15 setembro 2009
menino
14 setembro 2009
qualquer coisa
que se apanhe, se arranhe, se agache
se encaixe, se dilate e desamarre
e se espalhe de fora, de dentro
de dentro fora, embora, na hora
no canto cheirando cola,
pedindo esmola, embaixo na sola
da sola, na cola e na poltrona
mandona, matrona, furona
que não saiba do segredo e do medo
e do recalque, do desfalque
do embarque, encaixe, desarme
alarme, empada, enxada, trabalha
sabado é domingo, sem dengo
sem feira, na beira do mundo
um tanto imundo, mas quarta-feira
já volta pra casa, embassa
mas volta embora poeira caseira
se assemelha vou dizendo
tá frouxa, tá frouxa, na moita
qualquer coisa, qualquer coisa
qualquer coisa que se diga...
13 setembro 2009
foda-se
06 setembro 2009
sutilezas e circunstâncias
Como já disse, tudo é metáfora pra tudo e não há por onde fugir, só fica mesmo esse exercício de tentar dizer o que sente em palavras e na certeza de não conseguir, chegar a duvidar até do que se sente. É isso.
05 setembro 2009
cerveja
e tá tudo maneiro
se eu tivesse trêbado
tava vomitando no banheiro
se eu tivesse quadrêbado
nem lembrava que tinha blog...
02 setembro 2009
polêmica, o fim
Depois pensei então em quantos sentimentos somos obrigados a sentir e que na verdade não nos são tão importantes assim: sentimentos de culpa, de pecado, de ter errado, de ter falado, de ter amado, de ter fudido. E vamos sendo obrigados a isso, sendo que estar com um amigo e rir de qualquer coisa é tão fácil, então porque desperdiçar tempo com esse tipo de coisa? A verdade é que vivemos numa sequência eterna daquilo que gostaríamos de fazer e não fazemos e a culpa por termos feito o pouco do que queríamos ter feito.
O que eu queria dizer, reduzi e não disse, mas foi que resolvi não sofrer agora...
01 setembro 2009
polêmicas
Gosto de ateus, eles me parecem sempre engajados nas suas idéias, mas gosto principalmente pelo bom humor e ironia deles. Na verdade, eles têm certo prazer em fazer os que crêem parecerem ridículos e não sei porque isso me agrada. Talvez porque ache sacal essa pasmaceira geral, onde cada um “acredita no seu próprio deus”, ou melhor, “numa energia superior q não tem nome”. A religião conforta, mas estraga mais do que conserta, ela pega um problema novo e pelas proibições, conselhos ou regras transforma em estrutural mantendo-o e alimentando-o.
Há também os agnósticos que no fundo professam o “estou cagando”. Cagar é bom, também elogio os que cagam, por isso uma ou duas vezes no dia faço minha contribuição à essa gangue que caga. É até um certo problema, os tropicalistas por exemplo, estavam acima da esquerda e longe da direita na época da ditadura, eram tipo agnósticos, estavam fora do problema com outras soluções, acho que os admiro, porque não sei ser assim.
Quanto a ciência tenho pouco a dizer. Não tenho fé nela, na verdade não tenho fé nenhuma. A ciência não é para se ter fé, é pra ser usada pra coisas práticas, pra melhorar nossas situações de vida, nossa saúde, mas cada vez mais percebo que tudo isso é tão relativo. Relativizar também é ruim, só não creio ser muito inteligente crer em algo que é a prova concreta e máxima de que daqui a pouco haverá uma outra prova concreta e máxima que contrarie a primeira, embora venham me dizer que há regras absolutas, o que eu posso responder com “até agora”, daí vão dar o exemplo da lei da gravidade e eu vou dizer: “nada me diz que amanhã acordarei e ela aqui estará.”, vou parecer estúpido, burro, mas pra mim faz todo sentido. A questão pra mim é que vendem-se produtos e tiram-se direitos em nome da saúde, em nome do bem-estar, em nome da longevidade, em suma, a ciência nos serve mas também nos presta um deserviço, logo não dá pra confiar muito nela, apenas para utiliza-la, como uma pá ou um martelo. Creio que no fundo os cientistas são os pedreiros da intelectualidade.
O post ficou grande, continuará outro dia.
30 agosto 2009
reflexões
24 agosto 2009
23 agosto 2009
sonho
20 agosto 2009
meu vizinho
A impressão que tenho é que o apartamento dele é uma espécie de espelho do meu, o armário, de modelo e cor diferentes, fica exatamente no mesmo lugar, assim como o banheiro, a estante, a televisão. Tenho a impressão que a vida dele segue análoga à minha. Análoga mas não idêntica, porque ele apaga as luzes pra dormir cedo e quanto acordo, ele já saiu, porque quando ele chega pra almoçar, estou quase me arrumando pra aula. Ele trabalha e eu estudo, nos encontramos em frente às nossas televisões sempre na hora do flamengo e quando acontece um gol sorrimos um para o outro da janela.
Conforme vão passando nossos dias, morando tão perto, vivendo tão próximos, nas mesmas condições e ao mesmo tempo tão distantes, percebo como somos os mesmos, e percebo mais: todos somos sempre os mesmos o tempo inteiro, fazendo as mesmas coisas. Repetindo os passos e as frases, as siglas, as reclamações, os ciúmes e as saudades. Os casados repetem os tédios, os solteiros os porres, as rezas ou as punhetas. As solteiras ficam mais fáceis e sensíveis. No fim, todo mundo é fácil, sensível, enche a cara, vê o flamengo, reza...no fim, meu vizinho serve pra que eu veja o mundo...no fim, o mundo é o lugar onde tudo acontece da mesma maneira e dar um passo atrás é perder o bonde mas prever o mundo...no fim, perder o bonde é quase ser diferente, mas é encontrar tanta gente que perdeu junto com você...no fim, há sempre um fim e um recomeço...no fim, eu recomeço...
17 agosto 2009
no aterro
Acontece que assim sendo estar ali não me dá tanto prazer, fico pensando que poderia estar num bar, com uma pessoa que eu amo, em qualquer lugar que fosse me sentir a vontade e confortável, mas nem sempre podemos ter o que queremos...Geralmente nem quero tanto, só gostaria de pertencer a mais lugares.
16 agosto 2009
pílulas
13 agosto 2009
um sentimento
É com essa conclusão que tento escrever agora e o problema disso é que perco um pouco da ingenuidade. Mas o sentimento que tenho para falar é tão bonito que vou ignorar o que eu acho do mundo, dos outros e da política, vou ignorar tudo o que existe, porque tudo que existe, existe para não existir, existe para que não existam.
O sentimento é sutil. É como um lençol: fino, aconchegante, acalentador, essencial. É como um sorriso: foge, escapa, vem e traz com ele uma coisa que nos faz esquecer que resto existe. É um sentimento cúmplice, como se ele tivesse assistido comigo um assassinado e fique de vigília, a noite inteira, deitado a beira da cama, esperando que algo aconteça. Ele me proteje. É como uma vela, um fósforo, um gol, a lembrança de um beijo, um curativo no joelho, uma flecha atirada, uma paixão por uma música, um pedaço de pizza, um telefonema de madrugada, um desencontro. Ele é como um amor, mas sem forma, um amor amorfo. Um amor-fo. É um sentimento tão caro e tão raro que ainda não encontrou matéria, mas resiste à tudo e vive tão escondido (e tão à mostra) que é bonito e patético, sem sentido mas cheio de histórias. É a história de um sentimento que resistiu á todas as metáforas, um sentimento que ainda não virou conto, não virou memória, não virou nada. Um sentimento que a gente preserva para sempre poder sentir.
29 julho 2009
ok
e aí...
tudo ok?
tudo ok e contigo, ok?
não. tá tudo desok,
nok,
inok,
unok,
aok,
antiok,
exok...
28 julho 2009
minha menina
nele era só uma menina
e eu não era eu
era um menino eu
e de cá fui pedófilo dela
fui pedófilo de mim mesmo
lá era só sonhador
que amava minha menina
como ela me amava
esperando que ela crescesse...
daqui era só minha mulher
querendo que eu a amasse
como amava a menina
e eu que não era mais menino
e não era mais sonho
não podia amar a menina
nem podia amar a mulher
podia, com minha mulher,
sonhar que amava a menina
e, no sonho, com a menina
sonhar que ela virasse mulher
mas eu - homem e menino -
sofria problemas de identidade
e a minha menina - mulher
cada dia mais linda
e mais feliz
26 julho 2009
pergunta
pensei em você o dia todo,
eu fico pensando:
pensou em mim até cagando?
24 julho 2009
o aperto
dar valor
12 julho 2009
a vida como louça de cozinha
07 julho 2009
music and me
problema a mais
e o sol caiu
E olha pra mim
Espera que passa
O tempo ruim
A gente conversa
Se você quiser
Até de manhã
Eu posso ficar
Já to atrasado
Mas posso ficar?
Junto contigo
Fica tudo melhor
Eu tava sozinho
Eu tava também
Eu tava tranqüilo
Eu não muito bem
E o tempo que passa
Quanto tempo passou?
Se ficar mais tarde
Eu não volto mais
Não quero voltar
Mas tenho de ir
Um sino que toca
Não quero dormir
Então boa noite
Se puder durma bem
E acorda mais cedo
E venha me ver
Ce vem amanhã?
Eu venho também
A gente se fala
Até mais, meu bem
03 julho 2009
I dream of murder
Acabou que vi o filme até o fim, mas tinha perdido a graça. O problema de filmes assim é que eles ou escondem ou mostram a chave para nosso entendimento. Interessante seria jogar com essas informações, num plano de revelar/desvelar que acabaria fazendo de um filme comum como algumas excelentes horas para se passar embaixo do cobertor sozinho sem pensar na vida que insiste em não ser boa.
By the way, o filme era "I Dream of Murder"
30 junho 2009
things to say
there's nothing to deal
just some things to say
I know we may fight a parcial day
we don't need a kiss
maybe not today
28 junho 2009
livro de jó
Se fosse possível exprimir o que essa parábola me passa teria de dizer que é horror, pavor, terror. Não se trata de um teste para fé, se trata de um freak show de destruição de tudo que um ser tem de homem para que ele sinta como deus é poderoso e pode agir na vida dele. Se um deus precisa criar tantas feridas, tantas dores e tantos sofrimentos para demonstrar seu poder e para testar a fé, ele é no mínimo um deus assassino, um deus cruel, que dá maus exemplos, que controla os corpos e não se importa com a sua alma, mas sim com o q você faz em vida. Os amigos de Jó de tanto temerem deus não são capazes de enfrenta-lo, de pensa-lo, de transforma-lo em vida, tudo ao redor desse deus é morte, é sofrimento, só a mulher é capaz de desconfiar disso tudo, de ver que há um plano de dor, não um plano de libertação. Essa é uma parábola que incita o masoquismo, o suícidio, o sofrimento e a eterna necessidade de ser subjugado e o pior de tudo, faz com que aceitemos isso com sorriso no rosto, com esperança, como se um raio de luz nos cruzasse no fim e fizesse que toda dor virasse apenas lembrança, pois um dia, que provavelmente nunca chega, viveremos eternamente ao lado dessa luz que nos guiará e será para sempre nosso lar.
27 junho 2009
sábado
25 junho 2009
crença
24 junho 2009
atualiza
Atualiza que ainda não tá bom
Mas atualiza rápido que tem mais gente atualizando
Até Jesus tem que se atualizar
Ele devia voltar pra atualizar as metáforas
Transformar um 486 num palmtop
Com foto, canetinha e tudo
Ia ser complicado, ele teria que ter orkut
Mas não podia mandar muito scrap
Porque ia parecer tia chata e velha
Mandando boa semana com uma frase do Mário Quintana
Que provavelmente vai ser da Marta Medeiros
Jesus se tivesse twitter ia ter que aprender a falar pouco
Nada de subir em pedra e falar -
Pedras caem e com elas rolam quem ainda acredita
As pedras suspensas são esfinges
E eu já nem entendo –
Mas andar de avião e tratar bem aeromoça
Enquanto eu falo de Jesus morreu um
Rezava por ele e morreu mesmo assim
Enquanto eu falo e um reza morreram dez
E Jesus só morreu uma vez
Um problema é a solidão política
Porque tem sempre uma maioria para falar mal de tudo
A pasmaceira geral se instaurou como eles queriam
Elogiar político é matar mãe
Comer cabrito na moita
Chutar o mendigo que não tentou te roubar pra dar exemplo
Porque dar exemplo é importante
Por exemplo:
Se alguém cair num buraco na rua o que fazemos?
Rimos da cara dela, ajudamos ela a levantar, seguimos em frente ou reclamamos com a prefeitura?
Enquanto pensamos morreram mais dez,
Enquanto ela, que caiu, podia ter sido atroelada
E foi, agora ela sangra, mas ta tudo bem, vai estancar
E Jesus só morreu uma vez....
23 junho 2009
controle
é quando não é nada
que é calmo
sempre que é alguma coisa
é mais do que devia
foge do controle
com t-role
com tro lê
foge
e não volta nunca mais
tratado
o asfalto estufado, o estômago embrulhado
tanta gente que corria num bater de ossos frouxos
e o trocador sorria pra gostosa que passava
tinha um chuveiro na praia poluída
e a água que descia secava antes que caisse
e naquele mesmo sol um menino dormia
um papelão protegia a cara dele
mas como sempre em pouco tempo choveu
o peito protegido pela santa
e o celular com câncer que a menininha fala
e a roupa engomada que amassa na mala
feito qualquer outra malha,
também rasga se levar um tiro, um bico
um soco enviesado
e a cara é sempre mesma, o hematoma passa
o sangue estanca, o plano de saúde paga
a cirurgia, o médico, e volta a ficar gostosa
mas a roupa que rasga é indigna, faz dela uma puta
quando cachorro quente é barato
a gente deixa fazer mal
ninguém se importa se dá úlcera ou coceira
se está suja a orelha que ninguém vê
ninguém se importa com nada,
ao menos que alguém mexa com seu cu
porque sagrado só o cu
e mais sagrado que o cu só o cu da mãe
então se você atravessa a rua
com o asfalto estufado
o estomago embrulhado
batendo ossos no chuveiro da praia
na chuva, com câncer, no celular
rezando pela santa
ninguém se importa,
ninguém tá nem aí
pára de chorar, idiota
num tem ninguém vendo
ninguém aí, ninguém aqui
se quiser aparecer
ou ganhar dinheiro
não chora
vai dar o cu
21 junho 2009
chorume
Dois rapazes em cena sentados num banco.
Você entende alguma coisa?
De que?
Das histórias, do que se conta...disso...
não.
Nem eu.
É que tudo me parece tão sujo.
É que tudo me parece tão banal.
Tudo xurumela.
Você sabe de onde veio essa palavra?
Que palavra?
Xurumela.
Sei.
De onde é?
É de chorume, aquele caldinho do lixo.
Claro que não.
É sim, chorume, churume, xurumela.
Claro que não.
Então de onde veio?
De churros. Um rapaz estava comendo churros, o recheio caiu e ele ficou todo melado, daí ele disse “Churros Mela”.
Churros Mela?
é...daí ficou churros mela, churromela, xurumela.
Ahn...
Você entende alguma coisa?
Do que?
Das histórias, do que se conta...disso...
não.
Nem eu.
15 junho 2009
flect
complico, firo corto
jogo, embargo, dilato
é que hoje, ontem, amanhã
é sempre o que é sempre
o que é sempre o que é sempre
e se repete, tapete, carpete,
joanete, marioenete,
salada ou gilete
pega o estilete
e flect
14 junho 2009
ronaldo
04 junho 2009
17 maio 2009
a sala com meu nome colado na porta
13 maio 2009
sobre a música
Essa coisa de dizer que a música é universal é uma forma dos grandes nomes transformarem numa coisa natural que a britney spears seja melhor que a gretchen, ou que a o rock inglês pode ser tão bom quanto o rock feito do lado de casa. O próximo passo é gastar mais dinheiro produzindo a imagem, o produto, a atitude e talvez um pouco também o som da banda e transforma-la num espetáculo. É a glamourização do exótico, só que de uma maneira muito rentável absorvida por todos e usada no cotidiano. É o espetáculo do videoclip. E essa regra só funciona para lá, porque quando é feita no terceiro mundo é vendida como especiaria, estranha e serve para debates e putaria, não para muito mais.
É muito simples, nenhum de nós consegue ouvir um indiano tocando música indiana por mais de dez minutos na televisão. Só o fazemos, se muito, se formos a um concerto de um deles que tenha vindo para cá, e geralmente eles vêm porque de alguma forma já misturam elementos de nossa cultura na música dele.
O problema não é ouvirem música americana ou inglesa, não estou nem aí, o problema é esse discurso pseudo-liberal que serve para, na verdade, continuar fazendo uma coisa só e não democratizando os meios de comunicação como deveria. A própria internet que deveria ser pra democratizar mantém essa forma de separação, de cisão, de corte à faca, pois só a utilizamos para fazer mais do mesmo, mas isso é um outro tema.
12 maio 2009
ode ao passado
Se pensarmos na vida como um eterno presente, como muitos fazem questão de pensar, estaremos sendo estúpidos, porque a verdade é que o que temos de melhor são nossas lembranças. Melhores até que as promessas de futuro, são as lembranças do passado. O presente é sempre ruim porque está controlando e sendo controlado, está interagindo com várias forças ao mesmo tempo e estamos sempre tentando coisas e construindo coisas. O futuro é uma mentira, uma falsidade que inventaram pra manter a gente comprando, gastando e achando que é capaz de ir para algum lugar. Já o passado não, é o lugar onde não existe a mentira do futuro, nem a pressão do presente, ele é perfeito do jeito que foi, até momentos embaraçosos vistos da frente são melhores, são engraçados e nos compõe e tudo aquilo que fez o que a gente é agora deve ser visto com toda a gratidão. É no passado que está nossa história e o que a gente quis dela, é no passado que estão nossas besteiras superadas e nossas desculpas pedidas, nossas ressacas curadas. No passado está o que a gente tem de melhor e o que superamos do pior. Viva ele...
pirandello
A maneira como as camadas de ficção se compõe também ainda não me foram digeridas. Ao contrário de Beckett, onde tudo se volta para si mesmo, a impressão que tenho é que em Pirandello tudo se desdobra para fora, mas não é um desdobramento simplesmente, há um desdobramento que altera o anterior, ou melhor, reformula o anterior, repensa ele, insere dados a ele, então a narrativa avança pelas camadas, pelos discursos indiretos, pelas citações, pela composição da narrativa e não por ela própria. Amanhã pretendo escrever mais, são 2:54 da manhã e o sono bateu...
10 maio 2009
3
- Tô. Eu tô bem.
Após um longo silêncio.
- É que...
- O que?
- Nada.
Outro silêncio. Respiram fundo.
- É que tá demorando tanto pra passar.
Quase sorriem.
08 maio 2009
pedra
a mim e a meu violão cansado
sou eu que não mais resisto a nada
tudo que vem de fora me atinge
03 maio 2009
30 abril 2009
razão da esquerda
29 abril 2009
ela
tão bonita que parece de mentira
por isso eu não acredito nela
tão inteligente, perspicaz
capaz de me fazer esquecer das coisas
por isso que eu sempre chego atrasado
magra, esbelta, cheia de curvas
que parece nem existir nesse mundo
por isso eu acho que ela é um et
por isso que tão especial
tão estranha e sem definição
que acho que ela é minha
só minha e o que minha imaginação dela
- loira, linda e de olhos azuis -
fez
II
1 – Eu me caguei.
2 – Eu me caguei ontem.
1 – Tem dias que acontece. Mããããe!
2 – Eu prefiro mijar.
1 – Também. Suja menos.
Joana entra.
1 – Mãe, eu me caguei.
Joana – De novo? De novo? Você é um cagão. (sai com o menino)
2 – Droga, me caguei também. Mããããããe! Mãããããe!
Entra a jovem.
2 – Mãe,eu me caguei.
Jovem - De novo? De novo? Você é um cagalhão.
28 abril 2009
aniversário
Era um dia que lhe enganava, lhe fazia sentir-se especial, querido, desejado e centro das atenções sem motivo, o que para ele era tão bom, já que passava a vida se esforçando para que lhe dessem atenção e sempre era tão cansativo. Muitas vezes ouvia o renato russo cantar que o mundo era tão complicado numa música absolutamente feliz e pensava: “que merda, ele é feliz e o mundo dele complicado. Eu não.”
Depois percebeu que nada disso que pensava era verdade. Ele é que gostava tanto de sua vida e tanto do que fazia que não queria que nada daquilo passasse e sempre que começava a passar fazia um esforço imenso para que não fosse, mas ia. E ele ficava sozinho. Daí ele construía tudo de novo, pedra por pedra, sentimento por sentimento, porque os sentimentos sim são de pedra, pois nunca se quebram até que..zuum, se foi tudo de novo. No fundo, era tudo feito de reflexos, de espelho, de reprodução, de tentar fazer com que tudo voltasse pra um mundo cheio de janelas, um mundo que já era. Nunca voltou. Nem ela.
27 abril 2009
o picolé
Primeiro, passou ali uma mãe puxando pelo braço um menino melequento, barrigudo e de grossos óculos.
-Que péssima mãe! - disse a mulher
-Péssima e ninguém fala nada. - responde o homem
-Como pode meu deus, como pode...
Depois um carro vermelho cruza a rua e buzina para enxotar os cachorros.
-Olha como dirigem – diz ela.
-Como monstros assassinos – ele.
-Podiam matar alguém.
-E ninguém faz nada.
Permaneciam ali defronte dos cães a falar do que cruzasse a rua, como se houvesse tempo, não esse que percorre nossas vidas tecendo relações, mas um outro relativo às coisas dentro delas mesmas, em relação a si próprias, como se fossem o apocalipse do mundo: um mundo sem fim. Quando vira na esquina um homem forte, alto, gigantesco. Vem com passos pesados que podem ser sentidos ali onde estavam homens e cães. Esses correm para dentro, acuados, enquanto que aqueles permanecem estáticos, pois pareciam hipnotizados pelo olhar, um olhar que agora parecia estranho. Mais de perto podem ver que o homem se veste com uma calça jeans e uma camiseta grande demais para seu gigantismo, o tênis vermelho tamanho 48 parecia cruzar o horizonte. Podia-se ver também que na mão dele estava um picolé de uva, pela cor roxa, que parecia minúsculo entre seus dedos. Na primeira mordida ficou a impressão de que todo picolé se fora, mas não, ele crescia na medida que o homem se aproximava.
gran torino
Meu interesse por cinema começou tarde, uns quatro atrás só quando eu já tinha meus vinte anos. Gosto disso porque não vi bergman com 17, via sim o chaplin que desde pequeno era uma grande paixão. O bom de não ter visto esses caras muito novo é que já pude ver com uma maturidade maior, apesar de que sempre fica em mim aquela sensação de que perdi muito tempo.
Disse tudo isso pra dizer que só conheci o Clint Eastwood depois de 2004 e fui assistir só os últimos quatro filmes dele e achei todos uma bosta. Menina de ouro eu desisti no meio. Só que como sou bonzinho, deu uma chance e fui assistir os dois últimos. "A troca" é um saco e a angelina jolie é um porre. No entanto, o que me chamou atenção foi "Gran Torino" É o primeiro filme dele que eu gosto e achei sensacional, espetacular, tô até agora espantado com a forma que ele representou sua personagem. Pra mim, soou como mais um filme sobre fazer o que é certo e não o q é bom ou mau e isso me faz perceber como devemos discutir isso mais, devemos pensar nisso e entender o que isso quer dizer. É meio que tirar uma ordem divina, mística ou científica das coisas e colocar uma ordem ética, ou melhor moral livre, porque nem sempre fazer o bem é bom e fazer o mau é mal. É preciso se achar um certo e não um certo relativo, mas um certo universal, um certo de todos e por mais que isso pareça utópico não é. O certo universal é algo que muitos até poderiam não fazer, mas mesmo negativamente todos de alguma forma vão admirar.
18 abril 2009
telefone
17 abril 2009
maria eliza
ó maria eliza
que desliza na prancha
que se afoga na pança
que amarra a margot
e come scargot
mas gosta de arroz
pois,
não gosta de strogonofe
porque fede,
assim como ela
que não vai se auto-comer
15 abril 2009
gigante
Primeiro passou ali uma mãe puxando pelo braço um menino melequente, barrigudo, babado e com grossos óculos.
Que péssima mãe! - disse a mulher para o homem.
Péssima e ninguém fala nada. - respondeu.
Como pode, meu deus, como pode...
Depois um carro vermelho cruzou a rua e buzinou para enxotar os cachorros da pista.
Olha como dirigem. - disse ela.
Como monstros, assassinos. - Respondeu ele.
Podiam matar alguém.
E ninguém faz nada.
Permaneciam ali defronte dos cães a falar do que quer que fosse que cruzasse a rua, e se houvesse tempo, não seria esse que percorre nossa vida, mas um outro, mais relativo ao tempo que as coisas tem em si, como se fossem o apocalipse do mundo: um mundo sem fim.
Quando vira na esquina um homem forte, alto, gigantesco. Vinha com passos pesados que podiam ser sentidos ao longe, onde estava o homem e a mulher. Os cães correram para dentro, acuados, e os dois humanos permaneceram ali, pois mais do que nunca pareciam hipnotizados pelo que olhavam. Mais de perto, puderam ver que o homem está vestido com uma calça jeans surrada e uma camiseta grande demais até para seu gigantismo. Seu tênis vermelho talvez 48 ou mais parecia poder cruzar todo o horizonte em poucos passos. Via-se também que na mão dele estava um picolé de uva, pela cor roxa, que em sua mão parecia minúsculo. Na primeira mordida ficou a impressão de que todo picolé se fora, mas não, ele crescia na medida em que o homem se aproximava.
14 abril 2009
hamlet, nosso.
Sempre e sempre nos debatemos com as formas. Tudo o que se vai dizer está selecionado, maturado, pronto para a descoberta que há de ser feita nas primeiras linhas, mas não consigo encontrar a forma de dizer. Às vezes apelo para trocadilhos vazios, como quando digo: “a maneira de escrever deve ser maneira”. Enfim, a história que tenho é a história de Hamlet, imaginei ela inteira tal qual ela é sem minha interferência, mas imaginei, pensando na idéia de “o teatro do mundo” do Shakespeare que hoje em dia temos as personagens da trama misturadas em todas as situações da vida. Não é raro ver um ‘irmão’ ‘matar’ o’ rei’, pelo amor da ‘rainha’ para ‘desposa-la’. Os afetos hoje são tão raros que o ‘incesto’ aparece em quase todas as ‘relações de intimidade’. E as aspas são tão necessárias que aparecem em quase todas as palavras. Quem é em sã consciência que não vê ‘espectros do passado’ vindo interferir no presente e quem não ‘enlouquece’ ao refletir que ao mesmo tempo deve se ‘vingar’ pelos males que lhe foram feitos e assim restituir alguma coisa e por outro lado se deve manter ‘virtuoso’ perante os outros e o mundo? Quem nunca chegou ao ‘ser ou não ser’? E essa pergunta pode se aprofundar mais ainda: Quem é que ao enlouquecer não fez outra pessoa enlouquecer também? Quem não mandou um ‘amor’ se trancar a todos, não confiar em ninguém, e ao se auto-intitular canalha mandar uma ‘inocente’ para um ‘convento’ e lá se proteger de tudo e de todos? Mais aspas foram usadas. Acontece que não há ordem no mundo mesmo, não há nada que deva ser restituído, há somente uma seqüência aleatória de fatos que não devem ser levados em conta como cadeias de acontecimentos, nem como passagem temporal. Então ser ou não ser passa a ser uma decisão de segundos para segundos, com conseqüências que podem punir, mas jamais consertar o passado ou preservar o futuro. E para Hamlet só resta seguir um destino desconhecido que parece amarrar sua história, mas que não o faz, gera dor, sofrimento e morte mas nunca nem por um instante serve para redimir uma vida ou uma injustiça, e o resto...o resto todos já sabem.
13 abril 2009
talvez até eu tivesse votado na ivete
Hoje assistindo "os melhores do ano" no domingão do faustão algumas coisas me pularam na cabeça. Cada vez que três candidatos apareciam, eu chegava a duas conclusões: primeiro, um merecia ganhar e segundo, um outro que não era o que merecia, ia ganhar. Depois disso resolvi observar a opinião das pessoas e numa sala de cinco pessoas, geralmente quatro concordavam que um merecia e o outro achava que não, daí se conclui que ou um país inteiro deveria refletir isso e mostrar esse resultado micro no macrocosmos, ou que na verdade, aquela sala representava uma minoria absoluta em relação ao nosso povo. Como nenhuma das duas respostas me pareceram sensatas, continuei pensando sobre o modo de avaliação e meio que concluí por alto, como forma dialética de pensar, que esse resultado aparece como uma transposição de mídia. Ao votar na internet a nossa recepção sempre desatenta e difusa tende a clicar no nome que mais nos chama atenção, no mais conhecido, no mais tarimbado e no mais ouvido. É como se existisse um déficit de reflexão e atenção, e na hora de clicar em cantora vai e...foi, clicou na ivete sangalo. Daí na televisão ela recebe o prêmio e todos ficam com aquela cara de: "po...de novo a ivete na tv falando as coisas da bahia, que saco." É inevitável pensar que, assim sendo, talvez até eu tivesse votado na ivete.
Pra vocês verem a lista, os vencedores foram:
Murilo Benício – ator
NXZero – banda
Patrícia Pillar – atriz
Seu Jorge – cantor
Cauã Reymond – ator coadjuvante
Ísis Valverde – atriz coadjuvante
Victor e Leo – melhor música
Mariana Rios - revelação
Ivete Sangalo – cantora
Bruna Marquezine – atriz mirim
Felipe Massa – esportista
D’Black – revelação musical
Patrícia Poeta – jornalista
Miguel Rômulo – ator revelação
Katiuscia Canoro – humorista
fonte: http://tvglobo.domingaodofaustao.globo.com/programa/2009/04/12/confira-os-vencedores-dos-melhores-do-ano/
12 abril 2009
gravávida
Acontece que há dessas coisas no mundo, com a lógica e com as conseqüências é possível se tudo concluir, ainda mais que com a má vontade que o rapaz serve o café, deixando-o até esquentar mais do que devia, irá ao invés de acalmar o engravatado nervoso deixa-lo mais descontrolado ainda e assim, ele não acha gentil descarregar no pobre funcionário da padaria e irá xingar seu secretário assim que chegar na empresa, dizendo-lhe que havia feito qualquer coisa errada, mas algo sério que mereça uma reprimenda grande, então o funcionário chateado por se sentir desvalorizado vai chegar em casa cansado, triste e também com uma certa raiva e vai por um motivo qualquer dar um soco na mesa ao ouvir a notícia de que se time tomou um gol. Esse susto vai acordar sua esposa grávida que dorme no sofá, e não sei se pelo susto ou por acaso, entrará em trabalho de parto em quinze minutos.
09 abril 2009
a toti
Sua história se confude com a minha ou eu prefiro que se confunda, para assim me sentir mais perto dela agora que estou longe.
Era outubro, o tempo ao mesmo tempo que esquentava, deixava chover. Um dia meu pai chega em casa contando que haviam soltado uns filhotes de gato no posto de gasolina em frente à minha escada e que um deles havia subido parte da escada e se instalado numa manilha desativada. Ele desceu logo com um pote de leite, e depois trouxe ração. Eu nunca fui desse tipo de cuidados, sempre fui mais afetivo, carinhoso, brincalhão que cuidadoso, por isso passava ali, tentava brincar com o gato e ia embora. Digo tentava, porque o gato, agora já sabem que é a toti, era muito arisco, e não deixa ninguém chegar perto. Quando botavam a comida dela, ficava lá dentro e só saía para comer quanto não estivesse ninguém rodeando.
Um dia, chegando da aula resolvi sentar no degrau do lado da manilha. Fiquei conversando com a toti, falando que estava cansado, que essa vida de estudante matava, mas claro, brincando, quando resolvi pegar um graveto, ou melhor era mais uma folha, um mato, e brincar com ela. De repente, ela sai lá de dentro e vem para o degrau brincar comigo, pensei na hora: "essa gata vai ser minha". Agarrei ela no colo com força e subi as escadas correndo. Entrei em casa e falei: "mãe...mãe...trouxe ela pra casa.", e assim que botei-a no chão ela correu pra debaixo da geladeira onde ficou toda a tarde. Ela era minha, escondida, mas minha.
Não lembro de como apareceu seu nome, mas tenho milhões de lembranças dela. Desde o dia em que ela foi castrada e passou dias longe de mim, acho que porque se sentia suja, ou invadida, o que me deixou triste, até o dia que voltei de cabo frio e ela subiu no meu colo, sentou e dormiu, acho que a única vez que ela fez isso.
Gosto quando vou coloca-la para dormir, fato raro, e ela desce sozinha o caminho que sabe de cor, indo direto pro banheiro, sentando na sua almofada, gosto quando ela senta do meu lado quando vou ver televisão ou filme no sofá de baixo, mas claro, sem deixar que eu faça muitos carinhos, gosto quando ela mia quando minha mãe começa a cortar carne e gosto quando ela caça pererecas, come as as patas e deixa o pobre bicho agonizante no quarto.
Esse post é mal escrito e incompleto por si só, pela situação. A toti está viva, em Petrópolis, com 13 anos e começando a ter dificuldades para pular janelas, correr. Tem preferido ficar dentro de casa. Ela ainda vive uns 3 anos ou mais, mas mesmo assim a idéia de não te-la em casa, faz da minha família uma coisa menos feliz, faz da minha casa um lugar mais vazio, faz o meu jardim mais silencioso. É que minha vida, de certa forma, se for contada vai ter uma parte que vai ser eu e a toti, a toti e eu.
07 abril 2009
Final do BBB
Eu dou uma dimensão mais política a isso, caso não desse o programa não me interessaria. Eu vejo o bbb como uma forma de premiação social a algum perfil que exista. Como se de alguma maneira, na nossa cabeça estivéssemos distribuindo renda para aqueles que para nós precisam de uma retribuição pelo que não costumam ter na vida, por isso é comum ganharem os mais pobres, o sertanejo, o malhado burro, ou aquele sumido quem nem fede nem cheira. Enfim, as variáveis são imensas, então vamos analisar essa final de agora.
Francine chega na final com o Max porque juntos formaram uma dualidade. Ele razão, ela emoção. Ela sozinha não teria chance, ele sozinho talvez tivesse alguma, mas menos do que com ela. O Max tem exatamente um perfil contemporâneo: homem descolado, racional, não apegado a sentimentalismos bestas que levam a lugar nenhum, tatuado, inteligente, perspicaz e capaz de analisar às pessoas como formas em movimento no espaço, por isso conseguiu lidar tão bem com as adversidades que teve. A Ana por mais que visse ele como ameaça jamais teve coragem de brigar com ele, e foi brigando com todo mundo, dando a ele cada vez mais força e singularidade. O Max poderia ser considerado um Iago do bem, alguém que da periferia domina o centro e chega ao resultado esperado. A Francine nesse caso, participa sendo a desdêmona que dá sentimento ao plano que seria só seco e triste demais.
Assim sendo, não poderia deixar de dizer que a Priscila também chega na final como resultado do plano do próprio Max, mas também não foi só isso, então agora é a vez de falar dela. Priscila chega na final fortalecida por ganhar a última liderança e quando todos estavam sentindo a pressão de um paredão ela podia se manter relaxada, e às pessoas puderam ve-la com mais atenção ainda. Minto, já haviam visto. Ela, a gostosona, no perfil mulher-melância-te-como-a-noite-toda, era esperada lá dentro para fazer isso: ficar bêbada, rebolar, falar besteira, ser chata, eliminada e ir pra playboy, e ela foi vencendo cada pequena barreira que apareceu, foi mostrando que tinha até alguma inteligência, bom jeito de conversar com os outros, de lidar com brigas sem deixar rastros, de saber ignorar bobeiras, mostrou um jeito feliz de existir e ser, o que perto do Max, mais inteligente e logo mais pensativo, acabou sendo um ponto a favor dela.
E a final vai ser assim, a escolha entre esses tipos de pessoas. Uma escolha absolutamente imprevisível, o que é surtante para escrever poucos minutos antes.
Havia aqui uma opinião minha, preferi suprimir, prefiro deixar um esboço: o que é mais importante para o Brasil: a reafirmação da bunda ou a superestimação da inteligência? O corpo ou o pensamento? O jeito de sorrir, de brincar e de viver ou a frieza, o calculismo e a instrospectividade? Uma força exterior que escapa sincera para todo canto ou uma certa interioridade que chega do lado de fora como graça, brincadeiras, mas nunca como verdade. Ela é a bunda de verdade, ele é o riso de mentira. Os dois são absolutamente verdadeiros. Quem ganha?
objetos quase ou citações
É tipo dizer "conheço o sujeito como a palma da minha mão". Olha que coisa horrível, isso no fundo significa: "desiste de tentar me surpreender, porque não vai conseguir", e o pior é que tem gente que acredita e se acomoda.
Para terminar esse belo post, como sempre padoxalmente ao que eu acabei de dizer, vou usar uma citação do Saramago, óbvio. Em algum momento de um conto, ele diz: "tudo são objectos. Quase." O que tento dizer é: ao se citar tenta se apreender, segurar o outro como um objeto, e no fundo tudo são objetos. Quase.
06 abril 2009
tapetes
a lua
05 abril 2009
perfis
Venceu a razão e minha esperança de que algo dará certo na minha vida aumenta.
31 março 2009
o outro.
Quando estava num bar com alguém perguntava pouco, mas pensava muito antes de cada uma das perguntas, de modo a fazer a resposta ser a mais longa possível, e olhava, olhava, até se ter alguma coisa para olhar, depois ia embora. Quando falava dele, falava indo embora, ou falava só para deixar a pessoa mais a vontade de falar mais dela. O máximo que pudesse, como disse, quando não tinha mais o que olhar, ia embora.
Quando estava no cinema, olhava para a tela como se tivesse vendo o globo terrestre, via mais do que nunca. Quando via futebol, se mexia o mínimo, mas o rosto era expressivo, mais do que qualquer rosto que havia visto na vida, porque ele sabia olhar, sabia como olhar, e entendi como aquilo tudo podia mudar em segundos, dependendo do jeito que lá dentro os outros olhassem.
Quando às vezes, melancólico, queria fazer mais coisas na vida, percebia que não podia porque enquanto alguns aprenderam a sorrir, a interagir, a mentir, a comer, a beber e a viver, ele estivera todo o tempo fazendo a mais singela das coisas, talvez a mais generosa e a mais encantadora, ele perdera grande parte da sua vida aprendendo que para ele, viver não era estar por aí, viver era olhar.
os vencidos
Tudo isso veio a tona porque fui assistir: "Corumbiara", documentário que faz parte do festival "É tudo verdade". Esse documentário fala sobre índios que foram dizimados, ou expulsos de terras em roraima. E eu que não gosto de índio, acho que no fundo eles não são mais índios do que os judeus judeus, que os negros negros e por isso podem e devem viver tal como o que são e pelo quanto que conhecem, eu que acredito em tudo isso acabei por sentir uma imensa simpatia por eles e tive vontade de defende-los e até me emocionei com eles, mas tudo isso porque eles lutam contra fazendeiros.
Daí pensei que vou fazendo hierarquia de ódios, os fazendeiros são mais odiados que os capangas que são mais odiados que membros da funai que são mais odiados que índios, e nessa cadeia, talvez sobre alguém digno de se gostar.
29 março 2009
who you are
What do you say to me
Is who you are
Cause I can´t be there to know
Cause I can´t be there to show
That what you do, more than you say
That what you do is who you are
27 março 2009
nossa senhora (é) aparecida
Estavam então Domingo e Pedroso à beira do rio conversando sobre a visita do Conde de Assumar. O estava bonito e embora os dois pescadores estivessem acostumados a diariamente fazer essa mesma atividade, naquele dia preferiram não desamarrar o barco e navegar, já que dessa vez não era para a venda, ou para o alimento de sua própria família que o fariam. Eram homens de alguma inteligência e pouco vocabulário, o que fazia com que sua conversa agora, apesar de parecer rude, fosse apenas um modo humano com menos bloqueios de demonstrar sentimentos. Não queriam estar ali, o dia não estava para pesca, mas como havia dito o conde, viera para mudar, para realizar ali um milagre. Por coincidência, depois de entrarem no rio e jogarem a rede duas vezes saía de lá uma santa, um verdadeiro milagre. Quinze anos ficaram com ela em casa, recebendo fiéis que iam até lá e deixavam trocados, depois transformou-se em capela, em igreja, em basílica. Até que um papa resolveu nomear a santa achada no rio como padroeira oficial do Brasil, claro, com um ou outro milagre aparecendo aqui e acolá, porque um milagre nunca vem só, faz-se um e tem que se fazer vários para consertar as imperfeições do primeiro. Há milagres piores que sofrimentos. Enfim, que o Brasil tinha uma santa padroeira com uma fé que chega por todo território, uma basílica numa cidade que vira camelô de produtos e cede para várias excursões e pedidos que poderiam ser realizados pela fé à distância ou pela ajuda de médicos. A única coisa nessa história que ficou faltando foi a refeição do conde de Assamar, que pelo visto, aquele dia do aparecimento da santa não aconteceu.
25 março 2009
a culpa
Era eu dizendo para um amigo que apesar de tudo estar mudado existia algo que permanecia, como se a minha capacidade de pensar fosse cada dia mais além e minha capacidade de entender diminuísse cada vez mais. Eu estava sentado e tomava um refrigerante que é o que faço quando quero pensar melhor; a cerveja fica para quando quero pensar maior; e ali parado, olhando as pessoas circularem eu não entendia muito bem como tudo poderia se dar, se era comigo fazendo alguma coisa, pegando um ônibus e vivendo, ou voltando para casa e dormindo, ou até ficando ali esperando algum sinal.
A verdade é que quando se resolver pensar em três, não em um, não em dois, mas em três que é o primeiro número coletivo, fica cada vez mais complicado entender pra onde as coisas estão indo, a gente se torna mais político, mais...engajado, e fica complexo esse limiar entre saber o que fazer porque é certo e saber o que fazer para ser mais feliz.
Era essa equação que eu deveria ter calculado melhor tempos atrás, porque talvez os olhos dela ainda sejam os mesmos, talvez seja eu que não saiba mais olhar. É que sempre fica aquela sensação de que a culpa é sempre minha.
23 março 2009
pra próxima
beco sem saída
21 março 2009
atualmente.
18 março 2009
gosto
Luiz Camillo Osório
Há hoje em dia uma aceitação geral do que quer que seja como sendo algo necessário, ou explicável por necessidades e dificuldades que qualquer um vive. Não digo dos casos mais graves, dos criminais, digo assim, na vida prática, cotidiana. Muitas vezes já me deparei com pessoas que sabem que outras erraram feio, mas mesmo assim crêem que elas tinham seus motivos para fazer o que fizeram. Para mim, isso não passa de tolerância de quem tem teto de vidro, e digo sabendo que todos o temos, óbvio.
No entanto, essa frase do Camillo, meu professor, me fez perceber exatamente o que acontece: há uma concordância geral que não permite brechas ou discussões. Se um amigo seu é inteligente e universitário está certo, não adianta discutir gosto, não adianta, basta você pensar o seu gosto com você mesmo para aceitar aquilo e ele que faça o mesmo com as coisas que você gosta. "Se o integrante do los hermanos lançou uma banda nova é óbvio que a banda é boa, se você ouvir, vai adorar e vai virar fã, igual era de los hermanos.", e isso já é introjetado de certa maneira que se você não ouvir é um belo de um traidor.
E assim vai, tantos são os exemplos. Para mim, o importante é discussão do que nos interesse no que nos interessa e do que não nos interessa no que não nos interessa, para assim, poder discutir o que pode nos interessar no gosto dos outros e vice-versa, assim, podendo abrir a conversa para ampliação da capacidade de reflexão entre o que é bom e o que é só gosto.
15 março 2009
lutador.
05 março 2009
descida
Agora, enquanto descia até à praça percebi que havia vivido um dos melhores momentos de minha vida e agora já tinha que encarar a vida normal, pessoas a andar com o olhar triste, o cansaço habitual do cotidiano, o desviar de meninos de rua, ou moleques, ou até adultos de rua, cada vez mais raivosos, pois não conheciam Marcella, seriam incapazes de amar. Cheguei até o chafariz, molhado, e fiquei observando como a água que caía empurrava a que deveria subir mais para baixo, foi a última coisa que pensei naquele dia, o resto dele foi só saudade. Aquele dia já passou, mas até hoje é assim.
03 março 2009
blogs (ou globs)
Daí cheguei a conclusão de porque eu escrevo: porque eu num tenho nada melhor pra fazer na minha vida. Sei lá, eu penso daí quero desenvolver um pensamento, ver até onde ele vai, daí venho aqui e escrevo, geralmente rende, às vezes não, posto mesmo assim. Por exemplo, meu carnaval daria um belo post e porque eu num fiz, porque foi importante demais e reflexivo de menos. É assim que é, ninguém precisa ler esperando nada de ninguém, cada um fala o que quer, ouça/leia quem tiver paciência. Escrever é estar embaixo do mar, fica-se sem ar e faz-se globs.
27 fevereiro 2009
Foof - bai marai eleesa
“Cädi/”
“Oy, Rause”
“Pegael/”
“Numca”
“Por qeu/”
“El noa t asho gats”
“Memtiroas.”
“El noa minot”
“Evrybori laix”
“Rç. Verdaed”
“Sol 1 gemnio, fikdik”
“Çempre solb.”
“Rç”
“Entoa vose me asha gats/”
“El t asho gats demasi Rause”
“Açin vose m maat d vergonah, Cädi”
“Q foof vose, Rause ^^”
“El noa sol foof òó”
“Ë çin :D”
“Arhg. Shal Cädi”
“Shal Rause”
18 fevereiro 2009
crescer
17 fevereiro 2009
procurando redes
De tudo que por lá vi o principal foi um rapaz vendedor de rede e colchas, cara de novo mas já envelhecido, cor de queimado quente, um grande peso no ombro esquerdo e muitas piadas pra contar. A colcha custava 40 no primeiro preço e saiu a 10 reais no fim da conversa. Mas o melhor de tudo eram as piadas, certa hora ele disse:
"sabia q o celular foi inventado no ceará né?, por isso que quando liga fica 'procurando rede' ", eu encantado respondi "mas isso é baiano, po" e ele rápido: "que nada, baiano é genérico, qd liga aparece 'sem serviço' "
O melhor era que o tempo todo ele interrompia a conversa dizendo "fico falando e me esqueço de vender" e ameaçava sair. Acabou q não compramos nada com ele, porque já tínhamos comprado colchas parecidas, mas conhece-lo foi um grande prazer e de alguma maneira acho que sinto saudades.
04 fevereiro 2009
ao ser imaginário
Quando maldade vem e me consome
Quando uma bomba matar no teu nome
Quando sentir culpa e ela for tua
Quando não der pra pedir perdão
Quando for chuva brava
Quando for leite coalho
Quando alguém ficar cego
Morrer, tiver dores, ou sofrer por amor
Quando alguém tiver medo
Seja feita tua vontade
Porque foi tua vontade
Quando o mundo inteiro virou dinheiro
Assim como quando na guerra
Morreram os que já há muito sofriam
Foi e é sempre tua vontade
Mas há que se dizer
Que além disso
Além de tua vontade
É tudo tua
responsabilidade
reine sobre mim
03 fevereiro 2009
padre ou puta
01 fevereiro 2009
luz
Foi estranha a sensação de Antero que estava em seu quarto no momento da queda de luz sentado numa cadeira a olhar da janela para o movimento da rua. Teve vontade de conversar, de telefonar a alguém, de se movimentar ao ver que tudo agora estava escuro. Levantou-se e ligou para sua prima perguntando se a luz havia também acabado por lá, ela que parecia já ter adormecido demorou a responder, mas confirmou, o que fez Antero apenas dizer: “acho que foi geral então.”, desligando o telefone sem mais palavras. Voltou até a janela e viu as últimas luzes da noite partirem: a dos faróis dos carros e ônibus que ainda passavam. A impressão que teve era a de que todos tentavam fazer barulhos, talvez para ativar um outro sentido que não a visão, e aparentemente este seria a audição. Antero percebeu também que se fazia barulhos, ruídos, mas se evitava conversar, os assuntos que antes eram importantes se tornaram secundários: as histórias de amor, as doenças de família, os casos da novela, as dores mal curadas, todas elas aos poucos foram se calando e o assunto era apenas o murmúrio da falta da luz, da ausência dela e dos possíveis motivos dessa queda repentina. No quarto ao lado um menino começou a tocar violão, fora isso mais nada acontecia. A cidade em pouco tempo dormiu, dessa vez mais cedo que o normal.
Pela manhã aparentemente já não se lembrava do incidente da noite anterior, a luz já estava a funcionar e os barulhos dos ônibus trouxeram o dia com o calor, a iluminação e os cheiros comuns à todas as manhãs. Antero havia ido trabalhar e pouco se recordava do incidente que pelo visto havia sido repentino, quem sabe alguma manutenção no sistema, coisa pouca, não haveria porque reclamar, pensava ele sem vontade de comentar disso com outra pessoa.
Trabalhara normalmente, almoçara no mesmo lugar de sempre, assistira o jornal e agora sabia todas as notícias de seu time. Havia tido um dia comum, como foram os seus últimos meses, principalmente depois de se ter formado no mestrado e passado o resto dos dias a trabalhar e pensar no que mais poderia sua vida se tornar. De saída do trabalho, organizou sua pasta e separou algumas coisas para fazer em casa, pois não gostaria de além de sozinho ainda ter que passar por momentos de falta do que fazer, ou de inventar o que fazer, pensava que primeiro se masturbaria, depois veria algum programa estúpido na televisão e voltaria mais tarde para a janela, a observar a vida daqueles que ainda tinham coragem de viver. E foi o que fez, saiu pela porta do serviço, comprou um café para viagem, alguns sanduíches e entrou em seu prédio sem falar com o porteiro que apenas havia lhe acenado com a cabeça. Horas depois estava ele na janela quando em ponto, no mesmo horário da noite anterior, a luz acabou novamente.
Dessa vez o incômodo foi ainda maior que na outra noite. Havia a repetição, a dúvida e a possibilidade de que isso viesse a acontecer todos os dias, e aí como seria? Antero começou a pensar que deveria ter visto televisão antes, deveria ter feito o que trouxera do trabalho, deveria ter tomado banho, meu deus, sem tomar banho?! E tanta coisa deveria ser feita, mas ali ficou ele sentado na janela a olhar a pouca luz dos faróis dos carros e hoje da lua que aparecia aos poucos, pois o tempo ainda não havia melhorado de todo. Ficou ali por horas até que o violão do menino ao lado começou a soar, então ele se levantou, pegou um copo d´água e pela primeira vez apreciou a vista, pode olhar, não o fez para se ocupar, mas para entender o que se passava com a rua, com as pessoas nela, e por fim, com ele.
Nos dias que vieram a luz voltou a faltar, e ao contrário do que se esperava, não houve tantas reclamações. Parece que as pessoas haviam se habituado à falta dela, e agora à esperavam, em alguns bares foram marcadas audições de violão e piano, nas igrejas foram marcados cultos para essa hora e namorados iam para as praças fazer aquilo que não gostariam que fosse visto. Claro que alguns assaltantes aproveitaram para ganhar uma grana extra, mas sem poder ver que haviam sido assaltadas, as vítimas se tornaram mais tranqüilas. Durante o dia tudo parecia normal, mas chegava à noite e a cidade começava a se transformar, até Antero uma vez solitário, passou a ser mais sociável, claro que pelo dia, já que a noite passava horas e horas a contemplar aquilo que havia do mundo que era só dele e não construído para ser. Era Antero, o mundo e o violão do menino.
Até que se descobriu na empresa de distribuição de energia elétrica, a única que havia tido prejuízo com o caso, que a falta de luz era brincadeira de meninos que sempre à mesma hora cortavam um dos fios que transmitia a luz para a cidade. Assim, tudo foi restabelecido e a fiscalização preparada para que tal não se repetisse. Aos poucos tudo voltou ao normal nos cafés, nos bares, nas delegacias, hospitais, nos bombeiros, nas farmácias, nos bingos, por todo o lado, mas alguma coisa havia mudado, pensava Antero, pelo menos na casa do menino onde todo dia na mesma hora as luzes eram desligadas e o violão começava a soar. Ele então resolveu que essa seria uma hora especial em seus dias e continuou a diariamente ir até a janela ver o movimento dos carros e das pessoas e ouvir o menino tocar. Só que nessa noite foi diferente, além dele, do mundo, do menino e do violão, pela primeira vez naquela semana no céu havia estrelas.