10 setembro 2012

porta-bandeira



Não é fevereiro, mas a porta-bandeira veste sua fantasia, seu uniforme e se arruma da melhor maneira possível pra encantar os olhos dos outros. Carrega-se com cuidado e esmero da mais humilde simpatia e simplória humildade para nos olhos deles ser a fonte da futura felicidade.
Mal sabe a porta-bandeira que sua data passou, sua vida passou, sua alegria e todo aquele samba que encantava a si primeiro e depois os outros passou como uma torrente que primeiro trouxe a tempestade e depois a bonança que não se quis e não se esperava.
A pobre moça, feia, pobre, preta, pele ruim corpo grande demais pra ter gestos gentis, belos e ordenados, com uma completa abundância de vida que transborda e transcende a lógica racional de qualquer um que a olhe, ela, isso tudo, agora está na esquina, vestida com uma roupa tamanho padrão, também feia, mas muito colorida, está com um adesivo no peito mal colado, um olhar cabisbaixo e doído de humilhação, do papel ridiculamente necessário pra sua sobrevivência.
Ela agora segura a bandeira de um candidato a prefeito: um homem sorridente, branco, pele boa, gesto europeu, irritantemente feliz. Ela odeia aquele sujeito, mas o ama.  Ela segura sua bandeira com um olhar pra lá, pro outro mundo, como se estivesse morta naquele instante.
Ela e candidato formam uma simbiose do que impossível. Uma mistura daquilo que há de mais violento na humanidade, naquilo que reatualiza a escravidão, a servidão e tudo aquilo que a gente tenta vencer e se vê quase sempre repetindo. O candidato se acha bom pra ela, se acha capaz. Ela sabe que ele é um idiota, mas ela também sabe que o mundo é governado por idiotas e aceita isso com complacência e um sorridente olhar triste de porta-bandeira.
A porta-bandeira continua sendo porta-bandeira. Mas seu carnaval nunca mais vai voltar.

09 setembro 2012

o feriado

Uma vez você me pediu que escrevesse pra você. Eu disse que não tinha muitas coisas ainda pra dizer e quando tivesse faria com todo carinho. Agora, depois de tanta coisa, digo que não sei nem por onde começar. Talvez pela sua cara ao ver o balde do kfc com a cartinha, ou então da gente tomando um chopp e rindo de coisas idiotas como seu amor mal resolvido com calabresas, ou então da tarde completamente disperdiçada entre carinhos, cafunés e sonecas, ou os passeios por livrarias, restaurante e parques e praças em que casais não podem ficar no colo um do outro (mas a gente ficou), ou até então a gente bêbado conversando com o taxista gordo parecido com o cara do exaltasamba.
Não sei, sinceramente não sei o que dizer ou por onde começar. Talvez seja uma imagem que queira guardar de você: seu sorriso vendo friends, primeiro quando eu tava no banho e ouvia as gargalhadas e depois você no meu ombro rindo de novo de tudo que já havia rido.
Acho que eu havia dito pra você que "deixa ser como será". Depois de um feriado desse, flor, tenho que dizer, mudando um pouco: "deixa ser, um pouco, porque ser será e acho que é."
um beijo pra tu, manolo

05 setembro 2012

as mãos

Desde a primeira vez que minha mão me masturbou
pedi-a em casamento.
ofereci-a a outra, a esquerda,
que, tímida, logo se encantou com os charmes da primeira.

e aos poucos as duas começaram uma espécie de dança:
se na rua, envergonhadas, andavam longe, desencontradas,
bastava um tédio, um espera, uma missa, uma tristeza,
pras duas convulsivamente se encontrarem e se entrelaçarem
num baile erótico que as conduzia as mais belas carícias.

eu, testemunha, do furtivo amor
acompanhava essa dança
como quem acompanha a si próprio
e dançava com elas
como se fossem minhas.

aos poucos,
com  a chegada da aliança -
que só a esquerda usou -
fez-se uma tristeza,
deu-se um abandono:

a direita, livre e limpa
mantinha-se perfeita,
e dependente do contato
dos apertos de outras mãos.

já a esquerda,
amarrada ao anel,
sofria.

então as duas se separaram,
soferam.
e agora sem aliança
continuam ocasionalmente os bailes,
as danças e os encontros furtivos.

Agora mais velhas,
já não tem o mesmo talento
e desenvoltura de outros tempos.

Ainda sozinhas,
sofrem
e pra sempre sofrerão.

mas vez ou outra ainda me masturbam,
alternadamente,
com saudade de outros tempos.

04 setembro 2012

Entrevista Shuffle

Entrevista na íntegra de Letícia Knibel comigo que resultou na matéria da Revista On.


foto divulgação



Em que você se inspirou para escrever o conto Shuffle? E como surgia a ideia da peça?

Eu estava pensando muito na relação entre homem e máquina e em como hoje em dia a máquina funda uma segunda natureza no homem, fazendo parte do organismo da gente, como uma extensão de nosso corpo. Nesse sentido, a máquina, a tecnologia com suas proteses, marcapassos e até computadores e redes sociais, chegando aos simples aparelho sonoros, nos compõe e fazem parte do nosso sistema cognitivo e simbólico.
Junto disso, achei interessante pensar sobre um Ipod Shuffle: um aparelho eletrônico e, por isso, semi-artificial, que tem como função escolher aleatoriamanente a ordem das músicas que o sujeito vai ouvir. Maior simbiose entre homem e máquina impossível.
Escrevi o conto e mostrei pro Leandro Romano, membro do grupo e um dos diretores da peça que pensou na transposição da lógica shuffle para o teatro.

Qual o diferencial dessa peça e o que o público pode esperar da mesma?

Não sei se falaria em diferencial porque praticamente tudo já foi feito em termos de arte. Mas o bacana da peça é que o ator em cena atua de acordo com as música que o Ipod Shuffle tocar. Ele opera o Ipod que escolhe músicas e cada música representa uma cena. Assim, a peça se constrói e se desconstrói a cada dia, uma vez que ela não possui uma ordem definida previamente. Deixar a cargo do Ipod essa escolha submete o ator e a plateia à uma ordem superior de comando, ao mesmo tempo que passa uma ideia de impotência frente ao poder desse pequeno aparelho.

De que maneira a peça pretende abordar a problemática do distanciamento causado pela 'excessiva' virtualização, onde o real se afasta cada vez mais ou é substituído pelos novos meios de comunicação?

Nesse caso respondo apenas por mim e não pelo grupo. Acho que cada um deve ter uma visão diferente do caso.
A verdade é que nessa pergunta fica no ar um aspecto de demonização da tecnologia em prol de um “real” e “verdadeiro”. Em Shuffle, o que se pretende não é criticar nem elogiar a tecnologia, mas mostrar como ela é um meio que está simbioticamente ligado ao homem. Não sei até que ponto a virtualização é excessiva e também não sei se, caso seja, isso é ruim. A forma como construímos nossa subjetividade é completamente ligada à tecnologia, negar isso é ingenuidade e tentar se afastar para um contato mais pretensamente verdadeiro também é uma fuga que leva, novamente, a um caminho de virtualização de uma imagem que fazemos do natural.
Shuffle mostra como um Ipod pode manipular um homem que manipula um Ipod. Não se sabe quem manipula quem e no fundo os dois são submetidos um ao outro, como se em algum momento não houvesse qualquer diferença entre eles. Se isso é bom ou ruim, não sei.

Até que ponto as tecnologias podem influenciar ou modificar o comportamento das pessoas?

A tecnologia deve obrigatoriamente influenciar e modificar a vida das pessoas. Tudo que existe modifica e influência nossa subjetividade. De novo: se isso é bom ou ruim, não sei. Cabe a pergunta.


02 setembro 2012

em demasia

Em demasia. Essa expressão não saía da minha cabeça enquanto eu tentava ultrapassar o limite lógico entre ser interessante e ser o interesse de todos. Nunca me preocupei com o que pensam, mas sempre pensei sobre as preocupações, talvez não por uma vontade interior de expor alguma coisa minha, mas somente por uma necessidade básica de me comunicar, nem que fosse através dos problemas e preocupações em comum das pessoas.
Acontece que ser interessante era um afrodisíaco e isso me motivava a ir além de mim próprio. Não fazendo propaganda enganosa com estilos, olhares, citações, mas como motor de meu aperfeiçoamento num mundo em que a maioria parece preferir ser idiota. Ser interessante foi meu meio de sobrevivência durante muito tempo e hoje ainda o é, embora eu ache que já não o seja de maneira eloquente. Uma vida em excesso se desgasta sob os olhos dos outros e só volta a ter valor na distância.
Até que eu percebo que deixei de ser interessante e passei a ser o interesse dos outros. Que a demanda que eles tem sobre mim criou uma certa dependência, um vício e que não posso mais deixar de corresponder à essas mini expectativas. E aí a pessoa feliz e completa acha que eu posso ser um cadinho mais e a pessoa triste acha que devo ser seu pilar. E a família acha que devo ser fonte de entretenimento e os amigos fonte de energia sem fim para cervejas, piadas e sorrisos. Deixei de ser interessante e virei interesse.
Deixei de ter valor pra virar moeda de troca. Quando percebi isso com tanta força como agora me veio a expressão. Em demasia. E em demasia sigo, tentando completar os outros e me esconder.

29 agosto 2012

pesadelo

Eu tive um pesadelo essa noite. Estou em um churrasco ou evento de família quando chega minha mãe e começa a fazer um relato. É minha mãe, mas era também outras mães, as mães de amigos que eu conheci e algumas mulheres mais velhas. Ela começa:

Aconteceu algo que eu preciso contar. Como todos vocês sabem eu e meu marido vamos fazer 50 anos de casados, então fui até à igreja em que casamos nesse tempo longo com a intenção de marcar essa celebração com o mesmo padre, que é conhecido de todos nós. Ele conhece meu filho, viu meu filho nascer, deu primeiro comunhão ao meu filho. É um homem faz parte da minha história também.
Chego na igreja e chamo por ele. Ele está nos fundos, colocando algumas meias no varal, coisas pequenas. Ele me olha, me ignora e volta a olhar as meias. Eu me aproximo, chamo por ele, coloco a mão no seu ombro e ele vira com um tapa no meu rosto. Eu caio, já não sou tão nova quanto parece e, apesar dele ser ainda mais velho que eu ainda tem mais força. Eu levanto e, sem saber o que fazer, pergunto porque ele fez isso. Ele me bate novamente, agora com um soco na cara. Grita: “Vocês mulheres o tempo inteiro, vocês mulheres resolvendo os problemas dos homens. Vocês insistindo em amar e querendo salvar a vida de todos. Você acha que você vai salvar seu casamento e seu homem fazendo isso? Você acha que depois de tanto tempo com aquelas pequenas brigas tudo vai ser diferente só porque uma igrejinha e um padre te abençoou? Eu tento argumentar que são 50 anos e que gostaria de agradecer a Deus e a todos por isso. Lembro de meu filho que se diz ateu. O padre, nesse momento, parece bastante religioso e o ateísmo do meu filho sempre parece mais gentil. Então resolvo fugir dali, mas ele me espanca mesmo. Fico completamente ensanguentada no rosto, inchada, doída.
Isso serve para todas as mulheres.

Aí ela acaba o discurso e eu me guardo de uma raiva que não lembro de ter sentido. Quero acabar com esse homem, mas penso que esse é o momento político mais importante da minha vida. Penso no amor dos meus pais e na violência de tudo que não é esse amor, penso em toda violência que já fizeram comigo e que continuam fazendo, principalmente aqueles que gostam de mim. Penso nisso e reúno mulheres pra contar essa história. Meu sonho continua, mas o que eu queria dizer dele, acaba.

20 agosto 2012

667

Não tira da cabeça a lembrança dos olhos dela, mas até quando? Não repara, e acha até que já falou com ela na profundidade desse olhar. Não acha que olhares devem ser fundos e te buscarem pra dentro, prefere que o olhar seja exatamente como o dela: profundo, mas que pulsa pro lado de fora, cheio de vida, graça e encanto. Aos poucos, no entanto, a lembrança do olhar vai se esvaindo e ficando apenas aquilo que lembra de ter visto e na semi-vontade de reve-lo mesmo que agora já sem tantos motivos.
Não tem interesse por encontros furtivos ou desencontros espetaculares porque baseou toda sua vida na ideia da preguiça, da sinceridade, da paz e da cumplicidade. O jogo do time num domingo a tarde é um dos anseios mais altos, assim como as tardes dedilhando músicas repetidas, ou lendo livros, brincando com o gato ou simplesmente vendo a vida passar. As coisas que escreve nunca as faz pra conquistar ou comover ninguém: usar um talento pra qualquer tipo de conquista é um ato covarde de vandalismo com a possibilidade de sentimento do outro. A arte deve ser a manifestação mais profunda (e cheia de vida, de graça e encanto como o olhar dela, mas acho que isso já ficou claro) de uma retidão de caráter, de uma gentileza para si e para o outro e uma forma de reencantar mundo.
O mundo que parece tão frágil e seco deve ser reencantado por aqueles que tenham talento e possibilidade para tal. Quando vê alguém que usa da arte para seduzir, como em uma banda, numa canção ou arte, uma pose ou poesia percebe na hora a violência do gesto. Entristece e quase desiste de escrever novamente. Não o faz.
Acontece que aos poucos a lembrança do olhar dela vai de desfazendo como uma chuva de verão, um pombo atropelado no asfalto quente, uma foto que amarela na estante. Não lamenta. A vida é assim, a vida é doce e está tudo bem. Seu time melhora, sua cerveja continua quietinha, a preguiça lhe faz companhia e os livros ainda lhe fazem viajar. Quando a vida expõe suas pequenas tragédias, dá um sorriso e entende que é assim que tem que ser. O gosto de experimentar as nuances da vida é sempre bom. Ele não pode fazer nada em relação à nada e, no fundo, ele sabe...nem ela.

pequeno brasil


Estavam a direita e a esquerda conversando em um bar. Ambos reconheciam que tais termos eram por demais exagerados para os dias de hoje, mas evitavam falar disso para não cair em conceitualismos abstratos. Comentavam juntos sobre a participação do Brasil no encerramento das Olimpíadas, mas o assunto podia ser qualquer outro.


- Não é possível, cara! Não é possível que o Brasil se veja com olhos que são tão estrangeiros a si próprios. Que ele não consiga fazer uma tradução daquilo que lhe é mais importante, tanto economicamente, tanto politicamente. O Brasil precisa parar de se ver como um estado que concentra o pensamento de si baseado naquilo que o outro viu, vê e verá. Ele não pode se pensar pelo olho do outro.

- E mais do que isso! O Brasil não pode eternamente repetir a carta de Pero Vaz de Caminha em que a terra é boa e “onde tudo que planta dá” e o povo é dócil e as matas são infinitas e os rios mais limpos e mais coloridos e o céu é mais azul. Não dá pra gente ser o paraíso que os outros dizem que somos porque o paraíso é um lugar estático, que não pode se transformar, ele precisa ser eternamente estável para que seja paraíso. O paraíso que muda é o paraíso caído. E essa ideia de que o Brasil não pode mudar é exatamente a ideia de alguém que quer explorar o Brasil, mudando-o pra ser sempre o mesmo.

- Sempre o mesmo, mas nunca o mesmo. O dinheiro entra, o Brasil cresce, se desenvolve, se educa, se industrializa, mas o que se vê ainda é bunda, teta...quando se quer amenizar, se mostra bunda e teta em mulheres vestidas de índio e homens descamisados como se estivessem indo para a caça, mas a imagem a sempre é a mesma: pornografia disfarçada em alegria e gentileza. O Brasil não fica vendo bunda, fica vendendo bunda.

- Por fim, colocam a Marisa Monte. O ícone cool da zona sul carioca pra cantar Vila-Lobos, vestida de Iemanjá pra tentar dizer que tudo aquilo faz parte de nossa cultura, de nossa africanização simbiótica com o aportuguesamento. Nada disso é verdade. A Marisa Monte é branca e representa só a elite branca, assim como Vila-Lobos, e a imagem de Iemanjá, absolutamente esterilizada, serve apenas de contexto, de pano de fundo pra expor um exotismo que quer ser vendido.

- A Marisa Monte ali representou tudo que poderia haver de pior.

- E no Brasil, quem deveria tocar? Michel Teló.

- Talvez seja melhor do que repetir eternamente “Ela é carioca...ela é carioca...”
 
- Talvez.
 
- O Brasil é uma armadilha. É impossível pensar nele sem automaticamente cair em uma de suas armadilhas. O que há de melhor é instável e o que é estável nos parece tão europeu. 

- A antropofogia é uma saída?
 
- Não sei. Acho que precisamos supera-la.

Aí, como em todo bar o assunto se desvia para alguma coisa mais banal. E o Brasil ainda continua tentando e não conseguindo ser pensado de maneira apropriada. Mas algo avança...é o que parece.

19 agosto 2012

boa solidão

Ontem tive um dos melhores dias de solidão.
Fui dirigindo pela Lagoa, olhando aquela bela vista, seguindo os carros, no rádio canções aleatórias da mpb. Todas aquelas pessoas passeando e os barcos navegando e as luzes da cidade circulando naquele lugar tão belo.
Depois, no caminho de subida da serra, também ouvindo música, fui olhando os prédios, as casas, os letreiros dos motéis e as luzes do polopetroquímico, aeroporto e postos de gasolina. A vida fazendo sentido, pouquinho, mas fazendo.
Mais tarde, em Petrópolis, sentar num bar, pedir uma coca-cola e um pastel e olhar atentamente a cada pessoa fazendo de tudo pra se divertir com seus copos de cervejas. Olhar o mundo com uma distância complascente e consciente. E olha, como era belo.
Depois encontrar uns poucos amigos e tomar umas duas ou três cervejas, pensando na gente, na nossa amizade, na nossa cultura, nosso país.
Por fim, ouvir levemente o som de uma banda que me inspira uns sentimentos muito bonitos que costumo guardar. Quantas belas canções, quantos bons amigos e quanto carinho por aí.
Vou pra casa a pé, sozinho, vendo uma semi-neblina às 3 da manhã e estou feliz. Completamente feliz.
Como pode? Ás vezes, de vez em quando, pode sim.

17 agosto 2012

questão de ordem

não existe nenhuma dilema
tampouco qualquer ética
se por aí está a desordem
aqui está minha calma.

falo, mas como na política:
como questão de ordem.

14 agosto 2012

ronrona

o som da minha cama é quieto
quase mudo
ronrona
o som dos nossos pedidos
e dos nossos sonhos perdidos.

13 agosto 2012

é um

aí você olha e vê que o mundo inteiro está explodindo lá fora. Pensa: E eu, por que eu estou aqui? Porque talvez seja preciso estar onde se está e fazer o que se faz para que o que é pensamento e desejo ganhe forma pra adentrar o mundo da vida sensível. Tudo que é sem plano (porque a palavra já diz) não tem chão, escorrega por entre as frestas irregulares do universo e tende a vagar por um caos de indefinição.
Ora, que se saiba que toda minha poesia é verdadeira, apesar de eu mentir às vezes, e toda minha verdade fui eu que inventei mais cedo. E as duas, mentira e verdade são faces não do meu pensamento, mas da minha composição, do meu organismo, daquilo que faz de mim uma coisa que quase nunca sei que sou.
e o amor? quando eu raramente falo de amor, falo pra lembrar que ele existe, pelo menos em palavras espalhadas pelo mundo e pelos gestos mais sutis que faço em direção ao fora. Porque amor de verdade mesmo, amor amor, só dentro do próprio vocábulo. amor é amor. é átomo. é um.

a pressa

da minha janela vejo a montanha e o prédio
mas sei que entre eles há um fosso
onde as pessoas passam
com sua tristeza, com seu desgosto
e com a insistente pressa de achar
que hoje vai ser diferente.

11 agosto 2012

não sei.

Não tem nada de importante ou de interessante no meu jeito de falar, eu sei. Apesar disso, falo. Gostaria às vezes de não falar ou de retirar palavras do mundo por achar que ele já está cheio delas. Outra hora, acho que minha obrigação é reencantar o mundo com outras, sei lá. Tudo me parece chato de vez em quando. Aí eu penso em desistir da palavra e é quando escrevo mais ainda. Não sei...escrevo agora 2:20 da manhã pra dizer que não sei.

08 agosto 2012

pequeno

sei o tamanho que tenho
e a lógica não me conteste agora:
por dentro sou maior que por fora.

07 agosto 2012

simplesmente

as pessoas jogam futebol por aí
eu leio Fausto trancado em casa
outros vibram com os carros barulhentos
eu choro só porque uma pessoa chorou.

aí eu acho que sou tão diferente
e me encanto com a cor do sol do céu
e percebo como sou óbvio e careta:
o que vejo todo dia não deveria me surpreender.

aí eu falo de poesia, penso em poesia
atravesso a rua em poesia
e desencontro o que mais quero em poesia.

é que não faz sentido que o mundo concorde
ou que os outros concordem
ou que faça sentido o que nem sei se é caminho

sei que atravesso a noite
raras vezes o dia
nunca a manhã
e tenho vergonha de tudo que faço

não quero ganhar nada,
não joguei
não faz diferença se sou feliz
porque a vida é boa
ou simplesmente porque não sei.



04 agosto 2012

invenção

Percebo que na vida, algumas vezes, o que nos falta é inventar. Não há nada em si e tudo pode ser direcionado pela nossa criatividade que é tão latente e tão presente e tão pungente. A invenção da alegria, da felicidade, de uma sexta-feira, de uma praia, de uma tarde, de um sentimento, de um mundo inventado não pela miséria da alienação, mas pela imensa vontade de estar na vida.
Inventar é trazer vento pra dentro. In-ventar. É dar novos ares àquilo que é velho e fazer o contrário daquilo que nosso corpo e nossa cabeça pede. Quando nos tornamos óbvios, assassinamos nossa juventude em prol daquilo que imaginamos que somos ou devemos ser. Inventar que um amor existe não é amar, é uma declaração de amor ao mundo e a tudo ao nosso redor.
E olha, é preciso muito mundo pra tanta invenção que eu tenho pra essa tarde de sábado.

03 agosto 2012

sutileza

Estava no ônibus e por mais uma dessas coincidências da vida a bateria do meu celular acabou e não pude ouvir música. Ouvi então os sons do motor, do vento lá fora e de alguns diálogos sussurrados por perto. Ao meu lado, haviam dois portugueses. Um casal de sessenta e poucos anos passeando, olhando a vista como se estivesse a reconhecer neles alguma coisa que havia do lado de fora.
A beleza que eles viam é a beleza que já não vejo, mas decidi ver com eles, junto deles, à partir deles e foi aí que tive uma pequena sensação, frágil, bela. Olhavam à mata, quando o homem disse: "não há nada, mas é lindíssimo."
Essa frase que pode significar tanto me fez automaticamente entender um milhão de coisas sobre a vida e, naquele instante, me dei o direito de sonhar.
Às vezes, precisamos dos outros pra reencantar o mundo pra gente.

02 agosto 2012

o sonho e a noite

às vezes eu sonho com a noite
em que os sonhos e as noites
sejam vezes demais
pra serem só noites e sonhos

às vezes eu fuço fundo
e falo de cada instante
às vezes fixo um ponto
e fabrico um outro distante

às vezes os fatores da vida
os factoides dos outros
as falácias dos tontos
viram vezes demais

é quando fuço fundo
fico fora, fixo, falante
e facilmente me entorto

é que nunca
nem um pouquinho
um bocadinho de carinho
me tira do caminho
de te fazer sorrir.

31 julho 2012

Júpiter e Saturno

Li o conto. Ao fim, a primeira coisa que pensei foi: a palavra conto pode ter a ver com contato. E um contato singular, único, que só um contar pode conter. Depois, menos otimista, pensei que Júpiter e Saturno nunca podem se encontrar, que isso é impossível. Mas acabou que entendi o que você quis me dizer. É a gente no mundo tentando desesperadamente e dialeticamente, posto que com todo cuidado, se encontrar, pelo menos um pouquinho, no outro.
Me parece, e os fatos provaram iso, que é possível. Isso não é otimismo nem pessimismo, é um fato, histórico e merece fazer parte de livros, enciclopédias e biografias.
Li o conto e pensei: espero que agora você não precise mais dele.

29 julho 2012

o olhar dela

Estava distraído na rua quando lhe veio na cabeça a frase:
- nunca olhei pro olhar dela.
Desencadeou-se, então, uma série de pensamentos que não quis controlar. Nunca olhou porque nunca a viu; porque nunca prestou atenção; porque o olhar dela é escorregadio; porque o olhar dela demandava tempo demasiado pra ser olhado; porque seus olhos ainda não estavam prontos pro dela...
E as perguntas se sucediam enquanto pensava o tempo todo no rosto dela, mas com dois buracos fundos no lugar do olhar. Não saberia como preencher esse vazio.
 Foi quando percebeu entre os belos quadris, cabelos, gestos e simulações de prazer de meninas que passavam que tal sucedia porque devia ser assim:
O olhar dela (e só o dela) era daquelas poucas coisas na vida que só se pode olhar uma vez. E depois de olhado nada mais é o mesmo, tudo é diferente. Aquele novo olhar se torna seu lar.

28 julho 2012

férias e carnaval

Esse é o maior segredo da vida: a vida não tem segredo nenhum. Está tudo aí posto e a gente só precisa ver o que é, o que quer e o que tem. Bobagem é achar que existe alguma coisa por trás, alguma coisa pelas entrelinhas que precisamos descobrir. Nada disso é verdade, nenhum de nós é capaz de fuçar pelo que não existe e querer achar nos lixos as soluções pro mundo. Sorte é ser capaz de perceber isso e viver como se todo dia fosse um dia qualquer entre as férias e o carnaval.

25 julho 2012

dito

escrever acumula.
e nada conserta a primeira palavra,
nem a segunda e nem a última.

e a gente vai precisando escrever cada vez mais
pra dizer alguma coisa
pra desdizer outra
pra redizer tudo o que já foi dito.

e nunca mais ninguém vai poder ouvir
essas palavras novamente
em paz.

23 julho 2012

se fosse pra saber

Algumas coisas na vida acontecem e são tão inesperadas que às vezes fica a impressão de que o mundo faz sentido. Não nos enganemos: não faz. Hamlet dizia que "há mais coisas entre o céu e a terra do que julga a filosofia." Alguns leem isso como uma ode à metafísica, mas não é. Na verdade, é uma ode ao desconhecido, ao não navegado. Uma ode às possibilidades infinitas que a vida nos proporciona.
E o engano está em: Não é uma ode à vida. Essa alegria coletiva de que a vida é o máximo carpe diem, uhul, aproveitemos todos, é uma bobagem tão grande que só engana mesmo a quem quer ser enganado. Muitos querem.
Quando resolvo escrever uma peça chamada Shuffle sobre um Ipod e a relação com um cara, acho que é isso que quero dizer, embora ainda não tenha descoberto o que, exatamente. Existe algo na gente que é inexplorado, uma imensa América não descoberta por ninguém e que, como uma caverna escura, nos assusta e nos faz ficar repetindo eternamente o óbvio.
Aos poucos vou tentando entender aquilo que nem eu mesmo sei e aos poucos vou dizendo aquilo que não tenho a melhor ideia do que é. Se fosse pra saber, eu saberia.

19 julho 2012

cama, mesa e banho

na loja
comprei roupas de cama, mesa e banho.
um luxo de tanta coisa...
tanta pompa, tanto pano.

quando chegou a hora
dormi sozinho
com fome
e sujo.


16 julho 2012

sob escombros

Uma pessoa está sob escombros. Desabou tudo que havia e, parece, até algumas coisas que não havia antes. Está tudo empoeirado e a pessoa não sabe onde está, mas sabe que está embaixo embaixo embaixo e mais embaixo. Na verdade está mais embaixo do que pode imaginar.

Ela é importante?
É.
Por que?
Porque está sob escombros.

Imagina ela do lado de fora, bonita e penteada, faceira e divertida.

Assim ela vale?
Pouco.
Pouco?
Quase nada.

Ela só vale porque está sob escombros, porque naquele momento ela é a coisa mais importante que existe e retira-la de lá é a obrigação máxima de todos nós.

Ela grita?
Grita.
O que?
Palavras.
Que palavras?
Não dá pra ouvir.

Não adianta, não adianta, é impossível mostrar essa pessoa sem mostrar os escombros. Ela só existe do jeito que existe e eu só falo dela porque está sob escombros.

11 julho 2012

cazuza

fazer poesia como se você ia achar um saco?

aposto que ia pedir pra eu te pegar um uísque
citar um bukowski,
pegar o violão e tocar um doors
e sair pelo leblon xingando os bunda-moles.

as pedras do arpoados iam servir de bungee jumping
pros nossos sonhos mais cretinos
e pros anseios mais baixos:
muito corpo e nenhuma alma.

nenhum beija-flor no seu Rio de Janeiro
nenhum cristo redentor as 7 da manhã na janela.
nenhum pensamento que não fosse
o de fazer de hoje
mais um dia sem fim.


Top 5 twittadas I:

1- Vê Transformers em 3D, mas não gosta de ficar bêbado. 

2- O Anderson Silva é o filho de quem tá embaixo. 

3- Se a mulher tá grávida e tem um filho no estacionamento, ela tem parkinson?

4- O Wagner Montes falou que tem só 40 anos! Só se for em cada perna... Ops. 

5- Ah, então o cara que substituirá o Demóstenes é ex da atual mulher do Cachoeira? Sabia, é tudo farinha da mesma vagina.

09 julho 2012

a força da natureza


Eu não entendo muito das coisas. Não sei quase nada do mundo, a não ser aquilo que aprendi contemplando, e não compreendo muito as regas do jogo da vida. Não tenho experiência das coisas, não sei o que é morar em vários lugares, não sei o que tem do outro lado da fronteira, não sei o que fazer quando, perdido, fico sem muitas opções e não sei como me portar afetivamente sem parecer idiota. E cada vez que penso nessas coisas, respondo pra mim mesmo: não sei.
É aí que eu percebo que você sabe. E não só sabe que faz de tudo isso corpo, matéria, que emana de dentro de si pra fora, como se a superfície fosse o que de mais profundo houvesse, como se a margem de um rio tivesse uns 20, 30 metros de profundidade e conforme se nada, fosse diminuindo, até que no meio, há 3 kms de distância, percebêssemos que a água está no joelho e já se pode descansar. O pior de tudo é que eu escrevo sobre algo que você já sabe e que eu não precisava dizer, mas digo como para aprender a ser um bocado você.
É que acho que pra você as coisas não tem fronteira, não tem margem, não tem traços, não tem contornos. É tudo mesmo misturado nessa massa informe, disforme e caótica que é o mundo e, portanto, viajar, comprar um brioche, ajudar um cachorro e encher a cara são pequenas partes de um todo que lhe compõe. Não existe mesmo em você, ou existe no nível mínimo, a separação entre homem e natureza: você em contato com o mundo é uma dessas forças de trajeto nômade e de composição quase etérea.
Assim, há um fascínio do indescritível, do inefável, do não verbalizado, de outra dimensão em tudo que faz parte de si. E isso me encanta. Por isso que de um jeito meio tosco escrevo essas palavras frouxas que nem sei pra onde estão indo. Talvez sejam sem forma, talvez sejam uma celebração. É que talvez, no seu aniversário, também seja um pouco o dia dos bons pensamentos, dos sorrisos e daquilo que com toda força podemos chamar de natureza.

01 julho 2012

bat-beg

eu vi um menino pequeno, pretinho,
sem camisa, short maior que ele
pé no chão, triste,
dedo na boca
e na outra mão um bat-beg
quebrado,
só tinha uma bolinha
verde
e ele brincava com o bat-beg
na parede
parecia ser o mestre
do bat-beg na parede.
e era
o único
campeão mundial.

27 junho 2012

hahahah

eu ri antes de começar a escrever.
é que eu não sabia ainda se tinha alguma palavra.
na mesa um neosoro, tampa de pendrive,
um clipe, palheta.
tem palavra.
nenhuma boa.
esperança nenhuma.
sono nenhum.
e nenhum sentido pra fazer poesia.


quem sabe antes
já não havia alguma coisa
que eu não precisava dizer
porque não havia nada
para não ser dito.

26 junho 2012

Deus e o Diabo em Minuto


“Jamais te odiei, a ti e a nenhum dos teus.”

O Altíssimo para Mefisto
Fausto – Goethe


Dois homens praticamente iguais estão sentados em uma mesa. A luz é baixa, natural, apenas por dois abajures pendurados em outras duas mesinhas uma em cada canto da cena. Ambos, ao centro, estão quase no escuro e de cabeça baixa.

MEFISTO – Estou aqui mais uma vez para dizer as coisas que sempre digo. Tudo vai mal, eles ainda estão iguais insetos prontos pra serem esmagados, como ganhafotos que destroem a plantação que comem. Na verdade, são os piores que existem, mas não são tão culpados quanto parece. Eles estão mais pra baratas tontas, perdidas, a procura de qualquer pequena brecha.
DEUS – De novo, de novo você! Só o que faz é vir aqui reclamar, sempre dizendo a mesma coisa. Sabe que gosto que venha conversar, meus dias são geralmente inúteis e parados. O marasmo toma conta de tudo que não é convulso. Sabe que gosto de você e temos uma relação até bastante boa, mas nunca tem nenhuma novidade, é sempre a mesma ladainha. Quer dizer então que tudo vai pior?
MEFISTO – Pior não. Nada piora, nada sabe nem piorar. É tudo conforme as coisas sempre foram. O lugar é horrendo, um antro de tristeza, melancolia, culpa, pressa, medo, roubo, arrombamentos.
DEUS – E como vai aquele senhor?
MEFISTO – Qual?
DEUS – Aquele a quem nada atinge.
MEFISTO – Corrompo ele assim, num estalo. Aposto que ao mostra-lo a felicidade, a tristeza é a primeira que se abate sobre ele. A tristeza da felicidade.
DEUS – Fica com ele pra você, pode ficar.
MEFISTO – Ok, vou indo então.
DEUS – Aqui, sabe que nunca te odiei, né?
MEFISTO – Sim, senhor! Sempre vou saber.

25 junho 2012

top 10 twitter da semana I:


1. um cara sem braço não joga gamão, mas gopé.

2. cheguei em casa tão ferrado e destruído que minha mãe me chamou de Capitu.

3. violência é dar uma flor e esperar amor em troca.

4. colar papel em poste é fazer um post-e?

5. se eu sou o rei do stalking eu sou o stalKING?

6. quer ser underground vira minhoca.

7. Meu gato queria me contar alguma coisa, mas ele perdeu o fio da miada.

8. a pergunta deve ser mulher porque ela não quer calar.

9. Tem um jogador no Cruzeiro chamado Tinga. E um no Inter chamado Nei. E nem Tinga Nei.

10. Queria ser o Seu Celso, porque pro Seu Celso sempre tem espaço.

21 junho 2012

vinte e um

o computador ronrona
eu coço a perna
o teclado digitado
e ainda tem gente que insiste em fazer poesia falando do céu, do mar, da luz, dos grilos.

toda palavra é barulho
toda falta de palavra também.

então relaxa aí
e para de pensar que o silêncio é poético.

13 junho 2012

dos livros

tenho 27 anos e já preciso reler alguns livros. Releio-os e experimento-os como se fosse a primeira vez. Não é a memória que falha, é a lembrança que se desvia. A cabeça me pesa pelo que já li, pelo que ainda não li, mas mais que isso, pela quantidade de memória inútil que guardo enquanto esqueço de meus queridos livros. Nunca falta espaço pra se lembrar de amores.

10 junho 2012

quarto

olhava pro teto
conversava com as paredes
sentia o corpo na cama
e o frio da pouca coberta
mas tinha a sensação
pequena e gigante
de que não estava ali.

09 junho 2012

alcoólico anônimo.

Era um comediante famoso. Onde estava era reconhecido não só pelo rosto que aparecia nas revistas e televisões, assim como pela capacidade natural de fazer rir quem quer que fosse, seja com um trejeito no olhar, nos músculos da face ou até no timing perfeito dos comentários. Sabia piadas, mas era tão bom de humor que abrira mão de conta-las há muito tempo atrás.
 Era casado e sua esposa vivia uma espécie de paraíso porque conseguia ter o homem mais doce e querido do país a seu lado e ao mesmo tempo ver seu bom humor sendo jogado ao mundo do mesmo jeito que ela via, em segredo, em casa. Ela tinha acesso irrestrito àquilo que os outros pagavam.
Um defeito: não conseguia não agradar. E tornava-se infiel. E quando infiel, triste, por dentro, tornava-se beberrão. Em pouco tempo tornou-se alcoólatra. Com medo de perder fama e mulher foi aos alcoólicos anônimos.
- Olá, gente! Eu tenho um problema! Eu sou alcoólatra.
- HAHAHAHAHAH!
- Eu preciso de ajuda.
- Owwwwwwn.
- Preciso me curar disso. Sou casado e estou para perder minha mulher.
- Aaaaaaaaaah...que pena! É tão lindo...Fofo. Vamos ajudá-lo.

Correu pra rua. Encheu a cara, voltou pra casa, espancou a mulher, acabou com seu programa de TV, desistiu da fama, comprou um quiosque e hoje é o melhor vendedor de cocos do litoral baiano.

05 junho 2012

shuffle

Fala um número, sei lá, duzentos. Entre zero e duzentos há cento e noventa e nove outros números. Ser duzentos é contar com toda a fila de que lentamente de um a um se compõe o que é duzentos. Supõe-se então que você escreva no google: “sorteador”, aí ele abre uma página pra você ali, bonita, e você pode sortear o número que quiser. Aí você escreve duzentos e faz o sorteiro pra ver qual número sai. O resultado é trinta e oito. Entre zero e duzentos do dia cinco de junho de 2012, às 2:43 da manhã o site sorteador.com.br entre números de zero a duzentos escolheu o número oito. E aí você resolve ir clicando. 33, 36, 104, 180, 186, 141. Aí você pensa: ah, não, duzentos é um número alto, de um a vinte em quantas chances um número vai se repetir? E você vai lá onde está duzentos e tira um zero. E bing: 18, 10, 13, 18! Na quarta, na quarta chance o 18 se repetiu. Faz isso de novo, faz, faz isso pra sempre. Shuffle.

31 maio 2012

não fazer nada

Tem dias que eu não quero fazer nada. É difícil me fazer entender. Assim que acordei e vi que o tempo estava meio nublado pensei na hora que hoje não gostaria nem de sair da cama. Estava passando um jogo de tênis bacana e fiquei assistindo, durou quase 6 horas e, nos intervalos, eu entrava na internet pra ouvir um bocado do que as outras pessoas tinham pra dizer: quase sempre nada demais, quase sempre algo desiteresssante, quase sempre como sempre. Descobri, então, que vou ter que trabalhar sábado de manhã e que por conta disso não vou poder beber amanhã, sexta. Pensei na hora que hoje era o dia de encher a cara. Maravilha, não fazer nada durante o dia e encher a cara da noite. Aí, na hora do almoço minha mãe disse pra irmos ao banco para ver o problema que ando tendo com o cartão. Pensei que a desculpa de não fazer nada poderia me livrar disso. Falei: “po mãe, hoje eu queria ficar em casa, descansar, quase não aproveito aqui.” Ela relutou, mas aceitou. E fazer nada vai ser o que farei hoje. Troquei encher a cara por não ir ao banco. Fico em casa e, se der, não vou tomar banho. Estou com preguiça. Estava lendo um bocado e agora vou ver um filme. Quinta-feira como deve ser.

24 maio 2012

taco


Dois caras em um foco no canto da cena.

1 – Eu não vou falar isso!
2 – E por que não?
1 – Porque não. Porque só querem que eu fale o que a tradição manda, mas sabe em que a tradição manda? Em quem deixa que a tradição mande e eu não quero deixar que a tradição me mande, então não vou falar o que a tradição manda.
1 – Você anda com uns modos muito esquisitos de falar.
2 – É o que estava escrito!
1 – Então você assume que você fala o que está escrito.
2 – Sim.
1 – Tudo?
2 – Tudo.
1 – E isso agora estava escrito?
2 – Estava sim.
1 – Não estava não.
2 – Estava sim.
1 – Como você tem tanta certeza?
2 – Porque eu só falo o que estava escrito. Você sim?
1 – Eu também, falo exatamente o que estava escrito.
2 – E se a gente...é...tentasse, uma só vez não falar o que estava escrito?
1 – Será que a gente consegue?
2 – Não sei.

O 1 se afasta. Vai até a outra ponta do palco.

1 – Sabe como poderíamos fazer?
2 – Como?
1 – Falar algo assim, repentino que vem a cabeça.
2 – CHOQUE!
1 – O que?
2 – É o que me veio à cabeça: choque.
1 – Estava no texto?
2 – Não sei, acho que sim.
1 – Precisamos enfrentar isso.

Agora o 2 troca com o 1 e vai até a ponta do palco.

2 – Tenta você.
1 – O que?
2 – Falar a primeira coisa que...
1 – MOSTARDA.
2 – Oi?
1 – Falei.
2 – O que?
1 – A primeira coisa que vem a cabeça.
2 – E é mostarda?
1 – É.
2 – Por que?
1 – Não sei. Não posso dizer. Estava no texto?
2 – Acho que sim. Pelo que me lembro sim.
Os dois caminham. Pensam.

1 – Acho que sei o que a gente precisa.
2 – O que?
1 – Esquecer o texto decorado.
2 – Mas como?
1 – Sei lá. Perder a memória. Um bate na cabeça do outro e puf, esquece.
2 – Será que funciona?
1 – Podemos tentar.
2 – Mas calma...será que isso estava no texto?
1 – Acho que sim, mas talvez dê certo.

Os dois saem, cada um para um lado. Voltam cada um com um taco de baseball. Batem um na cabeça do outro, ao mesmo tempo. Os dois caem. Levantam. Se olham, estão zonzos, tentam falar alguma coisa. Não se lembram. Escuridão.

23 maio 2012

para o fluminense, nesse dia tão triste

 
Fluminense,
ó Fluminense da heróica torcida,
do time de guerreiro,
das imensas batalhas de gladiadores,
da torcida mais colorida do brasil
mas que ninguém vê
porque tem pó de arroz espalhado por todo o canto.

Ó time, ó paixão
torcida que tem gripe
porque torce pro flu.

Quantas batalhas foram perdidas em sua história?
E quantas mais vão se repetir?
Guarde aquele ódio para o rival filhote rubro-negro que se tornou tão maior
tão gigante, tão invejável e tão imbatível.

Ó tricolor
aprenda a derrota
aprenda.
E como diria um ídolo de se passado,
descansa,
“agora vai brincar no brasileirão.”

17 maio 2012

se um dia quiser me conhecer

se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha cidade
e passe uma tarde ou um mês
pelas esculturas frias
pelos jardins molhados e construções antigas
ou passeie pelo caos do centro
e veja a calma dos livros nas estantes das poucas livrarias.

se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha rua
e veja como ela é feia, seca e suja
e como cai aos pedaços a fábrica
que alguns anos atrás, não muitos,
enchia de orgulho e tecido
qualquer um que morava por ali.

se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
venha até minha casa
veja o jardim que meu pai decora
a piscina quase nunca limpa
a varanda gelada e aconchegante
e a vista imensa das montanhas.

se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
entre no meu quarto
sente na minha cama
liste os meus livros
tateie meu violão
leia meus papéis
ouça minhas músicas

se um dia quiser me conhecer
e de verdade o quiser
depois disso tudo vá embora
passe uma tarde ou um mês sem mim
esqueça de tudo que viu
das esculturas, das fábricas
da piscina, jardim e violão.

se um dia quiser me conhecer
venha e vá.
se voltar, voltou.
se for, foi.

11 maio 2012

pós-crise estomacal

Quando a gente fica um tempo sem um abraço, sem uma palavra mais doce, sem uma gentileza, sem um gesto carinhoso, fica na pele aquela coisa, aquele ranço, como se, aos poucos, os braços fossem enferrujando e perdendo a elasticidade, assim como se as palavras, sufocadas, ficassem mais duras e densas, e como se os gestos se tornassem mais pesados e frios.
É que o corpo se desacostuma ao outro, ou melhor se acostuma ao não-outro. Se perde em si mesmo, por dentro de si e tudo que se percebe ou se sente é aquilo que ele mesmo, amputado, não faz. A impossibilidade de nosso corpo em ser livre em relação ao outro faz dele um aleijado, um doente, um menino carente à espera da mãe. E a gente, dono do nosso corpo, vira orfão junto com ele.
Quando se deita, o corpo encontra o colchão. Vê nele uma companhia e um afago que essa noite, mais uma vez, não tem e não vem.

09 maio 2012

08 maio 2012

drama dois

em um átimo

Uma moça está sentada em frente a um laptop que está sobre uma mesa. Tem os cabelos pretos, é bonita. Usa uma calça jeans e uma camiseta azul marinho. Tem os braços abaixados na direção do corpo. Fica imóvel por um minuto, dá um suspiro, fica imóvel por mais um minuto. Leva os braços até o laptop, coloca a música “Here comes the sun” dos Beatles. Fica um minuto escutando, com as mãos imóvel sobre o laptop. Ameaça levantar e dançar. Desce as mãos. Observa a tela por um minuto, sobe uma das mãos até a área do mouse, parece que faz um desenho. Desce as mãos. Dá um suspiro. Parece entediada. Coloca um vídeo, olha para a tela e assiste. Ouvimos algumas vozes:

    Olá, estou aqui para lembrar que não é preciso olhar o tempo todo para o visor do seu equipamento. Basta observar o vídeo quando eu indicarei o exercício que você deverá realizar. Depois disso, bastará seguir o ritmo da música e a minha voz que guiará através dos números. Avisarei quando você deverá parar, repousar e quando teremos que mudar o exercício. Está pronto, podemos começar?

    A moça fecha o vídeo. Abaixa os braços. Espera um minuto, não suspira. Vira de lado, olha para a platéia. Retorna a posição inicial. A cena se repete infinitamente, ou pelo menos, enquanto se achar necessário, alterando-se a canção e a voz.

03 maio 2012

na aula 2

vou fazendo poesia na aula
como se fosse um grande poeta.
de tedio. nunca de poesia
que se faz poesia.
ela só é tal quando pronta.
antes é nada.
inclusive, agora, ela ainda não é.
pode até ser sendo
até que chega o último ponto
e ela será.
é.



foi.

na aula


cabe o desenho na página
cabe a poesia, se curta.
não cabe, porem, eu
que tentando dizer o que sinto
faço uma curvaturva
e desisto da palavra de mim
na última linha

02 maio 2012

DRAMA

em um átimo


    Um ator gordo e careca está sentado em uma cadeira no canto esquerdo do palco. Chora por 5 minutos. Interrompe-se, toma Ar por 30 segundos. Chora por mais 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 1 minuto. Lê:

    Venho por meio desta informar que a diligência que me levava a crer que meus fins justificavam meus meios caíram por água abaixo quando recorri a uma opção não muito didática e justa de aplicar meus métodos de utilização e transformação da plataforma que usávamos outrora enquanto aquilo que era uno podia ser considerado duplo. E que, por conta disso, me sinto profundamente movido a transformar meu gesto e me redimir de qualquer tipo de contratempo que possa vir a ter causado em sua subjetividade, inatividade, inoquidade e inexoralibidade. Sem mais, despeço-me com os mais afetuosos acenos à distância.

    Chora por 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 30 segundos. Chora por mais 5 minutos. Interrompe-se, toma ar por 1 minuto. Escuridão.

01 maio 2012

cometa

Tinha o impulso criativo de um cometa, mas tinha também o grande vício da preguiça. Enquanto era praticamente incapaz de se enamorar (pelo menos era isso que achava de si) desperdiçava sem palavras aquele mundo que construía na cabeça. A verdade inexorável - essa que ele sabia apenas como uma leve intuição - é que aprendera a se preservar, não se sabotando, mas se adiando. Adiar e se adiar era a melhor maneira de burlar a lógica potencialmente arrebatadora que lhe habitava. Sua casa não era de cores nem tinha efeitos psicodélicos: era quase vazia e pouca coisa circulava por lá, mas ele sabia que assim que entrasse na roda - hamster de si próprio - teria que inevitavelmente rodar e girar e correr. Então a casa que ainda não era gaiola servia apenas de albergue, de habitação provisória e, acho que somente por isso, gentil.
Até que chega um impulso criativo como um cometa e quer forçar que ele viva o plano, amadureça o fruto e entorpeça si próprio com aquilo que é sua missão. Missão é o caralho, ele diz. Senta na cama, opta pela preguiça, inventando pra si próprio que a luz fraca lhe dá sono. Desiste. Nunca foi tão forte esse rapaz.

25 abril 2012

a caixinha

A vida é uma caixinha de surpresas, dizem.
e eu beijo na pele a tragédia disso: a vida é uma caixa, uma baixa, uma prisão.
as surpresas não surpreendem porque não saem da caixa, caixinha de vida baixa.
sobra-nos a repetição:
a vida
é uma
caixinha de
surpresas.
torcendo pra que o óbvio ainda surpreenda
e que o inesperado aconteça
sabendo que, antes que amanheça,
é preciso dormir,
é preciso acordar,
e saber dormir e acordar.

saber repartir entre a vida e o sonho
os nossos desejos tristonhos
e nossos desenhos medonhos e enfadonhos
que sonhamos antigamente quando ainda éramos crianças.

a lembrança do teu beijo
me inspira às minhas maiores paixões:
nada.
me inspira ao resto de mim
à sobra de mim
dejeto de mim
escombro de mim
auschwitz de mim

é,
a vida é uma caixinha de só presas.


tenho pressa.

24 abril 2012

marina2

um presente meu para marina monsanto

marina menina caminha na orla do mar
marina cantiga que leva pro sonho cantar
marina na beira não sabe o que tem do lado de lá
marina não sabe que fica pra sempre sonhar

de leve, marina caminha
e os passos que tinha
sabia que nunca teria jamais
marina ainda hoje não esquece
dos mares dos olhos
daquele rapaz

marina sem passos
se senta num banco vazio
de frente pro mar
e pensa na vida que tinha
e no tanto que ainda resta levar
depois se despede de tudo
entende que o mundo já não pode mais
marina mergulha no fundo
e chora quietinha inundada de paz

19 abril 2012

pulseiro

    O pulseiro no terapeuta:

Qual seu problema?
Sou um pulseiro.
O que?
Pulseiro.
É pulseira que se diz.
Então, nasci com defeito, sou um pulseiro.
Do sexo masculino?
Sim.
E é só pra homem usar?
Não. Sou um pulseiro unissex.
Então como você sabe que é um pulseiro e não uma pulseira?
Olha pra mim, está na cara. Sou azul, duro, inflexível: sou um pulseiro.
Também existem pulseiras assim...
É que sabe como é, eesse mundo moderno...
Sei.

    Silêncio.

E aí?
E aí o que?
O que você vai fazer com o fato de ser um pulseiro?
Não sei.
Tem medo?
De que?
Não sei, de alguma coisa!
De perder a identidade, talvez.
Você tem identidade?
Tenho.
Qual é?
O pulso.
Do sexo masculino?
Feminino também.

    Silêncio.

Decidiu?
Não.
O que?
Não decidi.
Não decidiu o que?
Não decidi nada.

    Silêncio.

Estou triste.
Mesmo?
Deprimido.
E aí?

Pulseiro saiu correndo do consultório, entrou em um banheiro público chorando e cortou os pulsos. Anda agora pela avenida mais cheia da cidade todo eiro.

16 abril 2012

o baile

Em um grandioso baile do Séc. XIX estava toda a sociedade burguesa reunida. A casa era da renomada família dos Pereira de Magalhães.
As moças novas de um lado com seus vestidos rodados;
Os moços jovens do outro com as braguilhas apontadas.
As senhoras brancas de maquiagem e os senhores em meio à fumaça dos charutos.
Tudo iluminado, muita luz, muito som.
Iluminação a querosene:
a morte.

Câmara de gás de um campo de concentração.

05 abril 2012

cito

o bom de escrever
é saber que nunca vou ser citado
porque quando escrevo
não cito,
sinto.

04 abril 2012

sobre eu não existir (em grande parte do dia)

Entro no meu prédio e dou boa noite ao porteiro. Entro no elevador e vejo a câmera me vendo. Saio e no corredor tem outra câmera. Viro a chave, a fechadura range e eu entro em casa. Acabou.
A verdade é que dentro de casa eu não existo. Enquanto estou dentro de casa, no meu conjugado minúsculo, eu não existo para o mundo e ninguém simplesmente é capaz de lembrar de mim. Os que gostam de mim, nem sequer pensam; quem me ama, sente o amor como uma vertigem; meus pais me acham uma espécie de cazuza, um filho que morreu e vai longe longe; até meu gato esquece meu cheiro e só vai relembrar quando, em alguns dias, faze-lo me sentir de novo.
É que essa espécie de solidão é um portal para a dissolução da existência. É que nesse meu cantinho é assim que as coisas devem ser, fechadas, trancadas e inacessíveis. Se por um momento, apenas um, eu souber que pessoas pensam em mim enquanto eu estou aqui, esse aqui que me é tão caro vai se tornar insuportável. Tenho a impressão que é assim sempre e que é preciso se abandonar com frequência. Dormir seja talvez o momento em que até você mesmo resolve parar de pensar em si e os outros só acordam quando você dorme e viaja no etéreo do sonho.
Aqui eu não existo, não. E quando saio às vezes até demoro a voltar a existir. É que pesa existir o tempo todo. Por isso que decidi entrar aqui e desvanecer. Tchau mundo, entrei e fui embora. Inclusive, enquanto você lê isso, eu estou não existindo. Talvez nem respire.

02 abril 2012

a festa

quero dizer só uma coisa:

quando vamos a uma festa
que não conhecemos quase ninguém
fica claro, fica evidente, fica perceptível
como a humanidade sofre.

29 março 2012

o poste e a ponte

Estavam sentados frente a frente, ou lado a lado – sua memória nunca foi espacial – e tentavam reproduzir coisas que gostariam de dizer. Enquanto um falava o outro entediadamente escutava, mas quando o primeiro resolvia fazer silêncio o segundo punha-se também a falar atabalhoadamente para evitar o silêncio, o que entendiava o primeiro.
Queriam falar sobre coisas importantes, mas nunca souberam exatamente o que era importante na vida, além do mais, será que aquele era o momento propício pra dizer alguma coisa importante? Talvez não, deixa pra lá. Aí outras coisas iam acontecendo e eles iam levando-as – ou tudo – assim como as coisas eram pra ser levadas, ou seja, sei lá o que vamos dizer-fazer-pensar.
E a palavra coisa ia se repetindo a cada vez que algo não podia ser dito ou não havia o que se dizer. Ia-se materializando, passo a passo, o nada frente ao tudo e o apocalipse frente ao gênesis, só que nada mudava e tudo parecia exatamente igual e diferente do seu contrário. Assim como Othelo às avessas, sem Iago e a oligofrenia do negão.
Até que viram um poste, alto alto alto e transformaram em uma ponte longa longa longa e deitaram frente a frente, ou lado a lado – suas memórias nunca foram espaciais – e ali permaneceram por quase meia hora – sempre foram ruins em matemática – levantaram e atravessaram a ponte sem pressa.
Do outro lado se viram sentados frente a frente, ou lado a lado, tentando reproduzir coisas que gostariam de dizer. Enquanto um falava o outro entediadamente escutava.

27 março 2012

preto

Olhei e não vi nada.
Pouco tempo depois nada mais podia ser visto.
então fechei os olhos
e vi preto.

26 março 2012

versões

O amor tem versões
e raramente dura dois verões.

Vez em quando
de caneta vermelha
é preciso pegar o amor
e fazer revisões.

(porque a vida é um roteiro do von trier com trilha sonora do Catra.)

25 março 2012

domingo no rio

O Rio aos domingos parece São Paulo. O aterro fechado pro trânsito com famílias andando de bicicleta e tricíclo me lembra os patéticos passeios que os paulistanos fazem nos viadutos. A cidade fica semi-vazia, triste. O que mais me irrita no Rio aos domingos é o excesso de casais com um aspecto absolutamente higienizado tomando sorvete do mc donalds de mãos dadas sem transarem os dedos. Aquelas caras de bunda mole com bermuda caqui e camisa polo e um vestido de domingo com uma sandalia rasteira.
Parece que todo burocrata chato usa o domingo pra tentar sorrir um bocadinho, mas não cola, não rola, fica falso, urbano demais. Algumas pessoas não deveriam sair nunca de seus escritórios, deviam se misturar aos seus processos e estantes e morar por ali. É que até caretisse tem limite e minha cara de sono, minha olheira, minha camisa do flamengo e minha ressaca são potencializados por esses sujeitos. Ainda bem que a semana sempre recomeça e eles se escondem e eu, continuo na mesma, na rua.

18 março 2012

mpb

não vanderlize meu caetano
que meu joãogilbertismo
é altamente lobonista
e não resiste aos leninismos
inefáveis dos buarques.

17 março 2012

pornografia

tem tantas coisas que gostaria
e me esforço pra esquecer
que às vezes percebo
que nada tenho pra lembrar.

o que sobra é só o agora de dia
e um bocado de pornografia.

13 março 2012

feio

vi a menina pelo reflexo do vidro do ônibus. Tinha dois olhos claros que quando se mexia viravam quatro, dois narizes e o cabelo preso. Eu suava do seu lado, de calor, e a olhava. Vez em quando ela me olhava e com o tempo passou a me olhar mais.
Vagou uma cadeira no fundo do ônibus e eu, com vergonha de lhe oferecer, sentei. Ela se decepcionou.
Ainda não havia conseguido ver sua cara quando o ônibus parou. Ela virou e de trás vi seu rabo de cavalo. Desceu e foi na direção contrária.
Entrei na sala e lá estava ela.
Vi: era feia.
Me olhou: me achou feio.

23 fevereiro 2012

alguma origem

É incrível a nossa capacidade de conexão. É só se abrir um pouquinho mais, é só deixar os olhos irem um bocado a frente, é só se tornar leve que as almas que não existem se encontram frente ao inefável e impossível do mundo. O ser humano aprendeu a falar porque precisa muito dizer o tudo que tinha dentro dele. Sei, a maioria das coisas a gente não consegue dizer, nem nunca vai conseguir. Mas é incrível e isso eu vou repetir: é incrível a nossa capacidade de conexão.

18 fevereiro 2012

carnaval

uma sensação de alegria sem nome,
ou de nome alegria.
sensação de mundo inteiro
repleto dos sentimentos mais pequenos
e menos sublimes.

todo grande amor sucumbe à folia.
todo deus se ajoelha no altar da canção.
e toda poesia parece pouca ante o transbordar.

é a folia de dentro cá fora.
é a poesia de fora lá dentro.
é um menos dois.

ninguém ascende à lugar nenhum.
todo mundo desce e ninguém leva a mal.

a grande vida do mundo é o carnaval.

diarréia

leio poesia enquanto cago.
às vezes, demoro seis, sete meses
pra terminar um livro.
às vezes, demoro alguns dias,
no máximo um mês.

bendita e sábia diarréia.

15 fevereiro 2012

a dupla

Leio poesia enquanto cago.
escrevo poesia pelado.
é impressão minha
ou o mais elevado
está intrinsecamente ligado
ao mais baixo?
e os melhores sentimentos
estão munidos das piores intenções?
e deus está intimamente ligado
ao diabo?

é tudo isso ou é não.

13 fevereiro 2012

pra gostar

afinal de contas,
é ou não é?
gostar quase nada
ainda é melhor
que não ter nada
pra gostar.

11 fevereiro 2012

troveja

olhava pro céu atrás de resposta
afogava uma dor com cerveja
e eis que de cima
vê um sinal luminoso
que troveja.

10 fevereiro 2012

o português

Ontem estava bebendo uma cerveja em um botequim com meu amigo Thiago Iglesias à espera do forró da Tribo de Gonzaga quando um cara de 42 anos, nascido em Portugal, começou a conversar conosco. Falamos de paraquedismo, da diferença entres os países. Falei então do meu gosto por música portuguesa. Falei o nome de alguns artistas, ele ficou feliz de lembrar seu país e nos chamou para entrar na casa dele.
Ele está morando nos fundos de uma loja de materiais de construções, pregos, martelos, enfim, coisas de obras. Contou que morava em uma imensa casa cujo aluguel era 3 mil reais, mas que sua esposa teve trombose, está doente e que agora ele está vivendo assim com muitas dificuldades. Pediu desculpas, ofereceu-nos um banco pra sentar e falamos de muitas coisas, dentre outras de literatura. O cara é um sábio.
Continuamos a conversar, ele nos ofereceu uma latinha de Boemia que estava em sua mini geladeira e me zuou por não conseguir pegar vinho na máquina dele. Disse: "depois português que é burro."
Esse cara, esse momento, vai ser inesquecível pra mim. Talvez nunca volte a vê-lo, mas sempre vou levá-lo comigo.

07 fevereiro 2012

essa lua

muito brilha essa lua.
e pra que brilhar?
pra fazer um coração vazio
voltar a amar?

tarde

sentei no quintal e o dia estava lindo.
meu gato dormia e só às vezes acordava assustado
pra espantar algumas moscas.

tudo que é belo, bela, acaba.
tudo que é tarde, sabe, anoitece.

em tudo.
todas as coisas
há algumas moscas.

06 fevereiro 2012

27 janeiro 2012

24 janeiro 2012

23 janeiro 2012

quietinha

tenho uma poesia inteira pronta na minha cabeça. Hoje, resolvi não escrever, resolvi deixa-la livre pra ser o que quiser. Quem sabe ela assim, quietinha, alce vôos muito maiores que quando no papel. Quem sabe ela amadureça, se forme e fique chata. Não sei, mas hoje vou deixar a poesia aqui, comigo e só.

22 janeiro 2012

domingo

domingo. domingo, né? (e digo domingo como se essa palavra fosse ganhar um significado para todos , mas sei que não, não vai.) e tem muita coisa acontecendo e eu tenho sempre tão pouco pra dizer.
A gente fica esperando um sinal da natureza, um sinal do mundo, um indício de que alguma coisa vai mudar e de que tudo vai ser diferente. Aí você é daqueles que tem esperança e vai se frustrando e frustrando até secar e nada mais ter pra sentir. Ou então você é daqueles céticos e aí, amigo, você vai perder tanta ternura, candura, pureza. Ou então nada disso: você vai sentar, ligar a televisão e fingir que o tempo não existe até faze-lo não existir. Deixa-lo matar sem saber, como um vírus invisível que te corta as veias pouco a pouco.
Tem também outra opção: nada.
só uma pequena outra coisa chamada:
domingo.

18 janeiro 2012

tênis



tênis é aquela parada: bola pra lá, bola pra cá. Qualquer momento de desatenção e outro vem em cima te cobrar. Se ficar nervoso, amigo, você tá sozinho na quadra, não pode falar com ninguém, se vira. Se você ficar puto, pior ainda, não há o que fazer, meu camarada, joga a raquete no chão, bica uma bolinha, no máximo, leva uma advertência, mas vai ter que voltar pro jogo. E é ponto a ponto, tudo igual, repetindo pra fazer diferente. Se você for cauteloso e ficar no fundo, pode tomar uma deixadinha na beira da rede, se você quiser acabar com o ponto logo e subir, pode levar uma passada no fundo. Se descansar o corpo, se resolver aproveitar, se sorrir, vem o outro e poff...ponto! Quando você vê o cara ganhou dois sets, tem um triplo match point a favor. E tudo que você pode fazer é desistir, apertar a mão dele e ir pra casa. Engraçado, tênis parece a vida.

17 janeiro 2012

trechos de mim

queria copiar um texto velho meu. Pegar algo que já escrevi, tirar um trecho e colar aqui. Isso, assim, como um estupro de mim mesmo. Como o roubo intencional daquilo que um dia me foi autoral. Eis:

"as meninas se fixam
transitoriamente entre
o que eu quero
e o que vou fazer

e o que era pra ser belo
agora é só disforme
como se o mundo assim
pudesse fazer sentido "

10 janeiro 2012

palavras extraordinárias

não existem mais palavras extraordinárias
todas são xulas, nulas, bulas, gulas, fulas,
e todas as intenções são más,
nenhuma delas, palavras ou intenções,
tem um fim divino porque o divino fim
é final demais pra ser adivinhado
pelo homem vivo.
o divino é de vinho demais,
dividido demais,
distraído demais,
e no mais, ademais, por detrás
daquilo que faz
a palavra comum, qualquer uma
isopor, televisão, cachorro quente,
bolsa de valores, prego, constituição,
qualquer uma delas serve a coisa nenhuma
serve a não, a nunca, a nada, a niente
a necessidade de ninguém para fim nenhum
e antes que o fim seja final que seja o início
do meio pra se chegar na tentativa da possibilidade
da incerteza da estrada do processo do caminho

e nenhuma palavra é extraordinária mais
só as intenções são grandes
e más.

entre o sentido, o sentindo e o não sentimento
existe o pedacinho do amor do céu
do amor do cão
do amor do ódio que ama amar o amor que odeia
existe a qualidade da não caridade que é o amor ao próximo
vítima da saudade que deveras sente pelo ser

não existem palavras extraordinárias
não existe nada demais
mas existe alguma coisa que eu não sei.

08 janeiro 2012

nosso último encontro

nosso último encontro
(repare nas palavras:
nosso
último
encontro)
não foi o último
porque nunca poderia ter sido.

quem nos visse acharia que era o primeiro
tanto era o sorriso de saudade,
o medo do futuro,
o susto do amanhã
e a incerteza de todo o resto que não era a gente.

nosso último encontro foi como uma pedra
um imenso iceberg
uma interferência dos planos do mundo.

foi como a apoteose da primavera
e a prova de tudo que a ciência diz
sobre os amores e as reações químicas
sobre os pudores e as armas biológicas.

nosso último encontro foi o que foi
(nosso
último
encontro)
e naqueles momentos,
últimos, nossos,
só existiu a gente.

02 janeiro 2012

videotape

eu queria fazer um texto com dois objetivos: 1 - falar sobre o tempo. 2- ser capaz de fazer chorar. Então peço que quem me ler que coloque ao fundo a canção "videotape" do radiohead. O link está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=eNY3zTWDs9s
O tempo é bruto, é violento, único, mas apesar disso a vida funciona em videotape, funciona com um tempo visceral, caótico e não poético sendo incidido por vários momentos de nossa vida ao mesmo tempo. Sou capaz de estar em três ou quatro momentos agora, um aqui de short, sem camisa, banho tomado, cabelo ainda não penteado, outro na cama curtindo um momento de romance, nas horas que o eu te amo escapa entre suspiros, um outro passeando na praia com meus pais num dia em que saí de mãos dadas com minha mãe sem ter vergonha de o fazer e um outro em que sofrendo fui sozinho ao cinema e assisti um filme que me faz cair lágrimas tão pesadas que doíam pelo meu corpo. E estando nesses quatro lugares tenho saudades de todos, menos do de agora. Isso é o tempo.
O videotape não reprisa nada, ele reencena a vida, reescreve o mundo, reestrutura as palavras, os gestos e os sentimentos. Não há nada que não seja novidade e o tempo faz questão de que isso apareça a todo instante como um reflexo no espelho que se mexe e se mexe e se mexe, às vezes sem nem a gente saber que ele vai se mexer.
O choro. O choro e o tempo. Só o tempo é capaz de fazer chorar. Tem aquele primeiro choro, de emergência, o choro que te toma, que dá um sopapo na tua cara e você adora se jogar e deitar no outro da pessoa que te faz chorar pensando que queria morrer ali chorando, mas nunca perder a capacidade do choro. Tem o segundo choro, aquele distante, lágrimas por ninguém, diz hebert, cry for no one, dizem os beatles. Choro antigo, passado no século passado nas nossas vidas, mas que quando a gente senta e lembra, dos 4 momentos, juntos, os tempos todos, ele vem quase como um cansaço, e descansa, alcança a gente antes do fim do mundo e libera a paz.
O ano começa e com ele várias boas coisas, novas esperanças, novos jeitos de ver o mundo. Mentira. Sei lá, também, sei lá. É bom dizer sei lá, porque às vezes, né? Sei lá. Eu sei do choro e do tempo. Choro muito menos do que deveria, vivo muito menos o tempo como deveria. Uma chuva me prende em casa. Acho que esse final de texto está como eu gostaria, parado, preso no sem fim da linguagem, onde se abriga de um lado a escrita, forjando um tempo e as lágrimas presas em algum lugar de mim que nem sei. Ou sei. Sei lá. Que a vida seja um eterno videotape de novas imagens. Que o passado seja em tempo real.

26 dezembro 2011

a verdade (um pouco mais cedo)

Eu sei a verdade. Não acredito que a verdade doa, porque o óbvio não pode doer. É preciso um pouco de dúvida, esperança e fracasso para que doa e a certeza e a verdade são claras demais para trazer sofrimento.
Saber a verdade não me dá nenhuma vantagem, apenas preguiça. Eu sei exatamente como funcionam as coisas e como a engrenagem natural deve ser mantida para que o plano dê certo.
Sei...e sabendo durmo um pouco mais cedo.

24 dezembro 2011

o pequeno natal

Quero falar do Natal. Um ímpeto não dos mais felizes me fez vir aqui e querer dizer sobre o Natal. O próximo passo foi pensar que não há porque falar de melancolia ou de tristeza, nem daquilo que está errado no Natal, porque, na verdade, com ele não há nada errado. O erro está em todo resto.
Então preferi falar de outros natais, os natais menores, pequenos, micronatais que existem dentro desse gigante Natal que quase nos oprime. Falo desse natalzinho muito pouco quase nada que nos perpassa muitas vezes e se não estivermos atentos, podemos perde-lo.
Por exemplo, o Natal de sentar no chão. Ganhar um presente e sentar no chão pra abrir é Natal pra mim. Aquela sensação de que se pode ficar torto e do olho se fixando num saco colorido. Dura segundos, mas segundos tão marcantes e tão fortes que se penso muito tempo neles, sou capaz até de talvez sorrir. Ou então o Natal dos embrulhos de presente espalhados: aqueles papéis, semi rasgados, coloridos, bregas, com desenhinhos que você nunca repara, jogados ali num canto da cama enquanto você dá uma volta pela sala pra pegar uma castanha.
O Natal de um bilhetinho, de um cartinha que você recebeu. Tente ler um papelzinho que você ganhou no passado e talvez nem tenha dado tanto valor. Leia agora e veja o valor que ele tem. Não chore, nunca há motivos pras lágrimas, mas leia. Esse sentimentinho pequeno é insubstituível e não há dor no mundo capaz vence-lo.
O Natal da melhora. O Natal de uma doença que se foi e você quase não lembra, a não ser por alguns sintomas que aparecem aqui e acolá e um certo medo de sofrer o sofrido e de viver o não vivido. O Natal potencializa isso, porque potencializa a vida. Mas isso não é grande, é pequeno e quase escapa do espírito natalino.
E poderia falar mais, falar do Natal dos cheiros, dos gostos, das árvores, das luzes, do vinho, o Natal de muitas coisas que existem e sempre nos escapam.
O problema do Natal é que é sempre um momento de saudade. Sempre temos saudades do que vivemos, do que estamos vivendo e é certo que temos saudades também do que há de vir.
Bom Natal pra quem sobreviveu...

22 dezembro 2011

natalino




o cara se chamava natalino
tinha nascido no dia do natal
e isso era uma saga na vida dele

"que dia especial pra nascer, natalino?"

e mandavam ele rezar
e mandavam ele agradecer
e mandavam ele se redimir

natalino, aos poucos,
passou a não comemorar seu aniversário
depois parou de comemorar o natal
depois parou de comemorar.

natalino, no natal,
abandonava o peru;

tinha espírito de porco.

15 dezembro 2011

acalme

sempre
que
a gente
escreve
cortado
e
com
poucas
palavras
parece
poesia.

pouco importa, prefiro falar na horizontal, muito, torto, bobo, burro, estúpido e tudo de ruim que posso atribuir a mim mesmo.

desde que acalme o coração.

13 dezembro 2011

o natal (antes do espírito)

Vamos lá, né? Natal tá aí. Mas o mais importante é pensar no que eu posso contribuir ao mundo à partir da idéia de Natal. Tentarei.
Bom, primeiro de tudo, acho que o Natal deve ser pensado por fora do famoso espírito natalino. Esse espírito que defino como "uma aura de alegria, felicidade e complacência que nos toma" me parece ser prejudicial em alguns aspectos, na medida em que ao mesmo tempo que ele nos enche o peito de amor pelo mundo, também traduz-se em uma espécie de parasilia. O espírito retira de nós uma capacidade reflexiva importante para ação. É nessa medida que eu concordo que o modelo de amor por Jesus deve ser seguido no Natal, mas o amor de Jesus é um amor engajado, violento, como ele mesmo diz, ele vem pela espada e não pela paz. É preciso pensar o amor não como um sentimento, mas como uma ação, como um movimento de transformação. É preciso, sei lá, beijar a ferida do leproso ou quebrar o templo ou enfrentar os poderes que nos rondam. Às vezes uma grande forma de manifestar o amor natalino está em enfrentar o patrão, enfrentar uma injustiça que ele nos faz. Talvez seja muito melhor que sair abraçando todo mundo.
Não sei, é uma idéia, é algo a se pensar. Só estou querendo trazer o Natal, uma data bonita, que comove e que une para mais um momento em que podemos mudar o mundo, ou pelo menos um cantinho dele. Espero não ter exagerado.

10 dezembro 2011

felicidade de fotografia

os meus olhos
encarnam no outro
a possibilidade do dois
do translúcido
e do espelho

e revelam
como quem não quer nada
um desejo de se viver
uma inegável e falsa
felicidade de fotografia

07 dezembro 2011

humildade

É fato. Humildade passou a ser qualidade e a palavra é repetida pra lá e pra cá na boca de um monte de gente que...enfim. Estava aqui eu pensando sobre o termo. O que é ser humilde? Qual a caraterística principal da humildade? A frase me veio na cabeça assim, de supetão: humilde é quem mostra as fragilidades.
(Não confundir fragilidade com fraqueza. Fragilidade é quão rápido se chega ao âmago e não o quanto ele aguenta. Melamed)
A posição do humilde, na boca do comum, é não arrotar mais do que pode e não arrotar nem ao mesmo aquilo que pode. É ter uma visão de si menor, pelo menos exteriormente, daquilo que se considera por dentro.
Pra mim não. Pra mim ser humilde é saber exatamente seus pontos fragéis, ou seja, aquelas partes suas que se alguém atingir vai te afetar brutalmente e mesmo assim não tentar mascara-las com grito, raiva, violência, sorriso, amizades, amores ou qualquer outra coisa. Ser humilde é estar exposto ao mundo e vê-lo como porta de acesso para conquistar suas coisas, por isso o humilde é sempre quase um coitado porque ao expor o que tem, geralmente alguém monta em cima e bláu, toma-lhe nas costas, amigão.
Por isso ser humilde é difícil demais, por isso eu me acho pouco humilde, porque pra viver inventei meus recursos...

goteja

essa flor que dá na água
amarela que só ela
colorida do luar

meio rota e maluca
que venceu a forta bruta
da maré e da mulher

quando o homem se balança
lá na rede da varanda
esperando o carnaval

esse carro então dispara
e te acerta feio bala
só descansa no natal

quem vai querer
que o que já é
não seja

quem vai saber
que a vida só
goteja

05 dezembro 2011

meus mundos

Hoje eu já fiz uma música, já escrevi uma cena, já corrigi uns textos. Já vivi em muitos mundos sem sair de casa. O importante não é a produção, é a producência, o ato de escrever em direção a...Detesto a poesia do poeta, só gosto da poesia daquele que, tentando falar alguma coisa, poetizou sem querer. Quem fala mal do cotidiano ou da rotina é porque vive em um mundo deveras pequeno. Eu enquanto ando de ônibus, penso em muitos tantos mundos que posso habitar e, pensando, habito.

01 dezembro 2011

pajotara

O mundo é um fio, um largo, gigante e fino fio que nos atravessa e seu coração é como um guarda-chuva que atravessa o fio num saltitar belo, leve e desconfiado de que o tempo talvez esteja parado enquanto acontece o atravessar.
Sempre que você ama, eu lembro que o amor existe e lembro que qualquer amor é o maior amor do mundo e imagino que um dia quero ser digno disso, quer sentir assim e viver assim, como se um sorriso dependesse do medo, do canto, do gesto e do desespero. Como se a dança dependesse da batida, da zabumba e do seu sorriso.
Sempre que você diz uma palavra parece boba e solta, mas eu sei (e talvez só eu saiba) que ela guarda toda uma profundidade que você não ousa dizer pra ninguém e que o que sobra é apenas a meiguice do ter dito e a gentileza do pós-dizer.
Vivo no seu mundo como um satélite, como alguém que de longe quer saber como é você. Justamente por isso em momento algum penso em intervir no seu jeito. Meu silêncio é aprendizado, e mesmo que eu leia qualquer filosofia é de você que posso aprender a vida. Que fique registrado aqui um carinho, como um gesto qualquer de um sujeito pequeno que não vale muita coisa. No máximo um sorriso, talvez. E que qualquer palavra minha embale seus sonhos...

26 novembro 2011

escuridão

Toco violão noite adentro e só me lembro de ir pra casa quando amanhece. Durmo o dia inteiro e acordo só pra trabalhar em um teatro escuro, sujo. A escuridão é minha amiga, minha profissão. A escuridão é um meio de vida. É como sou, escuro, denso. É só como consigo ser.

23 novembro 2011

ela e o ônibus

Entro no ônibus e sento ao lado de uma moça.
Eu: bermuda caqui, camisa preta, tênis sem amarrar, meia preta, rosto oleoso de suor seco, despenteado, com olheiras e sono.
Ela: pequena, linda, loira, roupinha de executiva, nariz fino dos mais lindos, olhos claros como tinta de aquarela, com os cílios bem pretos, a pele lisa e seca que nem de maquiagem precisa.
Choro. O olho enche de lágrimas que rolam. Poucas, secam antes de pingarem ao chão. Ela:
Porque chora?
A sua beleza.
O que tem?
Machuca, oprime, humilha.
Desculpe - ela faz uma pausa - mas por quê?
Essa sensação de que nada que eu faça - estude, brilhe, enriqueça - me torne um homem mais interessante. Nada disso pode fazer jus a você e sua beleza.
Entendo - diz ela.
Ela abaixa a cabeça e não fala mais. Nem eu. Entendemos. Três pontos depois ela pede licença para descer. Abro espaço, ela passa e, não sem esforço, me lança seu melhor sorriso. O último. E desce.

21 novembro 2011

empate

Tem tanta gente falando, tem tanta gente escrevendo, tem tanta gente pensando que às vezes eu gostaria de dar uma abraço em cada uma delas e falar: "brother, tá pesado, eu sei, mas vamos ver as coisas de um jeito diferente, vamos tomar uma cervejinha." Mas não dá, eu não sei dizer e vocês não sabem ouvir. Cada um compartilha a solidão. Aí eu penso no Flamengo, naquele meio de campo lento, nada criativo e percebo que a maioria das vidas é como o meio de campo do Flamengo: saudoso, melancólico, mas que me traz uma alegria. Minha vida é, então, um campo, bem grande, onde se quiser você pode vir bater uma pelada. Eu te ensino, chega pra cá, dá uma arrancada e faz gol.

a palavra

Bora lá,
vamo que vamo,
então manda brasa.

é quando a lingua triunfa sobre os sentidos.
é quando a poesia perde pras palavras.
é quando a palavra tá gigante,
tá falando muito,
tá reclamando pra caramba.

Daqui a pouco vai querer a chave de casa,
dar uma volta de carro
vai querer sua parte na herança.

estará certa,
vai querer o que é seu.

16 novembro 2011

A Mãe

Baseado em "Orégano"

Estava decidida a se matar. Planejara tudo com antecedência, mas não muita que é como se decidem os jovens. Há duas semanas atrás, sem motivo aparente, sem sofrimentos amorosos, familiares, decidiu que a vida era enfadonha e não valia todo aquele esforço. Lembra-se que estava em uma aula de filosofia e ouvia o professor falar sobre o sublime e a desmedida em Kant e que aquilo lhe parecera irreal: pensava que o tempo e a projeção que se fazia nele impedia a desmedida, afinal o tempo e o espaço eram esencialmente a mesma coisa.
Enfim, uma decisão tão importante nem sempre nasce com regras e ela, jovem e bela, havia decidido se matar e o faria ainda hoje, logo após anoiteicer, assim que terminasse a exibição de Chaves: era esta pureza infantil que queria como último sentimento. Decidiu que morreria com pílulas, era bonita e vaidosa demais para se matar pulando da janela ou se dando um tiro. O gás de cozinha havia sido uma opção, mas queria facilitar o trabalho da perícia em atestar se ouve acidente, falha ou suicídio.
Acordou cedo e decidiu escrever uma séria de cartas. Escreveu a primeira para sua melhor amiga, ficou entediada e decidiu que deixaria apenas uma mesmo, mais alegre, sem explicar demais as razões que a levava ao ato. A única coisa que deixou claro foi que ninguém tinha culpa de nada e que morria por preguiça.
Foi almoçar em um restaurante caro. Sentou-se em um canto movimentado e ficou olhando as pessaoas comerem. Não se sentiu feliz nem triste, lamentou apenas ser uma das últimas coca-colas da sua vida. Lembrou de uma história que ouvira certa vez na igreja. Estava entediada, de novo, e preferiu ouvir dois jovens bonitos que conversavam atrás dela que o padre. Dizia um:
Eu não acredito nisto que o padre está dizendo. Não dá pra saber o que é viver na eternidade, aliás, eu não sei ser de outro jeito além deste.
O outro respondeu:
Tenta engordar vinte quilos, ficar bem gordo e nojento, ninguém vai olhar para você, aí você aprende a ser de um jeito que não esse.
Pode ser – disse o primeiro – mas ser gordo não vai me ensinar a viver na eternidade.
Lembrou dessa história porque agora parecia claro que a única maneira de viver na eternidade era se privando do tempo, ficando sem contato humano algum, nem ao menos através dos meios de comunicação. Agora, isolada no restaurante, tinha a sensação de que viveria eternamente, como se já tivesse morrido. Decidiu, então, mudar de planos e passar a última tarde da sua vida sozinha, como se já vivesse na eternidade prometida não pelos padres, mas sim pelos jovens preocupados em serem magros.
Foi para casa e sentou no sofá. Tentou não fazer nada e não fez por um bom tempo, talvez uma hora na eternidade, sem pensar, só às vezes lembrando de fatos e pessoas que não sentiria falta. Pouco tempo depois, de súbito, levantou, foi até a cozinha e começou a lavar a louça. Queria a casa limpa quando todos descobrissem sua morte. E assim foi, depois da louça decidiu passar sua última tarde fazendo faxina. Varreu a casa, limpou banheiro, jogou papéis velhos fora e até esfregou azulejos que tanto custava fazer enquanto queria viver.
Enfim, terminou e, de novo no sofá, percebeu que começava a escurecer. Eis a hora. Sentiu nesses últimos instantes de vida que podia fazer qualquer coisa e percebeu que gostaria de um último contato humano.
Pegou o telefone, olhou para ele e discou um número qualquer. Chamava. Deu alguns toques, mais alguns e ninguém atendeu. Aquilo frustrou-a profundamente, afinal de contas assim é a vida: “sempre que dependemos dos outros, algo dá errado.”
Não se conteve, tinha raiva e abriu uma cerveja. Bebia devagar para tentar apreciar e dois copos depois se acalmou. Bebeu outra só para confirmar a volta da alegria. O telefone tocou. Sorriu, afinal, atenderia uma última ligação.
Pegou os remédios da despedida, colocou-os ao lado do telefone e atendeu:
Alô? Não, não é daqui, não, não tenho nenhum filho. José? Não conheço, desculpe, é engano, não chore, senhor, é engano. Onde o senhor está? Não chore, por favor, mas não é daqui não, deve ser um número antigo...
Estava perplexa. Não conseguia largar o telefone que repetia aquele sonoro tutututu. Quem era José? E que sofrimento era aquele que vivia? Como pode alguém viver sofrendo assim? Estava tão feliz com essa despedida sua e agora tudo parecia ruir. Como poderia morrer agora por conta de uma aula de filosofia quando um José, aparentemente com idade, ligava para sua mãe e lhe queria tanto e chorava e sofria?
A moça aquele dia não fez mais nada. Não se matou. Uma vida estava salva no reino dos céus e demoraria a chegar naquela aparentemente falsa eternidade. Mas não chegou a pensar nem por um momento que, naquela hora, alguém morria e esse alguém se chamava José.
E José morreu, sem saber que, no último instante, salvara uma vida.

ponto fraco

Um soco na cara. Pow, ou puf, não deu nem pra ouvir o som e tava lá o cara caído no chão, com aquela cara de pastel velho de feira e o outro em pé, imenso, gigantesco, descomunal com cara de vitorioso, se sentindo o maior dos homens do mundo. Era mais bonito, rico, bem sucedido, boa praça e simpático e mesmo assim resolvera bater no outro pobre coitado que pouco sabia porque apanhara, uma piadinha assim fora de hora, mas o que é uma piada perto da beleza, riqueza, sucesso e simpatia? Nada, pensava, mas era muito porque pra quem é bonito, rico, bem sucedido, boa praça e simpático nada pior que um cara pior com um humor ferino e uma inteligência escorregadia.
E o resultado é esse, otário, agora sangra aí no chão, babaca, cuzão. É isso que tu merece por ser folgado e idiota. Triunfal saiu o outro pela porta. “Umbral” pensou o mais fraco.