27 julho 2010

Antenor - parte 1 - o projeto e as caixas

Um projeto teatral, ou mais que isso, um projeto também teatral. Antenor é o personagem principal do conto "o homem da cabeça de papelão" de João do Rio. O conto que flerta com o fantástico está sendo adaptado para os palcos por mim e por Leandro Romano e para os vídeos pro Francisco Ferraz, que filma ensaios e discussões. No fim, uma obra que abrangirá cena e tela, palco e internet, cinema e presença.

22 julho 2010

meios de transporte

- o que leva uma pessoa a...
- ÔNIBUS?
- nãão, po! Aaaa...
- TREM?
- não, espera. Eu queria saber mesmo, assim, tô só pensando, o que leva uma pessoa a...
- MOTO, CLARO!
- NÃO. Deixa eu falar! To querendo saber o que leva uma pessoa a...a...se matar...
- Aaaah sim, mas isso é óbvio: uma arma!

21 julho 2010

isso.

Não me sinto diferente de ninguém. Nem igual. Não há tal coisa no mundo, cada um é e não entendo absolutamente nada disso. Há no latim o gênero neutro e isso sempre me fascinou, fazemos dualidades o tempo todo e o gênero neutro burla isso, é a ironia, uma negativa afirmativa, a andogrenia, a indistinção. Escolhe o que tu quer aí, camarada, escolhe. Vai querer um, dois ou ambos? She, he ou it? Vai querer um saco ou uma saca? Uma girafa ou uama girafa? É macho ou fêmea? Decide o que tu quer, maluco chato. Esse ou essa?


- Isso.

18 julho 2010

justiça

às vezes penso na justiça penso em ser justo mas acho injusto que justo eu tão pequeno e incapaz tão pouco tão em paz saia do meu canto e sozinho passe dias pensando e pensando na justiça que devia ser justa não pra mim que aceito sua ausência mas justa com outros carentes de justiça sofridos demais

17 julho 2010

kubrick e a guerra

Semana passada resolvei baixar alguns filmes do Kubrick. Assisti, então, essa semana dois filmes dele de guerra, os dois me impressionaram bastante, então resolvi falar um pouco de cada um deles.
O primeiro foi "Nascido para matar", filme de 1987.
O filme começa num treinamento de fuzileiros que vão para a guerra do Vietnã. Vendo eu aquele cenário típico de Kubrick, mas com aqueles espaços conhecidos de filme de guerra, comecei por esperar o que tem, em geral, em todos eles. Me enganei. Kubrick usa de um ultrarrealismo, um exagero quase mórbido das ações e dos tipos de personalidades que devem ser neutralizadas, que nos leva a perceber o absurdo que é um treinamento de guerra. Nos leva a perceber todos os erros que vimos no Vietnã. Consegui perceber claramente o que é tratar o homem como estatística, mas não só o inimigo que "comunista" deve ser liquidado, mas também os seus. Não existem homens, não existe humanidade e sociedade, somente uma nação que deve ser honrada até o fim, até a morte. Essa lógica que me parece totalmente tresloucada é a lógica deles. Será ainda a lógica vigente? Aos poucos as personagens vão enlouquecendo de um modo típico, completamente diferente, mas enlouquecendo, perdendo a capacidade de perceber as coisas e, cada vez mais pragmaticamente levados a analisar os fatos. No fim...bom, parece que não tem fim.

O segundo foi "Glória feita de sangue", filme anterior ao primeiro que citei, de 1957:


Nesse filme a questão é do poder. Uma idéia, um desafio, uma oferta de posto é o mote para que um General resolva que os soldados de uma trincheira francesa invadam o chamado "formigueiro alemão". E um exército cansado e abatido depois de 2 anos naquela situação que não sai do lugar não acredita que é possível, nem seus sargentos ou coronéis, somente o General, que passa as ordens e todos acatam. Enfim, a morte de muitos e o recuo de alguns que são julgados por covardia e escolhidos aleatoriamente para o fuzilamento por não honrar a pátria.
Num determinado momento do fracassado ataque o Genaral manda que a artilharia mate seus próprios soldados que recuavam, como se a derrota deles, A MORTE DELES fosse a derrota do general. Conto a sinopse porque só isso já me parece absurdo, todo esse jogo de poder, essa impossibilidade de contestação de explicação, essa completa ausência de liberdade, impedindo que cada um seja capaz de analisar e julgar, faz com que ninguém, nem os poderosos sejam capazes de analisar e julgar. E no fim...mesmo que algumas coisas mudem, o fim é sempre fim. Fim após mais muitas mortes.

Era só isso mesmo que eu queria dizer.

16 julho 2010

2:52

Quando ela entristece o mundo parece de seda, parece ruir. Quando eu penso nela triste pareço pálido, me sinto daltônico e antigo, como se um sentimento de outra vida antiga me tomasse. É que as palavras são como lágrimas: escorrem pelo corpo e gotejam do ar pro chão, como se fosse trágica a viagem de toda palavra, como se só alguns silêncios soubessem dizer. Porque é num abraço que a vida se completa, que a vida começa, que as coisas parecem fazer sentido e é longe, em um medo, numa vergonha ou numa tradição qualquer, que as distâncias aumentam, então é a regra: quanto mais perto, mais perto. Porque gostar, talvez, seja entender que a saudade e a distância, se medem pelo pensamento...pensamento de quem se deixar levar.

14 julho 2010

morremos porque esquecemos que vamos morrer

Algumas coisas na vida eu não consigo aceitar. (e ninguém deveria, na verdade, a não ser por essa enorme quantidade de igrejas e livros de auto-ajuda que fazem você aceitar quase qualquer coisa e principalmente, ficam incentivando esperanças inúteis para que tudo se mantenha como está.) A gente passa quase a vida toda tentando, se esforçando de coração, pra esquecer que vamos morrer, pra esquecer que o tempo passa e vai nos corroendo e mais dia ou menos dia toda nossa dignidade será reduzida à pouca coisa, porque a hora da morte é hora que mais vamos nos expor e mais sermos nós mesmos. Me irrita saber que, apesar de tudo isso, de toda tentativa de esquecer que vamos morrer, às vezes acabamos morrendo por distração: porque esquecemos de botar o cinto de segurança, esquecemos de tomar um remédio, de olhar pros lados antes de atravessar a rua, de ir ao médico naquele dia marcado, de se proteger na hora do sexo, de não mexer com objetos pontudos, de beber menos quando vamos dirigir. Morremos porque esquecemos que vamos morrer e isso eu não consigo aceitar. Repito: não consigo aceitar que às vezes morremos porque esquecemos que vamos morrer...E esse texto fica assim, porque algumas perplexidades não tem explicação e não merecem mais que algumas linhas.

13 julho 2010

unha encravada



Unha encravada é uma excelente metáfora pra vida. Pra quem não tem, explico: é quando a unha nos cantos do dedo cresce pra dentro da carne e vai cada vez mais forçando, mesmo que não haja espaço. E a carne, um tanto quanto sólida mas frágil tenta a todo custo impedir que aquele ser estranho entre. Então o dedo começa a ficar vermelho, inflamar, doer, latejar e a gente que, numa vida corrida às vezes esquece de cortar as unhas, tende a futucar com a mão para dar uma leve sensação de descanso, o que acaba por ser, literalmente, um tiro no pé porque começa a inflamar mais ainda e sangrar. Por fim, com uma dor absurda, a gente resolve cortar aquela unha, trabalho que deve ser feito por profissionais que precisam cortar com cuidado, numa forma de quadrado para que a unha cresça de maneira igual. Caso seja em curva uma parte vai ficar pontuda, entrar antes na carne e vai causar mais danos, problemas, sofrimentos.
Acha que acabou? Que nada, quando a unha for retirada, vai ficar um buraco, uma vala, um poço e todo aquele espaço que a unha tinha ganhado da carne vai ficar à mostra e a carne ainda vermelha vai tentar permitir que o sangue circule e começar a relaxar, não sem antes ficar por dias e dias latejando. O buraco lateja, a ausência lateja e demora bastante a curar. Quando cura é por pouco tempo, pois a unha já está a crescer novamente.
Pensem e me digam num corresponde disso nos sentimentos. Eu tenho um escolhido...

09 julho 2010

Eliminando a seleção



Tive vontade de comentar da eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Resolvi faze-lo algum tempo depois da derrota para que as paixões ou as subjetividades não interfiram no que eu escreve, muito embora tudo que eu vá escrever será dito pela paixão e principalmente pela subjetividade, porque só isso que o futebol é.
Tá ok, talvez não, existem fatores objetivos no futebol e vamos a eles: A seleção era limitada tecnicamente, o técnico era mais teimoso burro empacado, a CBF como um todo não se importa muito com futebol, tipo igrejas com nossa alma, o Lúcio é um baita líder, mas forjado, um líder meio sem identidade com o país, um bom líder para qualquer seleção, o que não faz dele um líder pra seleção brasileira.
E dizem os otimistas: "mas os resultados eram excelentes". Quais?, pergunto eu. O bom nível dos jogadores brasileiros faz com que eles estejam "acima da média" de muitas outras seleções, então não importa em que torneio estejam, serão favoritos e chegarão perto do título, o que não significa que seja um bom time, não significa nada. Esse "acima da média" acaba por mascarar um fato: ano a ano a seleção brasileira se enfraquece! E de 90 pra cá vem numa decadência sem fim, principalmente depois do filme da era dos craques da linha Careca-Romário-Ronaldo...
No entanto, a seleção atual enquanto sabia que não jogava bem, enquanto se percebeu limitada, conseguiu resultados. Os cabeças-de-área ficavam ali na deles, dando toques pro lado e pro meia (sempre dependendo do Kaká) que puxava um contra-ataque. A partir do momento, e na Copa isso se deu contra o Chile, que eles perceberem que, sim, eram candidatos ao título, tudo foi pelo buraco. O primeiro tempo com a Holanda foi a gota d´água. YES, WE CAN, pensaram no melhor estilo Joel Santana, e foi o fim do Brasil na Copa do Mundo.
A próxima é no Brasil e 4 anos antes já me cheira a fracasso, mas por favor, outra Maracanazzo vai ser dose...

08 julho 2010

bruno



Abraçado com os amigos fazia uma oração. Pedia proteção, pedia conforto, pedia que não importa onde fosse, pudesse sentir a Sua presença agindo na sua vida. Pedia que premiasse seus esforços e de seus colegas. Agradecia pela chance que teve na vida, pelos amigos, pela carreira que até agora tinha sido de sucesso, agradecia a família que tinha e agradecia por tudo que tinha, apesar de não saber nomear. Olhou para o túnel e viu uma luz ao longe, era para lá que iria, milhares de pessoas o esperariam, ali foram para ve-lo, sentir sua força, seus saltos, piruetas.
Terminada a oração, soltou-se do abraço, se abaixou e ajeitou as meias, a chuteira; de pé deu alguns saltos para se manter aquecido, vestiu as luvas, fez o sinal da cruz e num sinal do capitão correu na direção da luz. Viu um mar preto e vermelho gritando seu nome, fez cara de mau, depois sorriu, agradeceu, pensou que hoje era seu dia, que tudo correria bem. Colocou-se debaixo das traves, ajoelhou uma última vez e parou de pensar. O resto era com seu corpo, o resto era com todos, o resto era show, era espetáculo.
Tudo correu bem até o apito final. Foi a última vez que foi feliz, a partir dali nada mais aconteceria, a partir dali a vida era lá fora, e ali sua vida acabou. Seu último momento de vida foi quando olhou pela última vez aquela multidão rubro-negra. O fim da vida chegou, mas a vida ainda durará muitos anos. Porque não é pela oração, pelo que se diz, pelo que se faz: é por tudo que a gente sempre foi e nunca poderá deixar de ser que se paga.

05 julho 2010

segunda

Se é verdade, como eu disse antes, que só se escreve no sofrimento, então hoje nada que eu diga pode ser poesia, nada pode fazer sentido, nada poderá ser feito. Se é verdade que só se escreve no sofrimento, então hoje tudo que eu escrever será poesia de segunda. Segunda-feira...

03 julho 2010

Auschwitz

como fazer o poesia depois de Auschwitz?, disse Adorno
como fazer poesia sem ser corno?, digo eu!
como falar sem dor
como falar sem a ingratidão, a traição
o sofrimento, o corte, a ferida, a morte?

Como fazer poesia sem Adorno,
como fazer poesia sem a dor no coração?

como as crianças que não fazem poesia
e nuas, sem adornos, passeiam pelo mundo
a viver e quando desenham ou escrevem
é tal qual aquarela, exercício do imaginário

porque a poesia não é inocente
nem ingênua
nem pode ser
depois de Auschwitz.

30 junho 2010

herói

Quero escrever um conto sobre um rapaz chamado herói. Ele é um cara comum. Ele não é um herói, não quero que ele seja herói. Fica na dele e vive sua vida, querendo um emprego, uma mulher, filhos e, se der, viajar pra praia no fim do ano. Herói não é um herói. É que nosso nome nada tem a ver com a gente, embora muitas histórias tentem dizer o contrário. Principalmente as histórias de herói...

24 junho 2010

2:13

Leio um conto do Tchekov agora. Pela maneira que é escrito tenho a sensação de que nunca ninguém leu esse conto na vida: são muitas palavras, descrições e pensamentos. Parece literatura velha, cansada, mas não é. É só impressão.
Não tenho idéia do que quero escrever e não tenho idéia do que estou escrevendo. Às vezes algo me diz que preciso vir aqui e botar algumas palavras em sequência. Sigo a ordem sem refugar e vou deixando que tudo se faça. Como o mundo foi feito: primeiro a luz, o resto é mole. Porque era a luz que faltava, debaixo da luz somos capazes de ver e fazer tudo, enquanto que a escuridão nos oprime e nos mostra nossos erros.
Tenho vontade de ensinar as pessoas e me odeio por isso. Me sinto presunçoso, como se eu tal como sou, tivesse algo para ensinar a alguém. Eu que devia aprender, me digo, mas vejo que tanta gente precisa ouvir o que já aprendi. Por exemplo sobre Tchekov: seu realismo se rasgando, ele ultrapassando uma barreira que seria tão comum nno futuro, mas ver essa gênesis gera tanto prazer, alguma felicidade. Penso que sei o que estou lendo e sei porque estou lendo. É porque quem se enxega inteiro, não se enxerga. Quem sabe o que está fazendo é estúpido. O ideal é se deixar vagar pelo mundo, com o pensamento discordando de tudo que puder e depois criando outros castelos intransponíveis.
Queria tanto que alguém entendesse, mas a maioria das pessoas que lêem isso aqui esperam poesia, ninguém espera nada. Ninguém acha que um texto pode mudar sua vida, ou melhor, ninguém se deixa mudar por um texto, embora é óbvio que vão dizer que sim, que mudam. Talvez haja alguém sim, tenho essa esperança. Como se cada sessão de cinema servisse apenas pra uma pessoa. É meio solitário tudo isso, são 2:13 da manhã, escovei os dentes e interrompi Tchekov no meio.
O conto é sobre um seminarista que provavelmente se está enamorando, ainda não sei o resto. Tchekov talvez saiba. É tão difícil tentar dizer quando não se tem nada, porém acho que já disse alguma coisa, é que se fez a luz, por algum motivo creio que se fez. Acho que até pude ve-la. Será?

19 junho 2010

os velhos


- Esses velhos não são apenas pessoas.
-São o quê, então?

- São guardiões de um tempo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um simples polícia.
- O verdadeiro crime que está a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.

- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?

- Sim, snehor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.

A varanda do Frangipani - Mia couto

Era disso que eu falava ontem e não sabia como dizer. Quando lamentava a morte do Saramago, um antigo-novo, lamentava a morte de alguém que era um contador de história. Alguem que sabia olhar o passado e o presente e conta-lo, não apenas cita-lo, porque quem conta está presente, quem cita se faz ausência. Abandonando o tema de ontem e continuando a falar do assunto, acabo por lamentar que cada vez menos exista quem queira contar histórias. O que mais vejo são pessoas que vestem máscaras de escritores e começam a falar como se assim já o fossem, sem nenhuma centelha do que é ter uma vida.
As histórias para os velhos tem dois movimentos: o primeiro é de vida, contam porque muito já viram, viveram e pensaram da vida. Muito se cansam dela e alguns acham beleza, outros esperam a morte, mas todos sabem do quanto é interessante viver apesar de todo esforço que é conviver anos e anos a fio com o tempo. O segundo é de morte, contam suas histórias por medo de serem esquecidos, de que todo aquele esforço tenha sido em vão, contam e inventam, transformam sua vida em ilusões de vida, em pequenas noveletas para serem contadas. É por isso que há nos velhos uma fascinação quase mítica, os ouvimos como ouvimos um pajé, um padre, talvez nos aproximemos de deus, talvez, bem talvez.
Dizem que a distância aumenta a inverossimilhança dos fatos, então os velhos são os verdadeiros narradores de nós. Enquanto que os jovens vivem e os adultos se imitam a si mesmos e a imagem que têm de si, os velhos nos contam, nos guardam e com distância sabem nos ver.
É dessa sabedoria que sinto falta. E está de novo Saramago em minha vida.

ps: Mia Couto é um escritor moçambicano, todos deviam ler, principalmente "Terra Sonâmbula". Talvez em breve eu poste uma análise que fiz do livro, mas só talvez.

18 junho 2010

último dia de José

Despertou mais cedo que o normal e tentou com algum esforço levantar a cabeça para ver o tempo que fazia em Lanzarotte. Sorriu por dentro por ainda se preocupar com essas bobagens como o tempo ou o estado das coisas, enfim, das coisas mais fugidias. O tempo, o clima, pensou, serve mesmo para as plantas, as estações do ano, as marés e os animais, para os homens só lhes dão um empecilho aqui e outro ali. Nada de importante deixaria de ser feito porque chove. Estava debilitado e queria ir ao banheiro, no entanto Pilar não estava no quarto, por isso fechou os olhos por mais algum tempo para que quando ela chegasse não se chateasse, não gostaria que ela pensasse que o havia deixado esperar tempo demasiado.

Cochilou e num sono breve viu um elefante a atravessar o deserto. Havia lido em algum canto e reescrito aquela história e até agora não se dava conta da dificuldade que havia de ter sido esse trajeto. Escreve-la não fora e jamais chegaria perto do esforço que aquele gigante deve ter feito pelas trilhas turvas desse gigante maior, sem trilhas, que era um deserto. Viu o Sr. José na Conservatória Geral do Registro Civil, na última mesa a bater uma máquina, ou computador, sua memória de si e de seus outros já começavam a rarear. Acordou pouco depois com Pilar que lhe trazia o café. Sentou-se com algum esforço, o travesseiro colocado nas finas costas, já emagrecidas, e comeu. Disse a Pilar em bom espanhol, Essas bolachas estão deliciosas, Foi seu Marco da padaria que as trouxe, Agora é ele quem as traz, já não as busca mais, Ele achou que assim seria melhor, para que eu pudesse cuidar melhor de si, Estou bem aqui, estou fraco e adoecido, mas sei que estou sempre bem e há também as enfermeiras que não se cansam nunca de me cansar, José, entenda, disse ela tentando ser compreensiva, você merece e requer cuidados e não seria eu, e parou vacilante sem saber mais o que dizer. Então ele a interrompeu, Dediquei-te um livro uma vez com essas palavras “A Pilar, como se dissesse água” e as repito agora. Ficaram em silêncio por instantes e como se fossem água num rio se deixaram passar. Pilar levantou para levar o café e José se sentiu extremamente cansado, um cansaço feliz, era um sentimento que ele tentava descrever em sua cabeça, porém era incapaz, doía e era bom, enfraquecia a cabeça, mas enrijecia os braços e pernas, foi quando viu a si aos 62 anos sentado na cadeira da frente com uma camisa vermelha, calça jeans um pouco velha e um blazer do tipo que os jornalistas usam. Não se conteve, O que fazes aí, José, Estou aqui porque comecei a escrever agora, E eu, paro de escrever agora, Sempre vais escrever José, estás a escrever nesse instante, Eu sim, mas não minha mão, como vão me ler assim, Sempre preocupado em dizer coisas as pessoas, elas sabem se virar sozinhas, Não é o que parece, Talvez sim, mas bem ou mal elas vão aprender a viver sem ti, Espero que sim, não gostava de ser tão importante, Isso já o é, Isso já o sei. E lamentou com profunda tristeza. Quando num outro canto Ricardo Reis apareceu ao lado de Fernando Pessoa, ambos muito parecidos, com roupas parecidas, só Reis que parecia um tanto mais jovem. E tu Reis, vais fazer o que com tua Lídia, O de sempre José, lê-la, E tu Pessoa, também aqui estás, Não podia deixar de vir, ainda mais que Reis fez tanta questão principalmente depois do tanto que ele me disse de si. Obrigado, amigos, não sabia que tinha tantos assim.

Não pode dizer mais, se emocionava. Aos poucos apareceram mais pessoas: Camões, Eça, Garret, Quental. Todos olhavam José com tamanha singeleza que um profundo e segundo silêncio se fez, foi quando Pilar entrou no quarto e se espantou com o tamanho rebuliço de pessoas no quarto. O que se passa, José, perguntou, São meus amigos da vida, vieram atrás de mim, Estás a ir, Não, ficarei por aqui mesmo, mas de outra maneira. De repente, o José mais moço se sentou ao seu lado e perguntou, E agora José, como é, É tal qual sempre imaginei, dói e é bom, bate um cansaço e descansa, fere, arranha, mas acalma, a morte é bastante dialética. E sorriu. O mais moço segurou sua mão, José se levantou, vestiu uma roupa apropriada e junto com os outros saiu porta afora. Saíram rindo e conversando, e ainda da cama Pilar pode ouvir José dizer, cala-te Camões, és um chato.

Saramago - 18 de Junho

"Então vamos, disse, Para onde é que vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera da Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se." O ano da morte de Ricardo Reis - José Saramago


Não sou uma pessoa que lida bem com as coisas. Não tenho grandes lembranças dos meus avós, nada que me marcasse a ponto de ter aquilo como parte integrante de mim. Lembro no máximo de um cheiro, de uma comida, de umas palavras, mas nada que me faça ser o que sou hoje. Entretanto, esse velhinho, audaz e frágil, irônico e engraçado, forte e sútil, também sou eu. Foi ele que me ensinou a escrever, me ensinou a pensar e me levou às melhores viagens que tive na vida. Lembro que o Sr. José acompanhou minha vida por muitos meses, numa batalha ferrenha entre texto e eu, que no fim perdi e vi o Sr. José, um outro já, emergir na escuridão. Lembro também de Pedro Orce, com o cão sempre ao lado, morrendo ao mesmo tempo que aquela imensa jangada ibérica parava no meio do oceano e lembro também de ali ter nascido uma árvore. Lembro das viagens de Ricardo Reis por Lisboa e das imensas conversas dele com Fernando Pessoa, ou seus passeios por entre os eventos urbanos. Lembro também do pobre Caim, do cão das lágrimas, da mulher de óculos, de Joana Carda, de jesus e até do senhor deus e de todas as pessoas que passaram na obra dele, pois Saramago também era todos eles.
Enfim, Saramago é tão próximo de mim que é um parente, meu avô, minha maior referência, a única pessoa que quando dizia algo eu parava pra escutar, com a admiração de um aluno e o respeito de uma criança. Ele fazia um obra contemporânea parecer clássica e isso me fazia tira-lo do tempo, ve-lo quase como alguém que de outro mundo vem para escrever sobre esse, quase profético.
E agora que ele sumiu, pois um ateu nunca se rende e não seria agora que ele se renderia, vai existir comigo, pra onde eu for e sempre que eu escrever vou tentar fazer jus à ele. Agora que ele sumiu é obrigação minha lembrar também dele e dizer a todos que um homem escreveu, que seu avô era criador de porcos e analfabeto e que ele um dia com as palavras tentou mudar o mundo. E mudou o meu.

14 junho 2010

o tempossentimento

Não sei porque tanto se fala sobre o tempo. Pode ser porque no fundo intuímos que ele é o único assunto verdadeiro, relevante de nossa vida, apesar de quase sempre passar despercebido. Não me vejo envelhecer, por exemplo, a não ser quando minha barba grande e expessa me torna mais velho, carrega meu olhar e meu rosto de traços que não se identificam com aquele eu que sinto por dentro.
Digo tudo isso porque percebo o que um sentimento faz. Gostar de alguém é como abrir uma fenda no tempo, parece que ele não mais existe de uma maneira objetiva, mas apenas da maneira como o encaramos, seja na saudade - eterno -, seja na presença - veloz. E é essa subjetividade que confunde tudo, nunca sei quando é cedo ou tarde, nunca sei quando é muito ou pouco, vou agindo assim de improviso assim como meu sentimento manda, mas a impressão é de que o tempo é meio que sempre um vilão eterno. Acontece que vem um dia, como o dia dos namorados e põe tudo em ordem, faz o tempo ser amigo um dia e me faz feliz como não era faz tempo. Por isso eu quero agradecer a cronos, que tem sido um bom companheiro ultimamente.

07 junho 2010

gênesis

Primeiro havia a escuridão, ou melhor, havia uma certa luz que servia para mostrar essa escuridão cercada por uma fumaça densa e espessa que preenchia tudo, pertencendo-o não só por fora, mas também por dentro.
Depois veio a fuga, um desvio, onde a cabeça precisava descansar e o corpo conhecer coisas novas, se estragar um pouco, ccomo se ao se maltratar se chegasse a alguma liberdade.
Até que os olhos cruzam com os olhos e a fumaça num instante se dissipa. É a nova vida que aparece: a primavera; chega o messias e anuncia a nova aurora que nos abarca quase como num filme bom ou numa lembrança de infância.
No fim, chega o resto, toda a felicidade que a primeira luz fez aparecer. Não há mais fumaça ou desvios, não há mais. É como se a bíblia se tivesse esquecido do apocalipse e ninguém mais fosse culpado de nada, é como se tudo que houvesse de bom na vida se explicasse por uma palavra, que simples sai da boca da menina: sim.

04 junho 2010

da poesia

Não entendo as poesias, vazias.
Se dizem de sonhos, mas me parecem de mim
Estico e esgarço-as, nada sobra
Eu sobro.

A poesia que imagino e que não vivo
Seria poesia de outro, de fora
De quem não sabe que diz, e rima
Incessantemente palavra à palavra

Aí eu olho o computador e vejo as linhas
Que lembram poesia pela forma
Mas não parecem nada e não são.
Sinto vontade de falar palavrão...

Finalmente eu lembro o que me fez vir aqui
Queria escrever sobre esse outro
Esse sentimento imenso e feliz
Que faz que a poesia seja eu
Enquanto quero que ela seja de outro

E é nesse esforço que é sentir –
Quando toda poesia parece estúpida
E todas as palavras são ditas
E imensamente repetidas –
Que percebo que é dessa matéria que a vida é feita

Dessa mesmo
Disso tudo
Desse movimento
Que não sei o que é...

31 maio 2010

purgatório

Apontei o lápis, mas não escrevi nada. Aquele buraco me incomodou. Meus olhos querem se fechar, pedem que eu durma um pouco, tire um chocilo, coisa de meia hora digo pra mim, mas resisto. A cabeça começa a trabalhar novamente, primeiro me diz que não são os olhos que fecham, mas as pálpebras, depois me faz perceber que dá até pra sentir, ao se fechar bem, o toque dos cílios superiores com os inferiores. Essa é a cabeça que não para nunca, como se meu presente fosse asburdamente distentido, como se meu dia fosse sempre durar uns três, como se, ao estar doente, eu vivesse algumas vidas, com alguns amores e muitas decepções. É como se eu fosse católico e não importa o que quer que acontecesse, acabaríamos no juízo final, tendo que prestar contas, e quiçá um purgatório me apareceria, ou ainda, poderíamos chegar todos juntos no apocalipse. Seria um presente público, não só esse interno, meu.
Acontece é que, muito feliz, não consigo deixar de pensar que haverá uma lei da compensação. Acontece que quem muito quer nada tem, quem é vivo sempre aparece, quem avisa amigo é, quem tem boca vai a roma, ou seja, quem faz tudo, quem está em todo lugar, a vida é toda de quem, e quem com ferro fere com ferro será ferido. No entanto, no final sempre fica tudo pra depois, pego meu violão, sento na cama, deixo os olhos (ou as pálpebras?) se fecharem e canto bem devagar a canção: quem tem medo do lobo mau...lobo mau?”

24 maio 2010

a urca

Estive no lugar mais lindo essa semana. A Urca me renovou, fez renascer em mim uma coisa boa, guardada, tão pouco cuidada. É tão bom quando a natureza toma a gente e não a gente toma ela, é tão bom poder se entregar a essa força maior que eu. No fundo, odeio quando chamam de deus, porque sendo natureza é tão mais lindo, mais poético e tão mais divino do que se ele existir mesmo. Como diria o velho Quintana: "tão bom morrer de amor...e continuar vivendo". É disso que falo, de uma poesia que esse lugar me fez desfrutar. Tentei descrever a prainha, com as casas, com a mureta, as pedras e a vista, desisti. Agora falo só das sensações. No fundo a urca pra mim é uma imensa metáfora.

20 maio 2010

decifrar

Ela anda, ela dança, ela fala do presente, do passado, ela conta segredos, ela dissimula, diz coisas que me fazem pensar em um, mas devem querer dizer outro. Ela faz planos e eu penso que gostaria de decifra-la. Imaginem que ela está sentada num banco de praça com as mãos pousadas no joelho, o cabelo longo solto, o olhar expressivo inerte, e o sorriso fechado, trincado. Ela é de uma simplicidade que não consigo acompanhar, é factual, é quase jornalística, pragmática, prática, objetiva, parece quase mediana, mas pelo contrário, sou eu que de uma profundidade cambiante, de uma dialética opressora e fragmentada não consigo pensar em nada que faça sentido. Quando eu penso em decifra-la, penso numa batalha entre esparta e os nazistas, penso em mil metáforas uma depois da outra numa sequência infinita. É como se ela, ao ser quem é, revelasse a mim quem eu sou na maior profundade, ela revela a essência de mim, algo doído que só se dá nessa dialética. E ela continua sendo linda: anda dança, fala do presente, do passado, conta segredos, dissimula dizendo uma coisa que me faz pensar em um mas é outro. Ela planos e eu penso que gostaria de decifra-la. É uma fraqueza, mas é a maior delas...

12 maio 2010

um livro

uma vez esqueci um livro com uma amiga,
ela nunca devolveu e eu comprei outro igual.
a ausência daquele livro vive em mim
será que ela leu o livro?
será que ela leu o livro igual a mim?
ou será que ela leu um outro?
será que aquele era diferente do meu?

nunca vou saber.

é engraçado

É engraçado. Meu amigo Saulo que sempre diz que adora começar um texto com "é engraçado", mas é tão bom. Esse "é engraçado" é como se a gente tivesse uma profundidade de coisas ilimitadas a dizer, mas no fundo são apenas bobagens que a gente vai pedir perdão depois, ou então vai se arrepender, ou então algo que a gente quer escrever e logo depois esquecer.
Acontece é que está passando um futebol aqui na televisão, eu estou sozinho, vi dois filmes hoje, fiz um trabalho e estou bastante cansado de pensar e mesmo assim ainda não fiz nada. Eu gosto de tudo que eu fiz e estou feliz, mas esse "não fazer nada"- porque não há reconhecimento de ninguém - me incomoda, daí eu fico com raiva e digo que odeio todos numa espécie de misantropia. Às vezes as coisas são assim. E já estou profundamente arrependido de ter escrito isso, gostaria que fosse um texto leve, mas saiu isso e está muito chato. Parei, mas que é engraçado, é!

Mil e uma noites

Toda narrativa que tem a oralidade como marca de criação possui suas histórias baseadas num viés duplo: são ao mesmo tempo anônimas e coletivas, sem autor e autoria, representam um povo, um espaço ou um tempo. É interessante reparar, então, que essas narrativas são pautadas basicamente em uma base: a história do próprio passado de um determinado povo mais o imaginário que funciona como espécie de memória - marca de passado – e variação (marca de presente e futuro). É como se esse imaginário moldasse a narrativa a partir dele próprio e assim, elas vão se tornando histórias coletivas, que representam aquele povo através de seu próprio tempo.

Borges começa sua fala ressaltando o fascínio do Ocidente pelo Oriente que representa o estranho, o escuro, o outro, o inexplicável. Destaca que o Oriente não tem uma noção de história como temos, para eles a história é fluída, cíclica, não existe uma “sucessão de fatos”, por isso que os egípcios eram vistos pelos gregos como povos “de outro tempo”, o que novamente destaca uma espécie de temporalidade, um fato determinante para o interesse na história das “Mil e Uma Noites”, uma vez que esse “mil e uma” não representa exatamente esse número, mas sim, um infinito número, um incontável número de contos que cabem dentro daquela mesma narração de Sherazade. Aliás, essa forma precisa e exata de se manter sempre uma obra aberta e que permite não só a adaptação, mudança e criação de novos contos, como também essa participação plural de vozes que permeiam e adentram a obra, num profundo exercício de lapidação. É nessa obra “aberta” de “mil e uma noites” que torna possível imaginar que seja uma obra infinita, o que virtualmente ela é, pois cabem mais mil e uma noites dentro dessas, como diz Borges: “os arábes dizem que ninguém pode ler as mil e uma noites até o fim”, mas não porque não conseguem, porque ela dá a sensação de infinitude.

Borges (pg. 78/79) explica que esses contos perpassaram por vários povos, o que de certa forma torna mais complexo esse movimento de oralidade, trazendo mais elementos que são conflitantes e tornando essa “lapidação” ainda mais rica em pluralidades, temas e composições. Em determinado momento diz: “Esses contos devem ter sido fábulas. Suspeito, aliás, que o encanto das fábulas não esteja na moral”. É importante esse destaque para as fábulas pois elas são pequenas histórias, também em algum nível, abertas, que permitem emendas, cortes, que trazem em si também elementos mágicos ou fantásticos como a possibilidade de animais falarem entre si ou com humanos, de animais serem antropomorfizados, entre outras fatos. E o que se vê nas “mil e uma noites” é isso: uma história que permite entradas do mundo fantástico, seja com lâmpadas mágicas, anéis, ou com poderes de gênios ou de deuses. E o que seria essa magia? Um tipo de causalidade diferente, uma relação causal até então estranha, típica dessa concepção do mundo do oriente. A diferença entre a fábula e as “Mil e uma Noites”é que a fábula ganhou um tom moralizante, principalmente ao serem traduzidas pela idade média nos mosteiros (onde até acrescentaram uma frase contando a moral da história), enquanto que as “mil e uma noites”, reunidas no séc. XV e traduzidas pela europa na auge do neo-classicismo, mas que quase cita o romantismo, foram interessantes pela estranheza, pela diferença das obras da época, ela era livre e permitia ao imaginário viagens, ao contrário das fórmulas até então vigente de Boileau, baseadas na Arte Poética de Aristóteles da “grande arte”.
Nesse sentido, podemos destacar os povos como uma “escritora” dessa obra, ainda que não configure uma “escritura” da maneira que conhecemos hpje. Essa escrita de efeito curioso, em uma espécie de infinitude, onde cabem contos dentro de contos (o que acaba por se aproximar do gênero “novela”) nos traz uma espécie de vertigem, de sombra, de breu, onde as coisas não são reconhecíveis e portanto se permitem à metamorfoses. Assim, as histórias das “mil e uma noites” também são as histórias de Ulisses, no caso do Polifemo, ou seja, são traços de narrativas que permitem a entrada de outras. Quem sabe todas histórias sejam das mil e uma noites? Quem são nós não fazemos partes dessas noites intermináveis?

A oralidade permite, então, que o imaginável e o imaginário estejam presentes como marca de espaço, tempo, ação e temas. Tudo está dentro de sua estrutura, nada é permeado por regras, dogmas, estruturas fixas, pelo contrário, a oralidade permite que tudo que a mente conseguir conceber esteja envolvido em todos os processos dessa história. A mil e uma noites não são apenas histórias transmita oralmente e depois transcrita, ela faz parte da história do que somos enquanto pessoas, nossas crenças, nossos mitos e nossas profundezas inexploradas. É o registro do que foi nosso pensamento e da base de um pensamento atual que ainda nos permeia, por isso é tão contemporânea e tão presente, por isso que é fascinante, porque as “Mil e uma Noites” ainda não chegaram ao fim.

referência - Palestra de Jorge Luis Borges, "As mil e uma noites"

03 maio 2010

prolegômeno

Rio de Janeiro, 3 de maio de 2010.
Pode parecer uma carta ou um diário, mas não é. Se fosse chamar de algum nome esse texto seria "ode", não uma ode pra engrandecer, apenas uma pra destacar, dizer que fez parte de mim isso em algum momento.
A cidade do Rio está iluminada, os letreiros coloridos de propagandas estão refletidos no negro do poluído mar de botafogo. Eu passo de ônibus e contemplo isso, contemplo a vista para niterói, o pão de açúcar e um pedaço da lua. Olho a temperatura como se fosse fazer alguma diferença. Não faz. É uma cidade que sempre me encantou e ainda continua encantando, é o lugar onde mais estou exposto a mim mesmo, a uma solidão estética que não consigo descrever. As luzes dos prédios, excesso de luzes - crença dos engenheiros e arquitetos da década de 50 em 60 no concreto e na luz elétrica - não permitem nem uma pequena fuga desse fogo urbano. Salto do ônibus, cruzo por grupo de amigos vestidos pruma partida de futebol, entro num supermercado, a voz que a muito não sai da minha boca quase se embarga na hora de um boa noite ou obrigado.
Começo a pensar nesse texto, ele me aparece já pronto, colorido e pede um nome, que em minha cabeça aparece como "introdução", "prolegômeno", "prefácio" ou "prólogo". Palavras que bem ou mal significam "aquilo que é dito antes". Não entendo muito bem, mas sento aqui e escrevo. O que é pra ser escrito depois?

26 abril 2010

deve ser um curta - um exercício

(Está deitado no sofá da sala. Imagens se alternam mostrando o ambiente: uma mesa de centro, alguns outros sofás, jornais, flores num jarro, uma pilha de cds, dvds e livros, fotos e por fim o sofá e ele. A câmera começa a se aproximar dele, que vira de lado, ficando sem encarar a câmera. Fala para alguém.)

Oi. To aqui de novo, meu estômago ainda dói, minha carteira de motorista venceu e acho que nada vai mudar, não vou ter aquele medo de novo, você não vai querer mais uma vez. Às vezes eu penso em você, às vezes não. O cachorro mordeu a minha prima, ela chorou mas já está bem. Como se fala das coisas hoje em dia? O flamengo venceu, sabia? Diz alguma coisa mesmo sem dizer nada. Existe alguém que não gosta de ninguém ou sempre tem alguém gostando de alguém que não gosta dele e só umas poucas que gostam e são gostadas? Se alguém perguntar se você gosta de alguém você vai falar talvez, falar que não sabe? A gente força. É que às vezes parece que...às vezes as coisas são diferentes e ficam estranhas. É que tudo vai mudar.

(Vira-se, fica de barriga pra cima, uma longa pausa.)
Oi. To aqui de novo, meu estômago ainda dói, minha carteira de motorista venceu e acho que nada vai mudar, não vou ter aquele medo de novo...

(uma grande mistura de imagens de carros na rua, ônibus passando, pessoas conversando na mesa de bar, o barulho de um liquidificador, o choro de uma criança, um casal que passa de mãos dadas ao som de uma música eletrônica bem intensa, tudo num rebuliço que não nos permite entender as sequências. De repente, tudo fica em silêncio por um tempo, as imagens continuam, ouve-se um barulho de coração bater bem ao fundo. As imagens vão ficando mais lentas, uma escada, uma porta, um bicho de estimação e novamente o sofá com o rapaz. Ele levanta, fica um tempo sentado, ajeita o cabelo, pega um casaco que estava ali do lado, um livro, um óculos e sai.)

25 abril 2010

a dança

Foram em uns passos de dança que a gente transpirou, se inspirou e se encantou e enquanto a vida tarde e a noite não acaba a gente vai ser mais um bocado feliz.

16 abril 2010

coleção

eu coleciono livros; nomes de escritores ao lado de nomes de romances quem vendem ilusões de romances; coleciono textos de autores da moda pra tentar ficar mais inteligente ou interessante; coleciono all stars, porque desde o primeiro que tive e lhe vi também usando nunca mais quis e conseguir parar; coleciono remédios de nariz, neosoros, tenho um montante aqui vazio e mais um tanto com reserva; coleciono camisas do flamengo que me aguentam nas horas de mais tristeza ou de mais solidão, me fazendo ser parte de alguma coisa; coleciono piadas e dvds, bebedeiras e ressacas; coleciono muitas coisas, mas não tenho fotos e não tenho lembranças, apesar de que tenho a sensação de que coleciono vocês.

15 abril 2010

nomenclatura

Se nesse dia, numa altura errei teu nome
não faça caso, não me destrua
é que diante do teu traço
no viés do teu abraço
diante de tal escultura
falhou-me o passo,
abalou-se a estrutura.
No fundo, no fundo...
ô...
...ô
ô...
querida...
foi erro de nomenclatura.

06 abril 2010

ela sorria (com a palavra)

chovia no rio
cata gota refletia um vazio
a tarde rasgada de fio a pavio
entremeava a fortuita lacuna
entre a primavera do sol
e a decadência do som

a voz não é mais dita
o que se ouve são repetições
ecos antigos, oblíquos, densos
extensos como megafones
que atravessam poucas pontes
que rumam para o oposto

assim me soam as histórias
as paixões, as comoções
os pedidos, as reclamações
tudo como palavra velha
desbotada pela insistência
de apenas uma pessoa que as recebe
mas não mais me escuta
porque a palavra que agora é vácuo
ela antes ouvia como poesia

(e sorria.)

05 abril 2010

uma (quase) história de amor

entrei na rodoviária e o casal estava lá. Ela sentada no colo dele. Ela pequena, magra, cabelo curto e olhos muito escuros, ele boa praça, cara de moço de família, não malhava e cultivava um pouco a barba. Algumas malas perto deles, umas quatro, contando com uma bolsa térmica. Quem olhasse não saberia dizer quem viajaria, se ele ou ela, mas de ninguém escapava de que ali havia uma paixão. Ela sorria com o que ele dizia e ele tímido se arrependia de tudo ter dito. Ele fazia um silêncio e ela silênciava quase triste por ter achado que não agradava. Meu ônibus chega e entro: é também o ônibus dela. Eles dão um beijo e se despedem, ele olha por ela da grade, uma espécie de limite, separação imaginária. Ela guarda as malas no bagageiro sempre aos olhos dele e sempre retribuindo com um olhar também. Eu, do ônibus quase não via isso tudo, sentia que perdia alguma coisa. Ela se sente perto de mim, dois bancos a frente. Ele, que ainda a olha, pega o celular e liga, eles conversam por instantes, sorridentes cá e lá. O ônibus parte, um último adeus e por alguns segundos um silêncio se faz, um corte. Duas curvas depois ela senta na cadeira ao lado da minha e aperta minha mão me entrelaçando os dedos. Diz: "que bom.", eu pergunto: "o que?", ela: "que seja assim, agora." Abaixei a cabeça silenciando, ela baixou a cabeça triste por ter achado que não agradava. Pouco depois me deu um beijo no canto da boca, eu sorri e meu sorriso sorriu nela uma pequena covinha. Viemos em silêncio e não nos largamos até aqui.

entre

Não tenho vontade, não tenho. Não me apetece falar de amor, nem da aurora, me aborrece. A gente se esquece mais rápido do que consegue gostar. Que cesse. Que essa pulsão de agora consiga transparecer num texto dialético, que eu consiga passar esse paradoxo. Talvez haja um amor que se sente e é dele que se quererá dizer, mas dele será a última coisa que se irá dizer, porque nele há uma ilegalidade, um desperdício, uma sobra, um excedente desnecessário.
Vou tentar de novo: As coisas são como são e têm a medida exata do seu tamanho, então é preciso se pensar a partir disso, mas uma coisa que permanece é aquilo que a gente consegue fixar num significado. Tudo que entra no passado automaticamente se torna incerta hipótese daquilo que não é, ganha um tom de dúvida, inexatidão, como uma folha de papel que se dobra errado e não se pode consertar. Mesmo que não se faça nada com a folha, mesmo que vá se fazer tudo, há nela algo de incerto. Existem vozes que dizem e redizem, existem palavras que dizem por nós sem nós. E não existe nós, existe um eu e um você em palavras. Só. E é bom.
juro que acaba aqui, de verdade.

01 abril 2010

prisão

Tá aqui preso. A estratégia suspensa. O cabelo mal penteado e a barba mal feita. Tá tudo guardado, hibernando pra depois, sentimnento de futuro, sofrimento do passado, indecisão do presente, como se a divisão do tempo fosse espacial, como se cada indicativo de tempo demarcasse um lugar, uma situação e essas situações são exatamente o que nos fazem ter algum sentimento. Ou seja, é tudo confuso. Então a gente projeta essas coisas pro futuro, pra algum lugar no futuro, nada no tempo, o tempo se esvairá, pra se criar outra situação e outro tudo, desde o começo, mas enquanto isso vai o cabelo mal penteado e a barba mal feita.

29 março 2010

a rima entrega

e a gente vai sempre vivendo e sentindo até onde aguenta, até onde a vista alcança, e sem tem alguma coisa que a gente guarda e não diz, alguma coisa que ainda não fiz, riscada a giz é porque não teve ainda um fim. Fim sem começo.

22 março 2010

Pra quando chover

Essa é a nova música da banda petropolitana "tribo de gonzaga" em parceria comigo.

19 março 2010

tudo bem...

Começa com um incômodo, um desconforto. Depois lateja, chacoalha, chama toda atenção pra si. Primeiro é um encanto, depois uma cegueira. A primeira mão quem dá é quem esbofeteia. Cão que ladra, sei deixar, arranca pedaço. Não há nenhum tipo de conforto, só aparências. Quem blefa ganha o pote, a melhor mão, direita ou esquerda, é sempre arrancada uma ou outra. Seu bicho de estimação vai morrer, e vai morrer feio, sofrendo, mas é sorte se morrer por si, talvez você possa ter que escolher mata-lo. A menina que você gosta, camarada, só acha que gosta de você e se gosta é por enquanto, se prepara que está chegando o pior. Não levou guarda-chuva, se fudeu, quem mandou não ouvir sua mãe, saca aquela nuvem? Pois é. Apostou, né? Agora vai ter que aguentar tirar foto com a camisa do botafogo, quem manda ser otário. Quis dar uma de espertão, a mulher te largou, achou que estava dominando a situação, mas que nada, era ela. Seus pais não entendem nada do que você diz não é porque você é intelectual, é porque eles tão cansados e porque você é burro e não sabe falar nada direito. Dormiu demais, agora aguenta, tá ficando velho e a vida tá passando. Bebeu demais, tá de ressaca, bem feito, ninguém manda encher a porra dos córneos, otário. Isso, perde metade do dia vendo futebol mermo, vai adiantar de nada, teu time tem chance pequena de ser campeão e se for você não ganha nada, vai zoar alguns caras chatos e depois vai continuar aí, parado. Acha que é muito, que eu devo parar?
É porque no fundo, não faz diferença falar bem ou falar mal. Esse texto, no fundo, é de uma grande esperança, de que tudo seja realmente assim como disse. Se for, podemos fazer o que quisermos e, por fim, sermos livres. Fazer certo, tentarmos ser felizes e se realizar são coisas difíceis demais. Só lembrar que a liberdade está em aceitarmos perder de vez em quando e que até aí tudo bem...

filmes

às vezes eu esqueço dos filmes que vi e não, então fiz uma lista da maioria dos assistidos em 2009. Vou postar aqui só pra não perder, ignorem esse post.
Grato!

linha de passe
valsa com bashir
os delírios de consumo de becky bloom
o visitante
che
gran torino
hiroshima, meu amor
saneamento básico, o filme
katyn
ps I love you
click
marat-sade
território restrito
o céu de suely
um ato de liberdade
x-men origens: wolverine
tony manero
a garota ideal
entre os muros da escola
budapeste
sociedade do espetáculo
sinedoque, nova iorque
um estranho no ninho
os falsários
muito gelo e dois dedos d'água
era uma vez
forrest gump
oito e meio
nina
repulsa ao sexo
os indomáveis
cães de aluguel
I clown
poderoso chefão
sindicato dos ladrões
zelig
vertigo - um corpo q cai
butch cassidy and the sundance kid
os bons companheiros
mensageiro do diabo
querô
viridiana
scarface
veludo azul
sunset boulevard
trama internacional
anti-héroi americano
tinha que ser você
gata em teto de zinco quente
se beber, não case
se eu fosse você 2
veronika decide morrer
nome próprio
os normais 2
a onda
anticristo
os sete samurais
juízo final
amantes
boulevard do crime
a garota de mônaco
batman - o cavaleiro das trevas
reine sobre mim
touro indomável
outubro
a bela junie
o mágico de oz
em paris
o assassinato de trotsky
annie hall
a última tentação de cristo
o sequestro do metrô
um bonde chamado desejo
a mulher invisível
bastardos inglórios
robin hood - príncipe dos ladrões
rosa púrpura do cairo
diário proibido
rosencrantz e guildenstern estão mortos
a primeira noite de um homem

16 março 2010

o grito

O dia começou com um grito. Havia acabado de amanhecer, embora os primeiros passos ainda não tivessem sido dados e os galos hoje ainda não tivessem cantado, embora o céu ainda não fosse vermelho nem amarelado, mas entre azul e cinza, mesmo que já possuindo algumas luzes. As pessoas em seus quartos eram entre seis ou sete pessoas distribuídas em quatro quartos não emitiam sons, dormiam pesado, talvez sonhassem pesado, pois sonho, mesmo quando bom, nunca é leve. Algumas tinham ressaca da noite anterior e pouco se moviam, outras já mais inquietas e diurnas, estavam prestes a acordar, como se o mundo tivesse um dispositivo de lhes avisar e trazer-lhes junto para o sol.

A cozinha estava vazia sem gotas a cair pela torneira, e todas as baratas ao preverem o dia já haviam voltado para seus esconderijos. Na sala, na mesa e no chão, umas latas de cerveja da noite anterior, uns copos e cinzeiros sujos espalhados, no parapeito da janela, em cima da televisão, mais nada, a não ser uma mancha vermelha, talvez de vinho, no chão. Mancha que vem do latim e tem a mesma origem das palavras mácula e malha. Então era no chão a mancha vermelha, na parede uma imagem de santa: maria imaculada; e lá fora, no quintal a dormir estariam os animais: as galinhas, os porcos e as vacas. Todas malhadas.

E aí o grito veio. Rompeu as barreiras de espaço, as paredes, os corredores, ecoou no banheiro e mexeu com o dia. Até o sol, depois dele mandou pra cá um forte raio de calor e luz. Os galos começaram a cantar, os cavalos a relinchar e os porcos eufóricos acabaram por chamar a atenção dos cachorros que resolveram latir pra cima deles. Depois, então , bem depois, as pessoas começaram a sair dos quartos, umas ajeitando um roupão, outras sem conseguir abrir direito os olhos, saíam coçando-os mais que conseguindo olhar, outras iam batendo de porta em porta querendo saber o que havia acontecido, se todos estavam bem. Do último quarto, saiu uma moça loira mancando e vestindo um chinelo azul, todos a olharam, mas ela estava com a mesma cara de todos e perguntando o que havia acontecido. Assim, todos levantaram e foram para a sala: um casal de namorados, dois amigos, a moça, e um casal de adultos, donos da casa. Por alguns minutos falaram do que ouviram, no entanto, com o tempo começaram a duvidar daquele grito que acordara a casa, o dia, os animais, todos, mas não existia, não havia ninguém que pudesse ou fizesse o grito ter saído, não havia sequer um eco, um resquício e agora até as testemunhas já estavam a vacilar, a duvidar de que tivessem realmente ouvido aquele som.

Então, aos poucos, quase como se não tivesse vindo, o grito se foi. Silencioso e plácido, acalentador e pacífico, se retirou da vida das pessoas que agora juntas tomavam o café da manhã, enquanto viam juntas o sol nascer e o dia clarear. Depois arrumaram as coisas da noite anterior e segundo a segundo foram retomando a vida novamente, seus hábitos, suas práticas, mas agora era diferente, havia tido um grito que se não veio do céu, ninguém mais pode dizer de onde veio. E a mancha ficou.

15 março 2010

cegueira

Eu estava cego. Pela primeira vez eu estava cego. Andava me apoiando pelos muros, grades e quinas, só dava alguns passos quando alguém me ajudava, só atravessava a rua quando quando confiava na voz de quem me guiava. Eu podia ver, mas estava cego. É que quando eu focava muito uma coisa e achava que era aquela coisa que coloriria minha vida, eu cegava, começava a perder a lucidez, perdia a amplitude, perdia a capacidade de discernir. Eu estava cego e não conseguia dar a volta para olhar o mundo. Fazia um tremendo sol e eu não via, porque eu estava cego.

09 março 2010

saudades

"saudade, torrente de paixão
emoção diferente que aniquila
a vida da gente
uma dor que não sei de onde vem"

Sempre achei essa música linda e hoje senti saudades, mas saudades diferentes que nunca havia sentido. Saudade de pipoca, de futebol, de ficar todo suado e com o corpo exausto que a cabeça não pensa em nada. Saudade de acordar cedo pra ir pra minha escola, no frio perto de casa, e reclamar de acordar cedo e de dormir na aula, ou fugir do professor chato. Saudade de ser muito jovem e agir feito criança, de ter vontade de desenhar na parede, de comer algodão doce porque estou feliz. Saudade do meu pai me esperando na saída da escola e de ter uma certa vergonha disso, saudade da primeira cerveja e do gosto dela, saudade de ter alguns sentimentos pela primeira vez, de ter muitas coisas pela primeira vez. Saudade de errar feio, de errar com um talento um impressionante, saudade de cometer os melhores erros do mundo. Saudade de poder ser exagerado sem sofrer, de não precisar encher a cara vez em quando, de não ter amizades de protocolo, saudades de achar ficar em casa bom porque me sinto protegido, saudade de me apaixonar loucamente e ser um ímbecil todos os momentos em que penso na pessoa. É, hoje tá estranho...

08 março 2010

haikai

o amor pode ser uma coisa boa
coisa boa sinto que o amor não é
mas falta ser boa a coisa boa que o amor é.

06 março 2010

buraco de sábado

Entre a cura da ressaca de sexta e a noite de sábado existe um buraco. Não é exatamente entre a cura da ressaca, é uma parte daquela tarde, depois que a gente almoça e já se sente um pouco melhor, o corpo já volta ao normal, mas a cabeça demora um pouco. Primeiro a gente começa a pensar na noite anterior e percebe que ela não foi nada diferente de muitas outras, depois pensa como ela poderia ter sido, o que poderia ter feito ela ser melhor, depois a gente pensa que não adianta de nada tentar mudar alguma coisa porque tudo que fazemos é escolha nossa, e por mais que se diga que coisas acontecem acredito que é sempre escolha nossa. À parte: por que um sentimento é uma escolha nossa? Justamente porque não é escolha, a gente sabe que vai sentir algum tipo de afeição, ou seja lá como se chame, logo podemos escolher a hora e a pessoa, nos deixar envolver ou não. Voltando, daí pensa o que a gente pode fazer pra que nossa próxima noite seja melhor, ou algo que a gente não fez ontem ou que mesmo fazendo gostaria de repetir. Tudo isso é tão randômico que fica impossível. A verdade é que a gente escolhe se encontrar pela noite e assim aceita tudo que ela tem a nos dar, por isso ela é tão importante em nossa vida e tão difícil de largar. É desse sentimento de tarde que passo agora e refletindo mais percebo que não quero muita coisa, quero só que hoje seja o dia em que algum tipo de alegria reine.

05 março 2010

um filme e uma noite

Ligou a televisão para assistir um filme. Assistiu metade e levantou para buscar uma coca-cola enquanto refletia se era bom ou ruim o que via; pois tinha logo que achar um veredito. Já haviam-no recomendado que visse esse filme algumas vezes, mas havia dito que não gostava do gênero e o ator principal era um canastrão. De novo em frente à tv foi recebendo passivamente as informações daquela narrativa: o ritmo, a pulsação, a trilha sonora, a força e a forma dos diálogos, o excesso de objetos, a sensação de fobia, podia sentir até no fundo alguma coisa de cheiro. Absorvia tudo e agora já absorto conseguia dar alguns sorrisos de lado, sorriso ainda intelectual, e sentir algum tipo de empatia pelo protagonista. Na verdade, começava a se juntar a personagem principal e via nele características que poderiam muito bem ser suas se assim o quisesse. O filme acaba, ele levanta, leva o copo de coca até a cozinha, entra na internet e deixa o msn ligado, algumas vezes falam com ele enquanto ele separa a roupa pra sair, mas ele responde apenas monossilabicamente, talvez como num jeito de não se prender aos fatos ou de não se desprender do filme. Fecha a porta do quarto e fuma um cigarro olhando pela janela, a cabeça está tranquila, sente-se confortável. Toma banho e se desconecta da internet.
Na rua é o último a chegar, pois gosta de criar lacunas naquilo em que se pode prever dele. Começa tímido sem falar muito, mas depois de algumas cervejas se junta a um grupo pequeno e trava conversas batalhas, alguns momentos se solta e se permite fazer piadas ou trocar um elogio, até que a noite se extende até momentos que não consegue narrar. Num dado momento, no banheiro, pára e pensa: "até que não sou tão diferente daquele personagem.", mas lava o rosto na pia e por fim conclui: "nada, aquele personagem que ainda tem muita coisa de mim." E volta para a noite com um novo e renovado espírito. Sabia que tudo correria bem.

01 março 2010

sentimento breve

O que mais me incomoda no mundo é o eterno desarranjo entre palavra e vida. Há alguma coisa bonita, não importa se é envolvimento, amor, ficada, o cacete, não importa, e está tudo bem demais, até que alguém resolve pensar sobre aquilo, resolve transformar em palavra, aí vai tudo por água abaixo, porque um envolvimento, um amor, uma ficada não resiste a uma palavra. Quanto mais se diz, mais se destrói, quando mais se tenta entender pior será. Então a gente entende que toda despedida nada mais é que a hora da palavra, o verdadeiro momento que ela se concretiza, onde não há mais nada, só um carinho que a gente esconde e guarda. O resto continua sendo silêncio e os beijos a gente guarda pra mais tarde, pra depois, pra outra pessoa. Até que fica só uma saudade, mas um sentimento saudade, uma coisa sem palavras de que tudo poderia ter sido diferente, melhor, como se qualquer erro fosse só um tempero e como se qualquer breve amor durasse pra sempre dentro de nós.

26 fevereiro 2010

sexta

É sexta-feira e antes de sair é tudo muito maneiro. As músicas que rolam no som são diferentes das que eu ouço normalmente, o clima de casa também, o jornal nacional parece não ter o mesmo peso ou importância e o mau humor do meu pai me traz uma sensação de liberdade: uma que vira em poucos momentos. Pensando nas sextas-feiras é que muita gente consegue viver, elas são feitas de um conteúdo peculiar, como uma lagoa ou uma poça d´água que se diferem de um rio. Ela é o primeiro dia do final de semana, então tem um toque especial de alegria, enquanto que o sábado já lembra terça-feira de carnaval. E eu vou escrevendo assim loucamente, conforme meus dedos correm porque não quero perder um momento, nem com reflexões nem com bobeira, afinal de contas, é sexta-feira (rimei).

24 fevereiro 2010

quando chove

Algumas coisas são matemáticas. Há quem seja cético até quanto a isso, mas não creio. Uma chuva cai exatamente na hora que ela tem que cair, ela se anuncia várias vezes, se emenda, ameaça, chuvisca e para, mas nunca cai nem um segundo mais tarde do que deveria. Tanto que, pegar chuva ou não nada tem a ver com sorte, mas sobretudo com perceber a matemática que há nela e entender que alguma coisa na natureza vence, não há como fugir.
Algumas coisas são sentimentos. Há quem seja cético quanto a isso, mas não creio. Uma chuva cai exatamente para concretizar, materializar algo que está anuviando nossa cabeça. Alguma coisa ainda meio difusa, que apareceu somente como lampejos em nossa cabeça viram fatos com ela. É batata, choveu a gente percebe o que estava querendo entender. Um aniversário que chove, uma tarde que chove, um jogo fatídico de futebol, um fim de romance. A chuva vem sempre nos mostrar aquilo que todos já estão a sentir. Chove por dentro e por fora, mesmo sem lágrimas.
Algumas coisas são racionais. Há quem seja cético até quanto a isso, mas não creio. Uma chuva por exemplo é simplesmente a confluência de nuvens que se carregam em determinado ponto e vão cair numa hora que só a ciência prevê. É a ciência que se antecipa à natureza e a engole, como se a natureza fosse mero objeto e a chuva servisse pra provar a supremacia da razão.
Pra mim, a chuva é só o que cai do céu. Quando chove há festa, por isso se chover a gente dança toró, se fizer sol a gente feito um só.

22 fevereiro 2010

sem escalas

Há pouco tempo vi o filme "amor sem escalas". A pseudo comédia romântica conduzida de forma leve, mas dramática traz a inversão do papel clichê de homem-livre x mulher-romântica. Só isso já proporciona um deslocamento pro filme que até então não havia me dado conta, mas que me veio hoje, mas reflexões a parte, uma frase me chamou atenção dentre as outras do filme. Em algum momento alguém pergunta: "nos momentos mais marcantes da sua vida você estava acompanhado ou sozinho?"
Pensei nisso e juro que sou incapaz de responder. Acompanhado sou sempre mais intenso, mais feliz, mas ao mesmo tempo esses momentos são fugidios, escapam por mim tanto que fico dias e dias a pensar neles e tentar entender o que foi que aconteceu, enquanto que sozinho consigo refletir, pensar, repassar cada momento e assim viver e reviver os momentos agora com minha dose de razão e minha dose de emoção, consigo enfim entender o que se passa comigo. Geralmente tiro três conclusões: a impressão que ficou, o que minha razão diz e o que minha emoção diz, isso quando não há variáveis entre essas e issos e multiplica. Daí vira um confusão danada e não entendo nada. É a hora que preciso viver de novo e sentir menos saudades.É como se eu tivesse que viver, às vezes, sem rodas essas escalas.

19 fevereiro 2010

queria que pudesse entender...

Passei essa tarde nublada pensando um pouco. Queria entender quais são os momentos que marcam a nossa vida, se são aqueles intensos de extrema alegria, se são os tristes - aqueles que criam uma crosta grande e pesada que carregamos pra sempre -, ou se são aqueles simples - belos, mas simples - que passam rápido.
Percebi que não há regra, cada um há de ter momentos aleatórios que marcam, mas percebi também que os mais simples, esses belos, transparentes, que fluem como riacho ou pousam como lagoas são os que mais fazem falta, porque são neles que carregamos nossas baterias, que percebemos que precisamos de pouco pra viver, mas ao mesmo tempo, também percebi que esses momentos são os mais trágicos porque geralmente tangenciam uma espécie de fim. De tão únicos que eles são, se tornam linhas que se desfazem e tornam a situação complexa novamente.
Tinha mais a dizer, mas por enquanto é só isso. A felicidade ainda reina.

17 fevereiro 2010

o carnaval

O carnaval é pra mim uma das coisas mais difíceis de se falar, porque costumo falar de sutilezas e nada ali é sutil, muito pelo contrário, é brutal, é exagerado, é câmara de gás, calor, suor, som e sol no último nível. A sensação que eu tenho é que todos vivem pensando que se o ano todo fosse assim, elas seriam felizes, então elas se fazem felizes, se tornam felizes. Quem sabe a felicidade não seja apenas uma questão de ultrapassar uma linha tênue entre o que se é e o que se pode ser, ou o que pontencialmente já se é, mas que não se vive?
Eu no carnaval não testo meus limites, eu ultrapasso todos logo. Transbordo. Testar limites é meio que os por a prova e não há o que se ser provado no carnaval, a não a cerveja ou o novo passo de dança. Testar é por em cheque, carnaval é o oposto disso, é esquecer os jogos, o cheque e o choque e é preciso força, muita força pra aguentar a barra, principalmente que chega uma hora que vem tudo cobrar a gente, primeiro porque não podemos ser assim, depois porque achamos que não deveríamos ter sido assim e por fim porque percebemos que somos tão assim e que sendo como se é, nesse estado, geralmente muitas coisas dão errado.
Meu carnaval foi tão feliz que eu resolvi filosofar seriamente, porque contar sobre ele é uma coisa que deve ser evitada.

09 fevereiro 2010

filosofei no msn

ziul diz:
talvez
uhauhauhauhhuaa
é meio complexo de édipo mesmo
mas multiplicado
a gente vai gostando sempre da primeira referencia
a gente gosta muitas vezes da mesma pessoa em pessoas diferentes
filosofei

08 fevereiro 2010

menino devagar

"só peço a você um favor, se puder
não me esqueça num canto qualquer"
o caderno - Toquinho

É sobre algumas coisas meio que singelas que é mais bonito falar. De um caderno, de uma tarde, de um sorvete pra descansar do calor. Muito comum coisas assim estarem nas minhas letras de música, acho que é porque elas materializam muito bem sentimentos e sensações, ou seja, corpo e espírito. Uma delas que fiz faz tempo chamada "menino devagar", com melodia de Francisco Ferraz diz:

"A pele clara como sol de primavera
o rosto dela me lembrava o verão
e os seus passos eu seguia atravessando a avenida
e descansava com um suco de limão"

São algumas imagens, mas que me lembram exatamente de uma tarde, que não verdade não existiu, ou ainda não existiu ou que talvez nem venha a existir, mas representa essa sensação bastante forte. É dessas singelezas que fazem a alegria e 2010 até agora tem sido assim. Essa música, só pra saber, termina assim:

"Como não ser uma lembrança
o seu menino, a esperança
que devagar vai procurar um sonho bom..."

04 fevereiro 2010

colheita feliz



Uma vez um rei disse que não havia nada novo debaixo do sol. É difícil acreditar que reis digam algo que não seja pelo interesse particular de seu reinado, e portanto, principalmente tendo em vista a manutenção do seu trono Haver coisas novas, então, era ameaçador. Ele vivia, torcia e dizia, como numa religião que nos sete cantos do mundo não havia novidades por debaixo do sol.
É complicado, porque há muito que dizer sobre isso, mas o que mais me chama atenção é que numa frase tão simples e que se repete por aí esteja tão formulado, carimbado, tatuado uma série de idéias, formas de convivência em sociedade que só servem para reiterar problemas e explorações. Assim, há que se ter alguém que diga algo, há quem o repita, há quem o reitere, há quem o siga e principalmente há que o afirme e o transforme em verdade. Há o movimento claro da exploração, inclusive o espaço para que se duvide e discorde, entretanto é exatamente em todo esse equilíbrio entre as forças que não disputam, mas coexistem numa opressão mascarada, que tudo funciona. Isso chega a tal ponto que se houver alguma coisa nova debaixo do sol, esta será automaticamente apontada e ou será incorporada para repetição como um novo velho ou um novo zero, ou será excluída e dizimada. Esse rei que diz que não há novidade é mais um ditador, um imperialista, um facista. E todos que estão debaixo do sol somos nós a trabalhar pelo velho e o sol é o velho deus que nos observa, como quem joga conosco colheita feliz.

03 fevereiro 2010

o caminho

O caminho de casa até a rua era sinuoso: passava por escadas, becos, entradas, casas vizinhas, um pequeno riacho-esgoto, algumas crianças a brincar, uma ponte em falso, alguns caminhões de obra e uma descida íngreme, até que culminava na movimentada rua. O rapaz, discreto, enquanto descia o caminho de sua casa, tentava não ser percebido, andava de cabeça meio baixa, ombro curvado, mochila nas costas sem fazer ruídos; pisava delicado, como se estive tentando não acordar a vizinhança, muito embora fosse ela inteira que fizesse todos os ruídos e não ele. O cinto mal ajustado incomodava e a camisa pra dentro da calça embora parecesse bonita, lembrava ele de que estaria por cima da cueca e que sem as calças a cena seria engraçada e até grotesca. Tinha vergonha do que era e principalmente do que era e estava escondido. O problema era: porque ter vergonha do que já escondia? Não sabia. Por isso que os becos, o riacho, a ponte, os caminhões e o cinto faziam tanto parte do que ele era e ali ele não queria ser visto. Era também aquilo tudo e gostaria de se misturar.
Chegou na movimentada rua e viu os faróis piscando, as buzinas tocando, as pessoas correndo, andando, falando ao celular, pouco entre si e muitos vendedores tentando ganhar a vida. Ali ninguém lhe percebia, era o oposto de tudo, podia andar altivo, forte, feliz, por mais que estivesse mal se misturava no movimento o que lhe dava a sensação de felicidade, tudo isso porque aquilo não lhe pertencia, logo poderia ser dele. Ou seja, o que não era dele estava em suas mãos como nunca enquanto que o que controlava não podia jamais ser seu, ou por fim sair fo controle. E nesse equilíbrio ele seguia pela cidade rumo ao trabalho. Talvez vá vencer.

02 fevereiro 2010

sempre estético

É absurdamente complicado e justamente por isso demorei alguns dias pra vir escrever aquilo que na minha cabeça já se formara. Eu prezo tanto, inclusive nos últimos textos sobre o lado estético das coisas, da escrita, da vida e da forma como quase na totalidade das vezes nos relacionamos com o lado estético do mundo, enquanto que aquilo que não nos apraz esteticamente fica de lado, causa até um certo asco, nojo mesmo, algo repele aquilo de nós.
Daí, daííííí entramos pra falar da vida pessoal, relacionamentos e tento recolocar o mesmo fato, mas a partir daí ferrou. Vou acabar pegando num monte de hipocrisias, porque a maioria diz que "não repara no exterior na hora de se envolver", mas elas dizem isso justamente pelo fato que não gostariam que só fossem olhadas assim, e principalmente porque elas precisam se defender da mesquinhez (ou sinceridade) que é assumir uma animalidade nossa. Preza-se tanto pela razão, que ser estético é quase ser animal. O problema é que isso cria uma espécie de nulidade, um zero-esforço que cada pessoa tem de fazer quando se relacionar com alguém, pois está tudo entregue ao puramente contato físico. Isso é um problemas, mas sempre há de ser assim...

01 fevereiro 2010

zerada.

sempre que um novo sorriso desponta, o meu também o fará. sempre que houver uma nova vida, pura e bela nascendo, a minha também renascerá. Vivo pela vida dos outros, pela felicidade, pelos amores e pelas realizações deles, não que eu não viva, mas é que ao narrar tudo é tão mais estético, enquanto que a vida real é sempre tão errada, zerada, amarga, como se nada nunca fosse ser realmente bom.

18 janeiro 2010

preocupar

É comum eu me preocupar. Porque na verdade mesmo, assim, na lata, existem duas preocupações e a gente oscila sobre elas: "estar ou não estar." Pode ser metáfora, mas não é tanto, ou é quase nada. Ou a gente está e se faz presente e cuida da gente e dos outros e toma cuidado com o que faz e se esforça pra fazer sempre diferente, não entediar ninguém, se arrumar pra estar bem, bonito, ou pelo menos apresentável, se divertir, rir, aprender coisas e ensinar coisas, estar pronto pra ouvir desaforos e dizer coisas bonitas e vice versa, ou simplesmente não está, se faz pela ausência, se tranca em casa, de preferência no quarto, faz todos sentirem saudades e se enjoarem entre si, correndo o risco de que isso nada venha a acontecer e você seja esquecido, fica desleixado e deixa a barba crescer, preferer ir pro bar quase sozinho e ver um futebol, jogar poker sozinho, compor pra si e andar na rua a esmo, errar mesmo - errante - com um livro no braço e óculos pra dar a impressão de que não quer ser perturbado.
É isso, escolhe, todos temos que o fazer. É o mais difícil, por isso digo que não tem como não se preocupar.

15 janeiro 2010

conhecimento e amizade

Cheguei a conclusão simples de que não sei quase nada na minha vida e percebi que isso faz parte até da minha maneira de encarar a sociedade, a política, a religião e quase tudo que se possa proferir opiniões, ou criar idéias, ou sei lá, qualquer coisa que se prententa.
Percebi que tudo que a gente quer saber a gente tem que controlar, dominar, como se o conhecimento fosse um cavalo arredio, ou gato arisco, ou um balão que no menor descuido se afastasse da gente e tomasse um rumo aleatório. O conhecimento ou a sabedoria seria essa âncora, esse arreio, que segurasse o pensamento, que o prende e o coloca numa jaula para exibição e a partir dali qualquer reflexão serve para reiterar e aumentar esse conhecimento.
Então cheguei a conclusão, assim, ao refletir sobre uma discussão de que meus argumentos podem parecer inconsistentes justamente porque sou incapaz de amarrar o que eu conheço, e acho que o que se sabe não deve ser amarrado, e sim deixado livre, como uma escultura fora do molde, como pássaro criado solto. A sabedoria deixada solta ganha movimento, ganha amplitude, ganha experiência, ganha riqueza, enquanto que o encarceiramento dela ganha excesso de rebuscamento e falta de nitidez, simplicidade e humildade. Porque tudo que se conhece deve ser humilde e ingênuo, qualquer coisa fora disso pode e é bastante perigoso.
Resolvi falar tudo isso depois de pensar sobre a amizade e percebi que meus grandes amigos são assim, soltos, porque não sei muito bem o que é amizade, até porque pra realmente saber deveria ter controle dela e isso é algo, que como o conhecimento acaba tirando a gente daquilo que a gente mesmo precisa pra ser feliz.

(escrevi isso depois de muitas cervejas e temo não ter sito claro)

14 janeiro 2010

meu tio

De casa ouvi a explosão, depois o grito. Era o rapaz que mora e trabalha aqui em casa. Quase um tio pra mim, pois me viu nasceu, me carregou no colo, tomou conta de mim, assim como o fez com todos os primos. É um negro que mora em um barraco que construímos. Um cômodo, onde ele tem luz, uma televisão e uma cama improvisada. Corri para lá e estava tudo queimando. O álcool que ele usava para cozinhar explodiu com o fogo, queimando seu braço e sua perna; chorava de dor, mas estava tudo escuro, nada podia ver. Horas antes eu chegara em casa junto com ele, que havia dito que fora comprar um frango no supermercado, que a janta de hoje seria boa. Voltei e peguei uma lanterna, vi parte do colchão destruída, o fogãozinho e o frango ainda no saquinho caído no chão. E ele chorava. Tive vontade de chorar com a injustiça desse mundo, tive vontade de reclamar com alguém, de gritar, de fazer alguma coisa para que isso nunca mais voltasse a acontecer. É como se eu tivesse uma dívida para com ele e devesse sempre protege-lo do que o mundo não o havia preparado. É como se eu tivesse uma dívida com todos os ele que existem. É um arrepio antigo que já nem sei mais o nome. Pegamos sua identidade numa bolsinha e o levamos ao médico, tudo está bem, mas o sentimento de injustiça permanece. E eu, ao contar sua história aqui, faço-a como homenagem; é quando percebo que não tenho fotos com ele, talvez uma ou outra num álbum antigo. Novamente aquela culpa e aquela dívida. É que a vida faz a gente ser tão assim como a gente é e o tempo vai passando. Parece desculpa, mas o tempo sempre vai passando...

12 janeiro 2010

ao correr dos tempos

Há quem diga que existe o raso e o profundo, o estreito e o largo, a luz e a sombra. Não creio. Creio que há algo na superfície e algo imerso, estreitos que sobram e largos apertados, e algo entre a luz e a sombra que é indefinição, como se não houvesse traço que os separasse e por isso não houvesse diferenças.
E que coisas no mundo que não são assim? O que há no mundo que não seja exatamente na superfície que o mais profundo que se materializa? Digo que as coisas se fazem na sua contradição, na disputa, na briga. A paz não é criativa, pelo contrário, ela é o momento em que tudo vira lagoa.
E eu, ao correr do tempos ou no silenciar da canção, sempre preferi o mar.

08 janeiro 2010

o cão

Era como um cachorro, na verdade era um cachorro. Eu sei que os cachorros andam se repetindo por aqui, mas é que existe neles uma metáfora que ainda está incompleta. Ele latia do umbral da porta, mas não saía, dormia no canto mais quente da casa, adorava duchas e mimos. Conversava sempre que possível do seu jeito meio atrapalhado, aredondado e inseguro, mas conseguia até que se sair muito bem. Algumas vezes se sentia um rockstar e tinha certeza que dominaria o mundo, às vezes gostaria de estar na tv ou ter sotaques, quem sabe latir mais alto ou melhor.
Dormia às vezes leve e às vezes cansado, esperava sempre a hora certa de querer carinho ou uma brincadeira, qualquer coisas que acendesse uma centelha do que tinha, mas acontece que quando acesa era um farol, uma fogueira, um incêndio. Ele sabia disso, havia feito uma vez pra nunca mais. Não que não quisesse, não era requerido, acostumava-se a viver dessa maneira, entre latidos da porta, cochilos no sol, desejos incompletos e esperas por carinho. Era feliz porque tinha coisas boas, mas não podia deixar de ser melancólico, porque simplesmente na maioria das vezes a vida o é.

07 janeiro 2010

sucos




Na indústria e no mundo atual tudo tem nome. Deboir estava certo quando falava da autonomia das imagens, tudo tem nome, tem imagem e logotipo, e essas coisas se fudem, se associam. A graça está no esvaziamento da essência, de qualquer essência, de qualquer coisa que pode parecer essência. Isso seria interessante se eu estivesse falando de alguma coisa abstrata, mas não, foi ao conversar sobre esses sucos de garrafa e copinho tipo ativplus que percebi. As coisas nem nos sentidos são o que são. Esses sucos de laranja com acerola não têm mais gosto nem de um nem de outro, muito menos deles dois misturados, e a cor, presa dentro do copo de um modo que quase não possamos ver é artificialmente colorida. Então, amigo, se você não gosta de laranja, toma esse sujo de laranja, ele é diferente. Açaí? não gosta? É porque você ainda não bebeu o acaí Ikó.
E assim, aos poucos, as coisas deixam de ser incômodas pra gente, tudo vai virando normal. Tem que ser saudável? Tem agora o actívia que faz tão bem quanto uma salada e tem em sabor morango, frutas cítricas, que beleza.
Nada mais é absolutamente nada, tudo é, na medida em que nos traz conforto, comodidade e nos mantém onde estamos, sem nos mexer, apáticos.

(e venda.)

06 janeiro 2010

última vez

Na última vez que nos vimos (juntos)
Havia no seu olhar tristeza
E no meu argumento e desespero
Havia em você uma certeza –
Ainda nebulosa pelas quinas –
De que rodopiaria a vida
Como ela era até então

Na última vez que nos vimos (juntos)
Havia algumas lágrimas de crocodilo
Havia a gente numa lanchonete –
com as piadas que ali fizemos
que ficaram perdidas em mp3 –
Quando na despedida de leve
Alguma coisa se quebrou

A partir dali não mais nos vimos (juntos)
Vimo-nos às vezes eu, às vezes você –
Mais eu, é claro, embora negue –
Até que pouco tempo depois
Você aos poucos cegava,
Embora ainda sentisse.

A partir dali só eu via
Pelo dois...

05 janeiro 2010

férias

férias é um período lacunar, por isso deve ser mais explorada não como uma época em que a gente se ocupa de divertimentos, mas pelo contrário, uma época onde nossa ocupação é nos desocupar para abrir espaço, abrir sala, praquilo que no futuro vem.

29 dezembro 2009

.2 - apêndice

saca: http://ouziul.blogspot.com/2009/12/2.html
francisco... diz:
muito bom, cara. o texto tá ótimo, apesar deu não concordar com a ideia
ziul diz:
pq?
francisco... diz:
pq vc conclui que existe uma funcionalidade primeira pras coisas, como se fosse algo natural
e com isso eu não posso concordar
ziul diz:
nããão...funcionalidade da palavra.
não das coisas.
francisco... diz:
sim
mesma coisa
e vc fala sim das coisas
ziul diz:
não, não falo não.
falo q não tem pq ignorar o sentido óbvio, material da palavra.
pq ela existe pq antes disso a coisa existia.
e a coisa pode ser outra coisa, a palavra antes de ser, é ela mesma
francisco... diz:
é disso que eu discordo
ziul diz:
aaah tá.
francisco... diz:
Então fuçar, chafurdar e ciscar é tão forte, submisso e modesto quanto isopor, fronha e cabine-dupla são necessários, úteis e facilitadores.
ziul diz:
mas essa frase não tá dizendo isso, tá dizendo q os adjetivos vem depois e poderiam ser qualquer um
francisco... diz:
então
é com isso que eu não concordo
é que a palavra dá o significado, e vc fala como se a coisa existisse e tivesse um valor ou um significado em si, e a palavra viesse só pra facilitar ou explicar isso
ziul diz:
NÃÃÃO.
eu digo q a palavra é cristalizada e a ação não!
francisco... diz:
uhuahuhu então vc se explicou mt mal
escreve essa frase aí no texto

.2

O cachorro fuça, o porco chafurda, a galinha cisca. Todos verbos que parecem ter sido feitos exatamente para cumprir as funções que cumprem, suas sonoridades se coordenam perfeitamente com as ações e não permitem embustes ou adaptações, por exemplo, se o cão resolve chafurdar perde um pouco de sua canilidade e o mesmo aconteceria com a porquidade do suíno se resolvesse ciscar. A galinha não é bicho, é gênero, pois o galo não cisca, o galo vive uma esfera maior dos animais, como se nos galinheiros houvesse área vip e eles, como estátuas, fossem criados e servidos como formigas-rainhas, enquanto que galinhas e pintos “chafurdam” por entre a miséria do galinheiro, fuçando os restos para o outro e para si.

Aposto que nesse exato momento, quem quer que me leia está imaginando metáforas. A mente humana, estúpida na sua criação tem essa tendência, detesta o concreto e já tenta logo construir um outro sentido para aquilo que se vê ouve diz fala toca, bobagem. O concreto é ainda muito melhor que o metafórico e o abstrato nada mais é do que a forma do concreto. Então fuçar, chafurdar e ciscar é tão forte, submisso e modesto quanto isopor, fronha e cabine-dupla são necessários, úteis e facilitadores.

Tirar da matéria a matéria é tirar do chão o piso, do leite o copo e da mente o erro. É esquecer que se chafurdam é porque foi preciso chafurdar e não há nada que se possa fazer.

24 dezembro 2009

incondicional

Eu sempre achei que o amor, que o grande amor, fosse incondicional, que quando duas pessoas se encontram, quando esse encontro acontece, você pode trair, brochar, azar, todas as porradas. Se for o grande amor ele vai voltar triunfal, sempre, mas não, nenhum amor é incondicional, então acreditar na incondicionalidade é decididamente precipitar o fim do amor, porque você acha que esse amor agüenta tudo então de um jeito ou de outro você faz esse amor passar por tudo e um amor não agüenta tudo. Nada nessa vida é assim, daí você fala que esse amor não tem fim para que o fim então comece. Um grande amor não é possível e talvez por isso, por não ser possível, é que seja grande e que assim, importante ele pode fazer também o impossível, mas quem acredita? Quem acredita no impossível que não seja apaixonadamente, como à um deus, incondicionalmente.

michel melamed.

23 dezembro 2009

sentimento de fim de ano

Hojé é 23 de dezembro de 2009. Fisicamente estou exausto, fui a muitas festas, dancei muito, bebi muito, brinquei muito e só hoje percebi que o tempo passou. Foi tudo bom demais, melhor até do que eu esperava. Esse texto parece biográfico, mas não é, pode ser tudo mentira, pode ser tudo verdade, mas o que estou tentando falar nele é de um sentimento. Esse de passar muitos dias com as pessoas que se gosta e agora, pela primeira estando sozinho, lembrar de como foi muito bom. Então bate uma saudade até do que não fizemos, bate uma saudade de um ano inteiro que passou e dá vontade de agradecer por tudo que ele fez. Amanhã é véspera de natal, depois vem o ano novo e tudo volta ao normal. Só que agora, nesse instante, é isso que eu sinto e gostaria de agradecer por tudo que tenho recebido.

18 dezembro 2009

os mosquitos

Eu tenho um pouco de inveja dos mosquitos. Eles me parecem sempre tão independentes, fortes, inteligentes, perspicazes. A impressão que tenho é que eles ficam a espreita e esperam a melhor hora para entrar em nosso quarto, depois ficam circulando por ele, até que se mostram para gente, meio zombeteiros. Pouco depois, começam o ataque que consiste em rodear, rodear, e fugir de nossos golpes, até que numa distração, eles pousam na gente e sugam nosso sangue. Sem dó, rápido, perfeito. A gente não percebe e em poucos segundos começa a inchar. Eles, vencedores, dão mais algumas voltas e pousam na parede, felizes e satisfeitos. E zombeteiros de novo não ligam de morrer, ficam ali curtindo a vitória e por fim, quando a gente consegue mata-los eles sujam nossas paredes e chinelos com nosso próprio sangue. A missão deles, no fundo, talvez seja nos ensinar humildade, mostrar que como um ser pequeno nos vence e materialmente, expondo-nos o nosso sangue faz com que a gente se defronte com nossa morte.

17 dezembro 2009

a fila

tive com uma senhora na fila do ônibus. Era uma dessas velhinhas simpáticas e carentes que o filho mudou de cidade pra só visita-la uma vez por mês. Disse ela:
- o problema são as filas.
Achei que ela estava puxando assunto igual as velhinhas fazem e ignorei.
- São as filas, eles conseguiram.
Fiquei curioso e perguntei:
- Eles? Eles quem?
- Meu filho, é isso. São as filas a forma que eles usam pra controlar a gente.
- Como assim? Filas? Eles?
- É, exatamente. É uma maneira de nos fazer presos aos desejos, de fazer com que conquistemos nossas vontades, anseios, mas que percamos nossa força de lutar, de ver o que é justo. Por exemplo, como chego em casa se eu sair dessa fila?
- A senhora poderia ir a pé.
- E seria justo que eu fosse a pé com a minha idade? E mesmo que eu fosse nova, o certo não seria termos a liberdade de escolher como vamos?
- Mas temos, temos sim. Eu posso ir a pé.
- Que nada, você escolhe entre pegar fila ou não, não entre ir de ônibus ou a pé. O meio fica secundário.
- Mas é que é muito difícil, é muita gente nas cidades. Por mais que eles façam...
- Nada disso, meu filho. Isso é o discurso deles, claro que os problemas são grandes, mas todos nós pagamos pra que os problemas sejam resolvidos. Quem paga assinatura de jornal, recebe o jornal, quem paga as contas deveria ter os benefícios.
- Entendo, mas isso me parece distante.
- Distante nada, eles fazem isso pra que só possamos reclamar no máximo ali com o fiscal. E reclamar da fila, não do problema em si. Já o fiscal nada pode fazer e a gente fica com a sensação de que nós também não.
- E como mudar isso?
- Não tem mais jeito. Ou abandonamos a fila ou permanecemos nela.
- A gente pode criar um problema, sei lá, tipo uma rebelião.
- Claro, e quem sairia perdendo? Quem está aqui. Levariamos mais tempo em nossos destinos, nossas casas, nossas famílias.
- Então estamos presos a essas filas?
- Isso. Estamos presos a todas as filas. A vida, no fundo, é um intervalo entre filas.
- Vou a pé, só hoje! Adeus.
- Vá meu filho...

Saí pensando em como poderia ter andado menos, daí me senti injustiçado, meio sem forças, meio corajoso, mas nada fiz. Cheguei em casa e só.

11 dezembro 2009

07 dezembro 2009

flamengo




O primeiro som do meu dia foi do meu pai tomando café na cozinha. Sabia que aquele dia seria diferente e mais que sabia, tinha uma intuição de que seria o melhor dia da minha vida. Rolei pela cama fazendo planos entre o sono, a ansiedade e o medo do fracasso. Porque ter uma paixão é atirar-se ao acaso e não perceber que dele se fará a vida após aquele instante.
Depois me levantei e vesti o manto. Dei bons dias e olhei para a janela. Não tinha sol, anúncio de um dia nublado. Menos mal, penso eu, quando tudo parece ajudar é que o fracasso vem. Um belo sol poderia iluminar mais esse caminho que eu nem queria pensar. Tomei meu café e sentei na varanda a olhar o jardim. Eu me mexia muito de nervoso e cheguei a pedir calmante pra mim mãe, dizendo que assim como tava, eu não ia aguentar.
A hora num passava de jeito nenhum e eu queria morrer um pouquinho para viver muito mais daqui a pouco. O telefone começa a tocar e as pessoas dizendo pelas entrelinhas que era dia de abraçar, dia de mudar a vida, dia daqueles que nunca esqueceremos. E eu dizia que hoje o dia era nosso e de ninguém mais. Ninguém.


Até que dá uma hora antes e eu mudo a bermuda, visto um tênis e vou pra rua. Comprimento os desconhecidos que vestem o mesmo manto que eu, sorrio para todos, pego uma cerveja e vou. Chego no meu destino e a partir daí é só alegria. Choro porque ainda sou criança, choro porque o flamengo é muito maior que eu, muito maior do que eu posso ser. O flamengo é das minhas paixão a mais descompromissada, por isso a mais sincera. O flamengo é o que faz de mim e do mundo, uma pessoa e um lugar, melhor(es) de se viver. Sem ele, meu desgosto seria profundo.
Parabéns pra nossa nação, parabéns!

03 dezembro 2009

o cachorro late

no meu sonho o cachorro late - e eu não gosto de cachorro - e então a menina aparece - mas já não gosto da menina - depois eu almoço - que no sonho é um saco - e eu tento que alguém me veja - e não consigo porque sou pequeno, o que é frustrante - conquistar tudo aquilo que sempre quis - mas eu ainda não havia decidido nada - reclamo - como sempre - me embriago - como todos os fins-de-semana - dia seguinte, sinto a consciencia pesar - quase resolvo ir pra uma igreja - mas me recupero em uma tarde - acho que era só ressaca - e tudo fica próxima - igual - então tiro um cochilo - acordei suado porque fazia calor - e no meu sonho o cachorro late.

01 dezembro 2009

poesia de cortina

da janela não vejo nada
o que atrapalha a poesia
que fica dura feito concreto,
lâmpada e alumínio.

a cabeça já não lateja mais
sem idéias fixas ela flutua
entre o tédio do nada fazer
e o todo de se perder

as meninas se fixam
transitoriamente entre
o que eu quero
e o que vou fazer

uma, melhor que as outras
vira brincadeira de criança
que prefere o jogo
ao prêmio que aponta

e sem poesia de janela
sem poesia de luar
o que se escreve vira traço
momento roubado do nada

e o que era pra ser belo
agora é só disforme
como se o mundo assim
pudesse fazer sentido