E aí o grito veio. Rompeu as barreiras de espaço, as paredes, os corredores, ecoou no banheiro e mexeu com o dia. Até o sol, depois dele mandou pra cá um forte raio de calor e luz. Os galos começaram a cantar, os cavalos a relinchar e os porcos eufóricos acabaram por chamar a atenção dos cachorros que resolveram latir pra cima deles. E então depois, bem depois, as pessoas começaram a sair dos quartos
27 maio 2008
23 maio 2008
,
sorriso de canto de boca e o dia que se vai, não dói, não faz diferença, não há diferença, ou há, mas com soluções tão parecidas e tudo tão sorriso de canto de boca e o dia que se vai que não faz diferença, não há diferença, ou há, apenas uma melancolia que se assemelha a preguiça de existir porque no fundo é sempre sorriso de canto de boca e o dia que se vai
tudo pode
que tudo pode e se sacode num pagode
tirando as rimas bobas e as amigas tolas
tirando o desconhecido de outrora
tirando o tiro, tudo pode
tirando o bigode, entende
sem bode tudo pode
tudo pode
20 maio 2008
sigismundo antes
Sentado de frente para um campo aberto, que culminaria num rio lá embaixo, estava o Clarim que vestia calça e camisa pretas, justas e gastas, que mais pareciam pijamas. Olhava Rosaura que atrás de uma grande árvore mudava de roupa: primeiro jogara a longa saia para o lado, depois a blusa e agora ao terminar de apertar a cinta, buscava numa sacola umas roupas. Eram pretas também. Uma calça e um casaco que contrastavam com a camisa branca que botara por baixo. Agora amarrou os sapatos, vestiu um cinto e saiu de trás da árvore dizendo a Clarim: “E por quê você não se vestiu?”
Porque eu só me visto quando me mandam me vestir, como minha senhora não mandou que eu me vestisse, eu não me vesti. Por acaso, o senhor a viu?
Rosaura riu largamente, dizendo a Clarim que era ela que ali estava, não havia homem nenhum e que ela assim se vestira porque tinha uma missão. O gracioso com cara curiosa disse dando de ombros: “ói, então eu sirvo um que é dois.”, levantando-se e indo ele para trás da árvore se arrumar.
Por cima da calça preta vestiu uma xadrez colorida de verde e vermelho que por estar curta e ele estar sem meias, tinha um toque cômico, pois o fazia andar curvado. O longo casaco que vestia e cobria a calça quase que até nos joelhos era também da mesma cor e tinha botões amarelos. Depois de tudo ainda vestiu um cinto vermelho, que ajustava a casaca na cintura e um chapéu bege com uma longa pena laranja. “Estou pronto”, disse empunhando uma espada de madeira, ao mesmo tempo que Rosaura, travestida, guardava na cintura uma espada dourada e brilhante.
Iam os dois a andar, sempre com um cantil de água na mão. Rosaura um pouco desajeitada por não saber andar tal qual homem levava constantemente a mão à barriga e à espada ajeitando-se dentro do paletó. Clarim possuía uma leveza no andar e no olhar que o faziam, apesar de ir sempre atrás de sua ama, parecer mais livre, mais dono de seu destino, o que era estranho, uma vez que seus rumos estavam subordinado ao de sua patroa. Ele ia à frente, apesar de ir atrás.
Ao chegar próxima ao rio já falado, Clarim ultrapassa sua dona e começa a correr até chegar a água, Num ímpeto de alegria, vira uma ou duas cambalhotas e pára justamente a alguns centímetros da água, rindo alto, feliz. Cata um graveto e começa a fazer uma redemoinho num canto logo à margem do lago, espantando os peixes que por ali passavam. Rosaura que chega poucos instantes depois não consegue deixar de sorrir, apesar de ter um fundo olhar de preocupação, olhar que Clarim não consegue deixar de reparar:
Oi. Se você tá assim, com essa roupa e com essa cara, é porque não deve estar nada bom, né?
Ruim não está, mas pode mudar também.
Nesse instante, aparece por cima deles um enorme trenó sendo carregado por dois cavalos brancos. Clarim segura Rosaura pela mão e a leva correndo atabalhoadamente para dentro do carro, não conseguindo evitar de reparar na beleza dourada dele. Com os dois bem acomodados e um pouco nervosos, os cavalos começam a andar pela relva e pouco depois o trenó começa a levantar vôo subindo e subindo. Cada vez mais alto, chega até uma nuvem, a única que tinha naquele céu da tarde da mais bela daquela primavera. Aos poucos bem aos poucos, ele vai se tornando menor e menor até desaparecer por completo no imenso azul claro do céu, que de imóvel nos traz somente um som: o de uma risada já longínqua de Clarim.
18 maio 2008
mim
17 maio 2008
paradigmas
Sentado na cadeira que gira
Assisto o movimento do mundo que não se mexe
Poses em fotos e vídeos sem qualidade
Nada vale a pena hoje, só ganhar
Esqueço-me do toque do telefone
Esqueço do som da campainha
Esqueço que estou dentro de casa
E dentro de mim.
Esqueço o tamanho do meu pau.
Lembro que hoje é sábado
E lembro que eu gosto de filmes
Lembro da última vez que amei
Nesse caminho de esquecer e lembrar
Vou me compondo como partitura
Desenho a desenho, nota por nota
Como quem anota só o que não pode ser.
16 maio 2008
pouco mas é
Já havia tido muitos homens, mas a nenhum chegara a amar. Estava com eles até não amá-los, quando sentia que começaria, parava na hora, largava, jogava tudo pro alto e ia para o próximo. Um dia de tanto não amar, ao assinar seu nome, não conseguiu se recordar de como chamava, seria Renata ou Vânia, Tereza talvez...não sabia. Correu ao telefone mais próximo e ligou para todos os seus ex homens juntos não amados. Como resposta obteve de cada um, um nome diferente, havia sido Carla, Fernanda, Gláucia e até Tereza. Todos queriam saber dela, como estava e por onde andava e sentiu que eles até hoje cultivavam uma beleza no passado que havia sido a história deles, assim ela foi lembrando de sua vida, de seus dias, segundo por segundo como um filme em altíssima velocidade que passava, até que ao chegar no momento atual assinou seu nome com uma certeza do que fazia que até então nunca sentira. Sabia que da próxima vez haveria de amar, ou melhor, já sentia dentro dela alguma coisa a nascer. Era pouco, mas já era amor.
selo, carimbo e retrato
e eu ao lado de todo o resto do mundo
sou selo, carimbo e retrato
a parte errada do jogo, do mesmo
retrato em lembranças
carimbo em registros
e selo em contatos
sou o que nunca pude ser
variando ou não o tempo
sou selo, carimbo e retrato
13 maio 2008
amor que é amor
11 maio 2008
o frio
hai kai (3)
Poderia até dizer aqui do meu cantinho
Que nas fazes da vida gosto de ficar sozinho
Mas só uma companhia me acalma a alma.
08 maio 2008
ente
06 maio 2008
políticos
É preciso que cada um de nós perceba nosso posição política no mundo e assim, consigamos agir de alguma maneira, não em revoluções utópicas, mas atuando como agentes transformadores da gente e de quem está perto, se é que isso é possível hoje em dia quando ninguém mais olha pra outro por mais de dez segundos.
Percebi, então, depois de tudo que a maior posição política é a nossa em relação com amor. Você pode ser engajado, derrotista, radical. Pode ser o que quiser, ou o que for e não consegue mudar. E nesse sentido eu sou utópico, vejo nele uma certa salvação porque colore os dias e explica o resto. Se você não tem relação estável, você é o roberto jefferson do amor, que ora se arruma aqui, ora ali. Se você prefere só ficar e não levar nada a sério, você é a prostituta ou a modelo/atriz, ou até a BBB, que sem posição, se encaixa onde der, ou onde pagar mais. Se você é adepto aos amores impossíveis, os mais bonitos, você é marxista e, amigo, está ferrado, neguim não vai lhe entender e você vai viver por aí sozinho e sorrindo. Se você é daqueles que quer casar e ter filhos e dar casa e boa escola para os filhos, faze-los advogado e médico, você é de direita, amigo do FHC e se aos 14 anos der um carro pro filho e ensina-lo finanças você é do coronelismo e ai se escostarem em qualquer coisa sua.
Enfim, as variáveis são mil, se vocês souberem mais alguma , escrevam aqui. Quem sabe eu volte a isso para aprofundar. Gostei dessa idéia de ser político as vezes.
05 maio 2008
o traço
04 maio 2008
drops
*
Corro o risco de não conseguir. Corro mas risco, conseguir. Eu penso em mim e faço por mim e eu posso não ligar para mim, mas e o outro que também sou eu, mas que não é mim? Ele que é o que o que eu fizer e sofrerá, que sofre tudo que logo rebaterá e somente nele. Na verdade, pode-se acabar com a gente mas jamais com que esse outro é da gente, ou pra gente, ou pela gente, esse outro é o que completa. Esse outro é o que faz lembrar quem a gente é, ou não...
02 maio 2008
breve ensaio sobre o amor
E assim, começamos tudo de novo! Faz tempo que não escrevo sobre o amor, é...não escrevo, apesar de nele passar meus dias pensando com tanta felicidade, esperança, gentileza, raiva, descrença, e até desespero. Tudo isso sem nunca chegar nem perto do que possa ser uma mísera conclusão. Como isso incomoda.
Acontece que algumas pequenas coisas eu já tenho certeza sobre o amor:
1-Só vale a pena quando é muito. Não acredito nesses meio amores que não interferem na vida, que não atrapalham a escola, a faculdade, o trabalho, a produção. Amor tem que atrapalhar, tem que ser chato, tem que fazer as coisas ficarem pra depois. Tem que fazer a gente não conseguir dormir porque está pensando, e no sonho tem que atordoar a gente realizando ciúmes, desentendimentos e quando a gente acordar, ainda pensando, tem que estar mais leve, pronto para amar muito e de novo no outro dia que está amanhecendo.
2-Tem que doer. Amor que não dói não é amor. Amor é meio dor de barriga, meio gastrite, meio perna formigando, meio enxaqueca. Amor tem que fazer a gente estar sempre em risco, tem que fazer a gente se sentir mal, sem ar, tem que sufocar. Tem que fazer a gente desafiar o mundo, a mãe, o pai, o primo e até os amigos. Amar é burlar as leis comuns do dia a dia e instaurar na nossa vida uma outra lei, que ninguém vai entender, e vão até querer castigar-nos por isso, mas a gente nem vai ligar, vai estar feliz e tão distraído que vai perder tudo de vista.
3- Amor é entrega. Se você ama e não se entrega você está fadando o seu relacionamento à merda, ao buraco, aos caquinhos do que não será. Amor é matar aula, comer pizza velha, perder uma noitada, amigos, cachaça, prova, filme, uma outra menina gostosa, aniversário de família, show da banda preferida, até perder emprego é amor. Claro, que você não precisa perder tudo isso, mas tem que estar disposto, estar habilitado e disponível a perder, e depois que está pode até não perder, porque seu amor pode brigando entender. Amor está no que você tem a dar e o outro jamais terá pra devolver, se você for capaz de se doar mesmo assim, siga.
Eu poderia escrever mais e mais. Digo que isso tudo motivado por dois filmes: “Em paris” e “banquete do amor”. O primeiro muito bom, o segundo pipoca demais, mas daqueles que pegam pelo lado sentimental. "Em paris", mostra um desesperado por perder a esposa, dias e dias e dias em casa, e que no final canta uma bela canção ao telefone que meio que virou minha trilha sonora, porque eu sempre acreditei e ainda acredito nos meus amores. "Banquete de amor" me fez escrever, não pensar e me identificar tanto, mas escrever. Um dos seus personagens, Bradley, chega a dizer que se sentia como uma passagem para as mulheres, uma transição, por isso era abandonado. Ele entendeu o amor, por isso pode ser feliz. Se você está lendo isso, se é que alguém lê isso e não está entendendo sobre o amor, ou se você ler, achar tudo isso muito bonito mas na prática faz diferente, desde já eu o perdôo, poucos hão de amar assim. Digo que já tentei e é difícil. Sigamos com a vida, cerveja, emprego e coisas sem graça do dia a dia.
de uma sexta feira chuvosa
É curioso. Não sou uma pessoa que gosta de curiosidades, apesar de ser curioso. Existem curiosidades básicas na minha vida que, por serem indissolúveis, tornam-se recorrentes, ou então, pelo grande vazio que “é” “eu”, vez ou outra a gente recorre às dúvidas de sempre para matar o tédio de qualquer dia. Acompanhem a evolução do texto: curioso, curiosidade, recorrência, dúvida!... Chegamos na dúvida, e eis que as dúvidas (fui escrever eis e saiu “Elis”, a psicanálise adoraria isso, devo estar precisando da música dela) aparecem como o aprofundamento daquilo que em um dia qualquer é apenas curiosidade. Disse eu essa semana que dúvida é uma certeza que não se confirmou. Nisso eu poderia ficar horas, mas não é isso que eu quero dizer, na verdade, eu ainda não sei porque vim dizer o que eu vim dizer e, para falar a verdade, já estou dizendo. Acho curioso isso que é deixar o pensamento vaguear de vez em quando e encontrar suas próprias e próximas conecções. Como é curioso o pensamento, como é curiosa a vida, e numa sexta feira chuvosa, não há curiosidade maior do que essa minha procura de qualquer coisa para sofrer. Infelizmente, inconsciente e curiosidades, estou bem, voltem amanhã!
01 maio 2008
nosódio
palavra aleatória por: Marina Monsanto
ziul diz:
fala uma palavra
qualquer uma
Marina. diz:
nosódio
ziul diz:
porque escolheste tal palavra?
Marina. diz:
porque estou com o nosódio da dengue 30 DH na minha frente, tomo ele todo dia de manhã
e ele é a minha única esperança contra dengue
***
Sem demora porque tinha todo o tempo do mundo, cruzou o umbral da porta e foi para a rua, ia como flecha ou bala, apesar de não correr; era talvez um olhar fixo num ponto futuro inexistente que lhe carregava para a frente; era um impulso ou uma vontade, era uma humanidade, e todos nós o perdoamos por isso.
E ele cruzava as praças como quem fura uma célula ainda jovem e vê todo o seu líquido fugir pela membrana rompida, mas ele não era o que fugia, era o sólido, o que havia tomado o espaço e seguia em frente. Passava também por igrejas e não as via, não sei porque disse igreja, acho que porque seja um símbolo importante de uma fé e ele não as ver demonstrava uma não fé importante, ou uma fé noutra coisa, noutro mundo, portanto a igreja que lhe passava não lhe poderia resolver nada. Igreja era conciliação e nele tudo era contraste, tensionamento.
Chega até um prédio, lê na placa: “condomínio Varsóvia”, ri do nome e entra. Lá em cima no apartamento 403, estava ela a sua espera.
Resolva-me, disse um deles.
Estou-nos resolvendo, respondeu o outro.
Entre dores e sorrisos eles se apertaram por horas e as dores no peito eram os risos do corpo e as dores do corpo eram os risos do peito. Eles se riam de si, aprenderam isso depois de anos na luta de serem felizes apenas consigo mesmo. E por fim, como remédio um do outro adormeceram abraçados, mas como um câncer ambos sonharam juntos e separados que não acordariam no dia seguinte.
30 abril 2008
aprendendo a viver (ou a lhe ver)
"Não se pergunta o mais importante, o mais importante é sermos felizes juntos."
24 abril 2008
foi sim
depois falo do meu aniversário, que sim, como todos os outros deu trabalho, foi um ano suado!
23 abril 2008
o baile
Assim, dançaram por grande parte da noite para os olhos atentos e curiosos dos presentes, e principalmente do patrão da menina. Ao final da noite, ele dispensa a carona dos amigos para leva-la para casa, onde no portão, dela se despede com um beijo longo, simples e puro.
19 abril 2008
rimar é fácil
impotente e prepotente
mas que rende
fere rente
como gotas de um banho indecente
como fugas de um sonho recente
como mudas de um galho incidente
e nesse vagar errante e doente
dos sentimentos que plantam sementes
me vejo e me retorno demente
e se agora comigo não sentes
espera...que essas rimas te esperam somente.
(somente, mas livremente)
16 abril 2008
babá espanca bebê
14 abril 2008
janelas paralelas
e
que sinta que mente
e entenda que pense
me é impossível chegar aqui
e ser impessoal
ou falar do frívolo
é que, sei lá, pra mim
é sempre tudo tão pro-
fundo
12 abril 2008
se eu fosse livre
desapego
Sentados no sofá da sala, Francisco e Fernando estavam a aproximadamente vinte minutos sem pronunciarem palavra alguma. Olhavam-se, desviavam o olhar, um levantava, ia até a janela, voltava a sentar, enquanto o outro fuçava alguma coisa nos bolsos, e assim foi até Regina adentrar no recinto de mãos dadas com Pedro. Ele estava com o terno de marinheiro azul, roupa de festa que usara apenas uma vez, por ser considerada a roupa dos momentos especiais, porém, até então, sem saber o quão especial seria aquele dia para a vida de todas essas pessoas.
Fernando se levanta, Pedro corre para seu lado, dando-lhe as mãos e os dois se dirigem à porta. Ali de baixo do vão que deixava o sol entrar na sala, viram-se juntos, olhando para trás. Pedro sorri para os pais, Fernando passa o olho pela casa e diz:
- Voltamos em pouco tempo.
E começam a sair. Regina pronuncia um rápido “Vão com Deus”, que só é ouvido por Pedro que vira para trás, olhando sorridente para a mãe. Saindo, viram a direita e somem do campo de visão de Regina e Francisco, mas a mãe com um insight corre em direção à porta.
10 abril 2008
danadão
ziul diz:
pq pedrp?
Pedrp diz:
ah cara
é simples
eu fui digitar e errei
ziul diz:
aaahhh dai se cagou, ne?
Pedro diz:
não
foi só isso mesmo
daí eu corrigi agora
ziul diz:
aah tá...
que sem graça
Pedro diz:
nem po
achei um fato manero
ziul diz:
eu não
faltou coco
Pedro diz:
nem po
cocô fede e é moh nojento
ziul diz:
mas uma história com coco é sempre uma boa história
Pedro diz:
ai
eu fico com vontade de vomitar, sabe
ziul diz:
mas vomita?
pq vomitar tambem faz uma história ser maneira
catarse
Abre o portão do prédio e já olha para os lados e pra frente pra ver se consegue ver algum pivete, ou alguém suspeito rodeando por ali, caso não veja, vira para seu caminho e vai embora, vamo que vamo, pé na estrada, passo e pulso acelerados. Chega no ponto de ônibus e tira a mochila das costas, ninguém roubaria na mão boba por trás sem ele ver. Caso haja alguém suspeito por perto, anda até o ponto ao lado, caso algum mendigo atravessa a rua na sua direção, volta para casa. Tudo tem uma fuga. Chega o ônibus e entra, só senta no corredor com a mochila no colo perto do trocador olhando para quem entra e olhando para quem sai. Salta do ônibus, olha pros lados e escolhe o caminho mais perto. Vai como flecha.
Chega em casa a noite cansado, exausto com dores de cabeça, dorme mal. Acha a vida um estresse.
Dia seguinte, sai do portão do prédio tenso e é logo assaltado. Dá 10 reais lá pro sujeito e vai embora pra aula. Nunca foi tão leve, nunca se sentiu tão bem, estuda bem, dorme bem, diz oi pro trocador, pro motorista, ameaça até conversar com pessoas no ônibus, dá o lugar para os velhinhos. Enfim, sente a liberdade que ele tem quando já não tem.
solidão
08 abril 2008
o último
palavra aleatória escolhida por Pedro Fernandes
Pedro diz:
é pq tava tocando "pela última vez" na tv
daí eu falei ultimo, pq eu queria falar no masculino
é mais manero
Ele estava lá quando eu já não estava mais, aliás eu já tinha ido faz tempo, mas sabia que ele ainda estava, ou estaria por um bom tempo. Sabia que se eu voltasse, ele iria embora então eu não poderia ir vê-lo. Ele é mais paciente, mais tranquilo, mais calmo, mais persistente. Acima de tudo é um homem de fé, muita fé; fé ou desespero, mas ele é um ser complex(t)o. Ele demora mais nas cocas-colas, nas jornais, nos programas de tvs, na internet, ele sempre está presente, embora não esteja sempre presente pra mim ou pra você, mas está sempre lá. Você não vai se sentindo só, nem eu, porque ele está lá, fazendo companhia até o fim. Se ele morrer, alguma humanidade morre.
Uma vez ele saiu pra comprar pão e eu achei que eu tinha ficado sozinho; não aguentei, gritei, esperneei, liguei pra minha mãe que obviamente não poderia atender, tentei cigarro, cerveja, violão, música, nada tinha por ali, nada. Era o maior silêncio da minha vida. Pra mim era tão difícil, mas ainda bem que em pouco tempo ele voltou com a mesma paz de sempre e tomou de volta seu lugar, me deixando ir.
No dia que eu tentei acabar, ele estava lá e me impediu. No dia que eu tentei dormir, ele sentou do meu lado, segurou minha mão e esperou. No dia que eu fui pra festa e não queria ir embora, ele tal qual segurança ficou até o fim e me fez companhia. Ele é o que mais gosto em mim, mas sei que quando ele precisar não vou poder estar para ajudar.
07 abril 2008
per-doar=for-give
06 abril 2008
fragmentos de ficção I

Palavra aleatória por Milla Muniz: amigo
- Milla . diz:
foi a primeira que veio na mente
eu até pensei em escrever outra sabe? mas acho que nao seria sincero
Joana estava sozinha em casa. Resolvera andar nua, colocar um som alto e fechar todas as cortinas para que se olhasse de dentro e para que a casa só lhe olhasse por dentro, depois de um tempo nua, percebeu que ainda não estava totalmente nua, não se sentia. Resolveu então tomar um banho, achava que no contato do sabonete e da esponja em seu corpo poderia chegar mais perto de si e começou o processo de limpeza, liberdade e auto-consciência. Escolhera a água gelada.
Ensaboada se tocava, tentava manter toda a proximidade de si, passar a mão e a esponja em todas as partes do corpo e nada. Talvez não tenha nascido para se sentir. E se se masturba?
Odiou com veemência a idéia, saiu do banho com raiva, se secou e se vestiu com a maior roupa e a que mais lhe tapava: do pescoço aos pés. Resolveu prender o cabelo. Abriu todas as janelas e destrancou as portas sentindo uma tristeza imensa do que não pudera realizar: esse auto-conhecimento que só uma casa vazia poderia concretizar. Foi quando na porta bateu alguém. Uma amiga de infância que Joana chamou para dentro, fez-lhe um lanche, pegou uma coca-cola e as duas devagar conversavam, como quem não tem pressa de nada.
Joana não percebeu mas ela já estava chegando a esse seu auto-conhecimento, prova disso é que já tirara o casaco e as meias. Joana não percebeu mas talvez intuiu que a gente só encontra a gente num amigo e principalmente quando a gente está distraído.
tentativa 1
Gosto de assumir coisas minhas, muitas vezes gosto até de assumir coisas dos outros. Se eu fosse fazer um tratado sobre a coisa acho que diria que o que dela transparece são só uns mal hábitos, um singelo mal humor e algumas atitudes dissimuladas, que transparecem a definição de coisa. Acontece é que eu descobri que eu não tinha coisa nesse caso e não foi coisa minha quando tive um dia de estar comigo do jeito que eu queria e percebi que me diverti e fiz até o que me parecia impossível. Por isso acho que retrospectivamente...caramba, onde é que raios eu estou querendo chegar?
05 abril 2008
03 abril 2008
pensado
"Só faz poesia ou vive poesia quem entende de madrugada e entrega ao corpo as dores da alma e do coração."
Depois fiquei tentando entender o que eu havia pensado e principalmente porque eu havia pensado nessa frase justamente na hora de dormir enquanto escovava os dentes. Pra variar não consegui me responder, mas acho que conciliatoriamente entendi em mim que essa frase veio justamente porque eu entrego ao meu corpo todas as dores da minha alma e do meu coração.
Termino com uma frase de meu professor Walder:
Fomos nascidos e criados para a felicidade, mas temos sofrimento desde o primeiro momento.
gentileza sem chance
Pouco depois desci do ônibus e andando pra casa, sozinho, percebi como eu gostaria que o mundo me tivesse dado uma chance de ser gentil com ela.
02 abril 2008
topar
01 abril 2008
urbanidades

Meus deus, eu que sempre resolvo tentar saber tanto; eu que tento ser de mim para mim, e viver por mim, mas que me abandono sempre pelo outro. E pior, sempre que me abandono é quando chego muito mais perto de me encontrar, embora nunca me encontre.
Acabei de assistir Polaróides Urbanas, o filme que é a primeira direção cinematográfica do Miguel Falabella. Tenho que dizer que foi com espanto que recebi esse filme. Foram choros e gargalhadas acompanhadas somente por mim nas já costumeiras idas solitárias ao cinema nas tardes cariocas. Choro porque sofro com aquelas personagens, rio porque também sou um pouco delas, e sendo, compartilho com elas essa nossa solidão, que no final, sempre nos parece engraçada, ou não?
Acho que resolvi escrever simples hoje, escrever simples porque quero ser entendido, acho que cansei da minha solitária missão de fazer arte, de esconder signos pra lá e pra cá. Queria hoje poder dizer em eterno estado de crônica, de sair falando e falando e no tempo que você me lê, ir entendendo e gostando, e sentindo que divide alguma coisa comigo, nesse momento único que é estarmos longe fisicamente e tão perto dentro, nessa coisa que a gente pode chamar de alma, mas que eu prefiro chamar de “a gente mesmo”.
Tem uma cena do filme que eu resolvi transcrever porque demonstra tudo isso que eu tentei dizer aí em cima. Vamos a ela:
Numa praia, uma mulher quarentona e um menino de vinte e poucos anos conversam:
tenho que falar pra senhora, o que eu disse de ser stripper é mentira. Eu sou garoto de programa...
Como?
É...eu faço sexo por dinheiro.
Bem...pelo menos faz sexo, ne?
E nesse completo encontro de perdidos na urbanidade que seguiu minha cabeça. Andar na rua foi estranho, mas voltei pra casa, retomei a rotina e já está tudo bem. E por que será que finalmente quando volta tudo ao normal me dá vontade de dormir?
31 março 2008
ficar rico

E se eu ficar muito rico, comprar um quadro do van gogh e resolver quebra-lo em mil pedaços? O dinheiro me dá esse direito? E com que direito, então, ele influencia tanto assim o mundo das artes, chegando a ditar uma possível nova estética.
Foi nessa hora que eu tive uma idéia genial:
vou comprar um quadro dele, dividir em quatro e vender. Vou ficar bem mais rico e vou virar artista!
30 março 2008
antes de partir
Agora é a hora que eu saio de mim e imagino o mundo todo visto do lado de fora. Imagino eu morrendo e vivendo as coisas pela metade, deixando tanta coisa por fazer que fazer que morrer seria doído. Morrer sem aproveitar uma felicidade que eu imagino que a gente possa ter. Eu me imagino sofrendo um acidente e ficando triste, ou imagino você com uma coisa ruim e o gasparetto falando: “bem feito, bem feito, foi pra aprender”. Acho que ele devia nos dizer isso todos os dias, acho que a gente devia se dizer isso todos os dias, pq no fundo, todos nós vivemos em círculos pra nunca precisar mudar. A gente repete o mesmo erro de um jeito diferente, e a gente sorri de um jeito diferente, sempre em relação a algo que a gente já (não) fez. Eu imagino que um dia daqui a pouco a gente vai querer mudar e não vai nem saber por onde começar, não vai ter idade, saúde, e vai ter tanta responsabilidade que não vai ter nem mais alegria pra fazer, não vai ter uma força que é vital e que é nossa e agora explode como nunca. Eu imagino que se algo de ruim acontecesse o mundo ia virar e talvez, mas jamais inventarei um problema. A vida é o problema, mas o único que a gente tem e que é um problema bom. Quem sabe eu já não esteja me olhando agora velhinho e percebendo que hoje tudo que estou dizendo foi a maior tolice e melhor coisa que eu fiz na minha vida. Quem sabe eu não saiba que eu não vou viver muito tempo e que dizer agora tudo é bom porque dizendo eu divido as coisas de mim, e alguém pode ler e jamais retribuir, mas vai guardar isso tudo, com tanto carinho e sempre com um sorriso de lado que já me faz feliz, como me senti da primeira vez. Talvez seja agora a hora de você sair de dentro de você e olhar todo o mundo pelo lado de fora.
pela primeira vez
29 março 2008
juntos embora
A gente não precisa de mais nada; a gente não precisa mais viver; a gente pode ir embora, fechar a porta, porque tudo vivo que existe já chega na gente com tom de passado, então talvez toda felicidade que tenha pra gente, seja uma felicidade que já foi, e por isso que a gente vai, cada vez mais juntos embora.
27 março 2008
janela
Depois entôo, desfaço, escondo; volto atrás, mas venho e digo porque vivo e celebro.
Se começo com "talvez", não me asseguro destas palavras, e quais são? As digo porque nelas me reconheço como duplo, e porque em frestas vejo um novo mundo.
por Saulo e Luiz
25 março 2008
e depois?
conversa com duchamp

Acordei hoje com minha mãe me cutucando o pé. Depois de reclamar de alguns problemas da vida, ela me disse que esteve ontem num centro espírita pra falar com meu avô e que meu bisavô havia deixado com ela um recado pra mim.
Eu que, apesar de não acreditar em espírito, morro de medo deles, pedi-lhe que me contasse logo, foi quando ela disse:
"olha, ele disse que conversou lá no céu com um tal de duchamp, tu conhece meu filho? Então, falou que esse Duchamp andou conversando com Freud lá em cima e chegou a conclusão de que tava tudo errado na arte dele, principalmente naquele urinol lá."
Eu não conseguia entender muito bem o que minha mãe queria dizer, ela que não entendia muito de arte, me dizia quase que hipnoticamente aquilo que há anos eu estudava e jamais entendia.
Continuou:
"Então, ele falou que na verdade ele escolheu o urinol porque ele lembra e de costas forma um útero de mulher, e o nome 'a fonte' nada mais é do que contar o milagre do nascimento da vida."
Pra mim já era demais, resolvi virar para o canto e dormir, mandando minha mãe parar de dizer bobagens. Foi quando ela terminou:
"daí ele te pediu que escrevesse um artigo dizendo que a culpa é toda dele, que ele é um tarado pela mãe e não sabia e quer que todos nós homens paremos de mijar na nossa mãe."
Enquanto eu adormecia só consegui ouvi a pergunta:
"O que quer dizer isso, meu filho?"
-Não sei, mãe...não sei.
23 março 2008
um jogo
22 março 2008
se
18 março 2008
o que não vai
12 março 2008
lista
pois quanta coisa existe no mundo e meu sonho é enumera-las, pra no final concluir q todas elas vieram de dentro de mim, e como diria Hamlet: "o resto é silêncio".
09 março 2008
pra onde vou
Nunca vislumbrei descobrir quem eu sou; nem em mim, nem de mim, nem por mim. Pensar nunca me revela nada. Na maioria das vezes que percebo que eu sei quem eu sou é com uma música, uma poesia, um teatro ou um filme. Neles, que estão fora de mim, por vezes me encontro, me dobro, e descubro por instantes quem eu sou. Mas foi nela, ou nelas, nas tantas dela, e nas tantas delas, que sempre acabo descobrindo pra onde eu vou.
08 março 2008
07 março 2008
oração
que eu sempre guarde e distribua gratidão, com carinho e gentileza, candura e tato, sorriso e habilidade.
que eu sempre entenda o olhar da outra, ou dos outros, que eu saiba sempre o que me está sendo dito por eles e que jamais diga que é pouco tudo que eu tenho, ou que me é dado.
que eu guarde comigo os bons momentos, as boas lembranças, as boas brigas e os dias especiais
que ontem me seja eterno e que eu faça de hoje um ontem também eterno.
que eu sempre tenha forças e me livre dos pensamentos ruins.
que eu habite fundo muito o meu coração.
que eu seja feliz às vezes e sempre que possível.
e um adendo:
porque afinal de contas, a gente não tem tudo, mas sabe que não precisa de mais nada.
03 março 2008
o chico gostou, eu não.
Faço, falo, calo, eu danço
aperto o passo ou descanso
habito todos os espaços que tenho
tenho, tive, faço, me encaixo
por cima vôo, me abaixo
despacho as marcar pra longe daqui
repete ou mente aquela palavra
me aperta o braço, me estala
e a gente encosta e não larga mais
depois finge que nada me fez
finge que foge outra vez
que eu daqui finjo que nem reparei
reclama, depois conta uma história
explode a raiva, mas cala
me embala e cantarola a nossa canção
do nada volta finge que foi
daqui eu finjo que dói
embola tudo que é rima e refrão
e a gente, e a gente é
e a gente que sabe da gente
que sente que tudo vai ser
da gente, e a gente que
sabe tanto da gente que é
sempre aquilo que poderia ser
02 março 2008
29 fevereiro 2008
aham
, mas quem poderia dizer que nesse sentido, do que se tem sentido há senso, afinal de contas não há razão pra contar o que havia e o que não havia, porque apesar de haver fatos, feitos e instituições, cada dia mais aprendo que isso de nada vale e nisso se pode muito pouco confiar. O que importa sempre são essas outras coisas que a gente nem consegue contar, que faz a gente ser menos na prática, mas muito mais na ordem do mundo, ou do cosmos, sei lá. Tento dizer, aos trancos e barrancos, que existe alguma coisa divina nisso tudo, uma desmedida: nessas horas existe um deus, e tudo no mundo parece ser organizado pelo deus pra gente, cada pequeno pedaço, como se faltasse a gente pra juntar. E a gente junta...
28 fevereiro 2008
feito
É feito de lágrima, de suor, de muitos filmes e leituras, feito por ser pequeno, mais frágil, praticamente epidérmico; é feito de lentidões e aptidões, de chocolates e gritos de gol, de aprender acordes novos, de comprar roupas novas, de ir ao dentista, de ficar dias e dias em casa, só fazendo nada e deixando na mãe e nos outros a idéia de que se está triste. É feito de desejos e fetiches, de sonhos guardados, e rimas forjadas mais rimas forjadas, é feito de computadores e nojo deles, é feito de intransitividades e rompantes; feito às vezes de palavras que já nem se conhece, como admoestar; feito de canções de amor e de amigo, de Clarice e Saramago, feito de pó, poeira, pedra, fim de linha; de cicatriz na perna, de cicatriz no peito, de saudade, de muda espera e de sumiço, feito de tentativas frustradas e cansaços, de medo, algum medo, feito de cinemas sozinhos e pipocas não divididas, feito de frases de filmes decoradas para um dia usar, de choros nos filmes por falta de alguém pra compartilhar; Feito de ser o último a dormir e sentir uma dor ao ver um por um ir embora, mas depois que todos se vão: feito de paz. Feito de bolo e brioche, de flamengo, de abraço na mãe à toa e carinho no gato velhinho que já deixa saudade; feito de grandes paixões e não correspondências, feito de uma força imensa e de total falta de companhia, feito de um parceiro pra compor e compartilhar; feito de algo muito forte e sem palavras, uma coisa que é um enorme aprendizado que um dia pode o levar, mas que por enquanto é seu combustível, feito dessa imensa vontade de se fazer presente, de ajudar a vida de alguém, feito de poucas coisas e sentimentos pequenos como pureza, gentileza e raivas tão rápidas quanto suspiros, feito não de felicidade mas de profundezas de alegrias, feito do que pode ser feito, feito de vontade, potência e ar, feito de simplicidade; feito errado, incompleto, mas feito pra amar.
27 fevereiro 2008
agora
Me deu uma vontade imensa de escrever, daquelas incontroláveis, corri pra cá e, meu deus, foi com o maior espanto do mundo que eu percebi que eu não sei.
26 fevereiro 2008
quem sou eu
17 fevereiro 2008
uma vez flamengo
Quanta ousadia a minha vir aqui escrever daquilo que eu não tenho a menor noção. Pela primeira vez eu posso dizer que faço pela primeira vez do jeito que faço. E esse espanto, esse enorme espanto de fazer uma coisa já tão tarde na minha vida, ou nem tanto, pela primeira me atordoa.
É um aprendizado, meu de conceber e realizar e dela de jamais entender. O melhor é que não preciso que nada rume para lugar nenhum, só ver os passos, as pequenas outras coisas boas da vida aparecendo, por isso que é tempo de celebrar, e celebrar cantando um hino, ou uma música boa, ou fazendo uma nova. Fiz e chama-se ontem.
15 fevereiro 2008
que se entenda
Se algum dia lhe fosse feito uma estátua, ela seria de bronze e ele estaria ali com uma roupa simples, um olhar que acaricia, sofre, mas tem raiva, as pernas ligeiramente arqueadas e os braços, ah os braços, estariam eles estendidos como oferecendo ajuda, oferecendo abraço, oferecendo os braços. E uma vez pedida a ajuda, ele piscaria os olhos, começaria a se mover e desceria para junto do enfermo, pedinte ou necessitado com o olhar terno que se pode dizer agora que se assemelha ao de um franciscano.
Seu nome, Francisco, era nome de orgulho e talvez o que ele fizesse aos outros fosse feito ao seu nome e ao seu orgulho. Ele não era bom e não entendia muito bem sobre a bondade, entendia somente do sacrifício da bondade, das greves de fome da bondade e da solidão dela, talvez por isso tivesse raiva: percebia nos outros o que se podia fazer para ajudar, enquanto que fazer ou não fazer lhe era impossível, já que fazia sem muitas vezes ser requisitado, acabava por sempre massacrar a vida alheia com a bondade. Era sua única arma.
Havia se apaixonado absurdo e exageradamente duas vezes e nas duas se prometera a amar para sempre e assim o fizera, tendo que, sendo sempre o elo mais fraco e tendo que se desapaixonar na marra, na garra, para o eterno e repetido bem. Até seus amores ele massacrou. Com o bem.
Agora, sentado numa pedra de costas para o mar. Há pouco tempo para tudo, sempre. Um dia, faz pouco tempo (para tudo, sempre) havia ouvido uma canção que lhe mudara a vida, pois não lhe trazia o que as outras trazia conforto ou inquietação, ou raiva, ou felicidade, ou indignação: ele havia descoberto na música ela. Foi o primeiro encontro que teve com ela e a partir da canção mais fácil seria esbarrar por ela por aí, ela estaria a espera, assim como a canção havia lhe mostrado sem sinais. Francisco não entendi muito bem o que dizia, sábado e domingo era dela canção.
Ainda de costas olha o movimento que assim passa por ele. Não estava ali para encontra-la, quando a encontrou pela primeira vez, não havia ido para encontra-la, ou será que talvez ele só havia a encontrado muito tempo depois de a ter conhecido? Sabe, por isso, que aos poucos ia encontra-la e que com o pouco tempo para tudo sempre ele não precisaria ter pressa, pois o que era deles já era deles e talvez fosse impossível esse quadro mudar. Sabia, de costas pro mar, que as coisas tomavam um rumo que ele não ousaria tentar adivinhar, muito menos antecipar, ou pular etapas.
Por isso, como em paz, resolve se deitar nas pedras e de cabeça pra baixo pela primeira vez no dia, se é que isso fosse possível olha para o mar. E assim, torto e desconfortável, imóvel como uma estátua, Francisco entendeu o que queria e pela primeira vez no dia sorriu. Havia ganhado um presente.
10 fevereiro 2008
shakespeare
Nunca senti que necessitavas ser pintada,
E por isso nunca te pintei a beleza:
Eu achei, ou achei que achava, que excedias
Aquele pouco que um poeta pudesse fazer:
E portanto eu permaneci quieto ao falar de ti
Que tu mesma, tão destacada sendo, bem poderia mostrar
O que falta à uma pena moderna
Falando do valor, que valor em ti reside.
Esse silêncio atribuíste a meu pecado
Que deverá se provar minha maior glória, tendo permanecido mudo,
Pois eu não prejudico a beleza ficando mudo
Quando outros dariam a vida e falariam disso, criando um túmulo,
Há mais vida em um só dos teus lindos olhos
Que ambos os teus poetas poderiam em elogio criar
02 fevereiro 2008
carnaval
Carnaval não é um evento, uma festividade, um feriado. Carnaval é um estado, um processo, um enigma e uma sigla. Não é para todos a mais popular das festas, é para quem dele entende, e é difícil esse entendimento. É feito não de canções, mas de insinuações de canções, de ritmos quebrados, baladas torcidas e letras tristes. Carnaval é a principal hora de se lembrar que é triste; lembrar, mas jamais morrer, só de for de amor num dos passeios ou blocos da vida. É a hora de comemorar a tristeza e celebra-la, transforma-la num elemento importante da vida, de convívio, mas é também a hora de torna-la natural e fazer que a partir dela o resto do mundo venha. E com o resto do mundo o melhor dos sentimentos: a alegria.
É hora de olhar pro lado e procurar o arlequim que chora pelo amor da colombina no meio da multidão. É hora de ser arlequim e o pierrot, esbaldar-se sem a colombina e depois de tudo lembrar-se que tudo é feito em nome dela, mas fazer. Alguns perdem a memória, outros os sentidos, outros a vergonha e todos a dureza, a carranca, ganhando malícia e lembrando dos pais e avós, das histórias dos carnavais deles, tentando sempre honrar a família e ter carnavais como os deles, se esbaldando por aí. Carnaval é a hora de se apaixonar pela vida, talvez a única hora que vale a pena, talvez a última chance, depois é esquecer do carnaval, cuidar da ressaca e da gente e lembrar que o mundo não é feito de azul. Carnaval, hora de dormir de um jeito diferente.
28 janeiro 2008
as time goes by
25 janeiro 2008
1900
Por acordar cedo, com sono, cansado, por ter estado sozinho e senti-lo sempre, ao vir escrever sei que cada frase será pesada e lembrará qualquer coisa de 1900.
22 janeiro 2008
heath ledger
E quando ele morre tanta gente morre com ele, tanta gente deixa de existir, é um genocídio sua morte, uma coisa meio estranha pra mim não acostumado a ver a morte de alguém que só conheci sendo o outro. E em quantos outros dele estaria ele, ou por quantas vezes teria eu o prazer de ver seus outros sem vê-lo, eis os mistérios das artes da vida e da gente: sempre alguma coisa fica irrealizada e tudo que já (se) foi se torna mágico, etéreo e sempre nos escapa ficando na gente pra sempre, mesmo escapado.
15 janeiro 2008
fato
E quando me acabam as palavras e os argumentos o que me resta? Apenas um infinito silêncio e uma paciência que caso acabe me levará junto com ela para o fim de mim.
14 janeiro 2008
pois
Como se fosse possível pelo menos uma vez na vida dizer aquilo que não se pensou mais ousou sentir sem mesmo conseguir entender sem palavras, o menino tentou poder dizer para elas o que queria. Não disse, ou ao tentar dizer, sabia que não estava conseguindo e mesmo não olhando pra elas, sabia, e percebeu que sempre saberia, que a qualquer momento que tivesse palavras assim gentis e sinceras pra elas, elas agradeceriam e sorririam, uma vez que elas tinham a certeza de que poucas vezes na vida tal tipo de encontro aconteceria. E ele, acanhado por estar dizendo assim, tão rápido e tão verdadeiro, resolveu por pensar que nelas estava muito do que ele queria, não para si, mas para a vida dele, que na presença delas poderia se concretizar. E nesse vai e vem de pensamentos e nervosismos, ele percebeu que pouco precisaria dizer, ou mais nada, porque se elas gostassem não precisariam nem ler tudo, que na primeira linha estaria dito, não por mim nas palavras, mas no sorriso delas que infelizmente não chegarei a ver.
12 janeiro 2008
classificar
E toda vez que ouço – não te classifico – tomo isso como boa coisa, como aquele que sabe que o essencial é aquilo que não aparece ou aquilo que vaza e que no fundo sentimento é isso mesmo, mas depois acabo por perceber que não. – não te classifico – é só a forma de ser um asterisco, um aparte, um post scriptum, um epitáfio e minha inclassificabilidade acaba por ser aquilo que me classifica, a regra do que eu sempre fui e que hoje com toda força me reafirma, tanto que me faz já nem ousar reclamar outra coisa pra mim.
07 janeiro 2008
suspira. Depois
De pileque, trôpego pelas escadas numa dissimulação imperfeita ajudada pela escuridão da noite, ele chega em casa. Troca algumas palavras com quem ainda não dorme, ou com quem nunca dorme, ou com quem sempre espera. Tira o tênis sujo, para as meias precisa de apoio da estante e em segundos tira a calça e a blusa e fica de cueca, escolhendo qualquer bermuda e qualquer camisa, principalmente aquelas que não escolheria para vesti-lo naquela noite de sono. Senta-se a cama, olha para frente, num ponto da janela com alguns adesivos e respira. Depois suspira. Depois de um silêncio, volta a respirar com a força de um suspiro. Tenta pensar e não pensa, apenas aguarda que todos se deitem, o que demora apenas alguns minutos. Levanta-se, dirige-se ao banheiro e se percebe no espelho com a pupila dilatada a escovar os dentes sem respiração e com sono. Volta-se ao quarto, se senta na cama e olha novamente o adesivo e respira. Depois suspira. Depois de um silêncio, volta a respirar com a força de um suspiro. Deita-se, mas ainda muito demoraria a dormir.
28 dezembro 2007
ano novo
Quando virar a meia noite do novo ano, quando virar 2008, quando virar o tempo fatiado, quando virar, se virar lento ou virar bêbado, ou virar triste, ou virar azul, não importa, quando virar que eu vire estrela, vire amigo, vire troféu ou vire mendigo, não vire gay nem vire as costas pra não..., vire mais padre, mais santo, menos pouco, mais muito, menos isso ou aquilo outro e mais esse, virar mais calmo e mais na paz, virar um pouco papa, já que de branco, na verdade virar religioso, chegar em 2008 sentindo coisas espirituais quaisquer daquelas que não se sabe definir, quero sentir algum infinito na virada, sentir um sublime, com todos os sublimes que me fazem entender. Virar o ano mais puro, acordar e tomar leite, preciso tomar mais leite, eu gosto. Virar o ano entendendo menos das coisas, e refletindo cada vez mais sobre o menos delas e ir cada vez mais fundo naquilo que eu sei que me mata, mas que nunca me deixa ficar longe de mim e comigo, virar o ano e se possível lembrar dela, e depois dela, e depois outra ela, e sorrir, se assim puder e der, lembrar que lembrei, lembrar que estou lembrando e ainda não esqueci, lembrar e pensar e querer estar. Passar a virada fazendo muito e esperando o ano novo que vem, virando, virado, mas vem, e que comece leve, e só pese mais pro final.
22 dezembro 2007
Eram azuis.
Aquilo tudo acontecera algum tempo atrás, mas ela já vivia hoje. Acontecera ou começará a acontecer, não está bem certo se aquilo ainda acontece ou se fora somente uma bandeira uma vez hasteada que deixou rastros por todos os cantos onde e por onde o vento perdeu velocidade, sem nunca perder intensidade. Estava úmida e estava pesada. Sentia um peso enorme das cortinas ao lado em seu peito. Eram azuis. Não estava deitada nem sentada, recostava-se de um jeito displicente que causava algum desconforto. Vez por outra parecia emitir um gemido, que no quarto vazio da cortina azul pesada se propagava e se perdia em meio aos móveis e ao edredom. Ali sabia o que esperava ela sem saber o que chegaria pela porta, mas sabia o que esperava. Esse saber vinha muito mais de uma força e de uma confiança no acaso do que de qualquer certeza que tinha. Se ali deitasse dormiria como ninguém, então se abaixou, e vazia, como ninguém, dormiu.
21 dezembro 2007
ônibus
Todas vezes poucas que tive senti um risco físico real ou que eu aparentava ser real jamais senti tristeza, ou medo, ou alguma coisa que me afastasse da vontade de morrer na verdade desde sempre gostei disso que sentia e já percebi algumas vezes que foi isso que salvou alguns dos meus dias do marasmo e do mais do mesmo ontem no ônibus não sei porquê raios ou porquê motivo ou por quê eu senti de repente uma imensa força em mim dizendo vai acabar e eu olhei pra janela e vi as luzes das casas pobres e sorri sentindo uma felicidade imensa de poder ter compartilhado de todas essas coisas naquele momento daí olhei as outras pessoas no ônibus nenhuma delas compartilhava daquilo comigo e finalmente percebi que aquele ônibus não ia bater e nada iria acontecer mas ontem percebi que o dia da minha morte não vai nem um pouco doer.
10 dezembro 2007
talvez pela ficção
Essa história fictícia de amor, talvez pela ficção do amor, talvez pela ficção da história, começa quando ela resolve nunca mais querer voltar para ele, não querer ser mais dele, a partir de então, ela vai ser mais bonita, mais sorridente e mais engraçada, todos gostarão mais dela, e talvez ela até seja mais feliz. Nos caminhos, ela terá muitos, bastantes, e trocará deles sem intervalos, não conseguirá nunca mais não tê-los e não seduzi-los. Essa história fictícia de amor, talvez pela ficção do amor, talvez pela ficção da história, termina quando ela resolve nunca mais querer voltar para ele, não querer ser mais dele e apesar dela agora já não ter tanta certeza disso, jamais voltará atrás.
09 dezembro 2007
aquela vez
havia a poeira e nenhum ruído somente o que foi que ela lhe disse veio partiu foi isso assim veio partiu veio partiu ninguém veio ninguém partiu apenas veio partiu apenas veio partiu
05 dezembro 2007
não fosse trabalho seria poema
Os espaços não são negados, nem as presenças, nem as torrentes, nem os pensamentos, nem as repetições, nem os hábitos, nem os vícios, nem as mesmas palavras, sendo ditas insistentemente, e se retomando e se repetindo formando novos horizontes e novas expectativas, mantendo tudo incerto e inexato, mas absolutamente coeso, numa coesão tão absoluta que apesar de tudo ainda se diz haver uma unidade. E apesar de tudo isso, ainda se nega uma coisa: o “eu”, essa instância discursiva vazia, só elucidativa quando enunciada. E negar o “eu” e não negar todo o resto é algo determinante.
30 novembro 2007
28 novembro 2007
materno
19 novembro 2007
16 novembro 2007
vaitchau?
As vezes vem assim na minha cabeça que se um dia eu resolver pedir ajuda para qualquer coisa, haverá muita gente para ajudar, mas ninguém para ouvir. Tenho aprendido muito sobre a escuta, e tenho concluído que até hoje ainda não tive um ouvinte, tive momentos, raros, que fui ouvido, mas pouco, bem pouco mesmo. Tenho percebido também que ninguém me lê, e os que lêem não percebem que muitas vezes estou e prefiro que essa frase fique pelo meio. Vou dormir, e um dia eu paro de escrever.
14 novembro 2007
buraco
Tinha um buraco. No dia anterior não tinha, no dia anterior estava inteiro, mas agora tinha um buraco. Não que estivesse furado, transbordando ou sobrando alguma coisa, nem que estivesse vazando e desperdiçando, simplesmente acordou assim com um orifício. Daí a saber que se tem um buraco é uma coisa, saber o que fazer com o buraco é outra, e o que se pode fazer com um buraco? E sobre isso jamais foi pensado e portanto nada jamais concluído, mas a certeza a partir daquele dia passou a existir: tinha-se um buraco, e nada mudaria a não ser uma pontinha que dizia que tudo aquilo começara no dia anterior.
11 novembro 2007
dissedele
Os sentimentos não têm tamanho, nem formas, mas esse de agora é diferente. Ele não cabe numa música nem numa poesia, entretanto continua sem forma. E em outra adversativa digo que apesar de sem forma ele pede uma prosa, mas uma que não muito vai longe. E dialogicamente vou dizendo e opondo e dizendo cheio de oposições que quero desfazer. Só quero dizer desse sentimento que não sei o que é e nem de onde é, e é? Não quero tentar explica-lo, nem falar sobre ele, só dele, assim, e nessa prosa frouxa, nessa prouxa, desse sentimento falei. Não me sinto mais leve, mas sinto que alguém um dia vai ler isso aqui e lembrar que hoje eu tive um sentimento e disse dele. E isso você faz?
05 novembro 2007
ar mulé
cara...eu tava lendo um texto do jabor mt foda
ele falando q tá cansado dessas mulheres de bunda de fora, q agora a mídia controla a hora q vc tem q ter tesão
e q no carnaval tem tanta bunda de fora q não dá tempo de sentir tesão direito por nenhuma delas
Pedro diz:
daqui a pouco a gente vai sentir tesão em mulher de roupa
ziul diz:
é...
"caraca, aquela tá de calça larga, q tesao"
Pedro diz:
bom devia ser antigamente
tu tinha que usar a imaginação
hoje não
é tudo mais fácil..
ziul diz:
uhauhauhauhauha
é verdade
eu tava falando com a minha mae q assim, hj em dia ser "pelada" é um modo de vida
a mulher passa a vida inteira pelada
passa de ano pq ficou pelada pro nerd, fica pelada na praia pra arrumar homens, depois fica pelada pra arrumar emprego
e trabalha pelada
passa a vida assim
Pedro diz:
é verdade
depois mulher reclama dos direitos no trabalho
que mulher tem que ganhar a mesma coisa que o homem
pff
mulher ganha dinheiro mtu mais fácil
ziul diz:
uhahuauhauhauhuha
fato!
e assim, elas reclamam q sao assediadas...mas porra...elas passam a vida peladas
depois q ficam ricas querem parar??
nao tem como.
Pedro diz:
auhduahduahduahda
eu nunca queria ter nascido em outro planeta cara
o nosso é mtu manero
02 novembro 2007
senão transborda
Em relação a mulheres então, sou uma múmia. No meu tempo, e não é que eu queira dizer que eu seja velho e as coisas mudaram, pelo contrário, quando digo no meu tempo, é na minha idéia de tempo, de passagem, de multiplicidade rítmica, enfim, no meu tempo mulheres eram ganhas com discursos, palavras e atitudes se não nobres, que forjavam nobreza. O Arnaldo Jabor disse numa das crônicas que para conseguir alguma coisa com elas chegou a apelar para Marx, Deus, e chegar a citar o ato como uma “luta contra o imperialismo”. Hoje, ou ontem, eu vejo muito que não. Não deixo de olhar os movimentos noturnos e as paqueras por status com um certo tédio, e percebo que os valores, até nos que tem valores, é que os que têm mais amigos são mais “aptos”, são alvos. E isso me dá preguiça, porque eu não mais sei interagir assim com muito esforço e pouca sinceridade. No fundo, até gosto da minha imagem, do tímido que pouco fala, mas quando fala sempre alguém ouve, aquele que perto de pouca gente, consegue se divertir com o mínimo e vê toda a atividade obrigatório com preguiça, essa é a palavra, tive de repetir.
A grande verdade, que na verdade é pequena, mas que eu sinto grande é essa enorme massa de solidão eu vivo. Acho que em alguns anos vou enlouquecer, já que hoje não consigo me fazer entender. Essa semana na faculdade ao estudar A gaivota do Tchecov, a professora dizia que apesar de ser levado como um cara dramático, ele estava longe disso, e que quando a personagem Macha começa a peça de preto e diz: “sou infeliz”, isso de nada lhe faz ser triste, ou pra baixo, pelo contrário, a infeliz é a q mais vive naquela peça, e é como se fosse “sou infeliz, fato, agora vou viver minha vida como puder”. É isso, e mais não se diz!
28 outubro 2007
“Mas não,
Michel Melamed
25 outubro 2007
fica
Pintava seu quadro de nossa história
Que ela moldava do jeito dela e não pedia ajuda
Imensa astúcia a da pequena que não sabe o que quer
De blusa listrada e de sandália não sabia
Que era muito o que sentia e que pedia
E não era culpa minha se não tinha
Tanta vida e tanta glória e tanta coisa boa pra dizer
E eu em meio a tudo isso
Ou até apesar disso
Só sabia de uma coisa e repetia
A mesma frase num cartaz assim escrita
“vai..vai...vai...mas fica”
Luiz Antonio Ribeiro
26/10/07 - 1:30
23 outubro 2007
anotação de aula
20 outubro 2007
deixo-os
03 outubro 2007
de ir me
Não creio em nada, nem na escrita, não creio. E é essa descrença que me faz falar de coisas que não tenho parte nem domínio nem entendo. Na verdade, não falo sobre nada porque em mim não há voz, há em mim somente um eu que não consigo identificar, logo não consigo pensar, logo não consigo enunciar, não existe o meu enunciado, só minha enunciação. Repetir sempre é necessário. E falo porque a voz é aquilo que mais contém o meu silêncio e sempre que eu silencio eu falo tanto que acabam por pedir que realmente fale, então vivo nesse paradoxo: dizer para não dizer e não dizer dizendo, e assim, tenho de ir me confortando em não fazer ninguém ouvir, porque é necessária uma outra escuta que não a de ouvir. Acho que estou estudando isso demais, estou entendendo isso demais, estou me aprofundando e me silenciando demais, chegarei ao tempo que direi com um olhar mil palavras e minhas profecias de dimensões bíblicas estarão num mover das mãos, aí chegarei lá, e poderei perceber que na vida alguma vez fiz teatro. Acabo por, sempre, crente que consegui, a formatar níveis daquilo que eu deveria ou poderia, ou conceberia ter dito, se a minha vida fosse essa, pois se fosse, estaria eu limitado a muito pouco. Ainda bem que até agora ainda não fui eu.
