Era um comediante famoso. Onde estava era reconhecido não só pelo rosto que aparecia nas revistas e televisões, assim como pela capacidade natural de fazer rir quem quer que fosse, seja com um trejeito no olhar, nos músculos da face ou até no timing perfeito dos comentários. Sabia piadas, mas era tão bom de humor que abrira mão de conta-las há muito tempo atrás.
Era casado e sua esposa vivia uma espécie de paraíso porque conseguia ter o homem mais doce e querido do país a seu lado e ao mesmo tempo ver seu bom humor sendo jogado ao mundo do mesmo jeito que ela via, em segredo, em casa. Ela tinha acesso irrestrito àquilo que os outros pagavam.
Um defeito: não conseguia não agradar. E tornava-se infiel. E quando infiel, triste, por dentro, tornava-se beberrão. Em pouco tempo tornou-se alcoólatra. Com medo de perder fama e mulher foi aos alcoólicos anônimos.
- Olá, gente! Eu tenho um problema! Eu sou alcoólatra.
- HAHAHAHAHAH!
- Eu preciso de ajuda.
- Owwwwwwn.
- Preciso me curar disso. Sou casado e estou para perder minha mulher.
- Aaaaaaaaaah...que pena! É tão lindo...Fofo. Vamos ajudá-lo.
Correu pra rua. Encheu a cara, voltou pra casa, espancou a mulher, acabou com seu programa de TV, desistiu da fama, comprou um quiosque e hoje é o melhor vendedor de cocos do litoral baiano.
09 junho 2012
alcoólico anônimo.
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05 junho 2012
shuffle
Fala um número, sei lá, duzentos. Entre zero e duzentos há cento e noventa e nove outros números. Ser duzentos é contar com toda a fila de que lentamente de um a um se compõe o que é duzentos. Supõe-se então que você escreva no google: “sorteador”, aí ele abre uma página pra você ali, bonita, e você pode sortear o número que quiser. Aí você escreve duzentos e faz o sorteiro pra ver qual número sai. O resultado é trinta e oito. Entre zero e duzentos do dia cinco de junho de 2012, às 2:43 da manhã o site sorteador.com.br entre números de zero a duzentos escolheu o número oito. E aí você resolve ir clicando. 33, 36, 104, 180, 186, 141. Aí você pensa: ah, não, duzentos é um número alto, de um a vinte em quantas chances um número vai se repetir? E você vai lá onde está duzentos e tira um zero. E bing: 18, 10, 13, 18! Na quarta, na quarta chance o 18 se repetiu. Faz isso de novo, faz, faz isso pra sempre. Shuffle.
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31 maio 2012
não fazer nada
Tem dias que eu não quero fazer nada. É difícil me fazer entender. Assim que acordei e vi que o tempo estava meio nublado pensei na hora que hoje não gostaria nem de sair da cama. Estava passando um jogo de tênis bacana e fiquei assistindo, durou quase 6 horas e, nos intervalos, eu entrava na internet pra ouvir um bocado do que as outras pessoas tinham pra dizer: quase sempre nada demais, quase sempre algo desiteresssante, quase sempre como sempre.
Descobri, então, que vou ter que trabalhar sábado de manhã e que por conta disso não vou poder beber amanhã, sexta. Pensei na hora que hoje era o dia de encher a cara. Maravilha, não fazer nada durante o dia e encher a cara da noite. Aí, na hora do almoço minha mãe disse pra irmos ao banco para ver o problema que ando tendo com o cartão. Pensei que a desculpa de não fazer nada poderia me livrar disso. Falei: “po mãe, hoje eu queria ficar em casa, descansar, quase não aproveito aqui.” Ela relutou, mas aceitou. E fazer nada vai ser o que farei hoje. Troquei encher a cara por não ir ao banco. Fico em casa e, se der, não vou tomar banho. Estou com preguiça. Estava lendo um bocado e agora vou ver um filme. Quinta-feira como deve ser.
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30 maio 2012
24 maio 2012
taco
Dois
caras em um foco no canto da cena.
1 –
Eu não vou falar isso!
2 –
E por que não?
1 –
Porque não. Porque só querem que eu fale o que a tradição manda,
mas sabe em que a tradição manda? Em quem deixa que a tradição
mande e eu não quero deixar que a tradição me mande, então não
vou falar o que a tradição manda.
1 –
Você anda com uns modos muito esquisitos de falar.
2 –
É o que estava escrito!
1 –
Então você assume que você fala o que está escrito.
2 –
Sim.
1 –
Tudo?
2 –
Tudo.
1 –
E isso agora estava escrito?
2 –
Estava sim.
1 –
Não estava não.
2 –
Estava sim.
1 –
Como você tem tanta certeza?
2 –
Porque eu só falo o que estava escrito. Você sim?
1 –
Eu também, falo exatamente o que estava escrito.
2 –
E se a gente...é...tentasse, uma só vez não falar o que estava
escrito?
1 –
Será que a gente consegue?
2 –
Não sei.
O
1 se afasta. Vai até a outra ponta do palco.
1 –
Sabe como poderíamos fazer?
2 –
Como?
1 –
Falar algo assim, repentino que vem a cabeça.
2 –
CHOQUE!
1 –
O que?
2 –
É o que me veio à cabeça: choque.
1 –
Estava no texto?
2 –
Não sei, acho que sim.
1 –
Precisamos enfrentar isso.
Agora
o 2 troca com o 1 e vai até a ponta do palco.
2 – Tenta você.
1 – O que?
2 – Falar a primeira coisa que...
1 – MOSTARDA.
2 – Oi?
1 – Falei.
2 – O que?
1 – A primeira coisa que vem a cabeça.
2 – E é mostarda?
1 – É.
2 – Por que?
1 – Não sei. Não posso dizer. Estava no texto?
2 – Acho que sim. Pelo que me lembro sim.
Os
dois caminham. Pensam.
1 –
Acho que sei o que a gente precisa.
2 –
O que?
1 –
Esquecer o texto decorado.
2 –
Mas como?
1 –
Sei lá. Perder a memória. Um bate na cabeça do outro e puf,
esquece.
2 –
Será que funciona?
1 –
Podemos tentar.
2 –
Mas calma...será que isso estava no texto?
1 –
Acho que sim, mas talvez dê certo.
Os
dois saem, cada um para um lado. Voltam cada um com um taco de
baseball. Batem um na cabeça do outro, ao mesmo tempo. Os dois caem.
Levantam. Se olham, estão zonzos, tentam falar alguma coisa. Não se
lembram. Escuridão.
23 maio 2012
para o fluminense, nesse dia tão triste
Fluminense,
ó Fluminense da heróica torcida,
do time de guerreiro,
das imensas batalhas de gladiadores,
da torcida mais colorida do brasil
mas que ninguém vê
porque tem pó de arroz espalhado por todo o canto.
Ó time, ó paixão
torcida que tem gripe
porque torce pro flu.
Quantas batalhas foram perdidas em sua história?
E quantas mais vão se repetir?
Guarde aquele ódio para o rival filhote rubro-negro que se tornou tão maior
tão gigante, tão invejável e tão imbatível.
Ó tricolor
aprenda a derrota
aprenda.
E como diria um ídolo de se passado,
descansa,
“agora vai brincar no brasileirão.”
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17 maio 2012
se um dia quiser me conhecer
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha cidade
e passe uma tarde ou um mês
pelas esculturas frias
pelos jardins molhados e construções antigas
ou passeie pelo caos do centro
e veja a calma dos livros nas estantes das poucas livrarias.
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha rua
e veja como ela é feia, seca e suja
e como cai aos pedaços a fábrica
que alguns anos atrás, não muitos,
enchia de orgulho e tecido
qualquer um que morava por ali.
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha casa
veja o jardim que meu pai decora
a piscina quase nunca limpa
a varanda gelada e aconchegante
e a vista imensa das montanhas.
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
entre no meu quarto
sente na minha cama
liste os meus livros
tateie meu violão
leia meus papéis
ouça minhas músicas
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
depois disso tudo vá embora
passe uma tarde ou um mês sem mim
esqueça de tudo que viu
das esculturas, das fábricas
da piscina, jardim e violão.
se um dia quiser me conhecer
venha e vá.
se voltar, voltou.
se for, foi.
e de verdade o quiser
venha até minha cidade
e passe uma tarde ou um mês
pelas esculturas frias
pelos jardins molhados e construções antigas
ou passeie pelo caos do centro
e veja a calma dos livros nas estantes das poucas livrarias.
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha rua
e veja como ela é feia, seca e suja
e como cai aos pedaços a fábrica
que alguns anos atrás, não muitos,
enchia de orgulho e tecido
qualquer um que morava por ali.
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha casa
veja o jardim que meu pai decora
a piscina quase nunca limpa
a varanda gelada e aconchegante
e a vista imensa das montanhas.
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
entre no meu quarto
sente na minha cama
liste os meus livros
tateie meu violão
leia meus papéis
ouça minhas músicas
se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
depois disso tudo vá embora
passe uma tarde ou um mês sem mim
esqueça de tudo que viu
das esculturas, das fábricas
da piscina, jardim e violão.
se um dia quiser me conhecer
venha e vá.
se voltar, voltou.
se for, foi.
11 maio 2012
pós-crise estomacal
Quando a gente fica um tempo sem um abraço, sem uma palavra mais doce, sem uma gentileza, sem um gesto carinhoso, fica na pele aquela coisa, aquele ranço, como se, aos poucos, os braços fossem enferrujando e perdendo a elasticidade, assim como se as palavras, sufocadas, ficassem mais duras e densas, e como se os gestos se tornassem mais pesados e frios.
É que o corpo se desacostuma ao outro, ou melhor se acostuma ao não-outro. Se perde em si mesmo, por dentro de si e tudo que se percebe ou se sente é aquilo que ele mesmo, amputado, não faz. A impossibilidade de nosso corpo em ser livre em relação ao outro faz dele um aleijado, um doente, um menino carente à espera da mãe. E a gente, dono do nosso corpo, vira orfão junto com ele.
Quando se deita, o corpo encontra o colchão. Vê nele uma companhia e um afago que essa noite, mais uma vez, não tem e não vem.
É que o corpo se desacostuma ao outro, ou melhor se acostuma ao não-outro. Se perde em si mesmo, por dentro de si e tudo que se percebe ou se sente é aquilo que ele mesmo, amputado, não faz. A impossibilidade de nosso corpo em ser livre em relação ao outro faz dele um aleijado, um doente, um menino carente à espera da mãe. E a gente, dono do nosso corpo, vira orfão junto com ele.
Quando se deita, o corpo encontra o colchão. Vê nele uma companhia e um afago que essa noite, mais uma vez, não tem e não vem.
09 maio 2012
1
te quero bêbado
me liga sóbria
me quer sempre
eu só agora.
me liga sóbria
me quer sempre
eu só agora.
08 maio 2012
drama dois
em um átimo
Uma moça está sentada em frente a um laptop que está sobre uma mesa. Tem os cabelos pretos, é bonita. Usa uma calça jeans e uma camiseta azul marinho. Tem os braços abaixados na direção do corpo. Fica imóvel por um minuto, dá um suspiro, fica imóvel por mais um minuto. Leva os braços até o laptop, coloca a música “Here comes the sun” dos Beatles. Fica um minuto escutando, com as mãos imóvel sobre o laptop. Ameaça levantar e dançar. Desce as mãos. Observa a tela por um minuto, sobe uma das mãos até a área do mouse, parece que faz um desenho. Desce as mãos. Dá um suspiro. Parece entediada. Coloca um vídeo, olha para a tela e assiste. Ouvimos algumas vozes:
Olá, estou aqui para lembrar que não é preciso olhar o tempo todo para o visor do seu equipamento. Basta observar o vídeo quando eu indicarei o exercício que você deverá realizar. Depois disso, bastará seguir o ritmo da música e a minha voz que guiará através dos números. Avisarei quando você deverá parar, repousar e quando teremos que mudar o exercício. Está pronto, podemos começar?
A moça fecha o vídeo. Abaixa os braços. Espera um minuto, não suspira. Vira de lado, olha para a platéia. Retorna a posição inicial. A cena se repete infinitamente, ou pelo menos, enquanto se achar necessário, alterando-se a canção e a voz.
Uma moça está sentada em frente a um laptop que está sobre uma mesa. Tem os cabelos pretos, é bonita. Usa uma calça jeans e uma camiseta azul marinho. Tem os braços abaixados na direção do corpo. Fica imóvel por um minuto, dá um suspiro, fica imóvel por mais um minuto. Leva os braços até o laptop, coloca a música “Here comes the sun” dos Beatles. Fica um minuto escutando, com as mãos imóvel sobre o laptop. Ameaça levantar e dançar. Desce as mãos. Observa a tela por um minuto, sobe uma das mãos até a área do mouse, parece que faz um desenho. Desce as mãos. Dá um suspiro. Parece entediada. Coloca um vídeo, olha para a tela e assiste. Ouvimos algumas vozes:
Olá, estou aqui para lembrar que não é preciso olhar o tempo todo para o visor do seu equipamento. Basta observar o vídeo quando eu indicarei o exercício que você deverá realizar. Depois disso, bastará seguir o ritmo da música e a minha voz que guiará através dos números. Avisarei quando você deverá parar, repousar e quando teremos que mudar o exercício. Está pronto, podemos começar?
A moça fecha o vídeo. Abaixa os braços. Espera um minuto, não suspira. Vira de lado, olha para a platéia. Retorna a posição inicial. A cena se repete infinitamente, ou pelo menos, enquanto se achar necessário, alterando-se a canção e a voz.
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teatro
03 maio 2012
na aula 2
vou fazendo poesia na aula
como se fosse um grande poeta.
de tedio. nunca de poesia
que se faz poesia.
ela só é tal quando pronta.
antes é nada.
inclusive, agora, ela ainda não é.
pode até ser sendo
até que chega o último ponto
e ela será.
é.
foi.
como se fosse um grande poeta.
de tedio. nunca de poesia
que se faz poesia.
ela só é tal quando pronta.
antes é nada.
inclusive, agora, ela ainda não é.
pode até ser sendo
até que chega o último ponto
e ela será.
é.
foi.
na aula
02 maio 2012
DRAMA
em um átimo
Um ator gordo e careca está sentado em uma cadeira no canto esquerdo do palco. Chora por 5 minutos. Interrompe-se, toma Ar por 30 segundos. Chora por mais 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 1 minuto. Lê:
Venho por meio desta informar que a diligência que me levava a crer que meus fins justificavam meus meios caíram por água abaixo quando recorri a uma opção não muito didática e justa de aplicar meus métodos de utilização e transformação da plataforma que usávamos outrora enquanto aquilo que era uno podia ser considerado duplo. E que, por conta disso, me sinto profundamente movido a transformar meu gesto e me redimir de qualquer tipo de contratempo que possa vir a ter causado em sua subjetividade, inatividade, inoquidade e inexoralibidade. Sem mais, despeço-me com os mais afetuosos acenos à distância.
Chora por 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 30 segundos. Chora por mais 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 1 minuto. Escuridão.
Um ator gordo e careca está sentado em uma cadeira no canto esquerdo do palco. Chora por 5 minutos. Interrompe-se, toma Ar por 30 segundos. Chora por mais 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 1 minuto. Lê:
Venho por meio desta informar que a diligência que me levava a crer que meus fins justificavam meus meios caíram por água abaixo quando recorri a uma opção não muito didática e justa de aplicar meus métodos de utilização e transformação da plataforma que usávamos outrora enquanto aquilo que era uno podia ser considerado duplo. E que, por conta disso, me sinto profundamente movido a transformar meu gesto e me redimir de qualquer tipo de contratempo que possa vir a ter causado em sua subjetividade, inatividade, inoquidade e inexoralibidade. Sem mais, despeço-me com os mais afetuosos acenos à distância.
Chora por 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 30 segundos. Chora por mais 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 1 minuto. Escuridão.
01 maio 2012
cometa
Tinha o impulso criativo de um cometa, mas tinha também o grande vício da preguiça. Enquanto era praticamente incapaz de se enamorar (pelo menos era isso que achava de si) desperdiçava sem palavras aquele mundo que construía na cabeça. A verdade inexorável - essa que ele sabia apenas como uma leve intuição - é que aprendera a se preservar, não se sabotando, mas se adiando. Adiar e se adiar era a melhor maneira de burlar a lógica potencialmente arrebatadora que lhe habitava. Sua casa não era de cores nem tinha efeitos psicodélicos: era quase vazia e pouca coisa circulava por lá, mas ele sabia que assim que entrasse na roda - hamster de si próprio - teria que inevitavelmente rodar e girar e correr. Então a casa que ainda não era gaiola servia apenas de albergue, de habitação provisória e, acho que somente por isso, gentil.
Até que chega um impulso criativo como um cometa e quer forçar que ele viva o plano, amadureça o fruto e entorpeça si próprio com aquilo que é sua missão. Missão é o caralho, ele diz. Senta na cama, opta pela preguiça, inventando pra si próprio que a luz fraca lhe dá sono. Desiste. Nunca foi tão forte esse rapaz.
Até que chega um impulso criativo como um cometa e quer forçar que ele viva o plano, amadureça o fruto e entorpeça si próprio com aquilo que é sua missão. Missão é o caralho, ele diz. Senta na cama, opta pela preguiça, inventando pra si próprio que a luz fraca lhe dá sono. Desiste. Nunca foi tão forte esse rapaz.
25 abril 2012
a caixinha
A vida é uma caixinha de surpresas, dizem.
e eu beijo na pele a tragédia disso: a vida é uma caixa, uma baixa, uma prisão.
as surpresas não surpreendem porque não saem da caixa, caixinha de vida baixa.
sobra-nos a repetição:
a vida
é uma
caixinha de
surpresas.
torcendo pra que o óbvio ainda surpreenda
e que o inesperado aconteça
sabendo que, antes que amanheça,
é preciso dormir,
é preciso acordar,
e saber dormir e acordar.
saber repartir entre a vida e o sonho
os nossos desejos tristonhos
e nossos desenhos medonhos e enfadonhos
que sonhamos antigamente quando ainda éramos crianças.
a lembrança do teu beijo
me inspira às minhas maiores paixões:
nada.
me inspira ao resto de mim
à sobra de mim
dejeto de mim
escombro de mim
auschwitz de mim
é,
a vida é uma caixinha de só presas.
tenho pressa.
e eu beijo na pele a tragédia disso: a vida é uma caixa, uma baixa, uma prisão.
as surpresas não surpreendem porque não saem da caixa, caixinha de vida baixa.
sobra-nos a repetição:
a vida
é uma
caixinha de
surpresas.
torcendo pra que o óbvio ainda surpreenda
e que o inesperado aconteça
sabendo que, antes que amanheça,
é preciso dormir,
é preciso acordar,
e saber dormir e acordar.
saber repartir entre a vida e o sonho
os nossos desejos tristonhos
e nossos desenhos medonhos e enfadonhos
que sonhamos antigamente quando ainda éramos crianças.
a lembrança do teu beijo
me inspira às minhas maiores paixões:
nada.
me inspira ao resto de mim
à sobra de mim
dejeto de mim
escombro de mim
auschwitz de mim
é,
a vida é uma caixinha de só presas.
tenho pressa.
24 abril 2012
marina2
um presente meu para marina monsanto
marina menina caminha na orla do mar
marina cantiga que leva pro sonho cantar
marina na beira não sabe o que tem do lado de lá
marina não sabe que fica pra sempre sonhar
de leve, marina caminha
e os passos que tinha
sabia que nunca teria jamais
marina ainda hoje não esquece
dos mares dos olhos
daquele rapaz
marina sem passos
se senta num banco vazio
de frente pro mar
e pensa na vida que tinha
e no tanto que ainda resta levar
depois se despede de tudo
entende que o mundo já não pode mais
marina mergulha no fundo
e chora quietinha inundada de paz
marina menina caminha na orla do mar
marina cantiga que leva pro sonho cantar
marina na beira não sabe o que tem do lado de lá
marina não sabe que fica pra sempre sonhar
de leve, marina caminha
e os passos que tinha
sabia que nunca teria jamais
marina ainda hoje não esquece
dos mares dos olhos
daquele rapaz
marina sem passos
se senta num banco vazio
de frente pro mar
e pensa na vida que tinha
e no tanto que ainda resta levar
depois se despede de tudo
entende que o mundo já não pode mais
marina mergulha no fundo
e chora quietinha inundada de paz
19 abril 2012
pulseiro
O pulseiro no terapeuta:
Qual seu problema?
Sou um pulseiro.
O que?
Pulseiro.
É pulseira que se diz.
Então, nasci com defeito, sou um pulseiro.
Do sexo masculino?
Sim.
E é só pra homem usar?
Não. Sou um pulseiro unissex.
Então como você sabe que é um pulseiro e não uma pulseira?
Olha pra mim, está na cara. Sou azul, duro, inflexível: sou um pulseiro.
Também existem pulseiras assim...
É que sabe como é, eesse mundo moderno...
Sei.
Silêncio.
E aí?
E aí o que?
O que você vai fazer com o fato de ser um pulseiro?
Não sei.
Tem medo?
De que?
Não sei, de alguma coisa!
De perder a identidade, talvez.
Você tem identidade?
Tenho.
Qual é?
O pulso.
Do sexo masculino?
Feminino também.
Silêncio.
Decidiu?
Não.
O que?
Não decidi.
Não decidiu o que?
Não decidi nada.
Silêncio.
Estou triste.
Mesmo?
Deprimido.
E aí?
Pulseiro saiu correndo do consultório, entrou em um banheiro público chorando e cortou os pulsos. Anda agora pela avenida mais cheia da cidade todo eiro.
Qual seu problema?
Sou um pulseiro.
O que?
Pulseiro.
É pulseira que se diz.
Então, nasci com defeito, sou um pulseiro.
Do sexo masculino?
Sim.
E é só pra homem usar?
Não. Sou um pulseiro unissex.
Então como você sabe que é um pulseiro e não uma pulseira?
Olha pra mim, está na cara. Sou azul, duro, inflexível: sou um pulseiro.
Também existem pulseiras assim...
É que sabe como é, eesse mundo moderno...
Sei.
Silêncio.
E aí?
E aí o que?
O que você vai fazer com o fato de ser um pulseiro?
Não sei.
Tem medo?
De que?
Não sei, de alguma coisa!
De perder a identidade, talvez.
Você tem identidade?
Tenho.
Qual é?
O pulso.
Do sexo masculino?
Feminino também.
Silêncio.
Decidiu?
Não.
O que?
Não decidi.
Não decidiu o que?
Não decidi nada.
Silêncio.
Estou triste.
Mesmo?
Deprimido.
E aí?
Pulseiro saiu correndo do consultório, entrou em um banheiro público chorando e cortou os pulsos. Anda agora pela avenida mais cheia da cidade todo eiro.
16 abril 2012
o baile
Em um grandioso baile do Séc. XIX estava toda a sociedade burguesa reunida. A casa era da renomada família dos Pereira de Magalhães.
As moças novas de um lado com seus vestidos rodados;
Os moços jovens do outro com as braguilhas apontadas.
As senhoras brancas de maquiagem e os senhores em meio à fumaça dos charutos.
Tudo iluminado, muita luz, muito som.
Iluminação a querosene:
a morte.
Câmara de gás de um campo de concentração.
As moças novas de um lado com seus vestidos rodados;
Os moços jovens do outro com as braguilhas apontadas.
As senhoras brancas de maquiagem e os senhores em meio à fumaça dos charutos.
Tudo iluminado, muita luz, muito som.
Iluminação a querosene:
a morte.
Câmara de gás de um campo de concentração.
05 abril 2012
cito
o bom de escrever
é saber que nunca vou ser citado
porque quando escrevo
não cito,
sinto.
é saber que nunca vou ser citado
porque quando escrevo
não cito,
sinto.
04 abril 2012
sobre eu não existir (em grande parte do dia)
Entro no meu prédio e dou boa noite ao porteiro. Entro no elevador e vejo a câmera me vendo. Saio e no corredor tem outra câmera. Viro a chave, a fechadura range e eu entro em casa. Acabou.
A verdade é que dentro de casa eu não existo. Enquanto estou dentro de casa, no meu conjugado minúsculo, eu não existo para o mundo e ninguém simplesmente é capaz de lembrar de mim. Os que gostam de mim, nem sequer pensam; quem me ama, sente o amor como uma vertigem; meus pais me acham uma espécie de cazuza, um filho que morreu e vai longe longe; até meu gato esquece meu cheiro e só vai relembrar quando, em alguns dias, faze-lo me sentir de novo.
É que essa espécie de solidão é um portal para a dissolução da existência. É que nesse meu cantinho é assim que as coisas devem ser, fechadas, trancadas e inacessíveis. Se por um momento, apenas um, eu souber que pessoas pensam em mim enquanto eu estou aqui, esse aqui que me é tão caro vai se tornar insuportável. Tenho a impressão que é assim sempre e que é preciso se abandonar com frequência. Dormir seja talvez o momento em que até você mesmo resolve parar de pensar em si e os outros só acordam quando você dorme e viaja no etéreo do sonho.
Aqui eu não existo, não. E quando saio às vezes até demoro a voltar a existir. É que pesa existir o tempo todo. Por isso que decidi entrar aqui e desvanecer. Tchau mundo, entrei e fui embora. Inclusive, enquanto você lê isso, eu estou não existindo. Talvez nem respire.
A verdade é que dentro de casa eu não existo. Enquanto estou dentro de casa, no meu conjugado minúsculo, eu não existo para o mundo e ninguém simplesmente é capaz de lembrar de mim. Os que gostam de mim, nem sequer pensam; quem me ama, sente o amor como uma vertigem; meus pais me acham uma espécie de cazuza, um filho que morreu e vai longe longe; até meu gato esquece meu cheiro e só vai relembrar quando, em alguns dias, faze-lo me sentir de novo.
É que essa espécie de solidão é um portal para a dissolução da existência. É que nesse meu cantinho é assim que as coisas devem ser, fechadas, trancadas e inacessíveis. Se por um momento, apenas um, eu souber que pessoas pensam em mim enquanto eu estou aqui, esse aqui que me é tão caro vai se tornar insuportável. Tenho a impressão que é assim sempre e que é preciso se abandonar com frequência. Dormir seja talvez o momento em que até você mesmo resolve parar de pensar em si e os outros só acordam quando você dorme e viaja no etéreo do sonho.
Aqui eu não existo, não. E quando saio às vezes até demoro a voltar a existir. É que pesa existir o tempo todo. Por isso que decidi entrar aqui e desvanecer. Tchau mundo, entrei e fui embora. Inclusive, enquanto você lê isso, eu estou não existindo. Talvez nem respire.
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02 abril 2012
a festa
quero dizer só uma coisa:
quando vamos a uma festa
que não conhecemos quase ninguém
fica claro, fica evidente, fica perceptível
como a humanidade sofre.
quando vamos a uma festa
que não conhecemos quase ninguém
fica claro, fica evidente, fica perceptível
como a humanidade sofre.
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sofrimento
29 março 2012
o poste e a ponte
Estavam sentados frente a frente, ou lado a lado – sua memória nunca foi espacial – e tentavam reproduzir coisas que gostariam de dizer. Enquanto um falava o outro entediadamente escutava, mas quando o primeiro resolvia fazer silêncio o segundo punha-se também a falar atabalhoadamente para evitar o silêncio, o que entendiava o primeiro.
Queriam falar sobre coisas importantes, mas nunca souberam exatamente o que era importante na vida, além do mais, será que aquele era o momento propício pra dizer alguma coisa importante? Talvez não, deixa pra lá. Aí outras coisas iam acontecendo e eles iam levando-as – ou tudo – assim como as coisas eram pra ser levadas, ou seja, sei lá o que vamos dizer-fazer-pensar.
E a palavra coisa ia se repetindo a cada vez que algo não podia ser dito ou não havia o que se dizer. Ia-se materializando, passo a passo, o nada frente ao tudo e o apocalipse frente ao gênesis, só que nada mudava e tudo parecia exatamente igual e diferente do seu contrário. Assim como Othelo às avessas, sem Iago e a oligofrenia do negão.
Até que viram um poste, alto alto alto e transformaram em uma ponte longa longa longa e deitaram frente a frente, ou lado a lado – suas memórias nunca foram espaciais – e ali permaneceram por quase meia hora – sempre foram ruins em matemática – levantaram e atravessaram a ponte sem pressa.
Do outro lado se viram sentados frente a frente, ou lado a lado, tentando reproduzir coisas que gostariam de dizer. Enquanto um falava o outro entediadamente escutava.
Queriam falar sobre coisas importantes, mas nunca souberam exatamente o que era importante na vida, além do mais, será que aquele era o momento propício pra dizer alguma coisa importante? Talvez não, deixa pra lá. Aí outras coisas iam acontecendo e eles iam levando-as – ou tudo – assim como as coisas eram pra ser levadas, ou seja, sei lá o que vamos dizer-fazer-pensar.
E a palavra coisa ia se repetindo a cada vez que algo não podia ser dito ou não havia o que se dizer. Ia-se materializando, passo a passo, o nada frente ao tudo e o apocalipse frente ao gênesis, só que nada mudava e tudo parecia exatamente igual e diferente do seu contrário. Assim como Othelo às avessas, sem Iago e a oligofrenia do negão.
Até que viram um poste, alto alto alto e transformaram em uma ponte longa longa longa e deitaram frente a frente, ou lado a lado – suas memórias nunca foram espaciais – e ali permaneceram por quase meia hora – sempre foram ruins em matemática – levantaram e atravessaram a ponte sem pressa.
Do outro lado se viram sentados frente a frente, ou lado a lado, tentando reproduzir coisas que gostariam de dizer. Enquanto um falava o outro entediadamente escutava.
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27 março 2012
preto
Olhei e não vi nada.
Pouco tempo depois nada mais podia ser visto.
então fechei os olhos
e vi preto.
Pouco tempo depois nada mais podia ser visto.
então fechei os olhos
e vi preto.
26 março 2012
versões
O amor tem versões
e raramente dura dois verões.
Vez em quando
de caneta vermelha
é preciso pegar o amor
e fazer revisões.
(porque a vida é um roteiro do von trier com trilha sonora do Catra.)
e raramente dura dois verões.
Vez em quando
de caneta vermelha
é preciso pegar o amor
e fazer revisões.
(porque a vida é um roteiro do von trier com trilha sonora do Catra.)
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25 março 2012
domingo no rio
O Rio aos domingos parece São Paulo. O aterro fechado pro trânsito com famílias andando de bicicleta e tricíclo me lembra os patéticos passeios que os paulistanos fazem nos viadutos. A cidade fica semi-vazia, triste. O que mais me irrita no Rio aos domingos é o excesso de casais com um aspecto absolutamente higienizado tomando sorvete do mc donalds de mãos dadas sem transarem os dedos. Aquelas caras de bunda mole com bermuda caqui e camisa polo e um vestido de domingo com uma sandalia rasteira.
Parece que todo burocrata chato usa o domingo pra tentar sorrir um bocadinho, mas não cola, não rola, fica falso, urbano demais. Algumas pessoas não deveriam sair nunca de seus escritórios, deviam se misturar aos seus processos e estantes e morar por ali. É que até caretisse tem limite e minha cara de sono, minha olheira, minha camisa do flamengo e minha ressaca são potencializados por esses sujeitos. Ainda bem que a semana sempre recomeça e eles se escondem e eu, continuo na mesma, na rua.
Parece que todo burocrata chato usa o domingo pra tentar sorrir um bocadinho, mas não cola, não rola, fica falso, urbano demais. Algumas pessoas não deveriam sair nunca de seus escritórios, deviam se misturar aos seus processos e estantes e morar por ali. É que até caretisse tem limite e minha cara de sono, minha olheira, minha camisa do flamengo e minha ressaca são potencializados por esses sujeitos. Ainda bem que a semana sempre recomeça e eles se escondem e eu, continuo na mesma, na rua.
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18 março 2012
mpb
não vanderlize meu caetano
que meu joãogilbertismo
é altamente lobonista
e não resiste aos leninismos
inefáveis dos buarques.
que meu joãogilbertismo
é altamente lobonista
e não resiste aos leninismos
inefáveis dos buarques.
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17 março 2012
pornografia
tem tantas coisas que gostaria
e me esforço pra esquecer
que às vezes percebo
que nada tenho pra lembrar.
o que sobra é só o agora de dia
e um bocado de pornografia.
e me esforço pra esquecer
que às vezes percebo
que nada tenho pra lembrar.
o que sobra é só o agora de dia
e um bocado de pornografia.
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13 março 2012
feio
vi a menina pelo reflexo do vidro do ônibus. Tinha dois olhos claros que quando se mexia viravam quatro, dois narizes e o cabelo preso. Eu suava do seu lado, de calor, e a olhava. Vez em quando ela me olhava e com o tempo passou a me olhar mais.
Vagou uma cadeira no fundo do ônibus e eu, com vergonha de lhe oferecer, sentei. Ela se decepcionou.
Ainda não havia conseguido ver sua cara quando o ônibus parou. Ela virou e de trás vi seu rabo de cavalo. Desceu e foi na direção contrária.
Entrei na sala e lá estava ela.
Vi: era feia.
Me olhou: me achou feio.
Vagou uma cadeira no fundo do ônibus e eu, com vergonha de lhe oferecer, sentei. Ela se decepcionou.
Ainda não havia conseguido ver sua cara quando o ônibus parou. Ela virou e de trás vi seu rabo de cavalo. Desceu e foi na direção contrária.
Entrei na sala e lá estava ela.
Vi: era feia.
Me olhou: me achou feio.
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23 fevereiro 2012
alguma origem
É incrível a nossa capacidade de conexão. É só se abrir um pouquinho mais, é só deixar os olhos irem um bocado a frente, é só se tornar leve que as almas que não existem se encontram frente ao inefável e impossível do mundo. O ser humano aprendeu a falar porque precisa muito dizer o tudo que tinha dentro dele. Sei, a maioria das coisas a gente não consegue dizer, nem nunca vai conseguir. Mas é incrível e isso eu vou repetir: é incrível a nossa capacidade de conexão.
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18 fevereiro 2012
carnaval
uma sensação de alegria sem nome,
ou de nome alegria.
sensação de mundo inteiro
repleto dos sentimentos mais pequenos
e menos sublimes.
todo grande amor sucumbe à folia.
todo deus se ajoelha no altar da canção.
e toda poesia parece pouca ante o transbordar.
é a folia de dentro cá fora.
é a poesia de fora lá dentro.
é um menos dois.
ninguém ascende à lugar nenhum.
todo mundo desce e ninguém leva a mal.
a grande vida do mundo é o carnaval.
ou de nome alegria.
sensação de mundo inteiro
repleto dos sentimentos mais pequenos
e menos sublimes.
todo grande amor sucumbe à folia.
todo deus se ajoelha no altar da canção.
e toda poesia parece pouca ante o transbordar.
é a folia de dentro cá fora.
é a poesia de fora lá dentro.
é um menos dois.
ninguém ascende à lugar nenhum.
todo mundo desce e ninguém leva a mal.
a grande vida do mundo é o carnaval.
diarréia
leio poesia enquanto cago.
às vezes, demoro seis, sete meses
pra terminar um livro.
às vezes, demoro alguns dias,
no máximo um mês.
bendita e sábia diarréia.
às vezes, demoro seis, sete meses
pra terminar um livro.
às vezes, demoro alguns dias,
no máximo um mês.
bendita e sábia diarréia.
15 fevereiro 2012
a dupla
Leio poesia enquanto cago.
escrevo poesia pelado.
é impressão minha
ou o mais elevado
está intrinsecamente ligado
ao mais baixo?
e os melhores sentimentos
estão munidos das piores intenções?
e deus está intimamente ligado
ao diabo?
é tudo isso ou é não.
escrevo poesia pelado.
é impressão minha
ou o mais elevado
está intrinsecamente ligado
ao mais baixo?
e os melhores sentimentos
estão munidos das piores intenções?
e deus está intimamente ligado
ao diabo?
é tudo isso ou é não.
13 fevereiro 2012
11 fevereiro 2012
troveja
olhava pro céu atrás de resposta
afogava uma dor com cerveja
e eis que de cima
vê um sinal luminoso
que troveja.
afogava uma dor com cerveja
e eis que de cima
vê um sinal luminoso
que troveja.
10 fevereiro 2012
o português
Ontem estava bebendo uma cerveja em um botequim com meu amigo Thiago Iglesias à espera do forró da Tribo de Gonzaga quando um cara de 42 anos, nascido em Portugal, começou a conversar conosco. Falamos de paraquedismo, da diferença entres os países. Falei então do meu gosto por música portuguesa. Falei o nome de alguns artistas, ele ficou feliz de lembrar seu país e nos chamou para entrar na casa dele.
Ele está morando nos fundos de uma loja de materiais de construções, pregos, martelos, enfim, coisas de obras. Contou que morava em uma imensa casa cujo aluguel era 3 mil reais, mas que sua esposa teve trombose, está doente e que agora ele está vivendo assim com muitas dificuldades. Pediu desculpas, ofereceu-nos um banco pra sentar e falamos de muitas coisas, dentre outras de literatura. O cara é um sábio.
Continuamos a conversar, ele nos ofereceu uma latinha de Boemia que estava em sua mini geladeira e me zuou por não conseguir pegar vinho na máquina dele. Disse: "depois português que é burro."
Esse cara, esse momento, vai ser inesquecível pra mim. Talvez nunca volte a vê-lo, mas sempre vou levá-lo comigo.
Ele está morando nos fundos de uma loja de materiais de construções, pregos, martelos, enfim, coisas de obras. Contou que morava em uma imensa casa cujo aluguel era 3 mil reais, mas que sua esposa teve trombose, está doente e que agora ele está vivendo assim com muitas dificuldades. Pediu desculpas, ofereceu-nos um banco pra sentar e falamos de muitas coisas, dentre outras de literatura. O cara é um sábio.
Continuamos a conversar, ele nos ofereceu uma latinha de Boemia que estava em sua mini geladeira e me zuou por não conseguir pegar vinho na máquina dele. Disse: "depois português que é burro."
Esse cara, esse momento, vai ser inesquecível pra mim. Talvez nunca volte a vê-lo, mas sempre vou levá-lo comigo.
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07 fevereiro 2012
essa lua
muito brilha essa lua.
e pra que brilhar?
pra fazer um coração vazio
voltar a amar?
e pra que brilhar?
pra fazer um coração vazio
voltar a amar?
tarde
sentei no quintal e o dia estava lindo.
meu gato dormia e só às vezes acordava assustado
pra espantar algumas moscas.
tudo que é belo, bela, acaba.
tudo que é tarde, sabe, anoitece.
em tudo.
todas as coisas
há algumas moscas.
meu gato dormia e só às vezes acordava assustado
pra espantar algumas moscas.
tudo que é belo, bela, acaba.
tudo que é tarde, sabe, anoitece.
em tudo.
todas as coisas
há algumas moscas.
06 fevereiro 2012
27 janeiro 2012
rewind
faz-se um post e desiste.
quase a regra da vida.
voltar.
quase a regra da vida.
voltar.
24 janeiro 2012
23 janeiro 2012
quietinha
tenho uma poesia inteira pronta na minha cabeça. Hoje, resolvi não escrever, resolvi deixa-la livre pra ser o que quiser. Quem sabe ela assim, quietinha, alce vôos muito maiores que quando no papel. Quem sabe ela amadureça, se forme e fique chata. Não sei, mas hoje vou deixar a poesia aqui, comigo e só.
22 janeiro 2012
domingo
domingo. domingo, né? (e digo domingo como se essa palavra fosse ganhar um significado para todos , mas sei que não, não vai.) e tem muita coisa acontecendo e eu tenho sempre tão pouco pra dizer.
A gente fica esperando um sinal da natureza, um sinal do mundo, um indício de que alguma coisa vai mudar e de que tudo vai ser diferente. Aí você é daqueles que tem esperança e vai se frustrando e frustrando até secar e nada mais ter pra sentir. Ou então você é daqueles céticos e aí, amigo, você vai perder tanta ternura, candura, pureza. Ou então nada disso: você vai sentar, ligar a televisão e fingir que o tempo não existe até faze-lo não existir. Deixa-lo matar sem saber, como um vírus invisível que te corta as veias pouco a pouco.
Tem também outra opção: nada.
só uma pequena outra coisa chamada:
domingo.
A gente fica esperando um sinal da natureza, um sinal do mundo, um indício de que alguma coisa vai mudar e de que tudo vai ser diferente. Aí você é daqueles que tem esperança e vai se frustrando e frustrando até secar e nada mais ter pra sentir. Ou então você é daqueles céticos e aí, amigo, você vai perder tanta ternura, candura, pureza. Ou então nada disso: você vai sentar, ligar a televisão e fingir que o tempo não existe até faze-lo não existir. Deixa-lo matar sem saber, como um vírus invisível que te corta as veias pouco a pouco.
Tem também outra opção: nada.
só uma pequena outra coisa chamada:
domingo.
18 janeiro 2012
tênis
tênis é aquela parada: bola pra lá, bola pra cá. Qualquer momento de desatenção e outro vem em cima te cobrar. Se ficar nervoso, amigo, você tá sozinho na quadra, não pode falar com ninguém, se vira. Se você ficar puto, pior ainda, não há o que fazer, meu camarada, joga a raquete no chão, bica uma bolinha, no máximo, leva uma advertência, mas vai ter que voltar pro jogo. E é ponto a ponto, tudo igual, repetindo pra fazer diferente. Se você for cauteloso e ficar no fundo, pode tomar uma deixadinha na beira da rede, se você quiser acabar com o ponto logo e subir, pode levar uma passada no fundo. Se descansar o corpo, se resolver aproveitar, se sorrir, vem o outro e poff...ponto! Quando você vê o cara ganhou dois sets, tem um triplo match point a favor. E tudo que você pode fazer é desistir, apertar a mão dele e ir pra casa. Engraçado, tênis parece a vida.
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tênis
17 janeiro 2012
trechos de mim
queria copiar um texto velho meu. Pegar algo que já escrevi, tirar um trecho e colar aqui. Isso, assim, como um estupro de mim mesmo. Como o roubo intencional daquilo que um dia me foi autoral. Eis:
"as meninas se fixam
transitoriamente entre
o que eu quero
e o que vou fazer
e o que era pra ser belo
agora é só disforme
como se o mundo assim
pudesse fazer sentido "
"as meninas se fixam
transitoriamente entre
o que eu quero
e o que vou fazer
e o que era pra ser belo
agora é só disforme
como se o mundo assim
pudesse fazer sentido "
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10 janeiro 2012
palavras extraordinárias
não existem mais palavras extraordinárias
todas são xulas, nulas, bulas, gulas, fulas,
e todas as intenções são más,
nenhuma delas, palavras ou intenções,
tem um fim divino porque o divino fim
é final demais pra ser adivinhado
pelo homem vivo.
o divino é de vinho demais,
dividido demais,
distraído demais,
e no mais, ademais, por detrás
daquilo que faz
a palavra comum, qualquer uma
isopor, televisão, cachorro quente,
bolsa de valores, prego, constituição,
qualquer uma delas serve a coisa nenhuma
serve a não, a nunca, a nada, a niente
a necessidade de ninguém para fim nenhum
e antes que o fim seja final que seja o início
do meio pra se chegar na tentativa da possibilidade
da incerteza da estrada do processo do caminho
e nenhuma palavra é extraordinária mais
só as intenções são grandes
e más.
entre o sentido, o sentindo e o não sentimento
existe o pedacinho do amor do céu
do amor do cão
do amor do ódio que ama amar o amor que odeia
existe a qualidade da não caridade que é o amor ao próximo
vítima da saudade que deveras sente pelo ser
não existem palavras extraordinárias
não existe nada demais
mas existe alguma coisa que eu não sei.
todas são xulas, nulas, bulas, gulas, fulas,
e todas as intenções são más,
nenhuma delas, palavras ou intenções,
tem um fim divino porque o divino fim
é final demais pra ser adivinhado
pelo homem vivo.
o divino é de vinho demais,
dividido demais,
distraído demais,
e no mais, ademais, por detrás
daquilo que faz
a palavra comum, qualquer uma
isopor, televisão, cachorro quente,
bolsa de valores, prego, constituição,
qualquer uma delas serve a coisa nenhuma
serve a não, a nunca, a nada, a niente
a necessidade de ninguém para fim nenhum
e antes que o fim seja final que seja o início
do meio pra se chegar na tentativa da possibilidade
da incerteza da estrada do processo do caminho
e nenhuma palavra é extraordinária mais
só as intenções são grandes
e más.
entre o sentido, o sentindo e o não sentimento
existe o pedacinho do amor do céu
do amor do cão
do amor do ódio que ama amar o amor que odeia
existe a qualidade da não caridade que é o amor ao próximo
vítima da saudade que deveras sente pelo ser
não existem palavras extraordinárias
não existe nada demais
mas existe alguma coisa que eu não sei.
08 janeiro 2012
nosso último encontro
nosso último encontro
(repare nas palavras:
nosso
último
encontro)
não foi o último
porque nunca poderia ter sido.
quem nos visse acharia que era o primeiro
tanto era o sorriso de saudade,
o medo do futuro,
o susto do amanhã
e a incerteza de todo o resto que não era a gente.
nosso último encontro foi como uma pedra
um imenso iceberg
uma interferência dos planos do mundo.
foi como a apoteose da primavera
e a prova de tudo que a ciência diz
sobre os amores e as reações químicas
sobre os pudores e as armas biológicas.
nosso último encontro foi o que foi
(nosso
último
encontro)
e naqueles momentos,
últimos, nossos,
só existiu a gente.
(repare nas palavras:
nosso
último
encontro)
não foi o último
porque nunca poderia ter sido.
quem nos visse acharia que era o primeiro
tanto era o sorriso de saudade,
o medo do futuro,
o susto do amanhã
e a incerteza de todo o resto que não era a gente.
nosso último encontro foi como uma pedra
um imenso iceberg
uma interferência dos planos do mundo.
foi como a apoteose da primavera
e a prova de tudo que a ciência diz
sobre os amores e as reações químicas
sobre os pudores e as armas biológicas.
nosso último encontro foi o que foi
(nosso
último
encontro)
e naqueles momentos,
últimos, nossos,
só existiu a gente.
02 janeiro 2012
videotape
eu queria fazer um texto com dois objetivos: 1 - falar sobre o tempo. 2- ser capaz de fazer chorar. Então peço que quem me ler que coloque ao fundo a canção "videotape" do radiohead. O link está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=eNY3zTWDs9s
O tempo é bruto, é violento, único, mas apesar disso a vida funciona em videotape, funciona com um tempo visceral, caótico e não poético sendo incidido por vários momentos de nossa vida ao mesmo tempo. Sou capaz de estar em três ou quatro momentos agora, um aqui de short, sem camisa, banho tomado, cabelo ainda não penteado, outro na cama curtindo um momento de romance, nas horas que o eu te amo escapa entre suspiros, um outro passeando na praia com meus pais num dia em que saí de mãos dadas com minha mãe sem ter vergonha de o fazer e um outro em que sofrendo fui sozinho ao cinema e assisti um filme que me faz cair lágrimas tão pesadas que doíam pelo meu corpo. E estando nesses quatro lugares tenho saudades de todos, menos do de agora. Isso é o tempo.
O videotape não reprisa nada, ele reencena a vida, reescreve o mundo, reestrutura as palavras, os gestos e os sentimentos. Não há nada que não seja novidade e o tempo faz questão de que isso apareça a todo instante como um reflexo no espelho que se mexe e se mexe e se mexe, às vezes sem nem a gente saber que ele vai se mexer.
O choro. O choro e o tempo. Só o tempo é capaz de fazer chorar. Tem aquele primeiro choro, de emergência, o choro que te toma, que dá um sopapo na tua cara e você adora se jogar e deitar no outro da pessoa que te faz chorar pensando que queria morrer ali chorando, mas nunca perder a capacidade do choro. Tem o segundo choro, aquele distante, lágrimas por ninguém, diz hebert, cry for no one, dizem os beatles. Choro antigo, passado no século passado nas nossas vidas, mas que quando a gente senta e lembra, dos 4 momentos, juntos, os tempos todos, ele vem quase como um cansaço, e descansa, alcança a gente antes do fim do mundo e libera a paz.
O ano começa e com ele várias boas coisas, novas esperanças, novos jeitos de ver o mundo. Mentira. Sei lá, também, sei lá. É bom dizer sei lá, porque às vezes, né? Sei lá. Eu sei do choro e do tempo. Choro muito menos do que deveria, vivo muito menos o tempo como deveria. Uma chuva me prende em casa. Acho que esse final de texto está como eu gostaria, parado, preso no sem fim da linguagem, onde se abriga de um lado a escrita, forjando um tempo e as lágrimas presas em algum lugar de mim que nem sei. Ou sei. Sei lá. Que a vida seja um eterno videotape de novas imagens. Que o passado seja em tempo real.
O tempo é bruto, é violento, único, mas apesar disso a vida funciona em videotape, funciona com um tempo visceral, caótico e não poético sendo incidido por vários momentos de nossa vida ao mesmo tempo. Sou capaz de estar em três ou quatro momentos agora, um aqui de short, sem camisa, banho tomado, cabelo ainda não penteado, outro na cama curtindo um momento de romance, nas horas que o eu te amo escapa entre suspiros, um outro passeando na praia com meus pais num dia em que saí de mãos dadas com minha mãe sem ter vergonha de o fazer e um outro em que sofrendo fui sozinho ao cinema e assisti um filme que me faz cair lágrimas tão pesadas que doíam pelo meu corpo. E estando nesses quatro lugares tenho saudades de todos, menos do de agora. Isso é o tempo.
O videotape não reprisa nada, ele reencena a vida, reescreve o mundo, reestrutura as palavras, os gestos e os sentimentos. Não há nada que não seja novidade e o tempo faz questão de que isso apareça a todo instante como um reflexo no espelho que se mexe e se mexe e se mexe, às vezes sem nem a gente saber que ele vai se mexer.
O choro. O choro e o tempo. Só o tempo é capaz de fazer chorar. Tem aquele primeiro choro, de emergência, o choro que te toma, que dá um sopapo na tua cara e você adora se jogar e deitar no outro da pessoa que te faz chorar pensando que queria morrer ali chorando, mas nunca perder a capacidade do choro. Tem o segundo choro, aquele distante, lágrimas por ninguém, diz hebert, cry for no one, dizem os beatles. Choro antigo, passado no século passado nas nossas vidas, mas que quando a gente senta e lembra, dos 4 momentos, juntos, os tempos todos, ele vem quase como um cansaço, e descansa, alcança a gente antes do fim do mundo e libera a paz.
O ano começa e com ele várias boas coisas, novas esperanças, novos jeitos de ver o mundo. Mentira. Sei lá, também, sei lá. É bom dizer sei lá, porque às vezes, né? Sei lá. Eu sei do choro e do tempo. Choro muito menos do que deveria, vivo muito menos o tempo como deveria. Uma chuva me prende em casa. Acho que esse final de texto está como eu gostaria, parado, preso no sem fim da linguagem, onde se abriga de um lado a escrita, forjando um tempo e as lágrimas presas em algum lugar de mim que nem sei. Ou sei. Sei lá. Que a vida seja um eterno videotape de novas imagens. Que o passado seja em tempo real.
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26 dezembro 2011
a verdade (um pouco mais cedo)
Eu sei a verdade. Não acredito que a verdade doa, porque o óbvio não pode doer. É preciso um pouco de dúvida, esperança e fracasso para que doa e a certeza e a verdade são claras demais para trazer sofrimento.
Saber a verdade não me dá nenhuma vantagem, apenas preguiça. Eu sei exatamente como funcionam as coisas e como a engrenagem natural deve ser mantida para que o plano dê certo.
Sei...e sabendo durmo um pouco mais cedo.
Saber a verdade não me dá nenhuma vantagem, apenas preguiça. Eu sei exatamente como funcionam as coisas e como a engrenagem natural deve ser mantida para que o plano dê certo.
Sei...e sabendo durmo um pouco mais cedo.
24 dezembro 2011
o pequeno natal
Quero falar do Natal. Um ímpeto não dos mais felizes me fez vir aqui e querer dizer sobre o Natal. O próximo passo foi pensar que não há porque falar de melancolia ou de tristeza, nem daquilo que está errado no Natal, porque, na verdade, com ele não há nada errado. O erro está em todo resto.
Então preferi falar de outros natais, os natais menores, pequenos, micronatais que existem dentro desse gigante Natal que quase nos oprime. Falo desse natalzinho muito pouco quase nada que nos perpassa muitas vezes e se não estivermos atentos, podemos perde-lo.
Por exemplo, o Natal de sentar no chão. Ganhar um presente e sentar no chão pra abrir é Natal pra mim. Aquela sensação de que se pode ficar torto e do olho se fixando num saco colorido. Dura segundos, mas segundos tão marcantes e tão fortes que se penso muito tempo neles, sou capaz até de talvez sorrir. Ou então o Natal dos embrulhos de presente espalhados: aqueles papéis, semi rasgados, coloridos, bregas, com desenhinhos que você nunca repara, jogados ali num canto da cama enquanto você dá uma volta pela sala pra pegar uma castanha.
O Natal de um bilhetinho, de um cartinha que você recebeu. Tente ler um papelzinho que você ganhou no passado e talvez nem tenha dado tanto valor. Leia agora e veja o valor que ele tem. Não chore, nunca há motivos pras lágrimas, mas leia. Esse sentimentinho pequeno é insubstituível e não há dor no mundo capaz vence-lo.
O Natal da melhora. O Natal de uma doença que se foi e você quase não lembra, a não ser por alguns sintomas que aparecem aqui e acolá e um certo medo de sofrer o sofrido e de viver o não vivido. O Natal potencializa isso, porque potencializa a vida. Mas isso não é grande, é pequeno e quase escapa do espírito natalino.
E poderia falar mais, falar do Natal dos cheiros, dos gostos, das árvores, das luzes, do vinho, o Natal de muitas coisas que existem e sempre nos escapam.
O problema do Natal é que é sempre um momento de saudade. Sempre temos saudades do que vivemos, do que estamos vivendo e é certo que temos saudades também do que há de vir.
Bom Natal pra quem sobreviveu...
Então preferi falar de outros natais, os natais menores, pequenos, micronatais que existem dentro desse gigante Natal que quase nos oprime. Falo desse natalzinho muito pouco quase nada que nos perpassa muitas vezes e se não estivermos atentos, podemos perde-lo.
Por exemplo, o Natal de sentar no chão. Ganhar um presente e sentar no chão pra abrir é Natal pra mim. Aquela sensação de que se pode ficar torto e do olho se fixando num saco colorido. Dura segundos, mas segundos tão marcantes e tão fortes que se penso muito tempo neles, sou capaz até de talvez sorrir. Ou então o Natal dos embrulhos de presente espalhados: aqueles papéis, semi rasgados, coloridos, bregas, com desenhinhos que você nunca repara, jogados ali num canto da cama enquanto você dá uma volta pela sala pra pegar uma castanha.
O Natal de um bilhetinho, de um cartinha que você recebeu. Tente ler um papelzinho que você ganhou no passado e talvez nem tenha dado tanto valor. Leia agora e veja o valor que ele tem. Não chore, nunca há motivos pras lágrimas, mas leia. Esse sentimentinho pequeno é insubstituível e não há dor no mundo capaz vence-lo.
O Natal da melhora. O Natal de uma doença que se foi e você quase não lembra, a não ser por alguns sintomas que aparecem aqui e acolá e um certo medo de sofrer o sofrido e de viver o não vivido. O Natal potencializa isso, porque potencializa a vida. Mas isso não é grande, é pequeno e quase escapa do espírito natalino.
E poderia falar mais, falar do Natal dos cheiros, dos gostos, das árvores, das luzes, do vinho, o Natal de muitas coisas que existem e sempre nos escapam.
O problema do Natal é que é sempre um momento de saudade. Sempre temos saudades do que vivemos, do que estamos vivendo e é certo que temos saudades também do que há de vir.
Bom Natal pra quem sobreviveu...
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22 dezembro 2011
natalino

o cara se chamava natalino
tinha nascido no dia do natal
e isso era uma saga na vida dele
"que dia especial pra nascer, natalino?"
e mandavam ele rezar
e mandavam ele agradecer
e mandavam ele se redimir
natalino, aos poucos,
passou a não comemorar seu aniversário
depois parou de comemorar o natal
depois parou de comemorar.
natalino, no natal,
abandonava o peru;
tinha espírito de porco.
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15 dezembro 2011
acalme
sempre
que
a gente
escreve
cortado
e
com
poucas
palavras
parece
poesia.
pouco importa, prefiro falar na horizontal, muito, torto, bobo, burro, estúpido e tudo de ruim que posso atribuir a mim mesmo.
desde que acalme o coração.
que
a gente
escreve
cortado
e
com
poucas
palavras
parece
poesia.
pouco importa, prefiro falar na horizontal, muito, torto, bobo, burro, estúpido e tudo de ruim que posso atribuir a mim mesmo.
desde que acalme o coração.
13 dezembro 2011
o natal (antes do espírito)
Vamos lá, né? Natal tá aí. Mas o mais importante é pensar no que eu posso contribuir ao mundo à partir da idéia de Natal. Tentarei.
Bom, primeiro de tudo, acho que o Natal deve ser pensado por fora do famoso espírito natalino. Esse espírito que defino como "uma aura de alegria, felicidade e complacência que nos toma" me parece ser prejudicial em alguns aspectos, na medida em que ao mesmo tempo que ele nos enche o peito de amor pelo mundo, também traduz-se em uma espécie de parasilia. O espírito retira de nós uma capacidade reflexiva importante para ação. É nessa medida que eu concordo que o modelo de amor por Jesus deve ser seguido no Natal, mas o amor de Jesus é um amor engajado, violento, como ele mesmo diz, ele vem pela espada e não pela paz. É preciso pensar o amor não como um sentimento, mas como uma ação, como um movimento de transformação. É preciso, sei lá, beijar a ferida do leproso ou quebrar o templo ou enfrentar os poderes que nos rondam. Às vezes uma grande forma de manifestar o amor natalino está em enfrentar o patrão, enfrentar uma injustiça que ele nos faz. Talvez seja muito melhor que sair abraçando todo mundo.
Não sei, é uma idéia, é algo a se pensar. Só estou querendo trazer o Natal, uma data bonita, que comove e que une para mais um momento em que podemos mudar o mundo, ou pelo menos um cantinho dele. Espero não ter exagerado.
Bom, primeiro de tudo, acho que o Natal deve ser pensado por fora do famoso espírito natalino. Esse espírito que defino como "uma aura de alegria, felicidade e complacência que nos toma" me parece ser prejudicial em alguns aspectos, na medida em que ao mesmo tempo que ele nos enche o peito de amor pelo mundo, também traduz-se em uma espécie de parasilia. O espírito retira de nós uma capacidade reflexiva importante para ação. É nessa medida que eu concordo que o modelo de amor por Jesus deve ser seguido no Natal, mas o amor de Jesus é um amor engajado, violento, como ele mesmo diz, ele vem pela espada e não pela paz. É preciso pensar o amor não como um sentimento, mas como uma ação, como um movimento de transformação. É preciso, sei lá, beijar a ferida do leproso ou quebrar o templo ou enfrentar os poderes que nos rondam. Às vezes uma grande forma de manifestar o amor natalino está em enfrentar o patrão, enfrentar uma injustiça que ele nos faz. Talvez seja muito melhor que sair abraçando todo mundo.
Não sei, é uma idéia, é algo a se pensar. Só estou querendo trazer o Natal, uma data bonita, que comove e que une para mais um momento em que podemos mudar o mundo, ou pelo menos um cantinho dele. Espero não ter exagerado.
10 dezembro 2011
felicidade de fotografia
os meus olhos
encarnam no outro
a possibilidade do dois
do translúcido
e do espelho
e revelam
como quem não quer nada
um desejo de se viver
uma inegável e falsa
felicidade de fotografia
encarnam no outro
a possibilidade do dois
do translúcido
e do espelho
e revelam
como quem não quer nada
um desejo de se viver
uma inegável e falsa
felicidade de fotografia
07 dezembro 2011
humildade
É fato. Humildade passou a ser qualidade e a palavra é repetida pra lá e pra cá na boca de um monte de gente que...enfim. Estava aqui eu pensando sobre o termo. O que é ser humilde? Qual a caraterística principal da humildade? A frase me veio na cabeça assim, de supetão: humilde é quem mostra as fragilidades.
(Não confundir fragilidade com fraqueza. Fragilidade é quão rápido se chega ao âmago e não o quanto ele aguenta. Melamed)
A posição do humilde, na boca do comum, é não arrotar mais do que pode e não arrotar nem ao mesmo aquilo que pode. É ter uma visão de si menor, pelo menos exteriormente, daquilo que se considera por dentro.
Pra mim não. Pra mim ser humilde é saber exatamente seus pontos fragéis, ou seja, aquelas partes suas que se alguém atingir vai te afetar brutalmente e mesmo assim não tentar mascara-las com grito, raiva, violência, sorriso, amizades, amores ou qualquer outra coisa. Ser humilde é estar exposto ao mundo e vê-lo como porta de acesso para conquistar suas coisas, por isso o humilde é sempre quase um coitado porque ao expor o que tem, geralmente alguém monta em cima e bláu, toma-lhe nas costas, amigão.
Por isso ser humilde é difícil demais, por isso eu me acho pouco humilde, porque pra viver inventei meus recursos...
(Não confundir fragilidade com fraqueza. Fragilidade é quão rápido se chega ao âmago e não o quanto ele aguenta. Melamed)
A posição do humilde, na boca do comum, é não arrotar mais do que pode e não arrotar nem ao mesmo aquilo que pode. É ter uma visão de si menor, pelo menos exteriormente, daquilo que se considera por dentro.
Pra mim não. Pra mim ser humilde é saber exatamente seus pontos fragéis, ou seja, aquelas partes suas que se alguém atingir vai te afetar brutalmente e mesmo assim não tentar mascara-las com grito, raiva, violência, sorriso, amizades, amores ou qualquer outra coisa. Ser humilde é estar exposto ao mundo e vê-lo como porta de acesso para conquistar suas coisas, por isso o humilde é sempre quase um coitado porque ao expor o que tem, geralmente alguém monta em cima e bláu, toma-lhe nas costas, amigão.
Por isso ser humilde é difícil demais, por isso eu me acho pouco humilde, porque pra viver inventei meus recursos...
goteja
essa flor que dá na água
amarela que só ela
colorida do luar
meio rota e maluca
que venceu a forta bruta
da maré e da mulher
quando o homem se balança
lá na rede da varanda
esperando o carnaval
esse carro então dispara
e te acerta feio bala
só descansa no natal
quem vai querer
que o que já é
não seja
quem vai saber
que a vida só
goteja
amarela que só ela
colorida do luar
meio rota e maluca
que venceu a forta bruta
da maré e da mulher
quando o homem se balança
lá na rede da varanda
esperando o carnaval
esse carro então dispara
e te acerta feio bala
só descansa no natal
quem vai querer
que o que já é
não seja
quem vai saber
que a vida só
goteja
05 dezembro 2011
meus mundos
Hoje eu já fiz uma música, já escrevi uma cena, já corrigi uns textos. Já vivi em muitos mundos sem sair de casa. O importante não é a produção, é a producência, o ato de escrever em direção a...Detesto a poesia do poeta, só gosto da poesia daquele que, tentando falar alguma coisa, poetizou sem querer. Quem fala mal do cotidiano ou da rotina é porque vive em um mundo deveras pequeno. Eu enquanto ando de ônibus, penso em muitos tantos mundos que posso habitar e, pensando, habito.
01 dezembro 2011
pajotara
O mundo é um fio, um largo, gigante e fino fio que nos atravessa e seu coração é como um guarda-chuva que atravessa o fio num saltitar belo, leve e desconfiado de que o tempo talvez esteja parado enquanto acontece o atravessar.
Sempre que você ama, eu lembro que o amor existe e lembro que qualquer amor é o maior amor do mundo e imagino que um dia quero ser digno disso, quer sentir assim e viver assim, como se um sorriso dependesse do medo, do canto, do gesto e do desespero. Como se a dança dependesse da batida, da zabumba e do seu sorriso.
Sempre que você diz uma palavra parece boba e solta, mas eu sei (e talvez só eu saiba) que ela guarda toda uma profundidade que você não ousa dizer pra ninguém e que o que sobra é apenas a meiguice do ter dito e a gentileza do pós-dizer.
Vivo no seu mundo como um satélite, como alguém que de longe quer saber como é você. Justamente por isso em momento algum penso em intervir no seu jeito. Meu silêncio é aprendizado, e mesmo que eu leia qualquer filosofia é de você que posso aprender a vida. Que fique registrado aqui um carinho, como um gesto qualquer de um sujeito pequeno que não vale muita coisa. No máximo um sorriso, talvez. E que qualquer palavra minha embale seus sonhos...
Sempre que você ama, eu lembro que o amor existe e lembro que qualquer amor é o maior amor do mundo e imagino que um dia quero ser digno disso, quer sentir assim e viver assim, como se um sorriso dependesse do medo, do canto, do gesto e do desespero. Como se a dança dependesse da batida, da zabumba e do seu sorriso.
Sempre que você diz uma palavra parece boba e solta, mas eu sei (e talvez só eu saiba) que ela guarda toda uma profundidade que você não ousa dizer pra ninguém e que o que sobra é apenas a meiguice do ter dito e a gentileza do pós-dizer.
Vivo no seu mundo como um satélite, como alguém que de longe quer saber como é você. Justamente por isso em momento algum penso em intervir no seu jeito. Meu silêncio é aprendizado, e mesmo que eu leia qualquer filosofia é de você que posso aprender a vida. Que fique registrado aqui um carinho, como um gesto qualquer de um sujeito pequeno que não vale muita coisa. No máximo um sorriso, talvez. E que qualquer palavra minha embale seus sonhos...
26 novembro 2011
escuridão
Toco violão noite adentro e só me lembro de ir pra casa quando amanhece. Durmo o dia inteiro e acordo só pra trabalhar em um teatro escuro, sujo. A escuridão é minha amiga, minha profissão. A escuridão é um meio de vida. É como sou, escuro, denso. É só como consigo ser.
23 novembro 2011
ela e o ônibus
Entro no ônibus e sento ao lado de uma moça.
Eu: bermuda caqui, camisa preta, tênis sem amarrar, meia preta, rosto oleoso de suor seco, despenteado, com olheiras e sono.
Ela: pequena, linda, loira, roupinha de executiva, nariz fino dos mais lindos, olhos claros como tinta de aquarela, com os cílios bem pretos, a pele lisa e seca que nem de maquiagem precisa.
Choro. O olho enche de lágrimas que rolam. Poucas, secam antes de pingarem ao chão. Ela:
Porque chora?
A sua beleza.
O que tem?
Machuca, oprime, humilha.
Desculpe - ela faz uma pausa - mas por quê?
Essa sensação de que nada que eu faça - estude, brilhe, enriqueça - me torne um homem mais interessante. Nada disso pode fazer jus a você e sua beleza.
Entendo - diz ela.
Ela abaixa a cabeça e não fala mais. Nem eu. Entendemos. Três pontos depois ela pede licença para descer. Abro espaço, ela passa e, não sem esforço, me lança seu melhor sorriso. O último. E desce.
Eu: bermuda caqui, camisa preta, tênis sem amarrar, meia preta, rosto oleoso de suor seco, despenteado, com olheiras e sono.
Ela: pequena, linda, loira, roupinha de executiva, nariz fino dos mais lindos, olhos claros como tinta de aquarela, com os cílios bem pretos, a pele lisa e seca que nem de maquiagem precisa.
Choro. O olho enche de lágrimas que rolam. Poucas, secam antes de pingarem ao chão. Ela:
Porque chora?
A sua beleza.
O que tem?
Machuca, oprime, humilha.
Desculpe - ela faz uma pausa - mas por quê?
Essa sensação de que nada que eu faça - estude, brilhe, enriqueça - me torne um homem mais interessante. Nada disso pode fazer jus a você e sua beleza.
Entendo - diz ela.
Ela abaixa a cabeça e não fala mais. Nem eu. Entendemos. Três pontos depois ela pede licença para descer. Abro espaço, ela passa e, não sem esforço, me lança seu melhor sorriso. O último. E desce.
21 novembro 2011
empate
Tem tanta gente falando, tem tanta gente escrevendo, tem tanta gente pensando que às vezes eu gostaria de dar uma abraço em cada uma delas e falar: "brother, tá pesado, eu sei, mas vamos ver as coisas de um jeito diferente, vamos tomar uma cervejinha." Mas não dá, eu não sei dizer e vocês não sabem ouvir. Cada um compartilha a solidão. Aí eu penso no Flamengo, naquele meio de campo lento, nada criativo e percebo que a maioria das vidas é como o meio de campo do Flamengo: saudoso, melancólico, mas que me traz uma alegria. Minha vida é, então, um campo, bem grande, onde se quiser você pode vir bater uma pelada. Eu te ensino, chega pra cá, dá uma arrancada e faz gol.
a palavra
Bora lá,
vamo que vamo,
então manda brasa.
é quando a lingua triunfa sobre os sentidos.
é quando a poesia perde pras palavras.
é quando a palavra tá gigante,
tá falando muito,
tá reclamando pra caramba.
Daqui a pouco vai querer a chave de casa,
dar uma volta de carro
vai querer sua parte na herança.
estará certa,
vai querer o que é seu.
vamo que vamo,
então manda brasa.
é quando a lingua triunfa sobre os sentidos.
é quando a poesia perde pras palavras.
é quando a palavra tá gigante,
tá falando muito,
tá reclamando pra caramba.
Daqui a pouco vai querer a chave de casa,
dar uma volta de carro
vai querer sua parte na herança.
estará certa,
vai querer o que é seu.
16 novembro 2011
A Mãe
Baseado em "Orégano"
Estava decidida a se matar. Planejara tudo com antecedência, mas não muita que é como se decidem os jovens. Há duas semanas atrás, sem motivo aparente, sem sofrimentos amorosos, familiares, decidiu que a vida era enfadonha e não valia todo aquele esforço. Lembra-se que estava em uma aula de filosofia e ouvia o professor falar sobre o sublime e a desmedida em Kant e que aquilo lhe parecera irreal: pensava que o tempo e a projeção que se fazia nele impedia a desmedida, afinal o tempo e o espaço eram esencialmente a mesma coisa.
Enfim, uma decisão tão importante nem sempre nasce com regras e ela, jovem e bela, havia decidido se matar e o faria ainda hoje, logo após anoiteicer, assim que terminasse a exibição de Chaves: era esta pureza infantil que queria como último sentimento. Decidiu que morreria com pílulas, era bonita e vaidosa demais para se matar pulando da janela ou se dando um tiro. O gás de cozinha havia sido uma opção, mas queria facilitar o trabalho da perícia em atestar se ouve acidente, falha ou suicídio.
Acordou cedo e decidiu escrever uma séria de cartas. Escreveu a primeira para sua melhor amiga, ficou entediada e decidiu que deixaria apenas uma mesmo, mais alegre, sem explicar demais as razões que a levava ao ato. A única coisa que deixou claro foi que ninguém tinha culpa de nada e que morria por preguiça.
Foi almoçar em um restaurante caro. Sentou-se em um canto movimentado e ficou olhando as pessaoas comerem. Não se sentiu feliz nem triste, lamentou apenas ser uma das últimas coca-colas da sua vida. Lembrou de uma história que ouvira certa vez na igreja. Estava entediada, de novo, e preferiu ouvir dois jovens bonitos que conversavam atrás dela que o padre. Dizia um:
Eu não acredito nisto que o padre está dizendo. Não dá pra saber o que é viver na eternidade, aliás, eu não sei ser de outro jeito além deste.
O outro respondeu:
Tenta engordar vinte quilos, ficar bem gordo e nojento, ninguém vai olhar para você, aí você aprende a ser de um jeito que não esse.
Pode ser – disse o primeiro – mas ser gordo não vai me ensinar a viver na eternidade.
Lembrou dessa história porque agora parecia claro que a única maneira de viver na eternidade era se privando do tempo, ficando sem contato humano algum, nem ao menos através dos meios de comunicação. Agora, isolada no restaurante, tinha a sensação de que viveria eternamente, como se já tivesse morrido. Decidiu, então, mudar de planos e passar a última tarde da sua vida sozinha, como se já vivesse na eternidade prometida não pelos padres, mas sim pelos jovens preocupados em serem magros.
Foi para casa e sentou no sofá. Tentou não fazer nada e não fez por um bom tempo, talvez uma hora na eternidade, sem pensar, só às vezes lembrando de fatos e pessoas que não sentiria falta. Pouco tempo depois, de súbito, levantou, foi até a cozinha e começou a lavar a louça. Queria a casa limpa quando todos descobrissem sua morte. E assim foi, depois da louça decidiu passar sua última tarde fazendo faxina. Varreu a casa, limpou banheiro, jogou papéis velhos fora e até esfregou azulejos que tanto custava fazer enquanto queria viver.
Enfim, terminou e, de novo no sofá, percebeu que começava a escurecer. Eis a hora. Sentiu nesses últimos instantes de vida que podia fazer qualquer coisa e percebeu que gostaria de um último contato humano.
Pegou o telefone, olhou para ele e discou um número qualquer. Chamava. Deu alguns toques, mais alguns e ninguém atendeu. Aquilo frustrou-a profundamente, afinal de contas assim é a vida: “sempre que dependemos dos outros, algo dá errado.”
Não se conteve, tinha raiva e abriu uma cerveja. Bebia devagar para tentar apreciar e dois copos depois se acalmou. Bebeu outra só para confirmar a volta da alegria. O telefone tocou. Sorriu, afinal, atenderia uma última ligação.
Pegou os remédios da despedida, colocou-os ao lado do telefone e atendeu:
Alô? Não, não é daqui, não, não tenho nenhum filho. José? Não conheço, desculpe, é engano, não chore, senhor, é engano. Onde o senhor está? Não chore, por favor, mas não é daqui não, deve ser um número antigo...
Estava perplexa. Não conseguia largar o telefone que repetia aquele sonoro tutututu. Quem era José? E que sofrimento era aquele que vivia? Como pode alguém viver sofrendo assim? Estava tão feliz com essa despedida sua e agora tudo parecia ruir. Como poderia morrer agora por conta de uma aula de filosofia quando um José, aparentemente com idade, ligava para sua mãe e lhe queria tanto e chorava e sofria?
A moça aquele dia não fez mais nada. Não se matou. Uma vida estava salva no reino dos céus e demoraria a chegar naquela aparentemente falsa eternidade. Mas não chegou a pensar nem por um momento que, naquela hora, alguém morria e esse alguém se chamava José.
E José morreu, sem saber que, no último instante, salvara uma vida.
Estava decidida a se matar. Planejara tudo com antecedência, mas não muita que é como se decidem os jovens. Há duas semanas atrás, sem motivo aparente, sem sofrimentos amorosos, familiares, decidiu que a vida era enfadonha e não valia todo aquele esforço. Lembra-se que estava em uma aula de filosofia e ouvia o professor falar sobre o sublime e a desmedida em Kant e que aquilo lhe parecera irreal: pensava que o tempo e a projeção que se fazia nele impedia a desmedida, afinal o tempo e o espaço eram esencialmente a mesma coisa.
Enfim, uma decisão tão importante nem sempre nasce com regras e ela, jovem e bela, havia decidido se matar e o faria ainda hoje, logo após anoiteicer, assim que terminasse a exibição de Chaves: era esta pureza infantil que queria como último sentimento. Decidiu que morreria com pílulas, era bonita e vaidosa demais para se matar pulando da janela ou se dando um tiro. O gás de cozinha havia sido uma opção, mas queria facilitar o trabalho da perícia em atestar se ouve acidente, falha ou suicídio.
Acordou cedo e decidiu escrever uma séria de cartas. Escreveu a primeira para sua melhor amiga, ficou entediada e decidiu que deixaria apenas uma mesmo, mais alegre, sem explicar demais as razões que a levava ao ato. A única coisa que deixou claro foi que ninguém tinha culpa de nada e que morria por preguiça.
Foi almoçar em um restaurante caro. Sentou-se em um canto movimentado e ficou olhando as pessaoas comerem. Não se sentiu feliz nem triste, lamentou apenas ser uma das últimas coca-colas da sua vida. Lembrou de uma história que ouvira certa vez na igreja. Estava entediada, de novo, e preferiu ouvir dois jovens bonitos que conversavam atrás dela que o padre. Dizia um:
Eu não acredito nisto que o padre está dizendo. Não dá pra saber o que é viver na eternidade, aliás, eu não sei ser de outro jeito além deste.
O outro respondeu:
Tenta engordar vinte quilos, ficar bem gordo e nojento, ninguém vai olhar para você, aí você aprende a ser de um jeito que não esse.
Pode ser – disse o primeiro – mas ser gordo não vai me ensinar a viver na eternidade.
Lembrou dessa história porque agora parecia claro que a única maneira de viver na eternidade era se privando do tempo, ficando sem contato humano algum, nem ao menos através dos meios de comunicação. Agora, isolada no restaurante, tinha a sensação de que viveria eternamente, como se já tivesse morrido. Decidiu, então, mudar de planos e passar a última tarde da sua vida sozinha, como se já vivesse na eternidade prometida não pelos padres, mas sim pelos jovens preocupados em serem magros.
Foi para casa e sentou no sofá. Tentou não fazer nada e não fez por um bom tempo, talvez uma hora na eternidade, sem pensar, só às vezes lembrando de fatos e pessoas que não sentiria falta. Pouco tempo depois, de súbito, levantou, foi até a cozinha e começou a lavar a louça. Queria a casa limpa quando todos descobrissem sua morte. E assim foi, depois da louça decidiu passar sua última tarde fazendo faxina. Varreu a casa, limpou banheiro, jogou papéis velhos fora e até esfregou azulejos que tanto custava fazer enquanto queria viver.
Enfim, terminou e, de novo no sofá, percebeu que começava a escurecer. Eis a hora. Sentiu nesses últimos instantes de vida que podia fazer qualquer coisa e percebeu que gostaria de um último contato humano.
Pegou o telefone, olhou para ele e discou um número qualquer. Chamava. Deu alguns toques, mais alguns e ninguém atendeu. Aquilo frustrou-a profundamente, afinal de contas assim é a vida: “sempre que dependemos dos outros, algo dá errado.”
Não se conteve, tinha raiva e abriu uma cerveja. Bebia devagar para tentar apreciar e dois copos depois se acalmou. Bebeu outra só para confirmar a volta da alegria. O telefone tocou. Sorriu, afinal, atenderia uma última ligação.
Pegou os remédios da despedida, colocou-os ao lado do telefone e atendeu:
Alô? Não, não é daqui, não, não tenho nenhum filho. José? Não conheço, desculpe, é engano, não chore, senhor, é engano. Onde o senhor está? Não chore, por favor, mas não é daqui não, deve ser um número antigo...
Estava perplexa. Não conseguia largar o telefone que repetia aquele sonoro tutututu. Quem era José? E que sofrimento era aquele que vivia? Como pode alguém viver sofrendo assim? Estava tão feliz com essa despedida sua e agora tudo parecia ruir. Como poderia morrer agora por conta de uma aula de filosofia quando um José, aparentemente com idade, ligava para sua mãe e lhe queria tanto e chorava e sofria?
A moça aquele dia não fez mais nada. Não se matou. Uma vida estava salva no reino dos céus e demoraria a chegar naquela aparentemente falsa eternidade. Mas não chegou a pensar nem por um momento que, naquela hora, alguém morria e esse alguém se chamava José.
E José morreu, sem saber que, no último instante, salvara uma vida.
ponto fraco
Um soco na cara. Pow, ou puf, não deu nem pra ouvir o som e tava lá o cara caído no chão, com aquela cara de pastel velho de feira e o outro em pé, imenso, gigantesco, descomunal com cara de vitorioso, se sentindo o maior dos homens do mundo. Era mais bonito, rico, bem sucedido, boa praça e simpático e mesmo assim resolvera bater no outro pobre coitado que pouco sabia porque apanhara, uma piadinha assim fora de hora, mas o que é uma piada perto da beleza, riqueza, sucesso e simpatia? Nada, pensava, mas era muito porque pra quem é bonito, rico, bem sucedido, boa praça e simpático nada pior que um cara pior com um humor ferino e uma inteligência escorregadia.
E o resultado é esse, otário, agora sangra aí no chão, babaca, cuzão. É isso que tu merece por ser folgado e idiota. Triunfal saiu o outro pela porta. “Umbral” pensou o mais fraco.
E o resultado é esse, otário, agora sangra aí no chão, babaca, cuzão. É isso que tu merece por ser folgado e idiota. Triunfal saiu o outro pela porta. “Umbral” pensou o mais fraco.
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15 novembro 2011
para pensar
Abro o editor de textos pra pensar, mas não sei como se pensa. Não sei se o que penso é meu ou alguém pensou por mim. Não sei se já tinha pensado nisso antes ou se a ideia me ocorreu agora. Não sei se sou criativo ou repetitivo. Nada disso me aflige enquanto as letras correm e o texto se forma. Nada disso me aflige porque enquanto escrevo estou acompanhado por uma mão muito forte, mas também muito doce, algo que me lembra minha mãe, e me carrega até ao ponto em que nascidas as palavras, atinjo um pouco de paz.
Às vezes acho que estou ficando óbvio demais, mas ainda assim é melhor escrever e ser óbvio em paz do que qualquer guerra.
Às vezes acho que estou ficando óbvio demais, mas ainda assim é melhor escrever e ser óbvio em paz do que qualquer guerra.
13 novembro 2011
descanso
quando o cansaço físico
é maior do que o nosso corpo aguenta
e nossos músculos, contraídos,
parece querer desistir
de nos permitir os gestos,
a alma descansa.
é maior do que o nosso corpo aguenta
e nossos músculos, contraídos,
parece querer desistir
de nos permitir os gestos,
a alma descansa.
depoimento
Fiz um texto imenso sobre ver setenta crianças no palco encenando uma peça infantil que escrevi de cama, doente, imaginando o que agradaria cada uma. Era um texto que falava de todas as dificuldades que é viver e escrever sobre viver. Era um texto sobre uma ingenuidade primeira. Apaguei tudo, que fique só a sensação.
09 novembro 2011
a alma
Tento me ver em meu blog e percebo que, como já disse, muitas vezes não me reconheço. Meu blog não é um portal para minha alma. A minha alma, se existe, vive em uma profundo poço sem portas e sem acesso. Cada vez que tento chegar até ela, lanço um balde e puxo de lá aquilo que desejo e recebo apenas alguns goles d´água de palavras que pigam por todo meu exterior. Isso eu escrevo. Aí quem me lê tem a missão de transformar meus pingos em palavras e depois em sentido e, assim, atribuir alguma coisa a mim ou à minha alma.
Pode parecer ridículo, mas não há tarefa mais solitária do que tentar comunicar a alma com alguém. Ela, intraduzível, é gigante e o outro apenas uma portinhola. É por conta disso que devemos viver como se a alma não existisse e comunicar apenas aquilo que nossos olhos podem ver e o coração sentir. Deixemos a alma de lado, ela é pesada e se vier à tona será através de um sofrimento qualquer. Comuniquemo-nos pelo coração, só com ele, sem as convenções sociais e sem a prática do cotidiano. De resto, deixe que o olho veja, a boca fale, o ouvido escute, a pele sinta, o nariz cheire. E Que o amor construa.
Pode parecer ridículo, mas não há tarefa mais solitária do que tentar comunicar a alma com alguém. Ela, intraduzível, é gigante e o outro apenas uma portinhola. É por conta disso que devemos viver como se a alma não existisse e comunicar apenas aquilo que nossos olhos podem ver e o coração sentir. Deixemos a alma de lado, ela é pesada e se vier à tona será através de um sofrimento qualquer. Comuniquemo-nos pelo coração, só com ele, sem as convenções sociais e sem a prática do cotidiano. De resto, deixe que o olho veja, a boca fale, o ouvido escute, a pele sinta, o nariz cheire. E Que o amor construa.
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06 novembro 2011
Trem
sou como um trem que joga uma fumaça densa e espessa pela natureza dando um toque urbano-bucólico por onde passa. Paro somente nas estações porque não posso parar. Meus descaminhos desbravam o interior desafetivamente e não chego a me importar com quem chega ou quem passa, embora não deixe de sentir saudades. Em meus vagões vão pouca gente, o caminho que sigo não é de grande interesse, nem popular, nem levará ninguém ao sucesso. Sou esse trem e dele não escapo. Sou esse trem que viaja o mundo, mas que nunca pode sair dos trilhos, pois seus caminhos são óbvios. Mas sou um trem, só isso, um trem entre muitos. E vou quase vazio.
04 novembro 2011
duromole
é preciso olhar pro mundo e endurecer o coração
é preciso ler poesia e amolecer o coração
coração duromole
coração moleduro
duromolemoleduro
é preciso um coração
de água mole
em pedra dura.
é preciso ler poesia e amolecer o coração
coração duromole
coração moleduro
duromolemoleduro
é preciso um coração
de água mole
em pedra dura.
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30 outubro 2011
os olhos
Teus olhos
têm muitas cores
algumas que nem sei o nome
junto todas
faço um arco-íris de olhos
passeio pela íris e brinco
com a menina dos teus olhos
de canetinha
termino a obra de Deus
colorindo-os ainda mais
com as cores industriais
porém, aos poucos,
as cores começam a desbotar
e teus olhos, fustigados,
começam a escurecer
e a íris, lentamente, empalidece
a menina dos seus olhos cresceu
agora veste preto
está de luto com a vida.
Chora.
Tomara que seja birra.
têm muitas cores
algumas que nem sei o nome
junto todas
faço um arco-íris de olhos
passeio pela íris e brinco
com a menina dos teus olhos
de canetinha
termino a obra de Deus
colorindo-os ainda mais
com as cores industriais
porém, aos poucos,
as cores começam a desbotar
e teus olhos, fustigados,
começam a escurecer
e a íris, lentamente, empalidece
a menina dos seus olhos cresceu
agora veste preto
está de luto com a vida.
Chora.
Tomara que seja birra.
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o que não foi dito
Tenho vontade de um dia só falar aquilo que jamais foi dito. Nunca repetir uma idéia, uma frase ou história. Esse pequeno ímpeto me levará às maiores loucuras reflexivas e ao esforço máximo de renovação do pensamento. Ou...simplesmente, acabarei em um infinito silêncio.
28 outubro 2011
condição
Houve um tempo em que um homem lutou sozinho com os moinhos de vento
e, abatido, caiu derrotado e esperançoso.
Depois, foram grandes ventiladores que, monstruosos, ostentaram seus movimentos perfeitos e triunfantes sobre nossas cabeças.
Hoje somos seres frios, sem batalhas, acomodados e resmungões de ar condicionado.
e, abatido, caiu derrotado e esperançoso.
Depois, foram grandes ventiladores que, monstruosos, ostentaram seus movimentos perfeitos e triunfantes sobre nossas cabeças.
Hoje somos seres frios, sem batalhas, acomodados e resmungões de ar condicionado.
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ventilador
27 outubro 2011
poesia da manhã
Acordo cedo e não me reconheço.
Não sei se madrugo ou se anoiteço
Se sou o que reclama ou o que pede
O que despenca ou o que desce
O que brinca ou amadurece
Não sei se me divirto ou se pereço
Se mergulho na praia ou atolo na serra
Se gosto do grito ou do silêncio
Se sou de família ou do bar
Oscilo e não me reconheço.
E quando deito
tenho uma saudade sem nome
(saudade talvez em inglês)
de tudo que sou
quando não estou sendo
ou que não sou
quando insisto em ser
e essa saudade
me empurra pros lados
pra baixo, pra cima
e a cabeça latejante
pensa, duvida
e até o último instante
acredita na sorte.
Enfim, durmo.
Acordo cedo e não me reconheço.
Não sei se madrugo ou se anoiteço
Se sou o que reclama ou o que pede
O que despenca ou o que desce
O que brinca ou amadurece
Não sei se me divirto ou se pereço
Se mergulho na praia ou atolo na serra
Se gosto do grito ou do silêncio
Se sou de família ou do bar
Oscilo e não me reconheço.
E quando deito
tenho uma saudade sem nome
(saudade talvez em inglês)
de tudo que sou
quando não estou sendo
ou que não sou
quando insisto em ser
e essa saudade
me empurra pros lados
pra baixo, pra cima
e a cabeça latejante
pensa, duvida
e até o último instante
acredita na sorte.
Enfim, durmo.
Acordo cedo e não me reconheço.
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24 outubro 2011
pequena dor

O que eu escrevo é uma pequena coisa. Como diz Veloso e Tê, “uma pequena dor (que)/ quase nem sequer me dói / É só um pequeno ardor que não mata, mas que mói / É uma dor pequenina, quase como se não fosse...” E eu pouco vejo dessas dores por aí de tanto que as pessoas forjam dores gigantes assim como forjam amores. Mas a palavra dor não é certa, não se encaixa na pequena coisa que escrevo, pois que, mais que dor, trata-se de uma sensação que até então me era desconhecida e que apareceu tal qual no quadro de Hopper. Essa sensação não é a de isolamento, muito menos da incapacidade de lidar com outro. De tão pequena, ela pode ser dita como um desacerto levemente melancólico.
O quadro do Hopper chamado “Cinema em Nova Iorque” me passa essa sensação. A moça não é feia, não é triste, nem sofre. Parece talvez que, por um momento, nem que seja só aquele que Hopper captou, ela pare ao lado do cinema, entre a entrada e a saída e pense. Pensa na vida com uma profundidade que eu não sei mensurar, pensa tão longe que toda a razão do universo está contida ali entre assistir ao filme e ir para a rua. Não, é mais que isso, o filme é produto de segundo plano, ela pensa no sentido do evento social e da vontade profunda de se proteger contra o filme, de não se deixar envolver, de esperar, de lutar contra essa ficcionalização das narrativas. E aí, por segundos, ela estanca e o Hoppper, com ela pensa no que vai ser daquele dia, daquela moça, que não se pode saber nada com exatidão. Sabe-se apenas que dói, mas só um pouquinho.
23 outubro 2011
pássaros amarelos

Algumas imagens me livram de viver. Essa frase pretende sintetizar muita coisa e espero que ela o faça. Primeiro foi o texto da Clarice, depois a imagem do Klee, depois a aparência dos pássaros amarelos. Como é difícil viver depois que se sabe que existem pássaros amarelos. Às vezes a gente tem tanto medo de ser, de virar as coisas, que uma paisagem, uma canção ou um amor parecem um esporro, uma ode à liberdade. Mas é que é preciso se livrar de muita coisa pra ser livre, inclusive da ideia de liberdade, essa grande prisioneira de vidas.
É por isso que os pássaros amarelos são o que são e é preciso sentir o mundo de forma bastante sublime para entende-los. Eu gostaria de um dia poder ter a capacidade de transfundir minha existência em seres da vida. Gostaria de realmente tocar uma criança, de sentir um gatinho ronronar, de pular numa piscina e sentir a água na pele, de sentir o vento estragar o cabelo com um sorriso, de andar de mãos dadas sem que pareça que, no caso, um ser prenda o outro. Eu gostaria, enfim, de conseguir ser menos eu, quase nada eu, um não-eu, pra chegar até o outro e lhe tocar com uma beleza que não tem no mundo, assim como fazem os pássaros amarelos do Klee. Eles não existem e justamente por isso fazem os maiores vôos em mim.
E no começo de um dia, gostaria de ver esses pássaros cantar (rouxinol ou cotovia, Julieta?) chamando o sol que vem. Como anotou Buarque: “e o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz...”
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20 outubro 2011
Menina bonita
Menina bonita fake,
aproveita a beleza que os outros vêem
e que tanto você trabalha na academia.
Aproveita e tenta calar o sofrimento
do teu coração de feia.
aproveita a beleza que os outros vêem
e que tanto você trabalha na academia.
Aproveita e tenta calar o sofrimento
do teu coração de feia.
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trabalho
Eu trabalho pra algumas pessoas.
Algumas pessoas trabalham pra mim.
E essas pessoas que trabalham pra mim tem também pessoas que trabalham pra elas.
E as outras pra quem eu trabalho também trabalham pra alguém.
Os maiores chefes do mundo trabalham pra alguém, nem que seja pro sustento de seus filhos.
Acima de nós apenas Deus que trabalhou intensos seis dias e depois deixou as coisas como estão, pra gente, trabalhando, resolver.
Algumas pessoas trabalham pra mim.
E essas pessoas que trabalham pra mim tem também pessoas que trabalham pra elas.
E as outras pra quem eu trabalho também trabalham pra alguém.
Os maiores chefes do mundo trabalham pra alguém, nem que seja pro sustento de seus filhos.
Acima de nós apenas Deus que trabalhou intensos seis dias e depois deixou as coisas como estão, pra gente, trabalhando, resolver.
15 outubro 2011
14 outubro 2011
o choro e a água
Choro debaixo do chuveiro pra não ver minhas lágrimas
e saio do banho com o corpo e a alma lavada;
Seco tudo com a toalha.
e saio do banho com o corpo e a alma lavada;
Seco tudo com a toalha.
13 outubro 2011
Fausto em Quadrinhos V
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Fausto em Quadrinhos IV
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Fausto em Quadrinhos III
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12 outubro 2011
Fausto em Quadrinhos II
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Fausto em Quadrinhos I
06 outubro 2011
inteligência, graça, banco
Eu costumava achar graça em quase tudo e pensava que existia sabedoria em qualquer lugar.
Depois comecei a achar que sábio era quem não se preocupava em o ser e parei de achar graça nas coisas de outrora.
Aí encontrei novas coisas pra achar graça, mesmo que elas não fossem inteligentes.
Depois passei a achar graça em tudo e a achar todo mundo incrivelmente estúpido.
O tempo passou e percebi a graça e a sabedoria nas coisas simples da vida.
Aí me achei irritantemente estúpido: não existe nenhuma coisa simples na vida.
Mesmo assim continuei achando graça.
Teve também uma fase boa: dissociei inteligência de sabedoria e fiquei burro.
Pouco mais, percebi que o sábio é muito malandro pra dar tudo de mão beijada, enquanto que o humorista é, no fundo, uma puta.
Pouco menos, percebi que o sábio é um babaca aristocrata que quer guardar tudo pra si e o humorista um ser altruísta, que leva felicidade a todos.
Hoje não acho nada. Nem uma coisa nem outra.
Hoje, por exemplo, eu vou até depositar um dinheiro no banco.
Depois comecei a achar que sábio era quem não se preocupava em o ser e parei de achar graça nas coisas de outrora.
Aí encontrei novas coisas pra achar graça, mesmo que elas não fossem inteligentes.
Depois passei a achar graça em tudo e a achar todo mundo incrivelmente estúpido.
O tempo passou e percebi a graça e a sabedoria nas coisas simples da vida.
Aí me achei irritantemente estúpido: não existe nenhuma coisa simples na vida.
Mesmo assim continuei achando graça.
Teve também uma fase boa: dissociei inteligência de sabedoria e fiquei burro.
Pouco mais, percebi que o sábio é muito malandro pra dar tudo de mão beijada, enquanto que o humorista é, no fundo, uma puta.
Pouco menos, percebi que o sábio é um babaca aristocrata que quer guardar tudo pra si e o humorista um ser altruísta, que leva felicidade a todos.
Hoje não acho nada. Nem uma coisa nem outra.
Hoje, por exemplo, eu vou até depositar um dinheiro no banco.
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03 outubro 2011
humor
Nunca achei que eu fosse fazer isso, primeiro porque me parece patético, segundo porque creio que algumas coisas não precisam de defesa porque não configuram nenhum ataque ou ameaça. O que me estimulou a escrever, mesmo que breve e caoticamente sobre o humor (eis o meu tema) foi uma frase proferida ontem por Emílio Surita, apresentador e dono do programa Pânico, no rádio e na TV. Disse algo do tipo: Me solidarizo com os companheiros de humor, essa nova geração de comediantes que está mudando a televisão brasileira e digo aos jornalistas que 'se o humor está mal, o jornalismo também está.'. Essa última frase ficou algum tempo martelando na minha cabeça como se representasse algum problema. Vamos guarda-la por enquanto.
Lembro da função do bobo da corte. O bobo servia para divertir o rei e seus súditos contando piadas, fazendo peripécias e um dos seus instrumentos era a inversão de papéis. Ele se colocava no lugar do rei e fazia suas bufonices como se fosse o tal e nessa posição expunha os vícios dos governantes e até suas contradições. Ora, é claro o papel do bobo. A ele era permitido o que a ninguém mais, ou seja, colocar em cheque o lugar do rei. Como bobo, o que ele fazia ou dizia não era levado a sério e se era, servia apenas como instrumento de divertimento e não recaia como algo que devesse ser levado a serio ou investigado. O bobo, portanto, é o primeiro subversivo do absolutismo e quiçá o último, pois seu instrumento era a observação e a capacidade de atingir o âmago das questões.
Lembro também do carnaval. Bakhtin escreve um clássico sobre a carnavalização na idade média, mas não quero me ater a isso. Quero somente expor a inversão do carnaval. Lugar onde o rei é um bufão e onde quem manda é o malandro, a baiana e a mulata. O carnaval tem tal poder subversivo que, na sua vigência, as leis tornam-se mais sutis assim como os pactos amoroso-sexuais. O carnaval, muitas vezes, expõe um líder frágil e tonto, frente à torrente popular. O carnaval, das fantasias, inverte a ordem do cotidiano e provoca um choque de realidades que é visto com graça, tanto que se diz “brincar o carnaval”.
Vejo o humor atual. O que ele tem diferente de qualquer tipo de humor? Nada. É um humor comum, velho como qualquer outro, mas que parece que havia sido interditado por um humor televisivo de estereótipos. A noção de Freyre de novo se dá no Brasil: Casa Grande e Senzala. Há um humor de dentro da casa e um humor da rua. Uma coisa é permitida aqui e outra ali e ai de quem resolver misturar. Acontece que sempre há novas gerações, e principalmente uma geração internet, cujo humor é produzido dentro de casa e exposto do lado de fora, ou seja, uma geração que não encontra o limite entre cá e lá tão bem exposto e resolver misturar tudo. O humor ganha, pensamos todos, penso eu, pensa o humorista e pensa o cientista político.
Todo mundo concorda que o novo humor é bom e ponto, isso é fato. Aí é uma raça, e agora eu retomo, chamada jornalista, o verdadeiro alquimista do século XXI e transforma tudo em qualquer coisa. A fórmula é simples: tira o humor do humor, pega a frase de humor, agora sem humor e a expõe fora de contexto para que qualquer um leia. Eu leio, você lê, qualquer um lê e pensa: “Que execrável, este senhor feriu princípios...”
Pronto, eis a minha explicação sobre a perseguição ao humor atual. Uma bobagem, pequena, insignificante que os jornalista tentam manter com forno a lenha para que os infinitos e sucessivos programas de debate e as colunas sociais dos sites que precisam ser atualizadas a cada segundo mantenham-se em funcionamento sem que esses profissionais precisem de demasiado esforço, afinal de contas, tem uns caras aí falando umas coisas que não pode, né?
Lembro da função do bobo da corte. O bobo servia para divertir o rei e seus súditos contando piadas, fazendo peripécias e um dos seus instrumentos era a inversão de papéis. Ele se colocava no lugar do rei e fazia suas bufonices como se fosse o tal e nessa posição expunha os vícios dos governantes e até suas contradições. Ora, é claro o papel do bobo. A ele era permitido o que a ninguém mais, ou seja, colocar em cheque o lugar do rei. Como bobo, o que ele fazia ou dizia não era levado a sério e se era, servia apenas como instrumento de divertimento e não recaia como algo que devesse ser levado a serio ou investigado. O bobo, portanto, é o primeiro subversivo do absolutismo e quiçá o último, pois seu instrumento era a observação e a capacidade de atingir o âmago das questões.
Lembro também do carnaval. Bakhtin escreve um clássico sobre a carnavalização na idade média, mas não quero me ater a isso. Quero somente expor a inversão do carnaval. Lugar onde o rei é um bufão e onde quem manda é o malandro, a baiana e a mulata. O carnaval tem tal poder subversivo que, na sua vigência, as leis tornam-se mais sutis assim como os pactos amoroso-sexuais. O carnaval, muitas vezes, expõe um líder frágil e tonto, frente à torrente popular. O carnaval, das fantasias, inverte a ordem do cotidiano e provoca um choque de realidades que é visto com graça, tanto que se diz “brincar o carnaval”.
Vejo o humor atual. O que ele tem diferente de qualquer tipo de humor? Nada. É um humor comum, velho como qualquer outro, mas que parece que havia sido interditado por um humor televisivo de estereótipos. A noção de Freyre de novo se dá no Brasil: Casa Grande e Senzala. Há um humor de dentro da casa e um humor da rua. Uma coisa é permitida aqui e outra ali e ai de quem resolver misturar. Acontece que sempre há novas gerações, e principalmente uma geração internet, cujo humor é produzido dentro de casa e exposto do lado de fora, ou seja, uma geração que não encontra o limite entre cá e lá tão bem exposto e resolver misturar tudo. O humor ganha, pensamos todos, penso eu, pensa o humorista e pensa o cientista político.
Todo mundo concorda que o novo humor é bom e ponto, isso é fato. Aí é uma raça, e agora eu retomo, chamada jornalista, o verdadeiro alquimista do século XXI e transforma tudo em qualquer coisa. A fórmula é simples: tira o humor do humor, pega a frase de humor, agora sem humor e a expõe fora de contexto para que qualquer um leia. Eu leio, você lê, qualquer um lê e pensa: “Que execrável, este senhor feriu princípios...”
Pronto, eis a minha explicação sobre a perseguição ao humor atual. Uma bobagem, pequena, insignificante que os jornalista tentam manter com forno a lenha para que os infinitos e sucessivos programas de debate e as colunas sociais dos sites que precisam ser atualizadas a cada segundo mantenham-se em funcionamento sem que esses profissionais precisem de demasiado esforço, afinal de contas, tem uns caras aí falando umas coisas que não pode, né?
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01 outubro 2011
Futebol: A Insustentável Necessidade de ser Ídolo
A vantagem de ter apenas 26 anos é que, ao falar de futebol, o saudosismo não me invade, nem a memória cria subterfúgios falsos para análise. Imortal, para mim, no futebol é somente Romário e todos os outros são apenas candidatos do futuro. O que me reservo a dizer é apenas uma impressão do passado. Pelo que me parece, jogar futebol era mais que uma vocação, uma inclinação pessoal do jogador. Sem mistificação, a maioria deles não sabia fazer muitas outras coisas: não tinham estudo, não possuiam grande eloquência nas artes ou no discurso e o futebol era a maneira popular de expressar uma arte, uma inclinação pessoal para a beleza. E assim, jogava-se bola como um poeta: boêmio, malandro e transgressor, fazendo da bola um parceiro das peripércias inesquecíveis por uma platéia voraz.
Faço um salto para olhar um fato específico: a necessidade dos jogadores da atualidade em se tornarem ídolos. Jogar bola sim, se divertir com ela também, mas antes de tudo é preciso ser ídolo. A permanência de Neymar no Santos nada tem a ver com futebol, dinheiro, status, mas sim com a vigência de vir a ser um ídolo em seu clube e ver seu nome figurado ao lado de Pelé. Ronaldo, ao deixar a possibilidade de jogar no Flamengo e ao aceitar a proposta do Corinthians, percebeu que no seu time do coração, onde realmente poderia ser ídolo, já havia muito de sua vida pessoal com incidentes pessoais, problemas, histórias e controvérsias. No Corinthians, torcida apaixonada, ele reviu a possibilidade de recomeçar a construção de uma imagem de ídolo, agora nova e que se perpetuaria para a eternidade do clube. Esse fato chega a me espantar, como se Ronaldo, com o futebol que possui, precisasse realmente disso para ser um ídolo. Até a escolha de Adriano pelo Corinthians, após ter sido taxativamente negado pelo Flamengo, é a única possibilidade que ele vê de jogar bola e, ainda sim, ser visto como ídolo.
Esse fato tem se sudecido por tantas vezes que o que vemos são ídolos forjados, fracos, sem idolatria, a não ser aquela forçada pela impressa e atestada pelos tolos apaixonados. Tanto que alguns ídolos chegam até a renegar o status de tal, como Zico ao ver que seu nome acaba por se sujar ao ser colado à seu clube de coração. Poucos sabem se colocar na posição de ídolos e representantes como Rogério Ceni e Marcos; a maioria, buscando uma idolatria a qualquer custo, se rende a uma falsa masturbação de notícias com seu nome, elevando-o à status que nem ele mesmo pode prever e previnir, fazendo do nosso futebol um enorme berço de ídolos de segunda, fracassados, que caminham para finais de carreira triste, em que foram pouco ídolos em muitos clubes e amados apenas pelos tolos, nunca por aqueles que vem o futebol como a maior manifestação da beleza.
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29 setembro 2011
Clarim e Rosaura
Conto livremente inspirado nas personagens de “A vida é Sonho” de Calderon de La Barca
Sentado de frente para um campo aberto, que culminaria num rio lá embaixo, estava o Clarim que vestia calça e camisa pretas, justas e gastas, que mais pareciam pijamas. Olhava Rosaura que atrás de uma grande árvore mudava de roupa: primeiro jogara a longa saia para o lado, depois a blusa e agora, ao terminar de aperta a cinta, buscava numa sacola umas roupas. Eram pretas também. Uma calça e um casaco que contrastavam com a camisa branca que botara por baixo. Amarra os sapatos, veste um cinto e sai de trás da árvore dizendo a Clarim: “E por quê você não se vestiu?”
Porque eu só me visto quando me mandam me vestir, como minha senhora não mandou que eu me vestisse, eu não me vesti. Por acaso, o senhor a viu?
Rosaura ri largamente, dizendo a Clarim que era ela quem ali estava, não havia homem nenhum e que ela assim se vestira porque tinha uma missão. O gracioso com cara curiosa disse dando de ombros: “ói, então eu sirvo um que é dois.”, levantando-se e indo ele para trás da árvore se arrumar.
Por cima da calça preta vestiu uma xadrez colorida de verde e vermelho que por estar curta e ele estar sem meias, tinha um toque cômico, pois o fazia andar curvado. O longo casaco que vestia e cobria a calça quase que até nos joelhos era também da mesma cor e tinha botões amarelos. Depois de tudo ainda vestiu um cinto vermelho, que ajustava a casaca na cintura e um chapéu bege com uma longa pena laranja. “Estou pronto”, disse empunhando uma espada de madeira, ao mesmo tempo que Rosaura, travestida, guardava na cintura uma espada dourada e brilhante.
Iam os dois a andar, sempre com um cantil de água na mão. Rosaura um pouco desajeitada por não saber andar tal qual homem levava constantemente a mão à barriga e à espada ajeitando-se dentro do paletó. Clarim possuía uma leveza no andar e no olhar que o fazia, apesar de ir sempre atrás de sua ama, parecer mais livre, mais dono de seu destino, o que era estranho, uma vez que seus rumos estavam subordinado ao de sua patroa. Ele ia à frente, apesar de ir atrás.
Ao chegar próxima ao rio, Clarim ultrapassa sua dona e começa a correr até chegar na água. Num ímpeto de alegria, vira uma ou duas cambalhotas e pára justamente a alguns centímetros da margem, rindo alto, feliz. Cata um graveto e começa a fazer uma redemoinho na água, espantando os peixes que por ali passavam. Rosaura que chega poucos instantes depois não consegue deixar de sorrir, apesar de ter um fundo olhar de preocupação, cujo olhar Clarim não consegue deixar de reparar:
Oi. Se você tá assim, com essa roupa e com essa cara, é porque não deve estar nada bom, né?
Ruim não está, mas pode mudar também.
Nesse instante, aparece por cima deles um enorme trenó sendo carregado por dois cavalos brancos. Clarim segura Rosaura pela mão e a leva correndo atabalhoadamente para dentro do carro, não conseguindo evitar de reparar na beleza dourada do transporte. Com os dois bem acomodados e um pouco nervosos, os cavalos começam a andar pela relva e pouco depois o trenó começa a levantar vôo subindo e subindo. Cada vez mais alto, chega até uma nuvem, a única que tinha naquele céu da tarde mais bela daquela primavera . Aos poucos bem aos poucos, ele vai se tornando menor e menor até desaparecer por completo no imenso azul claro do céu, que de imóvel nos traz somente um som: o de uma risada já longínqua de Clarim.
2008
27 setembro 2011
biografia
Cada dia que passa aparecem novos eus: uns bons, outros maus, alguns construídos, outros involuntários, alguns planejados, outros produto das contingências. Eles vão se sucedendo entre tantos mins que chego a perder de vista até onde posso chegar comigo. Creio que não muito longe. De qualquer maneira, que todos meus eus, dos céus azuis e dos blues, devem necessariamente ficar fora de minha biografia. Que tal uma biografia composta por tirinhas de humor negro?
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14 setembro 2011
luiz e antonio
Eu sou o Luiz, pelo menos para a maioria. Alguns me chamam de Luizinho e tal, mas isso faz de mim apenas um Luiz, ou um pequeno Luiz. Acontece que me chamo Luiz Antonio e que, portanto, também existe um Antonio em mim. Ele é uma espécie de alterego meu, mas não é meu oposto, nem um complemento, pelo contrário, ele até parece muito comigo, mas é outro. Ele tem composições diferentes e isso muda tudo. Ele também é pequeno, mas é mais forte, mais cofiante, no entanto, é também mais reclamão e deprimido. O Antonio convive com o Luiz a cada dia e acompanha seu crescimento e sobrevive da atenção que este lhe dá. Ele é um pouco invejoso por não ser reconhecido pelo mundo e às vezes até reclama um lugar no mundo, o que o Luiz lhe dá quando escreve: assina Luiz ao lado do Antonio, afirmando ao mundo que a obra é dos dois.
A questão é que o Luiz que vive e o Antonio é uma sombra, uma companhia, um Sancho Pança. Muito eu tenho a falar dessa relação entre os dois, mas creio que aqui não cabe.
Um dia precisamos falar desses duplos, daqueles que ninguém diz. Um dia. Vai demorar, Luiz é muito importante e eu também.
A questão é que o Luiz que vive e o Antonio é uma sombra, uma companhia, um Sancho Pança. Muito eu tenho a falar dessa relação entre os dois, mas creio que aqui não cabe.
Um dia precisamos falar desses duplos, daqueles que ninguém diz. Um dia. Vai demorar, Luiz é muito importante e eu também.
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10 setembro 2011
astronomia
Astronomia nunca me fascinou. Não vejo graça em saber o que há do outro lado do mundo ou dos lugares recônditos onde o universo foi criado e vive sem a participação humana. Minha falta de interesse advém do fato de que um lugar em que jamais poderei ir, mesmo que fotografe e entenda como funciona, é apenas um espaço virtual. Amplio a noção: qualquer lugar em que eu jamais possa ir, simplesmente é um não-lugar, ou seja, um lugar de não-participação e um lugar que não interessa saber o que se passa, ao menos que haja algum risco para minha galáxia ou simplesmente a terra, meu lugar.
"Ah, mas você pode descobrir como funciona tudo no universo, pode entender qual o sentido da vida, de onde viemos, pra onde vamos." Ok, entendo o desespero, mas preciso nega-lo.
Acho que, se é um lugar que não posso participar, qualquer dúvida em relação a ele é falsa. Descobrir se a vida em outro planeta não altera absolutamente nada no curso do mundo. Descobrir água ou qualquer outra coisa também.
Aí vem as pessoas dizer que é típico do humano querer conhecer mais. Concordo, mas é preciso saber O QUÊ é preciso saber mais. Perguntas cujas respostas não alteram o curso do mundo de nada valem. Ir a lua não significou nada além de ir a lua. Se com o universo for possível entender de deus, o que isso mudaria também? Acho improvável que ele exista mais ou menos do que já existe. A existência de deus não depende da existência de deus, depende das pessoas pra propagarem essa idéia e a grande verdade ele só vai poder existir como um deus livre quando ele deixar de existir. É um paradoxo dos bons.
Gosto de usar pra entender o mundo o conceito de "random". Tá tudo aí meio que quase sem regras e as regras que estabelecemos simplesmente não servem pra alimentar os mais pobres nem pra entender mais da condição humana.
De qualquer forma, aos estudiosos deixo meu abraço. A dedicação de vocês é algo que admiro, é preciso muita fé pra olhar pro céu, ver tudo que vê e ainda assim querer dar uma regra pra esse azul escuro.
"Ah, mas você pode descobrir como funciona tudo no universo, pode entender qual o sentido da vida, de onde viemos, pra onde vamos." Ok, entendo o desespero, mas preciso nega-lo.
Acho que, se é um lugar que não posso participar, qualquer dúvida em relação a ele é falsa. Descobrir se a vida em outro planeta não altera absolutamente nada no curso do mundo. Descobrir água ou qualquer outra coisa também.
Aí vem as pessoas dizer que é típico do humano querer conhecer mais. Concordo, mas é preciso saber O QUÊ é preciso saber mais. Perguntas cujas respostas não alteram o curso do mundo de nada valem. Ir a lua não significou nada além de ir a lua. Se com o universo for possível entender de deus, o que isso mudaria também? Acho improvável que ele exista mais ou menos do que já existe. A existência de deus não depende da existência de deus, depende das pessoas pra propagarem essa idéia e a grande verdade ele só vai poder existir como um deus livre quando ele deixar de existir. É um paradoxo dos bons.
Gosto de usar pra entender o mundo o conceito de "random". Tá tudo aí meio que quase sem regras e as regras que estabelecemos simplesmente não servem pra alimentar os mais pobres nem pra entender mais da condição humana.
De qualquer forma, aos estudiosos deixo meu abraço. A dedicação de vocês é algo que admiro, é preciso muita fé pra olhar pro céu, ver tudo que vê e ainda assim querer dar uma regra pra esse azul escuro.
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05 setembro 2011
vazio
Faz quase um mês que não posto no blog. Entrar nele hoje e olhar me deu uma sensação de vazio, senti vontade de escrever, filosofar sobre qualquer coisa ou simplesmente preencher aquele vazio. Depois pensei que não, que era ruim preencher o vazio, que estamos acostumados demais a não aceitar pequenas partes incompletas em nós e nunca aceitamos fracassos ou perdas e enchemos alguém de palavras, insultos, ou simplesmente, barulhos.
Pensei no valor de não escrever hoje.
Mas escrevi.
Pensei no valor de não escrever hoje.
Mas escrevi.
17 agosto 2011
dor de barriga
Minha barriga dói. Tenho medo que seja apêndice, mas sei que não é. Tenho medo que seja torção de testículo, tudo indica que não é, mas como já foi uma vez...Jogo no google: "dor aguda na barriga" e eles me diagnosticam com várias doenças. Leio todas, sou hipocondríaco. Ela só para de doer quando estou sentado. São 4:47 da manhã e nada. Não acordo cedo, achei que teria uma noite de descanso, mas não. Durante a noite tudo fica estranho. Dói mais, dor mais longa, quase eterna.
15 agosto 2011
sexo e marketing
“A liberdade sexual se transformou em marketing comportamental”, disse Luiz Felipe Pondé agora pouco no Roda Viva. Ele ficou muito conhecido quando na eleição do Papa Bento XVI pareceu ter ficado satisfeito com a escolha. Na verdade, ele acaba de dizer que Bento havia feito na década de 80 uma crítica à Teologia da Libertação que cairia ou no marxismo, abandonando a ideia de Deus, ou na auto-ajuda barata e, nesse sentido, apoiava a opinião do Papa. Bom, assim sendo, eu também apoio.
Mas o que ficou na minha cabeça foi a frase sobre a liberdade sexual. Segundo ele, a conquista da década de 60, resultou em liberdade e insatisfação. A necessidade de alta performance social, política, atlética, intelectual do ser humano atual culmina em uma tentativa absurda de se mostrar absolutamente livre em relação ao sexo, e se configura no enclausuramento do desejo e na obrigatoriedade de coitos excessivos com performances pernósticas, históricas de um gozo infinito.
Essa prisão que é a obrigação da performance e mais, do marketing que se faz da performance que deve se evidenciar em vestígios corpóreos, torna o ser humano em um ser sexualmente biônico, uma vez que os defeitos perdoados na vida cotidiana são imperdoáveis na atividade sexual, correndo o risco de se ser conhecido como careta, antiquado e conservador.
É preciso olhar melhor para a questão do marketing. O sexo é uma questão pública. É preciso que se veja, no corpo e nas palavras, que aquele ser é o mais perfeito para a atividade sexual e, qualquer outro tipo pode ser esmagado por esse corpo gigante e sexualizado.
Pondé diz que, para o sexo, o pecado faz melhor que a liberdade e que, justamente por isso, a Idade Média era a época em que mais se praticava sexo. Percebo a comparação que ele faz: é como se atualmente o ser humano fizesse uma auto-masturbação a dois, onde se chega ao nível máximo, da velocidade cinco, como se o outro fosse substituído por uma máquina que não lhe permite escapar.
O sexo, aquele tântrico do dia inteiro que começava no primeiro olhar, no primeiro toque e nos beijso infinitos, aquele do kama sutra que buscava o prazer em tudo que contém o corpo do outro, parece ter morrido. É preciso fazer sexo como se consome, até o dia em que vamos finalmente nos tornar oswaldianos e vamos comer a nós próprios.
Mas o que ficou na minha cabeça foi a frase sobre a liberdade sexual. Segundo ele, a conquista da década de 60, resultou em liberdade e insatisfação. A necessidade de alta performance social, política, atlética, intelectual do ser humano atual culmina em uma tentativa absurda de se mostrar absolutamente livre em relação ao sexo, e se configura no enclausuramento do desejo e na obrigatoriedade de coitos excessivos com performances pernósticas, históricas de um gozo infinito.
Essa prisão que é a obrigação da performance e mais, do marketing que se faz da performance que deve se evidenciar em vestígios corpóreos, torna o ser humano em um ser sexualmente biônico, uma vez que os defeitos perdoados na vida cotidiana são imperdoáveis na atividade sexual, correndo o risco de se ser conhecido como careta, antiquado e conservador.
É preciso olhar melhor para a questão do marketing. O sexo é uma questão pública. É preciso que se veja, no corpo e nas palavras, que aquele ser é o mais perfeito para a atividade sexual e, qualquer outro tipo pode ser esmagado por esse corpo gigante e sexualizado.
Pondé diz que, para o sexo, o pecado faz melhor que a liberdade e que, justamente por isso, a Idade Média era a época em que mais se praticava sexo. Percebo a comparação que ele faz: é como se atualmente o ser humano fizesse uma auto-masturbação a dois, onde se chega ao nível máximo, da velocidade cinco, como se o outro fosse substituído por uma máquina que não lhe permite escapar.
O sexo, aquele tântrico do dia inteiro que começava no primeiro olhar, no primeiro toque e nos beijso infinitos, aquele do kama sutra que buscava o prazer em tudo que contém o corpo do outro, parece ter morrido. É preciso fazer sexo como se consome, até o dia em que vamos finalmente nos tornar oswaldianos e vamos comer a nós próprios.
14 agosto 2011
tão banal
Sempre fui adepto à breguices. A tragédia que é a vida cotidiana me fascina, justamente porque nada parece se destacar de uma mistura bruta de pequenos fatos sem que haja qualquer hierarquia entre eles. É tudo igual, desde uma nota dez de uma prova até a espera de um ônibus. Eu gostaria que as coisas fossem épicas, que todos os gestos lembrassem um exército de gladiadores invadindo uma cidade, pilhando tudo, pulando as regras e tornando o comum em história. As pequenas narrativas não fascinam, enfastiam apenas.
E aí que tudo tem um gosto de pão dormido e parece repetitivo. É como o Benjamin diz, a grande catástrofe é que nada acontece. Esse é o maior problema. Claro que uma mente analítico-clichê diria que se a vida fosse feita de grandes momentos não haveriam tantos grandes momentos ou que, no fim, ficaríamos cansados desses momentos, uma vez que ninguém aguenta todo o tempo com grandes emoções.
Eu sei, eu também entendo isso, também quero conforto, sono, cama e filmes, mas a memória é violenta, desvirtua os fatos e a gente nem consegue mais olhar as coisas com lucidez. Só pode ser lúcido um ser sem memória, porque só ele é capaz de ver as coisas longe desses tentáculos do tempo que passa.
É essa a tragédia e é ela que eu sinto...daí eu resolvo escrever e fica tão banal, tão idiota que nem parece que fui eu que escrevi, logo eu, aquele cara que gosta de ser político, que assiste filme dando nota ao invés de mergulhar na história. Essa é a tragédia e eu não sei fugir dela, na verdade não posso, porque é dela que eu sou feito. A catástrofe é ter que pra sempre existir dentro do comum, do corriqueiro, dentro de paredes de quartos.
E aí que tudo tem um gosto de pão dormido e parece repetitivo. É como o Benjamin diz, a grande catástrofe é que nada acontece. Esse é o maior problema. Claro que uma mente analítico-clichê diria que se a vida fosse feita de grandes momentos não haveriam tantos grandes momentos ou que, no fim, ficaríamos cansados desses momentos, uma vez que ninguém aguenta todo o tempo com grandes emoções.
Eu sei, eu também entendo isso, também quero conforto, sono, cama e filmes, mas a memória é violenta, desvirtua os fatos e a gente nem consegue mais olhar as coisas com lucidez. Só pode ser lúcido um ser sem memória, porque só ele é capaz de ver as coisas longe desses tentáculos do tempo que passa.
É essa a tragédia e é ela que eu sinto...daí eu resolvo escrever e fica tão banal, tão idiota que nem parece que fui eu que escrevi, logo eu, aquele cara que gosta de ser político, que assiste filme dando nota ao invés de mergulhar na história. Essa é a tragédia e eu não sei fugir dela, na verdade não posso, porque é dela que eu sou feito. A catástrofe é ter que pra sempre existir dentro do comum, do corriqueiro, dentro de paredes de quartos.
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11 agosto 2011
a falha na democracia
Eu sempre desacretidei na democracia. Não que seja contra ela, mesmo porque é sabido que ainda é a forma menos agressiva de governo ao instinto humano assassino. Sou contra, pelo menos, ao nosso modelo democrático de representação. Acredito mais, na verdade, em um modelo de participação, em que se misture o ativo e o passivo e que a ação social mobilize ao invés de incluir a exclusão.
Meu exemplo da falha da democracia é simples. Onde trabalho está havendo uma eleição para o nome do Mascote do clube. As crianças propõe o nome e depois votam nos que preferem e, elegendo-se um nome por turma, se chegará a um turno mais geral onde será escolhido o campeão.
Em uma turma foram dados 10 nomes, a quantidade de alunos que havia, por parecer pouco ou não haver nenhum que agradasse foi pedido mais 3 e assim fecharam-se com 13 candidatos. Para que nenhum aluno votasse no próprio escolhido, pediu-se que eles votassem em dois. Foi quando um nome começou a despontar como favorito, inclusive com torcida. Trata-se de Rey. Entretanto, esses que votavam em Rey eram obrigados a votar em mais um, então escolheram Frut, um daqueles candidatos que apareceram por último, por parecer impossível de vencer.Um outro grupo se colocou claramente contrário a escolha de Rey e, percebendo a manobra anti-democrática, também começou a votar em Frut, simplesmente para fazer frente a Rey, mas sem convicção e sem haver outra preferência. Um outro nome, Boy, corria por fora, pois esse segundo grupo votava em Frut para dar força e em um outro qualquer, por conta da regra estabelecida. Assim ficou formado um segundo turno com Rey, Boy e Frut.
O grupo que queria Rey gritava, batia palmas e entoava coros, era formado por metade da turma mais um. Os demais faziam oposição sabendo que provavelmente perderiam. Até que começa o segundo turno e os que votavam em Rey, no segundo voto, distribuiam entre Frut e Boy, para enfraquece-los. O outro grupo além de votar em Frut, agora uma decisão fortalecida, votava em Boy .
Com grande espanto no fim da votação o resultado: Frut foi o vencedor, Boy o segundo colocado e Rey, o único com torcida o último.
É isso. Como explicar?
Meu exemplo da falha da democracia é simples. Onde trabalho está havendo uma eleição para o nome do Mascote do clube. As crianças propõe o nome e depois votam nos que preferem e, elegendo-se um nome por turma, se chegará a um turno mais geral onde será escolhido o campeão.
Em uma turma foram dados 10 nomes, a quantidade de alunos que havia, por parecer pouco ou não haver nenhum que agradasse foi pedido mais 3 e assim fecharam-se com 13 candidatos. Para que nenhum aluno votasse no próprio escolhido, pediu-se que eles votassem em dois. Foi quando um nome começou a despontar como favorito, inclusive com torcida. Trata-se de Rey. Entretanto, esses que votavam em Rey eram obrigados a votar em mais um, então escolheram Frut, um daqueles candidatos que apareceram por último, por parecer impossível de vencer.Um outro grupo se colocou claramente contrário a escolha de Rey e, percebendo a manobra anti-democrática, também começou a votar em Frut, simplesmente para fazer frente a Rey, mas sem convicção e sem haver outra preferência. Um outro nome, Boy, corria por fora, pois esse segundo grupo votava em Frut para dar força e em um outro qualquer, por conta da regra estabelecida. Assim ficou formado um segundo turno com Rey, Boy e Frut.
O grupo que queria Rey gritava, batia palmas e entoava coros, era formado por metade da turma mais um. Os demais faziam oposição sabendo que provavelmente perderiam. Até que começa o segundo turno e os que votavam em Rey, no segundo voto, distribuiam entre Frut e Boy, para enfraquece-los. O outro grupo além de votar em Frut, agora uma decisão fortalecida, votava em Boy .
Com grande espanto no fim da votação o resultado: Frut foi o vencedor, Boy o segundo colocado e Rey, o único com torcida o último.
É isso. Como explicar?
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03 agosto 2011
poucas palavras
eu queria escrever com poucas palavras
mas só consigo escrever pouco
com muitas palavras.
mas só consigo escrever pouco
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por que eu não escrevo um romance
Essa é a pergunta e eu descobri a resposta: porque eu não vivi nada. É preciso muita experiência na vida, muito ateísmo frustrado, muita discussão sobre o nada, muita briga, porrada, muita injustiça, preconceito, racismo, entre outros. É preciso que muita coisa ruim aconteça para que a experiência deixe de ser na carne e se incorpore nas fibras, nos poros, nos sentidos.
A juventude tem alguma coisa feliz no corpo. O corpo jovem é elástico, obedece, faz rir e se recupera rápido de qualquer coisa, isso impede que se sinta as coisas por tempo suficiente. E um romance, pelo menos um dos bons, maduro, precisa dessa coisa aí que não sei o nome. Foi-se o tempo em que se sabia o que escrever porque o mundo mesmo dizia. Agora que escrever é inútil que o ato da escrita se torna mais importante ainda. Isso é essencial: em um mundo que NINGUÉM lê, a função do escritor é ainda maior, vital, quase uma natureza.
E eu não escrevo um romance por tudo isso e se você escreve é porque não pensou o que eu pensei e, portanto, seu livro não me interessa.
A juventude tem alguma coisa feliz no corpo. O corpo jovem é elástico, obedece, faz rir e se recupera rápido de qualquer coisa, isso impede que se sinta as coisas por tempo suficiente. E um romance, pelo menos um dos bons, maduro, precisa dessa coisa aí que não sei o nome. Foi-se o tempo em que se sabia o que escrever porque o mundo mesmo dizia. Agora que escrever é inútil que o ato da escrita se torna mais importante ainda. Isso é essencial: em um mundo que NINGUÉM lê, a função do escritor é ainda maior, vital, quase uma natureza.
E eu não escrevo um romance por tudo isso e se você escreve é porque não pensou o que eu pensei e, portanto, seu livro não me interessa.
02 agosto 2011
anti-sabedoria popular
Algumas vezes me espanta a sabedoria popular, como o conselho esperto de uma senhora pra uma moça aflita com seus relacionamentos ou a opinião crua de um pedreiro que já viu tanta coisa que nada pode lhe surpreender. Do outro lado, há uma completa estupidez popular que faz parte de um pensamento rápido, em síntese, não dialético, que reage a tudo e transforma a mais intensa descrição da sociedade em algo corriqueiro e feio.
Matou a mãe porque ela não fez batata-frita.
Um motorista de ônibus insiste em correr, insiste. Parou pra mim, mas antes de eu subir já arrancava, um senhor quase caiu ao fundo e pediu atenção. Um grupo xingou o moço que não parou no ponto. O ônibus teve de fazer uma parada brusca, violenta, por conta de um carro que atravessou a pista. Um motorista de ônibus insiste em correr, insiste.
Eu, do meu canto, fico tentando entender como isso pode se dar. Eu, do meu canto, fico tentando entender como isso pode não mudar.
Adolescente está grávida do monstro da Paraíba.
E o mundo continua...
Matou a mãe porque ela não fez batata-frita.
Um motorista de ônibus insiste em correr, insiste. Parou pra mim, mas antes de eu subir já arrancava, um senhor quase caiu ao fundo e pediu atenção. Um grupo xingou o moço que não parou no ponto. O ônibus teve de fazer uma parada brusca, violenta, por conta de um carro que atravessou a pista. Um motorista de ônibus insiste em correr, insiste.
Eu, do meu canto, fico tentando entender como isso pode se dar. Eu, do meu canto, fico tentando entender como isso pode não mudar.
Adolescente está grávida do monstro da Paraíba.
E o mundo continua...
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