo que passa fez ele aprender a viver só. O tempo que passa fez ela desistir e encontrar alguém. O tempo que passa fez ele esquecer dela e depois lembrar. O tempo que passa fez ele voltar. O tempo que passa fez ela perdoar. O tempo que passa fez ela desistir de tudo isso. O tempo que passa fez ela fugir dele. O tempo que passa fez ele obrigar-se a esquecer.

Ficaram as referências. Ele passou, então, além de gostar das baixinhas branquelas tímidas, silenciosas e sarcásticas com cabelos pretos e com algumas sardas, também gostar das roqueiras inteligentes, rebeldes, engraçadas, tímidas, malucas, sem regras e com muito sono.

O tempo que ainda estar por vir há de passar, há de marcar, há de ficar, há de doer e há de passar. O que fica são as referências, as saudades, as memórias e as lembranças. O que dói são as feridas, as derrotas, as tentativas e os prazeres. E para frente é viver e somar referências, até que um dia, sem Ter mais para onde se procurar, resolva-se a amar e ser amado. Só.

Luiz Antonio Ribeiro
20/09/05

08 setembro 2005

Juro...

"Fique magoado, não por me teres mentido, mas porque eu não posso mais acreditar em ti"

Friedrich Nietzsche

Confiança. Palavra dura, bela, simples, equivalente ao mais puro sentimento. Sinto-a como uma força que nos empurra a entregar o nosso lado mais fraco a outros, na esperança de que esses me entendam e me confortem . Espero sempre que ao contar um segredo, eu estico uma corda, que amarrada a meu braço, amarra-se também ao braço do outro, e faz-me um pouco a parte dele. Por isso, tenho prazer especial em ouvir os segredos alheios, pois essa impressão elo, acalenta-me o sentimento de solidão. Confiar/ser confiável, tem pra mim a força encontro, de um abraço, de um beijo, de alguma coisa que fica guardada pra sempre, ou por tempo indeterminado, até que esse elo venha a ser cortado.

Acontece que muitas vezes, Ter um aliado, uma pessoa que se confia, enfim, Ter uma corda amarrada junto a si, na forma de amigo/irmão/namorado, seja o que for, gera um desconforto de perda de liberdade, quiçá uma sensação de ser perseguido, ou ser responsável pela vida de outro. Num dado momento, você se sentindo preso, faz por um ato simples de libertação a ação mais repudiável da sociedade desse tempo: a mentira, a traição, ou a quebra da confiança. Esse ato, funciona como quebra da corda, como libertação e voltar a ser um ser novamente livre, passível de erro e independente. É uma ato quase desesperado de tentar tirar de você o outro, que insiste em ficar a seu lado sorrindo, chorando e, principalmente acreditando.

Aí, vem a complicação da história, as confusões e o desfecho, mas aí, já não é interessante e muito menos confiável.

Luiz Antonio Ribeiro
09/09/05

05 setembro 2005

Criado mudo da casa da Luz

A: O que é um criado mudo?

B: É tipo uma mesinha de cabeceira.

A: Ah, pensei que fosse seu amigo mudinho contratado como empregado...

B: É...podia ser.

A: Ou então uma pessoa que é muda que foi criada por alguém.

B: É...podia ser também.

A: Ou então, uma neném que é criado sem poder falar...criado só na linguagem dos gestos, daí é um criado mudo.

E eu não parava de rir.