Por medo, atravessei a rua. Que fique claro que não atravessei a rua com medo. Estava austero, empinado, tal qual galo de briga, com o famoso peito de pombo ereto, mas atravessei...por medo.
Não si se faz diferença o “por medo” ou “com medo”, mas internamente, amigo, faz. Por exemplo, há um mendigo na esquina vindo em sua direção. Você não sente medo algum, mas atravessa a rua por medo. É quase como se o medo fosse conceitual, ao contrário do medo físico, iminente. O medo desvia da morte, mas também celebra a vida.
Atravessei a rua, então, por medo. Nesse momento havia somente eu, a rua e o medo, junto com minha ação de atravessar. Eu precisava acrescentar alguma coisa para fugir desse sentimento, então resolvi parar no meio da rua. Inteferir na vida, interromper o mundo. Não quis nem avisar aos outros o que faria. Odeio suicidas que escrevem cartas. O sujeito se mata e ainda deixa rabo, deixa rastro. Se mata e ainda chateia os outros, mais que o protocolo de enterros, velórios, funerais, missas, lágrimas. Se eu morresse agora, pensei, seria uma chateação, mas já não posso voltar atrás para a calçada por conta do medo e não posso ficar na rua para não ser chato. Resta-me o outro lado, então vou.
Agora que saí do trânsito, percebi que a rua estava deserta e interrompi apenas um carro que acabara de sair da garagem. O carro abre o vidro: “Tudo bem, vizinho?” “Tô bem, tô bem.”, e ele vai. A garagem ainda permanece aberta. Entrei.
26 abril 2011
21 abril 2011
17 abril 2011
Não-Ágape

Encontrei o livro Ágape do Padre Marcelo Rossi na estante e resolvi dar uma folheada. Li um capítulo do livro apenas e foi suficiente para que muitas ideias saltassem do livro e, na vã tentativa de organizá-las, escrevo agora.
Ágape significa “amor incondicional”. Isso está na orelha do livro, na última página, na primeira linha do prefácio e em todo o capítulo que li. No caso é o amor que Jesus tem pelos homens. Incondicional. IN-CON-DI-CIO-NAL. Isso quer dizer que não há um instante, uma lugar, uma situação em que Jesus não esteja ao nosso lado nos amando. É como se tivéssemos um peixinho e passássemos o dia inteiro ao lado do aquário observando cada gesto, cada passo, dando comida, afastando os males, trocando a água e, amando. Seríamos um ser feito de amor e que nunca se fartaria de amar. Por um lado, isso é extremamente bonito e poético. A ideia de que um ser afasta sua individualidade e entrega sua vida para cuidar das outras é o exemplo máximo de altruísmo e bondade. Por outro lado, há uma falta de respeito com o seu próprio ser. Se cada vida é feita para ser vivida e aproveitada, não é justo que se abra mão da sua que é única em prol dos outros. Ainda mais que, se somos imagem e semelhança de Deus, abrir mão de nossas vidas, é também abrir mão da nossa semelhança com Deus, e por conseguinte, dele próprio.
Um último ponto e talvez seja o mais importante. Estar todo o tempo amando incondicionalmente outro ser, ou no nosso caso, o peixinho, é dizer que esse peixe precisa ser cuidado. É dizer que nós somos muito importantes e que, sem mim, o pobre peixe vai para a ruína, para a morte e para o sofrimento. Nesse caso, amar é precisar e a incondicionalidade é uma violência. Amar incondicionalmente dessa forma, definitivamente não é um belo amor.
O segundo ponto do livro que se destacou pra mim é a completa falta de respeito de Marcelo Rossi. O livro foi escrito com absoluta displicência, preguiça, falta de cuidado. Escrito sem pensar hora nenhuma na melhoria do rebanho. Ele somente repete qualquer sermão, qualquer opinião óbvia, sem nenhum trato especial, sem nenhum ponto. Comenta os evangelhos como quem fala de notícias de jornal e trata com falta de respeito a instituição da igreja e seus fiéis. Incrível é ainda ninguém ter percebido isso, parece que algumas coisas todo mundo sabe, mas pouca gente tem coragem de dizer.
Eu deixaria meu texto assim, como foi escrito, mas ao contrário do Pr. Rossi, eu pretendo ter cuidado de quem lê comigo, portanto vamos às correções.
06 abril 2011
os ossos por dentro
Entro no ônibus. Venho da academia, acho que ganhei 3, 4 centímetros de bíceps só hoje. Eu tô feliz, meu corpo desenvolve bem, tá relaxado, acho que meu trabalho todo tá fazendo efeito. Entro e vejo uma menino franzino, pequeno, cabelo enrolado, barbado e com cara de quem tá se achando. Sinto vontade de dar um soco na cara dele. Enfiar a porrada sem deixar uma gota de sangue cair. Quebrar os ossos dele por dentro, estraçalhar o nariz, o maxilar e quantos mais ossos estão naquela cara frágil. Isso tudo sem sangrar e, se possível, sem deixar hematoma e se for pra deixar que ele no máximo fique só com uma vermelhidão. Nada de roxo, uma leve vermelhidão como se ele tivesse se maquiado ou como se eu tivesse roçado minha barba na cara dele. É um viadinho.
Pena que não posso socar aquela cara agora. Pena que não posso. Tô cheio de energia acumulada nos braços pra soltar em cima de alguém. Olha a veia, cara, tá até saltando do braço. Agora eu já to sentado e ele abre um livro. Não lê, fica só folheando pra aparecer. Quer humilhar todo mundo que não gosta de livro, tipo aquela empregada ali que nem tempo pra isso tem. Ele levanta, puxa a cordinha, vai saltar agora. O filho da puta mora bem, filhinho de papai. Se bem que, po...tá indo de ônibus, não deve ter tanta grana assim.
Eu tô perto da porta e ele tá vindo na minha direção. Ele é pequeno, mas cresceu muito agora que tá perto de mim. Ele tem todo um estilo e tal. Sem querer ele pisa no meu pé. Vira pra mim, sorri e pede desculpas. Não faço nada, nem respondo. Pronto, desceu.
Pena que não posso socar aquela cara agora. Pena que não posso. Tô cheio de energia acumulada nos braços pra soltar em cima de alguém. Olha a veia, cara, tá até saltando do braço. Agora eu já to sentado e ele abre um livro. Não lê, fica só folheando pra aparecer. Quer humilhar todo mundo que não gosta de livro, tipo aquela empregada ali que nem tempo pra isso tem. Ele levanta, puxa a cordinha, vai saltar agora. O filho da puta mora bem, filhinho de papai. Se bem que, po...tá indo de ônibus, não deve ter tanta grana assim.
Eu tô perto da porta e ele tá vindo na minha direção. Ele é pequeno, mas cresceu muito agora que tá perto de mim. Ele tem todo um estilo e tal. Sem querer ele pisa no meu pé. Vira pra mim, sorri e pede desculpas. Não faço nada, nem respondo. Pronto, desceu.
28 março 2011
o deserto

A cidade é aquela coisa que a gente construiu por sobre a terra enchendo-a de cimento, muro, parede e asfalto. Não me espanta nem me fascina isso. Não me espanta ver que o homem tem uma tendência a descobrir coisas e depois querer usar as coisas que descobriu pra fazer tudo que quer na vida, então, como ainda não foi inventado nada mais simples e menos feio que o cimento, o muro a parede e o asfalto, vamos convivendo. Também não me fascina porque já estou acostumado a ver esses imensos retângulos por todo lado, sem perceber os contornos da natureza, que por sinal são bem mais fracos que de qualquer construção.
O deserto. Fico pensando no deserto. O deserto é uma área, um território arenoso que o ser humano foge. Não há amizade entre homem e deserto, pelo contrário, os que ali habitam são forçados a isso e sofrem brutalmente a violência dele que oscilando entre calor e frio não permite que ninguém ali se sinta em casa.
As florestas. As florestas são aquilo que o ser humano mais preza. Ganha-se dinheiro pra passar dias numa casa de campo, convivendo com a natureza, o ar puro e com construções menos retangulares e preocupadas com cimento, muro, parede e asfalto.
Por que, então, penso eu, a gente não construiu a cidade sobre o deserto? Podia ter enchido de asfalto por cima do deserto, ter ido morar lá e feito nossas casas e nossas habitações horrorosas como em um acampamento. Até penso na especulação imobiliária: quem mora no morro paga um pouco mais barato, quem mora em vales paga mais caro. E pra ter um oásis, amigo, é...aí você vai ter que ser milionário.
Com isso toda natureza estaria intacta, bela, fulgurante, como nos hinos, nas canções, como nos sonhos. Ainda viveriam muitas espécies extintas, árvores que não acabam nunca e uma qualidade de vida muito melhor. A parte feia e ruim do mundo teria virado a cidade, também feia e ruim. Quem sabe até a gente não adoraria nossas cidades, e até se ouviria de um sujeito: “Olha como é linda...lembra quando do deserto que horror que era?”
Fica a impressão apenas de que a gente abandonou o deserto, fez vista grossa, fingiu que ele não existia, assim como abandonou o sertão e que a cidade cresceu sem se dar conta disso. Assim ela vai crescer, crescer, crescer, até que, se aquele mesmo sujeito, apenas um, em um dia qualquer resolver olhar pro horizonte não vai ter nada pra ver além de areia. É um fato: o deserto vai virar nosso vizinho.
13 março 2011
chute no saco
Todo mundo fala que a pior dor é de crise nos rins. Outros falam que é chute no saco. Nunca levei nenhum dos dois. No máximo uma bolada numa partida do futebol, e porra, é a pior dor. É algo incontrolável, começa nas pernas, chega no saco, óbvio, e vai subindo até doer no suvaco, tipo íngua, sabe?
Quem olha acha graça de ver aquele homem grande, suado, forte, que há pouco gritava palavrões e ameaçava dribles usando da força física, caído no chão, acuado, posição fetal, meio rindo meio chorando por uma bola ter tocado suas partes.
O homem caído percebe sua fragilidade, tanto que não consegue nem pensar em vingança, no máximo quer dar uma olhada pra ver se num vai ficar brocha ou se uma bola sumiu. No mais, ele tenta se recompor e falar: "tudo bem, gente, esquece...acontece." E vamos pro jogo. Claro que ele vai tentar dar uma porradinha no sujeito que chotou a bola, mas sabe que a culpa mesmo é da bola, ou do acaso, ou de deus.
Porque se o destino existe e estava escrito que ele ia ter saco e que uma bola ia bater no saco dele aquele dia, nada melhor que achar deus um vacilão. Se foi por acaso é foda, quer dizer que ele poderia ter ganhado na loteria, mas não, ficou caído 5 minutos com uma dor intensa.
É estranho. Só falta agora ter uma crise no rim.
Quem olha acha graça de ver aquele homem grande, suado, forte, que há pouco gritava palavrões e ameaçava dribles usando da força física, caído no chão, acuado, posição fetal, meio rindo meio chorando por uma bola ter tocado suas partes.
O homem caído percebe sua fragilidade, tanto que não consegue nem pensar em vingança, no máximo quer dar uma olhada pra ver se num vai ficar brocha ou se uma bola sumiu. No mais, ele tenta se recompor e falar: "tudo bem, gente, esquece...acontece." E vamos pro jogo. Claro que ele vai tentar dar uma porradinha no sujeito que chotou a bola, mas sabe que a culpa mesmo é da bola, ou do acaso, ou de deus.
Porque se o destino existe e estava escrito que ele ia ter saco e que uma bola ia bater no saco dele aquele dia, nada melhor que achar deus um vacilão. Se foi por acaso é foda, quer dizer que ele poderia ter ganhado na loteria, mas não, ficou caído 5 minutos com uma dor intensa.
É estranho. Só falta agora ter uma crise no rim.
09 março 2011
avatar
Só assisti Avatar do James Cameron agora um ano depois do Oscar em que ele perdeu para Guerra ao Terror, de sua ex-esposa Kathryn Bigelow. Não gostava da idéia de se gastar milhões em tecnologia para fazer um filme e usar isso como a principal fonte de publicidade da obra.
Agora, um ano depois, preciso assumir que o filme merecia a estatueta de melhor filme. Não por ser um filme maravilhoso ou algo do tipo, mas justamente por ele expor um problema e uma contradição dos nossos tempos. Vamos aos poucos.
A fábula do filme é simples: americanos ambiciosos querem uma pedra localizada embaixo de uma árvore onde mora uma tribo estranha de seres azuis. Para isso tentam negociar dando-os estradas, aulas de inglês e outras coisas. Como não entram em acordo se resolve invadir e matar todo mundo. No entanto, pesquisadores descobrem que é possível através de uma máquina colocar um homem no corpo de um ser deles. Esse ser deve investigar tudo para que a invasão seja perfeita. Óbvio que esse homem é um aleijado, sofredor, que perdeu seu irmão gêmeo e será o herói do filme.
Agora vamos pensar: esse tipo de história é gasta no cinema americano. A estética perfeita, cara e inovadora não dá conta de criar um novo tipo de história. O conteúdo não se adequa a forma e a sensação que fica é que o filme cansa quando a novidade visual também cansa. Essa estética de tudo digital lembra a estética dos vídeos-games que parecem também não saber que histórias contar e por isso se voltam pra histórias antigas, de heróis, de tribos, de guerreiros.
O fato é: o mundo contemporâneo não nos dá boas histórias. Ele é vazio, sem tema, sem foco, sem ritmo, sem vida. Estamos com uma capacidade de dizer porque estamos incapazes de viajar. Isso se dá por tudo é nossa casa, estamos em qualquer lugar à vontade, como comidas que conhecemos, pessoas e estilos de vida. A ausência de histórias faz-nos voltar para trás para busca-las.
Em Avatar isso se torna patético. Gastar milhões e milhões para mostrar um americano que aprende a outra cultura, se encanta, os defende e por fim vira um líder deles. Seria “O último samurai”? Karatê Kid?
A última coisa pra se observar é o fracasso de nossa sociedade. Construímos um mundo perfeito em nossos sonhos e fomos incapazes de os contruí-lo na realidade. Veja o filme e todos aqueles lugares perfeito e dê uma olhada de sua janela. O que se verá é sujeira, poeira, tristeza.
Avatar me disse isso, apesar de não dizer muita coisa.
08 março 2011
carnaval e tragédia
Em Petrópolis não houve carnaval por conta das enchentes que destruíram alguns bairros daqui. A frase que mais se usou foi “Tragédia cancela Carnaval”. Fiquei pensando na justaposição desses dois termos.
Tragédia é o choque de idéias opostas e indissolúveis. É chegar até a verdade mesmo que não seja a melhor verdade. Tragédia é entender a dimensão humana em contraposição com a dimensão natural ou social. Tragédia é entender o tempo, é entender a mudança do tempo e a mudança de tudo quando o tempo muda. É tanta coisa que contribui pra tragédia que é quase impossível que não se vivam tragédias diariamente, porque, no fundo, a tragédia é uma forma do mundo de buscar a paz, mesmo que com o aniquilamento de alguns.
Carnaval é o oposto disso. É a dissolução dessas forças e formas. Muitos teóricos dizem que no Carnaval se permite que o súdito se vista de rei e o rei de súdito e os dois juntos possam curtir uma festa quase fugaz, que dilata o tempo, esquecendo que ele passa. É pegar as forças naturais e deixa-las fluir, chegar um pouco pro canto pra enchente passar. Se chover a gente bebe água. Se fizer sol a gente se bronzeia. Ele não aniquila ninguém, só exclui quem se exclui e crime é tentar lutar contra alguma força.
Talvez por isso, não pude deixar de pensar que em Petrópolis deveria ter ocorrido o Carnaval, porque só ele é capaz de mostrar que uma tragédia destrói sonhos, enquanto que o carnaval os reconstrói, trazendo junto consigo a certeza de que é possível rirr mesmo sem haver graça nenhuma. O carnaval ignora tanto as forças opostas que é até capaz que as encostas se encostem, se fixem e descansem, enquanto que os foliões sorriam pra tragédia, sabendo que a força está dentro deles, porque eles também são aquela natureza.
O carnaval perdeu a chance de vencer a tragédia.
Tragédia é o choque de idéias opostas e indissolúveis. É chegar até a verdade mesmo que não seja a melhor verdade. Tragédia é entender a dimensão humana em contraposição com a dimensão natural ou social. Tragédia é entender o tempo, é entender a mudança do tempo e a mudança de tudo quando o tempo muda. É tanta coisa que contribui pra tragédia que é quase impossível que não se vivam tragédias diariamente, porque, no fundo, a tragédia é uma forma do mundo de buscar a paz, mesmo que com o aniquilamento de alguns.
Carnaval é o oposto disso. É a dissolução dessas forças e formas. Muitos teóricos dizem que no Carnaval se permite que o súdito se vista de rei e o rei de súdito e os dois juntos possam curtir uma festa quase fugaz, que dilata o tempo, esquecendo que ele passa. É pegar as forças naturais e deixa-las fluir, chegar um pouco pro canto pra enchente passar. Se chover a gente bebe água. Se fizer sol a gente se bronzeia. Ele não aniquila ninguém, só exclui quem se exclui e crime é tentar lutar contra alguma força.
Talvez por isso, não pude deixar de pensar que em Petrópolis deveria ter ocorrido o Carnaval, porque só ele é capaz de mostrar que uma tragédia destrói sonhos, enquanto que o carnaval os reconstrói, trazendo junto consigo a certeza de que é possível rirr mesmo sem haver graça nenhuma. O carnaval ignora tanto as forças opostas que é até capaz que as encostas se encostem, se fixem e descansem, enquanto que os foliões sorriam pra tragédia, sabendo que a força está dentro deles, porque eles também são aquela natureza.
O carnaval perdeu a chance de vencer a tragédia.
03 março 2011
01 março 2011
dormir é filosofia
Há quem diga que as melhores filosofadas são as mais simples. Ok, há tanta gente a dizer tanta coisa, há até quem diga que "hoje o herói aguenta o peso das compras do mês", se referindo ao homem aranha.
Enfim, quero dizer que não gosto da filosofia simples, mas sim da filosofia das coisas simples. Por exemplo, dormir. O ato, o verbo reflete um estado de estar no mundo e um estado de ver as coisas completamente diverso e autêntico de pessoa pra pessoa. E quantas maneiras há de dormir? Não muitas, imagino.
Eu era fresco para dormir. Só conseguia em completa escuridão, em silêncio absoluto e com uma total sensação de segurança. Por conta disso meu quarto tem duas grades, uma janela de alumínio que se fecha e uma cortina azul marinho. Acontece que depois que fui morar sozinho e tive que acordar cedo e passar horas num ônibus tudo foi mudando. Hoje em dia deito em qualquer canto e durmo não importa o barulho, a quantidade de luz e a situação. Quero dormir, durmo.
Aqui no Rio era costume que eu deixasse a janela aberta e quanto amanhecia tinha que levantar pra fechar correndo o risco de não mais dormir. Agora não o faço mais. Acordo quando amanhece e os primeiros barulhos soam, mas penso: vou voltar a dormir, estou com preguiça de levantar.
A única coisa que ainda não superei é perder o sono por raiva. Meus vizinhos têm cachorros, muitos. E são família, não pega bem ficar reclamando, então há em volta de mim muitos latidos e coco, inclusive do meu cachorro que caga e late como qualquer outro. Basta um latir que vira um coro que só termina quando o poodle resolve que parar. Tenho raiva dos cachorros e por momentos dos vizinhos. Isso é a única coisa que ainda me impede de dormir.
Fico pensando que se conseguir aprender a dormir com raiva, o sono vai se tornar a maior ferramenta de minha vida. Talvez porque o que me fez aprender a dormir primeiro foi a preguiça e se agora a raiva também for motivo de sono, pouco me fará acordar.
Um dia, quem sabe, tudo me fará dormir e os momentos em que estarei acordado serão breves, como nos sonhos...como no amor.
Enfim, quero dizer que não gosto da filosofia simples, mas sim da filosofia das coisas simples. Por exemplo, dormir. O ato, o verbo reflete um estado de estar no mundo e um estado de ver as coisas completamente diverso e autêntico de pessoa pra pessoa. E quantas maneiras há de dormir? Não muitas, imagino.
Eu era fresco para dormir. Só conseguia em completa escuridão, em silêncio absoluto e com uma total sensação de segurança. Por conta disso meu quarto tem duas grades, uma janela de alumínio que se fecha e uma cortina azul marinho. Acontece que depois que fui morar sozinho e tive que acordar cedo e passar horas num ônibus tudo foi mudando. Hoje em dia deito em qualquer canto e durmo não importa o barulho, a quantidade de luz e a situação. Quero dormir, durmo.
Aqui no Rio era costume que eu deixasse a janela aberta e quanto amanhecia tinha que levantar pra fechar correndo o risco de não mais dormir. Agora não o faço mais. Acordo quando amanhece e os primeiros barulhos soam, mas penso: vou voltar a dormir, estou com preguiça de levantar.
A única coisa que ainda não superei é perder o sono por raiva. Meus vizinhos têm cachorros, muitos. E são família, não pega bem ficar reclamando, então há em volta de mim muitos latidos e coco, inclusive do meu cachorro que caga e late como qualquer outro. Basta um latir que vira um coro que só termina quando o poodle resolve que parar. Tenho raiva dos cachorros e por momentos dos vizinhos. Isso é a única coisa que ainda me impede de dormir.
Fico pensando que se conseguir aprender a dormir com raiva, o sono vai se tornar a maior ferramenta de minha vida. Talvez porque o que me fez aprender a dormir primeiro foi a preguiça e se agora a raiva também for motivo de sono, pouco me fará acordar.
Um dia, quem sabe, tudo me fará dormir e os momentos em que estarei acordado serão breves, como nos sonhos...como no amor.
07 fevereiro 2011
pra ela
com um sorriso no rosto, meio de lado, ela reclama: "você nunca mais escreveu pra mim". Eu, meio sem graça, digo: "é que agora falo tudo pra você ao vivo". Ela sorri, mas não se dá por satisfeita, apesar de não tocar mais no assunto.
Então eu fico pensando no que ela merece ouvir agora, o que nesse segundo entre 21:41 e 21:42 eu tenho a dizer que a faça sorrir e mude sua vida.
Muito pouco, penso, e decido escrever sobre isso. Sobre como minha cabeça fica horas e horas, intensos segundos que se dilatam, pensando em agrada-la, em satisfazer um pedido simples dela. Apesar da certeza de que provavelmente nunca vou fazer nada que esteja no seu nível, o esforço de contar essa pequena fábula, como quem conta uma história para uma criança, tire um sorriso, um agrado, uma pequena felicidade. E que ela possa dormir em paz sabendo que, ao saber que ela queria que eu escrevesse, parei um tempo aqui e escrevi.
Então eu fico pensando no que ela merece ouvir agora, o que nesse segundo entre 21:41 e 21:42 eu tenho a dizer que a faça sorrir e mude sua vida.
Muito pouco, penso, e decido escrever sobre isso. Sobre como minha cabeça fica horas e horas, intensos segundos que se dilatam, pensando em agrada-la, em satisfazer um pedido simples dela. Apesar da certeza de que provavelmente nunca vou fazer nada que esteja no seu nível, o esforço de contar essa pequena fábula, como quem conta uma história para uma criança, tire um sorriso, um agrado, uma pequena felicidade. E que ela possa dormir em paz sabendo que, ao saber que ela queria que eu escrevesse, parei um tempo aqui e escrevi.
06 fevereiro 2011
metaforma
Nunca gostei de “A metamorfose ambulante”. Sempre achei uma desculpa pra ser um idiota. A verdade, no entanto, é que isso não é verdade. Gosto de não mudar, gosto de calmaria, mar manso e quiosque, não gosto de vento, areia e ressaca. Gosto do conforto de um lugar simples, mais que o luxo da riqueza. Estar à vontade e ser um bom vivant, como diz um amigo, é um privilégio para poucos e assim sendo ser uma metamorfose ambulante é ter grandes energias desperdiçadas. Me intriga até o fato de que um baiano tenha feito essa música.
Isso não quer dizer que eu tenha opiniões velhas, apenas que minhas novas opiniões ruminam e se debatem na minha cabeça por muito tempo antes de ganharem o mundo. Eu desdigo o que disse antes quase pedindo desculpas pelo esforço e pelo caos que entrego às pessoas. Talvez seja apenas uma necessidade de estar satisfeito ou então é uma maneira ainda gasta de pensar de que o bom está no equilíbrio e na estabilidade. Não sei se afirmaria isso assim, dessa forma. A verdade é que ser uma metaformose ambulante gastaria muito de mim, assim como quando vejo isso nos outros, automaticamente me afasto. É preguiça Tenho preguiça de ver alguém mudando e tenho preguiça de estar girando a roda do mundo, sei que tudo volta em algum momento e por isso o mundo está aí. Ele não tem regra, por que iria me debrungir na frente dele?
Isso não quer dizer que eu tenha opiniões velhas, apenas que minhas novas opiniões ruminam e se debatem na minha cabeça por muito tempo antes de ganharem o mundo. Eu desdigo o que disse antes quase pedindo desculpas pelo esforço e pelo caos que entrego às pessoas. Talvez seja apenas uma necessidade de estar satisfeito ou então é uma maneira ainda gasta de pensar de que o bom está no equilíbrio e na estabilidade. Não sei se afirmaria isso assim, dessa forma. A verdade é que ser uma metaformose ambulante gastaria muito de mim, assim como quando vejo isso nos outros, automaticamente me afasto. É preguiça Tenho preguiça de ver alguém mudando e tenho preguiça de estar girando a roda do mundo, sei que tudo volta em algum momento e por isso o mundo está aí. Ele não tem regra, por que iria me debrungir na frente dele?
11 janeiro 2011
a imoralidade de acordar tarde
“não vejo mal nenhum em ter medo de se levantar da cama. Nunca é tarde para usar o pijama.”
Francisco Ferraz
Há coisas que se diz. E para cada coisa que se diz há gente para repetir. Algumas pensam e as dizem porque acham que fazem sentido, outras simplesmente as repetem, mas a maioria das pessoas repetem justamente porque parecem frases já pensadas. Talvez os provérbios sejam nada mais nada menos que frases que muita gente já pensou, trechos pensados pelo coletivo que chegam na máxima síntese de sabedoria popular, então porque não repetir? Frases que ganham tons de verdade.
“Acordar tarde faz mal” é uma delas. Meu pai repete sempre essa frase. Diz com toda ênfase do mundo que:
1- O sono é essencial para a saúde.
2- Só o sono da noite que faz bem, o do dia faz mal.
3- Dormir de dia ao invés de relaxar, cansa, além de ser coisa de quem não tem o que fazer.
4- Não se deve reclamar do vizinho que faz barulho quando se acorda tarde. O que eles vão pensar de você?
5- Quem acorda tarde perde a manhã que é a parte mais linda do dia.
E por fim a maior síntese de todas: “Bom dia não, boa tarde. Se você ficar doente não vem me pedir ajuda.” Às vezes acho que ele está me rogando uma praga, às vezes ele me parece um padre que me dá ordens pra me botar medo e acha que pelo medo eu vou mudar um hábito.
As pessoas que tem uma rotina certinha, bonitinha, dormem por volta de oito horas por noite, das 23 horas às 7 da manhã, vêem os notívagos como uma ameaça. Colocam na gente tudo que tem de ruim, como se fosse uma agressão a elas dormir até meio dia e acordar com sono, como quem gostaria de ter ficado mais na cama, olhando o teto e aproveitando o pijama. Elas acham faltam de respeito, de educação, mais que isso, elas acham um crime grave, um desvio de caráter, algo moralmente recriminável, que se deve esconder dos outros. “Se alguém te ligar, digo que saiu”, costumo ouvir aqui em casa.
É como se, só pelo fato de minhas horas de sono estarem um pouco adiantadas em relação à deles, eu estivesse quebrando um código público como furar o sinal vermelho ou jogar lixo na rua. Elas se sentem tão brutalmente ameaçadas que tentam nos punir desejando-nos doenças. Para elas trata-se de um hábito de gente degenerada, que não tem respeito por si próprio e que não pensa nas conseqüências desse ato.
Acordar tarde é ser rebelde. É trair um pacto social. E isso ninguém pode nos perdoar. No fundo, quem acorda tarde não faz nada disso. Geralmente são pessoas que gostam de curtir o silêncio ou a bagunça da noite, ou então simplesmente não conseguem dormir cedo mesmo. Querem nos demonizar, portanto cuidado, quem acorda tarde pode parar no inferno.
Francisco Ferraz
Há coisas que se diz. E para cada coisa que se diz há gente para repetir. Algumas pensam e as dizem porque acham que fazem sentido, outras simplesmente as repetem, mas a maioria das pessoas repetem justamente porque parecem frases já pensadas. Talvez os provérbios sejam nada mais nada menos que frases que muita gente já pensou, trechos pensados pelo coletivo que chegam na máxima síntese de sabedoria popular, então porque não repetir? Frases que ganham tons de verdade.
“Acordar tarde faz mal” é uma delas. Meu pai repete sempre essa frase. Diz com toda ênfase do mundo que:
1- O sono é essencial para a saúde.
2- Só o sono da noite que faz bem, o do dia faz mal.
3- Dormir de dia ao invés de relaxar, cansa, além de ser coisa de quem não tem o que fazer.
4- Não se deve reclamar do vizinho que faz barulho quando se acorda tarde. O que eles vão pensar de você?
5- Quem acorda tarde perde a manhã que é a parte mais linda do dia.
E por fim a maior síntese de todas: “Bom dia não, boa tarde. Se você ficar doente não vem me pedir ajuda.” Às vezes acho que ele está me rogando uma praga, às vezes ele me parece um padre que me dá ordens pra me botar medo e acha que pelo medo eu vou mudar um hábito.
As pessoas que tem uma rotina certinha, bonitinha, dormem por volta de oito horas por noite, das 23 horas às 7 da manhã, vêem os notívagos como uma ameaça. Colocam na gente tudo que tem de ruim, como se fosse uma agressão a elas dormir até meio dia e acordar com sono, como quem gostaria de ter ficado mais na cama, olhando o teto e aproveitando o pijama. Elas acham faltam de respeito, de educação, mais que isso, elas acham um crime grave, um desvio de caráter, algo moralmente recriminável, que se deve esconder dos outros. “Se alguém te ligar, digo que saiu”, costumo ouvir aqui em casa.
É como se, só pelo fato de minhas horas de sono estarem um pouco adiantadas em relação à deles, eu estivesse quebrando um código público como furar o sinal vermelho ou jogar lixo na rua. Elas se sentem tão brutalmente ameaçadas que tentam nos punir desejando-nos doenças. Para elas trata-se de um hábito de gente degenerada, que não tem respeito por si próprio e que não pensa nas conseqüências desse ato.
Acordar tarde é ser rebelde. É trair um pacto social. E isso ninguém pode nos perdoar. No fundo, quem acorda tarde não faz nada disso. Geralmente são pessoas que gostam de curtir o silêncio ou a bagunça da noite, ou então simplesmente não conseguem dormir cedo mesmo. Querem nos demonizar, portanto cuidado, quem acorda tarde pode parar no inferno.
25 dezembro 2010
O natal
Se eu não faço um post de Natal fico incomodado. E pra mim o natal tem uma questão dupla: por um lado é uma festa superficial, de contato com pessoas que não somos tão próximas e de quem não somos obrigados a conviver. Mas se é assim o Natal, também é da possibilidade que nosso calendário dá de nos aproximarmos dessas pessoas, de nos deixarmos tocar por um sentimento calmo e bom de que tudo é harmônico e faz sentido e, principalmente, de que viver faz bem.
Sei que a vida não é feita disso, pelo contrário, ela é árida, dura, seca e na maioria das vezes ruim, mas isso faz parte de um engajamento necessário para transformação. Se aceitarmos que ela é ruim, podemos mudar, se nos deixamos tocar por esse sentimento bom, ficamos achando que tudo deve estar como está.
É uma excelente duplicidade: se sentir bem, apesar de saber que o mundo não é bom assim e poder transformar nossa vida e a de muitos. O natal é político, ou poderia ser.
Sei que a vida não é feita disso, pelo contrário, ela é árida, dura, seca e na maioria das vezes ruim, mas isso faz parte de um engajamento necessário para transformação. Se aceitarmos que ela é ruim, podemos mudar, se nos deixamos tocar por esse sentimento bom, ficamos achando que tudo deve estar como está.
É uma excelente duplicidade: se sentir bem, apesar de saber que o mundo não é bom assim e poder transformar nossa vida e a de muitos. O natal é político, ou poderia ser.
19 dezembro 2010
isso idéias nisso
Faz tempo que não faço isso. Abrir uma página em branco e me deixar escrever qualquer coisa que me venha à cabeça. É uma pena que quase todas nossas idéias morram ainda antes que se possa vislumbrar, ainda que a distância, a concretização delas. Bom, na verdade, quando a gente pensa, elas estão claras e belas, já as vemos prontas e perfeitas, mas alguns segundos depois elas nos escapa e voam não sei para onde. Seja porque nosso ônibus chegou, ou porque um barulho incomum na rua chamou nossa atenção, ou pela bela moça que passa com um forte perfume, ou porque uma música soou em uma cabine policial e isso é ironicamente belo.
Nossas idéias são como sobremesas. Não servem pra saciar nossa fome de vida, mas para adoçar nossa saciedade. Essas idéias, quase que sempre mirabolantes, dão um gás pra encarar o asfalto, na verdade, elas abrem um buraco negro na rua, e nos carrega pelos braços pra um outro lugar. Quando se vão, resta-nos somente nós próprios e uma vontade de escrever ou contar pra alguém. No entanto elas somem, evaporam, desvanecem e fica-nos uma sensação de fracasso, de perda, de esquecimento. É triste. Talvez a morte seja o fim de nossas idéias, ou então, finalmente a concretização da nossa maior e recorrente delas. Imagina se a gente não estivesse aqui?, atire a primeira pedra quem nunca pensou nisso.
Sim, é de propósito que eu começo o texto com isso e termino com nisso, mas não, não atirem a primeira pedra. A primeira pedra é sempre do culpado, todas as outras são de Maria vai com as outras.
Nossas idéias são como sobremesas. Não servem pra saciar nossa fome de vida, mas para adoçar nossa saciedade. Essas idéias, quase que sempre mirabolantes, dão um gás pra encarar o asfalto, na verdade, elas abrem um buraco negro na rua, e nos carrega pelos braços pra um outro lugar. Quando se vão, resta-nos somente nós próprios e uma vontade de escrever ou contar pra alguém. No entanto elas somem, evaporam, desvanecem e fica-nos uma sensação de fracasso, de perda, de esquecimento. É triste. Talvez a morte seja o fim de nossas idéias, ou então, finalmente a concretização da nossa maior e recorrente delas. Imagina se a gente não estivesse aqui?, atire a primeira pedra quem nunca pensou nisso.
Sim, é de propósito que eu começo o texto com isso e termino com nisso, mas não, não atirem a primeira pedra. A primeira pedra é sempre do culpado, todas as outras são de Maria vai com as outras.
27 novembro 2010
os livros
Fico lendo o nome dos meus livros. Cada um diz tanta coisa que dá vontade de ficar pensando só no título. Exemplos: "rumo ao farol" da Woolf, ou "setembro não tem sentido" do João Ubaldo Ribeiro, ou "A montanha mágica" do Thomas Mann, ou Alguém que anda por aí" do Cortázar.
É tanto nome que diz tanto que às vezes penso que o ser humano é criador nato. Ele relaciona tudo a tudo e todos os nomes estão juntos num imenso cesto e vamos ligando-os tal como numa poesia dadaísta. Tanto que "Todos os Nomes" é um livro do Saramago, onde realmente todos os nomes estão lá, menos os das personagens. Excetua-se um: José, espécie de alterego ou não. "Vidas Secas", "Estorvo", "Sagarana", e os títulos nao param de dizer coisas e eu todos os dias vejos esses livros que também me vêem.
É em nome deles que eu escrevo. Um dia algum livro meu pode dizer alguma coisa. E hoje eu diria que...nós...somos demasiadamente violentos. Ô raça ruim essa dos humanos...e que coisas lindas eles escrevem.
É tanto nome que diz tanto que às vezes penso que o ser humano é criador nato. Ele relaciona tudo a tudo e todos os nomes estão juntos num imenso cesto e vamos ligando-os tal como numa poesia dadaísta. Tanto que "Todos os Nomes" é um livro do Saramago, onde realmente todos os nomes estão lá, menos os das personagens. Excetua-se um: José, espécie de alterego ou não. "Vidas Secas", "Estorvo", "Sagarana", e os títulos nao param de dizer coisas e eu todos os dias vejos esses livros que também me vêem.
É em nome deles que eu escrevo. Um dia algum livro meu pode dizer alguma coisa. E hoje eu diria que...nós...somos demasiadamente violentos. Ô raça ruim essa dos humanos...e que coisas lindas eles escrevem.
18 novembro 2010
prefácio
Nunca escrevi uma peça, muito menos um prefácio pra uma peça minha. Coloquei Hours do Phillipe Glass pra ver se me inspira, mas acho que música instrumental não é muito pra mim, por isso prontamente desliguei.
Li e reescrevi tirando alguns exageros a peça “José” escrita dois anos atrás. A primeira pergunta que me fiz agora é porque José tem esse nome. E são vários os motivos, o principal é que trata-se do meu primeiro personagem de teatro, uma gênenis da minha escrita, então o nome José me pareceu apropriado. José é o pai de Jesus e somos obrigado a ter essa lenda sobrevoando constantemente sobre nossas cabeça. José é o nome de meu pai e o nome do meu avô. José é o nome de Saramago, talvez o escritor que me fez ter o maior impacto estético e o sujeito que me fez ter vontade de ser da literatura. José também é aqui um nome anônimo, José da Silva, um nome que serve pra exemplos. “E agora, José?”A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou.”, diz Drummond. “Todo dia um ninguém José acorda já deitado.”, diz Camelo. “O espinho da rosa feriu Zé, O sorvete e a rosa, ô, José! A rosa e o sorvete, Ô, José! Foi dançando no peito, Ô, José! Do José brincalhão, Ô, José!...” , disse Gil.
José é tudo que me fez nascer, me compõe José sou também eu. No entanto, é importante dizer, acima de tudo é que José é um cidadão. É um anônimo cidadão, um ser político que trafega pelo mundo e que se estanca e se vicia e que se torna absurdo não por motivos puramente pessoais, mas públicos, pois José também é todo mundo. José trabalhou, José foi aposentado, José, não se sabe como, comprou esse apartamento em um condomínio de luxo e se vê sozinho onde tem tudo. Já era sozinho, mas era obrigado a trafegar, agora não mais.
José é o próprio tráfego, é a própria rua e sua autoestrada é si mesmo. Como muitos de nós.
Shelley diz: “Um poeta participa no eterno, infinito, no único; até onde concerne às suas concepções, o tempo, o lugar e os números não existem.” Se isso for verdade, espero nunca ser poeta, porque o que escrevo é do presente, o maior presente do mundo e esse infinito, esse eterno que atribuem ao poeta é só uma forma de aliená-lo. Não existe saída possível: ou se escreve desse nosso presente ou, mesmo falando, se faz silêncio.
Li e reescrevi tirando alguns exageros a peça “José” escrita dois anos atrás. A primeira pergunta que me fiz agora é porque José tem esse nome. E são vários os motivos, o principal é que trata-se do meu primeiro personagem de teatro, uma gênenis da minha escrita, então o nome José me pareceu apropriado. José é o pai de Jesus e somos obrigado a ter essa lenda sobrevoando constantemente sobre nossas cabeça. José é o nome de meu pai e o nome do meu avô. José é o nome de Saramago, talvez o escritor que me fez ter o maior impacto estético e o sujeito que me fez ter vontade de ser da literatura. José também é aqui um nome anônimo, José da Silva, um nome que serve pra exemplos. “E agora, José?”A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou.”, diz Drummond. “Todo dia um ninguém José acorda já deitado.”, diz Camelo. “O espinho da rosa feriu Zé, O sorvete e a rosa, ô, José! A rosa e o sorvete, Ô, José! Foi dançando no peito, Ô, José! Do José brincalhão, Ô, José!...” , disse Gil.
José é tudo que me fez nascer, me compõe José sou também eu. No entanto, é importante dizer, acima de tudo é que José é um cidadão. É um anônimo cidadão, um ser político que trafega pelo mundo e que se estanca e se vicia e que se torna absurdo não por motivos puramente pessoais, mas públicos, pois José também é todo mundo. José trabalhou, José foi aposentado, José, não se sabe como, comprou esse apartamento em um condomínio de luxo e se vê sozinho onde tem tudo. Já era sozinho, mas era obrigado a trafegar, agora não mais.
José é o próprio tráfego, é a própria rua e sua autoestrada é si mesmo. Como muitos de nós.
Shelley diz: “Um poeta participa no eterno, infinito, no único; até onde concerne às suas concepções, o tempo, o lugar e os números não existem.” Se isso for verdade, espero nunca ser poeta, porque o que escrevo é do presente, o maior presente do mundo e esse infinito, esse eterno que atribuem ao poeta é só uma forma de aliená-lo. Não existe saída possível: ou se escreve desse nosso presente ou, mesmo falando, se faz silêncio.
17 novembro 2010
prólogo
Quando eu era criança minha mãe me contava uma história que dizia ter ouvido de sua avó. Ela era minha bisavó e tinha o apelido de “Vozinha”, o que me soava afetivo e engraçado, apesar da história que ela contava ser muito triste.
A verdade é que não me lembro desse conto de família e tenho certeza que minha mãe sabe, mas preferi nunca perguntá-la. Sei que era sobre um pássaro, acho que um papagaio, que era maltratado pela sua dona. Ela não reparava nele por ele ter feito alguma coisa errada e deixava-o passar fome. Todos os dias ele dizia: “Tô fraco, sinhá!”. Prestes a morrer dizia : “To fraco, sinhá! To fraco, sinhá!” Por fim, morria. Não lembro com precisão, mas acho que sim. A história era muito triste e minha mãe dizia que sempre chorava assim com essa história. Ela e seus irmãos.
Eu queria saber mais e minha mãe dizia que eram várias histórias que a Vozinha contava na cozinha antes de todos dormirem, algumas felizes, outras tristes. Muitas faziam chorar. Eu não entendia dessas histórias, me pareciam ter acontecido em outro mundo e eu tinha medo. Via televisão para esquecer e tinha sonhos estranhos. Quando acordava ficava pensando num pássaro que dizia “Tô fraco, sinhá!” e pensava que se os pássaros pudessem falar três palavras antes de morrer seriam sempre essas.
Pra mim, todos morriam igual, fracos e sem poder voar...como os pássaros.
A verdade é que não me lembro desse conto de família e tenho certeza que minha mãe sabe, mas preferi nunca perguntá-la. Sei que era sobre um pássaro, acho que um papagaio, que era maltratado pela sua dona. Ela não reparava nele por ele ter feito alguma coisa errada e deixava-o passar fome. Todos os dias ele dizia: “Tô fraco, sinhá!”. Prestes a morrer dizia : “To fraco, sinhá! To fraco, sinhá!” Por fim, morria. Não lembro com precisão, mas acho que sim. A história era muito triste e minha mãe dizia que sempre chorava assim com essa história. Ela e seus irmãos.
Eu queria saber mais e minha mãe dizia que eram várias histórias que a Vozinha contava na cozinha antes de todos dormirem, algumas felizes, outras tristes. Muitas faziam chorar. Eu não entendia dessas histórias, me pareciam ter acontecido em outro mundo e eu tinha medo. Via televisão para esquecer e tinha sonhos estranhos. Quando acordava ficava pensando num pássaro que dizia “Tô fraco, sinhá!” e pensava que se os pássaros pudessem falar três palavras antes de morrer seriam sempre essas.
Pra mim, todos morriam igual, fracos e sem poder voar...como os pássaros.
15 novembro 2010
cachorro porco
Achei uma poesia minha escrita na 6ª série e foi inevitável postá-la aqui. Dei algumas risadas e agora a li como uma metáfora e a poesia que obviamente era só uma piada ganhou algum sentido.
Cachorro porco
Você só faz coco
Cachorro do morro
Te ensino a mudar
Cachorro teimoso
Todos vão te chamar
De cachorro porco
Põe rolha no bumbum
Apaga o teu fogo
Sai daqui, sai fora do meu lado
Senão eu mando te castrar
Saí daqui, estou desesperado
Senão sou eu que vou te matar
Assim você não vai me atrapalhar
Sai daqui, sai fora do meu lado
Eu mando a carrocinha te pegar
Saí daqui, estou desesperado
Senão sabão tu vai virar
Você é um horror
Cachorro do morro
Eu não vou te mudar
Cachorro teimoso
Sai pra lá, sai daqui
Acabou o teu jogo
Cachorro porco
Você só faz coco
Cachorro do morro
Te ensino a mudar
Cachorro teimoso
Todos vão te chamar
De cachorro porco
Põe rolha no bumbum
Apaga o teu fogo
Sai daqui, sai fora do meu lado
Senão eu mando te castrar
Saí daqui, estou desesperado
Senão sou eu que vou te matar
Assim você não vai me atrapalhar
Sai daqui, sai fora do meu lado
Eu mando a carrocinha te pegar
Saí daqui, estou desesperado
Senão sabão tu vai virar
Você é um horror
Cachorro do morro
Eu não vou te mudar
Cachorro teimoso
Sai pra lá, sai daqui
Acabou o teu jogo
11 novembro 2010
o anão 2
O anão estava sentado em um banco de frente para o mar. Suas pernas que não tocavam o chão se balançavam e logo começaram a doer, por isso teve que colocá-las pra cima, como criança ao fazer um pic-nic. Olhava o horizonte com atenção, o que levou alguns passantes a crer que ele estava pensando, refletindo sobre a vida ou coisas importantes, mas ele não era capaz disso. Era prático e via apenas a água até a metade azul e verde depois, a areia com algumas poucas pessoas e o céu que era azul apesar de algumas nuvens. Nada mais. Murmurou para si: “e dizem que isso é um espetáculo da natureza” e se calou, pois não pegava bem ficar por aí falando sozinho. A natureza estava muda.
De repente um barulho atrás de si. Tentou se virar, mas não foi capaz, então pulou do banco para olhar. Quando se virou, dois meninos vestidos com uniforme de hóquei estavam atravessando o calçadão, um de vermelho e outro de azul. Corriam com muita destreza e o primeiro que com seu taco conduzia o disco mantinha no rosto um sorriso maquiavélico. O anão tentou se encostar na mureta, mas quando os dois passaram, esbarraram nele que virou uma cambalhota e sem controle caiu sentado na areia.
Filhos da mãe, gritou em bom som e logo se levantou indignado. Avançou na perseguição dos rapazes. As pernas curtas demonstraram que nunca iria alcançá-los, mas o ímpeto e a raiva prevaleceram. O rosto em poucos segundos se encheu de suor que se espalhou pela camisa, formando uma escura e densa marca molhada que se misturou a quantidades imensas de areia que haviam grudado na camisa, mas que os pequenos braços não eram capazes de espanar. Desistiu de caçá-los, jovens são assim mesmo.
Acontece que logo quando ele desistiu os rapazes voltaram a se aproximar. Agora o outro liderava o disco com o sorriso endemoniado e o outro seguia atrás. Ao passar, viraram o rosto para o anão que estava xingando, mas não conseguiram ouvir coisa alguma.
O anão voltou a correr atrás deles e os viu se afastarem. Quando de uma esquina apontou um mini-carro de golf com dois policiais nele. Nervoso ele apontou para a direção dos rapazes dizendo: “atrás deles.” mas pelo visto era ele o suspeito.
O carro parou ao seu lado e os dois policiais saltaram.
Você está brincando com autoridade, baixinho?
Não senhor, foram os rapazes, senhor. Me acertaram.
Que rapazes?
Os dois de patins.
Os policiais olharam para os dois lados, mas os rapazes haviam sumido.
O senhor está bêbado, senhor?
Não. Os dois passaram aqui jogando e me derrubaram, por isso estou sujo. Fui atrás deles, por isso estou suado.
Você acredita nele?
Eu não e você?
Eu também não.
Mas seus guardas, eu estou falando a verdade. Pode perguntar pra qualquer um, deve haver uma testemunha.
Olhou para os lados e quase não viu ninguém por perto. Na verdade, um grande silêncio prevalecia e era possível ouvir o som das ondas quebrando no mar.
Isso aconteceu tem muito tempo, senhor?
Não, foi agora agorinha. Tem 2 minutos. Eu estava sentado olhando o sol quando veio o barulho.
O Sol? Mas o sol já se pôs, senhor.
Não tinha ainda percebido isso, mas era verdade. Estava escurecendo o que devia aumentar seu aspecto suspeito. No entanto, aparentemente cansados os policiais se sentaram no meio fio, ficando quase na altura do anão que tentou falar alguma coisa que foi interrompida por um policial.
Está liberado.
Assim? Você não vai atrás deles?
Não há ninguém, senhor. Volte para casa, tome um banho e descanse. Tenha um pouco de dignidade e boa noite.
O anão baixou a cabeça, deu um “Boa noite” constrangido e se retirou dali. Passou pelo banco e pensou em sentar novamente para agora olhar a lua, mas desistiu. Era já hora de ir para a casa e, talvez de propósito, talvez sem querer, foi andando na direção contrária de seu caminho.
De repente um barulho atrás de si. Tentou se virar, mas não foi capaz, então pulou do banco para olhar. Quando se virou, dois meninos vestidos com uniforme de hóquei estavam atravessando o calçadão, um de vermelho e outro de azul. Corriam com muita destreza e o primeiro que com seu taco conduzia o disco mantinha no rosto um sorriso maquiavélico. O anão tentou se encostar na mureta, mas quando os dois passaram, esbarraram nele que virou uma cambalhota e sem controle caiu sentado na areia.
Filhos da mãe, gritou em bom som e logo se levantou indignado. Avançou na perseguição dos rapazes. As pernas curtas demonstraram que nunca iria alcançá-los, mas o ímpeto e a raiva prevaleceram. O rosto em poucos segundos se encheu de suor que se espalhou pela camisa, formando uma escura e densa marca molhada que se misturou a quantidades imensas de areia que haviam grudado na camisa, mas que os pequenos braços não eram capazes de espanar. Desistiu de caçá-los, jovens são assim mesmo.
Acontece que logo quando ele desistiu os rapazes voltaram a se aproximar. Agora o outro liderava o disco com o sorriso endemoniado e o outro seguia atrás. Ao passar, viraram o rosto para o anão que estava xingando, mas não conseguiram ouvir coisa alguma.
O anão voltou a correr atrás deles e os viu se afastarem. Quando de uma esquina apontou um mini-carro de golf com dois policiais nele. Nervoso ele apontou para a direção dos rapazes dizendo: “atrás deles.” mas pelo visto era ele o suspeito.
O carro parou ao seu lado e os dois policiais saltaram.
Você está brincando com autoridade, baixinho?
Não senhor, foram os rapazes, senhor. Me acertaram.
Que rapazes?
Os dois de patins.
Os policiais olharam para os dois lados, mas os rapazes haviam sumido.
O senhor está bêbado, senhor?
Não. Os dois passaram aqui jogando e me derrubaram, por isso estou sujo. Fui atrás deles, por isso estou suado.
Você acredita nele?
Eu não e você?
Eu também não.
Mas seus guardas, eu estou falando a verdade. Pode perguntar pra qualquer um, deve haver uma testemunha.
Olhou para os lados e quase não viu ninguém por perto. Na verdade, um grande silêncio prevalecia e era possível ouvir o som das ondas quebrando no mar.
Isso aconteceu tem muito tempo, senhor?
Não, foi agora agorinha. Tem 2 minutos. Eu estava sentado olhando o sol quando veio o barulho.
O Sol? Mas o sol já se pôs, senhor.
Não tinha ainda percebido isso, mas era verdade. Estava escurecendo o que devia aumentar seu aspecto suspeito. No entanto, aparentemente cansados os policiais se sentaram no meio fio, ficando quase na altura do anão que tentou falar alguma coisa que foi interrompida por um policial.
Está liberado.
Assim? Você não vai atrás deles?
Não há ninguém, senhor. Volte para casa, tome um banho e descanse. Tenha um pouco de dignidade e boa noite.
O anão baixou a cabeça, deu um “Boa noite” constrangido e se retirou dali. Passou pelo banco e pensou em sentar novamente para agora olhar a lua, mas desistiu. Era já hora de ir para a casa e, talvez de propósito, talvez sem querer, foi andando na direção contrária de seu caminho.
10 novembro 2010
a mão que cai
"Ele deve ter uma aparência completamente diferente quando vem á aldeia, outra quando a deixa, outra ainda antes de ter bebido cerveja, outra depois, outra acordado, outra dormindo, outra sozinho, outra durante uma conversa e, o que é compreensível, quase inteiramente outra lá em cima do castelo." Franz Kafka

Um homem corre por uma calçada. Tem pressa, usa uma mochila e está suado, só isso que se pode dizer. Passa por um muro coberto por uma relva rasteira e algumas flores como adorno. Faz sol e a corrida é extenuante, tanto que para o homem que está acima do peso parece não ter fim.
Alguns passos a frente, avista uma pequeno galho que cresceu mais que os outros e expôs uma flor em seu caminho. O homem passa por ela e dá-lhe um tapa. A flor cai e sua mão fica junto. Ele interrompe a corrida no ato afim de tentar recuperar sua mão, mas não é possível: ela está inseparavelmente colada à flor.
Ainda com pressa, pois não pode atrasar para seu compromisso, pega com a outra mão a flor e a mão do chão e carrega junto consigo. Estanca mais alguns passos e guarda ambas na mochila.
Do outro lado da rua, havia três testemunhas do ocorrido. Dois homens e uma mulher que não se furtaram de emitir opiniões a respeito do ocorrido. “Uma lástima”, disse um, “não se fazem mais mãos como antigamente. Hoje em dia tudo é descartável.” “Pobre homem”, emendou o outro, “porque aquela flor foi se meter justamente entre ele e seu caminho? Ele andava tão apressado, deveria estar indo resolver algo muito grave. Um caso de vida ou morte.” “É bem feito”, disse a mulher, “quem maltrata a natureza devia ser preso, perder a mão, o braço, para aprender. Foi um exemplo para nossas crianças.”
Acontece que os três se despediram e propagaram a história para mais pessoas. A mão que caiu parece significar agora tantas coisas e ter tantas possibilidades que o próprio ato da queda da mão com a flor em si parece ter se perdido. Ninguém atentou que o homem que perdeu a mão pode ter ganhado uma flor. Ninguém pensou que aquela flor podia ser útil porque ele estava atrasado para um encontro com sua namorada.
Não se pensou no homem, não se pensou na flor, muito menos na mão, mas somente que aquilo era alguma outra coisa. E era. O homem, logo ao dobrar a esquina, abriu a mochila pegou sua mão e colocou de volta no lugar. Com um sorriso no rosto teve todo cuidado para não expor as muitas cartas que estavam escondidas por detrás de sua manga e a pressa toda era que, infelizmente, uma criança provavelmente ia ficar sem mágicas em seu aniversário.
28 outubro 2010
a profissão
“Isto significa que nos meses imediatos aos exames, e com ampla participação dos nervos, me alimentei de serragem, que por outro lado, me tinham remastigado já mil bocas.” Carta ao Pai - Franz Kafka
Era um sujeito que estava pronto a arranjar uma profissão, mas não sabia como fazê-lo. Seu pai engenheiro e a mãe professora pareciam exercer profissões que já haviam sido ruminadas por séculos de gerações. Aprendera, no decorrer da sua vida, que era uma pessoa única, especial, que deveria fazer aquilo que o coração manda porque era diferente de todos os outros e em todo mundo não existia nada, nem traço nem rastro de qualquer coisa que fosse similar a ele. É claro que não concordava, mesmo porque aprendera na aula de genética que a diferença entre um ser humano e um macaco era de menos de 1%. Ele até concordava com isso, via as similitudes e parecências, muito embora os macacos, do lado deles, parecerem não se importar com esse assunto que para os humanos era tão aflitivo.
Enfim, era um rapaz que aprendera a ser ele mesmo e quando foi escolher uma profissão só havia coisas que outros também faziam. Era um paradoxo. Advogado? Mas já há tantos deles no mundo, andando de terno, falando difícil e tratando mal as pessoas. Médico? Quantos já cuidaram dele, pediatra, ortopedista, urologista, todos de branco e com uma fala mansa apesar da letra bruta. Bancário? Assim como todos aqueles senhores que ficavam atrás daquele computador contando dinheiro e botando numa caixa que aparecia vazia no dia seguinte sem nem ao menos lhe explicarem para onde e para quem fora toda aquela grana. Ia listando uma a uma as profissões e já havia gente demais em todas elas e parecia não haver uma para ele.
Andava pelas ruas olhando e pensando no que poderia fazer. Poderia até inventar uma profissão nova, mas para isso deveria ser inventor, profissão antiga. Artistas se amontoavam também, além de que a maioria deles parecia insensível e egoísta. Sentava na praia e via tanta gente também sentada que chegou até a pensar que estavam passando pela mesma situação que ele, mas não, estavam apenas desempregados: era uma consequência de tanta gente fazer a mesma coisa, sobrava gente para coisa.
Não fazia sentido em sua cabeça essa lógica de profissão, se havia mais gente que profissão, tanto que muitas pessoas nem conseguiam trabalhar, porque então haveriam de escolher logo aquilo para fazer na vida? Escolhe-se uma profissão para trabalhar nela, não para ficar a toa com ela. Profissão não era uma posse, mas uma atividade.
Até que de pensamento em pensamento resolveu estudar que não era uma profissão. Passou a vida inteira estudando, sem nunca ao menos ter trabalhado. Vivia de dinheiro, migalhas, livros e atenção dos outros. Aos poucos foi lendo cada livro que existia, sempre fazendo anotações e escrevendo teorias sobre eles. Depois de cinquenta anos era a pessoa mais culta do seu país, e mesmo sem saber disso pois tinha vivido numa letargia social por tanto tempo, resolveu fazer um pronunciamento. O que sabia era útil para o mundo: bateu nos jornais, revistas, televisões e rádios e não foi recebido. Escrevera um discurso de quase oitocentas páginas que mal conseguia carregar sozinho e queria que todos soubessem o que havia aprendido em toda essa vida de dedicação e estudo. Eram palavras doces e duras, de uma sabedoria que só um homem que, por um lado estava entranhado do mundo e por outro havia se guardado dele poderia escrever. Entretanto ninguém ao menos chegou a recebê-lo. Ficava sempre nas portarias e via passar tanta gente bem arrumada e com o rosto tão tenso que misturava o que via com o que imaginara. Em sua cabeça se fundia o sonho antigo de ter uma profissão com a realidade de toda aquela gente. Seu pronunciamento, seu discurso e tudo que aprendera era tão precioso que parecia ser inútil. Depois de tanto trabalho, percebeu que talvez tudo havia sido em vão, pois em cada porta que batia, ouvia a resposta da secretária: “O senhor não poderá recebê-lo. Está trabalhando.”
Era um sujeito que estava pronto a arranjar uma profissão, mas não sabia como fazê-lo. Seu pai engenheiro e a mãe professora pareciam exercer profissões que já haviam sido ruminadas por séculos de gerações. Aprendera, no decorrer da sua vida, que era uma pessoa única, especial, que deveria fazer aquilo que o coração manda porque era diferente de todos os outros e em todo mundo não existia nada, nem traço nem rastro de qualquer coisa que fosse similar a ele. É claro que não concordava, mesmo porque aprendera na aula de genética que a diferença entre um ser humano e um macaco era de menos de 1%. Ele até concordava com isso, via as similitudes e parecências, muito embora os macacos, do lado deles, parecerem não se importar com esse assunto que para os humanos era tão aflitivo.
Enfim, era um rapaz que aprendera a ser ele mesmo e quando foi escolher uma profissão só havia coisas que outros também faziam. Era um paradoxo. Advogado? Mas já há tantos deles no mundo, andando de terno, falando difícil e tratando mal as pessoas. Médico? Quantos já cuidaram dele, pediatra, ortopedista, urologista, todos de branco e com uma fala mansa apesar da letra bruta. Bancário? Assim como todos aqueles senhores que ficavam atrás daquele computador contando dinheiro e botando numa caixa que aparecia vazia no dia seguinte sem nem ao menos lhe explicarem para onde e para quem fora toda aquela grana. Ia listando uma a uma as profissões e já havia gente demais em todas elas e parecia não haver uma para ele.
Andava pelas ruas olhando e pensando no que poderia fazer. Poderia até inventar uma profissão nova, mas para isso deveria ser inventor, profissão antiga. Artistas se amontoavam também, além de que a maioria deles parecia insensível e egoísta. Sentava na praia e via tanta gente também sentada que chegou até a pensar que estavam passando pela mesma situação que ele, mas não, estavam apenas desempregados: era uma consequência de tanta gente fazer a mesma coisa, sobrava gente para coisa.
Não fazia sentido em sua cabeça essa lógica de profissão, se havia mais gente que profissão, tanto que muitas pessoas nem conseguiam trabalhar, porque então haveriam de escolher logo aquilo para fazer na vida? Escolhe-se uma profissão para trabalhar nela, não para ficar a toa com ela. Profissão não era uma posse, mas uma atividade.
Até que de pensamento em pensamento resolveu estudar que não era uma profissão. Passou a vida inteira estudando, sem nunca ao menos ter trabalhado. Vivia de dinheiro, migalhas, livros e atenção dos outros. Aos poucos foi lendo cada livro que existia, sempre fazendo anotações e escrevendo teorias sobre eles. Depois de cinquenta anos era a pessoa mais culta do seu país, e mesmo sem saber disso pois tinha vivido numa letargia social por tanto tempo, resolveu fazer um pronunciamento. O que sabia era útil para o mundo: bateu nos jornais, revistas, televisões e rádios e não foi recebido. Escrevera um discurso de quase oitocentas páginas que mal conseguia carregar sozinho e queria que todos soubessem o que havia aprendido em toda essa vida de dedicação e estudo. Eram palavras doces e duras, de uma sabedoria que só um homem que, por um lado estava entranhado do mundo e por outro havia se guardado dele poderia escrever. Entretanto ninguém ao menos chegou a recebê-lo. Ficava sempre nas portarias e via passar tanta gente bem arrumada e com o rosto tão tenso que misturava o que via com o que imaginara. Em sua cabeça se fundia o sonho antigo de ter uma profissão com a realidade de toda aquela gente. Seu pronunciamento, seu discurso e tudo que aprendera era tão precioso que parecia ser inútil. Depois de tanto trabalho, percebeu que talvez tudo havia sido em vão, pois em cada porta que batia, ouvia a resposta da secretária: “O senhor não poderá recebê-lo. Está trabalhando.”
26 outubro 2010
quando você chora
Quando você chora
Uma flor morre
Um rio seca
Um domingo acaba
Um jardim alaga
Um arroz azeda
Uma mãe se mata
Uma canção destoa
Uma fruta cai
Um bichinho mata
Um sol se põe
Um tênis rasga
Uma goteira pinga
Uma estrela apaga
Quando você chora, flor
Rio, domingo, jardim
Arroz, mãe, canção
Fruta, bichinho, sol
Tênis, goteira e estrela
Quando você chora
O mundo muda
Eu faço listas
E chove.
Uma flor morre
Um rio seca
Um domingo acaba
Um jardim alaga
Um arroz azeda
Uma mãe se mata
Uma canção destoa
Uma fruta cai
Um bichinho mata
Um sol se põe
Um tênis rasga
Uma goteira pinga
Uma estrela apaga
Quando você chora, flor
Rio, domingo, jardim
Arroz, mãe, canção
Fruta, bichinho, sol
Tênis, goteira e estrela
Quando você chora
O mundo muda
Eu faço listas
E chove.
24 outubro 2010
pra bom entendedor...
- Me agrada muito? me deixa feliz?
- Como?
- Obrigada. Sabia que vc ia entender...
- Como?
- Obrigada. Sabia que vc ia entender...
23 outubro 2010
a invenção da fotografia
Jesus está na cruz. Está todo ensangüentado, uma parte por sangue novo que escorria e outra por sangue seco, coagulado das muitas horas que já estava lá. Ao contrário do que a Bíblia nos disse, ele não estava consciente. Depois de um tempo seus membros que doíam de uma forma nunca antes experimentada, que espetavam pelos pregos mal limpos cravados, começaram a formigar e ele, começou a ter a mente nebulosa.
Primeiro era só algo turvo, mas depois começou a ter visões, como se estivesse na experiência de alguma droga que muda sua percepção do espaço, do tempo, das pessoas e do mundo. Mais algum tempo depois, o formigamento chegou até as pernas, foi quando todo seu corpo parecia ter sido imerso numa banheira cheia de gelo. A partir desse momento, pouco ele sabia do que ali se passava, estava quase desmaiado, balbuciava palavras incongruentes e adentrara num estado de quase morte, meio desmaiado com uma respiração silenciosa.
Muitas pessoas assistiam. Maria e Madalena choravam, seus discípulos entristecidos oravam ao senhor na busca de alguma solução. Sentiam que seguiram seu rei por nada, que ele ali morreria e o mundo se mostraria outra vez injusto, matando os bons. Jesus havia dito que ele faria isso para salvar a todos na outra vida, mas alguns deles discordaram, disseram que vivo Jesus poderia salvar mais gente naquela vida também, porque quanto a outra tanto ele quanto Deus já estavam trabalhando. Judas não, este concordou com Jesus.
Acontece que dessa vez todos que assistiam, aproximadamente 2 mil pessoas, resolveram não ficar paradas olhando Jesus e os assaltantes morrerem para depois tira-los da cruz. Algum deles, talvez um verdadeiro Jesus, levantou e voz:
- Que tipo de gente somos nós que vemos nosso rei ser assassinado na cruz, julgado por nada e ficamos só olhando? Qual o direito que temos, depois de tudo que eles nos ensinou, de somente chorar? Qual o dever que temos por ele e por todos que ele pode salvar enquanto vivo? O livre arbítrio que ele mesmo nos deu deveria servir para que fizéssemos mudar os planos de Deus, porque ele não tem essa escolha: Deus segue os planos apenas dele mesmo sem poder mudar de idéia.
Assim convenceu duas ou três pessoas da sua idéia, mas que não se manifestaram de cara. Então ele correu até a cruz, postou-se de baixo dela e dizendo: “Viva, senhor, Viva!” começou a receber pingos de sangue em sua cara, enquanto tentava retirar algum dos pregos do pé de Jesus, depois achou que salvando os pés Jesus ficaria pendurado, então escalou a cruz abraçando ao Senhor para tentar livrar algum dos braços. O homem chorava, lá de cima bradou: “Como pode um homem fazer isso com outro?” Jesus balbuciou: “Madalena, você veio?”, mas nem o homem escutou, pois já ficava de pé por cima da cruz e fazia um discurso que pouca gente escutou, já que nesse momento o exército romano se aproximava para averiguar o rumor de levante popular. O homem já ia tirando algum dos pregos do braço direito de Jesus quando uma lança atingiu seu peito. Caiu morto em segundos, seu corpo ainda se prendeu junto ao de Jesus, mas foi retirado e jogado logo atrás dele, como exemplo para outro que tentasse a sorte.
Assim se deu. Um dos homens que assistia empolgado com o discurso daquele primeiro resolveu atacar um homem do exército, quando chegou próximo, o soldado tentou afasta-lo, mas ele correu e tocou o pé do Senhor, foi quando uma espada cortava sua cabeça que rolou morro abaixo. O corpo sem cabeça foi jogado junto ao do primeiro homem. Do povo, então, outro homem veio correndo e foi rapidamente abatido, e assim vieram em duplas, trios, até que um grupo de dez homens tentou salvar Jesus, que com a vista turva confundiu todo o movimento com uma alucinação. Atrás de Jesus havia uma pilha de corpos já. Não se podia mais aceitar aquilo e sucedeu que em meia hora uma pilha de corpos mutilados e ensangüentados acompanhava a crucificação de Jesus. Nem Maria nem Madalena se mexerem, permaneceram chorando e rezando, olhando para o céu e para Jesus, como vítimas de uma grande injustiça. Os discípulos haviam saído para almoçar e quando voltaram julgaram tarde demais para alguma coisa ser feita.
Passou o tempo e os guardas já se cansavam de matar homens que tentavam salvar o Senhor. Dois deles foram abatidos e seus corpos jogados junto da pilha. Jesus era acompanhado por mortos até sua canela e essa proporção só crescia. Assim que a rebelião acabou e quase mil e quinhentas pessoas havia sido morta pelo exército romano e jogada por detrás da cruz e depois que as outras quinhentas resolveu fugir, o exército se foi. Junto da cruz havia a mãe, a amiga de Jesus, dois soldados e cerca de cinco discípulos.
Jesus morreu sem silêncio. Julgaram ouvir alguma coisa, mas talvez fosse um lamento de algo dos corpos que talvez estivesse com vida. Era mais fácil que numa pilha de mil e quinhentos um houvesse sobrevivido do que imaginar que um homem por dias na cruz falasse.
As mulheres tiraram o Senhor da cruz e o limparam. Choraram por horas e o enterraram. Um dos soldados, que não era um muito feliz com essa profissão, lamentou não ter um aparelho que pudesse registrar a imagem de Jesus com a pilha de corpos no fundo. “Aposto que vão contar essa história diferente, aposto”, pensou. E foi assim que pela primeira vez alguém teve a idéia de inventar uma máquina fotográfica.
20 outubro 2010
os olhares da política
Estava pensando no olhar dos políticos em público. No que eles nos dizem, tentam dizer, no que eles passam ou precisam passar. É como se, mais do que ter um olhar próprio, eles tivessem que possuir um olhar neutro, mas um neutro engajado, um neutro cheio de energia, que seja capaz de sorrir, ficar sério, triste, indignado.
Penso que todo político precisa aprender isso muito rápido. Aquele olhar que ao encontrar seu rival deve sorrir, mas não muito, se sentir a vontade sem deixar de mostrar sua óbvia superioridade. Um olhar que é para o mundo, que solta flechas, que dá presentes e resolve vidas. Um olhar apaixonado pela sua terra e pela sua gente, um olhar que consiga representar o hino nacional ou um gol de nossa seleção. Um olhar que atinja crentes e ateus, que acabe com as drogas e os problemas de educação. Um olhar maior que seu próprio interior, um olhar que reflete um sintoma cujo remédio é ele próprio.
Depois pensei nos assessores desses políticos. Estão sempre atrás deles, prestando atenção em tudo, medindo as palavras do seu líder e prontos a dar um beliscão na bunda deles, ou intervir dizendo que nada mais se falará. É o olhar atento que o político não pode demonstrar que tem. Enquanto que o político tem esse olhar centrífugo, o assessor tem um olhar centrípeto. Por isso aquela cara carrancuda de quem não gosta de nada e de ninguém, de quem é capaz de matar pelo seu assessorado. Um olhar mortal. Seco, duro, sem nenhum tipo de sensibilidade. Um olhar que representa toda a jogada que é estar ali naquele momento, um olhar que representa a outra parte da política, representa a guerra, a força, o rancor e a desconfiança, mais que isso, é o olhar da disputa.
Esse olhar combinado com o dos políticos é que são a síntese da nossa política atual. Essa mistura de creme de leite com chocolate meio amargo, de banana com canela. Olhe para os dois ao mesmo tempo e complete a moeda. Não se vota pelas palavras, não se vota por um olhar. Se vota pela subjetividade como objetivo, pelo horizonte que essa síntese de olhares faz. Se vota pela capacidade de interpretar o futuro através dos olhares, tal como uma cartomante, que precisa ler seu cliente só de repara-lo. É preciso votar sabendo mais do que fatores práticos, votar em cima de uma balança que vai sempre estar em desequilíbrio.
A política é feita de tanta coisa, tantas palavras e vozes, mas nunca se esqueça das características dos olhares que vagam por ela...
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08 outubro 2010
Terra Sonâmbula
(Terra Sonâmbula, 2007)
• Título em inglês: sleepwalking land
• Direção: Teresa Prata
• Roteiro: Mia Couto (romance), Teresa Prata (adaptação e roteiro)
• Gênero: Drama
• Origem: Moçambique/Portugal
• Duração: 95 minutos
• Tipo: Longa-metragem
sinopse:
Muidinga é um menino sonhador e seu maior desejo é encontrar a família, de quem se perdeu no meio da guerra civil em seu país, Moçambique. O menino lê num diário, achado ao lado de um cadáver, a história de uma mulher que está num navio à procura do filho. Muidinga se convence de que ele é o menino procurado. Parte atrás dela, contando com a ajuda de Tuahir, um velho cheio de sabedoria. A estrada por onde viajam é mágica: entende os seus desejos e os move de um lugar para o outro, sem deixar que morram antes de alcançar o sonhado mar.
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30 setembro 2010
festival de cinema ou Rio de areia

O festival de cinema da cidade do Rio está acontecendo e por toda a cidade fica aquele clima. Pessoas de calça xadrez e óculos grossos andando por aí, comprando entradas antecipadamente e citando a última moda em quadrinhos, o diretor que foi sucesso no festival do Irã e por aí vai. A cidade também se enfeita para o evento: quase em todo poste tem um banner assim como nos pontos de ônibus. É quando me deparo com o cartaz de divulgação.
Trata-se de uma imagem do Pão-de-Açúcar, da Lapa, do Maracanã e de outros monumentos feitos de areia. Mas por quê? O festival não é feito para gringos, não é feito para divulgar a cidade, pra ganhar votos. O festival é para organizar e divulgar uma mídia específica: o cinema. O cinema como forma de integração de várias nações de transações culturais para um público que, pelo menos pretensamente, se propõe a olhar as obras a partir de um ponto de vista menos simplificador. Junto com o cartaz uma inscrição: "Rio: inspiração natural". Inspiração pra quem, meu deus?! Generaliza-se e se perde o que se tem de bom.
Fico chocado com essa constante classificação do Brasil, e por consequência do Rio de Janeiro, como o lugar da natureza, da praia, do futebol e da noite. Fico preocupado de a gente ainda se ver assim, ainda comprar essa ideia que é mais que cristalizada, constantemente reafirmada e habita nosso imaginário em todos os aspectos. O Brasil não é isso, pelo contrário, o Brasil e o Rio vivem em constante tensão com essa imagem. Afirmam a cada momento que não é parecido com ela e que ela é apenas uma visão ingênua, pobre, velha, antiga e dominadora sobre o que somos.
O festival de cinema é o contrário do seu cartaz: um instrumento de derrubar esses castelos de areia, derrubar essa concepção nativista, de que somos um povo areia que vaga pelos ventos. O festival derrubar os castelos e apresenta um novo Brasil: um país que para e por algumas semanas olha o mundo.
29 setembro 2010
diomedes e o fragmento amoroso

28 setembro 2010
não votar em...
Tipos de político para NÃO se votar:

1- parente de político.
Há uma tendência no Brasil a uma idéia da política como paternalista e que o governante é um cara que recebe os direitos de decidir por nós e que aquele direito é, de certa forma, totalmente legítimo, quase numa instância divina. Espécie de monarquia, uma hierarquia muito antiga e que não podemos mudar. Nesse estilo, uma idéia de que se o pai tal foi bom, o filho será e assim a gente mantém sempre as mesmas famílias no poder. Isso estabelece um tipo de política que cristaliza estruturas. Então, para o bem votar é preciso ignorar essa idéia de parentesco por mais afinidade possível que se tenha pela pessoa.
2 - Militares.
Os militares governam a partir de leis muito antigas e totalmente ultrapassadas. Acham que um controle ou intervenção ostensiva é capaz de melhorar a situação, como se cada um de nós tivesse que ser constantemente fiscalizado e investigado por tudo que fez/faz/fará. Depois de idéias como de biopolítica do Foucault qualquer tipo de governo desse fica insustentável. Além disso eles geralmente usam demais o termo "tradição, família e ordem".
3- Paternalistas.
Nunca vote em políticos que comparam o governo com uma família. Que tratam o estado como o pai de todos que deve por um lado dar o que ele precisa e por outro controlar e punir quando não forem atendidos.
4- religiosos.
O estado é laico e portanto não deve se prender a qualquer tipo de político com um dogma religioso estabelecido. Quem governar deve ser capaz de ser dialético, de permitir que se veja todas as questões de muitos aspectos e perceber que um estado é plural e que todos estão nele, até quem não pensa como ele.
5- populistas.
Governantes que falam demais a palavra "Povo, a gente, saúde-educação-segurança". Usam de necessidades básicas da população e geralmente se compara a eles dizendo que "os outros querem tirar o que é nosso, mas ele não vai deixar"
6 - oradores
Nunca vote em políticos que tem um discurso absolutamente perfeito. Que consegue te cativar, te emocionar, que consegue ter o dom de dizer o que você pensava e o que pretende que um político faça. O verdadeiro político nunca vai organizar tão perfeitamente um discurso, pois a verdade é que a sociedade é rachada e vive em constante tensão, embate, então se algum consegue organizar tão bem as idéias provavelmente vai ser só falatório.
7- desenvolvimentistas
Políticos que falam excessivamente em desenvolvimento, em crescimento, expansão do capital. É fato que eles vão leiloar nosso país, abrir muitas fábricas poluentes e até desnecessárias. Por um lado vão gerar emprego, por outro vão criar diversos problemas. O político bacana percebe que estamos numa nova fase em que é preciso pensar em crescer com sustentabilidade, pois essa é a tônica desse novo mundo, e qualquer outro crescimento será improfícuo.
8 - carecas gordos.
Temos uma tradição de carecas gordos com cara de ou coronéis do interior de estados nordestinos ou de ex-nerds que estudaram na usp, enriqueceram, casaram com uma loira e mudaram de lado. É o pior tipo de político.
1- parente de político.
Há uma tendência no Brasil a uma idéia da política como paternalista e que o governante é um cara que recebe os direitos de decidir por nós e que aquele direito é, de certa forma, totalmente legítimo, quase numa instância divina. Espécie de monarquia, uma hierarquia muito antiga e que não podemos mudar. Nesse estilo, uma idéia de que se o pai tal foi bom, o filho será e assim a gente mantém sempre as mesmas famílias no poder. Isso estabelece um tipo de política que cristaliza estruturas. Então, para o bem votar é preciso ignorar essa idéia de parentesco por mais afinidade possível que se tenha pela pessoa.
2 - Militares.
Os militares governam a partir de leis muito antigas e totalmente ultrapassadas. Acham que um controle ou intervenção ostensiva é capaz de melhorar a situação, como se cada um de nós tivesse que ser constantemente fiscalizado e investigado por tudo que fez/faz/fará. Depois de idéias como de biopolítica do Foucault qualquer tipo de governo desse fica insustentável. Além disso eles geralmente usam demais o termo "tradição, família e ordem".
3- Paternalistas.
Nunca vote em políticos que comparam o governo com uma família. Que tratam o estado como o pai de todos que deve por um lado dar o que ele precisa e por outro controlar e punir quando não forem atendidos.
4- religiosos.
O estado é laico e portanto não deve se prender a qualquer tipo de político com um dogma religioso estabelecido. Quem governar deve ser capaz de ser dialético, de permitir que se veja todas as questões de muitos aspectos e perceber que um estado é plural e que todos estão nele, até quem não pensa como ele.
5- populistas.
Governantes que falam demais a palavra "Povo, a gente, saúde-educação-segurança". Usam de necessidades básicas da população e geralmente se compara a eles dizendo que "os outros querem tirar o que é nosso, mas ele não vai deixar"
6 - oradores
Nunca vote em políticos que tem um discurso absolutamente perfeito. Que consegue te cativar, te emocionar, que consegue ter o dom de dizer o que você pensava e o que pretende que um político faça. O verdadeiro político nunca vai organizar tão perfeitamente um discurso, pois a verdade é que a sociedade é rachada e vive em constante tensão, embate, então se algum consegue organizar tão bem as idéias provavelmente vai ser só falatório.
7- desenvolvimentistas
Políticos que falam excessivamente em desenvolvimento, em crescimento, expansão do capital. É fato que eles vão leiloar nosso país, abrir muitas fábricas poluentes e até desnecessárias. Por um lado vão gerar emprego, por outro vão criar diversos problemas. O político bacana percebe que estamos numa nova fase em que é preciso pensar em crescer com sustentabilidade, pois essa é a tônica desse novo mundo, e qualquer outro crescimento será improfícuo.
8 - carecas gordos.
Temos uma tradição de carecas gordos com cara de ou coronéis do interior de estados nordestinos ou de ex-nerds que estudaram na usp, enriqueceram, casaram com uma loira e mudaram de lado. É o pior tipo de político.
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18 setembro 2010
16 setembro 2010
O castelo - Kafka - Noelte
Achei esse filme raríssimo baseado na obra "O castelo" do Kafka para baixar e resolvi postar aqui. A produção alemã de 1968 conseguiu traduzir o universo kafkiano com grande habilidade. Uma das melhores adaptações de Kafka que já vi!
"O castelo (1968) - "Das Schloß"
País: Alemanha
Direção: Rudolf Noelte
Roteiro:
Franz Kafka (romance)
Rudolf Noelte
Maximilian Schell
Elenco:
Maximilian Schell ... 'K'
Cordula Trantow ... Frieda
Trudik Daniel ... Innkeeper's Wife
Friedrich Maurer ... Mayor
Helmut Qualtinger ... Burgel

Link do rapidshare:
http://rapidshare.com/files/285913694/Castillodel68.part1.rar
http://rapidshare.com/files/285938199/Castillodel68.part2.rar
http://rapidshare.com/files/285957801/Castillodel68.part3.rar
http://rapidshare.com/files/285975491/Castillodel68.part4.rar
http://rapidshare.com/files/286251617/Castillodel68.part5.rar
http://rapidshare.com/files/286276391/Castillodel68.part6.rar
http://rapidshare.com/files/286292467/Castillodel68.part7.rar
http://rapidshare.com/files/286297383/Castillodel68.part8.rar
Link com legendas em espanhol e inglês.
"O castelo (1968) - "Das Schloß"
País: Alemanha
Direção: Rudolf Noelte
Roteiro:
Franz Kafka (romance)
Rudolf Noelte
Maximilian Schell
Elenco:
Maximilian Schell ... 'K'
Cordula Trantow ... Frieda
Trudik Daniel ... Innkeeper's Wife
Friedrich Maurer ... Mayor
Helmut Qualtinger ... Burgel
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15 setembro 2010
mina de carvão
Tá tudo preto. Em cima, embaixo e dos lados. A coisa tá preta. Não dá pra medir a negritude de tudo, a profundidade da negrura que cobre meus olhos. Quando tem alguma luz, de lamparina ou de vela, parece um escárnio, parece que elas existem pra realçar a escuridão.
Sou um chileno e estou na mina de carvão, preso, e só vou sair em meses. Provavelmente no Natal pra ver Jesus nascer. Não saí, no entanto, hoje pra ver minha filha nascer. Cara, como é aqui? Me pergunto todo dia e não posso escrever. Na verdade não estou escrevendo agora: isso é só um pensamento e por isso sai tudo desorganizado. Estar preso pode dar uma sensação de claustrofobia, mas não, a fobia só existe quando a prisão é passageira, ou de espaço curto, quando é tão longa quanto a nossa, fica tudo bem. A gente sabe se planejar.
A verdade é que eu queria escrever um texto sobre essa sensação, mas não posso. Eu sou um mineiro de carvão e não tenho essa capacidade toda. Estou preso, magro e com fome, penso em processar a empresa. Não dá pra fazer uma grande análise ou qualquer poesia. Se eu fizesse exporia o meu narrador e isso não se faz, não quero que outro fale pela minha boca. Parece que estou no mito da caverna; droga o narrador escapou. Esse texto é complicado mesmo, eu aceito isso.
Ninguém toma banho dinheiro. E o humor é bom. Piada inevitável: pelo menos vou ficar três meses junto com uma mina...e no escurinho.
Sou um chileno e estou na mina de carvão, preso, e só vou sair em meses. Provavelmente no Natal pra ver Jesus nascer. Não saí, no entanto, hoje pra ver minha filha nascer. Cara, como é aqui? Me pergunto todo dia e não posso escrever. Na verdade não estou escrevendo agora: isso é só um pensamento e por isso sai tudo desorganizado. Estar preso pode dar uma sensação de claustrofobia, mas não, a fobia só existe quando a prisão é passageira, ou de espaço curto, quando é tão longa quanto a nossa, fica tudo bem. A gente sabe se planejar.
A verdade é que eu queria escrever um texto sobre essa sensação, mas não posso. Eu sou um mineiro de carvão e não tenho essa capacidade toda. Estou preso, magro e com fome, penso em processar a empresa. Não dá pra fazer uma grande análise ou qualquer poesia. Se eu fizesse exporia o meu narrador e isso não se faz, não quero que outro fale pela minha boca. Parece que estou no mito da caverna; droga o narrador escapou. Esse texto é complicado mesmo, eu aceito isso.
Ninguém toma banho dinheiro. E o humor é bom. Piada inevitável: pelo menos vou ficar três meses junto com uma mina...e no escurinho.
09 setembro 2010
metamorfoses
A releitura de “A metamorfose” que acabei de fazer me pediu que pensasse algumas coisas sobre o tema. Sofrer metamorfose é mudar fisicamente, ou de alguma maneira tornar-se outro. É possível que se pense em duas possibilidades: Ao sofrer metamorfose a gente se torna outro, ou melhor, mudando a forma muda alguma outra coisa? Não há, nesse caso, essa dialética entre forma e conteúdo, teoricamente nada muda internamente, somente algumas funções que se readaptam.
O primeiro que se torna o segundo, ao mesmo tempo que deixa de ser um tem a marca dele. Algo como um carimbo de alteridade, ele se relaciona e é analisado também a partir disso. É uma espécie de memória antiga, que quanto mais antiga se torna mais se distancia. Chega um ponto em que o primeiro se torna uma breve lembrança apenas e o segundo passa a ser e viver aquilo que é agora. No entanto, restos ficam, sequelas, marcas, rastros.
O próprio espaço se modifica. Uma vez acontecendo a metamorfose do corpo, todo o espaço também precisa se redefinir. Isso se dá gradativamente, a partir do ponto em que o outro começa a ser realmente o outro, quando a mudança física começa a se instalar em outras instâncias internas, até na constituição global, porque evito e não gostaria de dizer “na mente”, no psicológico desse segundo, mas é algo do tipo: assim que o outro se reconhece como tal, e assim que todo o resto também o reconhece, esse seu espaço também começa a se redefinir, a criar outras referências que outra vez deixam seus rastros e destroços.

Em “A metamorfose” há tudo isso. Gregor, no entanto, já era um distante da família, o único que trabalhava, que estava muito tempo fora, que sustentava todos e até acomodava uma rotina que dependia dele, mas que ele não compartilhava. A própria profissão de caixeiro-viajante exprime esse fato, ou seja, um homem que vai a lugarejos, cidades distantes levando produtos da cidade grande que lá não chegariam. Faz uma espécie de ligação de lugares díspares, coabitando os dois, vendo suas diferenças e, em algum nível, sem habitar nenhum daqueles mundos. Benjamin diz em “O narrador” (pg. 198) que narrador é alguém que vem de longe, alguém que transita pelos espaços e Gregor se torna esse homem em casa: ele traz o mundo externo, o dinheiro, as promessas de futuro, os trabalhos, para dentro da residência onde o pai já não trabalha, a irmã cultiva sonhos e a mãe mantém aquela falsa harmonia. Gregor já é um estranho nessa família e se tornar inseto é levar esse fato às últimas consequências. Ele conta o tempo, o avanço e a modernidade daquela casa. De certa forma, ele se torna aquela casa e o que ela é, fato que começa a mudar com a metamorfose, gerando uma espécie de caos íntimo e mais radicalmente após sua morte quando todos saem para um passeio, único momento externo do livro, única luz em uma obra soturna. Luz que repensa uma vida e depois de uma tragédia quase aponta uma esperança.
A metamorfose tem algo de material, externo, coletivo, social. Ela dramatiza, ou melhor, reencena de outro ponto as características quase estáticas de um mundo apocalíptico.
O primeiro que se torna o segundo, ao mesmo tempo que deixa de ser um tem a marca dele. Algo como um carimbo de alteridade, ele se relaciona e é analisado também a partir disso. É uma espécie de memória antiga, que quanto mais antiga se torna mais se distancia. Chega um ponto em que o primeiro se torna uma breve lembrança apenas e o segundo passa a ser e viver aquilo que é agora. No entanto, restos ficam, sequelas, marcas, rastros.
O próprio espaço se modifica. Uma vez acontecendo a metamorfose do corpo, todo o espaço também precisa se redefinir. Isso se dá gradativamente, a partir do ponto em que o outro começa a ser realmente o outro, quando a mudança física começa a se instalar em outras instâncias internas, até na constituição global, porque evito e não gostaria de dizer “na mente”, no psicológico desse segundo, mas é algo do tipo: assim que o outro se reconhece como tal, e assim que todo o resto também o reconhece, esse seu espaço também começa a se redefinir, a criar outras referências que outra vez deixam seus rastros e destroços.
Em “A metamorfose” há tudo isso. Gregor, no entanto, já era um distante da família, o único que trabalhava, que estava muito tempo fora, que sustentava todos e até acomodava uma rotina que dependia dele, mas que ele não compartilhava. A própria profissão de caixeiro-viajante exprime esse fato, ou seja, um homem que vai a lugarejos, cidades distantes levando produtos da cidade grande que lá não chegariam. Faz uma espécie de ligação de lugares díspares, coabitando os dois, vendo suas diferenças e, em algum nível, sem habitar nenhum daqueles mundos. Benjamin diz em “O narrador” (pg. 198) que narrador é alguém que vem de longe, alguém que transita pelos espaços e Gregor se torna esse homem em casa: ele traz o mundo externo, o dinheiro, as promessas de futuro, os trabalhos, para dentro da residência onde o pai já não trabalha, a irmã cultiva sonhos e a mãe mantém aquela falsa harmonia. Gregor já é um estranho nessa família e se tornar inseto é levar esse fato às últimas consequências. Ele conta o tempo, o avanço e a modernidade daquela casa. De certa forma, ele se torna aquela casa e o que ela é, fato que começa a mudar com a metamorfose, gerando uma espécie de caos íntimo e mais radicalmente após sua morte quando todos saem para um passeio, único momento externo do livro, única luz em uma obra soturna. Luz que repensa uma vida e depois de uma tragédia quase aponta uma esperança.
A metamorfose tem algo de material, externo, coletivo, social. Ela dramatiza, ou melhor, reencena de outro ponto as características quase estáticas de um mundo apocalíptico.
04 setembro 2010
minha cabeça
Minha monografia sobre o Lourenço Mutarelli tem mexido muito com minha cabeça. Ele fala da infância dele como "medonha" e descreve seus pais e seus irmãos de uma maneira quase cortante, nada afetiva. Diz ele que quando criança sempre viu o mundo de forma negra, nunca conseguiu ser uma criança feliz que se misturava. Comecei a pensar em mim. Eu me misturava, conseguia com algum esforço, mas conseguia. Só que vejo que só o esforço que tinha pra isso já me cansava, lembro que tinha que me controlar, saber o máximo de coisas erradas possíveis, aprender cada vez mais a jogar bola e ser um tanto quanto cruel quando jogasse. Humilhar alguém sempre foi bom, mas eu não conseguia: tinha pena de dar um drible mais bonito, fazia o gol logo.
Não esqueço uma vez que chamei um menino de "Junior Baiano" e ele veio pra me bater. Me empurrou no chão, veio pra cima de mim e ficou me sacudindo. Não tive reação, tinha feito só uma brincadeira. O professor separou, claro, mas me senti muito ofendido. Alguma coisa ali mudou em mim. Foi quando percebi que as pessoas podiam machucar as outras, se quisessem. Tive uma sensação real de morte, de fraqueza, de impossibilidade. E isso vai se arrastando comigo até hoje.
É...minha monografia sobre Lourenço Mutarelli tem mexido muito com minha cabeça.
Não esqueço uma vez que chamei um menino de "Junior Baiano" e ele veio pra me bater. Me empurrou no chão, veio pra cima de mim e ficou me sacudindo. Não tive reação, tinha feito só uma brincadeira. O professor separou, claro, mas me senti muito ofendido. Alguma coisa ali mudou em mim. Foi quando percebi que as pessoas podiam machucar as outras, se quisessem. Tive uma sensação real de morte, de fraqueza, de impossibilidade. E isso vai se arrastando comigo até hoje.
É...minha monografia sobre Lourenço Mutarelli tem mexido muito com minha cabeça.
24 agosto 2010
texto doce (candy text)
De uma doçura sem fim, de um sorriso inimitável, leva a vida nos ombros como se fossem plumas. Sabe viver, sabe entender as regras do jogo e jogar com elas. Tem todos os sonhos do mundo e vai realizar todos porque antes de tudo sabe sonhar, sabe medir a vida em sonhos e os sonhos em vida, como conta gotas que cabem no menor dos frascos ou como o fino líquido que sai de uma espessa seringa. Deixa coisas pra depois, porque sabe que os problemas e as soluções tem data marcada e nisso nada podemos fazer, em outros momentos troca as mãos pelos pés e resolve atacar tudo e todos, olhar sério, focado e raivoso, e nesse caso é melhor sair de perto. Mas sabe e eu sei que isso é cena, porque no coração é só gentileza, alegria, ginga, dança, sorrisos, e paixões imensas. Nunca vai ser capaz de amar por amar. Ama antes de tudo o amor e quer ser estimulada a isso, não intimada ou julgada. Quer espaço pra si, mas quando for chegar que chegue arrombando a porta. Sabe ignorar agrados bobos e falsos e medir nossos pensamentos. Com o rosto forte me ensina a doçura, o peito aberto, o sono tranquilo, o abraço perfeito, o beijo escondido e o carinho cheio de ternura. Sabe que meu coração é dela e faz dele um cartaz, exibe pelos quatros cantos e eu orgulhoso faço cópias e espalho por aí. Sem ela a vida seria muito mais sem cor, mas não só: sem cor, sem sorrisos, sem sonhos, sem abraços, filmes não vistos, quase dormidas, praças, fotos, teatros, brigas, carinhos, piadas, imitações, risadas. Sem generosidade, sem alegria, sem justiça e sem paixão. Sem aquilo que faz da gente a melhor coisa desse mundo, e quem sabe, a mais feliz.
20 agosto 2010
Tarantino
Tarantino é tudo que já sabemos: o diretor hollywoodiano da ação, do sangue, do exagero e dos roteiros irônicos. Roteirista e diretor de filmes como Pulp Fiction, Kill Bill, Cães de aluguel, entre outros, a tônica de seus filmes está na concentração da ação num ultrarealismo, que chega a extrapolar as barreiras do real, dando um toque de quadrinhos ou de animação às seqüências. A concentração da ação é tão intensa, a suspensão da tensão, num acúmulo que se dissolve só através da violência, como se não houvesse outra saída, até que outra cena apareça e o ciclo se comece novamente.
Nesse movimento tudo pode caber na ação: desde um ator que sangra o filme inteiro, no caso de Cães de Aluguel, até os diálogos de um nazista atrás de judeus em Bastardos Inglórios. Tarantino consegue usar a fórmula de Hollywood de produzir filme, ou seja: um espetáculo de ação, com imagens tremidas, tiros, perseguições, drogas, violência, suspense, tensão, adrenalina, etc. Todas essas palavras que ouvimos serem repetidas à exaustão e não sabemos muito bem o porquê. A graça é que Tarantino consegue fazer isso CONTRA o cinema de Hollywood, ele se usa da fórmula para critica-la, para ironiza-la e é uma ironia tão intensa que causa um incômodo até patético na platéia, como nos sangues espirrando em Kill Bill, ou a aposta em que alguém perderá a mão na cena de “Four Rooms”.
E esse uso dele é interessantíssimo porque apresenta alguma resistência intelectual à forma de Hollywood. A platéia que identifica o filme como um filme de seu horizonte de expectativas, ao mesmo tempo, não consegue aderir por completo, e é comum o comentário de que: “é meio sem noção”, “ele exagera”. É que na verdade, não percebem o que Tarantino fez: explorou o mercado e o consumo contra si próprio, criando um estilo de filme popular de qualidade. Soube estar no mercado e entender sua própria mídia. Soube fazer arte e reinventar o cinema, justamente onde achávamos que nada de bom tinha mais para acontecer.
19 agosto 2010
a merda e eu
Não me lembro do primeiro cheiro que senti, mas não deve ter sido bom. Cheiro de merda provavelmente. Nada mais anti-humano que esse cheiro: seja na privada, no chão ou em imagens sempre o sentimos, está na memória mais que lembranças ou histórias. Nasci ao lado de um chiqueiro, via sempre os porcos chafurdando na lama, rodando pra lá e pra cá e aquela imagem sempre me lembrou merda, como se eu fosse também criado por ela. Depois fiquei sabendo que os avós do Saramago criavam porcos e de dentro da merda foi que ele se fez. Pouco mudou, ainda assim havia crescido na merda.
Eu era fresco pra comer e minha mãe dizia que comida era questão de costume, que comendo três ou quatro vezes a gente acostumava com o cheiro, com o gosto, com tudo. Nunca me acostumei com merda nenhuma na vida. Nunca quis chafurdar, apesar de muitos me recomendarem desde políticos, médicos, nutricionistas e até padres. São os genocidas da merda.
Tenho muitos vizinhos e meus vizinhos têm muitos cachorros. Todos cagam muito e o cheiro se espalha. Cada latido deles me traz o cheiro de merda. Passo quase de olhos fechados, por não poder fechar as narinas. Prendo a respiração, mas aí me forço a olhar. Tem algum imã na merda que chama mais atenção que qualquer outra coisa. É tão repugnante a visão que não consigo me afastar. Às vezes passo e tem três cocos, às vezes quatro. O máximo que contei foram nove, o que me fez pensar que meus vizinhos colecionam merda, juntam e as exibem como troféu, enquanto outros resolvem esconder e fingir que elas não existem. A merda é o preço da vida.
É esquisito, mas em alguns casos assim como no sucesso, a merda também sobe à cabeça.
Eu era fresco pra comer e minha mãe dizia que comida era questão de costume, que comendo três ou quatro vezes a gente acostumava com o cheiro, com o gosto, com tudo. Nunca me acostumei com merda nenhuma na vida. Nunca quis chafurdar, apesar de muitos me recomendarem desde políticos, médicos, nutricionistas e até padres. São os genocidas da merda.
Tenho muitos vizinhos e meus vizinhos têm muitos cachorros. Todos cagam muito e o cheiro se espalha. Cada latido deles me traz o cheiro de merda. Passo quase de olhos fechados, por não poder fechar as narinas. Prendo a respiração, mas aí me forço a olhar. Tem algum imã na merda que chama mais atenção que qualquer outra coisa. É tão repugnante a visão que não consigo me afastar. Às vezes passo e tem três cocos, às vezes quatro. O máximo que contei foram nove, o que me fez pensar que meus vizinhos colecionam merda, juntam e as exibem como troféu, enquanto outros resolvem esconder e fingir que elas não existem. A merda é o preço da vida.
É esquisito, mas em alguns casos assim como no sucesso, a merda também sobe à cabeça.
15 agosto 2010
juízo II ou o conhecimento
- você sabe o que significa a palavra "prolixo"?
- não.
- você é prolixo?
- não sei.
Esse é um ponto meu: uma pessoa não pode ser aquilo que não conhece. É incapaz de inventar uma maneira de ser sem nome, pelo contrário ela se reinventa a partir do que sabe e conhece. Então, uma pessoa com pouco vocabulário, há de ser uma pessoa mais simples, rústica e óbvia, enquanto que uma pessoa com vasto conhecimento pode ser mais complexa, cheia de nuances e subterfúgios. Claro, tanto pro bem e pro mal. Quem sabe mais, sabe também mentir mais, inventar mais, se aproveitar mais dos outros, quem sabe menos faz isso na medida em que é capaz, na medida exata de suas necessidades sem nome.
Vidas Secas do Graciliano Ramos tem isso. A personagem é descrita como pessoa de poucas palavras, que emite grande parte de seus sons em ruídos, e portanto, aprendeu a pensar assim. É simples como seu cão baleia.
Digo isso para completar o comentário sobre o filme "Juízo". Julgam crianças e adolescentes por roubo, furto, homicídio qualificado. E elas não são nada disso, elas sabem que roubaram ou mataram e isso é feio, mas não têm e não podem ter a mínima noção do impacto disso, portanto têm menos responsabilidade. Quando elas dizem: "meu amigo me chamou pra roubar uma bicicleta e eu fui", dizem a verdade. É o tipo de pensamento simples de quem quer uma bicicleta e só. Não há esse problema da cadeia, da prisão de estar erado, da religião. A vida dela, em geral, já é uma merda mesmo, com uma bicicleta fica um pouco melhor, na cadeia um pouco pior.
Só há consciência quando pode ter consequência. Li num conto do Rubem Fonseca que a maioria das menores estupradas gostaram do ato sexual e quiseram repetir por vontade própria, e só se deram conta do horror e do absurdo quando foram pegas em flagrante, ou quando descobriram o que significava aquele ato. Pode ser verdade, não sei, mas fica o registro.
Não defendo ninguém, só tento ampliar os pontos de vista a partir dos elementos que tenho. Só quem sabe um pouco de lei pode escapar delas. Acho que é isso: quando a gente não conhece, só nos resta arriscar.
- não.
- você é prolixo?
- não sei.
Vidas Secas do Graciliano Ramos tem isso. A personagem é descrita como pessoa de poucas palavras, que emite grande parte de seus sons em ruídos, e portanto, aprendeu a pensar assim. É simples como seu cão baleia.
Digo isso para completar o comentário sobre o filme "Juízo". Julgam crianças e adolescentes por roubo, furto, homicídio qualificado. E elas não são nada disso, elas sabem que roubaram ou mataram e isso é feio, mas não têm e não podem ter a mínima noção do impacto disso, portanto têm menos responsabilidade. Quando elas dizem: "meu amigo me chamou pra roubar uma bicicleta e eu fui", dizem a verdade. É o tipo de pensamento simples de quem quer uma bicicleta e só. Não há esse problema da cadeia, da prisão de estar erado, da religião. A vida dela, em geral, já é uma merda mesmo, com uma bicicleta fica um pouco melhor, na cadeia um pouco pior.
Só há consciência quando pode ter consequência. Li num conto do Rubem Fonseca que a maioria das menores estupradas gostaram do ato sexual e quiseram repetir por vontade própria, e só se deram conta do horror e do absurdo quando foram pegas em flagrante, ou quando descobriram o que significava aquele ato. Pode ser verdade, não sei, mas fica o registro.
Não defendo ninguém, só tento ampliar os pontos de vista a partir dos elementos que tenho. Só quem sabe um pouco de lei pode escapar delas. Acho que é isso: quando a gente não conhece, só nos resta arriscar.
12 agosto 2010
Juízo
Destaco do filme o papel da juíza que funcionava como uma espécie de advogado do diabo, ou seja, apontava o lado bom das coisas, não para que tudo melhorasse, mas principalmente para humilhar o coitado do delinqüente. A perspectiva dela, de quem teve uma boa família, condições de estudar em lugares bacanas e pintar o cabelo de loiro em salões caros, dando a ela um aspecto de advogada de filme pornô, não permite perceber que aquele sujeito de 16 anos não tem nada na vida dele pra prezar. A relação dele com a família, com Deus, com a escola, com os amigos não é por afeto, é uma relação de dependência, de submissão e lutas de poder. Ele só conhece o mundo por micro-lutas de poder, e assim, num determinado momento usa isso contra aqueles que sempre lhe massacraram, claro, de maneira errada que merece punição. É ruim ver que um rapaz que nunca teve seus direitos preservados tenha que pagar pelos erros que cometeu: quem não conhece os direitos, não pode valorizar os deveres.
O documentário acaba por ser um “mais do mesmo”. Tudo que já se viu sendo repetido, torcendo para que na reiteração se veja o absurdo e assim sendo, alguma coisa possa acontecer. Ok, não acredito nisso, pouca gente ali na exibição estava com vontade de debater o assunto: a maioria estava atrás de horas complementares, outras, sei lá porquê. A verdade é que hoje em dia não há nada que nos motive realmente.
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09 agosto 2010
antenor em 1 minuto
O conto "o homem de cabeça de papelão" de João do Rio em 1 minuto:
Essa história é uma palhaçada: Antenor é um menino mimadinho, riquinho e chatinho que acha que fala o que quer, quando quer. Inconveniente, sabe? A mãe estranha, mas diz que ele é bom, passa a mão na cabeça, então dá nisso: fica sem limites achando que pode tudo, que é diferente. Quando fica jovem não quer ser malandrão, pelo contrário, resolve trabalhar, e muito até. Daí dizem pro melhor dele que ele devia ser bacharel e fazer um concurso, mas ele não! Quer ser pedreiro, metalúrgico, ou seja, é um comunista daqueles. Deve até usar umas drogas, aah deve. Daí ele se apaixona pela filha da lavadeira que ÓBVIO não quer nada com ele: um cara que não tem amigos, que só fala coisa que ninguém entende, é comunista! Daí ele fica na bad do coração e vai andar pela rua, quando acha uma loja de um cara que conserta cabeça e relógio. Bom, na verdade, o cara é o capeta procurando adeptos pra sua trupe. Antenor entra, deixa a cabeça dele lá pra ele consertar e ganha uma de papelão! Ufa! Daí sim ele se ajusta: fica rico, reconhecido, vira ministro, poderoso e dá um pé na bunda da filha da lavadeira que agora quis ele, obviamente. Esse capeta é até gente boa! Até que um dia ele passa pela loja do capeta que tenta devolver a cabeça dele, dizendo que é perfeita, cabeça de fodão. Ele nega, claro, a vida toda boa do jeito que ta. Pelo menos agora ele foi esperto. É...essa história é bacana. Eu gosto desse final. Obrigado.
Essa história é uma palhaçada: Antenor é um menino mimadinho, riquinho e chatinho que acha que fala o que quer, quando quer. Inconveniente, sabe? A mãe estranha, mas diz que ele é bom, passa a mão na cabeça, então dá nisso: fica sem limites achando que pode tudo, que é diferente. Quando fica jovem não quer ser malandrão, pelo contrário, resolve trabalhar, e muito até. Daí dizem pro melhor dele que ele devia ser bacharel e fazer um concurso, mas ele não! Quer ser pedreiro, metalúrgico, ou seja, é um comunista daqueles. Deve até usar umas drogas, aah deve. Daí ele se apaixona pela filha da lavadeira que ÓBVIO não quer nada com ele: um cara que não tem amigos, que só fala coisa que ninguém entende, é comunista! Daí ele fica na bad do coração e vai andar pela rua, quando acha uma loja de um cara que conserta cabeça e relógio. Bom, na verdade, o cara é o capeta procurando adeptos pra sua trupe. Antenor entra, deixa a cabeça dele lá pra ele consertar e ganha uma de papelão! Ufa! Daí sim ele se ajusta: fica rico, reconhecido, vira ministro, poderoso e dá um pé na bunda da filha da lavadeira que agora quis ele, obviamente. Esse capeta é até gente boa! Até que um dia ele passa pela loja do capeta que tenta devolver a cabeça dele, dizendo que é perfeita, cabeça de fodão. Ele nega, claro, a vida toda boa do jeito que ta. Pelo menos agora ele foi esperto. É...essa história é bacana. Eu gosto desse final. Obrigado.
06 agosto 2010
bentinho II - ficções de amor
Acho que entendi o que estava tentando dizer no post anterior, vamos lá. Quando estamos apaixonados, ou melhor, na situação da paixão (ou amor, enfim, a denominação pode ser qualquer uma apesar das diferenças)todos nós fomos impelidos pela tradição, pela igreja, pelos meios de comunicação, pela arte e até pela nossa natureza, a criar uma espécie de "ficção de amor", ou seja, criamos em nossa cabeça uma história verossímil onde em algum momento o mocinho encontra a mocinha, eles se conhecem, se gostam, tem um primeiro contato, repetem isso, o caso permanece, e isso se prolonga. Essa ficção de amor nada mais é que a construção de um sentido para o sentimento, ou seja, uma tentativa desesperada de classificar o que se sente dentro de uma ordem numérico-afetiva. Nesse sentido, vestimos a carapuça e cumprimos todos os protocolos que nossa cabeça nos faz imaginar como deve ser uma "bela ficção de amor". O caso é que: toda história de amor deve ter o antagonista. É aí que entra a situação do Bentinho, ele precisava completar o ciclo, chegar ao fim da sua ficção. Esse antagonista pode ser um fraco, um idiota, o que for, quanto pior melhor, na verdade. O resto é conhecido por todos nós. No entanto, na prática toda essa ficção é a coisa mais bonita de nossa vida e em pouco tempo ela toma tudo, como toma a mim, a você, como tomou Bentinho. Bom, de novo, eu só acho que entendi, então pode haver uma parte 3, quem sabe?!
02 agosto 2010
bentinho
Volta e meia aparece na minha cabeça a figura do Bentinho. Dom Casmurro é um livro que muito me fascina e me deixa assustado quanto aos fatos da vida. Essa questão de se Capitu traiu ou não tem muito pouco a acrescentar a discussão ou análise da obra, mas a figura do Bentinho tem muito! A verdade é que não importa o que Capitu fez, ela pode ter traído como pode não ter traído e a diferença é nenhuma. Bentinho tinha motivos para acreditar no que "via" assim como Capitu tinha motivos para dizer que aquilo era maluquice. O que importa é a subjetividade do Bentinho e ele tem uma profundidade tão grande que todas as questões são resolvidas, dissolvidas e vivem na cabeça dele. Parei de pensar aqui (começou o top five do cqc), qualquer coisa volto e escrevo mais.
28 julho 2010
27 julho 2010
Antenor - parte 1 - o projeto e as caixas
Um projeto teatral, ou mais que isso, um projeto também teatral. Antenor é o personagem principal do conto "o homem da cabeça de papelão" de João do Rio. O conto que flerta com o fantástico está sendo adaptado para os palcos por mim e por Leandro Romano e para os vídeos pro Francisco Ferraz, que filma ensaios e discussões. No fim, uma obra que abrangirá cena e tela, palco e internet, cinema e presença.
22 julho 2010
meios de transporte
- o que leva uma pessoa a...
- ÔNIBUS?
- nãão, po! Aaaa...
- TREM?
- não, espera. Eu queria saber mesmo, assim, tô só pensando, o que leva uma pessoa a...
- MOTO, CLARO!
- NÃO. Deixa eu falar! To querendo saber o que leva uma pessoa a...a...se matar...
- Aaaah sim, mas isso é óbvio: uma arma!
- ÔNIBUS?
- nãão, po! Aaaa...
- TREM?
- não, espera. Eu queria saber mesmo, assim, tô só pensando, o que leva uma pessoa a...
- MOTO, CLARO!
- NÃO. Deixa eu falar! To querendo saber o que leva uma pessoa a...a...se matar...
- Aaaah sim, mas isso é óbvio: uma arma!
21 julho 2010
isso.
Não me sinto diferente de ninguém. Nem igual. Não há tal coisa no mundo, cada um é e não entendo absolutamente nada disso. Há no latim o gênero neutro e isso sempre me fascinou, fazemos dualidades o tempo todo e o gênero neutro burla isso, é a ironia, uma negativa afirmativa, a andogrenia, a indistinção. Escolhe o que tu quer aí, camarada, escolhe. Vai querer um, dois ou ambos? She, he ou it? Vai querer um saco ou uma saca? Uma girafa ou uama girafa? É macho ou fêmea? Decide o que tu quer, maluco chato. Esse ou essa?
- Isso.
- Isso.
18 julho 2010
justiça
às vezes penso na justiça penso em ser justo mas acho injusto que justo eu tão pequeno e incapaz tão pouco tão em paz saia do meu canto e sozinho passe dias pensando e pensando na justiça que devia ser justa não pra mim que aceito sua ausência mas justa com outros carentes de justiça sofridos demais
17 julho 2010
kubrick e a guerra
Semana passada resolvei baixar alguns filmes do Kubrick. Assisti, então, essa semana dois filmes dele de guerra, os dois me impressionaram bastante, então resolvi falar um pouco de cada um deles.
O primeiro foi "Nascido para matar", filme de 1987.
O filme começa num treinamento de fuzileiros que vão para a guerra do Vietnã. Vendo eu aquele cenário típico de Kubrick, mas com aqueles espaços conhecidos de filme de guerra, comecei por esperar o que tem, em geral, em todos eles. Me enganei. Kubrick usa de um ultrarrealismo, um exagero quase mórbido das ações e dos tipos de personalidades que devem ser neutralizadas, que nos leva a perceber o absurdo que é um treinamento de guerra. Nos leva a perceber todos os erros que vimos no Vietnã. Consegui perceber claramente o que é tratar o homem como estatística, mas não só o inimigo que "comunista" deve ser liquidado, mas também os seus. Não existem homens, não existe humanidade e sociedade, somente uma nação que deve ser honrada até o fim, até a morte. Essa lógica que me parece totalmente tresloucada é a lógica deles. Será ainda a lógica vigente? Aos poucos as personagens vão enlouquecendo de um modo típico, completamente diferente, mas enlouquecendo, perdendo a capacidade de perceber as coisas e, cada vez mais pragmaticamente levados a analisar os fatos. No fim...bom, parece que não tem fim.
O segundo foi "Glória feita de sangue", filme anterior ao primeiro que citei, de 1957:

Nesse filme a questão é do poder. Uma idéia, um desafio, uma oferta de posto é o mote para que um General resolva que os soldados de uma trincheira francesa invadam o chamado "formigueiro alemão". E um exército cansado e abatido depois de 2 anos naquela situação que não sai do lugar não acredita que é possível, nem seus sargentos ou coronéis, somente o General, que passa as ordens e todos acatam. Enfim, a morte de muitos e o recuo de alguns que são julgados por covardia e escolhidos aleatoriamente para o fuzilamento por não honrar a pátria.
Num determinado momento do fracassado ataque o Genaral manda que a artilharia mate seus próprios soldados que recuavam, como se a derrota deles, A MORTE DELES fosse a derrota do general. Conto a sinopse porque só isso já me parece absurdo, todo esse jogo de poder, essa impossibilidade de contestação de explicação, essa completa ausência de liberdade, impedindo que cada um seja capaz de analisar e julgar, faz com que ninguém, nem os poderosos sejam capazes de analisar e julgar. E no fim...mesmo que algumas coisas mudem, o fim é sempre fim. Fim após mais muitas mortes.
Era só isso mesmo que eu queria dizer.
O primeiro foi "Nascido para matar", filme de 1987.
O segundo foi "Glória feita de sangue", filme anterior ao primeiro que citei, de 1957:
Nesse filme a questão é do poder. Uma idéia, um desafio, uma oferta de posto é o mote para que um General resolva que os soldados de uma trincheira francesa invadam o chamado "formigueiro alemão". E um exército cansado e abatido depois de 2 anos naquela situação que não sai do lugar não acredita que é possível, nem seus sargentos ou coronéis, somente o General, que passa as ordens e todos acatam. Enfim, a morte de muitos e o recuo de alguns que são julgados por covardia e escolhidos aleatoriamente para o fuzilamento por não honrar a pátria.
Num determinado momento do fracassado ataque o Genaral manda que a artilharia mate seus próprios soldados que recuavam, como se a derrota deles, A MORTE DELES fosse a derrota do general. Conto a sinopse porque só isso já me parece absurdo, todo esse jogo de poder, essa impossibilidade de contestação de explicação, essa completa ausência de liberdade, impedindo que cada um seja capaz de analisar e julgar, faz com que ninguém, nem os poderosos sejam capazes de analisar e julgar. E no fim...mesmo que algumas coisas mudem, o fim é sempre fim. Fim após mais muitas mortes.
Era só isso mesmo que eu queria dizer.
16 julho 2010
2:52
Quando ela entristece o mundo parece de seda, parece ruir. Quando eu penso nela triste pareço pálido, me sinto daltônico e antigo, como se um sentimento de outra vida antiga me tomasse. É que as palavras são como lágrimas: escorrem pelo corpo e gotejam do ar pro chão, como se fosse trágica a viagem de toda palavra, como se só alguns silêncios soubessem dizer. Porque é num abraço que a vida se completa, que a vida começa, que as coisas parecem fazer sentido e é longe, em um medo, numa vergonha ou numa tradição qualquer, que as distâncias aumentam, então é a regra: quanto mais perto, mais perto. Porque gostar, talvez, seja entender que a saudade e a distância, se medem pelo pensamento...pensamento de quem se deixar levar.
14 julho 2010
morremos porque esquecemos que vamos morrer
Algumas coisas na vida eu não consigo aceitar. (e ninguém deveria, na verdade, a não ser por essa enorme quantidade de igrejas e livros de auto-ajuda que fazem você aceitar quase qualquer coisa e principalmente, ficam incentivando esperanças inúteis para que tudo se mantenha como está.) A gente passa quase a vida toda tentando, se esforçando de coração, pra esquecer que vamos morrer, pra esquecer que o tempo passa e vai nos corroendo e mais dia ou menos dia toda nossa dignidade será reduzida à pouca coisa, porque a hora da morte é hora que mais vamos nos expor e mais sermos nós mesmos. Me irrita saber que, apesar de tudo isso, de toda tentativa de esquecer que vamos morrer, às vezes acabamos morrendo por distração: porque esquecemos de botar o cinto de segurança, esquecemos de tomar um remédio, de olhar pros lados antes de atravessar a rua, de ir ao médico naquele dia marcado, de se proteger na hora do sexo, de não mexer com objetos pontudos, de beber menos quando vamos dirigir. Morremos porque esquecemos que vamos morrer e isso eu não consigo aceitar. Repito: não consigo aceitar que às vezes morremos porque esquecemos que vamos morrer...E esse texto fica assim, porque algumas perplexidades não tem explicação e não merecem mais que algumas linhas.
13 julho 2010
unha encravada
Unha encravada é uma excelente metáfora pra vida. Pra quem não tem, explico: é quando a unha nos cantos do dedo cresce pra dentro da carne e vai cada vez mais forçando, mesmo que não haja espaço. E a carne, um tanto quanto sólida mas frágil tenta a todo custo impedir que aquele ser estranho entre. Então o dedo começa a ficar vermelho, inflamar, doer, latejar e a gente que, numa vida corrida às vezes esquece de cortar as unhas, tende a futucar com a mão para dar uma leve sensação de descanso, o que acaba por ser, literalmente, um tiro no pé porque começa a inflamar mais ainda e sangrar. Por fim, com uma dor absurda, a gente resolve cortar aquela unha, trabalho que deve ser feito por profissionais que precisam cortar com cuidado, numa forma de quadrado para que a unha cresça de maneira igual. Caso seja em curva uma parte vai ficar pontuda, entrar antes na carne e vai causar mais danos, problemas, sofrimentos.
Acha que acabou? Que nada, quando a unha for retirada, vai ficar um buraco, uma vala, um poço e todo aquele espaço que a unha tinha ganhado da carne vai ficar à mostra e a carne ainda vermelha vai tentar permitir que o sangue circule e começar a relaxar, não sem antes ficar por dias e dias latejando. O buraco lateja, a ausência lateja e demora bastante a curar. Quando cura é por pouco tempo, pois a unha já está a crescer novamente.
Pensem e me digam num corresponde disso nos sentimentos. Eu tenho um escolhido...
09 julho 2010
Eliminando a seleção
Tive vontade de comentar da eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Resolvi faze-lo algum tempo depois da derrota para que as paixões ou as subjetividades não interfiram no que eu escreve, muito embora tudo que eu vá escrever será dito pela paixão e principalmente pela subjetividade, porque só isso que o futebol é.
Tá ok, talvez não, existem fatores objetivos no futebol e vamos a eles: A seleção era limitada tecnicamente, o técnico era mais teimoso burro empacado, a CBF como um todo não se importa muito com futebol, tipo igrejas com nossa alma, o Lúcio é um baita líder, mas forjado, um líder meio sem identidade com o país, um bom líder para qualquer seleção, o que não faz dele um líder pra seleção brasileira.
E dizem os otimistas: "mas os resultados eram excelentes". Quais?, pergunto eu. O bom nível dos jogadores brasileiros faz com que eles estejam "acima da média" de muitas outras seleções, então não importa em que torneio estejam, serão favoritos e chegarão perto do título, o que não significa que seja um bom time, não significa nada. Esse "acima da média" acaba por mascarar um fato: ano a ano a seleção brasileira se enfraquece! E de 90 pra cá vem numa decadência sem fim, principalmente depois do filme da era dos craques da linha Careca-Romário-Ronaldo...
No entanto, a seleção atual enquanto sabia que não jogava bem, enquanto se percebeu limitada, conseguiu resultados. Os cabeças-de-área ficavam ali na deles, dando toques pro lado e pro meia (sempre dependendo do Kaká) que puxava um contra-ataque. A partir do momento, e na Copa isso se deu contra o Chile, que eles perceberem que, sim, eram candidatos ao título, tudo foi pelo buraco. O primeiro tempo com a Holanda foi a gota d´água. YES, WE CAN, pensaram no melhor estilo Joel Santana, e foi o fim do Brasil na Copa do Mundo.
A próxima é no Brasil e 4 anos antes já me cheira a fracasso, mas por favor, outra Maracanazzo vai ser dose...
08 julho 2010
bruno
Abraçado com os amigos fazia uma oração. Pedia proteção, pedia conforto, pedia que não importa onde fosse, pudesse sentir a Sua presença agindo na sua vida. Pedia que premiasse seus esforços e de seus colegas. Agradecia pela chance que teve na vida, pelos amigos, pela carreira que até agora tinha sido de sucesso, agradecia a família que tinha e agradecia por tudo que tinha, apesar de não saber nomear. Olhou para o túnel e viu uma luz ao longe, era para lá que iria, milhares de pessoas o esperariam, ali foram para ve-lo, sentir sua força, seus saltos, piruetas.
Terminada a oração, soltou-se do abraço, se abaixou e ajeitou as meias, a chuteira; de pé deu alguns saltos para se manter aquecido, vestiu as luvas, fez o sinal da cruz e num sinal do capitão correu na direção da luz. Viu um mar preto e vermelho gritando seu nome, fez cara de mau, depois sorriu, agradeceu, pensou que hoje era seu dia, que tudo correria bem. Colocou-se debaixo das traves, ajoelhou uma última vez e parou de pensar. O resto era com seu corpo, o resto era com todos, o resto era show, era espetáculo.
Tudo correu bem até o apito final. Foi a última vez que foi feliz, a partir dali nada mais aconteceria, a partir dali a vida era lá fora, e ali sua vida acabou. Seu último momento de vida foi quando olhou pela última vez aquela multidão rubro-negra. O fim da vida chegou, mas a vida ainda durará muitos anos. Porque não é pela oração, pelo que se diz, pelo que se faz: é por tudo que a gente sempre foi e nunca poderá deixar de ser que se paga.
05 julho 2010
segunda
Se é verdade, como eu disse antes, que só se escreve no sofrimento, então hoje nada que eu diga pode ser poesia, nada pode fazer sentido, nada poderá ser feito. Se é verdade que só se escreve no sofrimento, então hoje tudo que eu escrever será poesia de segunda. Segunda-feira...
03 julho 2010
Auschwitz
como fazer o poesia depois de Auschwitz?, disse Adorno
como fazer poesia sem ser corno?, digo eu!
como falar sem dor
como falar sem a ingratidão, a traição
o sofrimento, o corte, a ferida, a morte?
Como fazer poesia sem Adorno,
como fazer poesia sem a dor no coração?
como as crianças que não fazem poesia
e nuas, sem adornos, passeiam pelo mundo
a viver e quando desenham ou escrevem
é tal qual aquarela, exercício do imaginário
porque a poesia não é inocente
nem ingênua
nem pode ser
depois de Auschwitz.
como fazer poesia sem ser corno?, digo eu!
como falar sem dor
como falar sem a ingratidão, a traição
o sofrimento, o corte, a ferida, a morte?
Como fazer poesia sem Adorno,
como fazer poesia sem a dor no coração?
como as crianças que não fazem poesia
e nuas, sem adornos, passeiam pelo mundo
a viver e quando desenham ou escrevem
é tal qual aquarela, exercício do imaginário
porque a poesia não é inocente
nem ingênua
nem pode ser
depois de Auschwitz.
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