06 novembro 2012

A Náusea - A exposição



 A galeria Van Dijk no Centro de Cultura recebe a exposição A Náusea de Ingrid Bortolotti e Pedro Prieto. A Náusea é uma obra existencialista Jean-Paul Sartre em que a personagem principal em diversos momentos de se cotidiano é tomado por uma espécie de mal estar súbito, físico e psicológico, que lhe dá uma nova concepção do mundo que lhe cerca, assim como das pessoas e das situações que se apresentam. Interessante é que essa Náusea, ataque quase convulso beirando uma crise epilética, é a forma que se torna preponderante da visão que esse sujeito obtém daquilo que é a matéria, a vida e a existência.
Pouco posso dizer da obra de Pedro, pois não tenho qualquer contato prévio com o autor e suas obras, mas gostaria de falar algumas palavras sobre o trabalho de Ingrid Bortolotti. Começo chamando atenção para duas palavras para, posteriormente, explorá-las: Tormenta e Permeabilidade.
Parece-me que todas as esculturas de Ingrid estão investigando aquilo que é o limiar entre matéria e espírito, substância e reações químicas, pensamento e sentimento, ou seja, aquilo que é visível e aquilo que, apesar de invisível se faz presença pela sensação de ausência. Uso o termo permeabilidade porque vejo as esculturas de Bronze e Terracota, como uma espécie de obstáculo para o pensamento, obstáculo para a arte, como se ela, na composição da obra precisasse superar a matéria e atingir algo que está ao mesmo tempo um nível acima, naquilo que seria espiritual da matéria, mas ao mesmo tempo abaixo, com os dejetos e pedaços mais sórdidos do que se chama humano.
A permeabilidade, então, se torna o procedimento de composição de orifícios, ou seja, construção de zonas de fronteira, de limbo, entre o exterior e o interior. É nesse momento que chegamos ao segundo ponto:  a tormenta.
A tormenta, nas obras, tem a mesma característica da permeabilidade com a diferença de que, se a permeabilidade tem a ver com a matéria em si, a tormenta faz parte da lógica do espírito, dos sonhos, dos pesadelos, do inconsciente, ou seja, daquilo que não pode ser controlado pela racionalidade do instinto material. A tormenta nas esculturas de Ingrid tem como papel abrir esses orifícios, zonas de ausência, de falta, de presença do não, para que, tanto no corpo como na mente, a Náusea mostre suas asas e alce seus voos.
Nesse sentido, é preciso destacar o caráter biográfico da obra, uma vez que muitas das esculturas parecem duplos, alteregos e reproduções de fases de Ingrid. Assim, experiências desde as mais comuns como o frio até impossibilidade do verbo, da palavra, por um corpo dilacerado, se tornam presentes em espécies de fragmentos que devem ser lidos em um contexto único.
Enfim, destaco a excelência da beleza do trabalho de Ingrid Bortolotti e a quantidade de proliferação de questão que ela traz a tona. Como observação final deixo apenas um pequeno gesto de dizer que, embora toda a exposição deixe ver um sujeito esfacelado pela experiência cotidiana e pelo mundo interior, tornando essas zonas de fronteira uma espécie de violência à paz do corpo, Ingrid conseguiu ao juntar todos os fragmentos dar uma nova unidade ao mundo, que é pequena, que vale apenas na galeria Van Dijk do Centro de Cultura de Petrópolis, mas que de alguma forma, não deixa de nos habitar, pelo menos um bocado de tempo depois.


A Náusea
por 
Ingrid Bortolotti e Pedro Prieto
A exposição fica até dia 25 de Novembro de 2012
Centro de Cultura Raul de Leoni

Mundo, Sítios e Sonhos



Estou disponibilizando para download a peça chamada Mundos, Sítios e Sonhos que escrevi em 2011 especialmente para os alunos da PIEE da Fundação Bradesco onde trabalhei. A peça é baseada em partes na obra Reinações de Narizinho, mas não deixa de ter minhas idiossincrasias, piadas e meu jeito de escrever. Para quem quiser ler, vou postar aqui o link que a partir de agora também ficará disponível aqui ao lado na barra de favoritos.


Link para download: Mundos, Sìtios e Sonhos - Luiz Antonio Ribeiro (2011)

04 novembro 2012

a moça das coxas grossas



A moça das coxas grossas
Do belo rebolado da anca
Do quadril que se prolifera de quadrilidade
Assa nas coxas grossas que dão feridas
Sangram, ardem, doem.
E as feridas das coxas grossas
Soltam secreções de todo tipo:
Pus, líquido espesso, suor
E os três se misturam ao odor natural
Do líquido lubrificante da moça das coxas grossas -
Que grossas coxas sempre vem junto com um bocado de tesão –
E quando passa, a moça expele um cheiro ruim
Que ninguém nunca jamais percebeu ou perceberá
Porque as coxas grossas da moça que passa assada
(seu andar se modifica e melhora por conta da assadura)
São quase vertigens em meio ao caos do dia
São promessas de possibilidades de uma nova vida
Ai, moça, passa, passa
E assa meu coração
Que como tuas coxas
É ferido.

26 outubro 2012

saudade

Saudade é um prato de carne
servindo legumes e peixes frescos
no almoço de amanhã

é o som que escapa
da caixa estourada do tímpano
do último maestro vivo

saudade é um tiro na cara
sem arma, sem bala
sem cama, sem gente
sem tempo
sem espaço
sem luz

25 outubro 2012

hostil

Olhei para a menina e disse:
- o mundo é muito menos hostil do que a gente pensa.

Só não sabia eu que a menina, em nenhum momento, nem por um segundo, havia pensado que o mundo era hostil.

Agora ela pensa.


chocolate

Me pediu um chocolate e um telefone.
Tinha o telefone. Dei.
Ela ligou, sorriu e foi com água na boca.

24 outubro 2012

geladeira

a geladeira que não gela
é geladeira
e não gela,
mas fica lá, inerte
totém de cozinha
gemendo, acordando,
puxando luz
e mantendo a coca-cola quente que mesmo assim eu quero beber.

a moça mordi

a moça do meu lado
de lado
de braço farto
gordinho, pesado

me encontrava
entre manter-me em pé
nos postes do ônibus
e me jogar naquele braço
sem olhos, sem face, sem jeito.

não tive saída
fui
mordi.

23 outubro 2012

barquímetro

Um homem anda pela orla da Urca, olhando da mureta a paisagem do Flamengo e de Niterói lá do outro lado da Baía de Guanabara. Observa os barcos, todos pequenos, com aquele colorido descolorindo. Os grandes dos ricos não lhe interessam, parecem artificiais em seu branco hospitalar.
Quem passa por ali e observa aquela cena quase consegue ouvir uma bossa-nova. O homem desce por uns degraus e entra em um barco qualquer. Senta-se, olha para o rapaz do barco, um marinheiro semi-rude, tatuado, camisa suja.
Niterói, por favor!
Oi?
Quero ir pra Niterói. Vamos!
Meu senhor, acho que está havendo algum engano.
Engano nenhum. Está vendo ali ó, lá no fundo, depois da ponte? Vamos!
Eu já terminei meus serviços por hoje.
Vamos lá, só essa, só mais essa, liga aí o barquímetro.
Barquímetro? Olha, meu senhor, acho que você está com problemas. Aqui não é um taxi, é um barco. Vou ser obrigado a pedir para o senhor se retirar.
Mas...quanta grosseria...só queria ir alí, até Niterói.
Senhor, sai do meu barco ou vou retira-lo a força.
Tudo bem, tudo bem, eu saio.

O homem levanta e se retira, cabisbaixo, triste. Some na rua, andando pelo asfalto sem nem mais olhar para a orla. O marinheiro ajeita algumas coisas no barco, está pronto. Retira um pano de um canto e se pode ver algo como um taxímetro. Aciona o motor que ruge atrapalhando o silêncio da tarde da Urca. Desestaciona o veículo e pelo mar vai sumindo no horizonte. Suspira, sussura, se houvesse alguém por perto quase não poderia ouvir: vamos lá, Niterói!

22 outubro 2012

Por que o voto nulo no segundo turno em Petrópolis?



A resposta parece complicada, mas é bastante simples. Primeiro, achamos que o voto nulo não é desperdiçar o voto, não é se omitir da escolha nem abdicar do direito e deixa-lo nas mãos de quem resolve votar. Também achamos que votar no menos pior, nesse caso, não se sustenta como solução.
Somos um grupo que não tem o voto nulo como bandeira. A maioria de nós jamais ou raramente anulou o voto e, mesmo no primeiro turno, resolveu escolher algum candidato que, se não era o ideal, era o que mais se adequava com nossa ideia de política.
O voto nulo proposto por nós para o segundo turno em Petrópolis tem dois motivos. Um específico e outro mais amplo. O primeiro é toda a confusão, batalha judicial mais desonesta que baseada na lei e na politicagem que deu a composição dessa eleição petropolitana desde a apuração do primeiro turno. Os veículos de informação não conseguem dar conta da totalidade da questão de forma a esclarecer aquilo que se precisa e, em alguns momentos, também não se mostram interessados nisso. Os candidatos que nos são apresentados parecem ter mais em comum do que se imagina e somente por conta das denúncias que são expostas cremos já ter motivo suficiente para não confiar e descrer no quadro para qualquer lado que se olhe.
O segundo ponto, e talvez o mais importante é: não compactuamos com o projeto de cidade proposto por eles. Cremos que a política limitou o cidadão, enquanto ser capaz de participar da democracia e do debate pela sua cidade, estado, país, em um ser que se limita a escolher seu candidato, o menos pior no caso, e aplaudi-lo ou, do outro lado, reclamar dele desorganizadamente, sem foco, o que gera somente um fato: ao fim das eleições se substitui esse por outro que também provavelmente não nos satisfará.
A Primavera Petropolitana, então, pensa em buscar reorganizar a sociedade civil através do debate básico de que concepção de cidade queremos para nós e de que forma, tanto eu quanto você podemos construir nesse debate e, principalmente, como podemos intervir na prática naquilo que não concordamos.
O voto nulo, dentro de toda essa visão exposta acima, nos parece a principal forma de mostrar aos que governam que não estamos satisfeitos com aquilo que nos foi e é apresentado e que nossa concepção de cidade, nosso projeto para nosso povo e nossa terra não passa nem perto daquilo que nos é oferecido. O voto nulo, nesse caso, é um gesto afirmativo, político, engajado, que visa mostrar nossa cara e dizer que assim não queremos e, aos poucos, podemos mudar.

20 outubro 2012

mal ou bem

não importa ficar mal
ou ficar bem
com aquilo que a gente não tem.

anti poesia de amor

nenhuma poesia de amor
pode ser escrita com boas palavras
bons momentos e bons pensamentos.

toda poesia de amor,
antes de tudo,
não é amor.

porque amor, quando é,
não dá tempo de poesia
filosofia, corpo, pensamento
alma, empada, tristeza.

nenhuma poesia de amor
dá conta do amor.
e nenhum amor dá conta
de tanta poesia.

quem ama com poesia
sempre paga
a conta
do fim
do amor.

19 outubro 2012

a nova política



Cara ou coroa? Vivo ou morto? Oito ou oitenta? Céu ou inferno? O senso comum, a cultura da afirmação, os jogos, a religião, enfim, aquilo que compõe nosso imaginário fez e faz com que pensemos o mundo a partir dessa configuração binária, antitética. No entanto, não é possível que ainda hoje se consiga pensar tudo através desse prisma rudimentar entre afirmação e negação, mesmo porque, olhando a fundo, entre cara e o coroa há todo o voo da moeda e entre o vivo e morto há toda uma vida.
Em política, especificamente, a polarização faz parte do jogo do mesmo. Uma dialética vazia que tenta nos fazer crer que nosso papel está na escolha daquele que mais nos cabe ou na exclusão daquele que não nos agrada. Então, pensar política, pelo menos na cabeça daqueles que mandam, é nos dar a opção entre escolher qual deles que nós queremos por lá. Assim, tudo se mantém e nós nos mantemos como membros não-participantes da política do lugar em que vivemos.
O que afirmo aqui é: eu parto do pressuposto do não, da negação, de não querer, de subverter, de blasfemar, de debochar, de desapoiar, de ir de encontro a, de remar contra a maré, de pensar que entre os sins deles, o meu não vale mais que qualquer outra coisa e, justamente por isso, não existe nada de afirmativo nessa conjuntura e nada me fará pensar neles como solução.
Vejo que muitos pensam como eu. A verdade é que a política está mudando, o que não mudou, AINDA, foram os políticos. Não é possível que um filhote do poder seja criado, enquanto que um sanguessuga, como mosca numa carniça, esteja novamente a procura de seu quinhão.
Vamos à uma nova política, do debate, da participação, da rua, da ausência de dinheiro, da consciência, do sorriso e, também, por que não,  da brincadeira. A nova política é democrática não porque a democracia deve ser algo a perseguir, mas porque a verdadeira democracia existe numa prática menor, das pequenas escolhas e dos pequenos gestos gentis de um para com o outro. E que esse gesto se multiplique e que vivamos momentos de melhor sorte e melhor chance e melhor sonho.
Política é coisa pra gente grande sim, mas todos sabemos que pra um bom coração é preciso, pelo menos um pouco, parar de crescer.

17 outubro 2012

o sapo




Quando deu por si estava segurando um imenso sapo nas mãos. Olhou para os lados e não sabia onde estava, não reconhecia nada nem ninguém, via apenas o concreto armado das construções e as pilastras de um galpão aberto logo a frente. Olhou para o céu para reconhecer se ele existia ainda e sim estava mesmo ali, mas só podia ver um imenso nublado cinza escuro, cara de que vai chover, e uma pequena parte mais clara que deve ter sido em algum momento o sol.  Olhou então para o chão para reconhecer o asfalto, também cinza, fato que lhe acalmou, pois dos três lugares que havia olhado reconhecia dois, o céu e o chão.
Agora era tentar descobrir o que fazia com esse sapo nas mãos. Resolveu olhar mais atentamente. Estava morto, de barriga pra cima, inchada, mais branca que o resto verde. Não tinha qualquer movimento ou espasmo, nem parecia ter sofrido qualquer violência física. Mantinha a boca aberta como uma modelo fotográfica, o que podia significar que talvez tenha morrido sem ar, por asfixia, quem sabe.
Isso que parecia agora sem solução, pensou, devia ser o mote de seus passos daqui pra frente. Apertou ligeiramente o sapo, que gosmento, emitiu alguns barulhos e resolveu entrar no galpão.
Estava vazio, era imenso e não possuía qualquer rastro de vida, muito menos vestígios de sapo. Tentou puxar na memória algum retrato daquele lugar, mas tudo que conseguiu foi uma imagem de filmes em galpão, Cães de Aluguel, talvez, não se lembrava bem. Suspirou alto e percebeu o eco que aquele ambiente fazia. Resolveu, como em uma igreja, falar consigo mesmo na esperança que alguém ouvisse.
“Você que não está aqui e não me ouve, que me poderia servir de memória e me lembrar dos passos que tive e não lembro. Você que poderia tirar de minha mente a dúvida de ter matado esse animal ou não. Você que não sabe se tentei salva-lo ou se fui seu algoz e, principalmente, você que não sabe do meu destino, dos meus pensamentos, dos meus gestos e de tudo que faço sem nem saber que faço, devia tentar pensar em mim como alguém que é incapaz de estar onde está. Por que, dentro da lógica, estaria eu aqui nesse galpão segurando um sapo, olhando pro alto e girando falando com o nada ou com ninguém? Por quê? E o som que eu ouço é seu, repetindo minhas perguntas e jogando-as todas diretamente na minha cara, com um deboche silencioso de dia nublado. Até esse sapo, que não sei de onde vem é um verdadeiro deboche pra cima de mim, mas já sei, é ordem minha, ou sua, devo acatar aquilo que se coloca na minha frente, devo pensar que tudo que vem, vem por uma mentira. É mentira, eu sei, mas é a regra do jogo no lugar em que vivo. Sem mais palavras pra você, que sempre se cala, me calo.”
No mesmo instante, quase de alma lavada, sai do galpão por uma porta que até então não havia visto e anda pela rua, uma rua qualquer por onde as pessoas observam o sapo em sua mão. Algumas crianças pedem pra olhar mais de perto e até tocar, se possível. Alguns mais velhos dizem que ele devia jogar isso fora porque isso é mau sinal, outros, mais educados dizem que um sapo morto assim essa época do ano é problema climático, tem que ser, essas estações do ano todas trocadas. A verdade é que ele anda e algumas pessoas o acompanham com o olhar, meio que de longe, como que tentando entender pra onde vai o sapo e pra onde vai o sujeito e aonde um vai se encontrar com o outro. Ambos não sabem, ambos não se guiam. Está tudo em silêncio entre os dois.
Senta em um banco de praça, agora sozinho, sem os olhares das pessoas e coloca o sapo junto a seus pés, no chão. É quando repara em suas mãos, esverdeadas, gosmentas, com uma pasta pegajosa espalhada por todo lado. Sem tempo pra pensar, lambe aquela gosma, e o verde sai de sua mão se depositando diretamente em sua língua.
Na mesma hora, sua memória volta ao lugar. Lembra-se de tudo, do que fazia com o sapo, daquele galpão e porque o bicho havia morrido, assim de boca aberta e barriga pra cima. Precisa contar pra alguém, lembra até de uma pessoa pra contar. É urgente, procura seu celular, não acha. Levanta, sai correndo, vai. O sapo fica.


14 outubro 2012

como máquinas

animais sempre me entediaram
zoológico, então, é o berço do nada pra fazer.
um pássaro, mesmo que belo, nada me diz
um cachorro ou um hipopótamo, tanto faz

animais se arrastam
não tem alma
animais olham
e nada veem

são como máquinas

09 outubro 2012

a morte

queria me matar
pulei da janela
era sonho, não morri

apesar disso, acordei
e me senti caído
morto, des-anjo.

não resisti,
me matei:
renasci.

05 outubro 2012

das tentações

Cada vez mais cedo à tentação de me agradar. Já foi um tempo em que achava legal qualquer tragédia e via nela uma valorização da minha vida mais ou menos. Hoje mais ou menos é a melhor coisa do mundo e qualquer êxtase é inventado por alguém que quer ou me obrigar, ou me vender ou me diminuir com alguma coisa. Não acho que o caminho do meio seja o melhor e nunca achei, mas também não vejo nem no otimismo nem no pessimismo uma saída. Sejamos realistas, vejamos a vida de um jeito são, sem dogmatismo, sem misticismo e veremos que o que existe é nosso corpo. Portanto, de corpo em corpo enchamos a vida que é pouca.

04 outubro 2012

a benção impossível

Veio a mulher e me disse
- Hoje você está impossível -
e como numa benção que não acredito
impossível fui.

desaprender

O segredo da vida é desaprender. Desaprender a correr, a trabalhar, a agir, a falar, a argumentar, expor opiniões. Depois desaprender a dizer e a pensar, juntas assim como quem não sabe pra onde vai cada uma. Até que pouco a pouco exista apenas um rumorejar de vida, um sussuro de palavra e um lapso de gesto. Ali, nesse momento que quase nem existe, mas é de carne, que vai se colocar a vida. É ali que vai pulsar aquilo que é seu. Ali, exatamente ali, em um lugar que eu não faço ideia de onde é, mas já aprendi a palavra pra dizer, que é pequena, duas vogais e a consoante do meu nome. a vida é desaprender ali.

02 outubro 2012

do mar

no banheiro,
vejo seus shampoos na pia
e sua bolsinha no chão.

penso em tirar tudo
e guardar em qualquer cantinho bem guardado:
não o faço.

não me esforçaria guardar
e não me incomoda deixar,
mas pra que mexer e mudar
se não estamos no embalo
gostoso do mar?

de hoje

regra pra poesia:
se soa poético, não serve.
se é grande demais, está mal.
se é diretamente pra alguém, errado.

a poesia,
pelo menos a de hoje,
deve ter algo de graça
de imprestável
de impossível.

e que passe do maior sentimento
pra maior brincadeira.

porque poesia
poesia mesmo mesmo
não é coisa da alma
mas coisa do corpo
brigando consigo mesmo
pra dizer que a briga é boa
e que a vida é inevitável.

27 setembro 2012

o mar



o mar
são traços de caneta
azul e verde
que  o papel
não aceita fixar.

26 setembro 2012

25 setembro 2012

aqui

tanta gente precisando viajar
pra ser feliz e pra sorrir.

a fronteira, o outro lado
outro país, outra cultura
e qualquer outro sonho:
tudo isso é desimportante
e sem sentido pra mim.

sorte minha
que minha felicidade
é aqui.

Literatura comparada

20 setembro 2012

Coisas que me incomodam


De vez em quando resolvo fazer esses posts que considero 1 – uma tentativa de descobrir coisas que pra mim parecem apenas intuições; 2- tentar atravessar uma barreira do óbvio nas opiniões e apresentar uma forma de ver o mundo que seja similar a dos outros, mas que ultrapasse aquilo que parece ser estabelecido.
Algo que já disse é da infantilização das pessoas e de como, cada vez mais, elas estão incapazes de aguentar e superar frustrações. A famosa ideia do carpe diem obrigou todos a se esforçarem violentamente pra serem felizes o tempo todo e assim fica impossível, ninguém aguenta mais nada e haja música de fossa, haja novos parceiros amorosos pra aguentar isso e haja velhos parceiros antigos sempre voltando pra tentar reescrever histórias que já deviam ter terminado. A literatura se tornou simplesmente um parceiro que dá conselho amoroso, a vida profissional se tornou um meio de realização social e nunca pessoal, a boa forma física vem cobrir buracos na personalidade, estudar se tornou secundário ao menos que ela se torne também forma de sedução.
Essa infantilização é muito clara na micareta. Pessoas transformaram a sexualidade que é algo sagrado em um mero jogo quase homoafetivo de relação da troca de salivas em série. O que é pra ser um objeto de que nos apoderamos pra nosso próprio prazer se torna um aprisionamento olímpico da realização sexual perfeita, da piroca mais eficaz do bairro em que, se possível, deveria haver um prêmio por um sexo tão bem feito.
E aí todo mundo é depressivo, todo dia serve pra reclamar. E o tempo? O tempo é sempre o maior inimigo que não dá pra fazer nada e o clima parece ser um vilão. As pessoas passam a se surpreender com o óbvio tal é a falta de capacidade de encarar a realidade como algo repetitivo e, justamente por isso, um arcabouço daquilo que temos que empreender engajadamente nossos desejos.


Mas minha maior reclamação de todas é sobre o paladar infantil. NADA pior que a moda dos Cupcakes. Nada mais Xuxa Meneghel que cupkcake. Cupcake é uma mistura de tivoli park com beto carreiro world com confete e brigadeiro de aniversário. É a completa realização do nada pra dentro de si mesmo. É o elefante que enfia a tromba no próprio cu e assopra. Enquanto antes as pessoas comiam chocolate quando sofriam por amor, o amor foi diluído em doses semanais de cupcake, uma espécie de barbie bailarina bezuntada no rio do Willie Wonka.
Enquanto não tomarmos consciência de porquê fazemos as coisas, vamos ficar por aí, fazendo qualquer coisa.

18 setembro 2012

a menina

não sei de que fórmula química as coisas se fazem,
nem ao mesmo sei o que se faz e o que é feito.
não entendo a criação.
não entendo o coração.

não entendo a menina que chora,
a menina que sofre,
a menina que pede desculpas.

não entendo
a menina que resolve,
todas as vezes que ama,
bater com a cabeça na parede
por escolher dentre as opções a pior.

 todos vencem,
menos a menina.



e ela acha que é estilo.

12 setembro 2012

o cheiro

poderia ter um cheiro no seu rosto, na sua pele,
ou por trás do fio dos seus cabelos que fosse seu,
que ultrapassasse a barreiras dos cosméticos
e morasse na minha roupa
depois que você dorme no meu ombro.

11 setembro 2012

shuffle



Shuffle não é um sistema, não é uma ideia, mas uma lógica. Uma lógica que vê o mundo através daquilo que é convulso, desencaixado, desorganizado, epilético. Shuffle não é contra a ordem, é conta a mistificação da ordem. Shuffle não é contra o padrão, ele desacerta o padrão para que ele reinstaure algo de revolucionário.
Shuffle não se interessa pelo novo, mas pela novidade do velho, pela nova composição daquilo que já existe. O novo para o Shuffle é da ordem do consumo. O velho é seu ponto de partida, seu universo de criação e nele é capaz de criar um mundo com tudo que já existe. Shuffle é também reciclagem, é atentar para os restos, para os escombros. Shuffle já existia antes e vai voltar no fim da lista.