27 julho 2010
Antenor - parte 1 - o projeto e as caixas
22 julho 2010
meios de transporte
- ÔNIBUS?
- nãão, po! Aaaa...
- TREM?
- não, espera. Eu queria saber mesmo, assim, tô só pensando, o que leva uma pessoa a...
- MOTO, CLARO!
- NÃO. Deixa eu falar! To querendo saber o que leva uma pessoa a...a...se matar...
- Aaaah sim, mas isso é óbvio: uma arma!
21 julho 2010
isso.
- Isso.
18 julho 2010
justiça
17 julho 2010
kubrick e a guerra
O primeiro foi "Nascido para matar", filme de 1987.
O segundo foi "Glória feita de sangue", filme anterior ao primeiro que citei, de 1957:
Nesse filme a questão é do poder. Uma idéia, um desafio, uma oferta de posto é o mote para que um General resolva que os soldados de uma trincheira francesa invadam o chamado "formigueiro alemão". E um exército cansado e abatido depois de 2 anos naquela situação que não sai do lugar não acredita que é possível, nem seus sargentos ou coronéis, somente o General, que passa as ordens e todos acatam. Enfim, a morte de muitos e o recuo de alguns que são julgados por covardia e escolhidos aleatoriamente para o fuzilamento por não honrar a pátria.
Num determinado momento do fracassado ataque o Genaral manda que a artilharia mate seus próprios soldados que recuavam, como se a derrota deles, A MORTE DELES fosse a derrota do general. Conto a sinopse porque só isso já me parece absurdo, todo esse jogo de poder, essa impossibilidade de contestação de explicação, essa completa ausência de liberdade, impedindo que cada um seja capaz de analisar e julgar, faz com que ninguém, nem os poderosos sejam capazes de analisar e julgar. E no fim...mesmo que algumas coisas mudem, o fim é sempre fim. Fim após mais muitas mortes.
Era só isso mesmo que eu queria dizer.
16 julho 2010
2:52
14 julho 2010
morremos porque esquecemos que vamos morrer
13 julho 2010
unha encravada
Unha encravada é uma excelente metáfora pra vida. Pra quem não tem, explico: é quando a unha nos cantos do dedo cresce pra dentro da carne e vai cada vez mais forçando, mesmo que não haja espaço. E a carne, um tanto quanto sólida mas frágil tenta a todo custo impedir que aquele ser estranho entre. Então o dedo começa a ficar vermelho, inflamar, doer, latejar e a gente que, numa vida corrida às vezes esquece de cortar as unhas, tende a futucar com a mão para dar uma leve sensação de descanso, o que acaba por ser, literalmente, um tiro no pé porque começa a inflamar mais ainda e sangrar. Por fim, com uma dor absurda, a gente resolve cortar aquela unha, trabalho que deve ser feito por profissionais que precisam cortar com cuidado, numa forma de quadrado para que a unha cresça de maneira igual. Caso seja em curva uma parte vai ficar pontuda, entrar antes na carne e vai causar mais danos, problemas, sofrimentos.
Acha que acabou? Que nada, quando a unha for retirada, vai ficar um buraco, uma vala, um poço e todo aquele espaço que a unha tinha ganhado da carne vai ficar à mostra e a carne ainda vermelha vai tentar permitir que o sangue circule e começar a relaxar, não sem antes ficar por dias e dias latejando. O buraco lateja, a ausência lateja e demora bastante a curar. Quando cura é por pouco tempo, pois a unha já está a crescer novamente.
Pensem e me digam num corresponde disso nos sentimentos. Eu tenho um escolhido...
09 julho 2010
Eliminando a seleção
Tive vontade de comentar da eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Resolvi faze-lo algum tempo depois da derrota para que as paixões ou as subjetividades não interfiram no que eu escreve, muito embora tudo que eu vá escrever será dito pela paixão e principalmente pela subjetividade, porque só isso que o futebol é.
Tá ok, talvez não, existem fatores objetivos no futebol e vamos a eles: A seleção era limitada tecnicamente, o técnico era mais teimoso burro empacado, a CBF como um todo não se importa muito com futebol, tipo igrejas com nossa alma, o Lúcio é um baita líder, mas forjado, um líder meio sem identidade com o país, um bom líder para qualquer seleção, o que não faz dele um líder pra seleção brasileira.
E dizem os otimistas: "mas os resultados eram excelentes". Quais?, pergunto eu. O bom nível dos jogadores brasileiros faz com que eles estejam "acima da média" de muitas outras seleções, então não importa em que torneio estejam, serão favoritos e chegarão perto do título, o que não significa que seja um bom time, não significa nada. Esse "acima da média" acaba por mascarar um fato: ano a ano a seleção brasileira se enfraquece! E de 90 pra cá vem numa decadência sem fim, principalmente depois do filme da era dos craques da linha Careca-Romário-Ronaldo...
No entanto, a seleção atual enquanto sabia que não jogava bem, enquanto se percebeu limitada, conseguiu resultados. Os cabeças-de-área ficavam ali na deles, dando toques pro lado e pro meia (sempre dependendo do Kaká) que puxava um contra-ataque. A partir do momento, e na Copa isso se deu contra o Chile, que eles perceberem que, sim, eram candidatos ao título, tudo foi pelo buraco. O primeiro tempo com a Holanda foi a gota d´água. YES, WE CAN, pensaram no melhor estilo Joel Santana, e foi o fim do Brasil na Copa do Mundo.
A próxima é no Brasil e 4 anos antes já me cheira a fracasso, mas por favor, outra Maracanazzo vai ser dose...
08 julho 2010
bruno
Abraçado com os amigos fazia uma oração. Pedia proteção, pedia conforto, pedia que não importa onde fosse, pudesse sentir a Sua presença agindo na sua vida. Pedia que premiasse seus esforços e de seus colegas. Agradecia pela chance que teve na vida, pelos amigos, pela carreira que até agora tinha sido de sucesso, agradecia a família que tinha e agradecia por tudo que tinha, apesar de não saber nomear. Olhou para o túnel e viu uma luz ao longe, era para lá que iria, milhares de pessoas o esperariam, ali foram para ve-lo, sentir sua força, seus saltos, piruetas.
Terminada a oração, soltou-se do abraço, se abaixou e ajeitou as meias, a chuteira; de pé deu alguns saltos para se manter aquecido, vestiu as luvas, fez o sinal da cruz e num sinal do capitão correu na direção da luz. Viu um mar preto e vermelho gritando seu nome, fez cara de mau, depois sorriu, agradeceu, pensou que hoje era seu dia, que tudo correria bem. Colocou-se debaixo das traves, ajoelhou uma última vez e parou de pensar. O resto era com seu corpo, o resto era com todos, o resto era show, era espetáculo.
Tudo correu bem até o apito final. Foi a última vez que foi feliz, a partir dali nada mais aconteceria, a partir dali a vida era lá fora, e ali sua vida acabou. Seu último momento de vida foi quando olhou pela última vez aquela multidão rubro-negra. O fim da vida chegou, mas a vida ainda durará muitos anos. Porque não é pela oração, pelo que se diz, pelo que se faz: é por tudo que a gente sempre foi e nunca poderá deixar de ser que se paga.
05 julho 2010
segunda
03 julho 2010
Auschwitz
como fazer poesia sem ser corno?, digo eu!
como falar sem dor
como falar sem a ingratidão, a traição
o sofrimento, o corte, a ferida, a morte?
Como fazer poesia sem Adorno,
como fazer poesia sem a dor no coração?
como as crianças que não fazem poesia
e nuas, sem adornos, passeiam pelo mundo
a viver e quando desenham ou escrevem
é tal qual aquarela, exercício do imaginário
porque a poesia não é inocente
nem ingênua
nem pode ser
depois de Auschwitz.
30 junho 2010
herói
24 junho 2010
2:13
Não tenho idéia do que quero escrever e não tenho idéia do que estou escrevendo. Às vezes algo me diz que preciso vir aqui e botar algumas palavras em sequência. Sigo a ordem sem refugar e vou deixando que tudo se faça. Como o mundo foi feito: primeiro a luz, o resto é mole. Porque era a luz que faltava, debaixo da luz somos capazes de ver e fazer tudo, enquanto que a escuridão nos oprime e nos mostra nossos erros.
Tenho vontade de ensinar as pessoas e me odeio por isso. Me sinto presunçoso, como se eu tal como sou, tivesse algo para ensinar a alguém. Eu que devia aprender, me digo, mas vejo que tanta gente precisa ouvir o que já aprendi. Por exemplo sobre Tchekov: seu realismo se rasgando, ele ultrapassando uma barreira que seria tão comum nno futuro, mas ver essa gênesis gera tanto prazer, alguma felicidade. Penso que sei o que estou lendo e sei porque estou lendo. É porque quem se enxega inteiro, não se enxerga. Quem sabe o que está fazendo é estúpido. O ideal é se deixar vagar pelo mundo, com o pensamento discordando de tudo que puder e depois criando outros castelos intransponíveis.
Queria tanto que alguém entendesse, mas a maioria das pessoas que lêem isso aqui esperam poesia, ninguém espera nada. Ninguém acha que um texto pode mudar sua vida, ou melhor, ninguém se deixa mudar por um texto, embora é óbvio que vão dizer que sim, que mudam. Talvez haja alguém sim, tenho essa esperança. Como se cada sessão de cinema servisse apenas pra uma pessoa. É meio solitário tudo isso, são 2:13 da manhã, escovei os dentes e interrompi Tchekov no meio.
O conto é sobre um seminarista que provavelmente se está enamorando, ainda não sei o resto. Tchekov talvez saiba. É tão difícil tentar dizer quando não se tem nada, porém acho que já disse alguma coisa, é que se fez a luz, por algum motivo creio que se fez. Acho que até pude ve-la. Será?
19 junho 2010
os velhos
- Esses velhos não são apenas pessoas.
-São o quê, então?
- São guardiões de um tempo. É todo esse mundo que está sendo morto. - Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um simples polícia.
- O verdadeiro crime que está a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, snehor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
As histórias para os velhos tem dois movimentos: o primeiro é de vida, contam porque muito já viram, viveram e pensaram da vida. Muito se cansam dela e alguns acham beleza, outros esperam a morte, mas todos sabem do quanto é interessante viver apesar de todo esforço que é conviver anos e anos a fio com o tempo. O segundo é de morte, contam suas histórias por medo de serem esquecidos, de que todo aquele esforço tenha sido em vão, contam e inventam, transformam sua vida em ilusões de vida, em pequenas noveletas para serem contadas. É por isso que há nos velhos uma fascinação quase mítica, os ouvimos como ouvimos um pajé, um padre, talvez nos aproximemos de deus, talvez, bem talvez.
Dizem que a distância aumenta a inverossimilhança dos fatos, então os velhos são os verdadeiros narradores de nós. Enquanto que os jovens vivem e os adultos se imitam a si mesmos e a imagem que têm de si, os velhos nos contam, nos guardam e com distância sabem nos ver.
É dessa sabedoria que sinto falta. E está de novo Saramago em minha vida.
ps: Mia Couto é um escritor moçambicano, todos deviam ler, principalmente "Terra Sonâmbula". Talvez em breve eu poste uma análise que fiz do livro, mas só talvez.
18 junho 2010
último dia de José
Saramago - 18 de Junho
Não sou uma pessoa que lida bem com as coisas. Não tenho grandes lembranças dos meus avós, nada que me marcasse a ponto de ter aquilo como parte integrante de mim. Lembro no máximo de um cheiro, de uma comida, de umas palavras, mas nada que me faça ser o que sou hoje. Entretanto, esse velhinho, audaz e frágil, irônico e engraçado, forte e sútil, também sou eu. Foi ele que me ensinou a escrever, me ensinou a pensar e me levou às melhores viagens que tive na vida. Lembro que o Sr. José acompanhou minha vida por muitos meses, numa batalha ferrenha entre texto e eu, que no fim perdi e vi o Sr. José, um outro já, emergir na escuridão. Lembro também de Pedro Orce, com o cão sempre ao lado, morrendo ao mesmo tempo que aquela imensa jangada ibérica parava no meio do oceano e lembro também de ali ter nascido uma árvore. Lembro das viagens de Ricardo Reis por Lisboa e das imensas conversas dele com Fernando Pessoa, ou seus passeios por entre os eventos urbanos. Lembro também do pobre Caim, do cão das lágrimas, da mulher de óculos, de Joana Carda, de jesus e até do senhor deus e de todas as pessoas que passaram na obra dele, pois Saramago também era todos eles.
Enfim, Saramago é tão próximo de mim que é um parente, meu avô, minha maior referência, a única pessoa que quando dizia algo eu parava pra escutar, com a admiração de um aluno e o respeito de uma criança. Ele fazia um obra contemporânea parecer clássica e isso me fazia tira-lo do tempo, ve-lo quase como alguém que de outro mundo vem para escrever sobre esse, quase profético.
E agora que ele sumiu, pois um ateu nunca se rende e não seria agora que ele se renderia, vai existir comigo, pra onde eu for e sempre que eu escrever vou tentar fazer jus à ele. Agora que ele sumiu é obrigação minha lembrar também dele e dizer a todos que um homem escreveu, que seu avô era criador de porcos e analfabeto e que ele um dia com as palavras tentou mudar o mundo. E mudou o meu.
14 junho 2010
o tempossentimento
Digo tudo isso porque percebo o que um sentimento faz. Gostar de alguém é como abrir uma fenda no tempo, parece que ele não mais existe de uma maneira objetiva, mas apenas da maneira como o encaramos, seja na saudade - eterno -, seja na presença - veloz. E é essa subjetividade que confunde tudo, nunca sei quando é cedo ou tarde, nunca sei quando é muito ou pouco, vou agindo assim de improviso assim como meu sentimento manda, mas a impressão é de que o tempo é meio que sempre um vilão eterno. Acontece que vem um dia, como o dia dos namorados e põe tudo em ordem, faz o tempo ser amigo um dia e me faz feliz como não era faz tempo. Por isso eu quero agradecer a cronos, que tem sido um bom companheiro ultimamente.
07 junho 2010
gênesis
Depois veio a fuga, um desvio, onde a cabeça precisava descansar e o corpo conhecer coisas novas, se estragar um pouco, ccomo se ao se maltratar se chegasse a alguma liberdade.
Até que os olhos cruzam com os olhos e a fumaça num instante se dissipa. É a nova vida que aparece: a primavera; chega o messias e anuncia a nova aurora que nos abarca quase como num filme bom ou numa lembrança de infância.
No fim, chega o resto, toda a felicidade que a primeira luz fez aparecer. Não há mais fumaça ou desvios, não há mais. É como se a bíblia se tivesse esquecido do apocalipse e ninguém mais fosse culpado de nada, é como se tudo que houvesse de bom na vida se explicasse por uma palavra, que simples sai da boca da menina: sim.
04 junho 2010
da poesia
Se dizem de sonhos, mas me parecem de mim
Estico e esgarço-as, nada sobra
Eu sobro.
A poesia que imagino e que não vivo
Seria poesia de outro, de fora
De quem não sabe que diz, e rima
Incessantemente palavra à palavra
Aí eu olho o computador e vejo as linhas
Que lembram poesia pela forma
Mas não parecem nada e não são.
Sinto vontade de falar palavrão...
Finalmente eu lembro o que me fez vir aqui
Queria escrever sobre esse outro
Esse sentimento imenso e feliz
Que faz que a poesia seja eu
Enquanto quero que ela seja de outro
E é nesse esforço que é sentir –
Quando toda poesia parece estúpida
E todas as palavras são ditas
E imensamente repetidas –
Que percebo que é dessa matéria que a vida é feita
Dessa mesmo
Disso tudo
Desse movimento
Que não sei o que é...
31 maio 2010
purgatório
Acontece é que, muito feliz, não consigo deixar de pensar que haverá uma lei da compensação. Acontece que quem muito quer nada tem, quem é vivo sempre aparece, quem avisa amigo é, quem tem boca vai a roma, ou seja, quem faz tudo, quem está em todo lugar, a vida é toda de quem, e quem com ferro fere com ferro será ferido. No entanto, no final sempre fica tudo pra depois, pego meu violão, sento na cama, deixo os olhos (ou as pálpebras?) se fecharem e canto bem devagar a canção: quem tem medo do lobo mau...lobo mau?”
24 maio 2010
a urca
20 maio 2010
decifrar
Ela anda, ela dança, ela fala do presente, do passado, ela conta segredos, ela dissimula, diz coisas que me fazem pensar em um, mas devem querer dizer outro. Ela faz planos e eu penso que gostaria de decifra-la. Imaginem que ela está sentada num banco de praça com as mãos pousadas no joelho, o cabelo longo solto, o olhar expressivo inerte, e o sorriso fechado, trincado. Ela é de uma simplicidade que não consigo acompanhar, é factual, é quase jornalística, pragmática, prática, objetiva, parece quase mediana, mas pelo contrário, sou eu que de uma profundidade cambiante, de uma dialética opressora e fragmentada não consigo pensar em nada que faça sentido. Quando eu penso em decifra-la, penso numa batalha entre esparta e os nazistas, penso em mil metáforas uma depois da outra numa sequência infinita. É como se ela, ao ser quem é, revelasse a mim quem eu sou na maior profundade, ela revela a essência de mim, algo doído que só se dá nessa dialética. E ela continua sendo linda: anda dança, fala do presente, do passado, conta segredos, dissimula dizendo uma coisa que me faz pensar em um mas é outro. Ela planos e eu penso que gostaria de decifra-la. É uma fraqueza, mas é a maior delas...
12 maio 2010
um livro
ela nunca devolveu e eu comprei outro igual.
a ausência daquele livro vive em mim
será que ela leu o livro?
será que ela leu o livro igual a mim?
ou será que ela leu um outro?
será que aquele era diferente do meu?
nunca vou saber.
é engraçado
Acontece é que está passando um futebol aqui na televisão, eu estou sozinho, vi dois filmes hoje, fiz um trabalho e estou bastante cansado de pensar e mesmo assim ainda não fiz nada. Eu gosto de tudo que eu fiz e estou feliz, mas esse "não fazer nada"- porque não há reconhecimento de ninguém - me incomoda, daí eu fico com raiva e digo que odeio todos numa espécie de misantropia. Às vezes as coisas são assim. E já estou profundamente arrependido de ter escrito isso, gostaria que fosse um texto leve, mas saiu isso e está muito chato. Parei, mas que é engraçado, é!
Mil e uma noites

Borges começa sua fala ressaltando o fascínio do Ocidente pelo Oriente que representa o estranho, o escuro, o outro, o inexplicável. Destaca que o Oriente não tem uma noção de história como temos, para eles a história é fluída, cíclica, não existe uma “sucessão de fatos”, por isso que os egípcios eram vistos pelos gregos como povos “de outro tempo”, o que novamente destaca uma espécie de temporalidade, um fato determinante para o interesse na história das “Mil e Uma Noites”, uma vez que esse “mil e uma” não representa exatamente esse número, mas sim, um infinito número, um incontável número de contos que cabem dentro daquela mesma narração de Sherazade. Aliás, essa forma precisa e exata de se manter sempre uma obra aberta e que permite não só a adaptação, mudança e criação de novos contos, como também essa participação plural de vozes que permeiam e adentram a obra, num profundo exercício de lapidação. É nessa obra “aberta” de “mil e uma noites” que torna possível imaginar que seja uma obra infinita, o que virtualmente ela é, pois cabem mais mil e uma noites dentro dessas, como diz Borges: “os arábes dizem que ninguém pode ler as mil e uma noites até o fim”, mas não porque não conseguem, porque ela dá a sensação de infinitude.
Borges (pg. 78/79) explica que esses contos perpassaram por vários povos, o que de certa forma torna mais complexo esse movimento de oralidade, trazendo mais elementos que são conflitantes e tornando essa “lapidação” ainda mais rica em pluralidades, temas e composições. Em determinado momento diz: “Esses contos devem ter sido fábulas. Suspeito, aliás, que o encanto das fábulas não esteja na moral”. É importante esse destaque para as fábulas pois elas são pequenas histórias, também em algum nível, abertas, que permitem emendas, cortes, que trazem em si também elementos mágicos ou fantásticos como a possibilidade de animais falarem entre si ou com humanos, de animais serem antropomorfizados, entre outras fatos. E o que se vê nas “mil e uma noites” é isso: uma história que permite entradas do mundo fantástico, seja com lâmpadas mágicas, anéis, ou com poderes de gênios ou de deuses. E o que seria essa magia? Um tipo de causalidade diferente, uma relação causal até então estranha, típica dessa concepção do mundo do oriente. A diferença entre a fábula e as “Mil e uma Noites”é que a fábula ganhou um tom moralizante, principalmente ao serem traduzidas pela idade média nos mosteiros (onde até acrescentaram uma frase contando a moral da história), enquanto que as “mil e uma noites”, reunidas no séc. XV e traduzidas pela europa na auge do neo-classicismo, mas que quase cita o romantismo, foram interessantes pela estranheza, pela diferença das obras da época, ela era livre e permitia ao imaginário viagens, ao contrário das fórmulas até então vigente de Boileau, baseadas na Arte Poética de Aristóteles da “grande arte”.
Nesse sentido, podemos destacar os povos como uma “escritora” dessa obra, ainda que não configure uma “escritura” da maneira que conhecemos hpje. Essa escrita de efeito curioso, em uma espécie de infinitude, onde cabem contos dentro de contos (o que acaba por se aproximar do gênero “novela”) nos traz uma espécie de vertigem, de sombra, de breu, onde as coisas não são reconhecíveis e portanto se permitem à metamorfoses. Assim, as histórias das “mil e uma noites” também são as histórias de Ulisses, no caso do Polifemo, ou seja, são traços de narrativas que permitem a entrada de outras. Quem sabe todas histórias sejam das mil e uma noites? Quem são nós não fazemos partes dessas noites intermináveis?A oralidade permite, então, que o imaginável e o imaginário estejam presentes como marca de espaço, tempo, ação e temas. Tudo está dentro de sua estrutura, nada é permeado por regras, dogmas, estruturas fixas, pelo contrário, a oralidade permite que tudo que a mente conseguir conceber esteja envolvido em todos os processos dessa história. A mil e uma noites não são apenas histórias transmita oralmente e depois transcrita, ela faz parte da história do que somos enquanto pessoas, nossas crenças, nossos mitos e nossas profundezas inexploradas. É o registro do que foi nosso pensamento e da base de um pensamento atual que ainda nos permeia, por isso é tão contemporânea e tão presente, por isso que é fascinante, porque as “Mil e uma Noites” ainda não chegaram ao fim.
referência - Palestra de Jorge Luis Borges, "As mil e uma noites"
03 maio 2010
prolegômeno
Pode parecer uma carta ou um diário, mas não é. Se fosse chamar de algum nome esse texto seria "ode", não uma ode pra engrandecer, apenas uma pra destacar, dizer que fez parte de mim isso em algum momento.
A cidade do Rio está iluminada, os letreiros coloridos de propagandas estão refletidos no negro do poluído mar de botafogo. Eu passo de ônibus e contemplo isso, contemplo a vista para niterói, o pão de açúcar e um pedaço da lua. Olho a temperatura como se fosse fazer alguma diferença. Não faz. É uma cidade que sempre me encantou e ainda continua encantando, é o lugar onde mais estou exposto a mim mesmo, a uma solidão estética que não consigo descrever. As luzes dos prédios, excesso de luzes - crença dos engenheiros e arquitetos da década de 50 em 60 no concreto e na luz elétrica - não permitem nem uma pequena fuga desse fogo urbano. Salto do ônibus, cruzo por grupo de amigos vestidos pruma partida de futebol, entro num supermercado, a voz que a muito não sai da minha boca quase se embarga na hora de um boa noite ou obrigado.
Começo a pensar nesse texto, ele me aparece já pronto, colorido e pede um nome, que em minha cabeça aparece como "introdução", "prolegômeno", "prefácio" ou "prólogo". Palavras que bem ou mal significam "aquilo que é dito antes". Não entendo muito bem, mas sento aqui e escrevo. O que é pra ser escrito depois?
26 abril 2010
deve ser um curta - um exercício
Oi. To aqui de novo, meu estômago ainda dói, minha carteira de motorista venceu e acho que nada vai mudar, não vou ter aquele medo de novo, você não vai querer mais uma vez. Às vezes eu penso em você, às vezes não. O cachorro mordeu a minha prima, ela chorou mas já está bem. Como se fala das coisas hoje em dia? O flamengo venceu, sabia? Diz alguma coisa mesmo sem dizer nada. Existe alguém que não gosta de ninguém ou sempre tem alguém gostando de alguém que não gosta dele e só umas poucas que gostam e são gostadas? Se alguém perguntar se você gosta de alguém você vai falar talvez, falar que não sabe? A gente força. É que às vezes parece que...às vezes as coisas são diferentes e ficam estranhas. É que tudo vai mudar.
(Vira-se, fica de barriga pra cima, uma longa pausa.)
Oi. To aqui de novo, meu estômago ainda dói, minha carteira de motorista venceu e acho que nada vai mudar, não vou ter aquele medo de novo...
(uma grande mistura de imagens de carros na rua, ônibus passando, pessoas conversando na mesa de bar, o barulho de um liquidificador, o choro de uma criança, um casal que passa de mãos dadas ao som de uma música eletrônica bem intensa, tudo num rebuliço que não nos permite entender as sequências. De repente, tudo fica em silêncio por um tempo, as imagens continuam, ouve-se um barulho de coração bater bem ao fundo. As imagens vão ficando mais lentas, uma escada, uma porta, um bicho de estimação e novamente o sofá com o rapaz. Ele levanta, fica um tempo sentado, ajeita o cabelo, pega um casaco que estava ali do lado, um livro, um óculos e sai.)
25 abril 2010
a dança
16 abril 2010
coleção
15 abril 2010
nomenclatura
não faça caso, não me destrua
é que diante do teu traço
no viés do teu abraço
diante de tal escultura
falhou-me o passo,
abalou-se a estrutura.
No fundo, no fundo...
ô...
...ô
ô...
querida...
foi erro de nomenclatura.
06 abril 2010
ela sorria (com a palavra)
cata gota refletia um vazio
a tarde rasgada de fio a pavio
entremeava a fortuita lacuna
entre a primavera do sol
e a decadência do som
a voz não é mais dita
o que se ouve são repetições
ecos antigos, oblíquos, densos
extensos como megafones
que atravessam poucas pontes
que rumam para o oposto
assim me soam as histórias
as paixões, as comoções
os pedidos, as reclamações
tudo como palavra velha
desbotada pela insistência
de apenas uma pessoa que as recebe
mas não mais me escuta
porque a palavra que agora é vácuo
ela antes ouvia como poesia
(e sorria.)
05 abril 2010
uma (quase) história de amor
entre
Vou tentar de novo: As coisas são como são e têm a medida exata do seu tamanho, então é preciso se pensar a partir disso, mas uma coisa que permanece é aquilo que a gente consegue fixar num significado. Tudo que entra no passado automaticamente se torna incerta hipótese daquilo que não é, ganha um tom de dúvida, inexatidão, como uma folha de papel que se dobra errado e não se pode consertar. Mesmo que não se faça nada com a folha, mesmo que vá se fazer tudo, há nela algo de incerto. Existem vozes que dizem e redizem, existem palavras que dizem por nós sem nós. E não existe nós, existe um eu e um você em palavras. Só. E é bom.
juro que acaba aqui, de verdade.
01 abril 2010
prisão
29 março 2010
a rima entrega
22 março 2010
Pra quando chover
19 março 2010
tudo bem...
É porque no fundo, não faz diferença falar bem ou falar mal. Esse texto, no fundo, é de uma grande esperança, de que tudo seja realmente assim como disse. Se for, podemos fazer o que quisermos e, por fim, sermos livres. Fazer certo, tentarmos ser felizes e se realizar são coisas difíceis demais. Só lembrar que a liberdade está em aceitarmos perder de vez em quando e que até aí tudo bem...
filmes
Grato!
linha de passe
valsa com bashir
os delírios de consumo de becky bloom
o visitante
che
gran torino
hiroshima, meu amor
saneamento básico, o filme
katyn
ps I love you
click
marat-sade
território restrito
o céu de suely
um ato de liberdade
x-men origens: wolverine
tony manero
a garota ideal
entre os muros da escola
budapeste
sociedade do espetáculo
sinedoque, nova iorque
um estranho no ninho
os falsários
muito gelo e dois dedos d'água
era uma vez
forrest gump
oito e meio
nina
repulsa ao sexo
os indomáveis
cães de aluguel
I clown
poderoso chefão
sindicato dos ladrões
zelig
vertigo - um corpo q cai
butch cassidy and the sundance kid
os bons companheiros
mensageiro do diabo
querô
viridiana
scarface
veludo azul
sunset boulevard
trama internacional
anti-héroi americano
tinha que ser você
gata em teto de zinco quente
se beber, não case
se eu fosse você 2
veronika decide morrer
nome próprio
os normais 2
a onda
anticristo
os sete samurais
juízo final
amantes
boulevard do crime
a garota de mônaco
batman - o cavaleiro das trevas
reine sobre mim
touro indomável
outubro
a bela junie
o mágico de oz
em paris
o assassinato de trotsky
annie hall
a última tentação de cristo
o sequestro do metrô
um bonde chamado desejo
a mulher invisível
bastardos inglórios
robin hood - príncipe dos ladrões
rosa púrpura do cairo
diário proibido
rosencrantz e guildenstern estão mortos
a primeira noite de um homem
16 março 2010
o grito
O dia começou com um grito. Havia acabado de amanhecer, embora os primeiros passos ainda não tivessem sido dados e os galos hoje ainda não tivessem cantado, embora o céu ainda não fosse vermelho nem amarelado, mas entre azul e cinza, mesmo que já possuindo algumas luzes. As pessoas em seus quartos eram entre seis ou sete pessoas distribuídas em quatro quartos não emitiam sons, dormiam pesado, talvez sonhassem pesado, pois sonho, mesmo quando bom, nunca é leve. Algumas tinham ressaca da noite anterior e pouco se moviam, outras já mais inquietas e diurnas, estavam prestes a acordar, como se o mundo tivesse um dispositivo de lhes avisar e trazer-lhes junto para o sol.
A cozinha estava vazia sem gotas a cair pela torneira, e todas as baratas ao preverem o dia já haviam voltado para seus esconderijos. Na sala, na mesa e no chão, umas latas de cerveja da noite anterior, uns copos e cinzeiros sujos espalhados, no parapeito da janela, em cima da televisão, mais nada, a não ser uma mancha vermelha, talvez de vinho, no chão. Mancha que vem do latim e tem a mesma origem das palavras mácula e malha. Então era no chão a mancha vermelha, na parede uma imagem de santa: maria imaculada; e lá fora, no quintal a dormir estariam os animais: as galinhas, os porcos e as vacas. Todas malhadas.
E aí o grito veio. Rompeu as barreiras de espaço, as paredes, os corredores, ecoou no banheiro e mexeu com o dia. Até o sol, depois dele mandou pra cá um forte raio de calor e luz. Os galos começaram a cantar, os cavalos a relinchar e os porcos eufóricos acabaram por chamar a atenção dos cachorros que resolveram latir pra cima deles. Depois, então , bem depois, as pessoas começaram a sair dos quartos, umas ajeitando um roupão, outras sem conseguir abrir direito os olhos, saíam coçando-os mais que conseguindo olhar, outras iam batendo de porta em porta querendo saber o que havia acontecido, se todos estavam bem. Do último quarto, saiu uma moça loira mancando e vestindo um chinelo azul, todos a olharam, mas ela estava com a mesma cara de todos e perguntando o que havia acontecido. Assim, todos levantaram e foram para a sala: um casal de namorados, dois amigos, a moça, e um casal de adultos, donos da casa. Por alguns minutos falaram do que ouviram, no entanto, com o tempo começaram a duvidar daquele grito que acordara a casa, o dia, os animais, todos, mas não existia, não havia ninguém que pudesse ou fizesse o grito ter saído, não havia sequer um eco, um resquício e agora até as testemunhas já estavam a vacilar, a duvidar de que tivessem realmente ouvido aquele som.
Então, aos poucos, quase como se não tivesse vindo, o grito se foi. Silencioso e plácido, acalentador e pacífico, se retirou da vida das pessoas que agora juntas tomavam o café da manhã, enquanto viam juntas o sol nascer e o dia clarear. Depois arrumaram as coisas da noite anterior e segundo a segundo foram retomando a vida novamente, seus hábitos, suas práticas, mas agora era diferente, havia tido um grito que se não veio do céu, ninguém mais pode dizer de onde veio. E a mancha ficou.
15 março 2010
cegueira
09 março 2010
saudades
emoção diferente que aniquila
a vida da gente
uma dor que não sei de onde vem"
Sempre achei essa música linda e hoje senti saudades, mas saudades diferentes que nunca havia sentido. Saudade de pipoca, de futebol, de ficar todo suado e com o corpo exausto que a cabeça não pensa em nada. Saudade de acordar cedo pra ir pra minha escola, no frio perto de casa, e reclamar de acordar cedo e de dormir na aula, ou fugir do professor chato. Saudade de ser muito jovem e agir feito criança, de ter vontade de desenhar na parede, de comer algodão doce porque estou feliz. Saudade do meu pai me esperando na saída da escola e de ter uma certa vergonha disso, saudade da primeira cerveja e do gosto dela, saudade de ter alguns sentimentos pela primeira vez, de ter muitas coisas pela primeira vez. Saudade de errar feio, de errar com um talento um impressionante, saudade de cometer os melhores erros do mundo. Saudade de poder ser exagerado sem sofrer, de não precisar encher a cara vez em quando, de não ter amizades de protocolo, saudades de achar ficar em casa bom porque me sinto protegido, saudade de me apaixonar loucamente e ser um ímbecil todos os momentos em que penso na pessoa. É, hoje tá estranho...
08 março 2010
haikai
coisa boa sinto que o amor não é
mas falta ser boa a coisa boa que o amor é.
06 março 2010
buraco de sábado
05 março 2010
um filme e uma noite
Na rua é o último a chegar, pois gosta de criar lacunas naquilo em que se pode prever dele. Começa tímido sem falar muito, mas depois de algumas cervejas se junta a um grupo pequeno e trava conversas batalhas, alguns momentos se solta e se permite fazer piadas ou trocar um elogio, até que a noite se extende até momentos que não consegue narrar. Num dado momento, no banheiro, pára e pensa: "até que não sou tão diferente daquele personagem.", mas lava o rosto na pia e por fim conclui: "nada, aquele personagem que ainda tem muita coisa de mim." E volta para a noite com um novo e renovado espírito. Sabia que tudo correria bem.
01 março 2010
sentimento breve
26 fevereiro 2010
sexta
24 fevereiro 2010
quando chove
Algumas coisas são sentimentos. Há quem seja cético quanto a isso, mas não creio. Uma chuva cai exatamente para concretizar, materializar algo que está anuviando nossa cabeça. Alguma coisa ainda meio difusa, que apareceu somente como lampejos em nossa cabeça viram fatos com ela. É batata, choveu a gente percebe o que estava querendo entender. Um aniversário que chove, uma tarde que chove, um jogo fatídico de futebol, um fim de romance. A chuva vem sempre nos mostrar aquilo que todos já estão a sentir. Chove por dentro e por fora, mesmo sem lágrimas.
Algumas coisas são racionais. Há quem seja cético até quanto a isso, mas não creio. Uma chuva por exemplo é simplesmente a confluência de nuvens que se carregam em determinado ponto e vão cair numa hora que só a ciência prevê. É a ciência que se antecipa à natureza e a engole, como se a natureza fosse mero objeto e a chuva servisse pra provar a supremacia da razão.
Pra mim, a chuva é só o que cai do céu. Quando chove há festa, por isso se chover a gente dança toró, se fizer sol a gente feito um só.
22 fevereiro 2010
sem escalas
Pensei nisso e juro que sou incapaz de responder. Acompanhado sou sempre mais intenso, mais feliz, mas ao mesmo tempo esses momentos são fugidios, escapam por mim tanto que fico dias e dias a pensar neles e tentar entender o que foi que aconteceu, enquanto que sozinho consigo refletir, pensar, repassar cada momento e assim viver e reviver os momentos agora com minha dose de razão e minha dose de emoção, consigo enfim entender o que se passa comigo. Geralmente tiro três conclusões: a impressão que ficou, o que minha razão diz e o que minha emoção diz, isso quando não há variáveis entre essas e issos e multiplica. Daí vira um confusão danada e não entendo nada. É a hora que preciso viver de novo e sentir menos saudades.É como se eu tivesse que viver, às vezes, sem rodas essas escalas.
19 fevereiro 2010
queria que pudesse entender...
Percebi que não há regra, cada um há de ter momentos aleatórios que marcam, mas percebi também que os mais simples, esses belos, transparentes, que fluem como riacho ou pousam como lagoas são os que mais fazem falta, porque são neles que carregamos nossas baterias, que percebemos que precisamos de pouco pra viver, mas ao mesmo tempo, também percebi que esses momentos são os mais trágicos porque geralmente tangenciam uma espécie de fim. De tão únicos que eles são, se tornam linhas que se desfazem e tornam a situação complexa novamente.
Tinha mais a dizer, mas por enquanto é só isso. A felicidade ainda reina.
17 fevereiro 2010
o carnaval
Eu no carnaval não testo meus limites, eu ultrapasso todos logo. Transbordo. Testar limites é meio que os por a prova e não há o que se ser provado no carnaval, a não a cerveja ou o novo passo de dança. Testar é por em cheque, carnaval é o oposto disso, é esquecer os jogos, o cheque e o choque e é preciso força, muita força pra aguentar a barra, principalmente que chega uma hora que vem tudo cobrar a gente, primeiro porque não podemos ser assim, depois porque achamos que não deveríamos ter sido assim e por fim porque percebemos que somos tão assim e que sendo como se é, nesse estado, geralmente muitas coisas dão errado.
Meu carnaval foi tão feliz que eu resolvi filosofar seriamente, porque contar sobre ele é uma coisa que deve ser evitada.
09 fevereiro 2010
filosofei no msn
talvez
uhauhauhauhhuaa
é meio complexo de édipo mesmo
mas multiplicado
a gente vai gostando sempre da primeira referencia
a gente gosta muitas vezes da mesma pessoa em pessoas diferentes
filosofei
08 fevereiro 2010
menino devagar
não me esqueça num canto qualquer"
o caderno - Toquinho
É sobre algumas coisas meio que singelas que é mais bonito falar. De um caderno, de uma tarde, de um sorvete pra descansar do calor. Muito comum coisas assim estarem nas minhas letras de música, acho que é porque elas materializam muito bem sentimentos e sensações, ou seja, corpo e espírito. Uma delas que fiz faz tempo chamada "menino devagar", com melodia de Francisco Ferraz diz:
"A pele clara como sol de primavera
o rosto dela me lembrava o verão
e os seus passos eu seguia atravessando a avenida
e descansava com um suco de limão"
São algumas imagens, mas que me lembram exatamente de uma tarde, que não verdade não existiu, ou ainda não existiu ou que talvez nem venha a existir, mas representa essa sensação bastante forte. É dessas singelezas que fazem a alegria e 2010 até agora tem sido assim. Essa música, só pra saber, termina assim:
"Como não ser uma lembrança
o seu menino, a esperança
que devagar vai procurar um sonho bom..."
04 fevereiro 2010
colheita feliz
Uma vez um rei disse que não havia nada novo debaixo do sol. É difícil acreditar que reis digam algo que não seja pelo interesse particular de seu reinado, e portanto, principalmente tendo em vista a manutenção do seu trono Haver coisas novas, então, era ameaçador. Ele vivia, torcia e dizia, como numa religião que nos sete cantos do mundo não havia novidades por debaixo do sol.
É complicado, porque há muito que dizer sobre isso, mas o que mais me chama atenção é que numa frase tão simples e que se repete por aí esteja tão formulado, carimbado, tatuado uma série de idéias, formas de convivência em sociedade que só servem para reiterar problemas e explorações. Assim, há que se ter alguém que diga algo, há quem o repita, há quem o reitere, há quem o siga e principalmente há que o afirme e o transforme em verdade. Há o movimento claro da exploração, inclusive o espaço para que se duvide e discorde, entretanto é exatamente em todo esse equilíbrio entre as forças que não disputam, mas coexistem numa opressão mascarada, que tudo funciona. Isso chega a tal ponto que se houver alguma coisa nova debaixo do sol, esta será automaticamente apontada e ou será incorporada para repetição como um novo velho ou um novo zero, ou será excluída e dizimada. Esse rei que diz que não há novidade é mais um ditador, um imperialista, um facista. E todos que estão debaixo do sol somos nós a trabalhar pelo velho e o sol é o velho deus que nos observa, como quem joga conosco colheita feliz.
03 fevereiro 2010
o caminho
Chegou na movimentada rua e viu os faróis piscando, as buzinas tocando, as pessoas correndo, andando, falando ao celular, pouco entre si e muitos vendedores tentando ganhar a vida. Ali ninguém lhe percebia, era o oposto de tudo, podia andar altivo, forte, feliz, por mais que estivesse mal se misturava no movimento o que lhe dava a sensação de felicidade, tudo isso porque aquilo não lhe pertencia, logo poderia ser dele. Ou seja, o que não era dele estava em suas mãos como nunca enquanto que o que controlava não podia jamais ser seu, ou por fim sair fo controle. E nesse equilíbrio ele seguia pela cidade rumo ao trabalho. Talvez vá vencer.
02 fevereiro 2010
sempre estético
Daí, daííííí entramos pra falar da vida pessoal, relacionamentos e tento recolocar o mesmo fato, mas a partir daí ferrou. Vou acabar pegando num monte de hipocrisias, porque a maioria diz que "não repara no exterior na hora de se envolver", mas elas dizem isso justamente pelo fato que não gostariam que só fossem olhadas assim, e principalmente porque elas precisam se defender da mesquinhez (ou sinceridade) que é assumir uma animalidade nossa. Preza-se tanto pela razão, que ser estético é quase ser animal. O problema é que isso cria uma espécie de nulidade, um zero-esforço que cada pessoa tem de fazer quando se relacionar com alguém, pois está tudo entregue ao puramente contato físico. Isso é um problemas, mas sempre há de ser assim...
01 fevereiro 2010
zerada.
18 janeiro 2010
preocupar
É isso, escolhe, todos temos que o fazer. É o mais difícil, por isso digo que não tem como não se preocupar.
15 janeiro 2010
conhecimento e amizade
Percebi que tudo que a gente quer saber a gente tem que controlar, dominar, como se o conhecimento fosse um cavalo arredio, ou gato arisco, ou um balão que no menor descuido se afastasse da gente e tomasse um rumo aleatório. O conhecimento ou a sabedoria seria essa âncora, esse arreio, que segurasse o pensamento, que o prende e o coloca numa jaula para exibição e a partir dali qualquer reflexão serve para reiterar e aumentar esse conhecimento.
Então cheguei a conclusão, assim, ao refletir sobre uma discussão de que meus argumentos podem parecer inconsistentes justamente porque sou incapaz de amarrar o que eu conheço, e acho que o que se sabe não deve ser amarrado, e sim deixado livre, como uma escultura fora do molde, como pássaro criado solto. A sabedoria deixada solta ganha movimento, ganha amplitude, ganha experiência, ganha riqueza, enquanto que o encarceiramento dela ganha excesso de rebuscamento e falta de nitidez, simplicidade e humildade. Porque tudo que se conhece deve ser humilde e ingênuo, qualquer coisa fora disso pode e é bastante perigoso.
Resolvi falar tudo isso depois de pensar sobre a amizade e percebi que meus grandes amigos são assim, soltos, porque não sei muito bem o que é amizade, até porque pra realmente saber deveria ter controle dela e isso é algo, que como o conhecimento acaba tirando a gente daquilo que a gente mesmo precisa pra ser feliz.
(escrevi isso depois de muitas cervejas e temo não ter sito claro)
14 janeiro 2010
meu tio
12 janeiro 2010
ao correr dos tempos
E que coisas no mundo que não são assim? O que há no mundo que não seja exatamente na superfície que o mais profundo que se materializa? Digo que as coisas se fazem na sua contradição, na disputa, na briga. A paz não é criativa, pelo contrário, ela é o momento em que tudo vira lagoa.
E eu, ao correr do tempos ou no silenciar da canção, sempre preferi o mar.
08 janeiro 2010
o cão
Dormia às vezes leve e às vezes cansado, esperava sempre a hora certa de querer carinho ou uma brincadeira, qualquer coisas que acendesse uma centelha do que tinha, mas acontece que quando acesa era um farol, uma fogueira, um incêndio. Ele sabia disso, havia feito uma vez pra nunca mais. Não que não quisesse, não era requerido, acostumava-se a viver dessa maneira, entre latidos da porta, cochilos no sol, desejos incompletos e esperas por carinho. Era feliz porque tinha coisas boas, mas não podia deixar de ser melancólico, porque simplesmente na maioria das vezes a vida o é.
07 janeiro 2010
sucos
Na indústria e no mundo atual tudo tem nome. Deboir estava certo quando falava da autonomia das imagens, tudo tem nome, tem imagem e logotipo, e essas coisas se fudem, se associam. A graça está no esvaziamento da essência, de qualquer essência, de qualquer coisa que pode parecer essência. Isso seria interessante se eu estivesse falando de alguma coisa abstrata, mas não, foi ao conversar sobre esses sucos de garrafa e copinho tipo ativplus que percebi. As coisas nem nos sentidos são o que são. Esses sucos de laranja com acerola não têm mais gosto nem de um nem de outro, muito menos deles dois misturados, e a cor, presa dentro do copo de um modo que quase não possamos ver é artificialmente colorida. Então, amigo, se você não gosta de laranja, toma esse sujo de laranja, ele é diferente. Açaí? não gosta? É porque você ainda não bebeu o acaí Ikó.
E assim, aos poucos, as coisas deixam de ser incômodas pra gente, tudo vai virando normal. Tem que ser saudável? Tem agora o actívia que faz tão bem quanto uma salada e tem em sabor morango, frutas cítricas, que beleza.
Nada mais é absolutamente nada, tudo é, na medida em que nos traz conforto, comodidade e nos mantém onde estamos, sem nos mexer, apáticos.
(e venda.)
06 janeiro 2010
última vez
Havia no seu olhar tristeza
E no meu argumento e desespero
Havia em você uma certeza –
Ainda nebulosa pelas quinas –
De que rodopiaria a vida
Como ela era até então
Na última vez que nos vimos (juntos)
Havia algumas lágrimas de crocodilo
Havia a gente numa lanchonete –
com as piadas que ali fizemos
que ficaram perdidas em mp3 –
Quando na despedida de leve
Alguma coisa se quebrou
A partir dali não mais nos vimos (juntos)
Vimo-nos às vezes eu, às vezes você –
Mais eu, é claro, embora negue –
Até que pouco tempo depois
Você aos poucos cegava,
Embora ainda sentisse.
A partir dali só eu via
Pelo dois...
05 janeiro 2010
férias
29 dezembro 2009
.2 - apêndice
francisco... diz:
muito bom, cara. o texto tá ótimo, apesar deu não concordar com a ideia
ziul diz:
pq?
francisco... diz:
pq vc conclui que existe uma funcionalidade primeira pras coisas, como se fosse algo natural
e com isso eu não posso concordar
ziul diz:
nããão...funcionalidade da palavra.
não das coisas.
francisco... diz:
sim
mesma coisa
e vc fala sim das coisas
ziul diz:
não, não falo não.
falo q não tem pq ignorar o sentido óbvio, material da palavra.
pq ela existe pq antes disso a coisa existia.
e a coisa pode ser outra coisa, a palavra antes de ser, é ela mesma
francisco... diz:
é disso que eu discordo
ziul diz:
aaah tá.
francisco... diz:
Então fuçar, chafurdar e ciscar é tão forte, submisso e modesto quanto isopor, fronha e cabine-dupla são necessários, úteis e facilitadores.
ziul diz:
mas essa frase não tá dizendo isso, tá dizendo q os adjetivos vem depois e poderiam ser qualquer um
francisco... diz:
então
é com isso que eu não concordo
é que a palavra dá o significado, e vc fala como se a coisa existisse e tivesse um valor ou um significado em si, e a palavra viesse só pra facilitar ou explicar isso
ziul diz:
NÃÃÃO.
eu digo q a palavra é cristalizada e a ação não!
francisco... diz:
uhuahuhu então vc se explicou mt mal
escreve essa frase aí no texto
.2
O cachorro fuça, o porco chafurda, a galinha cisca. Todos verbos que parecem ter sido feitos exatamente para cumprir as funções que cumprem, suas sonoridades se coordenam perfeitamente com as ações e não permitem embustes ou adaptações, por exemplo, se o cão resolve chafurdar perde um pouco de sua canilidade e o mesmo aconteceria com a porquidade do suíno se resolvesse ciscar. A galinha não é bicho, é gênero, pois o galo não cisca, o galo vive uma esfera maior dos animais, como se nos galinheiros houvesse área vip e eles, como estátuas, fossem criados e servidos como formigas-rainhas, enquanto que galinhas e pintos “chafurdam” por entre a miséria do galinheiro, fuçando os restos para o outro e para si.
Aposto que nesse exato momento, quem quer que me leia está imaginando metáforas. A mente humana, estúpida na sua criação tem essa tendência, detesta o concreto e já tenta logo construir um outro sentido para aquilo que se vê ouve diz fala toca, bobagem. O concreto é ainda muito melhor que o metafórico e o abstrato nada mais é do que a forma do concreto. Então fuçar, chafurdar e ciscar é tão forte, submisso e modesto quanto isopor, fronha e cabine-dupla são necessários, úteis e facilitadores.
Tirar da matéria a matéria é tirar do chão o piso, do leite o copo e da mente o erro. É esquecer que se chafurdam é porque foi preciso chafurdar e não há nada que se possa fazer.
24 dezembro 2009
incondicional
michel melamed.
23 dezembro 2009
sentimento de fim de ano
18 dezembro 2009
os mosquitos
17 dezembro 2009
a fila
- o problema são as filas.
Achei que ela estava puxando assunto igual as velhinhas fazem e ignorei.
- São as filas, eles conseguiram.
Fiquei curioso e perguntei:
- Eles? Eles quem?
- Meu filho, é isso. São as filas a forma que eles usam pra controlar a gente.
- Como assim? Filas? Eles?
- É, exatamente. É uma maneira de nos fazer presos aos desejos, de fazer com que conquistemos nossas vontades, anseios, mas que percamos nossa força de lutar, de ver o que é justo. Por exemplo, como chego em casa se eu sair dessa fila?
- A senhora poderia ir a pé.
- E seria justo que eu fosse a pé com a minha idade? E mesmo que eu fosse nova, o certo não seria termos a liberdade de escolher como vamos?
- Mas temos, temos sim. Eu posso ir a pé.
- Que nada, você escolhe entre pegar fila ou não, não entre ir de ônibus ou a pé. O meio fica secundário.
- Mas é que é muito difícil, é muita gente nas cidades. Por mais que eles façam...
- Nada disso, meu filho. Isso é o discurso deles, claro que os problemas são grandes, mas todos nós pagamos pra que os problemas sejam resolvidos. Quem paga assinatura de jornal, recebe o jornal, quem paga as contas deveria ter os benefícios.
- Entendo, mas isso me parece distante.
- Distante nada, eles fazem isso pra que só possamos reclamar no máximo ali com o fiscal. E reclamar da fila, não do problema em si. Já o fiscal nada pode fazer e a gente fica com a sensação de que nós também não.
- E como mudar isso?
- Não tem mais jeito. Ou abandonamos a fila ou permanecemos nela.
- A gente pode criar um problema, sei lá, tipo uma rebelião.
- Claro, e quem sairia perdendo? Quem está aqui. Levariamos mais tempo em nossos destinos, nossas casas, nossas famílias.
- Então estamos presos a essas filas?
- Isso. Estamos presos a todas as filas. A vida, no fundo, é um intervalo entre filas.
- Vou a pé, só hoje! Adeus.
- Vá meu filho...
Saí pensando em como poderia ter andado menos, daí me senti injustiçado, meio sem forças, meio corajoso, mas nada fiz. Cheguei em casa e só.
11 dezembro 2009
07 dezembro 2009
flamengo

O primeiro som do meu dia foi do meu pai tomando café na cozinha. Sabia que aquele dia seria diferente e mais que sabia, tinha uma intuição de que seria o melhor dia da minha vida. Rolei pela cama fazendo planos entre o sono, a ansiedade e o medo do fracasso. Porque ter uma paixão é atirar-se ao acaso e não perceber que dele se fará a vida após aquele instante.
Depois me levantei e vesti o manto. Dei bons dias e olhei para a janela. Não tinha sol, anúncio de um dia nublado. Menos mal, penso eu, quando tudo parece ajudar é que o fracasso vem. Um belo sol poderia iluminar mais esse caminho que eu nem queria pensar. Tomei meu café e sentei na varanda a olhar o jardim. Eu me mexia muito de nervoso e cheguei a pedir calmante pra mim mãe, dizendo que assim como tava, eu não ia aguentar.
A hora num passava de jeito nenhum e eu queria morrer um pouquinho para viver muito mais daqui a pouco. O telefone começa a tocar e as pessoas dizendo pelas entrelinhas que era dia de abraçar, dia de mudar a vida, dia daqueles que nunca esqueceremos. E eu dizia que hoje o dia era nosso e de ninguém mais. Ninguém.

Até que dá uma hora antes e eu mudo a bermuda, visto um tênis e vou pra rua. Comprimento os desconhecidos que vestem o mesmo manto que eu, sorrio para todos, pego uma cerveja e vou. Chego no meu destino e a partir daí é só alegria. Choro porque ainda sou criança, choro porque o flamengo é muito maior que eu, muito maior do que eu posso ser. O flamengo é das minhas paixão a mais descompromissada, por isso a mais sincera. O flamengo é o que faz de mim e do mundo, uma pessoa e um lugar, melhor(es) de se viver. Sem ele, meu desgosto seria profundo.
Parabéns pra nossa nação, parabéns!
03 dezembro 2009
o cachorro late
01 dezembro 2009
poesia de cortina
o que atrapalha a poesia
que fica dura feito concreto,
lâmpada e alumínio.
a cabeça já não lateja mais
sem idéias fixas ela flutua
entre o tédio do nada fazer
e o todo de se perder
as meninas se fixam
transitoriamente entre
o que eu quero
e o que vou fazer
uma, melhor que as outras
vira brincadeira de criança
que prefere o jogo
ao prêmio que aponta
e sem poesia de janela
sem poesia de luar
o que se escreve vira traço
momento roubado do nada
e o que era pra ser belo
agora é só disforme
como se o mundo assim
pudesse fazer sentido