15 setembro 2009

menino

Muitas vezes tenho vontade de escrever como menino. Escrever a lápis e reclamar do meu pai que não quis me levar à praça ou da minha mãe que atrasou o almoço. Falar até daquela queda correndo pelo pátio do werneck que machucou meu joelho. Escrever como menino não pra relembrar coisas do passado, nem pra falar de memórias ou de saudades, mas pra falar do tempo. Aprofundar-me nele e expandi-lo em pequenos pedaços estilhaçados entre o que eu sou capaz de lembrar, o que eu vivi ou o que acabei por inventar no caminho. Falta meninisse, falta pipoca, falta recreio, mas escrevo pensando nisso que talvez seja amor. Não consigo escrever e penso que talvez não consiga porque seja meia noite e meia e que amanhã, num dia de sol, após ver uma amigo, eu chegue aqui e escreva como menino e sorria como menino e viva como ele e que seja tudo sempre um dia bonito, uma praça, um sorvete e um amor.

14 setembro 2009

qualquer coisa

qualquer coisa, qualquer coisa
que se apanhe, se arranhe, se agache
se encaixe, se dilate e desamarre
e se espalhe de fora, de dentro
de dentro fora, embora, na hora
no canto cheirando cola,
pedindo esmola, embaixo na sola
da sola, na cola e na poltrona
mandona, matrona, furona
que não saiba do segredo e do medo
e do recalque, do desfalque
do embarque, encaixe, desarme
alarme, empada, enxada, trabalha
sabado é domingo, sem dengo
sem feira, na beira do mundo
um tanto imundo, mas quarta-feira
já volta pra casa, embassa
mas volta embora poeira caseira
se assemelha vou dizendo
tá frouxa, tá frouxa, na moita

qualquer coisa, qualquer coisa
qualquer coisa que se diga...

13 setembro 2009

foda-se

As pessoas usam demais a palavra foder. Foda-se isso, foda-se aquilo. Fodi a noite inteira, to muito fodido, me foderam, tá a maior fodeção, não fode, e vão usando indiscriminadamente como se foder fosse palavra que subsituísse todo o resto numa atitude radical de não se importar, de cagar e até de rebeldia, talvez porque leiam kerouac demais ou talvez porque nunca tenham lido porra nenhuma. A questão é que sempre que se fala foder ou foda-se, pega-se um atalho, acha-se que está economizando tempo ou cabeça ou cansaço ou pelo menos alguma coisa que ainda não se sabe o que é, já eu acho isso bobagem, qualquer que seja o fato da vida é sempre bom perder um tempinho olhando, pensando e contemplando. A vida é mais contemplação do que a gente imagina, a coadjuvância é constante, a protagonisse não, por isso em matéria de foder e foda-se, prefiro ser casto.

06 setembro 2009

sutilezas e circunstâncias

É sútil, mas é sempre diferente escrever quando acorda ou quando dorme, depois de um jogo do flamengo com vitória ou derrota, com a mãe passando mal ou fazendo sua comida preferida, com sol e com chuva, sábado ou domingo, triste ou feliz, namorando ou solteiro, mais magro ou mais gordo, com dor de estômago ou saudável. É sútil, mas relevante, deve ser sempre levado em conta que enquanto eu escrevo numa circunstância, quem lê vive sob outra, assim sendo posso lhe manipular e você lendo pode me subverter. Vamos então dizer que estão o que eu escrevo e o que você lê em um abismo, sendo direcionado por milhões de flechas, vértices que empurram pra lá e pra cá.
Como já disse, tudo é metáfora pra tudo e não há por onde fugir, só fica mesmo esse exercício de tentar dizer o que sente em palavras e na certeza de não conseguir, chegar a duvidar até do que se sente. É isso.

05 setembro 2009

cerveja

chego em casa bêbado
e tá tudo maneiro
se eu tivesse trêbado
tava vomitando no banheiro

se eu tivesse quadrêbado
nem lembrava que tinha blog...

02 setembro 2009

polêmica, o fim

Voltando ao assunto anterior, aliás, falando do que eu queria ter falado mas me desviei. O cara foi perguntado na entrevista se, por ser ateu, ele tinha medo da morte. A resposta dele foi: “não tenho medo da morte, tenho medo de morrer” e começou uma longa explicação sobre o porquê. Ouvi e concordei. Disse ele que tem medo de morrer porque o homem é o único animal que é intimado a morrer sofrendo. Quando um cachorro tá muito doente, terminal, sofrendo, dá-se uma injeção e ele morre anestesiado, sem dor, sem sofrimento, sem pesares e melhor, sem a consciência do que é morrer. Já o ser humano não, além de tudo que ele vá sentir fisicamente e apesar de ser o único que sabe que vai morrer, ele é intimado a tentar sobreviver e aguentar até o último segundo de vida, porque seria errado. Ele é feito vegetal e observa-se o apodrecimento dele, o enfraquecimento, numa despedida fúnebre, grotesca, cruel e desumana, lenta e mordaz. Pensei que eu adoraria tomar uma injeção e morrer, como numa anestesia geral.
Depois pensei então em quantos sentimentos somos obrigados a sentir e que na verdade não nos são tão importantes assim: sentimentos de culpa, de pecado, de ter errado, de ter falado, de ter amado, de ter fudido. E vamos sendo obrigados a isso, sendo que estar com um amigo e rir de qualquer coisa é tão fácil, então porque desperdiçar tempo com esse tipo de coisa? A verdade é que vivemos numa sequência eterna daquilo que gostaríamos de fazer e não fazemos e a culpa por termos feito o pouco do que queríamos ter feito.
O que eu queria dizer, reduzi e não disse, mas foi que resolvi não sofrer agora...

01 setembro 2009

polêmicas

Assisti uma entrevista algum tempo, antropofagizei o assunto e agora resolvi falar sobre. Falava aquele cientísta-ateu que veio na FLIP, cujo nome não lembro, mas estou com preguiça de procurar o nome dele no google, além do mais, o que importa, vamos aos fatos.
Gosto de ateus, eles me parecem sempre engajados nas suas idéias, mas gosto principalmente pelo bom humor e ironia deles. Na verdade, eles têm certo prazer em fazer os que crêem parecerem ridículos e não sei porque isso me agrada. Talvez porque ache sacal essa pasmaceira geral, onde cada um “acredita no seu próprio deus”, ou melhor, “numa energia superior q não tem nome”. A religião conforta, mas estraga mais do que conserta, ela pega um problema novo e pelas proibições, conselhos ou regras transforma em estrutural mantendo-o e alimentando-o.
Há também os agnósticos que no fundo professam o “estou cagando”. Cagar é bom, também elogio os que cagam, por isso uma ou duas vezes no dia faço minha contribuição à essa gangue que caga. É até um certo problema, os tropicalistas por exemplo, estavam acima da esquerda e longe da direita na época da ditadura, eram tipo agnósticos, estavam fora do problema com outras soluções, acho que os admiro, porque não sei ser assim.
Quanto a ciência tenho pouco a dizer. Não tenho fé nela, na verdade não tenho fé nenhuma. A ciência não é para se ter fé, é pra ser usada pra coisas práticas, pra melhorar nossas situações de vida, nossa saúde, mas cada vez mais percebo que tudo isso é tão relativo. Relativizar também é ruim, só não creio ser muito inteligente crer em algo que é a prova concreta e máxima de que daqui a pouco haverá uma outra prova concreta e máxima que contrarie a primeira, embora venham me dizer que há regras absolutas, o que eu posso responder com “até agora”, daí vão dar o exemplo da lei da gravidade e eu vou dizer: “nada me diz que amanhã acordarei e ela aqui estará.”, vou parecer estúpido, burro, mas pra mim faz todo sentido. A questão pra mim é que vendem-se produtos e tiram-se direitos em nome da saúde, em nome do bem-estar, em nome da longevidade, em suma, a ciência nos serve mas também nos presta um deserviço, logo não dá pra confiar muito nela, apenas para utiliza-la, como uma pá ou um martelo. Creio que no fundo os cientistas são os pedreiros da intelectualidade.
O post ficou grande, continuará outro dia.

30 agosto 2009

reflexões

Tenho a sensação de que apodreço. Que cada dia que passa sou uma versão mais gasta de mim. Falo fisicamente, caminho pra degeneração inevitável, homeopática e fulminante. Escrever se torna então em última instância a vã tentativa de capturar uns instante em que algo de outra ordem, que não a material, se instala nesse corpo que apodrece e, assim, ler depois o que escrevi é perceber o momento anterior ao de agora em dois níveis: a lembrança da sensação física e a profundidade do pensamento. O fervilhar de idéias é tão grande que em dois minutos posso escrever triste e feliz, falar da dor de um sofrimento e de um entusiasmo. A questão é saber o que eu vou querer ler depois de mim e essa pergunta nem sempre pode ser respondida, porque o que quero ler de mim, geralmente é o que deveria ter escapado, mas se eternizou. Assim a matéria viva de mim revela um ponto que ainda é obscuro, que ainda não decifrei, entretanto, no geral, o que sinto é sempre um enorme prazer de perceber que a vida é boa demais, é engraçada, é estranha e sofrida, mas inevitavelmente contagiante. Apodrecer é bom.

23 agosto 2009

sonho

Tive um sonho sensacional, tenho que me esforçar pra conta-lo. De alguma maneira, eu estava sendo acusado de engravidar uma menina. Estava em casa, na varanda, andava pelo quintal esperando alguma reunião que teria e, na verdade, eu já havia me contentado com o fato de que eu ia ser pai e o mais interessante,e u não sabia qual menina era e pra mim a grande descoberta seria essa. Depois lembro que estava havendo uma reunião na casa da minha tia, com minha mãe, a mãe da menina, o bebê meu filho e eu ficava lá fora esperando uma hora pra me chamarem. Era parecido com algum desses programas tipo Ratinho, eu via o q acontecia lá dentro como se fosse numa televisão. Quando me chamam eu olho para a menina e não a reconheço, então digo: "nunca tive nenhum tipo de relação com essa menina." A mãe dela começa a chorar, a menina diz: "é verdade, é verdade, eu acusei ele injustamente" e também começa a chorar. Ela é linda, ruiva com sardas, do jeito que eu gosto. Está com o bebê no colo. A reunião acaba e ela sai sozinha, triste e eu vou atrás conversar com ela. Sentamos num canto aqui do quintal e eu fico perguntando sobre as coisas da vida dela e ela vai me contando devagar, frágil, triste. Deixa eu olhar para o bebê e ele é lindo, me arrependo de não ter aceitado ficar com ele e com ela. Passamos o resto da tarde conversando, ela diz que queria ficar comigo. Eu não queria ficar com ela, mas estava feliz por ter uma companhia. Alguma música está tocando no fundo, mas não reconheço qual. O sonho acaba quando por algum motivo ela precisa ir, se levanta e desce com o neném. Eu fico parado no mesmo lugar, sem me mexer, agora triste. Não lembro de mais nada.

20 agosto 2009

meu vizinho

Tinha como visão da janela do apartamento, uma outra janela de apartamento, como seu aquele fosse um prolongamento desse e as janelas, a minha e a dele, se tornassem molduras distantes, separadas pelo vão que se deflagrava do quinto andar até o térreo. A verdade é que não sei direito como se chamam as coisas em apartamentos, porque sempre morei em casa. Esse vão me lembra imagens de cortiço, ou melhor, imagens que criei de cortiços ao ler livros de literatura brasileira, enquanto que térreo sempre me parece nome de lugar que fica embaixo quando tem algum lugar em cima. Assim sendo, a rua até poderia ser o térreo do céu, penso eu.
A impressão que tenho é que o apartamento dele é uma espécie de espelho do meu, o armário, de modelo e cor diferentes, fica exatamente no mesmo lugar, assim como o banheiro, a estante, a televisão. Tenho a impressão que a vida dele segue análoga à minha. Análoga mas não idêntica, porque ele apaga as luzes pra dormir cedo e quanto acordo, ele já saiu, porque quando ele chega pra almoçar, estou quase me arrumando pra aula. Ele trabalha e eu estudo, nos encontramos em frente às nossas televisões sempre na hora do flamengo e quando acontece um gol sorrimos um para o outro da janela.
Conforme vão passando nossos dias, morando tão perto, vivendo tão próximos, nas mesmas condições e ao mesmo tempo tão distantes, percebo como somos os mesmos, e percebo mais: todos somos sempre os mesmos o tempo inteiro, fazendo as mesmas coisas. Repetindo os passos e as frases, as siglas, as reclamações, os ciúmes e as saudades. Os casados repetem os tédios, os solteiros os porres, as rezas ou as punhetas. As solteiras ficam mais fáceis e sensíveis. No fim, todo mundo é fácil, sensível, enche a cara, vê o flamengo, reza...no fim, meu vizinho serve pra que eu veja o mundo...no fim, o mundo é o lugar onde tudo acontece da mesma maneira e dar um passo atrás é perder o bonde mas prever o mundo...no fim, perder o bonde é quase ser diferente, mas é encontrar tanta gente que perdeu junto com você...no fim, há sempre um fim e um recomeço...no fim, eu recomeço...

17 agosto 2009

no aterro

Fui correr no aterro hoje. Já chegui lá com dor na perna e aguentei correr no máximo 3 minutos. Então aproveitei pra olhar ao meu redor e senti um misto de alegria e tristeza, prazer e decepção. Alegria porque vi como as pessoas são felizes nessa cidade, as bundas se sacodem em harmonia com a areia e a água do chuveiro, os passeios de bicicleta com filhos pequenos são libertadores e quase ouço a trilha sonora dos Ipods de quem caminha. Tristeza porque me parece que esse mundo não me pertence, tiro a camisa e sou branco demais, a barriga exuberante é de quem vive mais a noite que de dia. As bundas me fascinam, mas me parecem tão longe de mim e os passeios de bicicleta com filhos mais longe ainda. E pior, tenho medo de levar qualquer tipo de elemento sonoro pra lá com medo de ser assaltado.
Acontece que assim sendo estar ali não me dá tanto prazer, fico pensando que poderia estar num bar, com uma pessoa que eu amo, em qualquer lugar que fosse me sentir a vontade e confortável, mas nem sempre podemos ter o que queremos...Geralmente nem quero tanto, só gostaria de pertencer a mais lugares.

16 agosto 2009

pílulas

Tomou uma pílula e sentou no sofá. Era vitamina pra suprir o fato de não comer vegetais. Sentou pra suprir o fato de que as costas doíam e porque já ficara deitado o dia inteiro. A impressão que passava pra quem (não) lhe via, era de que assim estivera por muito tempo em sua vida, parecia um gesto já ensaiado e repetido por diversas vezes. Aliás, a impressão que se tem é que as coisas estão sendo sempre repetidas, recontadas, requentadas. “Vou ali e já volto” é um clichê pra ir embora e não querer demorar. Ninguém leva uma hora pra ir em nenhum lugar, leva sempre meia horinha, quize minutinhos. É uma sucessão de eufemismos que não amenizam nada, só tornam óbvio o que poderia ser normal. Por isso que stomar uma pílula e sentar no sofá é só a reprodução da mesma atividade de sempre e por isso que ele fazia tal atividade com tanto cansaço e com um olhar tão perdido: por mais que se esforçasse na vida, nunca faria nada de diferente, até acreditar nisso era óbvio. E não era triste, era só normal fazer o que se está fazendo sempre. Assim como alguém já fez.

13 agosto 2009

um sentimento

Às vezes eu fico procurando objetos para descrever um sentimento, como se, na sua forma, a metáfora conseguisse esconder aquilo que sinto amorficamente. Por isso escrevo um conto cujo personagem principal é um anão, onde mostro uma sensação de fragilidade que me cerca; um outro sobre um homem q despenca na máquina de um matadouro, onde penso que, no fundo, quanto mais tempo sobreviver mais vou me aniquilando, ou seja, quanto mais me protejo, mais me afasto de mim; um outro num espaço quase todo em branco, onde eu valorizo cada pequeno gesto que recebo das pessoas, e os analiso e repasso na cabeça, tentando achar um valor ou uma verdade que nunca existe; e por fim, um onde as luzes da cidade se apagam todos os dias na mesma hora, onde peço ao mundo que participe da minha solidão.
É com essa conclusão que tento escrever agora e o problema disso é que perco um pouco da ingenuidade. Mas o sentimento que tenho para falar é tão bonito que vou ignorar o que eu acho do mundo, dos outros e da política, vou ignorar tudo o que existe, porque tudo que existe, existe para não existir, existe para que não existam.
O sentimento é sutil. É como um lençol: fino, aconchegante, acalentador, essencial. É como um sorriso: foge, escapa, vem e traz com ele uma coisa que nos faz esquecer que resto existe. É um sentimento cúmplice, como se ele tivesse assistido comigo um assassinado e fique de vigília, a noite inteira, deitado a beira da cama, esperando que algo aconteça. Ele me proteje. É como uma vela, um fósforo, um gol, a lembrança de um beijo, um curativo no joelho, uma flecha atirada, uma paixão por uma música, um pedaço de pizza, um telefonema de madrugada, um desencontro. Ele é como um amor, mas sem forma, um amor amorfo. Um amor-fo. É um sentimento tão caro e tão raro que ainda não encontrou matéria, mas resiste à tudo e vive tão escondido (e tão à mostra) que é bonito e patético, sem sentido mas cheio de histórias. É a história de um sentimento que resistiu á todas as metáforas, um sentimento que ainda não virou conto, não virou memória, não virou nada. Um sentimento que a gente preserva para sempre poder sentir.

29 julho 2009

ok

E aí, cara!
e aí...
tudo ok?
tudo ok e contigo, ok?
não. tá tudo desok,
nok,
inok,
unok,
aok,
antiok,
exok...

28 julho 2009

minha menina

sonhei com a minha mulher
nele era só uma menina
e eu não era eu
era um menino eu
e de cá fui pedófilo dela
fui pedófilo de mim mesmo
lá era só sonhador
que amava minha menina
como ela me amava
esperando que ela crescesse...

daqui era só minha mulher
querendo que eu a amasse
como amava a menina
e eu que não era mais menino
e não era mais sonho
não podia amar a menina
nem podia amar a mulher
podia, com minha mulher,
sonhar que amava a menina
e, no sonho, com a menina
sonhar que ela virasse mulher

mas eu - homem e menino -
sofria problemas de identidade
e a minha menina - mulher
cada dia mais linda
e mais feliz

26 julho 2009

pergunta

sempre que me dizem:
pensei em você o dia todo,
eu fico pensando:
pensou em mim até cagando?

24 julho 2009

o aperto

Uma vez quando estava com ela eu soube que iria me despedir. Era sempre igual: eu a deixava no portão do prédio, dava um beijo e ficava olhando ela subir, sumir, entrar. E ali eu começava a cronometrar os segundos até o dia em que a veria novamente, mas não sofria, sentia um misto de liberdade e paixão, desejo e medo, felicidade e paz, porque da paz também se fazem problemas. Mas uma vez, só uma, ao ve-la andar percebi que um dia aquela ida dela seria para sempre, percebi isso e consegui me sentir fora de mim e perceber que cada dia que eu a deixava no portão estava mais perto do dia que eu nunca mais a deixaria no portão, do dia que ela teria que entrar pelo portão sozinha e entrar sozinha e deitar sozinha e dormir sozinha, ou que ela teria que encontrar outro pra leva-la até lá e repetir o que eu tinha ensaiado e encenado por um tempo. Nesse dia senti um aperto e percebi que o amor era esse aperto mais que tudo, mais que ela indo e eu ficando, mais que o portão separando, mais do que ela sentia. Percebi que o amor era eu e o meu aperto, porque o andar dela seria igual, o sono também, eu que não estaria mais lá e quem sabe um dia, talvez também não meu aperto.

dar valor

Sempre ouço dizer que é preciso "dar valor" às coisas. Dar valor à mãe, dar valor à comida, ao dinheiro, ao amor, às pequenas coisas da vida, à saúde, a poder viajar todo final do ano, ao acordar, mijar e não doer, ao sair e voltar de casa, ao emprego, ao carro, às férias, aos domingos, à namorada. Enfim, seria preciso dar valor a quase tudo que se tem, porque não dar valor seria ser ingrato e precipitar um futuro onde não se terá. Pra mim isso sempre soou meio como bobagem porque só se diz para se dar valor áquilo que não se valoriza. Quanto mais se diz para valorizar, menos valorizado é. Porque dar valor é dizer que algo merece algo que não tem, mas deveria ter, no entanto quem será que deve dizer aquilo que devemos ser gratos? Não seria a gente? E dizer que valorizo não é muito diferente de valorizar? Muito vão dizer: "só se dá valor quando perde", o que para mim é exatamente o contrário: quando se perde se percebe o valor que havia e que não há mais, há um vazio zero, logo o vazio não está na falta de valor, mas na necessidade de preencher o vazio com outro valor que nunca poderá ser aquele. Cada valor é único e nada pode mudar. O que me volta àquela eterna resposta: só uma coisa explica a própria coisa. Só se valoriza a mãe, quando se está com a mãe, quando se escolhe estar, só se valoriza a saúde quando se corre pela rua e chega feliz e não cansado, só se valoriza às férias curtindo todo dia, dormindo muito e se possível viajando. Dar valor é então fazer aquilo que se faz, falar aquilo que se fala, comer aquilo que se come e dormir aquilo que se dorme, ao invés de falar quando se está com fome, dormir quando se quer falar, fazer quando se quiser comer, etc. Viver é viver, encher o saco é encher o saco, escrever é escrever. Por isso sempre valorize ao dar valor, mas nunca diga que se valoriza o outro, porque o valor está nele mesmo, assim como cada coisa...

12 julho 2009

a vida como louça de cozinha

A vida nada-tudo mais é que louça de cozinha. A gente gasta mais tempo lavando, limpando e desengordurando do que aproveitando o paladar, o gosto da comida. Muito mais do que pensando no sabor do jantar. Ali na pia tem tanta sujeira e tanto resto que a gente pensa que é impossível se ter sujado tanto, e vem aquela sensação de que se vai limpar mais do que sujou, que vai consertar mais do que errou, que vai chorar mais do que sorriu, que vai matar mais do que morreu. Além do que a gente vai pra mesa sabendo que vai ter que lavar depois. Mesmo que se decida que cada um lava o seu prato, alguém vai lavar a panela, alguém vai limpar o fogão, alguém vai limpar mais e isso é tão injusto, que chega a sufocar. Depois é a sensação que mesmo passando um tempo lavando e de tanta água que passou pelas mãos, elas estão mais secas do que nunca, ásperas, envelhecidas e que não demora pra se sujar tudo de novo.

07 julho 2009

music and me

Eu não quero cair nesse sentimentalismo ao redor da morte de Michael Jackson, só gostaria de deixar claro o que nós fizemos com ele, o que o mundo fez com ele, com aquele cara que parecia um menino ao cantar, ao falar, muitas vezes transformamos ele numa personagem de circo, num animal de zoológico, ficamos orbitando cada passo para saber qual era a próxima ação dele. Lamento por tudo que ele passou e que fizemos ele passar, mas não vou cair no sentimentalismo. Quero só deixar uma música aqui, que pra mim é a mais bonita dele, porque representa o que fazia ele cantar, ele se mostrar pro mundo. Quem sabe, essa ligação dele com ela - e só isso - tenha valido a pena tudo que ele passou na vida.

problema a mais

sempre que eu escrevo no computador, depois quando vou ler percebo que cometi vários erros, muitas vezes depois que já postei, muitas vezes depois de dias. Isso ao invés de me envergonhar, me deixa contente, é interessante incorporar alguns erros à escrita, algum escape, alguma dislexia, deixar algum problema entre o que eu pensei, o que eu escrevi e o que pode ser lido. É um problema a mais...E sim, eu uso muitas vírgulas, acho que em cada uma delas paro pra pensar e ver se devo mudar o que digo, deveria chama-las de vírgulas da preguiça!

e o sol caiu

Senta um pouco
E olha pra mim
Espera que passa
O tempo ruim

A gente conversa
Se você quiser
Até de manhã
Eu posso ficar

Já to atrasado
Mas posso ficar?
Junto contigo
Fica tudo melhor

Eu tava sozinho
Eu tava também
Eu tava tranqüilo
Eu não muito bem

E o tempo que passa
Quanto tempo passou?
Se ficar mais tarde
Eu não volto mais

Não quero voltar
Mas tenho de ir
Um sino que toca
Não quero dormir

Então boa noite
Se puder durma bem
E acorda mais cedo
E venha me ver

Ce vem amanhã?
Eu venho também
A gente se fala
Até mais, meu bem

03 julho 2009

I dream of murder

Liguei na HBO hoje a tarde e fiquei assistindo o primeiro filme que passou. Era um desses filmes com pretenso suspense com um caso de assassinato que será revelado no fim, entretanto esse me chamou atenção porque seguia a cartilha, fazia exatamente o que um manual de filmes de suspense e assassinato deveria ter: uma terapeuta com traumas do passado, uma mulher com um marido violento que sonha ter sido assassinada, um amante para a mulher que também veio do passado, um delegado de mal humor doido pra prender alguém, um paciente da terapeuta com cara de maluco e...como? um paciente? Tudo ia muito bem, até apresentar esse paciente, depois dele tudo ficou óbvio, porque era ele que ia ser o assassino, pois era o único que não fazia sentido ser. Daí o delegado começa a dizer que tem um psicopata aí que havia matado pessoas igual matou a mulher...

Acabou que vi o filme até o fim, mas tinha perdido a graça. O problema de filmes assim é que eles ou escondem ou mostram a chave para nosso entendimento. Interessante seria jogar com essas informações, num plano de revelar/desvelar que acabaria fazendo de um filme comum como algumas excelentes horas para se passar embaixo do cobertor sozinho sem pensar na vida que insiste em não ser boa.
By the way, o filme era "I Dream of Murder"

30 junho 2009

things to say

we have to talk, we have do play
there's nothing to deal
just some things to say

I know we may fight a parcial day
we don't need a kiss
maybe not today

28 junho 2009

livro de jó

A história bíblica de Jó, sem meias palavras, é a história de um homem cuja humanidade lhe é tirada para que se teste sua fé, assim deus lhe tira a riqueza, os filhos, a esposa e por fim lhe causa uma doença, uma praga que toma todo seu corpo com feridas. No fim, Jó passa pela provação divina e tudo que tinha lhe é devolvido em dobro para demonstrar a bondade divina.
Se fosse possível exprimir o que essa parábola me passa teria de dizer que é horror, pavor, terror. Não se trata de um teste para fé, se trata de um freak show de destruição de tudo que um ser tem de homem para que ele sinta como deus é poderoso e pode agir na vida dele. Se um deus precisa criar tantas feridas, tantas dores e tantos sofrimentos para demonstrar seu poder e para testar a fé, ele é no mínimo um deus assassino, um deus cruel, que dá maus exemplos, que controla os corpos e não se importa com a sua alma, mas sim com o q você faz em vida. Os amigos de Jó de tanto temerem deus não são capazes de enfrenta-lo, de pensa-lo, de transforma-lo em vida, tudo ao redor desse deus é morte, é sofrimento, só a mulher é capaz de desconfiar disso tudo, de ver que há um plano de dor, não um plano de libertação. Essa é uma parábola que incita o masoquismo, o suícidio, o sofrimento e a eterna necessidade de ser subjugado e o pior de tudo, faz com que aceitemos isso com sorriso no rosto, com esperança, como se um raio de luz nos cruzasse no fim e fizesse que toda dor virasse apenas lembrança, pois um dia, que provavelmente nunca chega, viveremos eternamente ao lado dessa luz que nos guiará e será para sempre nosso lar.

27 junho 2009

sábado

as paredes estão frias: na cama, recostei nelas e senti. A cortina fechada para tudo lá fora e a cueca verde provam a falta de vaidade, ou cuidado, falta de alguma coisa que não tem nome. A unha do dedo anelar roída incomoda ao escrever e a frase se torna mais lenta, mais precisa, mais cerebral do que devia. A barriga estufada de cerveja e o estômago de comida, as costas ainda lembram uma natação feita há muito tempo. É sabado, tem gosto de sábado e clima de sábado, só não tem a companhia típica de sábado, mas cerveja é fato que lá estará e eu também...

25 junho 2009

crença

eu acredito no amor como acredito num shopping, numa couve, num elefante, num monge, num filme do godard, numa pizza requentada, numa filosofia barata, num porre de cerveja, num cinema solitário, num choro num filme idiota, num passeio solitário, numa saudade, numa facada nas costas, na eterna raiva que sempre vai ser feliz, numa peça de teatro que queria contar, num matança generalizada num morro qualquer ou num filme do Stalone, mas pelo menos eu ainda acredito no amor...

24 junho 2009

atualiza

Atualiza
Atualiza que ainda não tá bom
Mas atualiza rápido que tem mais gente atualizando
Até Jesus tem que se atualizar
Ele devia voltar pra atualizar as metáforas
Transformar um 486 num palmtop
Com foto, canetinha e tudo
Ia ser complicado, ele teria que ter orkut
Mas não podia mandar muito scrap
Porque ia parecer tia chata e velha
Mandando boa semana com uma frase do Mário Quintana
Que provavelmente vai ser da Marta Medeiros
Jesus se tivesse twitter ia ter que aprender a falar pouco
Nada de subir em pedra e falar -
Pedras caem e com elas rolam quem ainda acredita
As pedras suspensas são esfinges
E eu já nem entendo –
Mas andar de avião e tratar bem aeromoça

Enquanto eu falo de Jesus morreu um
Rezava por ele e morreu mesmo assim
Enquanto eu falo e um reza morreram dez
E Jesus só morreu uma vez

Um problema é a solidão política
Porque tem sempre uma maioria para falar mal de tudo
A pasmaceira geral se instaurou como eles queriam
Elogiar político é matar mãe
Comer cabrito na moita
Chutar o mendigo que não tentou te roubar pra dar exemplo
Porque dar exemplo é importante
Por exemplo:
Se alguém cair num buraco na rua o que fazemos?
Rimos da cara dela, ajudamos ela a levantar, seguimos em frente ou reclamamos com a prefeitura?
Enquanto pensamos morreram mais dez,
Enquanto ela, que caiu, podia ter sido atroelada
E foi, agora ela sangra, mas ta tudo bem, vai estancar

E Jesus só morreu uma vez....

23 junho 2009

controle

apesar de tudo
é quando não é nada
que é calmo
sempre que é alguma coisa
é mais do que devia
foge do controle
com t-role
com tro lê
foge
e não volta nunca mais

tratado

Atravessou a rua, o passo torto
o asfalto estufado, o estômago embrulhado
tanta gente que corria num bater de ossos frouxos
e o trocador sorria pra gostosa que passava
tinha um chuveiro na praia poluída
e a água que descia secava antes que caisse
e naquele mesmo sol um menino dormia
um papelão protegia a cara dele
mas como sempre em pouco tempo choveu
o peito protegido pela santa
e o celular com câncer que a menininha fala
e a roupa engomada que amassa na mala
feito qualquer outra malha,
também rasga se levar um tiro, um bico
um soco enviesado
e a cara é sempre mesma, o hematoma passa
o sangue estanca, o plano de saúde paga
a cirurgia, o médico, e volta a ficar gostosa
mas a roupa que rasga é indigna, faz dela uma puta
quando cachorro quente é barato
a gente deixa fazer mal
ninguém se importa se dá úlcera ou coceira
se está suja a orelha que ninguém vê
ninguém se importa com nada,
ao menos que alguém mexa com seu cu
porque sagrado só o cu
e mais sagrado que o cu só o cu da mãe
então se você atravessa a rua
com o asfalto estufado
o estomago embrulhado
batendo ossos no chuveiro da praia
na chuva, com câncer, no celular
rezando pela santa
ninguém se importa,
ninguém tá nem aí
pára de chorar, idiota
num tem ninguém vendo
ninguém aí, ninguém aqui
se quiser aparecer
ou ganhar dinheiro
não chora
vai dar o cu

21 junho 2009

chorume


Dois rapazes em cena sentados num banco.

Você entende alguma coisa?
De que?
Das histórias, do que se conta...disso...
não.
Nem eu.
É que tudo me parece tão sujo.
É que tudo me parece tão banal.
Tudo xurumela.
Você sabe de onde veio essa palavra?
Que palavra?
Xurumela.
Sei.
De onde é?
É de chorume, aquele caldinho do lixo.
Claro que não.
É sim, chorume, churume, xurumela.
Claro que não.
Então de onde veio?
De churros. Um rapaz estava comendo churros, o recheio caiu e ele ficou todo melado, daí ele disse “Churros Mela”.
Churros Mela?
é...daí ficou churros mela, churromela, xurumela.
Ahn...
Você entende alguma coisa?
Do que?
Das histórias, do que se conta...disso...
não.
Nem eu.

15 junho 2009

flect

o que calado digo
complico, firo corto
jogo, embargo, dilato
é que hoje, ontem, amanhã
é sempre o que é sempre
o que é sempre o que é sempre
e se repete, tapete, carpete,
joanete, marioenete,
salada ou gilete
pega o estilete
e flect

14 junho 2009

ronaldo

Sentiu na superfície da pele a dúvida: não escrevia porque intensamente vivia em linguagem o que poderia escrever ou porque havia um silêncio entre o que não se pensava e o que se poderia escrever? De verdade mesmo, sentia frio e dor na ponta dos dedos sempre que digitava por mais de cinco minutos, também era verdade que estava fazendo muitas coisas e separando tempo demais para a preguiça, mas agora na frente do piscar da tela que se insinuava já apareciam novamente milhões e milhões de personagens, alguns bem completos, com corpos frases e tudo e outros ainda superficiais, como animais, com apenas algumas poucas sensações. Percebeu, entretanto, que para que eles se fizesse havia também de haver um outro ele, pois esse que jazia agora era ainda muito primeiro, muito esgotado, muito cansado, muito comum e muito óbvio, era muito acumulado, assim como falava muito muito. Por fim, depois de pensar e pensar não conseguiu decidir o que gostaria de dizer, escreveu algo ruim e torceu para que ninguém lesse. Dizia porque era dia...

04 junho 2009

a chuva

tudo que eu disse sempre foi em silêncio
e tudo que eu não disse foram bobagens que eu falei

17 maio 2009

a sala com meu nome colado na porta

Olhei meu nome colado na porta e entrei. Aquela sala deve ter sido separada para mim, tinha uma cadeira e uma mesa, então resolvi sentar e esperar. Meu celular estava sem sinal, meus bolsos não estavam muito cheios e minha blusa de malha me protegia do vento frio que vinha da janela. Levantei-me, fui até ela e não vi grande coisa, fechei um pouco a abertura e encostei a cortina para que viesse menos luz na minha cara. Acho que fiquei lá por algumas horas, como ninguém nem nada apareceu, me levantei e saí. Devo ter entrar na sala errada, mas não, na porta ainda estava colado meu nome. Talvez aquela sala fosse exatamente a sala feita especialmente pra mim.

13 maio 2009

sobre a música

Uma das maiores falácias de hoje em dia é essa idéia de que música é universal. No cu que é. Junto a isso também vem aqueles que dizem que música é questão de gosto, porque não é. Música é coisa de ouvido acostumado, de ouvido social, ouvido cultural, ouvido familiar, questão de múltiplos ouvidos, e não adianta tentar se fingir de dumbo, de que tem um ouvido para tudo, porque na hora que entrar em casa, sozinho, vai botar aquele som que o ouvido está acostumado.
Essa coisa de dizer que a música é universal é uma forma dos grandes nomes transformarem numa coisa natural que a britney spears seja melhor que a gretchen, ou que a o rock inglês pode ser tão bom quanto o rock feito do lado de casa. O próximo passo é gastar mais dinheiro produzindo a imagem, o produto, a atitude e talvez um pouco também o som da banda e transforma-la num espetáculo. É a glamourização do exótico, só que de uma maneira muito rentável absorvida por todos e usada no cotidiano. É o espetáculo do videoclip. E essa regra só funciona para lá, porque quando é feita no terceiro mundo é vendida como especiaria, estranha e serve para debates e putaria, não para muito mais.
É muito simples, nenhum de nós consegue ouvir um indiano tocando música indiana por mais de dez minutos na televisão. Só o fazemos, se muito, se formos a um concerto de um deles que tenha vindo para cá, e geralmente eles vêm porque de alguma forma já misturam elementos de nossa cultura na música dele.
O problema não é ouvirem música americana ou inglesa, não estou nem aí, o problema é esse discurso pseudo-liberal que serve para, na verdade, continuar fazendo uma coisa só e não democratizando os meios de comunicação como deveria. A própria internet que deveria ser pra democratizar mantém essa forma de separação, de cisão, de corte à faca, pois só a utilizamos para fazer mais do mesmo, mas isso é um outro tema.

12 maio 2009

ode ao passado


Se pensarmos na vida como um eterno presente, como muitos fazem questão de pensar, estaremos sendo estúpidos, porque a verdade é que o que temos de melhor são nossas lembranças. Melhores até que as promessas de futuro, são as lembranças do passado. O presente é sempre ruim porque está controlando e sendo controlado, está interagindo com várias forças ao mesmo tempo e estamos sempre tentando coisas e construindo coisas. O futuro é uma mentira, uma falsidade que inventaram pra manter a gente comprando, gastando e achando que é capaz de ir para algum lugar. Já o passado não, é o lugar onde não existe a mentira do futuro, nem a pressão do presente, ele é perfeito do jeito que foi, até momentos embaraçosos vistos da frente são melhores, são engraçados e nos compõe e tudo aquilo que fez o que a gente é agora deve ser visto com toda a gratidão. É no passado que está nossa história e o que a gente quis dela, é no passado que estão nossas besteiras superadas e nossas desculpas pedidas, nossas ressacas curadas. No passado está o que a gente tem de melhor e o que superamos do pior. Viva ele...

pirandello

Acabei de ler "seis personagens a procura de um autor" do Pirandello e ainda estou tentando compreeender. A forma como as coisas na obra se sucedem, me parece que representadas tenderiam ao exagero, a um excesso de expressividade por parte dos atores. Eu fiquei com a sensação de que todas as personagens deveriam ser melancólicas, assim como os discursos de um pierrot no jardim ao reclamar por sua namorada colombina.
A maneira como as camadas de ficção se compõe também ainda não me foram digeridas. Ao contrário de Beckett, onde tudo se volta para si mesmo, a impressão que tenho é que em Pirandello tudo se desdobra para fora, mas não é um desdobramento simplesmente, há um desdobramento que altera o anterior, ou melhor, reformula o anterior, repensa ele, insere dados a ele, então a narrativa avança pelas camadas, pelos discursos indiretos, pelas citações, pela composição da narrativa e não por ela própria. Amanhã pretendo escrever mais, são 2:54 da manhã e o sono bateu...

10 maio 2009

3

- Você tá bem?
- Tô. Eu tô bem.

Após um longo silêncio.

- É que...
- O que?
- Nada.

Outro silêncio. Respiram fundo.

- É que tá demorando tanto pra passar.

Quase sorriem.

08 maio 2009

pedra

tudo resiste a mim
a mim e a meu violão cansado
sou eu que não mais resisto a nada
tudo que vem de fora me atinge

30 abril 2009

razão da esquerda

Não é mister que se defenda porque não é preciso defender aquilo que se quer que diga. O mundo prova que temos razão, o mundo prova que tudo não funciona da maneira que está e que tudo pode funcionar do jeito que projetamos. O que me incomoda, o que não aceito é que continuemos a andar assim, pelos cantos, com o discurso agarrado na boca, com vergonha de acreditar no que acreditamos como se estivéssemos acuados, sem coragem para provar nossa certeza, como se passáros fôssemos e não saíssemos do ninho apesar da promessa da primavera. Meu pai nunca me disse que devia brigar quando estivesse certo, mas minha mãe sim, ela foi apaixonada. Ele é a direita, ele quer a ordem e a manutenção, ele de certa forma é deus, mas não Jesus pois este veio pela espada. Minha mãe e toda mãe é a esquerda, nossa lembrança mais antiga, a primeira a depositar-nos o melhor sonho. E hoje, por medo da morte ou por medo da mudança ou por medo do risco, muitos de nós desiste no caminho. É por isso que me sinto na obrigação de discordar de tudo que dizem e afirmar nosso sonho, porque como disse saramago, andamos cabisbaixos como se não tivéssemos razão. A verdade é que nunca tivemos tanta!

29 abril 2009

ela

Loira, linda, olhos azuis
tão bonita que parece de mentira
por isso eu não acredito nela
tão inteligente, perspicaz
capaz de me fazer esquecer das coisas
por isso que eu sempre chego atrasado
magra, esbelta, cheia de curvas
que parece nem existir nesse mundo
por isso eu acho que ela é um et

por isso que tão especial
tão estranha e sem definição
que acho que ela é minha
só minha e o que minha imaginação dela
- loira, linda e de olhos azuis -
fez

II

Dois meninos conversando.

1 – Eu me caguei.
2 – Eu me caguei ontem.
1 – Tem dias que acontece. Mããããe!
2 – Eu prefiro mijar.
1 – Também. Suja menos.

Joana entra.

1 – Mãe, eu me caguei.
Joana – De novo? De novo? Você é um cagão. (sai com o menino)
2 – Droga, me caguei também. Mããããããe! Mãããããe!

Entra a jovem.

2 – Mãe,eu me caguei.
Jovem - De novo? De novo? Você é um cagalhão.

28 abril 2009

aniversário

Uma vez por ano era seu aniversário. Era batata, estava tudo normal, daí um dia as pessoas começavam a abraço-lo, deseja-lo tudo de bom, felicidades, que ganhasse muito dinheiro, tivesse juízo, mulheres e mais, porque as pessoas sempre achavam tudo pouco e acabavam a frase com “enfim, tudo de bom no mundo” e ele sempre queria que esse dia acabasse mais rápido, porque só o fazia lembrar que nunca teria felicidade, dinheiro, juízo, mulheres, muito menos tudo de bom no mundo.
Era um dia que lhe enganava, lhe fazia sentir-se especial, querido, desejado e centro das atenções sem motivo, o que para ele era tão bom, já que passava a vida se esforçando para que lhe dessem atenção e sempre era tão cansativo. Muitas vezes ouvia o renato russo cantar que o mundo era tão complicado numa música absolutamente feliz e pensava: “que merda, ele é feliz e o mundo dele complicado. Eu não.”
Depois percebeu que nada disso que pensava era verdade. Ele é que gostava tanto de sua vida e tanto do que fazia que não queria que nada daquilo passasse e sempre que começava a passar fazia um esforço imenso para que não fosse, mas ia. E ele ficava sozinho. Daí ele construía tudo de novo, pedra por pedra, sentimento por sentimento, porque os sentimentos sim são de pedra, pois nunca se quebram até que..zuum, se foi tudo de novo. No fundo, era tudo feito de reflexos, de espelho, de reprodução, de tentar fazer com que tudo voltasse pra um mundo cheio de janelas, um mundo que já era. Nunca voltou. Nem ela.

27 abril 2009

o picolé

No meio da rua dois cachorros brincavam. Pequenos, frágeis, ficavam a se cheirar, morder cada vez mais forte até doer e rodar ao redor do próprio eixo. Estavam bem alimentados. Atrás deles, em pé, conversavam uma mulher e um homem, donos dos respectivos animais. Falavam deles, de como comiam, viviam, brincavam, mijavam, sabiam com detalhes cada atividade diária deles, e agora já não podiam precisar se foram eles que impuseram aos cães essas atividades ou se foram eles próprios que as escolheram para si. De qualquer forma, é provável que nenhum deles estivesse disposto a alterar essa ordem.
Primeiro, passou ali uma mãe puxando pelo braço um menino melequento, barrigudo e de grossos óculos.
-Que péssima mãe! - disse a mulher
-Péssima e ninguém fala nada. - responde o homem
-Como pode meu deus, como pode...

Depois um carro vermelho cruza a rua e buzina para enxotar os cachorros.
-Olha como dirigem – diz ela.
-Como monstros assassinos – ele.
-Podiam matar alguém.
-E ninguém faz nada.

Permaneciam ali defronte dos cães a falar do que cruzasse a rua, como se houvesse tempo, não esse que percorre nossas vidas tecendo relações, mas um outro relativo às coisas dentro delas mesmas, em relação a si próprias, como se fossem o apocalipse do mundo: um mundo sem fim. Quando vira na esquina um homem forte, alto, gigantesco. Vem com passos pesados que podem ser sentidos ali onde estavam homens e cães. Esses correm para dentro, acuados, enquanto que aqueles permanecem estáticos, pois pareciam hipnotizados pelo olhar, um olhar que agora parecia estranho. Mais de perto podem ver que o homem se veste com uma calça jeans e uma camiseta grande demais para seu gigantismo, o tênis vermelho tamanho 48 parecia cruzar o horizonte. Podia-se ver também que na mão dele estava um picolé de uva, pela cor roxa, que parecia minúsculo entre seus dedos. Na primeira mordida ficou a impressão de que todo picolé se fora, mas não, ele crescia na medida que o homem se aproximava.

gran torino



Meu interesse por cinema começou tarde, uns quatro atrás só quando eu já tinha meus vinte anos. Gosto disso porque não vi bergman com 17, via sim o chaplin que desde pequeno era uma grande paixão. O bom de não ter visto esses caras muito novo é que já pude ver com uma maturidade maior, apesar de que sempre fica em mim aquela sensação de que perdi muito tempo.
Disse tudo isso pra dizer que só conheci o Clint Eastwood depois de 2004 e fui assistir só os últimos quatro filmes dele e achei todos uma bosta. Menina de ouro eu desisti no meio. Só que como sou bonzinho, deu uma chance e fui assistir os dois últimos. "A troca" é um saco e a angelina jolie é um porre. No entanto, o que me chamou atenção foi "Gran Torino" É o primeiro filme dele que eu gosto e achei sensacional, espetacular, tô até agora espantado com a forma que ele representou sua personagem. Pra mim, soou como mais um filme sobre fazer o que é certo e não o q é bom ou mau e isso me faz perceber como devemos discutir isso mais, devemos pensar nisso e entender o que isso quer dizer. É meio que tirar uma ordem divina, mística ou científica das coisas e colocar uma ordem ética, ou melhor moral livre, porque nem sempre fazer o bem é bom e fazer o mau é mal. É preciso se achar um certo e não um certo relativo, mas um certo universal, um certo de todos e por mais que isso pareça utópico não é. O certo universal é algo que muitos até poderiam não fazer, mas mesmo negativamente todos de alguma forma vão admirar.

18 abril 2009

telefone

Estava na cabine telefônica com o fone na mão ouvindo o som da máquina junto com barulhos de carros na rua, chovia de leve, chuva fina de dia de nuvens altas. O cartão estava no bolso, decidia ainda se ligaria, mas como já sabemos, já havia ligado porque o passo já fora dado, no entanto, é sempre necessário retomar os momentos anteriores ao agora, não que eles nos expliquem, mas eles são a própria fabulação, não há nada que já não seja cinco minutos antes de ser.

17 abril 2009

maria eliza

maria eliza
ó maria eliza
que desliza na prancha
que se afoga na pança
que amarra a margot
e come scargot
mas gosta de arroz
pois,
não gosta de strogonofe
porque fede,
assim como ela
que não vai se auto-comer

15 abril 2009

gigante

No meio da rua dois cachorros brincavam. Pequenos, frágeis, ficavam a se cheirar, morder cada vez mais forte até doer e rodar ao redor do próprio eixo. Estavam bem alimentados. Atrás deles, em pé, conversavam uma mulher e um homem, seus donos. Falavam deles, de como comiam, viviam, brincavam, onde mijavam e cagavam, sabiam com detalhes cada atividade diária deles, e agora já não podiam precisar se foram eles que impuseram aos cães essas atividades, ou se foram os cães que as escolheram para si. De qualquer forma, não estavam dispostos a alterar essa ordem.
Primeiro passou ali uma mãe puxando pelo braço um menino melequente, barrigudo, babado e com grossos óculos.
Que péssima mãe! - disse a mulher para o homem.
Péssima e ninguém fala nada. - respondeu.
Como pode, meu deus, como pode...
Depois um carro vermelho cruzou a rua e buzinou para enxotar os cachorros da pista.
Olha como dirigem. - disse ela.
Como monstros, assassinos. - Respondeu ele.
Podiam matar alguém.
E ninguém faz nada.
Permaneciam ali defronte dos cães a falar do que quer que fosse que cruzasse a rua, e se houvesse tempo, não seria esse que percorre nossa vida, mas um outro, mais relativo ao tempo que as coisas tem em si, como se fossem o apocalipse do mundo: um mundo sem fim.
Quando vira na esquina um homem forte, alto, gigantesco. Vinha com passos pesados que podiam ser sentidos ao longe, onde estava o homem e a mulher. Os cães correram para dentro, acuados, e os dois humanos permaneceram ali, pois mais do que nunca pareciam hipnotizados pelo que olhavam. Mais de perto, puderam ver que o homem está vestido com uma calça jeans surrada e uma camiseta grande demais até para seu gigantismo. Seu tênis vermelho talvez 48 ou mais parecia poder cruzar todo o horizonte em poucos passos. Via-se também que na mão dele estava um picolé de uva, pela cor roxa, que em sua mão parecia minúsculo. Na primeira mordida ficou a impressão de que todo picolé se fora, mas não, ele crescia na medida em que o homem se aproximava.

14 abril 2009

hamlet, nosso.


Sempre e sempre nos debatemos com as formas. Tudo o que se vai dizer está selecionado, maturado, pronto para a descoberta que há de ser feita nas primeiras linhas, mas não consigo encontrar a forma de dizer. Às vezes apelo para trocadilhos vazios, como quando digo: “a maneira de escrever deve ser maneira”. Enfim, a história que tenho é a história de Hamlet, imaginei ela inteira tal qual ela é sem minha interferência, mas imaginei, pensando na idéia de “o teatro do mundo” do Shakespeare que hoje em dia temos as personagens da trama misturadas em todas as situações da vida. Não é raro ver um ‘irmão’ ‘matar’ o’ rei’, pelo amor da ‘rainha’ para ‘desposa-la’. Os afetos hoje são tão raros que o ‘incesto’ aparece em quase todas as ‘relações de intimidade’. E as aspas são tão necessárias que aparecem em quase todas as palavras. Quem é em sã consciência que não vê ‘espectros do passado’ vindo interferir no presente e quem não ‘enlouquece’ ao refletir que ao mesmo tempo deve se ‘vingar’ pelos males que lhe foram feitos e assim restituir alguma coisa e por outro lado se deve manter ‘virtuoso’ perante os outros e o mundo? Quem nunca chegou ao ‘ser ou não ser’? E essa pergunta pode se aprofundar mais ainda: Quem é que ao enlouquecer não fez outra pessoa enlouquecer também? Quem não mandou um ‘amor’ se trancar a todos, não confiar em ninguém, e ao se auto-intitular canalha mandar uma ‘inocente’ para um ‘convento’ e lá se proteger de tudo e de todos? Mais aspas foram usadas. Acontece que não há ordem no mundo mesmo, não há nada que deva ser restituído, há somente uma seqüência aleatória de fatos que não devem ser levados em conta como cadeias de acontecimentos, nem como passagem temporal. Então ser ou não ser passa a ser uma decisão de segundos para segundos, com conseqüências que podem punir, mas jamais consertar o passado ou preservar o futuro. E para Hamlet só resta seguir um destino desconhecido que parece amarrar sua história, mas que não o faz, gera dor, sofrimento e morte mas nunca nem por um instante serve para redimir uma vida ou uma injustiça, e o resto...o resto todos já sabem.

13 abril 2009

talvez até eu tivesse votado na ivete


Hoje assistindo "os melhores do ano" no domingão do faustão algumas coisas me pularam na cabeça. Cada vez que três candidatos apareciam, eu chegava a duas conclusões: primeiro, um merecia ganhar e segundo, um outro que não era o que merecia, ia ganhar. Depois disso resolvi observar a opinião das pessoas e numa sala de cinco pessoas, geralmente quatro concordavam que um merecia e o outro achava que não, daí se conclui que ou um país inteiro deveria refletir isso e mostrar esse resultado micro no macrocosmos, ou que na verdade, aquela sala representava uma minoria absoluta em relação ao nosso povo. Como nenhuma das duas respostas me pareceram sensatas, continuei pensando sobre o modo de avaliação e meio que concluí por alto, como forma dialética de pensar, que esse resultado aparece como uma transposição de mídia. Ao votar na internet a nossa recepção sempre desatenta e difusa tende a clicar no nome que mais nos chama atenção, no mais conhecido, no mais tarimbado e no mais ouvido. É como se existisse um déficit de reflexão e atenção, e na hora de clicar em cantora vai e...foi, clicou na ivete sangalo. Daí na televisão ela recebe o prêmio e todos ficam com aquela cara de: "po...de novo a ivete na tv falando as coisas da bahia, que saco." É inevitável pensar que, assim sendo, talvez até eu tivesse votado na ivete.

Pra vocês verem a lista, os vencedores foram:

Murilo Benício – ator

NXZero – banda

Patrícia Pillar – atriz

Seu Jorge – cantor

Cauã Reymond – ator coadjuvante

Ísis Valverde – atriz coadjuvante

Victor e Leo – melhor música

Mariana Rios - revelação

Ivete Sangalo – cantora

Bruna Marquezine – atriz mirim

Felipe Massa – esportista

D’Black – revelação musical

Patrícia Poeta – jornalista

Miguel Rômulo – ator revelação

Katiuscia Canoro – humorista


fonte: http://tvglobo.domingaodofaustao.globo.com/programa/2009/04/12/confira-os-vencedores-dos-melhores-do-ano/

12 abril 2009

gravávida

A rude abordagem do engravatado automaticamente fez com que o rapaz de traz do balcão tomasse antipatia, até nojo daquele homem que na sua frente apenas lhe pedia um café. Depois disso já não podia mais trata-lo normal, com simpatia, mas apenas lhe servir como quem faz um favor, como quem por ter um coração maior e melhor é capaz de agradar a quem lhe faz mal. Não era pelo dinheiro, nunca é, o dinheiro é sempre a desculpa, é sempre o motivo que ninguém duvida, porquê afinal de contas quem em sã consciência irá dizer que feito por dinheiro não é feito com a razão?
Acontece que há dessas coisas no mundo, com a lógica e com as conseqüências é possível se tudo concluir, ainda mais que com a má vontade que o rapaz serve o café, deixando-o até esquentar mais do que devia, irá ao invés de acalmar o engravatado nervoso deixa-lo mais descontrolado ainda e assim, ele não acha gentil descarregar no pobre funcionário da padaria e irá xingar seu secretário assim que chegar na empresa, dizendo-lhe que havia feito qualquer coisa errada, mas algo sério que mereça uma reprimenda grande, então o funcionário chateado por se sentir desvalorizado vai chegar em casa cansado, triste e também com uma certa raiva e vai por um motivo qualquer dar um soco na mesa ao ouvir a notícia de que se time tomou um gol. Esse susto vai acordar sua esposa grávida que dorme no sofá, e não sei se pelo susto ou por acaso, entrará em trabalho de parto em quinze minutos.

09 abril 2009

a toti

Nunca falei da toti aqui. A toti é meu gato, quer dizer, minha gata, não tenho foto dela no computador, só no celular, quanto puder venho aqui, edito e boto a foto dela, ou não, porque tirar foto com ela sempre foi um sacrifício. Arisca, não gosta que cheguem muito perto dela.
Sua história se confude com a minha ou eu prefiro que se confunda, para assim me sentir mais perto dela agora que estou longe.
Era outubro, o tempo ao mesmo tempo que esquentava, deixava chover. Um dia meu pai chega em casa contando que haviam soltado uns filhotes de gato no posto de gasolina em frente à minha escada e que um deles havia subido parte da escada e se instalado numa manilha desativada. Ele desceu logo com um pote de leite, e depois trouxe ração. Eu nunca fui desse tipo de cuidados, sempre fui mais afetivo, carinhoso, brincalhão que cuidadoso, por isso passava ali, tentava brincar com o gato e ia embora. Digo tentava, porque o gato, agora já sabem que é a toti, era muito arisco, e não deixa ninguém chegar perto. Quando botavam a comida dela, ficava lá dentro e só saía para comer quanto não estivesse ninguém rodeando.
Um dia, chegando da aula resolvi sentar no degrau do lado da manilha. Fiquei conversando com a toti, falando que estava cansado, que essa vida de estudante matava, mas claro, brincando, quando resolvi pegar um graveto, ou melhor era mais uma folha, um mato, e brincar com ela. De repente, ela sai lá de dentro e vem para o degrau brincar comigo, pensei na hora: "essa gata vai ser minha". Agarrei ela no colo com força e subi as escadas correndo. Entrei em casa e falei: "mãe...mãe...trouxe ela pra casa.", e assim que botei-a no chão ela correu pra debaixo da geladeira onde ficou toda a tarde. Ela era minha, escondida, mas minha.
Não lembro de como apareceu seu nome, mas tenho milhões de lembranças dela. Desde o dia em que ela foi castrada e passou dias longe de mim, acho que porque se sentia suja, ou invadida, o que me deixou triste, até o dia que voltei de cabo frio e ela subiu no meu colo, sentou e dormiu, acho que a única vez que ela fez isso.
Gosto quando vou coloca-la para dormir, fato raro, e ela desce sozinha o caminho que sabe de cor, indo direto pro banheiro, sentando na sua almofada, gosto quando ela senta do meu lado quando vou ver televisão ou filme no sofá de baixo, mas claro, sem deixar que eu faça muitos carinhos, gosto quando ela mia quando minha mãe começa a cortar carne e gosto quando ela caça pererecas, come as as patas e deixa o pobre bicho agonizante no quarto.
Esse post é mal escrito e incompleto por si só, pela situação. A toti está viva, em Petrópolis, com 13 anos e começando a ter dificuldades para pular janelas, correr. Tem preferido ficar dentro de casa. Ela ainda vive uns 3 anos ou mais, mas mesmo assim a idéia de não te-la em casa, faz da minha família uma coisa menos feliz, faz da minha casa um lugar mais vazio, faz o meu jardim mais silencioso. É que minha vida, de certa forma, se for contada vai ter uma parte que vai ser eu e a toti, a toti e eu.

07 abril 2009

Final do BBB

Eis que em poucos minutos acontece a final do Big Brother Brasil, edição número nove. Quando eu começo um texto assim, quer dizer que ainda estou elaborando minha maneira de dizer o que quero. Vamos lá. Primeiro, quando se fala em reality show, na maioria das vezes analisamos duas coisas: "talento" e "merecimento", como o BBB é uma programa que exclui o talento e faz as pessoas ficarem três meses sem fazer o que sabem, para não fazerem nada, só nos resta o merecimento para análise. Depois, temos que pensar de que forma devemos validar esse merecimento. Será que é por quem joga melhor? Por quem tem mais coração? Por quem teve a vida mais difícil?
Eu dou uma dimensão mais política a isso, caso não desse o programa não me interessaria. Eu vejo o bbb como uma forma de premiação social a algum perfil que exista. Como se de alguma maneira, na nossa cabeça estivéssemos distribuindo renda para aqueles que para nós precisam de uma retribuição pelo que não costumam ter na vida, por isso é comum ganharem os mais pobres, o sertanejo, o malhado burro, ou aquele sumido quem nem fede nem cheira. Enfim, as variáveis são imensas, então vamos analisar essa final de agora.
Francine chega na final com o Max porque juntos formaram uma dualidade. Ele razão, ela emoção. Ela sozinha não teria chance, ele sozinho talvez tivesse alguma, mas menos do que com ela. O Max tem exatamente um perfil contemporâneo: homem descolado, racional, não apegado a sentimentalismos bestas que levam a lugar nenhum, tatuado, inteligente, perspicaz e capaz de analisar às pessoas como formas em movimento no espaço, por isso conseguiu lidar tão bem com as adversidades que teve. A Ana por mais que visse ele como ameaça jamais teve coragem de brigar com ele, e foi brigando com todo mundo, dando a ele cada vez mais força e singularidade. O Max poderia ser considerado um Iago do bem, alguém que da periferia domina o centro e chega ao resultado esperado. A Francine nesse caso, participa sendo a desdêmona que dá sentimento ao plano que seria só seco e triste demais.
Assim sendo, não poderia deixar de dizer que a Priscila também chega na final como resultado do plano do próprio Max, mas também não foi só isso, então agora é a vez de falar dela. Priscila chega na final fortalecida por ganhar a última liderança e quando todos estavam sentindo a pressão de um paredão ela podia se manter relaxada, e às pessoas puderam ve-la com mais atenção ainda. Minto, já haviam visto. Ela, a gostosona, no perfil mulher-melância-te-como-a-noite-toda, era esperada lá dentro para fazer isso: ficar bêbada, rebolar, falar besteira, ser chata, eliminada e ir pra playboy, e ela foi vencendo cada pequena barreira que apareceu, foi mostrando que tinha até alguma inteligência, bom jeito de conversar com os outros, de lidar com brigas sem deixar rastros, de saber ignorar bobeiras, mostrou um jeito feliz de existir e ser, o que perto do Max, mais inteligente e logo mais pensativo, acabou sendo um ponto a favor dela.
E a final vai ser assim, a escolha entre esses tipos de pessoas. Uma escolha absolutamente imprevisível, o que é surtante para escrever poucos minutos antes.
Havia aqui uma opinião minha, preferi suprimir, prefiro deixar um esboço: o que é mais importante para o Brasil: a reafirmação da bunda ou a superestimação da inteligência? O corpo ou o pensamento? O jeito de sorrir, de brincar e de viver ou a frieza, o calculismo e a instrospectividade? Uma força exterior que escapa sincera para todo canto ou uma certa interioridade que chega do lado de fora como graça, brincadeiras, mas nunca como verdade. Ela é a bunda de verdade, ele é o riso de mentira. Os dois são absolutamente verdadeiros. Quem ganha?

objetos quase ou citações

Como se sabe eu odeio citações, porque geralmente elas que no contexto são usadas em casos particulares ao serem destacadas ganham um valor universal quase que taxativo, que incide diretamente para dentro de si mesma, como um provérbio, numa atitude absolutamente autoritária, de signos fechados e incontestáveis. Uma muito usada que me irrita profundamente é "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.", frase do pequeno príncipe, livro até gostoso de ler e com boas reflexões. Essa citação é péssima, porque acho que quase ninguém quer ser eternamente responsável por nada, até um assassino pagasua pena e depois fica livre, ser eternamente responsável é praticamente dar um atestado de prisão perpétua, ou até uma pena de morte. Na verdade, quem usa essa frase está querendo dizer que é incapaz de se tornar uma pessoa menos triste e passa a responsabilidade para outros, como se isso fosse possível.
É tipo dizer "conheço o sujeito como a palma da minha mão". Olha que coisa horrível, isso no fundo significa: "desiste de tentar me surpreender, porque não vai conseguir", e o pior é que tem gente que acredita e se acomoda.
Para terminar esse belo post, como sempre padoxalmente ao que eu acabei de dizer, vou usar uma citação do Saramago, óbvio. Em algum momento de um conto, ele diz: "tudo são objectos. Quase." O que tento dizer é: ao se citar tenta se apreender, segurar o outro como um objeto, e no fundo tudo são objetos. Quase.

06 abril 2009

tapetes

Vamos com calma, essa é uma narrativa de ficção. Até agora eu estava falando do big brother e esse 'eu' é um narrador, mas a narração começa agora: a sala tinha o tamanho exato que ele precisava para fazer o que queria. Ainda não sabia o que faria, mas sabia que o que faria teria e deveria caber naquela sala. Longas janelas, mas pouca luz, muitos tapetes e poucos móveis, poucas pessoas a espera. Era uma tapeçaria. Ele se sentia como um europeu indo ás índias comprar especiarias, se sentia aventureiro por comprar um tapete. Agora ele descobriu o que faria, iria comprar, antes preferia só olhar pelas janelas e pela pouca luz, pela sala branca com muitos tapetes e pensar, que como aventureiro devia fazer algo ali. E decidir comprar o tapete era um gesto simbólico pra ele, em algumas culturas tapetes podiam voar, em outras eram considerados ornamentos caros de alto valor. Caro ou voador, decidir comprar um tapete lhe fazia alçar vôos imensos pela sua imaginação, ou criatividade se como imaginar entenderem como um vagar ao outro, enquanto que a criatividade seria vagar por si mesmo. É que por mais que ele estivesse longe dos pensamentos mais históricos e imaginativos um tapete ainda era um tapete. Linha junto de linha que servia para botar o pé.

até que

havia amor, mas o primeiro que disse 'eu te amo' perdeu.

a lua

Vou percebendo aos poucos que esse blog está cada vez mais anônimo, mas não de mim porque cada vez me exponho mais, mas dos outros que cada vez mais aparecem menos aqui. Cada dia mais sou eu falando de outros que estão distantes. Como a lua.

05 abril 2009

perfis

O paredão do BBB hoje foi a escolha de um perfil: por um lado o sentimentalismo, as lágrimas, o amor, a inocência, a esperança, até uma certa cegueira e não percepção completa do mundo do lado da ana, e por outro a razão, a racionalidade, a amizade, a inteligência, o calculismo, e a percepção de como se viver um mundo que pode lhe engolir se você não resolver engolir também representado pelo max.
Venceu a razão e minha esperança de que algo dará certo na minha vida aumenta.

31 março 2009

o outro.

Ele passava o dia olhando. Não importa o que se estivesse fazendo, lá estaria ele atento e com os olhos voltados para a ação. Não interrompia não, não gostava, ou não se sentia a vontade quando alguma coisa mudava por sua interferência. Simplesmente deixava que as coisas fluíssem por seu próprio caminho.
Quando estava num bar com alguém perguntava pouco, mas pensava muito antes de cada uma das perguntas, de modo a fazer a resposta ser a mais longa possível, e olhava, olhava, até se ter alguma coisa para olhar, depois ia embora. Quando falava dele, falava indo embora, ou falava só para deixar a pessoa mais a vontade de falar mais dela. O máximo que pudesse, como disse, quando não tinha mais o que olhar, ia embora.
Quando estava no cinema, olhava para a tela como se tivesse vendo o globo terrestre, via mais do que nunca. Quando via futebol, se mexia o mínimo, mas o rosto era expressivo, mais do que qualquer rosto que havia visto na vida, porque ele sabia olhar, sabia como olhar, e entendi como aquilo tudo podia mudar em segundos, dependendo do jeito que lá dentro os outros olhassem.
Quando às vezes, melancólico, queria fazer mais coisas na vida, percebia que não podia porque enquanto alguns aprenderam a sorrir, a interagir, a mentir, a comer, a beber e a viver, ele estivera todo o tempo fazendo a mais singela das coisas, talvez a mais generosa e a mais encantadora, ele perdera grande parte da sua vida aprendendo que para ele, viver não era estar por aí, viver era olhar.

os vencidos

Eu sempre gostei mais dos vencidos. Tirando a minha escolha sobre time de futebol, é claro, já que o glorioso flamengo é a instituição mais vencedora de todos os tempos. O fato é que gosto mais das empregadas que dos donos, gosto mais dos porteiros que da síndica, gosto mais do porteiro noturno que do porteiro chefe, gosto mais do gari que da recepcionista, gosto mais do garçom que do gerente. Gosto e se possível defendo eles. É como se minha humanidade transparecesse na vontade, um tanto quanto escrota, de pensar por eles, de agir por eles, de reagir por eles, como se eu pudesse sozinho fazer a vida deles um pouco melhor, ou menos pior. Mas não é só isso. Sempre que alguém reclama com um garçom de mal atendimento não consigo deixar de pensar que "eles precisam mais desse salário que eu dessa comida", ou quando alguém reclama com um trocador que o ônibus está cheio, demorou, ou vai aumentar de preço, não consigo não pensar: "daqui a pouco eu desço e chego em casa e esse cara que vai ficar o dia inteiro circulando nesse calor e nessa cheiura pra lá e pra cá?".
Tudo isso veio a tona porque fui assistir: "Corumbiara", documentário que faz parte do festival "É tudo verdade". Esse documentário fala sobre índios que foram dizimados, ou expulsos de terras em roraima. E eu que não gosto de índio, acho que no fundo eles não são mais índios do que os judeus judeus, que os negros negros e por isso podem e devem viver tal como o que são e pelo quanto que conhecem, eu que acredito em tudo isso acabei por sentir uma imensa simpatia por eles e tive vontade de defende-los e até me emocionei com eles, mas tudo isso porque eles lutam contra fazendeiros.
Daí pensei que vou fazendo hierarquia de ódios, os fazendeiros são mais odiados que os capangas que são mais odiados que membros da funai que são mais odiados que índios, e nessa cadeia, talvez sobre alguém digno de se gostar.

29 março 2009

who you are

Where do you go
What do you say to me
Is who you are
Cause I can´t be there to know
Cause I can´t be there to show
That what you do, more than you say
That what you do is who you are

27 março 2009

nossa senhora (é) aparecida

Estavam então Domingo e Pedroso à beira do rio conversando sobre a visita do Conde de Assumar. O estava bonito e embora os dois pescadores estivessem acostumados a diariamente fazer essa mesma atividade, naquele dia preferiram não desamarrar o barco e navegar, já que dessa vez não era para a venda, ou para o alimento de sua própria família que o fariam. Eram homens de alguma inteligência e pouco vocabulário, o que fazia com que sua conversa agora, apesar de parecer rude, fosse apenas um modo humano com menos bloqueios de demonstrar sentimentos. Não queriam estar ali, o dia não estava para pesca, mas como havia dito o conde, viera para mudar, para realizar ali um milagre. Por coincidência, depois de entrarem no rio e jogarem a rede duas vezes saía de lá uma santa, um verdadeiro milagre. Quinze anos ficaram com ela em casa, recebendo fiéis que iam até lá e deixavam trocados, depois transformou-se em capela, em igreja, em basílica. Até que um papa resolveu nomear a santa achada no rio como padroeira oficial do Brasil, claro, com um ou outro milagre aparecendo aqui e acolá, porque um milagre nunca vem só, faz-se um e tem que se fazer vários para consertar as imperfeições do primeiro. Há milagres piores que sofrimentos. Enfim, que o Brasil tinha uma santa padroeira com uma fé que chega por todo território, uma basílica numa cidade que vira camelô de produtos e cede para várias excursões e pedidos que poderiam ser realizados pela fé à distância ou pela ajuda de médicos. A única coisa nessa história que ficou faltando foi a refeição do conde de Assamar, que pelo visto, aquele dia do aparecimento da santa não aconteceu.



25 março 2009

a culpa

o corpo eu ainda reconheço, é o mesmo, é sim, é aquele que eu sei de cor, o problema é o jeito de olhar, ela já não sabe...não sabe fazer como fazia antes.

Era eu dizendo para um amigo que apesar de tudo estar mudado existia algo que permanecia, como se a minha capacidade de pensar fosse cada dia mais além e minha capacidade de entender diminuísse cada vez mais. Eu estava sentado e tomava um refrigerante que é o que faço quando quero pensar melhor; a cerveja fica para quando quero pensar maior; e ali parado, olhando as pessoas circularem eu não entendia muito bem como tudo poderia se dar, se era comigo fazendo alguma coisa, pegando um ônibus e vivendo, ou voltando para casa e dormindo, ou até ficando ali esperando algum sinal.
A verdade é que quando se resolver pensar em três, não em um, não em dois, mas em três que é o primeiro número coletivo, fica cada vez mais complicado entender pra onde as coisas estão indo, a gente se torna mais político, mais...engajado, e fica complexo esse limiar entre saber o que fazer porque é certo e saber o que fazer para ser mais feliz.
Era essa equação que eu deveria ter calculado melhor tempos atrás, porque talvez os olhos dela ainda sejam os mesmos, talvez seja eu que não saiba mais olhar. É que sempre fica aquela sensação de que a culpa é sempre minha.

23 março 2009

pra próxima

agora me veio uma super idéia para escrever um texto bonito e sentimental, pena que me deu vontade de cagar. Fica pra próxima.

beco sem saída

se eu chegar aqui e escrever demais sobre as coisas que eu sinto provavelmente vou ser um idiota, mas caso eu não escreva nada corro o risco de ser mais idiota ainda, porque o silêncio sempre diz muito mais do que a gente gostaria que dissesse.

21 março 2009

atualmente.

Muitas vezes me pego ouvindo aquelas músicas que representam estados de alma, tipo "emoções" do Roberto Carlos. "Eu sei já sofri, mas não deixo e amar; se chorei ou se sorri, importante é que emoções eu vivi." É tão complicado dizer qualquer coisa, mas embora ache que na hora de morrer, lá no último dia vou querer exatamente essa música, hoje é impossível. A sequência de decepções que a gente tem, começando naquela aos 14, 15 anos de idade e seguindo a sequência chegando àquela maior de todas alguns anos atrás, até aquela da semana passada e assim, a promessa de mais uma por esse final de semana, percebo que existe dois caminhos: ou se acostumar e levar a vida ihiiii da melhor maneira possível, ou ignorar qualquer tipo de sentimentalismo que queira transbordar da gente e mais uma vez tentar viver da melhor maneira possível. Os amigos devem ser mesmo aqueles poucos e os de sempre, aqueles que eu perceber q não fazem coisas boas, devo me afastar, mesmo que os ame tanto, e no final é contabilizar os pequenos momentos de alegria. E principalmente, aproveitar o máximo a companhia dos pais e dos animais de estimação, é disso que se faz minha vida atualmente. Ser visto sozinho é melhor do que ser visto figindo.

18 março 2009

gosto

"à primeira vista, pode parecer que tomar o gosto como algo indisctuível - que cada um fique com o seu - seja sintoma de grande tolerância em relação à diferença. Mas creio que é justamente o contrário o que interessa. Somente quando queremos discutir nossos argumentos é que pomos à prova nossa capacidade de lidar com a diferença. O importante é o fazer-se e o mostrar-se da discussão."
Luiz Camillo Osório


Há hoje em dia uma aceitação geral do que quer que seja como sendo algo necessário, ou explicável por necessidades e dificuldades que qualquer um vive. Não digo dos casos mais graves, dos criminais, digo assim, na vida prática, cotidiana. Muitas vezes já me deparei com pessoas que sabem que outras erraram feio, mas mesmo assim crêem que elas tinham seus motivos para fazer o que fizeram. Para mim, isso não passa de tolerância de quem tem teto de vidro, e digo sabendo que todos o temos, óbvio.
No entanto, essa frase do Camillo, meu professor, me fez perceber exatamente o que acontece: há uma concordância geral que não permite brechas ou discussões. Se um amigo seu é inteligente e universitário está certo, não adianta discutir gosto, não adianta, basta você pensar o seu gosto com você mesmo para aceitar aquilo e ele que faça o mesmo com as coisas que você gosta. "Se o integrante do los hermanos lançou uma banda nova é óbvio que a banda é boa, se você ouvir, vai adorar e vai virar fã, igual era de los hermanos.", e isso já é introjetado de certa maneira que se você não ouvir é um belo de um traidor.
E assim vai, tantos são os exemplos. Para mim, o importante é discussão do que nos interesse no que nos interessa e do que não nos interessa no que não nos interessa, para assim, poder discutir o que pode nos interessar no gosto dos outros e vice-versa, assim, podendo abrir a conversa para ampliação da capacidade de reflexão entre o que é bom e o que é só gosto.

15 março 2009

lutador.

Acabei de ver o lutador. Não tenho idéia de porque estou escrevendo sobre isso. Acho que fiquei pensando sobre essas pessoas que pensam por músculos, ou pensam por reações. Há algumas que são incapazes de tomar decisões em suas vidas, a não ser que sejam obrigadas, ou seja, a não ser que tenham que reagir, atacar, defender, avançar, vivem como se jogassem war. Eu acho isso interessante, porque elas são incapazes de ver o mundo de outra forma. Assim como eu só penso através de palavras, há quem pense por imagens e há quem pense por músculos, há também os que não pensam de maneira alguma. Essas pessoas sim são interessantes, porque sabem viver.

05 março 2009

então

vamos nos amar já que niguém nos ama mais.

descida

Por cima da cabeça das pessoas que seguiam caminho consegui ver melhor tudo que se passava. Era dia comum, evidente que se devia comemorar alguma coisa nele, pois sempre se faz, como o dia do padeiro, ou o dia da empregada doméstica, ou até do contabilista, mas não importa porque apesar de dia comum parecia ser dia de procissão. Chovia e todos desciam à praça. Parecia o melhor caminho já que era uma íngreme descida que levava até o círculo onde havia uma fonte que ligada lutava contra a ordem dos céus e jorrava água para o alto. Era por volta de 8 da manhã, creio eu, havia acabado de sair da casa dela e ao descer via as pessoas irem ao trabalho e seguirem seus caminhos, embora estivesse apenas indo para casa, para ter a noite de sono que havia perdido com ela. Marcella, com dois ll. Em algum momento da noite despido ao seu lado, gostaria de dizer pelado, mas estava despido, pois estar pelado é estar desprotegido e com ela estava mais em casa que o normal, resolvi dizer algumas das coisas que sentia, alguma coisa brega que acompanhava a música que tocava do computador ligado. Impressionei-me com minha capacidade de juntar letras aqui e ali, disse-lhe coisas tão bonitas que gostaria de ter decorado, achei-me inteligente, mas ela não, foi muito mais do que eu esperava, levantou-se, sentou no computador aumentou a música e voltou correndo, pulou ao meu lado na cama, deu-me um beijo e sorriu dizendo: “eu sei.”, e levantou de novo e foi correndo até a cozinha de onde trouxe uma bandeja com coca-cola, pães e requeijão. Ficamos ali a comer, a falar das coisas engraçadas da vida, percebi que não era para se falar de sentimentos, não precisava. Ali eu soube que poderia estar apaixonado.
Agora, enquanto descia até à praça percebi que havia vivido um dos melhores momentos de minha vida e agora já tinha que encarar a vida normal, pessoas a andar com o olhar triste, o cansaço habitual do cotidiano, o desviar de meninos de rua, ou moleques, ou até adultos de rua, cada vez mais raivosos, pois não conheciam Marcella, seriam incapazes de amar. Cheguei até o chafariz, molhado, e fiquei observando como a água que caía empurrava a que deveria subir mais para baixo, foi a última coisa que pensei naquele dia, o resto dele foi só saudade. Aquele dia já passou, mas até hoje é assim.

03 março 2009

blogs (ou globs)

Hoje na praia em ipanema ficamos discutindo sobre blogs. E me pareceu uma pergunta importante essa: "o que é tema para postar num blog?". Reparem que estou usando muitos pontos, é a dificuldade de dizer. Geralmente as pessoas elegem temas nobres para postarem, ou então decidem escolher alguma coisa num universo inteiro para limitar o blog, achando que assim terão mais temas, outros tentam fazer como diário-público, ou seja, contar o íntimo falando para que mais pessoas entendam a entrelinhas.
Daí cheguei a conclusão de porque eu escrevo: porque eu num tenho nada melhor pra fazer na minha vida. Sei lá, eu penso daí quero desenvolver um pensamento, ver até onde ele vai, daí venho aqui e escrevo, geralmente rende, às vezes não, posto mesmo assim. Por exemplo, meu carnaval daria um belo post e porque eu num fiz, porque foi importante demais e reflexivo de menos. É assim que é, ninguém precisa ler esperando nada de ninguém, cada um fala o que quer, ouça/leia quem tiver paciência. Escrever é estar embaixo do mar, fica-se sem ar e faz-se globs.

27 fevereiro 2009

Foof - bai marai eleesa




“Cädi/”

“Oy, Rause”

“Pegael/”

“Numca”

“Por qeu/”

“El noa t asho gats”

“Memtiroas.”

“El noa minot”

“Evrybori laix”

“Rç. Verdaed”

“Sol 1 gemnio, fikdik”

“Çempre solb.”

“Rç”

“Entoa vose me asha gats/”

“El t asho gats demasi Rause”

“Açin vose m maat d vergonah, Cädi”

“Q foof vose, Rause ^^”

“El noa sol foof òó”

“Ë çin :D”

“Arhg. Shal Cädi”

“Shal Rause”

18 fevereiro 2009

crescer

não sei se é comum a todos, mas uma coisa que acontece muito comigo é quando acaba o filme ficar uma sensação estranha em mim, uma vontade de fazer algumas coisas diferentes, de fugir da rotina sufocante e das palavras óbvias, dos pensamentos comuns, sei lá, tentar escapar disso que parece cada vez mais nos pressionando pra um lado onde todos vamos, e que alguns costumam chamar de crescer.

17 fevereiro 2009

procurando redes

Em cabo frio sentado numa cadeira de frente para o mar quase sempre preocupado com o torrar do sol que me fazia arder principalmente na barriga sobressalente, tive muito tempo para pensar na vida. E não pensei. Quase nada de mim me chamou atenção, ou nada?
De tudo que por lá vi o principal foi um rapaz vendedor de rede e colchas, cara de novo mas já envelhecido, cor de queimado quente, um grande peso no ombro esquerdo e muitas piadas pra contar. A colcha custava 40 no primeiro preço e saiu a 10 reais no fim da conversa. Mas o melhor de tudo eram as piadas, certa hora ele disse:
"sabia q o celular foi inventado no ceará né?, por isso que quando liga fica 'procurando rede' ", eu encantado respondi "mas isso é baiano, po" e ele rápido: "que nada, baiano é genérico, qd liga aparece 'sem serviço' "
O melhor era que o tempo todo ele interrompia a conversa dizendo "fico falando e me esqueço de vender" e ameaçava sair. Acabou q não compramos nada com ele, porque já tínhamos comprado colchas parecidas, mas conhece-lo foi um grande prazer e de alguma maneira acho que sinto saudades.

04 fevereiro 2009

ao ser imaginário

Que seja feita a tua vontade
Quando maldade vem e me consome
Quando uma bomba matar no teu nome
Quando sentir culpa e ela for tua
Quando não der pra pedir perdão

Quando for chuva brava
Quando for leite coalho
Quando alguém ficar cego
Morrer, tiver dores, ou sofrer por amor
Quando alguém tiver medo
Seja feita tua vontade

Porque foi tua vontade
Quando o mundo inteiro virou dinheiro
Assim como quando na guerra
Morreram os que já há muito sofriam

Foi e é sempre tua vontade
Mas há que se dizer
Que além disso
Além de tua vontade
É tudo tua
responsabilidade

reine sobre mim


vi "reine sobre mim" e fiquei pensando em como as pessoas lidam com o sofrimento. Apaguei o post inteiro e resolvi só deixar isso: "Eu penso que a maior injustiça que fiz na minha vida foi reslver sofrer minhas coisas sozinho."

03 fevereiro 2009

padre ou puta

depois de ler esse meu último post, o do conto, comecei a pensar que todas as vezes que me referi à queda de energia, falei especificamente da falta de luz sem me ater que uma geladeira estaria descongelando, que um aparelho eletrônico poderia ter queimado, ou que até numa emergência não haveria um telefone sem fio ou um elevador a funcionar, ou seja, não liguei para a falta de energia, mas só para a falta de luz e agora percebo porquê, porque talvez o que eu quisesse dizer é que passamos nossos dias assim, faltando luz. Quem sabe eu estivesse pensando na cegueira de saramago, ou nas burocracias de kafka, é bem provável. Gosto muito de perceber que quando acaba a luz a gente percebe que acabou a luz não só de fora, mas uma outra da gente. O meu próximo passo a relacionar isso com nossa ligação com outras pessoas, e ainda prematuro começo a dizer que a gente só sente que ama, quando resolve olhar para o amor, ou resolve sofrer quando resolve olhar para o sofrimento, assim como só nos vemos quando estamos no espelho. Quem nunca olhou pro amor só poder ser padre ou puta.

01 fevereiro 2009

luz

Na primeira vez que eles ficaram sem luz, só houve escuridão. Não restou nada na cidade, os cafés se silenciaram, os postes deixaram de mostrar os pingos da chuva que caíam, os que bebiam nos bares resolveram pedir a última da noite e partiram aos esbarrões pela escuridão até em casa onde aos tropeços resolveram dormir. Nos postos de saúde, hospitais e delegacias os geradores foram ativados, mas os rádios, as tvs e as leituras foram interrompidas: o mínimo de luz seria suficiente, era preciso economizar. O céu estava encoberto, era noite e não havia estrelas, a lua era nova e pouco conseguia iluminar por detrás das nuvens. Era agosto e ainda restava um frio seco pelo ar.
Foi estranha a sensação de Antero que estava em seu quarto no momento da queda de luz sentado numa cadeira a olhar da janela para o movimento da rua. Teve vontade de conversar, de telefonar a alguém, de se movimentar ao ver que tudo agora estava escuro. Levantou-se e ligou para sua prima perguntando se a luz havia também acabado por lá, ela que parecia já ter adormecido demorou a responder, mas confirmou, o que fez Antero apenas dizer: “acho que foi geral então.”, desligando o telefone sem mais palavras. Voltou até a janela e viu as últimas luzes da noite partirem: a dos faróis dos carros e ônibus que ainda passavam. A impressão que teve era a de que todos tentavam fazer barulhos, talvez para ativar um outro sentido que não a visão, e aparentemente este seria a audição. Antero percebeu também que se fazia barulhos, ruídos, mas se evitava conversar, os assuntos que antes eram importantes se tornaram secundários: as histórias de amor, as doenças de família, os casos da novela, as dores mal curadas, todas elas aos poucos foram se calando e o assunto era apenas o murmúrio da falta da luz, da ausência dela e dos possíveis motivos dessa queda repentina. No quarto ao lado um menino começou a tocar violão, fora isso mais nada acontecia. A cidade em pouco tempo dormiu, dessa vez mais cedo que o normal.
Pela manhã aparentemente já não se lembrava do incidente da noite anterior, a luz já estava a funcionar e os barulhos dos ônibus trouxeram o dia com o calor, a iluminação e os cheiros comuns à todas as manhãs. Antero havia ido trabalhar e pouco se recordava do incidente que pelo visto havia sido repentino, quem sabe alguma manutenção no sistema, coisa pouca, não haveria porque reclamar, pensava ele sem vontade de comentar disso com outra pessoa.
Trabalhara normalmente, almoçara no mesmo lugar de sempre, assistira o jornal e agora sabia todas as notícias de seu time. Havia tido um dia comum, como foram os seus últimos meses, principalmente depois de se ter formado no mestrado e passado o resto dos dias a trabalhar e pensar no que mais poderia sua vida se tornar. De saída do trabalho, organizou sua pasta e separou algumas coisas para fazer em casa, pois não gostaria de além de sozinho ainda ter que passar por momentos de falta do que fazer, ou de inventar o que fazer, pensava que primeiro se masturbaria, depois veria algum programa estúpido na televisão e voltaria mais tarde para a janela, a observar a vida daqueles que ainda tinham coragem de viver. E foi o que fez, saiu pela porta do serviço, comprou um café para viagem, alguns sanduíches e entrou em seu prédio sem falar com o porteiro que apenas havia lhe acenado com a cabeça. Horas depois estava ele na janela quando em ponto, no mesmo horário da noite anterior, a luz acabou novamente.
Dessa vez o incômodo foi ainda maior que na outra noite. Havia a repetição, a dúvida e a possibilidade de que isso viesse a acontecer todos os dias, e aí como seria? Antero começou a pensar que deveria ter visto televisão antes, deveria ter feito o que trouxera do trabalho, deveria ter tomado banho, meu deus, sem tomar banho?! E tanta coisa deveria ser feita, mas ali ficou ele sentado na janela a olhar a pouca luz dos faróis dos carros e hoje da lua que aparecia aos poucos, pois o tempo ainda não havia melhorado de todo. Ficou ali por horas até que o violão do menino ao lado começou a soar, então ele se levantou, pegou um copo d´água e pela primeira vez apreciou a vista, pode olhar, não o fez para se ocupar, mas para entender o que se passava com a rua, com as pessoas nela, e por fim, com ele.
Nos dias que vieram a luz voltou a faltar, e ao contrário do que se esperava, não houve tantas reclamações. Parece que as pessoas haviam se habituado à falta dela, e agora à esperavam, em alguns bares foram marcadas audições de violão e piano, nas igrejas foram marcados cultos para essa hora e namorados iam para as praças fazer aquilo que não gostariam que fosse visto. Claro que alguns assaltantes aproveitaram para ganhar uma grana extra, mas sem poder ver que haviam sido assaltadas, as vítimas se tornaram mais tranqüilas. Durante o dia tudo parecia normal, mas chegava à noite e a cidade começava a se transformar, até Antero uma vez solitário, passou a ser mais sociável, claro que pelo dia, já que a noite passava horas e horas a contemplar aquilo que havia do mundo que era só dele e não construído para ser. Era Antero, o mundo e o violão do menino.
Até que se descobriu na empresa de distribuição de energia elétrica, a única que havia tido prejuízo com o caso, que a falta de luz era brincadeira de meninos que sempre à mesma hora cortavam um dos fios que transmitia a luz para a cidade. Assim, tudo foi restabelecido e a fiscalização preparada para que tal não se repetisse. Aos poucos tudo voltou ao normal nos cafés, nos bares, nas delegacias, hospitais, nos bombeiros, nas farmácias, nos bingos, por todo o lado, mas alguma coisa havia mudado, pensava Antero, pelo menos na casa do menino onde todo dia na mesma hora as luzes eram desligadas e o violão começava a soar. Ele então resolveu que essa seria uma hora especial em seus dias e continuou a diariamente ir até a janela ver o movimento dos carros e das pessoas e ouvir o menino tocar. Só que nessa noite foi diferente, além dele, do mundo, do menino e do violão, pela primeira vez naquela semana no céu havia estrelas.