08 fevereiro 2010
menino devagar
não me esqueça num canto qualquer"
o caderno - Toquinho
É sobre algumas coisas meio que singelas que é mais bonito falar. De um caderno, de uma tarde, de um sorvete pra descansar do calor. Muito comum coisas assim estarem nas minhas letras de música, acho que é porque elas materializam muito bem sentimentos e sensações, ou seja, corpo e espírito. Uma delas que fiz faz tempo chamada "menino devagar", com melodia de Francisco Ferraz diz:
"A pele clara como sol de primavera
o rosto dela me lembrava o verão
e os seus passos eu seguia atravessando a avenida
e descansava com um suco de limão"
São algumas imagens, mas que me lembram exatamente de uma tarde, que não verdade não existiu, ou ainda não existiu ou que talvez nem venha a existir, mas representa essa sensação bastante forte. É dessas singelezas que fazem a alegria e 2010 até agora tem sido assim. Essa música, só pra saber, termina assim:
"Como não ser uma lembrança
o seu menino, a esperança
que devagar vai procurar um sonho bom..."
04 fevereiro 2010
colheita feliz
Uma vez um rei disse que não havia nada novo debaixo do sol. É difícil acreditar que reis digam algo que não seja pelo interesse particular de seu reinado, e portanto, principalmente tendo em vista a manutenção do seu trono Haver coisas novas, então, era ameaçador. Ele vivia, torcia e dizia, como numa religião que nos sete cantos do mundo não havia novidades por debaixo do sol.
É complicado, porque há muito que dizer sobre isso, mas o que mais me chama atenção é que numa frase tão simples e que se repete por aí esteja tão formulado, carimbado, tatuado uma série de idéias, formas de convivência em sociedade que só servem para reiterar problemas e explorações. Assim, há que se ter alguém que diga algo, há quem o repita, há quem o reitere, há quem o siga e principalmente há que o afirme e o transforme em verdade. Há o movimento claro da exploração, inclusive o espaço para que se duvide e discorde, entretanto é exatamente em todo esse equilíbrio entre as forças que não disputam, mas coexistem numa opressão mascarada, que tudo funciona. Isso chega a tal ponto que se houver alguma coisa nova debaixo do sol, esta será automaticamente apontada e ou será incorporada para repetição como um novo velho ou um novo zero, ou será excluída e dizimada. Esse rei que diz que não há novidade é mais um ditador, um imperialista, um facista. E todos que estão debaixo do sol somos nós a trabalhar pelo velho e o sol é o velho deus que nos observa, como quem joga conosco colheita feliz.
03 fevereiro 2010
o caminho
Chegou na movimentada rua e viu os faróis piscando, as buzinas tocando, as pessoas correndo, andando, falando ao celular, pouco entre si e muitos vendedores tentando ganhar a vida. Ali ninguém lhe percebia, era o oposto de tudo, podia andar altivo, forte, feliz, por mais que estivesse mal se misturava no movimento o que lhe dava a sensação de felicidade, tudo isso porque aquilo não lhe pertencia, logo poderia ser dele. Ou seja, o que não era dele estava em suas mãos como nunca enquanto que o que controlava não podia jamais ser seu, ou por fim sair fo controle. E nesse equilíbrio ele seguia pela cidade rumo ao trabalho. Talvez vá vencer.
02 fevereiro 2010
sempre estético
Daí, daííííí entramos pra falar da vida pessoal, relacionamentos e tento recolocar o mesmo fato, mas a partir daí ferrou. Vou acabar pegando num monte de hipocrisias, porque a maioria diz que "não repara no exterior na hora de se envolver", mas elas dizem isso justamente pelo fato que não gostariam que só fossem olhadas assim, e principalmente porque elas precisam se defender da mesquinhez (ou sinceridade) que é assumir uma animalidade nossa. Preza-se tanto pela razão, que ser estético é quase ser animal. O problema é que isso cria uma espécie de nulidade, um zero-esforço que cada pessoa tem de fazer quando se relacionar com alguém, pois está tudo entregue ao puramente contato físico. Isso é um problemas, mas sempre há de ser assim...
01 fevereiro 2010
zerada.
18 janeiro 2010
preocupar
É isso, escolhe, todos temos que o fazer. É o mais difícil, por isso digo que não tem como não se preocupar.
15 janeiro 2010
conhecimento e amizade
Percebi que tudo que a gente quer saber a gente tem que controlar, dominar, como se o conhecimento fosse um cavalo arredio, ou gato arisco, ou um balão que no menor descuido se afastasse da gente e tomasse um rumo aleatório. O conhecimento ou a sabedoria seria essa âncora, esse arreio, que segurasse o pensamento, que o prende e o coloca numa jaula para exibição e a partir dali qualquer reflexão serve para reiterar e aumentar esse conhecimento.
Então cheguei a conclusão, assim, ao refletir sobre uma discussão de que meus argumentos podem parecer inconsistentes justamente porque sou incapaz de amarrar o que eu conheço, e acho que o que se sabe não deve ser amarrado, e sim deixado livre, como uma escultura fora do molde, como pássaro criado solto. A sabedoria deixada solta ganha movimento, ganha amplitude, ganha experiência, ganha riqueza, enquanto que o encarceiramento dela ganha excesso de rebuscamento e falta de nitidez, simplicidade e humildade. Porque tudo que se conhece deve ser humilde e ingênuo, qualquer coisa fora disso pode e é bastante perigoso.
Resolvi falar tudo isso depois de pensar sobre a amizade e percebi que meus grandes amigos são assim, soltos, porque não sei muito bem o que é amizade, até porque pra realmente saber deveria ter controle dela e isso é algo, que como o conhecimento acaba tirando a gente daquilo que a gente mesmo precisa pra ser feliz.
(escrevi isso depois de muitas cervejas e temo não ter sito claro)
14 janeiro 2010
meu tio
12 janeiro 2010
ao correr dos tempos
E que coisas no mundo que não são assim? O que há no mundo que não seja exatamente na superfície que o mais profundo que se materializa? Digo que as coisas se fazem na sua contradição, na disputa, na briga. A paz não é criativa, pelo contrário, ela é o momento em que tudo vira lagoa.
E eu, ao correr do tempos ou no silenciar da canção, sempre preferi o mar.
08 janeiro 2010
o cão
Dormia às vezes leve e às vezes cansado, esperava sempre a hora certa de querer carinho ou uma brincadeira, qualquer coisas que acendesse uma centelha do que tinha, mas acontece que quando acesa era um farol, uma fogueira, um incêndio. Ele sabia disso, havia feito uma vez pra nunca mais. Não que não quisesse, não era requerido, acostumava-se a viver dessa maneira, entre latidos da porta, cochilos no sol, desejos incompletos e esperas por carinho. Era feliz porque tinha coisas boas, mas não podia deixar de ser melancólico, porque simplesmente na maioria das vezes a vida o é.
07 janeiro 2010
sucos
Na indústria e no mundo atual tudo tem nome. Deboir estava certo quando falava da autonomia das imagens, tudo tem nome, tem imagem e logotipo, e essas coisas se fudem, se associam. A graça está no esvaziamento da essência, de qualquer essência, de qualquer coisa que pode parecer essência. Isso seria interessante se eu estivesse falando de alguma coisa abstrata, mas não, foi ao conversar sobre esses sucos de garrafa e copinho tipo ativplus que percebi. As coisas nem nos sentidos são o que são. Esses sucos de laranja com acerola não têm mais gosto nem de um nem de outro, muito menos deles dois misturados, e a cor, presa dentro do copo de um modo que quase não possamos ver é artificialmente colorida. Então, amigo, se você não gosta de laranja, toma esse sujo de laranja, ele é diferente. Açaí? não gosta? É porque você ainda não bebeu o acaí Ikó.
E assim, aos poucos, as coisas deixam de ser incômodas pra gente, tudo vai virando normal. Tem que ser saudável? Tem agora o actívia que faz tão bem quanto uma salada e tem em sabor morango, frutas cítricas, que beleza.
Nada mais é absolutamente nada, tudo é, na medida em que nos traz conforto, comodidade e nos mantém onde estamos, sem nos mexer, apáticos.
(e venda.)
06 janeiro 2010
última vez
Havia no seu olhar tristeza
E no meu argumento e desespero
Havia em você uma certeza –
Ainda nebulosa pelas quinas –
De que rodopiaria a vida
Como ela era até então
Na última vez que nos vimos (juntos)
Havia algumas lágrimas de crocodilo
Havia a gente numa lanchonete –
com as piadas que ali fizemos
que ficaram perdidas em mp3 –
Quando na despedida de leve
Alguma coisa se quebrou
A partir dali não mais nos vimos (juntos)
Vimo-nos às vezes eu, às vezes você –
Mais eu, é claro, embora negue –
Até que pouco tempo depois
Você aos poucos cegava,
Embora ainda sentisse.
A partir dali só eu via
Pelo dois...
05 janeiro 2010
férias
29 dezembro 2009
.2 - apêndice
francisco... diz:
muito bom, cara. o texto tá ótimo, apesar deu não concordar com a ideia
ziul diz:
pq?
francisco... diz:
pq vc conclui que existe uma funcionalidade primeira pras coisas, como se fosse algo natural
e com isso eu não posso concordar
ziul diz:
nããão...funcionalidade da palavra.
não das coisas.
francisco... diz:
sim
mesma coisa
e vc fala sim das coisas
ziul diz:
não, não falo não.
falo q não tem pq ignorar o sentido óbvio, material da palavra.
pq ela existe pq antes disso a coisa existia.
e a coisa pode ser outra coisa, a palavra antes de ser, é ela mesma
francisco... diz:
é disso que eu discordo
ziul diz:
aaah tá.
francisco... diz:
Então fuçar, chafurdar e ciscar é tão forte, submisso e modesto quanto isopor, fronha e cabine-dupla são necessários, úteis e facilitadores.
ziul diz:
mas essa frase não tá dizendo isso, tá dizendo q os adjetivos vem depois e poderiam ser qualquer um
francisco... diz:
então
é com isso que eu não concordo
é que a palavra dá o significado, e vc fala como se a coisa existisse e tivesse um valor ou um significado em si, e a palavra viesse só pra facilitar ou explicar isso
ziul diz:
NÃÃÃO.
eu digo q a palavra é cristalizada e a ação não!
francisco... diz:
uhuahuhu então vc se explicou mt mal
escreve essa frase aí no texto
.2
O cachorro fuça, o porco chafurda, a galinha cisca. Todos verbos que parecem ter sido feitos exatamente para cumprir as funções que cumprem, suas sonoridades se coordenam perfeitamente com as ações e não permitem embustes ou adaptações, por exemplo, se o cão resolve chafurdar perde um pouco de sua canilidade e o mesmo aconteceria com a porquidade do suíno se resolvesse ciscar. A galinha não é bicho, é gênero, pois o galo não cisca, o galo vive uma esfera maior dos animais, como se nos galinheiros houvesse área vip e eles, como estátuas, fossem criados e servidos como formigas-rainhas, enquanto que galinhas e pintos “chafurdam” por entre a miséria do galinheiro, fuçando os restos para o outro e para si.
Aposto que nesse exato momento, quem quer que me leia está imaginando metáforas. A mente humana, estúpida na sua criação tem essa tendência, detesta o concreto e já tenta logo construir um outro sentido para aquilo que se vê ouve diz fala toca, bobagem. O concreto é ainda muito melhor que o metafórico e o abstrato nada mais é do que a forma do concreto. Então fuçar, chafurdar e ciscar é tão forte, submisso e modesto quanto isopor, fronha e cabine-dupla são necessários, úteis e facilitadores.
Tirar da matéria a matéria é tirar do chão o piso, do leite o copo e da mente o erro. É esquecer que se chafurdam é porque foi preciso chafurdar e não há nada que se possa fazer.
24 dezembro 2009
incondicional
michel melamed.
23 dezembro 2009
sentimento de fim de ano
18 dezembro 2009
os mosquitos
17 dezembro 2009
a fila
- o problema são as filas.
Achei que ela estava puxando assunto igual as velhinhas fazem e ignorei.
- São as filas, eles conseguiram.
Fiquei curioso e perguntei:
- Eles? Eles quem?
- Meu filho, é isso. São as filas a forma que eles usam pra controlar a gente.
- Como assim? Filas? Eles?
- É, exatamente. É uma maneira de nos fazer presos aos desejos, de fazer com que conquistemos nossas vontades, anseios, mas que percamos nossa força de lutar, de ver o que é justo. Por exemplo, como chego em casa se eu sair dessa fila?
- A senhora poderia ir a pé.
- E seria justo que eu fosse a pé com a minha idade? E mesmo que eu fosse nova, o certo não seria termos a liberdade de escolher como vamos?
- Mas temos, temos sim. Eu posso ir a pé.
- Que nada, você escolhe entre pegar fila ou não, não entre ir de ônibus ou a pé. O meio fica secundário.
- Mas é que é muito difícil, é muita gente nas cidades. Por mais que eles façam...
- Nada disso, meu filho. Isso é o discurso deles, claro que os problemas são grandes, mas todos nós pagamos pra que os problemas sejam resolvidos. Quem paga assinatura de jornal, recebe o jornal, quem paga as contas deveria ter os benefícios.
- Entendo, mas isso me parece distante.
- Distante nada, eles fazem isso pra que só possamos reclamar no máximo ali com o fiscal. E reclamar da fila, não do problema em si. Já o fiscal nada pode fazer e a gente fica com a sensação de que nós também não.
- E como mudar isso?
- Não tem mais jeito. Ou abandonamos a fila ou permanecemos nela.
- A gente pode criar um problema, sei lá, tipo uma rebelião.
- Claro, e quem sairia perdendo? Quem está aqui. Levariamos mais tempo em nossos destinos, nossas casas, nossas famílias.
- Então estamos presos a essas filas?
- Isso. Estamos presos a todas as filas. A vida, no fundo, é um intervalo entre filas.
- Vou a pé, só hoje! Adeus.
- Vá meu filho...
Saí pensando em como poderia ter andado menos, daí me senti injustiçado, meio sem forças, meio corajoso, mas nada fiz. Cheguei em casa e só.
11 dezembro 2009
07 dezembro 2009
flamengo

O primeiro som do meu dia foi do meu pai tomando café na cozinha. Sabia que aquele dia seria diferente e mais que sabia, tinha uma intuição de que seria o melhor dia da minha vida. Rolei pela cama fazendo planos entre o sono, a ansiedade e o medo do fracasso. Porque ter uma paixão é atirar-se ao acaso e não perceber que dele se fará a vida após aquele instante.
Depois me levantei e vesti o manto. Dei bons dias e olhei para a janela. Não tinha sol, anúncio de um dia nublado. Menos mal, penso eu, quando tudo parece ajudar é que o fracasso vem. Um belo sol poderia iluminar mais esse caminho que eu nem queria pensar. Tomei meu café e sentei na varanda a olhar o jardim. Eu me mexia muito de nervoso e cheguei a pedir calmante pra mim mãe, dizendo que assim como tava, eu não ia aguentar.
A hora num passava de jeito nenhum e eu queria morrer um pouquinho para viver muito mais daqui a pouco. O telefone começa a tocar e as pessoas dizendo pelas entrelinhas que era dia de abraçar, dia de mudar a vida, dia daqueles que nunca esqueceremos. E eu dizia que hoje o dia era nosso e de ninguém mais. Ninguém.

Até que dá uma hora antes e eu mudo a bermuda, visto um tênis e vou pra rua. Comprimento os desconhecidos que vestem o mesmo manto que eu, sorrio para todos, pego uma cerveja e vou. Chego no meu destino e a partir daí é só alegria. Choro porque ainda sou criança, choro porque o flamengo é muito maior que eu, muito maior do que eu posso ser. O flamengo é das minhas paixão a mais descompromissada, por isso a mais sincera. O flamengo é o que faz de mim e do mundo, uma pessoa e um lugar, melhor(es) de se viver. Sem ele, meu desgosto seria profundo.
Parabéns pra nossa nação, parabéns!
03 dezembro 2009
o cachorro late
01 dezembro 2009
poesia de cortina
o que atrapalha a poesia
que fica dura feito concreto,
lâmpada e alumínio.
a cabeça já não lateja mais
sem idéias fixas ela flutua
entre o tédio do nada fazer
e o todo de se perder
as meninas se fixam
transitoriamente entre
o que eu quero
e o que vou fazer
uma, melhor que as outras
vira brincadeira de criança
que prefere o jogo
ao prêmio que aponta
e sem poesia de janela
sem poesia de luar
o que se escreve vira traço
momento roubado do nada
e o que era pra ser belo
agora é só disforme
como se o mundo assim
pudesse fazer sentido
28 novembro 2009
25 novembro 2009
a paixão
Acho que é mais subjetivo ainda. A paixão é latente quando a gente percebe que não vai conseguir largar a pessoa, por mais que se tente; é quando a gente começa a imaginar o que a pessoa pensa enquanto a gente pensa nela; é quando noves fora, a gente percebe que a nossa vida é por algum momento da pessoa e que tanto nossa felicidade quanto nosso fracasso depende dela.
Por isso a paixão é tão arriscada, mas tão singela, porque tem o tamanho de um elefante com a leveza de um pássaro. É cor, mas também é forma. A paixão é um eterno sonho dentro do acordar. Então a paixão não é aquilo que é percebido quando se acorda e pensa na pessoa, a paixão é aquela que dorme junto e vela pela gente até o amanhecer.
21 novembro 2009
sábado
Era sábado e eu jantava antes de sair. Na mesa estavam meus pais comentando da vida, o que se limitava a discorrer sobre uma série de tragédias sobre a morte, que eu não ouvia primeiro porque era sábado e segundo porque não consigo fazer das desgraças um assunto.
Me tornei inerte e aos poucos me vi como uma figura de Goya, sombria e disforme, um tanto quanto assustada, remissa, como se a todo momento pedisse absolvição. Isso porque sabia que devia comer para evitar um pileque e isso porque já me perdoava intimamente do que eu talvez viesse a fazer quando de mim se apossasse o descontrole que eu tanto busco.
Meus pais preocupados em falar da vida e da morte achavam que assim me assustariam, me dariam uma espécie de má consciência que me fizesse aproveitar menos e me cuidar mais. Acham que histórias dos outros são exemplos diretos para mim e não apenas histórias dos outros. No fundo, eles me abraçavam, enquanto em diminuíam.
Então eu saí um pouco menor do que eu sou. Não procurava conforto, mas justamente o contrário, por esse motivo cheguei antes e curti uns vinte minutos sozinho no bar, sem beber, ainda numa tentativa desesperada de me preparar. Até que aos poucos as mesas começam a encher de pessoas e garrafas, os cigarros proibidos fazem uma certa falta, porque a ausência de fumaça releva mais do que gostaria que revelasse.
Chega a pequena. Parece desestabilizar e mais que isso, busca desestabilizar, mas o que ela tem de mim não é bom e o que eu tenho para ela também não, então essa impossibilidade cria uma distância entre o que já existe entre a gente, mesmo que num outro lugar, e o que jamais vai existir. Esse desconforto chega a doer, porque já não sou, nem poderia ser aquele outro e ela ainda é e nem por um momento será aquela outra. A dificuldade é perceber que entre eu, a cerveja, ela e o bar há muitas coisas, mas a maioria delas são só histórias. Assim como as tragédias que contam meus pais.
17 novembro 2009
o matadouro
infinita também é sua pobreza.
Não foi a maldade dos pobres que você me mostrou,
foi a pobreza dos pobres.”
Bertold Brecht
De braços abertos e grito abafado pelo som das máquinas, Adão despencou lá de cima. Foram alguns segundos apenas, olhar para um lado, tropeçar e puft, ou qualquer som desses, se bem que o primeiro barulho foi seco, da queda e depois o da trituração, mas nada diferente do som que já se fazia. Caso se tivesse olhado momentos antes, se veria que não foi erro dele, que fazia tudo corretamente e que era mesmo perigoso o tal serviço que em algum momento qualquer, oxalá fique para amanhã, traria essa má sorte para alguns deles funcionários. Com Adão veio a acontecer justamente hoje ao fim do expediente, já na última meia hora, quando talvez o corpo já não correspondesse propriamente às vontades e a cabeça já estivesse voltada para outro lado do mundo, quem sabe o de fora, mas que agora já não era nada de importante.
A má ou boa sorte de se trabalhar em matadouros é essa. Já se vive e é carne, mesmo que não sei queira, mesmo que se evite, mesmo que se mude de mundo e de corpo, mesmo que se abandone o trabalho, mesmo assim sempre saberá que é carne, e sentirá ela muito mais intensamente, no cheiro, nos poros, até no apelo dramática que é um arranhão, uma cicatriz, mesmo quando tapados por um curativo, um simples band-aid qualquer. Assim, para Adão, do grito que não se ouviu à queda para dentro da máquina de toucinho tudo fora uma viagem esperada, a realização de algo que já se sabia mais do que aguardado por alguma intuição, ou quem sabe, talvez até já houvesse desejado essa queda, de tanto que se olhava os bois ali caírem, já em pedaços. E depois da queda foi exatamente isso que aconteceu, como todo animal ali foi triturado, amassado, misturado às outras carnes, virava um coletivo, um coro, uma nova sociedade.
Acontece que Agildo, chefe da sessão não pode e não tem vontade de deixar vir a tona a morte de Adão, que segundo ele, era morte normal, já que sempre lhe achara uma rapaz desequilibrado e obviamente aguardava o dia em que viria a se matar, infelizmente escolhera aquela tarde, no fim do expediente, justamente no dia que Agildo ficava sozinho, como sempre se sentia. Agildo, então, achou melhor que ninguém morresse, porque morrer era ruim e trazia péssimas recordações aos outros, então foi até a máquina de trituração e resgatou o macacão azul do funcionário morto colocando-o no cabide, onde os funcionários se vestiam. O macacão, bordado à mão pela sua própria esposa que fazia a confecção das roupas da fábrica, agora já um pouco rasgado, ficou apenas poucas horas ali no cabideiro da empresa juntos a uns armários, que mais pareciam gavetas, se bem que aqueles funcionários carregavam pouca coisa, inclusive nas cabeças e nas marmitas. Assim de macacão velho posto como novo, Agildo dissimulou e assim que pode foi perguntar aos demais funcionários onde estaria Adão, aquele excelente funcionário, tão prestativo e cumpridor de seu serviço. Como ninguém sabia a resposta ficou claro para todos, inclusive para nós que sabemos como as coisas são, que Adão fora embora, desistira, deveria ter passado mal ou tido problemas de família. Assim, pois as coisas são rápidas nesse mundo de empresas, Agildo tinha um álibi para ligar para casa da família de Adão, para a esposa quarentona que engordava, para a mãe que morava junto e meio empregada retribuindo o favor de ali poder morar, e perguntar por Adão, novamente o excelente e motivado funcionário que nunca havia deixado a empresa na mão, coisa que causava espanto pois não era de seu feitio desvanecer assim pelo vento de uma hora para outra.
Uma família desesperada foi o que se viu. Era ligar para IML, hospital, procurar em botequim, valas, farmácias, puteiros, ruas e avenidas, bancos, praças públicas, oficinas, padarias, saía-se perguntando por todos os cantos onde estaria aquele homem, pai de família, 'o seu Adão, é aquele flamenguista que vem sempre aqui ver os jogos, que gosta de sinuca', dizia a esposa para o dono do bar, que lembrava, claro, mas preferia fingir não saber de coisa alguma, pois não tinha nada a ver com isso e não ia se comprometer. 'É seu Torres, meu filho teve aqui?', dizia a senhora para o dono da banca de jornal, mas logo depois mudava de assunto, falando de coisas do dia, da novela, por fim, lembrando do filho e dizendo que lhe daria boas surras, porque 'sabe como é seu Torres, num é porque é criado que pode fazer dessas coisas'.
Agildo no mesmo dia procurou por uma ficha no departamento pessoal: buscava um novo funcionáro. Era negro, assim como Adão, do mesmo tamanho e porte físico, para a empresa e para o chefe, ainda era Adão, para os funcionários não, ainda sentiriam por um tempo a falta do amigo, mas alguns, em contato com esse novo empregado que começara no dia seguinte da morte de Adão, já se tornara tudo confuso, alguns em poucos tempo já esqueciam de Adão, faziam-no sumir de suas memórias, um deles até ao chamar o novato, que se chamava Pedro, trocou os nomes e falou Adão, que misturado, se pode ouvir algo como Pedradão, outros chegavam atá a dizer que Pedro era muito melhor que Adão, mais simpático e que entendia muito mais das coisas. E Pedro, que usava a roupa de Adão, e para falar a verdade, Agildo dera um jeito de que Pedro fosse Adão, tal qual outro, que recebesse o salário pela conta de Adão, que passasse o cartão de Adão, que cumprisse metas assim como Adão, e assim, fosse carne e máquina, e ali estivesse como estava Adão. Os superiores jamais saberiam a diferença, e Pedro sabia, que tinha um emprego que era de outro e não entendia como poderia ser outro, mas percebia cada vez mais que não tinha tanta diferença e que não valia tanto a pena querer ser ele mesmo, pois sendo outro, seria cobrado como outro e poderia um dia ir embora, é que não queria viver ali para sempre, queria viajar com a família, poderia também ir embora como outro, sem morrer. Aliás, Pedro demorara para descobrir que assumira a vida de um morto, mas quando descobriu achou a melhor coisa que podia lhe acontecer, servia no mínimo para dar risadas. Não é porque as pessoas são outras que quer dizer que elas mudaram.
A família que no início estava desesperada decidiu ir até à fábrica reclamar, lá chegaram com advogados da defensoria pública e sentaram na mesa do chefe. Era a esposa e a mãe, as duas lado a lado, tal qual Maria e Madalena, cada qual com sua função e com a mesma dor, a mesma busca, porque sempre há alguém para morrer na cruz e não estar mais nem aí para nada, e sempre há alguém que chorará pelo que foi. O chefe, um homem grande atrás de uma mesa lhes disse: 'Adão está trabalhando', e estas frases ditas assim de trás da mesa parece que ganham outra forma, outro peso, como se houvesse uma blindagem ali entre o lado de cá e o lado de lá, tanto que as duas não foram capazes de responder, apenas capazes de não compreender e saírem dali para ir até o setor onde Adão trabalhava. Assim foram até a máquina onde agora estava Pedro, viram um e não viram outro, mas não viram um com o macacão do outro, então, voltaram até o chefe que ao saber da ausência de Adão, chamara Pedro para uma conversa, que como sendo Adão tornou a situação demasiada complexa, e nestes casos fica tudo para depois, pois aquele que foi chamado lá estava, nada foi feito tendo sido liberada a família, outro modo de falar que fora enxotada dali. A verdade é que assim que a família saiu, o chefe foi até Agildo, descobriu o acontecido e se consultou com os advogados que lhe disseram: 'está tudo como está, não há porque mudar', cuja rima fez rir ao chefe.
Na saída do expediente, saíam Pedro e Agildo, quando a família de Adão estava toda à espera do lado de fora, para interpelar o novo funcionário, ou o velho-novo, ou o que quer que seja. Adão fez olhares repreensivos para Pedro que entendeu o recado, mas não pode negar o pedido da esposa para que converssassem, chamando-o para um café, ao qual a mãe não foi convidada. Então os dois foram até um botequim da esquina, onde havia duas mesas, uma com um velho senhor com cara de intelectual a beber cerveja e cachaça, pois ao lado do copo de uma estava a outra, e a mesa que agoram sentavam Pedro e a mulher. O chão era molhado e grudento, o que se misturava com o suor do funcionário negro e novo que ali pingava e se misturava à poeira que o ventilador velho lhe dispensava.
E foi então que tudo começou. Pedro não poderia dizer quem era ele na empresa, nem ela poderia imaginar, entretanto ele poderia, em nome do emprego, da estabilidade e da possibilidade de ascensão profissional arrumar outra maneira de se iniciar essa conversa, foi aí que decidiu que ele e a esposa deveriam ficar juntos, tornarem-se marido e mulher. Assim foi, houve alguma demora entre os flertes, as cervejas, os primeiros beijos, os sexos e enfim o compromisso, mas tudo voltou a ordem inicial. Ela já não se lembrava mais de, como era o nome dele mesmo? A mãe não saiu de casa, mas passou a receber pelos serviços que ali fazia, então ninguém da história foi prejudicado. A vida só piora para que tem privilégios, e a fome e as necessidades as fazem quase mudas para os problemas da vida. Adão se tornou o ingrato que fugiu de casa. A esposa tinha um marido, Pedro um emprego, a mãe um salário, Agildo um aumento e o chefe paz. Pelo menos até o próximo caso. Aliás, houve um prejudicado: o nome dele é Fernando Mendes e ele fez uma macarronada para os amigos e o molho à bolonhesa dele tinha algo mais além de tomate e carne de vaca. “Fernando”, dizia a loira à mesa, “essa macarronada está uma delícia”.
apagão
O som do ar, o som do céu, o som do carro, o som de um barco à 20 km daqui. Alguém já havia dito que ninguém escuta o barulho do mundo porque é incapaz de fazer silêncio, então as pessoas começaram a ir pra janela querendo saber o que havia acontecido. Sem a visão elas ficavam mais soltas e falavam com os vizinhos que não falavam, e até tentavam reconhece-los pela voz. O fim do som do ventilador trazia agora o tato molhado de suor que se misturava ao silêncio, quase que punitivo. Um silêncio de purgatório. Depois as conversam começaram a rarear, apesar de um grupo de jovens rindo e cantando em algum canto do prédio funcionarem de trilha sonora de tudo. Até que foram todos se deitando na cama e se acostumando com aquela paz. Os fogos queimavam nos apartamentos, lanternas, geradores, celulares, velas... Todos quase vendo o que o silêncio já dizia pelas sombras. Até que... Tudo bem.
12 novembro 2009
rosencrantz e guildenstern estão mortos (1990)
Ele conta a saga dos personagens secundários da tragédia Hamlet de Shakespeare na forma de uma comédia maravilhosa, cheia das citações, de referências e de diálogos pseudo-vazios. As personagens que não se individualizam, ou seja, ambos são Rozencrantz e Guildenstern fazem uma dupla um tanto quanto disforme, enquanto que um toma a liderança e as idéias, o outro que durante a obra descobre o avião, os sons numa madeira, não consegue se sobressair.
Juntos eles fazem a viagem até a Dinamarca e observam toda a história de Hamlet ser contada de forma entrecortada e de maneiras diversas.
O humor refinado e profundo de Gary Oldman e Tim Roth me faz lembrar as personagens de Beckett em Esperando Godot, pois são construídos em seus diálogos pela superfície, pela sua materialidade, entretanto vivem numa situação e num mundo absolutamente trágico.
Enfim, esse post foi só pra recomendar, vejam!
Link para mais informações aqui.
09 novembro 2009
sobre do que se faz uma canção
Era um tipo de contato, mas um contato abençoado pela divindade da canção, como se uma força dissesse que o corpo também serve pra bençãos, também serve para paz, também serve pra nós. As palavras eram poucas, um pouco ofegantes pelo calor do bailado e pelo suor do espírito. O cansaço era questão de relógio, nada tinha a ver com corpo. Assim como as horas, assim como o tempo e assim como o coração. Porque tudo que existe é questão de tempo, de momento e assim como na poesia, no amor e na vida, é sempre um girar de corpos que faz uma canção.
31 outubro 2009
voltando
26 outubro 2009
.
Até estragar o fígado.
22 outubro 2009
tempo
Hoje só apontei na rua por 5 minutos no máximo, fiquei trancado aqui. Nesse instante, a primeira coisa que vi foi um rapaz, cabelo tipo meu, morador de rua com uma garrafa de cola na mão falando sozinho, viajando, em outro mundo, outro tempo. Essas coisas doem, esse tipo de tempo também.
21 outubro 2009
se ferir
o dinheiro
No entanto, escrevo para falar de um dos grande problemas do capitalismo: achar que tudo gira em torno do dinheiro. Quando alguém tem um problema de saúde - dinheiro; quando a religião está em baixa - dineiro; a violência está grande demais - dinheiro. Qualquer situação que haja no mundo é solucionada pelo capitalismo através de um investimento de enorme quantidade de milhões de imensidades incontáveis de dinheiro. E esse número não corresponde a um plano, a um projeto que combata o problema, pelo contrário, divulga-se o dinheiro como se ele fosse solucionar por si só.
Falo isso por conta dos problemas de violência no Rio de Janeiro, a polícia invade, sai matando, cerca tudo, daí se diz: "mas isso é paleativo, não resolve o problema" e o governo federal vai e libera cento e tantos milhões de reais para investimento. Em que? Pra que? Qual o objetivo? Se essa grana não se perder no caminho provavelmente vai servir pra matar. Não entendo.
18 outubro 2009
dias
12 outubro 2009
carinhoso
08 outubro 2009
cinema: Cristophe Horoné
Não foi com surpresa que me encantei com o excelente "A bela Junie" (La belle personne - 2008) de Cristophe Horoné: o diretor frânces de 39 anos que tem se mostrado uns dos mais hábeis e encantadores cineastas da atualidade. Ele tem como maior caraterística a capacidade incrível de tratar sentimentos com uma percepção estética precisa, ou seja, nem cair para dramalhões ou lamentações exageradas, muito menos praquela contenção chorosa super comum nos cinemas. Muito pelo contrário, ele foge dos constante sussuros do cinema frânces e coloca em cena, quase sempre napeloe do ator Louis Garrel, uma forma contemporânea de se lidar com o sofrimento, ou seja, com um isolamento franco, seco, mas não menos dolorido, numa espécie de hibernação do sentimento, como se tudo que aparecesse fosse apenas um rastro do real.
Meu filme preferido é "Em Paris" (Dans paris- 2006) com Romain Duris, onde o protagonista, após terminar um relacionamento se isola dentro da casa de seu pai que vive com seu irmão e passa por um longo processo de enclausuramento, tanto físico quanto mental, enquanto seu irmão num mesmo dia se envolve com três mulheres. Essa discrepância deflagra não só uma desvalorização de ambas as atitudes, mas como também as reafirma como verdadeiras. A grande cena do filme é quando Romain liga para sua ex-esposa interpretada por Joana Preiss e ambos, através de uma canção, falam de sua situação num verdadeiro tratado sobre o amor.
Em "A bela Junie" é a beleza enclausurada dela que faz todos os sentidos se deflagravam entre as personagens de uma escola, enquanto que a própria moça, refém da própria beleza, se torna esquiva, amedrontada, acorrentada.
Destaque também para outros filmes do mesmo diretor como o chocante "Minha mãe" (Ma mere - 2004), no qual o protagonista se inicia sexualmente através dos ensinamentos da própria mãe e o cantado "canções de amor" (Les chansons d'amour - 2007) que revela uma liberdade sexual representada por um relacionamento triplo.
É preciso assitir Horoné, para o aperfeiçoamento de uma sensibilidade contemporânea. Uma visão nem idealizada, nem em ruínas, uma visão que ao mesmo tempo é simples, mas que revela, como numa profecia, um caminho que seguimos.
05 outubro 2009
pathos
30 setembro 2009
dia de semana
24 setembro 2009
A decadência
Se cada um de nós é o que aparece e, como diria Wilde “só um tolo não julga pela aparência”, diria que a decadência é tudo aquilo que se vê como um eco do passado. É como se tudo que não se é mais, fosse...
21 setembro 2009
sem mim
Não sabia muito bem por quanto tempo havia ficado ali parado olhando pra luz, mas sabia que era tempo o suficiente pra que um mundo inteiro se construísse e se desabasse. Foi quando de súbito me veio a frase: “estou escrevendo um conto.” Foi assustador, percebi que no meu silêncio havia criado, elaborado, formulado e editado uma história inteira com detalhes, tramas, ápices, clímax, clima, personagens e vidas completas, ou fragmentos de vidas, ou então o suficiente para que um conto fosse criado. A partir de então, comecei a relembrar e reescrever o conto, como se aperfeiçoasse o rascunho que havia criado sem perceber.
O meu conto era o melhor conto do mundo naquele momento, porque ele não tinha tempo. Trechos chatos eram interrompidos com reticências e lá se dava um salto temporal de um ano, dois, até mais, para mais um trechinho da história aparecer e quando ela se completava, aparecia como mágica o fim daquele trecho chato, e aparecia um flashblack a cores e corrigia a chatisse anterior. Uma personagem que havia morrido deixou o conto muito pra baixo e me revoltei contra o autor, mudei tudo de novo e fiz renascer aquela moça linda e loura que passara na vida do nosso herói, e ela voltou numa cena linda: chorava numa praça, sentada ao chão com os braços junto ao corpo e o herói que ia para o enterro de seu pai, vira ela ali daquele jeito e gritara o seu nome alto, ela interrompia o choro e sorria também, e levantando-se,
davam-se as mãos, olhavam para o lado e se abraçavam. A próxima cena era deles num restaurante. O pai dele não precisava mais morrer.
Foi assim, que entre a insônia e a memória, criei uma história. Ela era grande demais pra mim, tinha tantos detalhes que minha própria mente não podia comportar, não assim, do jeito que eu estava, na cama, preso, porque deitar e não dormir é uma prisão, ao menos que se consiga abdicar da noite, o que é improvável. Por isso que essa minha história ficou sem fim, porque ela entrou nos sonhos e me acompanhou ao dormir. Minha história ficou sem mim.
15 setembro 2009
menino
14 setembro 2009
qualquer coisa
que se apanhe, se arranhe, se agache
se encaixe, se dilate e desamarre
e se espalhe de fora, de dentro
de dentro fora, embora, na hora
no canto cheirando cola,
pedindo esmola, embaixo na sola
da sola, na cola e na poltrona
mandona, matrona, furona
que não saiba do segredo e do medo
e do recalque, do desfalque
do embarque, encaixe, desarme
alarme, empada, enxada, trabalha
sabado é domingo, sem dengo
sem feira, na beira do mundo
um tanto imundo, mas quarta-feira
já volta pra casa, embassa
mas volta embora poeira caseira
se assemelha vou dizendo
tá frouxa, tá frouxa, na moita
qualquer coisa, qualquer coisa
qualquer coisa que se diga...
13 setembro 2009
foda-se
06 setembro 2009
sutilezas e circunstâncias
Como já disse, tudo é metáfora pra tudo e não há por onde fugir, só fica mesmo esse exercício de tentar dizer o que sente em palavras e na certeza de não conseguir, chegar a duvidar até do que se sente. É isso.
05 setembro 2009
cerveja
e tá tudo maneiro
se eu tivesse trêbado
tava vomitando no banheiro
se eu tivesse quadrêbado
nem lembrava que tinha blog...
02 setembro 2009
polêmica, o fim
Depois pensei então em quantos sentimentos somos obrigados a sentir e que na verdade não nos são tão importantes assim: sentimentos de culpa, de pecado, de ter errado, de ter falado, de ter amado, de ter fudido. E vamos sendo obrigados a isso, sendo que estar com um amigo e rir de qualquer coisa é tão fácil, então porque desperdiçar tempo com esse tipo de coisa? A verdade é que vivemos numa sequência eterna daquilo que gostaríamos de fazer e não fazemos e a culpa por termos feito o pouco do que queríamos ter feito.
O que eu queria dizer, reduzi e não disse, mas foi que resolvi não sofrer agora...
01 setembro 2009
polêmicas
Gosto de ateus, eles me parecem sempre engajados nas suas idéias, mas gosto principalmente pelo bom humor e ironia deles. Na verdade, eles têm certo prazer em fazer os que crêem parecerem ridículos e não sei porque isso me agrada. Talvez porque ache sacal essa pasmaceira geral, onde cada um “acredita no seu próprio deus”, ou melhor, “numa energia superior q não tem nome”. A religião conforta, mas estraga mais do que conserta, ela pega um problema novo e pelas proibições, conselhos ou regras transforma em estrutural mantendo-o e alimentando-o.
Há também os agnósticos que no fundo professam o “estou cagando”. Cagar é bom, também elogio os que cagam, por isso uma ou duas vezes no dia faço minha contribuição à essa gangue que caga. É até um certo problema, os tropicalistas por exemplo, estavam acima da esquerda e longe da direita na época da ditadura, eram tipo agnósticos, estavam fora do problema com outras soluções, acho que os admiro, porque não sei ser assim.
Quanto a ciência tenho pouco a dizer. Não tenho fé nela, na verdade não tenho fé nenhuma. A ciência não é para se ter fé, é pra ser usada pra coisas práticas, pra melhorar nossas situações de vida, nossa saúde, mas cada vez mais percebo que tudo isso é tão relativo. Relativizar também é ruim, só não creio ser muito inteligente crer em algo que é a prova concreta e máxima de que daqui a pouco haverá uma outra prova concreta e máxima que contrarie a primeira, embora venham me dizer que há regras absolutas, o que eu posso responder com “até agora”, daí vão dar o exemplo da lei da gravidade e eu vou dizer: “nada me diz que amanhã acordarei e ela aqui estará.”, vou parecer estúpido, burro, mas pra mim faz todo sentido. A questão pra mim é que vendem-se produtos e tiram-se direitos em nome da saúde, em nome do bem-estar, em nome da longevidade, em suma, a ciência nos serve mas também nos presta um deserviço, logo não dá pra confiar muito nela, apenas para utiliza-la, como uma pá ou um martelo. Creio que no fundo os cientistas são os pedreiros da intelectualidade.
O post ficou grande, continuará outro dia.
30 agosto 2009
reflexões
24 agosto 2009
23 agosto 2009
sonho
20 agosto 2009
meu vizinho
A impressão que tenho é que o apartamento dele é uma espécie de espelho do meu, o armário, de modelo e cor diferentes, fica exatamente no mesmo lugar, assim como o banheiro, a estante, a televisão. Tenho a impressão que a vida dele segue análoga à minha. Análoga mas não idêntica, porque ele apaga as luzes pra dormir cedo e quanto acordo, ele já saiu, porque quando ele chega pra almoçar, estou quase me arrumando pra aula. Ele trabalha e eu estudo, nos encontramos em frente às nossas televisões sempre na hora do flamengo e quando acontece um gol sorrimos um para o outro da janela.
Conforme vão passando nossos dias, morando tão perto, vivendo tão próximos, nas mesmas condições e ao mesmo tempo tão distantes, percebo como somos os mesmos, e percebo mais: todos somos sempre os mesmos o tempo inteiro, fazendo as mesmas coisas. Repetindo os passos e as frases, as siglas, as reclamações, os ciúmes e as saudades. Os casados repetem os tédios, os solteiros os porres, as rezas ou as punhetas. As solteiras ficam mais fáceis e sensíveis. No fim, todo mundo é fácil, sensível, enche a cara, vê o flamengo, reza...no fim, meu vizinho serve pra que eu veja o mundo...no fim, o mundo é o lugar onde tudo acontece da mesma maneira e dar um passo atrás é perder o bonde mas prever o mundo...no fim, perder o bonde é quase ser diferente, mas é encontrar tanta gente que perdeu junto com você...no fim, há sempre um fim e um recomeço...no fim, eu recomeço...
17 agosto 2009
no aterro
Acontece que assim sendo estar ali não me dá tanto prazer, fico pensando que poderia estar num bar, com uma pessoa que eu amo, em qualquer lugar que fosse me sentir a vontade e confortável, mas nem sempre podemos ter o que queremos...Geralmente nem quero tanto, só gostaria de pertencer a mais lugares.
16 agosto 2009
pílulas
13 agosto 2009
um sentimento
É com essa conclusão que tento escrever agora e o problema disso é que perco um pouco da ingenuidade. Mas o sentimento que tenho para falar é tão bonito que vou ignorar o que eu acho do mundo, dos outros e da política, vou ignorar tudo o que existe, porque tudo que existe, existe para não existir, existe para que não existam.
O sentimento é sutil. É como um lençol: fino, aconchegante, acalentador, essencial. É como um sorriso: foge, escapa, vem e traz com ele uma coisa que nos faz esquecer que resto existe. É um sentimento cúmplice, como se ele tivesse assistido comigo um assassinado e fique de vigília, a noite inteira, deitado a beira da cama, esperando que algo aconteça. Ele me proteje. É como uma vela, um fósforo, um gol, a lembrança de um beijo, um curativo no joelho, uma flecha atirada, uma paixão por uma música, um pedaço de pizza, um telefonema de madrugada, um desencontro. Ele é como um amor, mas sem forma, um amor amorfo. Um amor-fo. É um sentimento tão caro e tão raro que ainda não encontrou matéria, mas resiste à tudo e vive tão escondido (e tão à mostra) que é bonito e patético, sem sentido mas cheio de histórias. É a história de um sentimento que resistiu á todas as metáforas, um sentimento que ainda não virou conto, não virou memória, não virou nada. Um sentimento que a gente preserva para sempre poder sentir.
29 julho 2009
ok
e aí...
tudo ok?
tudo ok e contigo, ok?
não. tá tudo desok,
nok,
inok,
unok,
aok,
antiok,
exok...
28 julho 2009
minha menina
nele era só uma menina
e eu não era eu
era um menino eu
e de cá fui pedófilo dela
fui pedófilo de mim mesmo
lá era só sonhador
que amava minha menina
como ela me amava
esperando que ela crescesse...
daqui era só minha mulher
querendo que eu a amasse
como amava a menina
e eu que não era mais menino
e não era mais sonho
não podia amar a menina
nem podia amar a mulher
podia, com minha mulher,
sonhar que amava a menina
e, no sonho, com a menina
sonhar que ela virasse mulher
mas eu - homem e menino -
sofria problemas de identidade
e a minha menina - mulher
cada dia mais linda
e mais feliz
26 julho 2009
pergunta
pensei em você o dia todo,
eu fico pensando:
pensou em mim até cagando?
24 julho 2009
o aperto
dar valor
12 julho 2009
a vida como louça de cozinha
07 julho 2009
music and me
problema a mais
e o sol caiu
E olha pra mim
Espera que passa
O tempo ruim
A gente conversa
Se você quiser
Até de manhã
Eu posso ficar
Já to atrasado
Mas posso ficar?
Junto contigo
Fica tudo melhor
Eu tava sozinho
Eu tava também
Eu tava tranqüilo
Eu não muito bem
E o tempo que passa
Quanto tempo passou?
Se ficar mais tarde
Eu não volto mais
Não quero voltar
Mas tenho de ir
Um sino que toca
Não quero dormir
Então boa noite
Se puder durma bem
E acorda mais cedo
E venha me ver
Ce vem amanhã?
Eu venho também
A gente se fala
Até mais, meu bem
03 julho 2009
I dream of murder
Acabou que vi o filme até o fim, mas tinha perdido a graça. O problema de filmes assim é que eles ou escondem ou mostram a chave para nosso entendimento. Interessante seria jogar com essas informações, num plano de revelar/desvelar que acabaria fazendo de um filme comum como algumas excelentes horas para se passar embaixo do cobertor sozinho sem pensar na vida que insiste em não ser boa.
By the way, o filme era "I Dream of Murder"
30 junho 2009
things to say
there's nothing to deal
just some things to say
I know we may fight a parcial day
we don't need a kiss
maybe not today
28 junho 2009
livro de jó
Se fosse possível exprimir o que essa parábola me passa teria de dizer que é horror, pavor, terror. Não se trata de um teste para fé, se trata de um freak show de destruição de tudo que um ser tem de homem para que ele sinta como deus é poderoso e pode agir na vida dele. Se um deus precisa criar tantas feridas, tantas dores e tantos sofrimentos para demonstrar seu poder e para testar a fé, ele é no mínimo um deus assassino, um deus cruel, que dá maus exemplos, que controla os corpos e não se importa com a sua alma, mas sim com o q você faz em vida. Os amigos de Jó de tanto temerem deus não são capazes de enfrenta-lo, de pensa-lo, de transforma-lo em vida, tudo ao redor desse deus é morte, é sofrimento, só a mulher é capaz de desconfiar disso tudo, de ver que há um plano de dor, não um plano de libertação. Essa é uma parábola que incita o masoquismo, o suícidio, o sofrimento e a eterna necessidade de ser subjugado e o pior de tudo, faz com que aceitemos isso com sorriso no rosto, com esperança, como se um raio de luz nos cruzasse no fim e fizesse que toda dor virasse apenas lembrança, pois um dia, que provavelmente nunca chega, viveremos eternamente ao lado dessa luz que nos guiará e será para sempre nosso lar.
27 junho 2009
sábado
25 junho 2009
crença
24 junho 2009
atualiza
Atualiza que ainda não tá bom
Mas atualiza rápido que tem mais gente atualizando
Até Jesus tem que se atualizar
Ele devia voltar pra atualizar as metáforas
Transformar um 486 num palmtop
Com foto, canetinha e tudo
Ia ser complicado, ele teria que ter orkut
Mas não podia mandar muito scrap
Porque ia parecer tia chata e velha
Mandando boa semana com uma frase do Mário Quintana
Que provavelmente vai ser da Marta Medeiros
Jesus se tivesse twitter ia ter que aprender a falar pouco
Nada de subir em pedra e falar -
Pedras caem e com elas rolam quem ainda acredita
As pedras suspensas são esfinges
E eu já nem entendo –
Mas andar de avião e tratar bem aeromoça
Enquanto eu falo de Jesus morreu um
Rezava por ele e morreu mesmo assim
Enquanto eu falo e um reza morreram dez
E Jesus só morreu uma vez
Um problema é a solidão política
Porque tem sempre uma maioria para falar mal de tudo
A pasmaceira geral se instaurou como eles queriam
Elogiar político é matar mãe
Comer cabrito na moita
Chutar o mendigo que não tentou te roubar pra dar exemplo
Porque dar exemplo é importante
Por exemplo:
Se alguém cair num buraco na rua o que fazemos?
Rimos da cara dela, ajudamos ela a levantar, seguimos em frente ou reclamamos com a prefeitura?
Enquanto pensamos morreram mais dez,
Enquanto ela, que caiu, podia ter sido atroelada
E foi, agora ela sangra, mas ta tudo bem, vai estancar
E Jesus só morreu uma vez....
23 junho 2009
controle
é quando não é nada
que é calmo
sempre que é alguma coisa
é mais do que devia
foge do controle
com t-role
com tro lê
foge
e não volta nunca mais
tratado
o asfalto estufado, o estômago embrulhado
tanta gente que corria num bater de ossos frouxos
e o trocador sorria pra gostosa que passava
tinha um chuveiro na praia poluída
e a água que descia secava antes que caisse
e naquele mesmo sol um menino dormia
um papelão protegia a cara dele
mas como sempre em pouco tempo choveu
o peito protegido pela santa
e o celular com câncer que a menininha fala
e a roupa engomada que amassa na mala
feito qualquer outra malha,
também rasga se levar um tiro, um bico
um soco enviesado
e a cara é sempre mesma, o hematoma passa
o sangue estanca, o plano de saúde paga
a cirurgia, o médico, e volta a ficar gostosa
mas a roupa que rasga é indigna, faz dela uma puta
quando cachorro quente é barato
a gente deixa fazer mal
ninguém se importa se dá úlcera ou coceira
se está suja a orelha que ninguém vê
ninguém se importa com nada,
ao menos que alguém mexa com seu cu
porque sagrado só o cu
e mais sagrado que o cu só o cu da mãe
então se você atravessa a rua
com o asfalto estufado
o estomago embrulhado
batendo ossos no chuveiro da praia
na chuva, com câncer, no celular
rezando pela santa
ninguém se importa,
ninguém tá nem aí
pára de chorar, idiota
num tem ninguém vendo
ninguém aí, ninguém aqui
se quiser aparecer
ou ganhar dinheiro
não chora
vai dar o cu
21 junho 2009
chorume
Dois rapazes em cena sentados num banco.
Você entende alguma coisa?
De que?
Das histórias, do que se conta...disso...
não.
Nem eu.
É que tudo me parece tão sujo.
É que tudo me parece tão banal.
Tudo xurumela.
Você sabe de onde veio essa palavra?
Que palavra?
Xurumela.
Sei.
De onde é?
É de chorume, aquele caldinho do lixo.
Claro que não.
É sim, chorume, churume, xurumela.
Claro que não.
Então de onde veio?
De churros. Um rapaz estava comendo churros, o recheio caiu e ele ficou todo melado, daí ele disse “Churros Mela”.
Churros Mela?
é...daí ficou churros mela, churromela, xurumela.
Ahn...
Você entende alguma coisa?
Do que?
Das histórias, do que se conta...disso...
não.
Nem eu.
15 junho 2009
flect
complico, firo corto
jogo, embargo, dilato
é que hoje, ontem, amanhã
é sempre o que é sempre
o que é sempre o que é sempre
e se repete, tapete, carpete,
joanete, marioenete,
salada ou gilete
pega o estilete
e flect
14 junho 2009
ronaldo
04 junho 2009
17 maio 2009
a sala com meu nome colado na porta
13 maio 2009
sobre a música
Essa coisa de dizer que a música é universal é uma forma dos grandes nomes transformarem numa coisa natural que a britney spears seja melhor que a gretchen, ou que a o rock inglês pode ser tão bom quanto o rock feito do lado de casa. O próximo passo é gastar mais dinheiro produzindo a imagem, o produto, a atitude e talvez um pouco também o som da banda e transforma-la num espetáculo. É a glamourização do exótico, só que de uma maneira muito rentável absorvida por todos e usada no cotidiano. É o espetáculo do videoclip. E essa regra só funciona para lá, porque quando é feita no terceiro mundo é vendida como especiaria, estranha e serve para debates e putaria, não para muito mais.
É muito simples, nenhum de nós consegue ouvir um indiano tocando música indiana por mais de dez minutos na televisão. Só o fazemos, se muito, se formos a um concerto de um deles que tenha vindo para cá, e geralmente eles vêm porque de alguma forma já misturam elementos de nossa cultura na música dele.
O problema não é ouvirem música americana ou inglesa, não estou nem aí, o problema é esse discurso pseudo-liberal que serve para, na verdade, continuar fazendo uma coisa só e não democratizando os meios de comunicação como deveria. A própria internet que deveria ser pra democratizar mantém essa forma de separação, de cisão, de corte à faca, pois só a utilizamos para fazer mais do mesmo, mas isso é um outro tema.
12 maio 2009
ode ao passado
Se pensarmos na vida como um eterno presente, como muitos fazem questão de pensar, estaremos sendo estúpidos, porque a verdade é que o que temos de melhor são nossas lembranças. Melhores até que as promessas de futuro, são as lembranças do passado. O presente é sempre ruim porque está controlando e sendo controlado, está interagindo com várias forças ao mesmo tempo e estamos sempre tentando coisas e construindo coisas. O futuro é uma mentira, uma falsidade que inventaram pra manter a gente comprando, gastando e achando que é capaz de ir para algum lugar. Já o passado não, é o lugar onde não existe a mentira do futuro, nem a pressão do presente, ele é perfeito do jeito que foi, até momentos embaraçosos vistos da frente são melhores, são engraçados e nos compõe e tudo aquilo que fez o que a gente é agora deve ser visto com toda a gratidão. É no passado que está nossa história e o que a gente quis dela, é no passado que estão nossas besteiras superadas e nossas desculpas pedidas, nossas ressacas curadas. No passado está o que a gente tem de melhor e o que superamos do pior. Viva ele...
pirandello
A maneira como as camadas de ficção se compõe também ainda não me foram digeridas. Ao contrário de Beckett, onde tudo se volta para si mesmo, a impressão que tenho é que em Pirandello tudo se desdobra para fora, mas não é um desdobramento simplesmente, há um desdobramento que altera o anterior, ou melhor, reformula o anterior, repensa ele, insere dados a ele, então a narrativa avança pelas camadas, pelos discursos indiretos, pelas citações, pela composição da narrativa e não por ela própria. Amanhã pretendo escrever mais, são 2:54 da manhã e o sono bateu...
10 maio 2009
3
- Tô. Eu tô bem.
Após um longo silêncio.
- É que...
- O que?
- Nada.
Outro silêncio. Respiram fundo.
- É que tá demorando tanto pra passar.
Quase sorriem.
08 maio 2009
pedra
a mim e a meu violão cansado
sou eu que não mais resisto a nada
tudo que vem de fora me atinge