30 julho 2011

meu problema com clarice



Não posso dizer que não gosto de Clarice Lispector, mesmo porque “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” é uma das obras mais sublimes que já li. Posso, entretanto, dizer que tenho um problema com ela, algo ideológico, filosófico, estrutural.
Primeiro de tudo, acho que o autor deve, ao escrever, tomar todo o cuidado para não ser mal lido. É preciso mão firme na escrita afim de que o leitor desavisado, romântico de final de semana, não apreenda sua obra para fins duvidáveis como afogar uma mágoa, dar recados semi-amorosos ou qualquer sentimentalismo do tipo.
Segundo, meu lado materialista me leva a pensar na relevância dessa viagem interior. Até que ponto ela gera independência ou até que ponto ela é alienante? De cara, uma viagem para o auto-conhecimento me parece apenas alienante e, por conta disso, não leva a nenhum tipo de consciência social, política, ou algo que contribua aos outros. Por outro, é possível que na mudança de um em efeito dominó mude-se todo.
Enfim, me debato. Por via das duas implico com a pobre Lispector, que pouco tem a ver com minhas elocubrações a seu respeito. A verdade é que o consumo transformou Clarice em uma conselheira amorosa, assim como transformou a frustração em motivo para se gastar dinheiro. É assim que funciona: enquanto houver consumo, haverá felicidade. E o que há além? O amor, ou ele é mais uma parte dessa ordem do consumo?
Sinto-me velho ainda com essas discussões, mas me reservo o direito de não recomentar Clarice Lispector a qualquer um...pode ser prejudicial.

28 julho 2011

O flamengo, o futebol.






No decorrer da minha breve-longa vida já fiz muitas homenagens ao Flamengo. Parece-me, no entanto, que é sempre pouco, sempre menos do que ele me dá. Talvez porque paixão não se explica e não se homenageia, talvez porque eu nada pedi dele e porque ele nunca me pediu pra ser gostado. Acontece o que acontece e nossa parceria é eterna e eu preciso falar disso.
Quando meu time entra em canto parece que estou numa batalha e os jogadores são gladiadores que entram em canto pra defender a honra de um país. Parece que ouço trombetas soar e escuto a marcha da companhia e eu, do meu lado, mesmo que longe, preciso apoiar, preciso apontar meu coração pra eles, a fim de que tudo corra bem e que saiamos vitoriosos.
Aí acontece às vezes, bem às vezes, do Flamengo tomar um gol. Olha, minha cara vai lá embaixo, quase me sinto derrotado. Tento não ver o gol, tento não falar. Parece que resumo minhas necessidades físicas ao básico pra que aquele sentimento passe rápido e volte a ser aquele anterior, da luta, da batalha, da raça...
Mas quando meu time faz um gol...aah, quando ele faz um gol é a maior alegria do mundo. Salto da cadeira, pulo grito, soco parede, abraço quem estiver por perto e grito gol como se fosse meu e louvo o artilheiro como se fosse um rei. Aquele momento pequeno, fugidio, etéreo fez as maiores alegrias da minha vida. Ouso dizer que o Flamengo nunca me abandonou, nunca me decepcionou. Uma vez, em um título, liguei pra casa chorando, falei com minha mãe e ela: “calma, meu filho, calma.” Ela entendeu, ela entendeu o que quase ninguém entende. O futebol é irracional, por isso, belo. O futebol é um espetáculo teatral, é o melhor teatro do mundo. É o que o teatro, o cinema e a literatura tentaram ser e não conseguiram e o Flamengo...o Flamengo é o maior gênio, o ídolo, a estrela dessa grande arte. A primeira no meu coração, a primeira no meu país Brasil. Alienante? Alienante é parar de falar e pensar, enquanto houver gente falando, gente pensando, o futebol vai ser uma paixão. E quem vai dizer que paixão acaba rápido?

27 julho 2011

teatro por crianças: a bolsa e a passarela




Cena sem Palavras I

Quatro meninas: duas modelos, uma fotógrafa e uma assaltante. O cenário é uma passarela, um corredor com um tapete vermelho. Menina um desfila na passarela com uma bolsa. Para em frente à fotógrafa, faz poses, sorri. Vai até ao outro canto da cena, olha para a platéia, faz poses, sorri. Vira-se, vai até o fundo da cena, entrega a bolsa para menina Dois. Menina Dois desfila na passarela com uma bolsa. Para em frente ao fotógrafo, faz poses, sorri. Vai até ao outro canto da cena, olha para a platéia, faz poses, sorri. Vira-se, vai até o fundo da cena, entrega a bolsa para Menina Um. Menina Um desfila na passarela com uma bolsa. Para em frente ao fotógrafo, faz poses, sorri. Vai até ao outro canto da cena, olha para a platéia, faz poses, sorri. Vira-se, vai até o fundo da cena, entrega a bolsa para Menina Dois.Vira-se, vai até o fundo da cena, mas muda de ideia, resolve dar um último aceno para a platéia. Escorrega e cai, deixando a bolsa cair no chão.
Menina Assaltante entra, sobe na passarela, pega a bolsa e ameaça sair. A fotógrafa, no entanto, tira uma foto sua que prontamente desiste do roubo, deixando a bolsa caída no chão e resolve desfilar também. Para em frente ao fotógrafo, faz poses, sorri. Vai até ao outro canto da cena, olha para a platéia, faz poses, sorri. Quando se vira, vê Menina Um e Menina Dois estão disputando a bolsa. Corre até elas e entra na disputa.

As três formam um triângulo, cada uma segurando uma ponta do objeto. A fotógrafa olha para a platéia, dá um sorriso, uma piscada e tira fotos das três que sorriem para a câmera. De súbito, caem. A fotógrafa rouba a bolsa e sai. As três, frustradas, ameaçam correr atrás da fotógrafa, mas desistem.

Saem, cada uma para o seu vértice do triângulo. A luz se apaga. Vê-se apenas a câmera fotográfica caída ao chão.

25 julho 2011

Da minha Janela



Da minha janela eu vejo o ocidente. O passado e o futuro em perspectiva renascentista, um à frente outro atrás, mesmo sem saber qual dos dois vem primeiro. Vejo sudokus e mangás: kamikazes sorridentes que dizem arigato. Da minha janela não vejo a rua, mas sei que ela é pálida, ríspida, melancólica e turbulenta. Eu vejo a rua como um cara, maneiro e sorridente, malhado e sexualizado. A rua é uma criança, tal como o ocidente. Da minha janela eu vejo muitas coisas: continentes e países. Vejo muitos oceanos não muito pacíficos, mas na maior parte do tempo voyerísticos - que nos olham sempre que os olhamos com fetiche. Da minha janela vejo muitas coisas que tenho preguiça de dizer, uma preguiça ocidental de dizer o que vejo da minha janela. Porque dela vejo um espelho, ou até mais, da minha janela vejo outra...

24 julho 2011

o turista

Algumas abstrações se concretizam. Pensei agora na noção de “turista”. O turista, na abstração, é um ser que se desloca de um espaço para outro apenas para visitar por um curto espaço de tempo e depois retornar para aquele que é seu espaço. Assim, seres de outros lugares visitam a casa do morador e o morador quando vai à casa dos outros, torna-se o turista. Logo, ninguém é turista, a noção é vaga e exprime uma certa noção de deslocamento no espaço.
Comecei a tentar enfraquecer o termo. Qual o papel do turista? Lazer, cultura, diversão? Os três? Então, um Museu com ampla visitação turística pode se dizer que é uma construção apenas para essa parte da população? Então a cultura que o Museu representa é construída para um outro? E porque nós vamos ao Louvre e tiramos foto e vemos o valor enquanto que o Museu da esquina não é visto?
O turista quer lazer, vai a restaurantes, mas será que vai aos mesmos que os moradores? Ou o turista tem points diferentes? Na diversão a mesma coisa acontece? Começo a pensar no turista como uma fanstamagoria, como um ser inexistente, invisível, que movimenta a economia sem que a população perceba que ele lá está, ou então, se percebe trata de ignora-lo, fingir que não percebeu. Aumento essa noção para as construções para turistas: uma praça longínqua, um restaurante pra turisa, uma loja de souvenirs nada mais são que sombras, fantasmagorias, espaços urbanos da cidade que inexistem, porque não é feito para uma pessoa ou para um público. Ele leva em conta a concretização da abstrata noção de turista para existir e sobrevive de um público que é absolutamente desconhecido e impossível de se capturar.
Passa-se pela noção de exótico. Aquilo que é diferente do nosso necessariamente deve chamar atenção. Portanto o mercado, e provavelmente a faculdade de turismo pensa muito isso, precisa se voltar para esse ser abstrato e acéfalo que é o turista afim de explora-lo o máximo possível. Alguém que mede os gastos em restaurantes na sua cidade, como turista perde a capacidade de percepção e se faz disposto a gastar mais. O mercado explora o turista que não existe.
É interessante como se criam categorias inexistentes e ainda assim o sistema dá um jeito de transformar isso em mercado. E o turista, esse fantasma de qualquer cidade, passa a ser um ser importante, mesmo que não seja ninguém.

argumento para um filme

Um jovem artista começa a fazer sucesso como ator. Em um evento de um canal de TV, ele vê uma moça e se apaixona por ela, no mesmo momento, seu pai e empresário sofre um acidente e é assassinado. Uma mulher um pouco mais velha que ele se aproxima, e o ajuda a superar esse momento. Eles se casam, mas o jovem nunca esquece a moça da juventude. Anos depois, perto dos quarenta, ele descobre uma doença rara em sua esposa e com isso começa a descobrir pequenas falhas no seu passado.

No momento da morte ela reconhece que foi paga para os dois ficarem juntos, que o assassinato de seu pai fora planejado pelo canal de TV. Ele pergunta sobre a moça, a esposa morre. O jovem, agora velho, vai ao canal de TV e, no momento que entra no ar, começa a fazer uma breve explicação sobre o que acontecera. O canal sai do ar, ele vai até a direção e explicam-nos que nada daquilo fora planejado por eles, mas por um diretor que já havia morrido e que ele nada poderia reclamar porque aquele canal lhe tornara famoso, rico, o homem mas bem sucedido e querido do país. Ele sai xingando a todos, pega tudo que é seu e sai da empresa. Na porta, encontra a moça de anos atrás. Os dois casam.

Corte de tempo evemos a moça sugerindo que ele volte ao canal. Ele diz que voltará e pergunta se ela também foi paga. Ela diz que sim, que foi paga, mas há 40 anos atrás.

22 julho 2011

pra ela três

cândice,
feliz e bela,
como na foto de criança
que eu tenho em minha estante;
e nem por um instante
eu faço jus a tua dança.

e quando chora
- se é que teu choro é choro -
penso que nada mais há:
a felicidade tranparente
sobrevive a custa de ti.

aí te vejo triste e não entendo
do que é que se fez o mundo.
Encerro qualquer contato com a realidade
e minha poesia se aproxima da prosa
sem a cor de uma estrofe anterior

Se está triste
é que alguma coisa deu errado
nos planos de Deus.
Se está triste
é que está faltando
um pouco de ti
nos braços meus.

21 julho 2011

o buraco

Já vinha eu falar de outra sensação por aqui. Agora é a sensação de terminar de ler uma obra-prima. Acontece que um outro pensamento me bateu: Por que escrevo tanto sobre sensações?
Não sei, escrevo pra pensar. Eu sou um materialista praticante e, justamente por conta disso, percebo que as sensações me escapam. São reações químicas que produzem resultados absolutamente indescritíveis, que estão no campo do sublime, coisas que nos tomam e quase ganham vida dentro de nós. Quando uso a palavra coisa, uso de propósito, a sensação é uma coisa, porque é uma matéria invisível que sentimos passar por dentro de nós e como vem, atravessa e sai, deixando um buraco.
O buraco que a sensação passa talvez seja o problema. Acho que escrevo sobre esse buraco. Ele fura nossa razão, nosso raciocínio lógico, mas não coloca nada no lugar. É como se ele tirasse uma viga de um prédio que permanecesse em pé, mesmo que cambaleante. Esse buraco precisa ser preenchido novamente. A maioria das pessoas se reveste de queijo suiço de pequenos buraquitos que viram quase caminhos de formigueiro. Outras pessoas escolhem uma pessoa pra fazer o buraco: o amor, e nisso se tornam superficiais. Quem ama demais, não pode sentir muito amor, as duas coisas se excluem.
Acho que descobri então, deixa-me resumir: sou materialista, mas com sensibilidade, então as sensações abrem buracos na minha existência e esses buracos desestabilizam aquilo que sou, portanto preciso preencher esse buraco para me manter em pé e dar sentido às coisas. Minha forma de dar sentido é escrevendo justamente sobre esse buraco que se torna algo como uma peça de cristal ou uma planta que cuido.
Saber que existo é bambear pelo buraco das sensações sem nunca me deixar ceder, pois ceder ao buraco é fraquejar. É entrar na armadilha e na mentira que as sensações montam: elas devem desestabilizar para criar ou um outro ser e esse outro ser tem responsabilidades e não pode ceder ao primeiro poço dos desejos que vê.
Poderia agora escrever sobre a sensação de um livro, mas não, acho que já disse o que tinha pra dizer.

18 julho 2011

casa nua

Conto-paródia baseado em "A calça secreta" de Machado de Assis

Aos seis, sete anos, eu vi um cavalo, um cavalo de corrida.Senti então que não há ninguém mais nu do que certos cavalos."
Toda Nudez será Castigada- Nelson Rodrigues


Estão Garcia, Fortunato e Maria Luísa imóveis na sala. O primeiro, desatento e quieto no sofá; o segundo de frente para a janela; a última contemplando os outros sem se dar conta da gravidade da situação. Sofre. A questão é: Garcia está pelado.

Voltemos para o início dessa complexa rede de relações a fim de tentar entender o que se passa naquela sala de um subúrbio carioca.

Garcia estava para se formar médico, quando um dia, embriago, tombou em frente a um ponto de ônibus e adormeceu. Acordou vomitado e no caminho de casa passou por uma estranha figura que ao sentir seu cheiro abriu os pulmões, sorriu e não se conteve. “Que belo dia!”, disse.
Alguns dias depois, na porta de um bar, viu passar a mesma estranha figura amparando um homem de muletas.

Ele caiu, dizia sorrindo.
Obrigado pela ajuda, dizia o manco.

Pouco tempo depois, a figura reapareceu com a roupa suja de sangue. Entrou no bar, pediu uma bebida e olhou inquieto e pesquisador para os lados.

Fortunato, disse se aproximando de Garcia.
Garcia, disse se apresentando à Fortunato.

Beberam juntos. Fortunato conversava desenvoltamente. Era um homem culto, citou até uma foto de Fernando Pessoa onde o poeta aparece em um bar e logo abaixo a dedicatória: “Fernando Pessoa em flagrante de litro.” Riram. Garcia perguntou do manco e Fortunato mal parecia se lembrar do caso.

Não lembrariam de mais nada. Acordaram na mesma cama, pelados e de banho tomado. Estavam na casa de Fortunato e só perceberam depois que entrou Maria Luísa no quarto.

Minha esposa, disse Fortunato.

Garcia, constrangido, se calou, pensando na estranheza daquela cena e na exposição de seu corpo perante a esposa de um semi-desconhecido: “Ela me viu pelado, o que será que achou?”
Maria Luísa trouxe o café da manhã. Os dois comeram, se vestiram e Garcia foi embora, prometendo voltar com um presente de desculpas. O casal agradeceu.

Na semana seguinte, Garcia voltou à casa trazendo consigo três entradas para o teatro, um ramo de flores e um whisky. Dirigiu-se até a porta dos fundos, por onde saíra no outro dia. Da janela viu Maria Luisa pelada. A moça se assustou, tampando-se, mas logo sorriu e mexeu a boca dizendo algo que ele não percebeu. “Estamos quites, deve ser”, imaginou Garcia.
Manso a manso, entrou-lhe o sexo no coração. Garcia correu até a cozinha e perguntou por Fortunato.

Está matando um rato no laboratório, disse Maria Luísa.
Então não demora.
Que nada, ele mata bem devagar.
Mas é um rato, não um elefante.
É que meu marido é milimétrico ao matar.
Que bom, eu não gosto de ratos.
Nem eu.

Fortunato entrou na cozinha à procura de um copo d´água. Viu um vulto passar em direção à sala. Seguiu. Encontrou Garcia completamente pelado e Maria Luisa normal, vestida, com uma bandeja de café na mão.

O que se passa aqui?, perguntou Fortunato.

Um silêncio se fez. Estamos de volta exatamente no início de nossa narrativa. Fortunato na janela, Garcia pelado no sofá e Maria Luísa, atônita, sem entender, de pé.

Hahaha! Você só entra na minha casa pelado?, disse Fortunato sem se virar.
Acontece, acontece.
Dessa vez qual a sua explicação?
Eu...eu..., Maria Luísa tenta se explicar.
Silêncio. Quero ouvir o que o quase Dr. Garcia tem a dizer.
Vinha trazendo esses presentes: as entradas para o teatro, um ramo de flores e um whisky quando...

Durante a narrativa de Garcia, Fortunato foi tirando uma a uma suas peças de roupa. Ouve atentamente, mas sem se importar com as palavras que por ali passam. “Ele não sente nada”, pensa Garcia, nervoso, suado. Quando o amigo termina, Fortunato completamente pelado se aproxima.

Levante-se.
Como?
Levante-se agora.

Com os dois em pé se pode ver como Fortunato é maior que o outro. Tem os ombros maiores, as costas mais largas, as pernas mais grossas. Em um gesto brusco, Fortunato levanta os braços, Garcia ameaça se defender, mas ganha um abraço do amigo.

A partir de agora, você só entra aqui em casa pelado. É uma ordem. E assim que eu o vir, também vou tirar a roupa. Não podemos mais nos ver de outra forma, combinado?
Garcia retribui o abraço, meio de lado, com medo de que seus membros se toquem. Está acuado pela grandeza do outro, mas também pela inusitada decisão que acabou de tomar. Não pode negar um trato sob tais circunstâncias.

Fortunato abre o whisky, serve dois copos e pede para Maria Luísa buscar gelo. Quando ficam sós, ele chama Garcia e tira de uma gaveta uma foto. É a de Fernando Pessoa no bar. Riram.
Imagina ele pelado, diz Fortunato.

Prefiro não, diz Garcia.

Embriagam-se. Dessa vez, Garcia não dorme lá. Vai por volta de duas da manhã bastante alterado. Sai pela porta dos fundos e na escuridão desaparece. Nunca mais voltaria àquela casa.
Assim que Fortunato dormiu, Maria Luísa voltou à cozinha, olhou em volta e sem qualquer fragmento de sentimento, saiu pela porta dos fundo. Na escuridão, sem levar absolutamente, desapareceu. Nunca mais voltaria àquela casa.

Na manhã seguinte, um pouco antes dos primeiros raios da aurora, Fortunato acordou e viu a cama vazia. Desceu e nem ao mesmo tentou entender. Saiu pela porta dos fundos e, aos primeiros raios de sol, desapareceu. Nunca mais voltaria àquela casa.

A casa, agora vazia, permanece lá e há um silêncio tão grande atravessando os cômodos, as portas, os objetos, que parece que nunca mais nenhuma palavra, nenhum som sairá daquele lugar.

28/04/2011

17 julho 2011

Domingo de manhã

Virou mania. Eu sei é chato, mas é mania, me desculpem. Preciso falar de algumas horas do dia pra poder entender esse cotidiano absolutamente descolorido. Domingo de manhã tem duas opções: ou você está de ressaca e acorda podre, com a cabeça explodindo, o estômago com um vulcão dentro, com a luz ofuscando qualquer rastro de entendimento e assim será parte do seu domingo, ou você acorda razoalmente cedo, mesmo que bem mais tarde que os outros dias e olha para a janela, as montanhas ou a praia, o céu azul ou branco, e se reiventa, pensando que hoje é um dia de descanso.
A sensação dura até o almoço ou até você ligar a televisão pra ver fórmula 1, volei de praia ou futebol de salão.
Domingo de manhã não é nada. Absolutamente irrelevante. Se possível, mantenham-se dormindo até o meio-dia.

16 julho 2011

as sensações racionais do dia 13

Esse texto é pretencioso, porque leva em conta o fato de que vou morrer bem velho. Resolvi escrever agora para que lá no futuro eu volte aqui e lembre do que senti ao receber a nota mais importante da minha vida.
É uma mistura de surpresa com certeza. Eu fiz por onde, eu corri atrás, passei dias lendo texto geniais de pessoas sofridas, às vezes suicidas, que pensaram a dor do mundo, ou mais, pensaram o porquê da dor do mundo. Fiz por onde e entendi, senti junto com esses caras, e fui pra aula sozinho, tentar entender como aquilo se desdobra na vida cotidiana das pessoas.
A emoção é bastante grande e não consigo traduzi-la e, logo depois, meu superego salta, dizendo: "como você vai ficar feliz sendo que você escreveu sobre um autor que sofre? Um autor que pensa o mundo dizendo que a infância é medonha e que não vamos encontrar maneira de nos relacionarmos e seremos adultos errantes e que vivemos em um grande teatro mal assombrado onde interpretamos uma má dramaturgia sem final feliz? É esse meu tema e como posso comemorar isso? Devo, mas não posso.
Aí vem uma coisa ruim. Me senti um nazista que não vê o sofrimento, que torna a vida uma estatística e, racionalmente, é cruel com os corpos. A verdade é que a sensação boa vem de redimir o autor que sofre o mundo, dizendo: "olha rapaz, te li, te entendi, compartilhei e quis saber mais desse teu mundo" e depois dizer: "o meu mundo é o teu e ninguém ou muito pouca gente vai chegar até ele" e depois: "pouca gente vai chegar até ele, mas todo mundo sofre esse teu mundo."
Uma voz agora me diz: "Existe deus pra isso, pra confortar". E sério, há algum conforto nisso tudo que eu disse? Apelar a deus depois disso tudo seria uma atitude covarde e de falta de caráter da minha parte: entender o problema, ir fundo e entregar pra deus.
É essa minha sensação, Luiz velho e chato. É essa. E no meio da confusão, te digo, é uma sensação muito boa, até quando ruim. Pode abrir uma cerveja aí, camarada, porque mesmo depois de tanta ressaca, eu sei que depois disso você vai precisar beber...

09 julho 2011

os cus de judas



Acabei de ler Os cus de Judas. Digo que não gosto de narrativas a partir de fluxos de consciência, nem da associação caótica de idéias. Sinto-me geralmente que se entrega ao acaso a criação artística, algo que, pra mim, precisa de uma mão forte e um alto investimento de controle da mão do autor.
Lobo Antunes é obviamente um homem que domina a linguagem poética, mas pra mim, esbarra às vezes nas imagens óbvias, na tentativa desesperada de poetizar tudo. O contraste entre linguagem poética e experiência seca é interessante, mas em alguns momentos resulta em palavrórios que não rumam a lugar nenhum.
A constante repetição de termos e imagens em determinado momento me cansou e, a partir daí, me tornei blindado às experiências que ele queria transmitir. Seu pênis ficava duro em cada capítulo e se pensava em mijar, cagar e em sangue, assim como em pedaços de feridos e copos de whisky. É o clichê da experiência poética da guerra. Há quem diga: "mas ele fala examente disso, da banalização da mutilação e da morte." Eu digo que a banalização só pode vir com a linguagem banal, que a linguagem poética eleva o acidente, dando-lhe tonalidades heróicas.
Enfim, é um livro interessante de ser lido, mas não é algo que me venha a encher os olhos...

sensível

O artista pra lá, o artista pra cá. Muito se fala do artista, muita gente se considera artista sem o ser e muita gente o é sem ao menos fazer arte. Não quero entrar nesses méritos nem analisar as sutilezas da questão. Meu ponto é pequeno, quase não cabe em um texto: o artista não pode ser sentimental.
A sentimentalidade sobrevoa a pessoa, passa por cima dela e fica por ali vagando, sem deixar que se olhe o mundo com a frieza necessária para se fazer arte. Há quem diga que arte é transbordamento, é deixar a mão fluir no que ela quiser fazer. Isso pra mim pode gerar grandes obras, mas nunca grandes artistas. O grande artista pensa sua arte. Pollock deixava a tinta cair, mas pensava sobre sua técnica e seu fazer, entendia que a performance era parte da pintura. Deixava-se ir no seu plano, no seu fazer artístico.
A diferença é que o artista tem que ter sensibilidade, ou seja, ser disponível à empatia entre ele e o mundo, entre ele e os outros. É ser afetado sem afetação, se deixar tocar sem se deixar mergulhar. Quando alguém te conta uma desgraça e você sente junto é um sentimental. O sensível é aquele que diz: "não me conta, o meu dia depende disso". A sensibilidade passa por algo de racional, por isso que o artista precisa estudar, pra ver o mundo de outras formas, de mais maneiras, ou seja, precisa enriquecer a experiência e tornar o cotidiano mais denso, assim a sensibilidade tem campo e o sentimentalismo é só escorreção de palavras que parecem profundas, mas são ocas.
Brecht era um sensível, não um sentimental. Assim vai a lista: Eça, Pessoa, Machado, Rosa, Calvino, Saramago, Kafka, Camus, entre outros. Quem mais?
Pense nisso, às vezes...

06 julho 2011

teus olhos

por que teus olhos escuros
castanhos escuros
ao chorar clareiam
como o céu
e despejam as águas
quase azuis
do mar?

03 julho 2011

se levar a sério

Uma das maiores virtudes que alguém pode ter é jamais se levar a sério. Quem se leva a sério está a um passo de ser tonto, porque o que a fluidez da vida impede que qualquer tipo de forma se estabeleça. Não se levar a sério, no entanto, não é não levar nada a sério, pelo contrário, é discutir até o fim qualquer questão pequena, boba que seja, lutar com todas as forças, mas saber que nada disso é realmente tão sério.
Por favor, que ninguém leia: "o caminho é importante, não o fim". Não digo isso, não vou até lá, porque os fins são tão importantes quanto os meios, mas não tanto quanto os inícios. O que seria da vida sem os inícios? Não se levar a sério, e isso é importante, é pensar: "nossa, a vida é uma merda", e isso não ser um grande dilema. É, talvez, um fato e com fatos não se discute e por isso não se deve levar a sério o fato. Isso deixa margem para se pensar que, não importa tanto o fim, mas o que se está fazendo e eu vou concordar, mas dando minha condição: o fim é a morte. Nela nada faz sentido mesmo, é puft, fim do mundo, tipo esse texto que eu estou escrevendo, agora você estou lendo e agora você não está mais porque...

30 junho 2011

as más idéias

Tem horas que me vem uma frase na cabeça e eu penso: "genial, vou escrever sobre isso." No caminho até o computador a frase se vai, o pensamento também, fica só aquela vontade, aquela sensação de que alguma coisa eu pensei em dizer. Ainda bem que eu não me importo com as boas idéias...já com as más...

28 junho 2011

às duas

Uma sensação intraduzível, e não uso a palavra sentimento porque os sentimentos são falhos, frouxos, se esticam para lá e para cá sem qualquer razão, é a sensação das duas da manhã. Se eu pudesse dar um conselho à qualquer pessoa não seria ver o nascer ou o pôr-do-sol, dado o fato de que a natureza nos engana o pensamento, mas sim, deixar-se em casa sem pronunciar qualquer palavra a ver a noite chegar e depois a madrugada, até às duas da manhã. Se ao ponto nada acontecer, duvide de sua humanidade.
Às duas chega uma sensação que diria eu ser de mundo. Deixar-se ao tempo, à noite, mas não muito como às 4 da manhã, quase ao amanhecer, nem tão cedo à meia noite quando a maioria ainda descansa do cansativo dia.
Duas da manhã está entre lá e cá e forma uma espécie de zona de fronteira da madrugada. Tudo faz sofrer e nada é sofrimento. Tornamo-nos distantes das coisas, da realidade e vem-nos uma pulsão de vida. Nada quente, uma pulsão de vida como tomar um copo d´água ou ouvir uma história dos avós.
Todo os dias, às duas da manhã, tenho vontade de olhar para o céu e perguntar: "amigo, há quanto tempo estás por aí?"

25 junho 2011

Ponto Fraco



Texto do programa de Ponto Fraco, prática de montagem da UNIRIO, com direção de Leandro Romano e dramaturgia de Luiz Antonio Ribeiro:


Há um ponto. Todo mundo sabe disso. Sem o ponto não há nada a fazer, não há onde ir e é até impossível se mexer. O ponto serve, no mínimo, pra que a gente se equilibre sobre ele. Sem o ponto a folha está em branco, completamente vazia. A cena, sem o ponto, fica muda. O ônibus sem o ponto vai errar como nômade pelos espaços da cidade. O ponto existe e a gente sabe como é ativado. Sabe como ele é frágil, tímido e se nega a aparecer. O ponto é esquivo, arisco, é quase que uma entidade espiritual que só aparece quando quer ou então quando se chafurda, se lança e se humilha perante ele.
No entanto nosso objetivo não é esse. É que as atrizes, o diretor, o dramaturgo, o cenógrafo, o iluminador e o figurinista sabem do esforço que é lidar com o ponto. Há uma tendência a, antes de tudo, encontrar o ponto. E, escolhido aleatoriamente, o ponto vira quase uma estrela, o ponto é como um guia para cegos e nós, cegos, nos atiramos ao ponto.
Nós, no entanto, somos cegos sem guia. Estamos largados e nada sabemos do ponto. É claro que ele é importante, ele dita os caminhos, mas se o ponto não está lá, estará o caminho?
A partir dessas narrativas pontuais, mas também, sem pontos é que lidamos com a cena. Estamos no caminho certo, à procura do ponto perfeito, porque sabemos que ele está bem na nossa cara, se esfregando, na ponta da língua. O ponto, em fila pequena, é reticência. Em fila grande é pontilhado. O ponto é tudo que se fala dele, é tudo que se escreve no pontilhado e tem reticências no fim.
É o ponto...que é fraco.

17 junho 2011

solidão

Faz muito tempo que aprendi a solidão. Acho que todos aprendemos mais ou menos na mesma época, ali por volta de seis, sete anos, quando nossa mãe nos esquece por um momento ou a professora da escola diz que você está errado. É uma sensação tão forte que marca e qualquer outra solidão, depois dessa, parece que repete-a.

Depois resolvi aprende sobre a solidão. Sabe quando dizem: “você tem que estar preparado para o que vem.”? Geralmente dizem isso pra coisas simples, tipo levar um guarda-chuva e casaco pra não pegar gripe, comer verduras pra estar com o organismo forte, arrumar as malas porque a carona pode chegar antes, no entanto, essa questão, pelo menos em mim, vai além. Estar preparado para o que vem é apontar do momento em que se está até o dia da nossa morte tudo aquilo que é passível de acontecer e, aos poucos, preparar-se para todas as ocasiões.

A primeira delas é simples, a morte de nossos avós. A ordem natural é que eles morram primeiro que a gente, então é preciso o mais cedo possível se preparar para esse acontecimento. Isso quer dizer, fazer todos os carinhos que estamos devendo, comprar um presente pra eles e perguntar toda a história de suas vidas e de nossa família, pra que no futuro possamos contar pros que vem aquilo que ouvimos. Isso também inclui comer muito feijão, bolinho de batata sem salsinha, sentir o cheiro da vó que faz crochê como ninguém apesar de não saber contar. Estar pronto é um pouco de sentir saudades antecipadamente e, justamente por isso e um pouco trágico, é preciso também um pouquinho de distância deles. Não é frieza, nunca. É distância, é preciso que não dependamos deles pra nada, que toda nossa relação seja simplesmente afetiva, sem qualquer dependência sua pra eles.

A segunda é, óbvio, se preparar pra morte de nossos pais. É a ordem natural e talvez a coisa mais difícil de se fazer. A lógica é complicada e até hoje tenho dificuldade de equilibrar, porque, em via de regra, é fazer o mesmo que fazemos com os avós, só que com muitas mais dificuldades, porque os pais são os seres do amor, da gênesis. Não somos igual deus que abandona Adão e Eva com facilidade, nós amamos. É até complicado tratar disso em um texto, acho que não tenho essa força ainda. Pulo.

Por fim, é estar pronto pra todas as vicitudes do mundo. Todas as porradas que você vai levar, todos os desagradados que vai ter de passar, todos as ofensas, falta de respeito, puxada de tapete, soco na cara, ressaca. É preciso estar preparado pra tudo isso.

Aliás, a ressaca é um belo exemplo. Preparar-se pra ressaca é preparar-se pra vida. Sabe-se que ela vem no dia seguinte, então o dia de beber é escolhido a dedo, todo o ritual pra amenizar é seguido e um certo controle mental antes e depois que permita o descontrole do momento. O fato é: o mundo é perigoso, vai ofender e é preciso estar pronto.

Depois vem a saúde. Ela é a primeira a cobrar. É engraçado ver como as nutricionistas falam em evitar gordura, hormônios, carboidratos, açúcar. O dia que uma não morrer e viver saudável pra sempre, eu juro que sigo as instruções, mas enquanto elas se forem com a mesma idade que minha vó da roça que comia fritura na banha de porco, nada feito. Preparar-se pra ter problemas de saúde é saber quais seus pontos fracos, onde que rebate os problemas no nosso organismo e, tudo que vier dali, não ser surpresa.

Acho que agora é o mais importante. A solidão pela solidão. Estar preparado para a solidão é aprender a estar sozinho. Dizia Baudelaire: Quem não aguenta a solidão do seu quarto, nunca vai aguentar uma grande cidade. A solidão é aprender a ler trechos de livros enquanto caminha pela casa, é não esperar que a TV complete o vazio dentro de você, é saber que por mais que você estude, trabalhe, é absolutamente inútil e serve apenas pra dar dinheiro pra você gastar com coisas que você não vai querer pra sempre. Aprender a ser solitário é se olhar nu, mas uma nudez suja, daquela que não toma banho ou que não arruma a casa. Uma nudez que você só permite a você mesmo e mesmo assim se envergonha. Quem fica sozinho em casa e toma banho, usa maquiagem e troca de roupa, nunca vai entender de solidão. Essa solidão nua é a mais difícil e muita gente tenta completar com amigos, amores, festas, mas eu prefiro não. Prefiro encarar a solidão de minha casa comigo mesmo e cada vez mais aperfeiçoar esse talento de não estar, de não ser presente. A saída é aprender a não-ser. A necessidade de ser o tempo todo, de estar limpo, inteligente, sagaz, engraçado, perspicaz e disponível acaba com qualquer individualidade e inteligência. O que é preciso é não-ser, deixar a ignorância passar, perceber as redes sociais como o lugar onde os outros caçam...peixes. Os amigos, em alguns momentos, completam esse buraco do não-ser, mas eles, e isso é um desejo meu, também vão conseguir não ser, justamente por isso, não posso depender deles, seria cruel demais.

A solidão nua, a solidão suja, a solidão da louça não lavada e da roupa jogada é o desafio. Essa solidão de que se abre mão de quase tudo que existe pra ficar ali, no cantinho da cama, pequeno, quase não existindo, controlando até a respiração e o movimento das pernas. É ouvir música em fone de ouvido mesmo estando sozinho. É pegar um papel pra escrever uma carta e deixar ali, na mesa, com o lápis do lado por horas e horas. É preparar um prato de comida sem esquenta-la, deixar esperando no micro-ondas, é abrir uma caixão de bombom e não comer. É olhar pra isso tudo com a maior complacência e sentir no fundo, não dizendo: “fica pra depois.”

A solidão não corta e não mata. Não existe nenhum sofrimento que vem da solidão. O maior sofrimento vem do outro lado, vem da porta pra fora. Aqui dentro, enquanto houver eu-não-sendo, vai ser o melhor lugar do mundo e o único que eu posso estar.

16 junho 2011

formigas 2



as formigas parecem que me leram
talvez o tenham feito.
andam, agora, pra lá e pra cá
desconexas, sem qualquer linha
reta ou torta.

e eu pensando:
"pra onde elas estão indo?
meus deus,
porque elas andam?"

é que eu não entendia, até então,
que elas andam pra comer
e eu como pra andar...

14 junho 2011

formigas


No azulejo do banheiro as formigas caminham em linha e formam uma fila que só para fora do olhar.

"Meu deus", penso eu,
"que linha torta!"

Depois pensei que se elas aprendessem a reta criariam trilhas, caminhos, estradas e, por fim, a fome do engarrafamento.

12 junho 2011

doze

Há de ser muito filósofo pra se falar do sublime. E o amor, o sentimento mais sublime de tudo que há, está no oposto da filosofia. O amor é a anti-filosofia, como verruga em morto, é anti-natural e por conta disso, aquilo que há de mais forte. Por isso que, digo hoje, meu amor é maior até que a natureza, que o cosmos, porque eu sou a redução de tudo que existe. Amor hoje, doze de junho, sou eu.

08 junho 2011

rebelde

Quando ouvia ainda criança a palavra "rebelde" me vinha uma estranha sensação. Tinha uma breve repulsa por aquele que era rebelde, porque era alguém que a família não gostava, que os amigos tinham medo, que não conseguia se misturar e era sempre mal visto. Ao mesmo tempo via o rebelde como alguém duro, que precisava mais que de ordem, de atenção. O rebelde era, na minha visão, um ser que ainda não foi domado e que por isso fazia o que fazia.
De qualquer maneira e isso é o que importa, o rebelde era alguém que impunha respeito. Rebelde era, pra mim, alguém que podia fazer alguma coisa inesperada, completamente fora da regra e isso era assustador.
Hoje em dia vejo a rebeldia como a única saída do mundo.

dicas:

1 - É preciso não fazer o que esperam de você.
2- É preciso que, ao romper os padrões, faça com sutileza mesmo que se arrombe a porta, porque o gesto já é claro por si só, não precisa de pomba nem de avisos.
3- É preciso inverter a lógica: o que é bom necessariamente precisa ser ruim e o que é ruim torna-se prioridade.
4- A tradição nada mais é que objeto de apropriação e escárnio. O que vem do passado serve apenas como ponto de partida de referências do que é velho. O rebelde precisa ser novo.
5- É preciso ser chato. É impossível ser rebelde e ao mesmo tempo agradar. Na vontade de ultrapassar as barreiras, o contentamento seu ou do outro é ponto cômodo que leva ao sucesso, e um rebelde nunca sucederá.
6- A família para o rebelde é cobaia. Não que ele não ame, mas antes de amar, ele precisa fazer que o amor seja livre, nunca parte do protocolo existencial genético social.
7 - O rebelde não pode ser dialético porque ele não faz síntese. Ele não trabalha em opostos nem com oposições. Ele ri das duas, ultrapassa-as com uma ironia ou um golpe de humor inteligente e as dissolve em instantes. Um rebelde, por exemplo, nunca pode ser um comunista.
8 - Não é possível ser culto na rebeldia. O excesso de cultura é tradicional em demasia e, por conta disso, é conservador. A inteligência dele está em reverenciar os mestres sem seguir seus exemplos, porque, na verdade, os mestres são homens que se deve admirar, nunca seguir.
9- É preciso não ter religião. Só.
10 - É preciso nunca saber/pensar/usar a palavra produto. Nada é produto porque nada é apropriável, nada tem duração, nada tem tempo de maturação. Tudo é instantâneo, urgente e grave.

O rebelde é esse e mais não falo.

23 maio 2011

minha eterra

minha terra tem palmeiras
mas eu gosto do flamengo
e foda-se o sabiá

poemeto das 5:55

quero escrever um poema de amor
mas tenho sono
mas tenho amor
mas tenho sono
mas tenho amor
e não quero que meu poema seja de sono
só de amor.

no fim,
escrevo um poema
(com sono)
de amor

pra dizer que vou dormir
e em sonho pretendo encontrar meu amor
e acordar bem
sem sono
(e com amor)

18 maio 2011

dezenove de abril


No dia da Bandeira
a homenagem devia ser pra outro
o menor de tamanho
de tempo, de vida
e até de conhecimento


No dia da Bandeira
o que importa é o outro
que de menos faz mais
que retângulo, losango e círculo

Imagino o outro Bandeira
pendurado no mastro
doce, sorridente, singelo
lá de cima dizendo:

"Vamos descer,
interromper o cortejo
e tomar um café?"

o telefone

meu telefone toca antes de eu entrar em casa.
é um sinal,
um toque,
um aviso de que eu chego agora?
ou um aviso de que devo entrar,
mas não esquecer lá de fora?

04 maio 2011

se um dia

se um dia eu escrever uma poesia
triste, poesia de despedida
sei do que ela vai precisar:
um final pequeno, curto
triunfante como um exército,
e pequeno.

seria assim, já sei:
"faltou amar como eu te amo"

03 maio 2011

pra ela dois

O amor é uma questão de visão. Acontece que às vezes nosso olhar está fraco, turvo, como se estívessemos em uma intensa neblina ou, de repente, ficamos míopes. Só que o amor, maior em todas as dimensões que qualquer tempestade, vai sempre além. Ele vaga por cima das nuvens, sonha com outras tempestades - uma chuva de verão, por exemplo, - pois ele está armado para viver etéreo, em um espaço vivo da eternidade. O amor é como um zumbi, morto-vivo; viverá eternamente em uma semi-vida, e semi-vida porque semi-consciente, semi-racional.
Vou tentando atabalhoadamente dizer as coisas e elas vão saindo, palavra por palavra, até que eu entenda bem o que tento dizer até pra mim mesmo. É isso:
Antes de amar a gente ama, porque ele é a força inicial da natureza. E é nessas horas que não consigo deixar de pensar como você está agora. Se deitada, se dormindo, se pensando, se falando ou sorrindo. É, não importa a imagem que tenha de ti. É ela, só ela e mais nada que hoje vai me fazer dormir feliz.
Sou eu e sou tu. Eu é tu.

26 abril 2011

atravessar a rua

Por medo, atravessei a rua. Que fique claro que não atravessei a rua com medo. Estava austero, empinado, tal qual galo de briga, com o famoso peito de pombo ereto, mas atravessei...por medo.
Não si se faz diferença o “por medo” ou “com medo”, mas internamente, amigo, faz. Por exemplo, há um mendigo na esquina vindo em sua direção. Você não sente medo algum, mas atravessa a rua por medo. É quase como se o medo fosse conceitual, ao contrário do medo físico, iminente. O medo desvia da morte, mas também celebra a vida.
Atravessei a rua, então, por medo. Nesse momento havia somente eu, a rua e o medo, junto com minha ação de atravessar. Eu precisava acrescentar alguma coisa para fugir desse sentimento, então resolvi parar no meio da rua. Inteferir na vida, interromper o mundo. Não quis nem avisar aos outros o que faria. Odeio suicidas que escrevem cartas. O sujeito se mata e ainda deixa rabo, deixa rastro. Se mata e ainda chateia os outros, mais que o protocolo de enterros, velórios, funerais, missas, lágrimas. Se eu morresse agora, pensei, seria uma chateação, mas já não posso voltar atrás para a calçada por conta do medo e não posso ficar na rua para não ser chato. Resta-me o outro lado, então vou.
Agora que saí do trânsito, percebi que a rua estava deserta e interrompi apenas um carro que acabara de sair da garagem. O carro abre o vidro: “Tudo bem, vizinho?” “Tô bem, tô bem.”, e ele vai. A garagem ainda permanece aberta. Entrei.

17 abril 2011

Não-Ágape



Encontrei o livro Ágape do Padre Marcelo Rossi na estante e resolvi dar uma folheada. Li um capítulo do livro apenas e foi suficiente para que muitas ideias saltassem do livro e, na vã tentativa de organizá-las, escrevo agora.
Ágape significa “amor incondicional”. Isso está na orelha do livro, na última página, na primeira linha do prefácio e em todo o capítulo que li. No caso é o amor que Jesus tem pelos homens. Incondicional. IN-CON-DI-CIO-NAL. Isso quer dizer que não há um instante, uma lugar, uma situação em que Jesus não esteja ao nosso lado nos amando. É como se tivéssemos um peixinho e passássemos o dia inteiro ao lado do aquário observando cada gesto, cada passo, dando comida, afastando os males, trocando a água e, amando. Seríamos um ser feito de amor e que nunca se fartaria de amar. Por um lado, isso é extremamente bonito e poético. A ideia de que um ser afasta sua individualidade e entrega sua vida para cuidar das outras é o exemplo máximo de altruísmo e bondade. Por outro lado, há uma falta de respeito com o seu próprio ser. Se cada vida é feita para ser vivida e aproveitada, não é justo que se abra mão da sua que é única em prol dos outros. Ainda mais que, se somos imagem e semelhança de Deus, abrir mão de nossas vidas, é também abrir mão da nossa semelhança com Deus, e por conseguinte, dele próprio.
Um último ponto e talvez seja o mais importante. Estar todo o tempo amando incondicionalmente outro ser, ou no nosso caso, o peixinho, é dizer que esse peixe precisa ser cuidado. É dizer que nós somos muito importantes e que, sem mim, o pobre peixe vai para a ruína, para a morte e para o sofrimento. Nesse caso, amar é precisar e a incondicionalidade é uma violência. Amar incondicionalmente dessa forma, definitivamente não é um belo amor.
O segundo ponto do livro que se destacou pra mim é a completa falta de respeito de Marcelo Rossi. O livro foi escrito com absoluta displicência, preguiça, falta de cuidado. Escrito sem pensar hora nenhuma na melhoria do rebanho. Ele somente repete qualquer sermão, qualquer opinião óbvia, sem nenhum trato especial, sem nenhum ponto. Comenta os evangelhos como quem fala de notícias de jornal e trata com falta de respeito a instituição da igreja e seus fiéis. Incrível é ainda ninguém ter percebido isso, parece que algumas coisas todo mundo sabe, mas pouca gente tem coragem de dizer.
Eu deixaria meu texto assim, como foi escrito, mas ao contrário do Pr. Rossi, eu pretendo ter cuidado de quem lê comigo, portanto vamos às correções.

06 abril 2011

os ossos por dentro

Entro no ônibus. Venho da academia, acho que ganhei 3, 4 centímetros de bíceps só hoje. Eu tô feliz, meu corpo desenvolve bem, tá relaxado, acho que meu trabalho todo tá fazendo efeito. Entro e vejo uma menino franzino, pequeno, cabelo enrolado, barbado e com cara de quem tá se achando. Sinto vontade de dar um soco na cara dele. Enfiar a porrada sem deixar uma gota de sangue cair. Quebrar os ossos dele por dentro, estraçalhar o nariz, o maxilar e quantos mais ossos estão naquela cara frágil. Isso tudo sem sangrar e, se possível, sem deixar hematoma e se for pra deixar que ele no máximo fique só com uma vermelhidão. Nada de roxo, uma leve vermelhidão como se ele tivesse se maquiado ou como se eu tivesse roçado minha barba na cara dele. É um viadinho.
Pena que não posso socar aquela cara agora. Pena que não posso. Tô cheio de energia acumulada nos braços pra soltar em cima de alguém. Olha a veia, cara, tá até saltando do braço. Agora eu já to sentado e ele abre um livro. Não lê, fica só folheando pra aparecer. Quer humilhar todo mundo que não gosta de livro, tipo aquela empregada ali que nem tempo pra isso tem. Ele levanta, puxa a cordinha, vai saltar agora. O filho da puta mora bem, filhinho de papai. Se bem que, po...tá indo de ônibus, não deve ter tanta grana assim.
Eu tô perto da porta e ele tá vindo na minha direção. Ele é pequeno, mas cresceu muito agora que tá perto de mim. Ele tem todo um estilo e tal. Sem querer ele pisa no meu pé. Vira pra mim, sorri e pede desculpas. Não faço nada, nem respondo. Pronto, desceu.

28 março 2011

o deserto



A cidade é aquela coisa que a gente construiu por sobre a terra enchendo-a de cimento, muro, parede e asfalto. Não me espanta nem me fascina isso. Não me espanta ver que o homem tem uma tendência a descobrir coisas e depois querer usar as coisas que descobriu pra fazer tudo que quer na vida, então, como ainda não foi inventado nada mais simples e menos feio que o cimento, o muro a parede e o asfalto, vamos convivendo. Também não me fascina porque já estou acostumado a ver esses imensos retângulos por todo lado, sem perceber os contornos da natureza, que por sinal são bem mais fracos que de qualquer construção.
O deserto. Fico pensando no deserto. O deserto é uma área, um território arenoso que o ser humano foge. Não há amizade entre homem e deserto, pelo contrário, os que ali habitam são forçados a isso e sofrem brutalmente a violência dele que oscilando entre calor e frio não permite que ninguém ali se sinta em casa.
As florestas. As florestas são aquilo que o ser humano mais preza. Ganha-se dinheiro pra passar dias numa casa de campo, convivendo com a natureza, o ar puro e com construções menos retangulares e preocupadas com cimento, muro, parede e asfalto.
Por que, então, penso eu, a gente não construiu a cidade sobre o deserto? Podia ter enchido de asfalto por cima do deserto, ter ido morar lá e feito nossas casas e nossas habitações horrorosas como em um acampamento. Até penso na especulação imobiliária: quem mora no morro paga um pouco mais barato, quem mora em vales paga mais caro. E pra ter um oásis, amigo, é...aí você vai ter que ser milionário.
Com isso toda natureza estaria intacta, bela, fulgurante, como nos hinos, nas canções, como nos sonhos. Ainda viveriam muitas espécies extintas, árvores que não acabam nunca e uma qualidade de vida muito melhor. A parte feia e ruim do mundo teria virado a cidade, também feia e ruim. Quem sabe até a gente não adoraria nossas cidades, e até se ouviria de um sujeito: “Olha como é linda...lembra quando do deserto que horror que era?”
Fica a impressão apenas de que a gente abandonou o deserto, fez vista grossa, fingiu que ele não existia, assim como abandonou o sertão e que a cidade cresceu sem se dar conta disso. Assim ela vai crescer, crescer, crescer, até que, se aquele mesmo sujeito, apenas um, em um dia qualquer resolver olhar pro horizonte não vai ter nada pra ver além de areia. É um fato: o deserto vai virar nosso vizinho.

13 março 2011

chute no saco

Todo mundo fala que a pior dor é de crise nos rins. Outros falam que é chute no saco. Nunca levei nenhum dos dois. No máximo uma bolada numa partida do futebol, e porra, é a pior dor. É algo incontrolável, começa nas pernas, chega no saco, óbvio, e vai subindo até doer no suvaco, tipo íngua, sabe?
Quem olha acha graça de ver aquele homem grande, suado, forte, que há pouco gritava palavrões e ameaçava dribles usando da força física, caído no chão, acuado, posição fetal, meio rindo meio chorando por uma bola ter tocado suas partes.
O homem caído percebe sua fragilidade, tanto que não consegue nem pensar em vingança, no máximo quer dar uma olhada pra ver se num vai ficar brocha ou se uma bola sumiu. No mais, ele tenta se recompor e falar: "tudo bem, gente, esquece...acontece." E vamos pro jogo. Claro que ele vai tentar dar uma porradinha no sujeito que chotou a bola, mas sabe que a culpa mesmo é da bola, ou do acaso, ou de deus.
Porque se o destino existe e estava escrito que ele ia ter saco e que uma bola ia bater no saco dele aquele dia, nada melhor que achar deus um vacilão. Se foi por acaso é foda, quer dizer que ele poderia ter ganhado na loteria, mas não, ficou caído 5 minutos com uma dor intensa.
É estranho. Só falta agora ter uma crise no rim.

09 março 2011

avatar



Só assisti Avatar do James Cameron agora um ano depois do Oscar em que ele perdeu para Guerra ao Terror, de sua ex-esposa Kathryn Bigelow. Não gostava da idéia de se gastar milhões em tecnologia para fazer um filme e usar isso como a principal fonte de publicidade da obra.
Agora, um ano depois, preciso assumir que o filme merecia a estatueta de melhor filme. Não por ser um filme maravilhoso ou algo do tipo, mas justamente por ele expor um problema e uma contradição dos nossos tempos. Vamos aos poucos.
A fábula do filme é simples: americanos ambiciosos querem uma pedra localizada embaixo de uma árvore onde mora uma tribo estranha de seres azuis. Para isso tentam negociar dando-os estradas, aulas de inglês e outras coisas. Como não entram em acordo se resolve invadir e matar todo mundo. No entanto, pesquisadores descobrem que é possível através de uma máquina colocar um homem no corpo de um ser deles. Esse ser deve investigar tudo para que a invasão seja perfeita. Óbvio que esse homem é um aleijado, sofredor, que perdeu seu irmão gêmeo e será o herói do filme.
Agora vamos pensar: esse tipo de história é gasta no cinema americano. A estética perfeita, cara e inovadora não dá conta de criar um novo tipo de história. O conteúdo não se adequa a forma e a sensação que fica é que o filme cansa quando a novidade visual também cansa. Essa estética de tudo digital lembra a estética dos vídeos-games que parecem também não saber que histórias contar e por isso se voltam pra histórias antigas, de heróis, de tribos, de guerreiros.
O fato é: o mundo contemporâneo não nos dá boas histórias. Ele é vazio, sem tema, sem foco, sem ritmo, sem vida. Estamos com uma capacidade de dizer porque estamos incapazes de viajar. Isso se dá por tudo é nossa casa, estamos em qualquer lugar à vontade, como comidas que conhecemos, pessoas e estilos de vida. A ausência de histórias faz-nos voltar para trás para busca-las.
Em Avatar isso se torna patético. Gastar milhões e milhões para mostrar um americano que aprende a outra cultura, se encanta, os defende e por fim vira um líder deles. Seria “O último samurai”? Karatê Kid?
A última coisa pra se observar é o fracasso de nossa sociedade. Construímos um mundo perfeito em nossos sonhos e fomos incapazes de os contruí-lo na realidade. Veja o filme e todos aqueles lugares perfeito e dê uma olhada de sua janela. O que se verá é sujeira, poeira, tristeza.
Avatar me disse isso, apesar de não dizer muita coisa.

08 março 2011

carnaval e tragédia

Em Petrópolis não houve carnaval por conta das enchentes que destruíram alguns bairros daqui. A frase que mais se usou foi “Tragédia cancela Carnaval”. Fiquei pensando na justaposição desses dois termos.
Tragédia é o choque de idéias opostas e indissolúveis. É chegar até a verdade mesmo que não seja a melhor verdade. Tragédia é entender a dimensão humana em contraposição com a dimensão natural ou social. Tragédia é entender o tempo, é entender a mudança do tempo e a mudança de tudo quando o tempo muda. É tanta coisa que contribui pra tragédia que é quase impossível que não se vivam tragédias diariamente, porque, no fundo, a tragédia é uma forma do mundo de buscar a paz, mesmo que com o aniquilamento de alguns.
Carnaval é o oposto disso. É a dissolução dessas forças e formas. Muitos teóricos dizem que no Carnaval se permite que o súdito se vista de rei e o rei de súdito e os dois juntos possam curtir uma festa quase fugaz, que dilata o tempo, esquecendo que ele passa. É pegar as forças naturais e deixa-las fluir, chegar um pouco pro canto pra enchente passar. Se chover a gente bebe água. Se fizer sol a gente se bronzeia. Ele não aniquila ninguém, só exclui quem se exclui e crime é tentar lutar contra alguma força.
Talvez por isso, não pude deixar de pensar que em Petrópolis deveria ter ocorrido o Carnaval, porque só ele é capaz de mostrar que uma tragédia destrói sonhos, enquanto que o carnaval os reconstrói, trazendo junto consigo a certeza de que é possível rirr mesmo sem haver graça nenhuma. O carnaval ignora tanto as forças opostas que é até capaz que as encostas se encostem, se fixem e descansem, enquanto que os foliões sorriam pra tragédia, sabendo que a força está dentro deles, porque eles também são aquela natureza.
O carnaval perdeu a chance de vencer a tragédia.

01 março 2011

dormir é filosofia

Há quem diga que as melhores filosofadas são as mais simples. Ok, há tanta gente a dizer tanta coisa, há até quem diga que "hoje o herói aguenta o peso das compras do mês", se referindo ao homem aranha.
Enfim, quero dizer que não gosto da filosofia simples, mas sim da filosofia das coisas simples. Por exemplo, dormir. O ato, o verbo reflete um estado de estar no mundo e um estado de ver as coisas completamente diverso e autêntico de pessoa pra pessoa. E quantas maneiras há de dormir? Não muitas, imagino.
Eu era fresco para dormir. Só conseguia em completa escuridão, em silêncio absoluto e com uma total sensação de segurança. Por conta disso meu quarto tem duas grades, uma janela de alumínio que se fecha e uma cortina azul marinho. Acontece que depois que fui morar sozinho e tive que acordar cedo e passar horas num ônibus tudo foi mudando. Hoje em dia deito em qualquer canto e durmo não importa o barulho, a quantidade de luz e a situação. Quero dormir, durmo.
Aqui no Rio era costume que eu deixasse a janela aberta e quanto amanhecia tinha que levantar pra fechar correndo o risco de não mais dormir. Agora não o faço mais. Acordo quando amanhece e os primeiros barulhos soam, mas penso: vou voltar a dormir, estou com preguiça de levantar.
A única coisa que ainda não superei é perder o sono por raiva. Meus vizinhos têm cachorros, muitos. E são família, não pega bem ficar reclamando, então há em volta de mim muitos latidos e coco, inclusive do meu cachorro que caga e late como qualquer outro. Basta um latir que vira um coro que só termina quando o poodle resolve que parar. Tenho raiva dos cachorros e por momentos dos vizinhos. Isso é a única coisa que ainda me impede de dormir.
Fico pensando que se conseguir aprender a dormir com raiva, o sono vai se tornar a maior ferramenta de minha vida. Talvez porque o que me fez aprender a dormir primeiro foi a preguiça e se agora a raiva também for motivo de sono, pouco me fará acordar.
Um dia, quem sabe, tudo me fará dormir e os momentos em que estarei acordado serão breves, como nos sonhos...como no amor.

07 fevereiro 2011

pra ela

com um sorriso no rosto, meio de lado, ela reclama: "você nunca mais escreveu pra mim". Eu, meio sem graça, digo: "é que agora falo tudo pra você ao vivo". Ela sorri, mas não se dá por satisfeita, apesar de não tocar mais no assunto.
Então eu fico pensando no que ela merece ouvir agora, o que nesse segundo entre 21:41 e 21:42 eu tenho a dizer que a faça sorrir e mude sua vida.
Muito pouco, penso, e decido escrever sobre isso. Sobre como minha cabeça fica horas e horas, intensos segundos que se dilatam, pensando em agrada-la, em satisfazer um pedido simples dela. Apesar da certeza de que provavelmente nunca vou fazer nada que esteja no seu nível, o esforço de contar essa pequena fábula, como quem conta uma história para uma criança, tire um sorriso, um agrado, uma pequena felicidade. E que ela possa dormir em paz sabendo que, ao saber que ela queria que eu escrevesse, parei um tempo aqui e escrevi.

06 fevereiro 2011

metaforma

Nunca gostei de “A metamorfose ambulante”. Sempre achei uma desculpa pra ser um idiota. A verdade, no entanto, é que isso não é verdade. Gosto de não mudar, gosto de calmaria, mar manso e quiosque, não gosto de vento, areia e ressaca. Gosto do conforto de um lugar simples, mais que o luxo da riqueza. Estar à vontade e ser um bom vivant, como diz um amigo, é um privilégio para poucos e assim sendo ser uma metamorfose ambulante é ter grandes energias desperdiçadas. Me intriga até o fato de que um baiano tenha feito essa música.
Isso não quer dizer que eu tenha opiniões velhas, apenas que minhas novas opiniões ruminam e se debatem na minha cabeça por muito tempo antes de ganharem o mundo. Eu desdigo o que disse antes quase pedindo desculpas pelo esforço e pelo caos que entrego às pessoas. Talvez seja apenas uma necessidade de estar satisfeito ou então é uma maneira ainda gasta de pensar de que o bom está no equilíbrio e na estabilidade. Não sei se afirmaria isso assim, dessa forma. A verdade é que ser uma metaformose ambulante gastaria muito de mim, assim como quando vejo isso nos outros, automaticamente me afasto. É preguiça Tenho preguiça de ver alguém mudando e tenho preguiça de estar girando a roda do mundo, sei que tudo volta em algum momento e por isso o mundo está aí. Ele não tem regra, por que iria me debrungir na frente dele?

11 janeiro 2011

a imoralidade de acordar tarde

“não vejo mal nenhum em ter medo de se levantar da cama. Nunca é tarde para usar o pijama.”
Francisco Ferraz


Há coisas que se diz. E para cada coisa que se diz há gente para repetir. Algumas pensam e as dizem porque acham que fazem sentido, outras simplesmente as repetem, mas a maioria das pessoas repetem justamente porque parecem frases já pensadas. Talvez os provérbios sejam nada mais nada menos que frases que muita gente já pensou, trechos pensados pelo coletivo que chegam na máxima síntese de sabedoria popular, então porque não repetir? Frases que ganham tons de verdade.
“Acordar tarde faz mal” é uma delas. Meu pai repete sempre essa frase. Diz com toda ênfase do mundo que:
1- O sono é essencial para a saúde.
2- Só o sono da noite que faz bem, o do dia faz mal.
3- Dormir de dia ao invés de relaxar, cansa, além de ser coisa de quem não tem o que fazer.
4- Não se deve reclamar do vizinho que faz barulho quando se acorda tarde. O que eles vão pensar de você?
5- Quem acorda tarde perde a manhã que é a parte mais linda do dia.
E por fim a maior síntese de todas: “Bom dia não, boa tarde. Se você ficar doente não vem me pedir ajuda.” Às vezes acho que ele está me rogando uma praga, às vezes ele me parece um padre que me dá ordens pra me botar medo e acha que pelo medo eu vou mudar um hábito.
As pessoas que tem uma rotina certinha, bonitinha, dormem por volta de oito horas por noite, das 23 horas às 7 da manhã, vêem os notívagos como uma ameaça. Colocam na gente tudo que tem de ruim, como se fosse uma agressão a elas dormir até meio dia e acordar com sono, como quem gostaria de ter ficado mais na cama, olhando o teto e aproveitando o pijama. Elas acham faltam de respeito, de educação, mais que isso, elas acham um crime grave, um desvio de caráter, algo moralmente recriminável, que se deve esconder dos outros. “Se alguém te ligar, digo que saiu”, costumo ouvir aqui em casa.
É como se, só pelo fato de minhas horas de sono estarem um pouco adiantadas em relação à deles, eu estivesse quebrando um código público como furar o sinal vermelho ou jogar lixo na rua. Elas se sentem tão brutalmente ameaçadas que tentam nos punir desejando-nos doenças. Para elas trata-se de um hábito de gente degenerada, que não tem respeito por si próprio e que não pensa nas conseqüências desse ato.
Acordar tarde é ser rebelde. É trair um pacto social. E isso ninguém pode nos perdoar. No fundo, quem acorda tarde não faz nada disso. Geralmente são pessoas que gostam de curtir o silêncio ou a bagunça da noite, ou então simplesmente não conseguem dormir cedo mesmo. Querem nos demonizar, portanto cuidado, quem acorda tarde pode parar no inferno.

25 dezembro 2010

O natal

Se eu não faço um post de Natal fico incomodado. E pra mim o natal tem uma questão dupla: por um lado é uma festa superficial, de contato com pessoas que não somos tão próximas e de quem não somos obrigados a conviver. Mas se é assim o Natal, também é da possibilidade que nosso calendário dá de nos aproximarmos dessas pessoas, de nos deixarmos tocar por um sentimento calmo e bom de que tudo é harmônico e faz sentido e, principalmente, de que viver faz bem.
Sei que a vida não é feita disso, pelo contrário, ela é árida, dura, seca e na maioria das vezes ruim, mas isso faz parte de um engajamento necessário para transformação. Se aceitarmos que ela é ruim, podemos mudar, se nos deixamos tocar por esse sentimento bom, ficamos achando que tudo deve estar como está.
É uma excelente duplicidade: se sentir bem, apesar de saber que o mundo não é bom assim e poder transformar nossa vida e a de muitos. O natal é político, ou poderia ser.

19 dezembro 2010

isso idéias nisso

Faz tempo que não faço isso. Abrir uma página em branco e me deixar escrever qualquer coisa que me venha à cabeça. É uma pena que quase todas nossas idéias morram ainda antes que se possa vislumbrar, ainda que a distância, a concretização delas. Bom, na verdade, quando a gente pensa, elas estão claras e belas, já as vemos prontas e perfeitas, mas alguns segundos depois elas nos escapa e voam não sei para onde. Seja porque nosso ônibus chegou, ou porque um barulho incomum na rua chamou nossa atenção, ou pela bela moça que passa com um forte perfume, ou porque uma música soou em uma cabine policial e isso é ironicamente belo.
Nossas idéias são como sobremesas. Não servem pra saciar nossa fome de vida, mas para adoçar nossa saciedade. Essas idéias, quase que sempre mirabolantes, dão um gás pra encarar o asfalto, na verdade, elas abrem um buraco negro na rua, e nos carrega pelos braços pra um outro lugar. Quando se vão, resta-nos somente nós próprios e uma vontade de escrever ou contar pra alguém. No entanto elas somem, evaporam, desvanecem e fica-nos uma sensação de fracasso, de perda, de esquecimento. É triste. Talvez a morte seja o fim de nossas idéias, ou então, finalmente a concretização da nossa maior e recorrente delas. Imagina se a gente não estivesse aqui?, atire a primeira pedra quem nunca pensou nisso.

Sim, é de propósito que eu começo o texto com isso e termino com nisso, mas não, não atirem a primeira pedra. A primeira pedra é sempre do culpado, todas as outras são de Maria vai com as outras.

27 novembro 2010

os livros

Fico lendo o nome dos meus livros. Cada um diz tanta coisa que dá vontade de ficar pensando só no título. Exemplos: "rumo ao farol" da Woolf, ou "setembro não tem sentido" do João Ubaldo Ribeiro, ou "A montanha mágica" do Thomas Mann, ou Alguém que anda por aí" do Cortázar.
É tanto nome que diz tanto que às vezes penso que o ser humano é criador nato. Ele relaciona tudo a tudo e todos os nomes estão juntos num imenso cesto e vamos ligando-os tal como numa poesia dadaísta. Tanto que "Todos os Nomes" é um livro do Saramago, onde realmente todos os nomes estão lá, menos os das personagens. Excetua-se um: José, espécie de alterego ou não. "Vidas Secas", "Estorvo", "Sagarana", e os títulos nao param de dizer coisas e eu todos os dias vejos esses livros que também me vêem.
É em nome deles que eu escrevo. Um dia algum livro meu pode dizer alguma coisa. E hoje eu diria que...nós...somos demasiadamente violentos. Ô raça ruim essa dos humanos...e que coisas lindas eles escrevem.

18 novembro 2010

prefácio

Nunca escrevi uma peça, muito menos um prefácio pra uma peça minha. Coloquei Hours do Phillipe Glass pra ver se me inspira, mas acho que música instrumental não é muito pra mim, por isso prontamente desliguei.
Li e reescrevi tirando alguns exageros a peça “José” escrita dois anos atrás. A primeira pergunta que me fiz agora é porque José tem esse nome. E são vários os motivos, o principal é que trata-se do meu primeiro personagem de teatro, uma gênenis da minha escrita, então o nome José me pareceu apropriado. José é o pai de Jesus e somos obrigado a ter essa lenda sobrevoando constantemente sobre nossas cabeça. José é o nome de meu pai e o nome do meu avô. José é o nome de Saramago, talvez o escritor que me fez ter o maior impacto estético e o sujeito que me fez ter vontade de ser da literatura. José também é aqui um nome anônimo, José da Silva, um nome que serve pra exemplos. “E agora, José?”A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou.”, diz Drummond. “Todo dia um ninguém José acorda já deitado.”, diz Camelo. “O espinho da rosa feriu Zé, O sorvete e a rosa, ô, José! A rosa e o sorvete, Ô, José! Foi dançando no peito, Ô, José! Do José brincalhão, Ô, José!...” , disse Gil.
José é tudo que me fez nascer, me compõe José sou também eu. No entanto, é importante dizer, acima de tudo é que José é um cidadão. É um anônimo cidadão, um ser político que trafega pelo mundo e que se estanca e se vicia e que se torna absurdo não por motivos puramente pessoais, mas públicos, pois José também é todo mundo. José trabalhou, José foi aposentado, José, não se sabe como, comprou esse apartamento em um condomínio de luxo e se vê sozinho onde tem tudo. Já era sozinho, mas era obrigado a trafegar, agora não mais.
José é o próprio tráfego, é a própria rua e sua autoestrada é si mesmo. Como muitos de nós.
Shelley diz: “Um poeta participa no eterno, infinito, no único; até onde concerne às suas concepções, o tempo, o lugar e os números não existem.” Se isso for verdade, espero nunca ser poeta, porque o que escrevo é do presente, o maior presente do mundo e esse infinito, esse eterno que atribuem ao poeta é só uma forma de aliená-lo. Não existe saída possível: ou se escreve desse nosso presente ou, mesmo falando, se faz silêncio.

17 novembro 2010

prólogo

Quando eu era criança minha mãe me contava uma história que dizia ter ouvido de sua avó. Ela era minha bisavó e tinha o apelido de “Vozinha”, o que me soava afetivo e engraçado, apesar da história que ela contava ser muito triste.
A verdade é que não me lembro desse conto de família e tenho certeza que minha mãe sabe, mas preferi nunca perguntá-la. Sei que era sobre um pássaro, acho que um papagaio, que era maltratado pela sua dona. Ela não reparava nele por ele ter feito alguma coisa errada e deixava-o passar fome. Todos os dias ele dizia: “Tô fraco, sinhá!”. Prestes a morrer dizia : “To fraco, sinhá! To fraco, sinhá!” Por fim, morria. Não lembro com precisão, mas acho que sim. A história era muito triste e minha mãe dizia que sempre chorava assim com essa história. Ela e seus irmãos.
Eu queria saber mais e minha mãe dizia que eram várias histórias que a Vozinha contava na cozinha antes de todos dormirem, algumas felizes, outras tristes. Muitas faziam chorar. Eu não entendia dessas histórias, me pareciam ter acontecido em outro mundo e eu tinha medo. Via televisão para esquecer e tinha sonhos estranhos. Quando acordava ficava pensando num pássaro que dizia “Tô fraco, sinhá!” e pensava que se os pássaros pudessem falar três palavras antes de morrer seriam sempre essas.
Pra mim, todos morriam igual, fracos e sem poder voar...como os pássaros.

15 novembro 2010

cachorro porco

Achei uma poesia minha escrita na 6ª série e foi inevitável postá-la aqui. Dei algumas risadas e agora a li como uma metáfora e a poesia que obviamente era só uma piada ganhou algum sentido.

Cachorro porco

Você só faz coco
Cachorro do morro
Te ensino a mudar
Cachorro teimoso
Todos vão te chamar
De cachorro porco
Põe rolha no bumbum
Apaga o teu fogo

Sai daqui, sai fora do meu lado
Senão eu mando te castrar
Saí daqui, estou desesperado
Senão sou eu que vou te matar

Assim você não vai me atrapalhar

Sai daqui, sai fora do meu lado
Eu mando a carrocinha te pegar
Saí daqui, estou desesperado
Senão sabão tu vai virar

Você é um horror
Cachorro do morro
Eu não vou te mudar
Cachorro teimoso
Sai pra lá, sai daqui
Acabou o teu jogo

11 novembro 2010

o anão 2

O anão estava sentado em um banco de frente para o mar. Suas pernas que não tocavam o chão se balançavam e logo começaram a doer, por isso teve que colocá-las pra cima, como criança ao fazer um pic-nic. Olhava o horizonte com atenção, o que levou alguns passantes a crer que ele estava pensando, refletindo sobre a vida ou coisas importantes, mas ele não era capaz disso. Era prático e via apenas a água até a metade azul e verde depois, a areia com algumas poucas pessoas e o céu que era azul apesar de algumas nuvens. Nada mais. Murmurou para si: “e dizem que isso é um espetáculo da natureza” e se calou, pois não pegava bem ficar por aí falando sozinho. A natureza estava muda.
De repente um barulho atrás de si. Tentou se virar, mas não foi capaz, então pulou do banco para olhar. Quando se virou, dois meninos vestidos com uniforme de hóquei estavam atravessando o calçadão, um de vermelho e outro de azul. Corriam com muita destreza e o primeiro que com seu taco conduzia o disco mantinha no rosto um sorriso maquiavélico. O anão tentou se encostar na mureta, mas quando os dois passaram, esbarraram nele que virou uma cambalhota e sem controle caiu sentado na areia.
Filhos da mãe, gritou em bom som e logo se levantou indignado. Avançou na perseguição dos rapazes. As pernas curtas demonstraram que nunca iria alcançá-los, mas o ímpeto e a raiva prevaleceram. O rosto em poucos segundos se encheu de suor que se espalhou pela camisa, formando uma escura e densa marca molhada que se misturou a quantidades imensas de areia que haviam grudado na camisa, mas que os pequenos braços não eram capazes de espanar. Desistiu de caçá-los, jovens são assim mesmo.
Acontece que logo quando ele desistiu os rapazes voltaram a se aproximar. Agora o outro liderava o disco com o sorriso endemoniado e o outro seguia atrás. Ao passar, viraram o rosto para o anão que estava xingando, mas não conseguiram ouvir coisa alguma.
O anão voltou a correr atrás deles e os viu se afastarem. Quando de uma esquina apontou um mini-carro de golf com dois policiais nele. Nervoso ele apontou para a direção dos rapazes dizendo: “atrás deles.” mas pelo visto era ele o suspeito.
O carro parou ao seu lado e os dois policiais saltaram.
Você está brincando com autoridade, baixinho?
Não senhor, foram os rapazes, senhor. Me acertaram.
Que rapazes?
Os dois de patins.
Os policiais olharam para os dois lados, mas os rapazes haviam sumido.
O senhor está bêbado, senhor?
Não. Os dois passaram aqui jogando e me derrubaram, por isso estou sujo. Fui atrás deles, por isso estou suado.
Você acredita nele?
Eu não e você?
Eu também não.
Mas seus guardas, eu estou falando a verdade. Pode perguntar pra qualquer um, deve haver uma testemunha.
Olhou para os lados e quase não viu ninguém por perto. Na verdade, um grande silêncio prevalecia e era possível ouvir o som das ondas quebrando no mar.
Isso aconteceu tem muito tempo, senhor?
Não, foi agora agorinha. Tem 2 minutos. Eu estava sentado olhando o sol quando veio o barulho.
O Sol? Mas o sol já se pôs, senhor.
Não tinha ainda percebido isso, mas era verdade. Estava escurecendo o que devia aumentar seu aspecto suspeito. No entanto, aparentemente cansados os policiais se sentaram no meio fio, ficando quase na altura do anão que tentou falar alguma coisa que foi interrompida por um policial.
Está liberado.
Assim? Você não vai atrás deles?
Não há ninguém, senhor. Volte para casa, tome um banho e descanse. Tenha um pouco de dignidade e boa noite.
O anão baixou a cabeça, deu um “Boa noite” constrangido e se retirou dali. Passou pelo banco e pensou em sentar novamente para agora olhar a lua, mas desistiu. Era já hora de ir para a casa e, talvez de propósito, talvez sem querer, foi andando na direção contrária de seu caminho.

10 novembro 2010

a mão que cai

"Ele deve ter uma aparência completamente diferente quando vem á aldeia, outra quando a deixa, outra ainda antes de ter bebido cerveja, outra depois, outra acordado, outra dormindo, outra sozinho, outra durante uma conversa e, o que é compreensível, quase inteiramente outra lá em cima do castelo." Franz Kafka


Um homem corre por uma calçada. Tem pressa, usa uma mochila e está suado, só isso que se pode dizer. Passa por um muro coberto por uma relva rasteira e algumas flores como adorno. Faz sol e a corrida é extenuante, tanto que para o homem que está acima do peso parece não ter fim.
Alguns passos a frente, avista uma pequeno galho que cresceu mais que os outros e expôs uma flor em seu caminho. O homem passa por ela e dá-lhe um tapa. A flor cai e sua mão fica junto. Ele interrompe a corrida no ato afim de tentar recuperar sua mão, mas não é possível: ela está inseparavelmente colada à flor.
Ainda com pressa, pois não pode atrasar para seu compromisso, pega com a outra mão a flor e a mão do chão e carrega junto consigo. Estanca mais alguns passos e guarda ambas na mochila.
Do outro lado da rua, havia três testemunhas do ocorrido. Dois homens e uma mulher que não se furtaram de emitir opiniões a respeito do ocorrido. “Uma lástima”, disse um, “não se fazem mais mãos como antigamente. Hoje em dia tudo é descartável.” “Pobre homem”, emendou o outro, “porque aquela flor foi se meter justamente entre ele e seu caminho? Ele andava tão apressado, deveria estar indo resolver algo muito grave. Um caso de vida ou morte.” “É bem feito”, disse a mulher, “quem maltrata a natureza devia ser preso, perder a mão, o braço, para aprender. Foi um exemplo para nossas crianças.”
Acontece que os três se despediram e propagaram a história para mais pessoas. A mão que caiu parece significar agora tantas coisas e ter tantas possibilidades que o próprio ato da queda da mão com a flor em si parece ter se perdido. Ninguém atentou que o homem que perdeu a mão pode ter ganhado uma flor. Ninguém pensou que aquela flor podia ser útil porque ele estava atrasado para um encontro com sua namorada.
Não se pensou no homem, não se pensou na flor, muito menos na mão, mas somente que aquilo era alguma outra coisa. E era. O homem, logo ao dobrar a esquina, abriu a mochila pegou sua mão e colocou de volta no lugar. Com um sorriso no rosto teve todo cuidado para não expor as muitas cartas que estavam escondidas por detrás de sua manga e a pressa toda era que, infelizmente, uma criança provavelmente ia ficar sem mágicas em seu aniversário.

28 outubro 2010

a profissão

“Isto significa que nos meses imediatos aos exames, e com ampla participação dos nervos, me alimentei de serragem, que por outro lado, me tinham remastigado já mil bocas.” Carta ao Pai - Franz Kafka

Era um sujeito que estava pronto a arranjar uma profissão, mas não sabia como fazê-lo. Seu pai engenheiro e a mãe professora pareciam exercer profissões que já haviam sido ruminadas por séculos de gerações. Aprendera, no decorrer da sua vida, que era uma pessoa única, especial, que deveria fazer aquilo que o coração manda porque era diferente de todos os outros e em todo mundo não existia nada, nem traço nem rastro de qualquer coisa que fosse similar a ele. É claro que não concordava, mesmo porque aprendera na aula de genética que a diferença entre um ser humano e um macaco era de menos de 1%. Ele até concordava com isso, via as similitudes e parecências, muito embora os macacos, do lado deles, parecerem não se importar com esse assunto que para os humanos era tão aflitivo.
Enfim, era um rapaz que aprendera a ser ele mesmo e quando foi escolher uma profissão só havia coisas que outros também faziam. Era um paradoxo. Advogado? Mas já há tantos deles no mundo, andando de terno, falando difícil e tratando mal as pessoas. Médico? Quantos já cuidaram dele, pediatra, ortopedista, urologista, todos de branco e com uma fala mansa apesar da letra bruta. Bancário? Assim como todos aqueles senhores que ficavam atrás daquele computador contando dinheiro e botando numa caixa que aparecia vazia no dia seguinte sem nem ao menos lhe explicarem para onde e para quem fora toda aquela grana. Ia listando uma a uma as profissões e já havia gente demais em todas elas e parecia não haver uma para ele.
Andava pelas ruas olhando e pensando no que poderia fazer. Poderia até inventar uma profissão nova, mas para isso deveria ser inventor, profissão antiga. Artistas se amontoavam também, além de que a maioria deles parecia insensível e egoísta. Sentava na praia e via tanta gente também sentada que chegou até a pensar que estavam passando pela mesma situação que ele, mas não, estavam apenas desempregados: era uma consequência de tanta gente fazer a mesma coisa, sobrava gente para coisa.
Não fazia sentido em sua cabeça essa lógica de profissão, se havia mais gente que profissão, tanto que muitas pessoas nem conseguiam trabalhar, porque então haveriam de escolher logo aquilo para fazer na vida? Escolhe-se uma profissão para trabalhar nela, não para ficar a toa com ela. Profissão não era uma posse, mas uma atividade.
Até que de pensamento em pensamento resolveu estudar que não era uma profissão. Passou a vida inteira estudando, sem nunca ao menos ter trabalhado. Vivia de dinheiro, migalhas, livros e atenção dos outros. Aos poucos foi lendo cada livro que existia, sempre fazendo anotações e escrevendo teorias sobre eles. Depois de cinquenta anos era a pessoa mais culta do seu país, e mesmo sem saber disso pois tinha vivido numa letargia social por tanto tempo, resolveu fazer um pronunciamento. O que sabia era útil para o mundo: bateu nos jornais, revistas, televisões e rádios e não foi recebido. Escrevera um discurso de quase oitocentas páginas que mal conseguia carregar sozinho e queria que todos soubessem o que havia aprendido em toda essa vida de dedicação e estudo. Eram palavras doces e duras, de uma sabedoria que só um homem que, por um lado estava entranhado do mundo e por outro havia se guardado dele poderia escrever. Entretanto ninguém ao menos chegou a recebê-lo. Ficava sempre nas portarias e via passar tanta gente bem arrumada e com o rosto tão tenso que misturava o que via com o que imaginara. Em sua cabeça se fundia o sonho antigo de ter uma profissão com a realidade de toda aquela gente. Seu pronunciamento, seu discurso e tudo que aprendera era tão precioso que parecia ser inútil. Depois de tanto trabalho, percebeu que talvez tudo havia sido em vão, pois em cada porta que batia, ouvia a resposta da secretária: “O senhor não poderá recebê-lo. Está trabalhando.”

26 outubro 2010

quando você chora

Quando você chora
Uma flor morre
Um rio seca
Um domingo acaba
Um jardim alaga
Um arroz azeda
Uma mãe se mata
Uma canção destoa
Uma fruta cai
Um bichinho mata
Um sol se põe
Um tênis rasga
Uma goteira pinga
Uma estrela apaga

Quando você chora, flor
Rio, domingo, jardim
Arroz, mãe, canção
Fruta, bichinho, sol
Tênis, goteira e estrela

Quando você chora
O mundo muda
Eu faço listas
E chove.

24 outubro 2010

23 outubro 2010

a invenção da fotografia




Jesus está na cruz. Está todo ensangüentado, uma parte por sangue novo que escorria e outra por sangue seco, coagulado das muitas horas que já estava lá. Ao contrário do que a Bíblia nos disse, ele não estava consciente. Depois de um tempo seus membros que doíam de uma forma nunca antes experimentada, que espetavam pelos pregos mal limpos cravados, começaram a formigar e ele, começou a ter a mente nebulosa.
Primeiro era só algo turvo, mas depois começou a ter visões, como se estivesse na experiência de alguma droga que muda sua percepção do espaço, do tempo, das pessoas e do mundo. Mais algum tempo depois, o formigamento chegou até as pernas, foi quando todo seu corpo parecia ter sido imerso numa banheira cheia de gelo. A partir desse momento, pouco ele sabia do que ali se passava, estava quase desmaiado, balbuciava palavras incongruentes e adentrara num estado de quase morte, meio desmaiado com uma respiração silenciosa.
Muitas pessoas assistiam. Maria e Madalena choravam, seus discípulos entristecidos oravam ao senhor na busca de alguma solução. Sentiam que seguiram seu rei por nada, que ele ali morreria e o mundo se mostraria outra vez injusto, matando os bons. Jesus havia dito que ele faria isso para salvar a todos na outra vida, mas alguns deles discordaram, disseram que vivo Jesus poderia salvar mais gente naquela vida também, porque quanto a outra tanto ele quanto Deus já estavam trabalhando. Judas não, este concordou com Jesus.
Acontece que dessa vez todos que assistiam, aproximadamente 2 mil pessoas, resolveram não ficar paradas olhando Jesus e os assaltantes morrerem para depois tira-los da cruz. Algum deles, talvez um verdadeiro Jesus, levantou e voz:
- Que tipo de gente somos nós que vemos nosso rei ser assassinado na cruz, julgado por nada e ficamos só olhando? Qual o direito que temos, depois de tudo que eles nos ensinou, de somente chorar? Qual o dever que temos por ele e por todos que ele pode salvar enquanto vivo? O livre arbítrio que ele mesmo nos deu deveria servir para que fizéssemos mudar os planos de Deus, porque ele não tem essa escolha: Deus segue os planos apenas dele mesmo sem poder mudar de idéia.
Assim convenceu duas ou três pessoas da sua idéia, mas que não se manifestaram de cara. Então ele correu até a cruz, postou-se de baixo dela e dizendo: “Viva, senhor, Viva!” começou a receber pingos de sangue em sua cara, enquanto tentava retirar algum dos pregos do pé de Jesus, depois achou que salvando os pés Jesus ficaria pendurado, então escalou a cruz abraçando ao Senhor para tentar livrar algum dos braços. O homem chorava, lá de cima bradou: “Como pode um homem fazer isso com outro?” Jesus balbuciou: “Madalena, você veio?”, mas nem o homem escutou, pois já ficava de pé por cima da cruz e fazia um discurso que pouca gente escutou, já que nesse momento o exército romano se aproximava para averiguar o rumor de levante popular. O homem já ia tirando algum dos pregos do braço direito de Jesus quando uma lança atingiu seu peito. Caiu morto em segundos, seu corpo ainda se prendeu junto ao de Jesus, mas foi retirado e jogado logo atrás dele, como exemplo para outro que tentasse a sorte.
Assim se deu. Um dos homens que assistia empolgado com o discurso daquele primeiro resolveu atacar um homem do exército, quando chegou próximo, o soldado tentou afasta-lo, mas ele correu e tocou o pé do Senhor, foi quando uma espada cortava sua cabeça que rolou morro abaixo. O corpo sem cabeça foi jogado junto ao do primeiro homem. Do povo, então, outro homem veio correndo e foi rapidamente abatido, e assim vieram em duplas, trios, até que um grupo de dez homens tentou salvar Jesus, que com a vista turva confundiu todo o movimento com uma alucinação. Atrás de Jesus havia uma pilha de corpos já. Não se podia mais aceitar aquilo e sucedeu que em meia hora uma pilha de corpos mutilados e ensangüentados acompanhava a crucificação de Jesus. Nem Maria nem Madalena se mexerem, permaneceram chorando e rezando, olhando para o céu e para Jesus, como vítimas de uma grande injustiça. Os discípulos haviam saído para almoçar e quando voltaram julgaram tarde demais para alguma coisa ser feita.
Passou o tempo e os guardas já se cansavam de matar homens que tentavam salvar o Senhor. Dois deles foram abatidos e seus corpos jogados junto da pilha. Jesus era acompanhado por mortos até sua canela e essa proporção só crescia. Assim que a rebelião acabou e quase mil e quinhentas pessoas havia sido morta pelo exército romano e jogada por detrás da cruz e depois que as outras quinhentas resolveu fugir, o exército se foi. Junto da cruz havia a mãe, a amiga de Jesus, dois soldados e cerca de cinco discípulos.
Jesus morreu sem silêncio. Julgaram ouvir alguma coisa, mas talvez fosse um lamento de algo dos corpos que talvez estivesse com vida. Era mais fácil que numa pilha de mil e quinhentos um houvesse sobrevivido do que imaginar que um homem por dias na cruz falasse.
As mulheres tiraram o Senhor da cruz e o limparam. Choraram por horas e o enterraram. Um dos soldados, que não era um muito feliz com essa profissão, lamentou não ter um aparelho que pudesse registrar a imagem de Jesus com a pilha de corpos no fundo. “Aposto que vão contar essa história diferente, aposto”, pensou. E foi assim que pela primeira vez alguém teve a idéia de inventar uma máquina fotográfica.

20 outubro 2010

os olhares da política


Estava pensando no olhar dos políticos em público. No que eles nos dizem, tentam dizer, no que eles passam ou precisam passar. É como se, mais do que ter um olhar próprio, eles tivessem que possuir um olhar neutro, mas um neutro engajado, um neutro cheio de energia, que seja capaz de sorrir, ficar sério, triste, indignado.
Penso que todo político precisa aprender isso muito rápido. Aquele olhar que ao encontrar seu rival deve sorrir, mas não muito, se sentir a vontade sem deixar de mostrar sua óbvia superioridade. Um olhar que é para o mundo, que solta flechas, que dá presentes e resolve vidas. Um olhar apaixonado pela sua terra e pela sua gente, um olhar que consiga representar o hino nacional ou um gol de nossa seleção. Um olhar que atinja crentes e ateus, que acabe com as drogas e os problemas de educação. Um olhar maior que seu próprio interior, um olhar que reflete um sintoma cujo remédio é ele próprio.
Depois pensei nos assessores desses políticos. Estão sempre atrás deles, prestando atenção em tudo, medindo as palavras do seu líder e prontos a dar um beliscão na bunda deles, ou intervir dizendo que nada mais se falará. É o olhar atento que o político não pode demonstrar que tem. Enquanto que o político tem esse olhar centrífugo, o assessor tem um olhar centrípeto. Por isso aquela cara carrancuda de quem não gosta de nada e de ninguém, de quem é capaz de matar pelo seu assessorado. Um olhar mortal. Seco, duro, sem nenhum tipo de sensibilidade. Um olhar que representa toda a jogada que é estar ali naquele momento, um olhar que representa a outra parte da política, representa a guerra, a força, o rancor e a desconfiança, mais que isso, é o olhar da disputa.
Esse olhar combinado com o dos políticos é que são a síntese da nossa política atual. Essa mistura de creme de leite com chocolate meio amargo, de banana com canela. Olhe para os dois ao mesmo tempo e complete a moeda. Não se vota pelas palavras, não se vota por um olhar. Se vota pela subjetividade como objetivo, pelo horizonte que essa síntese de olhares faz. Se vota pela capacidade de interpretar o futuro através dos olhares, tal como uma cartomante, que precisa ler seu cliente só de repara-lo. É preciso votar sabendo mais do que fatores práticos, votar em cima de uma balança que vai sempre estar em desequilíbrio.
A política é feita de tanta coisa, tantas palavras e vozes, mas nunca se esqueça das características dos olhares que vagam por ela...

08 outubro 2010

Terra Sonâmbula



(Terra Sonâmbula, 2007)
• Título em inglês: sleepwalking land
• Direção: Teresa Prata
• Roteiro: Mia Couto (romance), Teresa Prata (adaptação e roteiro)
• Gênero: Drama
• Origem: Moçambique/Portugal
• Duração: 95 minutos
• Tipo: Longa-metragem


sinopse:
Muidinga é um menino sonhador e seu maior desejo é encontrar a família, de quem se perdeu no meio da guerra civil em seu país, Moçambique. O menino lê num diário, achado ao lado de um cadáver, a história de uma mulher que está num navio à procura do filho. Muidinga se convence de que ele é o menino procurado. Parte atrás dela, contando com a ajuda de Tuahir, um velho cheio de sabedoria. A estrada por onde viajam é mágica: entende os seus desejos e os move de um lugar para o outro, sem deixar que morram antes de alcançar o sonhado mar.

link para download:

http://rapidshare.com/files/366087360/Sleepwalking_Land.part1.rar
http://rapidshare.com/files/366093210/Sleepwalking_Land.part2.rar
http://rapidshare.com/files/366097618/Sleepwalking_Land.part3.rar
http://rapidshare.com/files/366101984/Sleepwalking_Land.part4.rar

30 setembro 2010

festival de cinema ou Rio de areia



O festival de cinema da cidade do Rio está acontecendo e por toda a cidade fica aquele clima. Pessoas de calça xadrez e óculos grossos andando por aí, comprando entradas antecipadamente e citando a última moda em quadrinhos, o diretor que foi sucesso no festival do Irã e por aí vai. A cidade também se enfeita para o evento: quase em todo poste tem um banner assim como nos pontos de ônibus. É quando me deparo com o cartaz de divulgação.
Trata-se de uma imagem do Pão-de-Açúcar, da Lapa, do Maracanã e de outros monumentos feitos de areia. Mas por quê? O festival não é feito para gringos, não é feito para divulgar a cidade, pra ganhar votos. O festival é para organizar e divulgar uma mídia específica: o cinema. O cinema como forma de integração de várias nações de transações culturais para um público que, pelo menos pretensamente, se propõe a olhar as obras a partir de um ponto de vista menos simplificador. Junto com o cartaz uma inscrição: "Rio: inspiração natural". Inspiração pra quem, meu deus?! Generaliza-se e se perde o que se tem de bom.
Fico chocado com essa constante classificação do Brasil, e por consequência do Rio de Janeiro, como o lugar da natureza, da praia, do futebol e da noite. Fico preocupado de a gente ainda se ver assim, ainda comprar essa ideia que é mais que cristalizada, constantemente reafirmada e habita nosso imaginário em todos os aspectos. O Brasil não é isso, pelo contrário, o Brasil e o Rio vivem em constante tensão com essa imagem. Afirmam a cada momento que não é parecido com ela e que ela é apenas uma visão ingênua, pobre, velha, antiga e dominadora sobre o que somos.
O festival de cinema é o contrário do seu cartaz: um instrumento de derrubar esses castelos de areia, derrubar essa concepção nativista, de que somos um povo areia que vaga pelos ventos. O festival derrubar os castelos e apresenta um novo Brasil: um país que para e por algumas semanas olha o mundo.